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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Capitalismo e Esquizofrenia - dossier Anti-Édipo

Edição Antiga. A mais recente é da Assírio Alvim 

Em 1972 saía em França "O Anti-Édipo", imediatamente transformado em livro de referência. O "Anti-Édipo" foi o volume inaugural de "Capitalismo e Esquizofrenia", concluído com "Mil Planaltos", também publicado em Portugal.

Anos volvidos, depois da morte trágica de Deleuze e do triunfo do liberalismo capitalista, "O Anti-Édipo" readquire uma renovada importância com reedições em vários países.

E-Livro completo aqui

A. Introdução

A Ecologia do Desejo: Porque precisamos de ler Deleuze e Guattari para salvar a Terra
No BioTerra, falo frequentemente de sustentabilidade como um conjunto de práticas: reciclar, plantar, conservar. Mas e se a crise ambiental que enfrentamos não for apenas uma crise de recursos, mas uma crise do nosso desejo? Para mudar a forma como tratamos o planeta, precisamos primeiro de entender como o sistema capturou a nossa vontade e a transformou em consumo passivo.

É aqui que entra uma das obras mais radicais do século XX: O Anti-Édipo, de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Este "dossier" sobre o capitalismo e a esquizofrenia oferece-nos as ferramentas para uma Ecologia Profunda, que não separa o Homem da Natureza, mas vê ambos como parte de um fluxo contínuo de vida.

O Desejo como Revolução: Mergulhando no "Anti-Édipo"
Se alguma vez sentiu que a vida moderna tenta encaixar-nos em caixas cada vez mais pequenas, o livro "O Anti-Édipo", primeiro volume da série Capitalismo e Esquizofrenia, de Gilles Deleuze e Félix Guattari, é o grito de libertação que precisa de conhecer. Publicada em 1972, no rasto dos movimentos de maio de 68, esta obra não é apenas um tratado filosófico; é uma "máquina de guerra" contra as formas de controlo da subjetividade.

No cerne do livro está uma crítica feroz à psicanálise tradicional. Para os autores, Freud cometeu um erro estratégico ao confinar o desejo humano ao "teatro familiar" do Complexo de Édipo. Ao reduzir as nossas angústias e sonhos à relação com o "papá e a mamã", a psicanálise teria domesticado a força vital do ser humano. Deleuze e Guattari propõem o oposto: o inconsciente não é um palco de representações familiares, mas sim uma fábrica. O desejo é uma força produtiva, biológica e social que eles designam como "máquinas desejantes". O desejo não quer "possuir" um objeto por falta, quer sim ligar-se, fluir e criar realidades.

A obra lança também um olhar radical sobre o sistema em que vivemos. Argumentam que o Capitalismo possui uma natureza paradoxal: ele "desterritorializa", ou seja, destrói tradições e códigos antigos para libertar fluxos de dinheiro e mercadoria, mas, ao mesmo tempo, cria novas prisões — como o consumo desenfreado e a burocracia estatal — para impedir que o desejo se torne verdadeiramente revolucionário.

É aqui que entra a figura do esquizofrénico, não como uma patologia clínica a ser lamentada, mas como um "processo" de fuga. Para os autores, o "esquizo" é aquele que consegue escapar às codificações do sistema, rompendo as fronteiras do que a sociedade considera normal ou produtivo.

Para substituir a análise tradicional, o livro propõe a Esquizoanálise. Em vez de perguntar "o que é que isto significa?" em relação ao passado, o objetivo é perguntar "como é que isto funciona?" no presente. Como é que o seu desejo se liga à política, à arte, à terra e ao outro? É um convite para abandonarmos as identidades rígidas e abraçarmos o que eles chamam de Corpo sem Órgãos — um estado de pura experimentação onde a vida flui sem as amarras das hierarquias impostas.

Ler "O Anti-Édipo" é um desafio, pois o texto é denso e propositadamente caótico, espelhando a própria multiplicidade que defende. No entanto, a sua mensagem permanece urgente: a verdadeira ecologia e a verdadeira liberdade começam quando libertamos o nosso desejo das fábricas de conformismo do sistema.

Conclusão

Ligar-se à Terra, Desligar-se da Máquina
Ao transmutarmos a visão do desejo de "consumo" para "produção", a ecologia deixa de ser um dever moral e passa a ser uma forma de libertação. Ser "Bio", nesta perspetiva, é permitir que o nosso desejo se conecte novamente com os ciclos da terra, com o crescimento das plantas e com a regeneração dos ecossistemas, em vez de ser canalizado para a acumulação de objetos obsoletos.

A verdadeira sustentabilidade exige que sejamos um pouco "esquizofrénicos" aos olhos do sistema: que saibamos fugir das rotas traçadas pelo hipercapitalismo para traçarmos os nossos próprios mapas de vida. Afinal, cuidar da Terra é, antes de mais, cuidar da liberdade do nosso próprio inconsciente.

sábado, 1 de novembro de 2025

Principais Recursos dos Bilionários


Continuando a minha reflexão sobre os bilionários aqui elenco os principais recursos que os leva a alimentar esta gigante riqueza.

1. Capital financeiro
Uma parte grande da riqueza deles está investida em ações, participações em empresas, títulos, fundos, e outros instrumentos financeiros.
Esse capital financeiro dá-lhes poder para influenciar mercados, fazer aquisições, e multiplicar a riqueza através de investimentos.

2. Participações em empresas (empresas próprias ou holdings)
Muitos bilionários são fundadores ou detêm participações significativas em grandes empresas (tecnologia, indústria, energia, etc.).
Por exemplo, setores como finanças, bebidas e tecnologia são dominantes entre as origens da riqueza bilionária.
Esses ativos empresariais lhes dão controlo direto sobre cadeias produtivas, decisões estratégicas e inovação.

3. Propriedade imobiliária
Muitos bilionários investem em imóveis comerciais, terrenos, edifícios residenciais — uma parte importante do seu portfólio de riqueza é tangível.
A valorização das propriedades também contribui para o crescimento patrimonial.
4. Recursos naturais
Alguns controlam minas, terras agrícolas, reservas de petróleo ou outros recursos naturais, que são ativos físicos estratégicos.
Por exemplo, bilionários no setor energético ou de mineração tiram parte de sua fortuna da extração e gestão desses recursos. (No caso de Rinat Akhmetov, ele tem empresas em mineração e energia.)

5. Capital humano
Embora não seja “dono” de pessoas no sentido absoluto, muitos bilionários controlam grandes empresas que empregam dezenas de milhares de pessoas. Isso lhes dá poder sobre a direção estratégica, mas também sobre talento, inovação e produção.
Além disso, muitas das suas empresas dependem de capacidades técnicas, científicas e de gestão — ou seja, eles investem (e captam) talento.

6.Influência política e institucional
Bilionários muitas vezes têm ligações políticas, institucionais ou contato direto com decisores. Essa influência permite moldar políticas, regulamentos e leis que podem favorecer os seus negócios ou proteger o seu capital.
Também podem usar lobbies para manter vantagens competitivas ou para criar barreiras à entrada de novos concorrentes.

7. Acesso a infraestruturas críticas
Eles podem financiar ou controlar infraestruturas como data centers, redes de telecomunicação, energia, logística, etc. Esse é um recurso estratégico porque dá poder sobre recursos que sustentam a economia moderna.
No campo digital, por exemplo, gigantes tecnológicos (alguns bilionários) controlam plataformas, dados e serviços essenciais — o que lhes dá grande poder sobre a “economia da atenção” e dos dados.

8. Propriedade intelectual
Patentes, direitos de autor, marcas registradas são ativos intangíveis muito valiosos. Bilionários em tecnologia, farmacêutica ou biotecnologia frequentemente detêm patentes que lhes garantem receitas futuras e vantagem competitiva.

9. Redes de capital social
Além do capital formal (dinheiro, ativos), há recurso social: os bilionários geralmente têm redes poderosas de influenciadores, outros bilionários, políticos, investidores. Essas redes são um recurso estratégico porque permitem parcerias, financiamento, influência e acesso privilegiado a oportunidades.

10. Estruturas offshore e otimização fiscal
Muitos usam jurisdições fiscais favoráveis para armazenar parte de sua riqueza, o que lhes permite preservar capital, reduzir impostos e reinvestir de forma eficiente.
Isso também significa que parte da sua riqueza está “fora do radar” direto de muitos sistemas fiscais nacionais.

Ninguém devia ter mil milhões de euros

Vamos começar por aqui. E não, isto não é inveja, é matemática. É uma quantia absurda. A maior parte destas fortunas gigantescas é herdada. E a outra parte? Foi acumulada à custa do que não foi pago a quem realmente ajudou a construí-la. Por outro lado a tecnologia permite lucros globais com poucos custos; o valor das ações aumenta fortunas rapidamente; os impostos baixos e influência política protegem os ricos e finalmente a globalização, que concentra lucros nas grandes empresas.

Antigamente, alguns magnatas construíam bibliotecas, ou fundavam universidades, pelo menos sentiam a obrigação de devolver algo estrutural à sociedade.

Hoje? A ambição é ir ao espaço, ter o iate maior, o relógio mais caro e 50 carros na garagem. Não se importam de pagar valores absurdos por caprichos, só lhes custa pagar pelo trabalho. E o trabalho, a produção, o esforço humano, é a única coisa que realmente gera riqueza.

Mas para perceber o quão doentio isto é, temos de sair dos milhões e ir para o tempo de vida.
A nossa medida vai ser o Salário Mínimo em Portugal, €870 por mês. Com subsídios, são €12.180 por ano. Este é o valor de um ano inteiro da nossa vida de trabalho.

À escala de Portugal, a Família Amorim tem €5,4 mil milhões.
Para eles gastarem isto, ao ritmo de um ano inteiro do nosso trabalho, demorariam 443 000 ANOS.

A nossa espécie, o Homo Sapiens, existe há 300 000 anos. A totalidade da nossa história não chega.
À escala do Mundo, o homem mais rico, Elon Musk, tem €426 mil milhões. Demoraria 35 MILHÕES DE ANOS a gastar tudo.

Os dinossauros foram extintos há 65 milhões de anos. Isto não é tempo de vida. É tempo geológico.

Quem resumiu isto na perfeição foi a Billie Eilish esta semana. 
Billie Eilish pertence à Geração Z.

Num evento com bilionários na audiência, depois de anunciar que ia doar 11.5 milhões de dólares, confrontou-os diretamente: "És bilionário, porquê?"

Ela não está a falar de culpa pessoal. Está a falar desta distorção completa da escala humana.
O problema é um sistema que permite que um indivíduo acumule o equivalente a 35 milhões de anos de trabalho de outra pessoa, enquanto essa outra pessoa mal consegue sobreviver com o salário de um ano.

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Novo livro de Nancy Fraser denuncia o capitalismo que devora as condições que o sustentam


A filósofa norte-americana Nancy Fraser defende que o capitalismo contemporâneo está a “devorar as próprias condições que o sustentam” e propõe repensar as bases do sistema, no livro intitulado “Capitalismo Canibal”, que chega este mês às livrarias portuguesas.

Com o subtítulo “O capitalismo está a devorar a democracia, os cuidados sociais e o planeta”, o ensaio de Nancy Fraser, publicado originalmente em 2022 e editado agora pela Antígona, alerta para a forma como o capitalismo atual, que descreve como “omnívoro e alarve”, é capaz de canibalizar todas as esferas da vida.

Segundo a autora, trata-se de um sistema que devora as bases que o sustentam, desde a natureza às instituições democráticas, passando pelo que chama de “reprodução social”, ou seja a sustentação material, emocional e relacional da vida humana.

Essa dinâmica manifesta-se na exploração intensiva dos recursos naturais, nas desigualdades de classe e etnia, na precarização do trabalho e no esvaziamento das práticas políticas, como se lê num excerto da obra.

Nancy Fraser defende que as múltiplas crises contemporâneas, sejam económicas, sociais, ambientais ou democráticas, têm como origem comum o apetite insaciável de um modelo económico que consome as próprias condições que o tornam possível.

No livro, a autora parte de uma releitura crítica de Marx para propor uma conceção alargada de capitalismo, que ultrapassa o domínio estritamente económico.

No primeiro capítulo da obra – “Omnívoro: Porque Precisamos de Alargar a Nossa Concepção do Capitalismo” -, sustenta que o sistema não se limita à exploração do trabalho assalariado, apoiando-se também em “fenómenos ‘não-económicos’ como o aquecimento global, o ‘défice das prestações de cuidados’ e o esvaziamento a todos os níveis do poder público”, que são simultaneamente indispensáveis e sistematicamente degradados.

“O capital expande‑se apropriando-se do excedente do tempo de trabalho dos assalariados explorados e igualmente expropriando a riqueza não-capitalizada e subcapitalizada dos prestadores de cuidados, das populações racializadas e da natureza. Por outras palavras, não se expande por si mesmo, mas canibalizando-nos”, apropriando-se do excedente humano e natural, sem reabastecer o que destrói, escreve Nancy Fraser no livro.

Numa entrevista dada em 2022 à revista The New Republic, a filósofa explicou que a metáfora do canibalismo procura inverter o uso colonial e racista original do termo: “Quem se dedica a acumular capital é que é o verdadeiro canibal”.

E acrescenta que o capitalismo destrói as próprias infraestruturas que o sustentam, entre as quais os sistemas políticos, jurídicos e sociais que garantem o funcionamento económico.

Nancy Fraser identifica uma crise global da reprodução social, resultante do neoliberalismo e do “capitalismo financeirizado”, de que são exemplo as mulheres, incluindo com filhos pequenos, que nas últimas décadas foram massivamente integradas na força de trabalho, enquanto os Estados reduziram os apoios públicos, criando uma “tempestade perfeita” de sobrecarga e falta de tempo.

Simultaneamente, o endividamento crescente – por via de hipotecas, cartões de crédito e empréstimos – desvia o rendimento familiar, “que poderia ser dedicado à construção de uma espécie de infraestrutura de cuidado”, para os bancos e para a ‘indústria de crédito’, numa nova forma de expropriação.

Na mesma entrevista, a autora alerta também para uma crise de “hegemonia”, conceito herdado de Antonio Gramsci, segundo o qual uma classe dominante mantém o seu poder não apenas pela força, mas também pelo consentimento.

Esta crise manifesta-se em dissidências e numa polarização, decorrente do “surgimento de narrativas concorrentes, que lutam entre si pelo que será a nova hegemonia”, que “substituirá o senso comum neoliberal de que tudo o que precisamos são mercados mais livres e uma menor interferência do Estado”.

Para a filósofa, a perda de confiança nas instituições e nas elites políticas está a abrir espaço tanto a movimentos emancipatórios, como o socialismo democrático e novas plataformas mediáticas de esquerda, como a forças reacionárias, incluindo o ‘trumpismo’, os movimentos antivacina e os discursos xenófobos.

A dimensão ecológica ocupa igualmente um lugar central na análise de Nancy Fraser, segundo a qual “o capitalismo separou brutalmente os seres humanos dos ritmos naturais e sazonais”, transformando a agricultura e a indústria em sistemas subordinados ao lucro e sustentados por combustíveis fósseis e fertilizantes químicos, descreve a sinopse do livro.

Ao mesmo tempo, o neoliberalismo promete fazer desaparecer a fronteira entre o humano e a natureza, com técnicas reprodutivas e tecnologias ciborgue, que em vez de reconciliar, intensificam a canibalização da natureza pelo capital.

Na entrevista à Common Wealth , a autora reconhece que o sistema capitalista demonstrou grande capacidade de reinvenção, mas considera que a mudança climática representa “um limite objetivo”, podendo tornar “a vida literalmente impossível para um número cada vez maior de populações”.

A filósofa defende a necessidade de imaginar novos sistemas para substituir o modelo atual, reduzindo as emissões, evitando que os custos recaiam sobre as populações mais vulneráveis e reconstruindo as bases da democracia e do cuidado.

Nancy Fraser desafia leitores e decisores a repensarem as estruturas fundamentais da vida social e económica antes que o sistema consuma tudo o que o sustenta.

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Iniquidade insustentável - mostra relatório recente no Reino-Unido



O trabalhador médio do Reino Unido levaria 52 anos de rendimento para se juntar aos 10% mais ricos. Um aumento em relação aos 38 anos em 2006-08. Os ricos compram influência política. Os governos ajudam os ricos. Os 20% mais pobres contribuem com uma maior proporção do rendimento do que os 20% mais ricos. As desigualdades obstruem o crescimento económico e alimentam a agitação social. [Fonte]

Isto vai chegar a nós.

domingo, 7 de setembro de 2025

Chega: Sociologia de um destino


1. Santa Eulália
Nas eleições legislativas de Maio de 2025, na freguesia do Bonfim, no Porto, o Chega teve 1760 votos (12%) e em Arroios teve 1752 (11%). Estas são duas das freguesias do país onde a imigração tem sido apresentada como um problema grave, desencadeando conflitos, insegurança e medo. A votação está longe de exprimir a tão famosa «percepção». Em Monte Gordo, o Chega teve 912 votos (50%) e na freguesia de Odemira a sua votação alcançou os 876 votos (32%). Em contrapartida, na freguesia de Caia, São Pedro e Alcáçova (Elvas) o Chega teve 1215 votos (49%) e na freguesia de Santa Eulália, também em Elvas, teve 286 votos (52%). Entre os vários testemunhos recolhidos, uma notícia da Lusa sobre Elvas refere que há um descontentamento geral da população com as políticas seguidas nos últimos anos: falta de médicos, de transportes, de segurança, isto, claro, no contexto de uma população envelhecida. Numa primeira análise aos resultados das legislativas parece ser mais claro que o fio que une o eleitorado do Chega está longe de se circunscrever, simplesmente, à imigração, tratando-se de uma combinação mais complexa de factores, que têm a crise do Estado e do Estado social em pano de fundo.

2. Portugal rural
De forma genérica, penso que é possível dizer que o Chega não tem uma expressão urbana acentuada, mas tem uma expressão rural forte, sobretudo (mas não só) em zonas do país com uma população substancialmente idosa, onde a presença do Estado (social) entrou em forte contracção nos últimos anos. O Alentejo é, aliás, disso um exemplo maior. Falamos de zonas de estagnação ou depressão económica fruto de um modelo económico hipercentralizado que destruiu a escala social que sustentou e construiu estes lugares durante séculos. A imigração é apenas uma expressão, nem sempre a mais forte ou preponderante, de um sentimento generalizado de perda: do Estado, da economia, da sociedade. Lugares despovoados que foram tornados obsoletos ou reduzidos à condição de simples paragens técnicas ou lugares de «exploração intensiva» (olival, eucalipto) na cadeia logística da grande agricultura industrializada que corre em grande velocidade para os centros urbanos, desfigurando ainda mais estes territórios.

O processo de desenvolvimento de Portugal a seguir ao 25 de Abril assentou numa mudança radical, antropológica, poder-se-ia dizer, que implicou o abandono de todo um modelo económico baseado na agricultura. Enquanto os novos núcleos urbanos e as grandes periferias foram associados à possibilidade de conquista de melhores condições de vida, uma grande parte do interior permaneceu vinculado a uma ideia de «atraso» e «subdesenvolvimento» ligado a uma percepção negativa da «vida rural». A agricultura tornou-se uma coisa do passado, anacrónica, entregue aos mais velhos. O resultado, como se observou, é um grande desequilíbrio demográfico, social e económico entre o «litoral» e o «interior». O interior rural é uma imensa acumulação de ruínas, casas abandonadas, campos por cultivar, extensas manchas de florestas ardidas. Um território vazio e destruído que parece ter sido objecto de uma guerra sem quartel. Uma guerra desencadeada pelo próprio capitalismo contra as populações, os seus lugares e a sua vida.

Ora, o grande fracasso dos 50 anos de democracia foi claramente a regionalização: isto é, a não implementação de políticas locais e regionais capazes de se opor a esse movimento de acumulação e concentração  inerente ao capitalismo. Pelo contrário, acentuou-se uma dependência generalizada, política e económica, do território nacional relativamente a Lisboa e, sobretudo, com a crise de 2007-2013, uma retirada constante e progressiva do Estado, pondo em causa a subsistência de serviços públicos essenciais (centros de saúde, postos de correio, escolas e, até, agências bancárias) e deixando para trás políticas estratégicas de planeamento. As juntas de freguesia, por exemplo, são uma caricatura do poder público. Há lugares em que estão abertas ao público apenas uma ou duas vezes por semana.

3. Uma economia asocial
Uma grande parte da população destes territórios é, de facto, filha do Estado social e das suas promessas: eles são os órfãos da social-democracia. A sua ideologia não é a da CDU ou a do Bloco ou do Livre, nem da Iniciativa Liberal, o seu discurso não lhes diz nada, porque é nos valores da social-democracia que foram formados. E foi a social-democracia quem os traiu. (Essa é a grande ironia política: a sua incapacidade em reconhecer que são esses partidos, o Bloco, o Livre, a CDU, os últimos representantes daquilo que resta da social-democracia e da salvaguarda do seu estatuto.) O Chega é a representação dos revoltados do sistema: aqueles que foram formados a partir das suas promessas irrealizadas e dos seus mitos. O Chega é o inconsciente reprimido da social-democracia, o grande reservatório das promessas que ficaram por cumprir ao longo destes últimos cinquenta anos.

Muitos destes lugares vivem hoje uma espécie de economia asocial ou dessocializada: o dinheiro circula, reproduz-se, mas não constrói uma comunidade, aprofunda desigualdades, isola, desvincula. O modelo da «exploração intensiva», seja na agricultura ou no turismo compreende uma economia separada da realidade social em que existe. Os lucros da sua actividade estão mais pertos dos seus accionistas nas Ilhas Caimão do que da freguesia de Santa Eulália.

A  figura do imigrante é talvez aquela que melhor exprime e torna visível o paradigma desta economia asocial, e, por isso, ele é um bode expiatório. A animosidade relativamente a essa economia destrutiva, esse sentimento de despossessão e de perda que atravessa o Portugal Rural é transferido para o imigrante. Porque aquilo que essas pessoas vêem no imigrante (desenraizado, deslocalizado, empobrecido) é o seu próprio reflexo: também elas se tornaram imigrantes num lugar que se tornou, também para elas, irreconhecível e estranho. Claro que isto não significa desvalorizar a existência de um racismo estrutural, animado de preconceitos relativamente alguém que é identificado como «outro». Curiosamente, em Monte Gordo passa-se o contrário: o turista, maioritariamente branco, não incarna essa lógica, porque é ele quem, desde logo, detém uma posição de superioridade de capital, mas a economia revela-se da mesma forma, isto é, na sua total associalidade e separação.

O neoliberalismo ganhou a batalha da demonização da esquerda parlamentar, aquela que lançou as bases da social-democracia, que fez a constituição de Abril, e que, na verdade, foi sempre a única a saber o que é o capitalismo, como o gerir, como o reformar e como o administrar de forma a fazer dele um sistema social minimamente aceitável. Não é certamente ao liberalismo e aos mitos da «mão invisível» que devemos a consolidação do capitalismo enquanto tal, porque este, sim, nunca teve a capacidade de pensar o capitalismo para além da reprodução imediata e privada do lucro. É por isso que a social-democracia existiu nos termos em que existiu: porque foi a fórmula que tentou, pese embora todas as contradições, construir um equilibro entre a voracidade exploradora do capital e um mínimo de políticas redistribuidoras e sociais.

4. Covas do Barroso
Na freguesia de Covas do Barroso, a Aliança Democrática ganhou com 60% dos votos, o Chega teve apenas 6%. (Há um debate interessante a fazer sobre as diferenças entre norte e sul. Rapidamente, talvez se pudesse dizer que no norte a presença da direita é forte e continua a prevalecer, enquanto no Alentejo não havia um enraizamento forte de um partido de direita capaz de dar voz a esse descontentamento despolitizado das classes médias). No caso de Covas, a exploração das minas de lítio ameaça destruir o frágil, mas rico ecossistema desta freguesia. E a população tem-se mobilizado arduamente contra o gigantesco poder desta multinacional apoiada pelos dispositivos políticos e legais do Estado Português. Ao longo dos últimos anos PS e PSD têm desenvolvido políticas absolutamente contrárias aos interesses desta comunidade e, no entanto, esta acredita que o voto na AD é aquele que melhor defende os seus interesses e a sua existência.

É um caso de estudo, mas sintomático. Contra todas as evidências dos interesses reais do Estado e do governo neste processo, a população continua a depositar o seu voto na AD. A «propriedade», os «valores da cultura local», a «iniciativa individual», são princípios consagrados que caracterizam esta população. Valores construídos certamente nas últimas décadas, talvez com menos base histórica do que aquilo que se poderia imaginar, veja-se a longa história do comunitarismo rural desta zona.

São estes os valores de que a direita se reivindica, mas não são certamente os valores que pratica. Não é a esquerda que persegue valores abstractos universais, é a direita. A abstracção do princípio da propriedade privada, por exemplo, permite num mesmo conceito condensar a pequena propriedade e a grande propriedade, legitimando a concentração e o monopólio fundiário, legitimando políticas que a médio prazo pressupõe a destruição do pequeno proprietário e do seu território. Do mesmo modo, nada há de «conservador» culturalmente na direita: têm sido estes os mais dinâmicos a colocar em causa os valores e o património cultural. Até a ancestral troca de sementes foi proibida em nome do negócio milionário das patentes e das grandes multinacionais do agro-negócio. Assim, paralelamente, nada pode subsistir de iniciativa individual numa economia asocial, numa economia que deixou de ter qualquer vínculo com a comunidade em que se insere. O estado de abandono e degradação, o isolamento em que vive o interior, resulta do conjunto de políticas específicas que foram levadas a cabo, nas últimas décadas, pelo PSD e pelo PS. O Chega recolhe todos estes despojos para construir e levantar outros mitos. Mas o objectivo é sempre o mesmo, em nome dos grandes grupos económicos deixar que o capitalismo possa continuar a trilhar o seu caminho, continuar a isolar, individualizar e atomizar a sociedade, mobilizando o princípio da propriedade como «último bastião de segurança» num mundo cada vez mais inseguro, isto é, tornado cada vez mais inseguro por esses cujo objectivo é apenas a maximização do seu lucro e dos seus rendimentos, nem que seja à custa da destruição da própria sociedade.

5. Esquerda e neoliberalismo
Não há «lições» para dar à esquerda. Há uma prática que precisa de encontrar as suas instituições, os seus instrumentos, as formas de organização e de acção colectiva, capaz de produzir uma crítica partilhável do capitalismo e desencadear um verdadeiro antagonismo diante da auto-confiança ilimitada deste. A crença absoluta no «fim da história» e no triunfo da democracia liberal reduziu a política à sua dimensão puramente gestionária e tecnocrática, isto é: despolitizou e desideologizou a política. Para a classe média, a política reduz-se à gestão do orçamento de Estado. Ela não vê a política como ideologia, porque se situa a si mesmo fora da história e para lá da história. A classe média não tem uma consciência política de si, nem da sociedade, dos antagonismos e das contradições que a atravessam e a produzem no quadro do capitalismo.

A incapacidade de pensar um modo de vida e um modo de organização colectiva da sociedade para além do capitalismo é sintomático de um senso comum que interiorizou plenamente os valores e os princípios do mercado, e que, por isso mesmo, não está habilitado para pensar as crises e o processo de expropriação permanente que hoje tomou conta da sua vida. O domínio do discurso neoliberal e dos seus mitos é hoje total. O direito a ser rico é hoje um direito universal incontestável fruto do «trabalho» e do «mérito» que ninguém se atreve a contestar, quando, na verdade, ele assenta na exploração do trabalho, na extracção de renda e na distribuição de dividendos. Há toda uma visão idílica da política, produzida pela social-democracia para pacificar as massas, que foi aproveitada pelo neoliberalismo e que dissimula hoje a realidade de uma guerra civil em curso. Quantos mais ricos, mais pobres existem. A luta de classes, a luta entre aqueles que detém os meios de produção e os que vivem da venda da sua força de trabalho, não deixou de existir. Bem pelo contrário, as formas de extracção de mais-valia não estão, hoje, apenas no trabalho, tomaram conta de todos os aspectos da vida, da saúde à educação. A desigualdade é a fundação e o destino do capitalismo. É certo que o capitalismo «produz riqueza», mas aquilo que o caracteriza é o modo como ele dissimula, externaliza e adia os custos pesados dessa produção.

Este é talvez o facto mais relevante do presente: a vigência única e absoluta de um capitalismo que absorveu tudo e todos e que não parece precisar de legitimação ou de justificação, precisamente no momento histórico em que se torna evidente como os princípios da economia capitalista baseados no progresso infinito e na exploração infinita dos recursos naturais colocam em causa as condições vitais e básicas da nossa própria existência: do desaparecimento assustador da biodiversidade aos nano-plásticos que fazem já, hoje, parte da composição do nosso corpo. E, no entanto, é a própria catástrofe, sempre prestes a acontecer, que parece hoje animar um neoliberalismo encantado e inebriado com a rentabilidade económica da iminência do próprio fim. E é também enquanto catástrofe iminente que a extrema-direita contribui para a normalização do próprio sistema e das suas políticas neoliberais.

terça-feira, 22 de julho de 2025

Editors - No Harm


I'll boil easier than youCrush my bones into glueI'm a go-getterThe system's in redThe room is inbredI'm a go-getter
Don't hold no harmDon't hold no harm
My children despise my wonderful liesI'm a go-getterI see through your wallsAnd your space down your hallsI'm a go-getter
Don't hold no harmDon't hold no harm
The fever I feel, the fake and the realI'm a go-getterMy world just expandsThings just break in my handsI'm a go-getter
Don't hold no harm

A música 'No Harm' da banda britânica Editors explora a complexidade da ambição e as suas consequências. A letra é introspectiva e revela um eu-lírico que se autodenomina um 'go-getter', alguém que busca incessantemente alcançar seus objetivos, mesmo que isso signifique enfrentar adversidades e sacrifícios. A expressão 'I'll boil easier than you, crush my bones into glue' sugere uma disposição para suportar dor e sofrimento em nome de suas ambições, destacando a resiliência e a determinação do personagem.

A repetição da frase 'Don't hold no harm' pode ser interpretada como um mantra de autoafirmação, uma tentativa de minimizar ou justificar os danos causados por suas ações. O eu-lírico parece estar em conflito com as repercussões de sua busca incessante pelo sucesso, reconhecendo que suas 'maravilhosas mentiras' são desprezadas pelos seus filhos. Isso sugere uma reflexão sobre os custos pessoais e familiares de sua ambição, trazendo à tona a tensão entre o desejo de realização pessoal e as responsabilidades sociais e emocionais.

A música também aborda a percepção da realidade e a distinção entre o falso e o verdadeiro, como evidenciado na linha 'The fever I feel, the fake and the real'. O eu-lírico parece estar ciente das ilusões e das verdades que permeiam sua vida, e essa consciência contribui para a expansão de seu mundo, embora as coisas 'quebrem em suas mãos'. Essa metáfora pode simbolizar a fragilidade das conquistas materiais e a efemeridade do sucesso, reforçando a ideia de que a ambição, embora poderosa, pode ser destrutiva e insustentável a longo prazo.

quinta-feira, 10 de julho de 2025

Mariana Mortágua e Gary Stevenson à conversa



Gary Stevenson — Economista britânico, ex-trader e YouTuber
Nascimento: 1986, Ilford, Leste de Londres
Origem: Cresceu numa família da classe trabalhadora; o pai trabalhava nos correios.

🎓 Formação Académica
Estudou Matemática e Economia na London School of Economics (LSE)
Mais tarde fez um mestrado (MPhil) em Economia na Universidade de Oxford

💼 Carreira como Trader
Entrou para o Citibank em 2008 através de uma competição baseada num jogo de cartas (uma forma pouco convencional de recrutamento)
Em poucos anos, tornou-se milionário. Em 2011, foi alegadamente o trader mais lucrativo do Citibank, com lucros estimados em cerca de 35 milhões de dólares (embora essa cifra seja contestada)
Abandonou o setor financeiro em 2014 devido a exaustão e ao desencanto com o sistema económico

📢 Ativismo e YouTube
Criou o canal GarysEconomics no YouTube em 2020
O canal tem mais de 1,3 milhões de subscritores
Explica temas complexos de economia, com foco em desigualdade, inflação e crítica ao sistema económico atual
Contribui regularmente com comentários económicos para a imprensa britânica, como a BBC e o The Guardian
 
📚 Livro
Autor de The Trading Game: A Confession (2024)
Um memorial autobiográfico que narra a sua ascensão no mundo financeiro, o colapso emocional, e as suas críticas ao sistema económico
Foi muito elogiado por oferecer uma visão interna rara e honesta da alta finança

💰 Política Económica
Defensor de impostos sobre grandes fortunas (acima de £10 milhões) como forma de combater a desigualdade extrema


sexta-feira, 30 de maio de 2025

George Monbiot - O que é o neoliberalismo?

George Monbiot - A Verdadeira Origem do Capitalismo


Na sua instigante exploração, o renomado pensador George Monbiot mergulha na ideologia oculta que molda nossa vida cotidiana. Ele revela como uma filosofia marginal da década de 1930 foi apropriada pelas elites abastadas para salvaguardar suas fortunas e proteger seu poder. Essa ideologia influenciou significativamente setores vitais como educação, saúde e nosso bem-estar mental. Monbiot destaca o profundo impacto que essa filosofia tem em nossos relacionamentos e no próprio planeta em que vivemos. Muitas vezes não reconhecida, essa força omnipresente parece uma parte inescapável de nossa realidade. Conhecida como neoliberalismo, pode parecer omnipresente, mas Monbiot afirma que não é inevitável nem imutável. Ao iluminar a sua história e examinar suas repercussões, ele nos capacita a compreender suas origens e implicações. Junte-se a nós nesta discussão esclarecedora para descobrir como compreender o neoliberalismo pode nos capacitar a defender um futuro mais justo e equitativo.

quarta-feira, 28 de maio de 2025

Entrevista: entenda por que não existem raças humanas

Avanços na genética mostraram que não faz sentido falar de “raças”, já que os seres humanos compartilham 99,9% do DNA. 




Por Iael de Souza[1]

Enquanto indivíduos que fazem parte de uma sociabilidade (totalidade social), querendo ou não, somos obrigados a tomar posição perante as situações concretas vividas, ainda mais quando se é um(a) educador(a), caso da autora. Tal posicionamento reflete a determinação de classe, tenha-se ciência disso ou não. Algo a ser ressalvado. No entanto, importante alertar que um contingente significativo de indivíduos está preso a uma falsa consciência (às aparências, às sombras, como no Mito da Caverna, de Platão), às ilusões acerca da realidade, incapazes de apreender a concretude de suas próprias condições materiais de existência, acreditando fazer parte de uma classe e segmento social ao qual, em essência, não pertence.

Além de educadora, para garantir minha reprodução dependo da venda da força de trabalho (assalariamento). Logo, faço parte daqueles que são explorados, dominados e sofrem diferentes tipos de opressão, assim como ocorre com toda a classe trabalhadora, embora haja diferenciações na intensidade e nas formas de exploração, dominações e opressões devido ao lugar ocupado na divisão social-técnica-hierárquica do trabalho, além de outras particularidades relacionadas à sexo, sexualidade, cor, “raça”, “etnia”.

Descrevo-me, portanto, como trabalhadora assalariada, membro da classe que vive da venda de sua força de trabalho (física e mental) como condição de reprodução e manutenção; explorada, dominada e oprimida pelo sistema capital e suas personas; heterossexual/cisgénero, branca; consciente de que faço parte da classe trabalhadora (independente do lugar que ocupo na divisão social-técnica-hierárquica do trabalho e da remuneração obtida) e que como classe da perspectiva do trabalho tenho como tarefa revolucionária primordial contribuir na agitação, propaganda e organização da classe trabalhadora e das camadas populares para reabsorver e reassumir o poder político-social a fim de superar o modo de produção capitalista, o Estado, a propriedade privada, o valor de troca, a sociabilidade de mercado e as classes sociais (exploração, dominação e opressão de seres humanos por seres humanos), construindo e fundando um novo modo de vida e sociabilidade.

Na construção dessa organização, é preciso enfrentar as questões do nosso tempo, que repõem e atualizam aquelas que tiveram continuidade no processo histórico-social e tornam ainda mais complexa e hercúlea a organização da classe trabalhadora, cada vez mais metamorfa e metamorfoseada pelas reestruturações produtivas do sistema capital e estágios do modo de produção capitalista. É preciso enfrentar os problemas que minam a unidade e solidariedade dessa classe trabalhadora segmentada em setores, fragmentada pelas novas estratégias do capital e dividida pelas particularidades que a cega para enxergar aquilo que compõe sua universalidade e unidade comum.

O educador que se posiciona na perspectiva do trabalho e da classe trabalhadora não pode negligenciar os debates e questões candentes de seu tempo. No presente e atual conjuntura brasileira, em que discursos homofóbicos, misóginos, racistas, preconceituosos, de ódio são propagados por aquele que ocupa o cargo de presidente da República, incitando práticas de violências noticiadas pelos jornais – como o caso do menino Miguel, em Recife, morto por negligencia da patroa de diarista; o espancamento de Moise Mugenyi, na praia da Barra da Tijuca; o assassinato de Marcelo Arruda, guarda municipal e tesoureiro do PT (Partido dos Trabalhadores) em Foz do Iguaçu, para citar alguns exemplos – mais do que nunca é preciso intervir através de análises e reflexões capazes de reconstruir as mediações (e não apenas interpretações, represetanções) da realidade, conectando a objetividade dos fatos à estrutura da totalidade social, expondo as determinações reflexivas entre particularidade e universalidade, a fim de que se possa apropriar do movimento e das contradições do real, apreendê-lo e intervir de modo o mais adequado e eficiente possível, contribuindo para a criação das condições objetivas e subjetivas para superá-lo.

Assim sendo, não é por ser branca que não posso e não irei me posicionar frente às práticas racistas, às várias formas de violências infringidas contra as pessoas por questões econômico-sociais, sexistas, de sexualidade e todas as outras formas de opressão possíveis e inimagináveis. Ao contrário, como lembra Angela Davis, “numa sociedade racista, não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”, independente da cor de nossas peles, pois, em última instância (frise-se), o aspecto econômico-social torna-se o fator predominante, sendo mesmo capaz de artificialmente produzir “branquiamentos [2]”, o que nos remete à sentença de Lucy Parsons:
“Há alguém tão estúpido”, perguntou Parsons em 1866, “a ponto de acreditar que essas afrontas têm […] se acumulado sobre o negro por ele ser negro?” “De forma alguma. É porque ele é pobre. É porque ele é dependente. Porque ele é mais pobre enquanto classe do que seu irmão branco nortista, escravo do salário” (DAVIS, 2016, p. 159).
Ser branco não significa ser a personificação encarnada do colonizador, já que a brancura do branco se define por sua classe (trabalhadora ou capitalista), condição de classe (hierarquicamente falando) e por sua origem geográfica (europeia ou não). “Lugar de fala”, como esclarece Guilherme Terreri/Rita Von Hunty (“Lugar de fala e a confusão que se faz” …, Tempero Drag, dezembro 2021), não é um dado proibitivo do discurso, mas sim um dado analítico, evidenciando de onde ele vem, e não aquele discurso que pode ou não ser dito. Nenhuma fala é neutra, carregando consigo classe, sexo, sexualidade, “raça”, cor, etc. É importante que ao ouvir alguém se pronunciando perguntemos “quem” está falando, de “qual lugar”, identificando as origens de quem fala. Também é necessário precisar se se fala a partir da episteme (teoria do conhecimento, conhecimento científico, partindo de um método de análise, reflexão e proposição), da sophia (vivência, experiência) ou da doxa (senso comum, crença, opinião). Se por “lugar de fala” é entendido que só fala quem viveu e experimentou, não há espaço para a episteme e se fica apenas na sophia alimentando a doxa, o que empobrece e prejudica a apreensão do problema em suas múltiplas determinações e concretude.

É por isso que mesmo sendo branca discorrerei sobre “raça” e “cor”, porque, ainda que não fale pela sophia, como educadora estarei embasada na episteme como forma de desconstruir a doxa historicamente fabricada, criando conceitos que até hoje guiam as pessoas em sua forma de pensar, agir e interagir com os outros, demonstrando que tal discussão não é apenas acadêmica, mas essencial para transformar nossas práticas (a mudança começa pela mudança daquele que vê), uma vez que a linguagem tende a preestruturar o pensar e o agir. O significado de uma palavra ou expressão “é o que ela faz, ou seja, o efeito que ela produz em seus ouvintes… Um nome pode determinar a natureza da resposta que lhe é dada em virtude das associações que o uso desse nome evoca” (Keith Baird, jovem especialista afro-americano do Conselho de Educação de Nova York. In: Revista Ebony 23, p. 46 a 54, novembro de 1967. Disponível em: Quilombohoje).

Embora seja a existência quem determina a consciência, na dialética entre o real (a prática social) e o pensamento abstrato, faz-se a apropriação do movimento contraditório da realidade pelo concreto pensado, que ao nomear o mundo, conceituando-o e categorizando-o, permite a intelecção de sua objetividade pelos sujeitos, que passam a comunica-lo para os demais, alterando e transformando o modo de pensar, ser e interagir das pessoas entre si e com o mundo. Logo, a existência, ponto de partida é desvendada no ponto de chegada pelo trabalho da reflexão crítica que busca retotalizar as mediações que perfazem as relações entre os objetos, apreendendo como se efetiva sua objetividade.

Uma outra forma de sociabilidade necessita de indivíduos que se norteiem por outros valores, criados em contraposição àquilo que é (o real), capacitando-os e criando as condições para que direcionem suas ações ao que deve ser.

Sobre “raça”…
Alguns autores relacionam o aparecimento da raça com a escravidão moderna (acumulação primitiva de capitais e sistema colonial). Entrementes, na Antiguidade Clássica, egípcios, sumérios, babilônios, assírios, hindus, persas, hebreus, cretenses, fenícios, gregos, macedônios e romanos tinham em comum o trabalho escravo. Uma das diferenças significativas entre o “escravismo patriarcal” (MAESTRI, 1994) da Antiguidade Clássica para o “escravismo moderno” da acumulação capitalista é que o primeiro não fazia distinção de cor ou fenotípica, como passa a ocorrer nas Américas e Antilhas com a escravidão colonial.

Consoante Peter Wade (2017, p. 49), o termo raça surge entre os séculos XIII e XVII no contexto europeu. Nesse período, fazia menção à religião, ao comportamento e ao meio ambiente, já que eram os critérios mais relevantes à época para conceituar a diversidade humana. Ainda segundo o autor, embora a etimologia da palavra seja incerta, há registro de seu uso no século XIV em Itália e Espanha, sendo empregada para discernir estirpe e linhagem de cavalos e vacas. O vocábulo só será utilizado na língua inglesa no século XVI.

Até o século XVIII o termo “raça” codificava um racismo religioso (judeus, muçulmanos e cristãos), de pureza/limpeza (exclusão de pessoas judias e muçulmanas) de sangue, cuja importância atinge seus píncaros no século XVII e pelas determinações do meio ambiente (determinismo geográfico), provocando alterações no biofísico. Uma noção de raça mais próxima ao que conhecemos se estabelece na segunda metade do século XVIII e se formaliza no decorrer do século XIX e início do XX.

A biologia e a antropologia serão as áreas da ciência da natureza que irão contribuir para a constituição da ideia de raça no século XIX, criando as condições para o desenvolvimento do “racismo científico” e do determinismo racial.

A partir desses fatos históricos é possível induzir (e não deduzir) que a distinção, superioridade/inferioridade, discriminação, preconceitos e a culminância desse processo com a estruturação de uma organização social (a sociabilidade capitalista, moderna) baseada na ideia de superioridade racial advém de tempos remotos, originado na dominação do ser humano por outro ser humano, quando aqueles que são vencidos nas guerras tornam-se escravos dos vencedores, ou no momento em que um ser humano é escravizado por outro devido à dívidas, ou então, ao perder os instrumentos e meios de produção, que passam a ser concentrados e centralizados por poucos, reduzindo o indivíduo a servo daqueles que detêm tais instrumentos e meios (servidão) ou vendedor de sua força de trabalho física e/ou mental (tornando-se mercadoria) em troca de salário para poder obter os meios necessários à sua própria reprodução enquanto força de trabalho.

Isso demonstra que as desigualdades entre os seres humanos aparecerem concomitante às condições (propriedade privada, vencedores e vencidos, endividados, etc.) que proporcionam a dominação, exploração e as variadas formas de opressão de uns sobre todos(as) os(as) outros(as). O fato dessa dominação, exploração e opressão tornar-se uma escravidão racializada e embasada na cor da pele e nos traços fenotípicos é historicamente determinada pelo processo de acumulação primitiva de capitais iniciada pelos países europeus e o avanço expansionista de sua dominação pela colonização dos demais continentes, colocando-se como referência e modelo de civilização e humanidade, um falso universal em relação a todas as particularidades, legitimando-as ou classificando-as como não pertencentes àquilo que se entende por “humano”.

Entrementes, toda a ideologia pseudocientífica das “raças” humanas é desvelada e se desfaz quando retomamos, historicamente, o modo como se deu o povoamento do que hoje conhecemos como os continentes do planeta Terra. (Re)descobre-se o que de fato une a todos os seres humanos, que é o gênero, o “homo”, o verdadeiro universal, e a grande ironia histórica de que o continente africano engendra, enquanto protoforma, nosso DNA, nossa ancestralidade e nosso género. Daí a importância de conhecer e se apropriar da história como condição para destruir as ideologias e ficções criadas por aqueles que dominam e produzem o conhecimento científico, que não é A teoria da Pangeia (era Paleozoica, cerca de 200 milhões de anos) e do povoamento da Terra é uma comprovação científica de que cada representante da espécie humana é membro do gênero humano. Os continentes estavam unidos num único bloco (pangeia). O movimento das placas tectônicas – milhões de milhares de anos (descoberta da década de 1960, pelo geólogo canadense John Tuzo Wilson, conhecida como Teoria da Tectônica de Placas) – contribuiu para a configuração continental atual. Os continentes e oceanos ficam sob esses blocos rochosos rígidos em movimento (Deriva Continental, teoria de Alfred Wegner, meteorologista alemão, de 1915). Descobriu-se que na primeira movimentação, a pangeia dividiu-se em duas partes: Laurásia (continentes que correspondem ao hemisfério norte) e Gondwana (continentes do hemisfério sul), porém, posteriormente, com as respectivas movimentações, há cerca de 65 milhões de anos esses dois blocos continentais começaram a se dividir e foram se separando, até formar a configuração atual dos continentes.

Do coração da África, a cerca de 1 milhão de anos, os grupos de Homo Habilis começam a explorar outros territórios, como a Ásia e a Europa, embora uma migração de proporção significativa tenha sido datada há 80 mil anos. Deve-se considerar que o processo de separação dos continentes foi lenta e gradual, sendo a distância entre eles, inicialmente, pequena, permitindo as migrações desses grupos de hominídeos por toda a terra. A datação desse povoamento da Terra pelos seres humanos é feita através dos fósseis encontrados nos diferentes continentes, além de semelhanças geológicas, climáticas, de biomas, etc.. Mais recentemente, com o avanço das ciências naturais, também foram dadas contribuições pela genética via decifração do DNA. Mediante a análise do estudo de três cientistas geneticistas – David Reich, Eske Willerslev e Mait Metspalu – foi possível inferir que uma grande migração, acontecida entre 80 mil e 50 mil anos, levou ao povoamento de todo o mundo.

Com base nesses dados é possível sentenciar que todo indivíduo, todo ser humano é única e universalmente membro do género humano (homo = género / sapiens = espécie), como também comprovam os estudos encomendados pela UNESCO a eminentes cientistas das ciências da natureza entre os anos 1950 e 1960 (pós II Guerra Mundial e a tragédia do nazismo alemão, pautado na pseudoteoria racial e na eugenia da raça ariana), donde se concluiu que “as diferenças entre os grupos humanos não são determinadas geneticamente e as evoluções sociais e culturais são independentes das constituições inatas” (CAMPOS. “Não existe raça, mas racismo”. Escola Brasileira de Psicanálise – EBP, s/d).

Reiterando os resultados obtidos pelos cientistas convocados pela UNESCO, em 1972, nos Estados Unidos, na Universidade de Harvard, foram realizados testes genéticos e moleculares analisando proteínas no sangue de diferentes populações.

Os resultados não mostraram diferenças significativas do ponto de vista molecular para separar as raças humanas. Estudos subsequentes ajudaram a verificar que a sequência base (as unidades que compõem a informação genética) no DNA humano é 99,9% idêntica, o que esvaziou completamente o argumento de encontrar um parâmetro confiável para definir raças. Esses dados foram importantes para apoiar a igualdade dos seres humanos do ponto de vista científico, imparcial e rigoroso (BOVE. “Racismo: como a ciência desmantelou a teoria de que existem diferentes raças humanas”. BBC, 12 de julho de 2020).

É lícito ressalvar a parte final da sentença: “igualdade dos seres humanos do ponto de vista científico, imparcial e rigoroso”. Geneticamente, os seres humanos são a espécie mais uniforme do planeta. Como diz Lessa (1996, p. 91), apoiado em Lukács:

sábado, 24 de maio de 2025

Fabrício Carpinejar na despedida de Sebastião Salgado


Os olhos azuis oceânicos, debaixo de tufos de sobrancelhas grisalhas, quase ruivas, caracterizavam a lente humana mais majestosa e universal que já existiu na fotografia mundial.
O mineiro de Aimorés, Sebastião Salgado, fez o mundo piscar de modo distinto depois de suas pálpebras.
Ele se despede, aos 81 anos, com um trabalho documental que conseguiu a proeza de ser, ao mesmo tempo, transgressor e clássico.
Trouxe à fotografia o projeto coletivo dos murais de Candido Portinari.
Na essência, era um Caravaggio da gelatina de prata, do papel fotográfico, mestre do claro-escuro, instaurando o barroco na captação crua das cenas.
Assim como em Caravaggio, a luz recai sobre os invisíveis — os pobres, os errantes, os exilados — com uma expressividade humanista e dramática.
Sua única professora foi a realidade, com seus contrastes e exuberâncias, suas misérias e rostos impregnados de compaixão. Formado em Economia, mas autodidata na arte, começou a fotografar em 1973, aos 29 anos, misturando-se em unha e carne aos seus fotografados.
Seu olhar não era de fora, mas de dentro. Não agia como um observador distante, que clica e desaparece. Daí a explicação para seus registos íntimos, como se fossem autorretratos dos excluídos. Sua aflição existencial tornou-se sua estética. Não explorava o outro, fundia-se ao outro. Não se resumia a um fantasma entre os vivos, e sim a um vivo que mandava notícias do reino dos fantasmas da sociedade.
Abordou as migrações, a dizimação dos povos originários, a devastação das florestas, o colapso climático, a escalada desenfreada do processo industrial.
Não procurava apontar as diferenças folclóricas entre as mais remotas culturas, mas identificar o que havia de comum entre todas elas: a dignidade apesar da desolação.
Ele converteu as cores gritantes da dor na suavidade bíblica do preto e branco. Denunciou o apocalipse e a extinção da nossa espécie pela ganância.
Percorreu mais de 130 países, criando exposições que marcaram a história: Trabalhadores, Gênesis e Êxodos.
Deixa para nós os seus olhos pesados de lágrimas. Sangue de nosso sangue, água de nossas águas.

sábado, 17 de maio de 2025

Octave Mirbeau sobre o ódio


"Não odeies pessoa alguma, nem mesmo os maus. Compadece-te deles, porque jamais conhecerão o único gozo que consola na vida: fazer o bem."

Entusiasta do anarquismo e ardente deyfusista, encarna o protótipo de intelectual comprometido com os assuntos públicos de sua época, assumindo como dever primordial desmistificar as instituições que alienam e oprimem. Nesta tarefa buscou constituir uma estética da revelação que levasse a lucidez, capaz de obrigar os voluntariamente cegos a encararem a realidade das injustiças do mundo. Combateu a sociedade burguesa e a economia capitalista, fazendo frente a formas literárias e estéticas tradicionais que contribuíam para anestesiar consciências, rejeitou o naturalismo, o academicismo e o simbolismo, buscando seu caminho entre o impressionismo e expressionismo.

terça-feira, 6 de maio de 2025

O Direito ao Litoral



O fenómeno não é novo. Chama-se privatização do país. Transforma-lo numa coutada exclusiva para alguns. Na ultima década e meia, em Portugal, depois de Lisboa e Porto, outros pontos do território, em meio urbano ou rural, vão sendo atingidos pelo mesmo vírus. 

No caso, é todo o eixo Setúbal, Troia, Comporta, Melides e Galé, outrora toda uma vasta área de coabitação entre diferentes estilos de vida, classes sociais e disposições. Desde miúdo que frequento aquelas terras e areais e sempre ouvi dizer: “Isto dá para todos!” Cada vez mais se percebe que não é verdade. A história já foi contada muitas vezes noutros lados. 

Existe um território apetecível. Vai havendo investimentos privados. Os empreendimentos propagam-se. O turismo (de luxo, no caso) expande-se. A teia entre políticos, investidores e redes de interesses intensifica-se. Os planos e leis que outrora zelavam pelo bem comum, vão sendo abolidas e as delimitações entre o que é público e privado vão-se dissipando. 

A segregação faz-se de muitas maneiras. Existe a pornográfica, através do dinheiro. Aumenta-se exponencialmente os preços. Dos Ferry Boats. Dos restaurantes. Do imobiliário. Do turismo. Outras vezes a coisa é mais subtil, através da imposição de um certo estilo de vida entre semelhantes, de tal forma que os restantes acabarão por sentir-se excluídos. 

A população, residente, ou flutuante, assiste a tudo, numa primeira fase, com regozijo, com alguns a amealharem alguns cobres, e numa segunda fase com apreensão, porque vão percebendo que também são excluídos, ao mesmo tempo que os equilíbrios (ambientais ou socioculturais) vão sendo postos em causa. Um pequeno exemplo. 

A construção de um dos vários empreendimentos de larga escala (construção de 292 residências de luxo e mais um campo de golfe) implicou o cancelamento – por enquanto, parcial, porque ainda existe – do Parque de Campismo da Galé. Mas como a população que ali afluía dinamizava a economia local – ao contrário do turismo de luxo – todo o ecossistema económico se ressentiu. 

É aí que estamos. Os investimentos continuam. Os atentados ambientais também. O frenesim de construção não abranda. Há zonas onde só se avistam retroescavadoras e guindastes. A presença de seguranças é uma constante. Os acessos às praias, para quem vem de fora, vão sendo muito habilmente dificultados, quando não mesmo bloqueados.

O direito ao litoral está posto em causa. Depois, existe quem reaja e resista. Associações, plataformas, grupos de cidadãos. Não existe ilusões. Os cidadãos estão atomizados, fragmentados, isolados. É David contra Golias, mas se nada for feito, então, é que será mesmo o fim. Ninguém tem nada contra o investimento privado ou a dinamização territorial, mas sim contra o facto de os desequilíbrios não serem acautelados, as intervenções em vez de serem feitas com pinças, serem realizadas com buldózeres, apenas atendendo ao lucro, sem respeito pelo ambiente, e pela diversidade socioeconómica e cultural. 

Nos últimos três dias o movimento Reabrir a Galé gritou, em diversas iniciativas, entre manifestações nos Ferry Boats, conversas públicas e caminhadas, pelo Direito ao Litoral. Ontem ao caminhar pelo areal a perder de vista pensava num comentário da minha amiga Carla Baptista. “Quem diria que em 2025 tínhamos de estar a lutar pelo direito de ir à praia?”, escrevia ela. “Não há nada mais ilustrativo do estado do mundo.” É mesmo isso. 

E o pior é pensar que, daqui a uns anos, se nada for feito, quem agora aqui investe milhões, irá para qualquer outro lugar, porque o que seduzia no início estará esgotado ou totalmente destruído. E o capital irá colonizar outro território qualquer virgem. Marte, talvez. 

sexta-feira, 2 de maio de 2025

As minhas leituras: Silvia Federeci - Calibã e a Bruxa


Sensível como sou ao femicídio, violência doméstica e ao renascimento nas redes socias de extrema-direita do elogio ao macho tóxico e machismo, resolvi ler este livro, atraído também pelo percurso filosófico da autora Silvia Federici.
As bruxas não são necessariamente uma figura desconhecida dos nossos dias. Elas são tema de filmes, histórias em banda desenhada, músicas, contos infantis, festas e obras literárias. O chapéu preto e pontudo, o vestido comprido da mesma cor, a vassoura, o caldeirão e o gato por companhia compõem o imaginário simbólico de um dos arquétipos femininos mais conhecidos e explorados – seja para se referir de forma caricata e estereotipada às mulheres, seja para, numa releitura, colocar a bruxa como uma figura sedutora e mística. Não são estas, porém, as facetas exploradas pela historiadora feminista Silvia Federici, autora de Calibã e a Bruxa – Mulheres, corpo e acumulação primitiva.
O nome do livro é uma referência a dois personagens da obra A tempestade (1610-1611), de William Shakespeare: Calibã, um homem negro escravizado e descrito como “selvagem” e “deformado”, e sua mãe, a bruxa Sycorax, que no livro de Federici são tomados como os símbolos do racismo e da misoginia que sempre andaram de mãos dadas com o capitalismo.

A perspectiva que interessa a Federici, e que é contada em 392 páginas repletas de referências e análises aprofundadas e dialogadas com outras obras e autores, é a história de como a construção da figura da bruxa está intimamente ligada à história da origem do capitalismo, cujo objetivo era transformar os corpos femininos, por meio de um processo de aterrorização, em máquinas de produzir crianças, os futuros trabalhadores responsáveis por manter a nova ordem econômica em funcionamento.

Tal trabalho historiográfico, diga-se de passagem, foi monumental: Federici trabalhou em Calibã e a Bruxa durante quase 30 anos, e decidiu-se pelo tema após viver na Nigéria em meados dos anos 80, em um momento em que as terras comunais daquele país passaram por um processo de cercamento semelhante ao ocorrido no período entre a crise do feudalismo e o advento do capitalismo.
Ali, percebeu a cruel associação entre a perda da posse da terra, a liberalização económica e a exposição das mulheres à violência. Foi o clique para que decidisse estudar a relação entre o capitalismo e a caça às bruxas, período que durou aproximadamente 200 anos, dos séculos XV ao XVII.

História de homens
De início, Federici explica que buscou contar a história do capitalismo levando-se em conta a experiência das mulheres, praticamente invisibilizada e ignorada nas análises de Karl Marx.
Segundo Federici, o pensador alemão ignorou o papel da caça às bruxas para a construção de uma ordem patriarcal em que a capacidade reprodutiva e laboral das mulheres (gestação e cuidado das crianças e trabalho doméstico) foram colocadas sob o controle do Estado e transformadas em recursos económicos.

Neste caso, o processo de formação e acumulação do proletariado mundial, ela explica, não se deu apenas pelos cercamentos das terras dos trabalhadores europeus e pela escravização dos povos originários da África e da América (a acumulação primitiva), mas também pela transformação dos corpos das mulheres em máquinas de trabalho doméstico e de parir – foi um processo de acumulação de diferenças e divisões dentro da classe trabalhadora.

Ao classificar tais atividades como não produtivas (uma vez que são atividades não pagas), Marx invisibilizou o fato de que as mesmas também eram uma forma de trabalho, essencial para a reprodução da força de trabalho que sustenta o capitalismo em si, e também o fato de que a dependência das mulheres do salário dos homens da família contribuiu para reforçar a opressão femininas dentro das relações de afeto e parentesco.

Ao não tocar nesta temática, Marx não entendeu ou não demonstrou entender que tal subordinação só foi possível a partir de uma política de aterrorização das mulheres – por meio da parceria entre Estado, Igreja Católica e Igreja Protestante – e enfraquecimento do poder que possuíam perante a comunidade. A caça às bruxas, portanto, foi o meio encontrado para domesticar e subjugar as mulheres à função determinada a elas pelo sistema capitalista nascente.

Tal história de dominação dos corpos das mulheres também ignorada pelo historiador Michel Foucault, que produziu uma historiografia androcêntrica, focada numa experiência universal do corpo e da sexualidade que, ao fim e ao cabo, era a experiência masculina.

A história da caça às bruxas, e de como a mesma alimentou o sistema penal inquisitório, a instituição da tortura e o controle dos corpos pelo Estado não está presente nos escritos de Foucault, daí a grande contribuição de Federici para a historiografia e para o movimento feminista e de mulheres, que faz com que tal obra devesse ser ensinada nas escolas e universidades.

Misoginia, enfraquecimento do poder feminino e da solidariedade entre mulheres
Na reconstituição do processo de caça às bruxas na Europa, Federici explica que o poder das mulheres começou a ser quebrado a partir dos cercamentos das terras comunais, já que tendo menos poder sobre a terra e menos poder social do que os homens, as mulheres dependiam fortemente das terras comunais para plantar sua comida, garantir sua subsistência e autonomia e exercitar formas de sociabilidade junto a outras mulheres. Despossuídas da relação com a terra e dependentes de contratos de trabalho individuais acordados por seus integrantes, as famílias começaram a se desestruturar.

A historiadora conta que esse cenário foi particularmente cruel para as mulheres mais velhas, cujos filhos migraram para as cidades. Sem a posse da terra, sem animais e sem ter o que comer, tais mulheres caíram na miséria e, para sobreviver, passaram a depender de empréstimos, pequenos furtos e a atrasar o pagamento de suas dívidas.

Como resultado, não houve apenas a polarização entre ricos e pobres, mas também entre homens e mulheres: a obra explica que discussões resultantes da mendicância feminina, da entrada sem autorização em propriedades alheias e do atraso dos aluguéis estavam por trás de muitas acusações de bruxaria feitas contra elas.

Ao mesmo tempo em que se cercavam as terras, com a expulsão do camponeses que ali sempre viveram, e a Europa passava por uma crise populacional, o novo sistema económico que nascia necessitava de braços que mantivessem a fábrica a produzir. Neste momento, entra em cena a importância de se controlar o potencial reprodutivo da mulher, capaz de gerar os corpos que colocavam as máquinas em movimento. Diante da resistência feminina ao controle, a caça às bruxas foi o próximo passo.

Entram em cena, então, a criminalização do controle da natalidade e dos métodos contraceptivos e abortivos utilizados pelas mulheres até então, junto com um processo de redução das mulheres a não-trabalhadoras, uma forma de encerrá-las no espaço doméstico como máquinas de fazer filhos e também como sustentáculo sobre o qual se apoiavam os homens que trabalhavam nas fábricas, a parte da população considerada “produtiva”.

Diz Federici, em resumo: “Os homens perderam terras, mas ganharam servas”. Ao mesmo tempo, os saberes femininos eram dizimados, e, devido ao medo do infanticídio, surge a figura do médico homem a realizar e fiscalizar os partos das mulheres, uma função que sempre foi feminina. Esse ocultamento do trabalho feminino e o processo de cercamento, controle e colonização de seus corpos para a reprodução da força de trabalho é chamada por Federici de “Patriarcado do salário”.

Além disso, a pobreza levou muitas mulheres, solteiras e viúvas, mas também casadas, à prostituição, como forma de complementação da renda. A misoginia contra tais mulheres atingiu níveis estratosféricos, com a tortura e a humilhação pública das prostitutas. Ao mesmo tempo, as mulheres passaram a ser pintadas como demoníacas, promíscuas, assassinas de crianças, a rondar as vilas em busca de sangue e de homens, enquanto participavam dos sabás, onde cultuavam o demónio e praticavam orgias.

Segundo Calibã e a Bruxa, os homens calaram-se a respeito do massacre de mulheres que ocorriam nas suas vilas e nas cidades, até porque beneficiavam com a perda de poder das mulheres e a ideia de que não eram produtivas e não mereciam um salário.

A discussão é extremamente atual, uma vez que a luta das mulheres pelo fim da discriminação de género ainda é invisibilizada, negada ou minimizada. Federici  mostra-nos que o silenciamento das mulheres pelos homens que deveriam ser seus companheiros de luta é antiga e persiste.

segunda-feira, 7 de abril de 2025

Violência, alienação e o império dos ecrãs


No início da semana passada, fomos confrontados com a hedionda notícia da ampla e desenfreada circulação, pelas redes sociais, de imagens de uma jovem de 16 anos a ser, neste país de alegados brandos costumes, na zona de Loures, constrangida e sujeita a abusos sexuais de várias ordens – tendo mesmo a Polícia Judiciária falado de violação agravada – por parte de, pelo menos, três outros jovens, pouco mais velhos do que ela e descritos e apresentados como “influencers”, com muitos milhares de seguidores.

Tendo a jovem apresentado queixa às autoridades alguns dias após os factos, veio a saber-se que, afinal, as referidas imagens já tinham sido visualizadas por milhares de pessoas, sem que uma única delas tivesse tomado a atitude de as denunciar como o miserável e absolutamente inaceitável abuso que são, fosse publicamente, fosse, e ainda menos, às ditas autoridades.

Naturalmente que os factos em causa deverão agora ser devida e cabalmente investigados no âmbito do respectivo processo-crime. Mas, independentemente do que neste se vier a apurar, nomeadamente em termos da referida violação, a verdade é que a sujeição de alguém em inferioridade de número, de capacidade física e de suporte emocional, em estado de nudez, relativamente aos que, em grupo, a colocaram nessa situação, é um acto de todo indigno, repugnante e cobarde. E a sua filmagem, assim como a subsequente e generalizada divulgação das respectivas imagens, é outra absoluta repugnância, que não pode deixar de merecer a nossa mais firme reprovação. Mas a verdade também é que todos aqueles que viram as referidas imagens e, assim, souberam o que se passara e que, ou viraram a cara para o lado, ou, pior ainda, se satisfizeram com aquele degradante espectáculo, não podem, também, deixar de merecer essa mesma veemente reprovação.

Acontece que, já semanas antes, outro “influencer”, perante os seus milhares de seguidores e com a prestimosa ajuda das gargalhadas amigas de um pseudo-entrevistador, se gabara alarvemente da “proeza” – que se veio a apurar ser verídica – de, por vir distraído com o telemóvel, ter atropelado violentamente, numa passadeira, uma mulher, e depois ter fugido apressadamente do local sem prestar assistência à vítima. Entretanto, na manhã do passado domingo, um condutor que circulava a alta velocidade na Estrada Marginal, junto à Praia da Torre, atropelou violentamente três ciclistas (dois dos quais ficaram em estado bastante grave e tiveram de ser internados no hospital) e fugiu do local, sem querer saber do estado das vítimas que causara e sem lhes prestar qualquer auxílio. Na tarde do mesmo dia, um condutor de motociclo atropelou violentamente, na Amadora, junto ao Bairro Casal da Mira, uma criança de 10 anos (que também teve de ser conduzida de urgência ao hospital) e igualmente fugiu do local, sem prestar qualquer assistência à jovem vítima.

Todos estes comportamentos, a comprovarem-se pelos meios e no local adequados – ou seja, no processo-crime respectivo e no julgamento e condenação em Tribunal – constituem crimes de particular gravidade, que denotam não apenas um perturbantemente elevado grau de intencionalidade, como também, e sobretudo, uma estarrecedora frieza ou ausência de sentimentos e de consideração pelo outro. E, sendo devidamente provados, devem ser punidos com a severidade que a natureza e as circunstâncias destes crimes justificam. Sobretudo quando os seus autores, nem na altura dos factos, nem posteriormente, manifestem qualquer espécie de espontâneo arrependimento ou remorso pela barbaridade que praticaram. E sobretudo quando, segundo as estatísticas da própria PSP, nos últimos dois anos, 22% dos condutores envolvidos em acidentes mortais ou com feridos graves fugiram do local! 

Mas tão importante como essa reprovação jurídico-penal tem de ser também o juízo ético, firmemente crítico, e a afirmação da inaceitabilidade social deste tipo de comportamentos, pois que quem assim actua está a levar à sua expressão máxima os sentimentos mais negativos e mais baixos, bem como uma completa ausência de valores e de princípios. Tudo isto numa postura que, como bem sabemos, já vimos, e por diversas vezes, ser adoptada na própria atividade política, tal como sucedeu quando conhecidos nazis comentaram publicamente que a prostituição forçada e colectiva, “tipo arrastão”, era o destino adequado para as mulheres de esquerda, ou quando outros, estejam eles no Parlamento ou numa claque de futebol, se permitem apelidar de “vacas” as deputadas de outras forças políticas ou dirigir ruídos como mugidos ou gritos de macacos aos seus adversários… E é precisamente por isso que a nossa atenção e reflexão têm de ir bem mais longe do que a (nestes casos, mais que merecida) condenação penal, a qual estará, porém, sempre no “fim da linha”. Sob pena de estarmos, afinal, e de forma cada vez menos eficaz, a querer tratar dos problemas da podridão das águas de um rio na sua foz e não na sua nascente.

Assim, e antes de mais, há todo um debate político e ideológico a travar acerca do ideário próprio do capitalismo, em particular na sua fase actual (a do capital financeiro e imperialista), que assenta desde logo no desprezo pelo colectivo e pelo comunitário e na contínua pregação do individualismo, ou seja, da ilusão de que será por soluções individuais (como as dos discursos e técnicas ditas motivacionais…) que a grande maioria dos membros das sociedades actuais conseguirá sair da vida miserável que leva e resolver os seus problemas essenciais: de emprego, de subsistência, de habitação, de saúde e de educação dos filhos, etc. Temos assim, e coerentemente, o uso “científico” do medo e a permanente inculcação da ideia de que “o outro” (o diferente, o deficiente, o velho, o cigano, o negro, o estrangeiro, o muçulmano, o colega de carteira ou de empresa) é um adversário, e mais do que isso, um inimigo, que nos prejudica e ameaça, e que por isso importa eliminar, seja de que forma for.

O dinheiro, o poder ou o sucesso são então apresentados como os objectivos a alcançar, seja a que custo for. E, obviamente, a lógica maquiavélica – desenvolvida e teorizada por todas as organizações e sociedades ditatoriais – de que os fins justificam os meios, por mais ilegítimos, indignos ou brutais que eles sejam, e de que vale tudo para atingir tais fins e alcançar tais objectivos, transformou-se nos valores e princípios permanentemente divulgados, praticados e instruídos por toda a sociedade nas fábricas e empresas, nas escolas, na administração e também nas próprias famílias.

As maravilhosas inovações tecnológicas, em particular as da era digital, em vez de servirem para, aumentando exponencialmente a produtividade do trabalho humano, aliviar a nossa relação com este, diminuir as pesadíssimas cargas e ritmos de actividade, dar emprego a mais pessoas e propiciar a realização pessoal e social de quem trabalha, de quem estuda e de quem já trabalhou uma vida inteira, foram, afinal, expropriadas por uma pequeníssima minoria (os 1% da população mundial que arrecada mais de 50% de toda a riqueza) e transformadas num instrumento privilegiado  de aumento dos tempos e ritmos de trabalho, de precarização e proletarização dos trabalhadores mais qualificados, e de repartição do seu saber por tarefas decompostas e simplificadas, a cargo de trabalhadores mais precários e até de máquinas, com a imposição de um crescente “taylorismo digital” e de uma absoluta desumanização das relações sociais de trabalho.

E é assim que a reivindicação histórica das 8 horas máximas de trabalho por dia, pela qual, no século XIX, tanto sangue, suor e lágrimas derramaram os trabalhadores de então, volta a ter, num número crescente de sectores e de países, um carácter absolutamente revolucionário. Pois, entretanto, em nome da “flexibilidade”, do “combate à crise” (seja ela qual for) e da necessidade de se salvarem as empresas, ou seja, os lucros dos seus donos, se generalizou a lógica e a prática de jornadas de 10, 12, 14 e até mais horas de trabalho, com ritmos cada vez mais infernais. Ou no mesmo emprego, ou até em dois, que quem trabalha é obrigado a arranjar para, devido à exiguidade dos salários, conseguir sobreviver.

O resultado desta forma de organização social é a propositada criação de uma multidão de autênticos “zombies”, absolutamente esgotados por exigentes, extenuantes e abusivas jornadas de trabalho e enormes tempos de deslocação entre o trabalho e as respectivas casas, cada vez mais longínquas e precárias devido aos preços da habitação, sem capacidade reivindicativa ou de organização, sem tempo para se cultivarem, se dedicarem ao desporto, ao teatro, à música ou à actividade cívica. E, claro, sem tempo nem disposição para dar a atenção que os filhos querem e de que precisam como pão para a boca.

A imposição duma sociedade injusta como esta resulta na anestesia e o “acarneiramento” das populações. E isso implica que o espírito crítico, a capacidade de raciocínio, o gosto pelo conhecimento, o desenvolvimento das chamadas funções cognitivas superiores, as leituras, a reflexão, tudo isso seja desvalorizado e banido, sendo, afinal, substituído pelo “deus Mulloch” do lucro e da busca incessante pelo seu máximo.

E é por isso que, para completar este mesmo “edifício social”, surge o desprezo pelo livro, pela escrita, pela aprendizagem da língua, sendo tudo isso substituído pelo reinado dos ecrãs, onde o usuário do telemóvel ou do iPad tem o pouco esforço e a facilidade de consumir, acrítica e passivamente, (apenas) aquilo que os algoritmos para tal programados lhes servem. E onde praticamente tudo é reduzido à lógica binária do “0” e do “1”, a uma linguagem e a um vocabulário de uma pobreza aterradora, ultra-simplificados, que entorpecem o raciocínio, condicionam e impossibilitam a formação do espírito e, logo, o próprio desenvolvimento humano.

Nada disto sucede por acaso ou pela simples inépcia de alguns. É que, na organização social do capitalismo, não há, para quem trabalha, tempo nem lugar para a cultura, para as artes, para o Centro de Convívio ou para a Sociedade Recreativa e Cultural (cada vez mais condenados à asfixia e ao encerramento); como não há tempo nem espaço para o são convívio humano, para o exercício da cidadania e da solidariedade social, para a prática das actividades em que nos realizamos, sejam elas a cultura, a investigação, o desporto ou a música, por exemplo, ou até o simples lazer.

Imperam ainda os grandes órgãos de comunicação de massa, encarregues de nos rezar, em todos os momentos possíveis, a “missa hipnótica” dos já referidos valores supremos da sociedade capitalista e de nos afogar com doses maciças de pretensa informação (como os telejornais de horas a fio, pejados de comentadores do pensamento dominante) e de real alienação (como os “Big Brother” e programas similares).

O extremo isolamento e solidão provocados pela pressão e pela alienação das condições de trabalho ultra-precárias e ultra-desumanas, e pelas longas e extenuantes jornadas de trabalho, conduzem, assim, a formas virtuais e inverídicas de comunicação e de pretensa vida em comunidade, que são produzidas e alimentadas pelo uso, tão permanente quanto acrítico, e até tornado cada vez mais compulsivo, dos meios de acesso às redes sociais e, logo, aos modelos e valores por estas continuamente divulgados e propagandeados, com vista a criar uma multidão de dóceis e acríticos servos. 

A permissividade com a violência, o fascínio pelo momentâneo e a crença de que ofensas virtuais, a coberto do anonimato, não têm consequências, e de que o que importa não é ter a atitude correcta, mas sim fazer o que se sabe ser errado e depois conseguir ter a “habilidade” ou o “sucesso” de não ser apanhado, a imposição da lógica e da lei da alcateia e do gangue, podem então desenvolver-se a uma escala que, muitas vezes, só é revelada quando, enfim, termina em tragédia…

É, pois, este o terreno fértil para o frenético crescimento da boçalidade, do “vale tudo”, do poder ou do sucesso a todo o custo, com base exclusiva, ou quase – porque o resto é como se não existisse de todo… – nos “exemplos” e nos “influenciadores” multiplicados à exaustão nas redes sociais e cada vez mais instalados, tolerados, aceites e até incentivados nos nossos próprios meios profissionais, políticos e até pessoais.

A violência gratuita, o ódio primário, a baixeza moral e a negação dos valores essenciais como a solidariedade, o respeito pelas diferenças e a dignidade da pessoa humana – tudo isso é, afinal, o que a sociedade capitalista do século XXI, os interesses que sustenta e os valores que pratica nos têm para oferecer. Devemos criticar com firmeza e não nos surpreender quando essas formas duras e boçais se manifestam, pois é a elas que conduz, em linha recta, a desvalorização e escravização do ser humano, o embotamento do juízo crítico e a vulgarização e banalização do mal mais odioso.

E a essência do problema não está nas novas tecnologias, que são um enorme e magnífico progresso científico e técnico, que devemos conhecer, apreciar, dominar e, sobretudo, saber usar em prol de toda a Humanidade. O nó górdio da questão está, sim, nas relações sociais que entorpecem e desvirtuam esse mesmo progresso, e que possibilitam e eternizam a sua expropriação em benefício de apenas alguns. 

Como seres humanos inteiros e completos, devemos ousar ser, não escravos, mas sim donos dos nossos próprios destinos. E por isso, a grande tarefa que se nos impõe é, cada vez mais, a de demolir esse tipo de sociedade, profundamente decrépita e essencialmente violenta e injusta, e construir um mundo mais justo e mais fraterno!

António Garcia Pereira