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quinta-feira, 7 de maio de 2026

Portugal esgotou hoje recursos que natureza lhe destinava para o ano inteiro, dois dias mais tarde do que no ano passado


Portugal esgota hoje os recursos naturais que tinha disponíveis para este ano, dois dias mais tarde do que no ano passado, passando a consumir "a crédito", indicam dados da organização internacional "Global Footprint Network".

O dia da sobrecarga, explica a organização, indica que de 01 de janeiro a 07 de maio os portugueses consumiram tantos recursos naturais quantos os diversos ecossistemas da Terra conseguem regenerar ao longo de um ano. A partir de agora os portugueses continuam naturalmente a consumir, mas usam mais recursos, em terra ou no mar, do que teoricamente estariam disponíveis, e emitem mais dióxido de carbono do que a natureza pode absorver.

No ano passado o dia em que o país esgotou os recursos foi a 5 de maio, o que quer dizer que melhorou ligeiramente em sustentabilidade.

A estabilização no consumo de recursos do planeta é notada pela associação ambientalista Zero, que, num comunicado no qual comenta a pegada ecológica do país, refere a ligeira melhoria, comparando com o ano anterior.

Mas ainda assim o país começa a exceder os recursos disponíveis para alimentar o estilo de vida dos portugueses decorridos menos de cinco meses do ano. Tal quer dizer que se cada pessoa na Terra vivesse como uma pessoa média portuguesa, a humanidade exigiria cerca de 2,9 planetas para sustentar as suas necessidades de recursos.

O resultado coloca Portugal na média da União Europeia (UE), que este ano teve o dia de sobrecarga em 03 de maio, uma ligeira melhoria também em relação ao ano passado.

Na UE há países que esgotaram há muito os recursos que tinham para o ano todo. Nas contas da "Global Footprint Network" o consumo do Luxemburgo esgotou os recursos logo no dia 17 de fevereiro.

A nível mundial o pior classificado é o Catar, que esgotou a sua parte a 04 de fevereiro. Do outro lado da tabela estão as Honduras, que só têm o dia de sobrecarga a 27 de novembro.

A pegada ecológica avalia as necessidades humanas de recursos renováveis e serviços essenciais e compara-as com a capacidade da Terra para fornecer tais recursos e serviços (biocapacidade).

A 05 de junho, Dia Mundial do Ambiente, a "Global Footprint Network" anuncia o "Earth Overshoot Day" de 2026, o momento em que a necessidade de recursos e serviços ambientais por parte da Humanidade excede a capacidade da Terra para regenerar esses mesmos recursos.

Em 2025 a humanidade esgotou os recursos desse ano no dia 24 de julho, uma semana mais cedo do que em 2024, 01 de agosto.

sexta-feira, 2 de maio de 2025

Max van den Berg


Max van den Berg é uma das grandes referências na mudança de paradigma da mobilidade na Holanda. Ainda jovem foi eleito vereador do município de Groningen responsável pelo tráfego tendo assumido uma estratégia fortemente desincentivadora do uso do carro. 
A sua ideia passava por tornar as ruas com sentido único para automóveis e assim com espaço para criar dois sentidos para quem utilizasse a bicicleta. Apelidado de "Rasputin" e "Lenine do norte" pelos seus detratores, sofreu inúmeros ataques de cidadãos automobilizados e lojistas. 
Com essa medida, implementada de um dia para outro em1977, um trajeto que de carro se fazia em 30 ou 40 minutos podia fazer-se em 5 de bicicleta. Rapidamente os habitantes de Groningen perceberam que o uso da bicicleta era bem mais eficiente. Hoje Groningen é uma das cidades menos poluídas da Europa e com maior uso de bicicleta.
A lição de Max van den Berg é de que não basta criar melhores condições para o uso da bicicleta nas cidades, é preciso tornar ainda mais difícil o uso do carro. Mas isso exige políticos com visão e com coragem, e esses por cá não abundam.

Saber mais
How Groningen invented a cycling template for cities all over the world

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Como reconhecer os sintomas do AVC - podemos salvar vidas


Durante o churrasco, Inês caiu. Queriam chamar uma ambulância mas ela insistiu que estava bem e que só tropeçara por causa dos sapatos novos. Ela estava um pouca pálida e tremia. Inês passou o resto da noite bem disposta e alegre. Mais tarde, o marido dela telefonou a informar, que a mulher fora internada no hospital. Às 23 horas falecera. Ela tinha tido um AVC durante o churrasco. Se os outros soubessem reconhecer os sintomas do AVC, ela poderia ainda estar viva. Algumas pessoas não morrem logo mas ficam durante muito tempo sujeitas a apoios e numa situação de desespero.
Só demora 1 minuto a ler o seguinte. 
Um neurologista disse, se ele consegue chegar ao pé de um individuo que sofreu um AVC, ele pode eliminar as sequelas de um AVC. Ele disse, o truque é diagnosticar e tratar a pessoa durante as primeiras 3 horas. 
Como reconhecer um AVC?
 Há 4 passos que devem ser seguidos para reconhecer um AVC. 
- Peça à pessoa para rir (ela não vai conseguir). 
- Peça à pessoa para dizer uma frase simples (por exemplo: hoje está um dia bonito). 
- Peça à pessoa para levantar os dois braços (não vai conseguir bem). 
- Peça à pessoa para mostrar a língua (se a língua estiver torta ou virar dum lado para o outro, é um sintoma). 
Se a pessoa tem alguns destes sintomas chamar imediatamente o 112, explicando tudo o que se está a passar. O paciente será atendido como prioritário num Serviço de Urgência onde o tratamento será prontamente instituído e o diagnóstico realizado.
Um cardiologista disse, se for possível divulgar estas dicas a um número elevado de pessoas, podemos ter a certeza, que alguma vida - eventualmente a nossa própria possa ser salva.
Mandamos todos os dias tantas coisas inúteis, também podemos encher as linhas com coisas importantes, não acham?
Se também consideram importante, partilhe.

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

A escola na «cidade de proximidade»

The Piazze Aperte (“Open Squares”) programme, launched in 2018 in Milan

No conceito de «unidade de vizinhança» idealizado por Clarence Perry há cem anos, a escola era o elemento nuclear da vida do bairro. Gravitava em torno dela a atividade escolar das crianças, à qual se associavam os pais. As redes de amizades (dos filhos e dos pais) cresciam naquele lugar, assumindo um papel de centro social comunitário, para além da sua função educativa.

Com o crescimento urbano, a perda da centralidade espacial e funcional e a consequente erosão das relações de vizinhança, as escolas foram perdendo esse poder de agregação social na vida das comunidades.

A narrativa da cidade de proximidade recupera essa importância da escola na vida dos bairros. Surgem em várias cidades que protagonizam essa aposta - Paris, Barcelona e Milão, por exemplo - projetos que dão corpo a esse desígnio.

A título de exemplo, refiro os Rue aux ecoles, Samedis en Famille e Les cours oasis em Paris, o Piazze Aperte em Milão e os Protegim les escoles e Refugios Climáticos em Barcelona. Envolvem a criação de ruas e praças escolares sem trânsito automóvel, com mobiliário urbano adequado, espaços de jogo e zonas ajardinadas, a abertura das escolas ao fim de semana para atividades comunitárias e o repensar dos recreios como refúgios climáticos, envolvendo as famílias na sua transformação.

É muito importante a dimensão social da proximidade que visa cuidar das relações entre os vários elementos da comunidade e oferecer espaço e tempo para que se construam e reforcem. Mas também a ambiental e urbanística que protege a chegada à escola a pé e responde aos problemas ambientais da poluição do ar e das temperaturas elevadas.


Mais informação:
Perry, C. A., Heydecker, W. D., Goodrich, E. P., Harrison, S. M., Adams, T., Bassett, E. M., & Whitten, R. H. (1929). Neighborhood and community planning. New York: Regional plan of New York and its environs.

terça-feira, 17 de outubro de 2023

Poesia da Semana : António Ramos Rosa - Poema dum Funcionário Cansado

Dia de Ramos Rosa que nasceste em Faro, neste mesmo dia de 17 de outubro de 1924 e feneceste a 23 de setembro de 2013, em Lisboa.

Poema dum Funcionário Cansado
"A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita

estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos,
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música

São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo uma noite só comprida
num quarto só"
António Ramos Rosa, in "O Grito Claro",1958

segunda-feira, 10 de julho de 2023

sábado, 27 de maio de 2023

Poema da Semana: "Comme un arbre dans la ville" de Maxime Le Forestier

Angers- França
Quando o Francês era riquíssimo em poetas e cantautores formidáveis: Brel, Brassens e Maxime Le Forestier.

"Comme un arbre dans la ville
Je suis né dans le béton
Coincé entre deux maisons
Sans abri sans domicile

Comme un arbre dans la ville
Comme un arbre dans la ville
J'ai grandi loin des futaies
Où mes frères des forêts
Ont fondé une famille

Comme un arbre dans la ville
Entre béton et bitume
Pour pousser je me débats
Mais mes branches volent bas
Si près des autos qui fument
Entre béton et bitume

Comme un arbre dans la ville
J'ai la fumée des usines
Pour prison et mes racines
On les recouvre de grilles
Comme un arbre dans la ville.

Comme un arbre dans la ville
J'ai des chansons sur mes feuilles
Qui s'envoleront sous l'œil
De vos fenêtres serviles

Comme un arbre dans la ville
Entre béton et bitume
On m'arrachera des rues
Pour bâtir ou j'ai vécu
Des parkings d'honneur posthume
Entre béton et bitume

Comme un arbre dans la ville
Ami fais après ma mort
Barricades de mon corps
Et du feu de mes brindilles
Comme un arbre dans la ville"

sexta-feira, 12 de maio de 2023

Portugal entrou em défice ecológico a 7 de Maio de 2023

Portugal já esgotou os recursos naturais para 2023


Portugal esgotou neste domingo os recursos naturais disponíveis para este ano e começa a usar recursos que só deveriam ser consumidos no próximo ano, segundo dados sobre a pegada ecológica do país divulgados pela associação ambientalista Zero.

De acordo com um comunicado da associação, se a humanidade consumisse como Portugal os recursos para este ano acabavam hoje. Ou, dito de outra forma, "se cada pessoa no planeta vivesse como uma pessoa média portuguesa, a humanidade exigiria cerca de 2,9 planetas para sustentar as suas necessidades de recursos".

Os dados atualizados deste ano, em parceria com a organização "Global Footprint Network", indicam que se mantém o mesmo dia do ano passado, 07 de maio, em que o país passou a usar o cartão de crédito ambiental.

Este desequilíbrio, explica, tem a ver com o modelo de produção e de consumo que suporta o estilo de vida no país.

O consumo de alimentos (30% da pegada global do país) e a mobilidade (18%) estão entre as atividades humanas que mais contribuem para a Pegada Ecológica de Portugal e constituem assim pontos críticos para intervenções de mitigação da Pegada.

A Zero cita dados oficiais para lembrar que a circularidade dos materiais em Portugal é de apenas 2,2%, quando a média comunitária está quase nos 13%, que os portugueses comem cerca de três vezes mais proteína animal do que deviam, em detrimento dos legumes e frutas, e que só 9,7% do consumo final bruto de energia nos transportes provém de fontes renováveis.

Para reduzir a dívida ambiental portuguesa, a Zero defende a aposta numa agricultura virada para alimentos de qualidade, preservando os solos e reduzindo a poluição e o uso de água, o aproveitamento do potencial do teletrabalho, reduzindo deslocações, o investimento em modos suaves de transporte e transportes públicos, bem como na sustentabilidade dos produtos (reparar, reutilizar e reciclar, por exemplo).

E cada português pode contribuir para essa redução. A Zero dá exemplos, a começar pela redução da presença de proteína animal na alimentação, porque cada português come mais proteína animal do que recomenda a roda dos alimentos, metade dos vegetais, um quarto das leguminosas e dois terços das frutas.

É importante também que as pessoas se movimentem de forma sustentável, quer privilegiando os transportes coletivos, quer andando a pé ou de bicicleta. E que acabem com o hábito do "usar e deitar fora", escolhendo antes "ter menos, mas de melhor qualidade".

De acordo com os dados da "Global Footprint Network" países como a Alemanha (04 de maio) ou a França (05 de maio) também já esgotaram os seus recursos para este ano. Espanha esgota os recursos já no dia 12.

Segundo o mapa, o primeiro país a esgotar os recursos para este ano foi o Qatar, logo a 10 de fevereiro, seguindo-se o Luxemburgo a 14. Em março esgotaram os recursos países como o Canadá, Estados Unidos, Austrália, Bélgica ou Dinamarca, em abril a Suécia, a Áustria, a Rússia ou a Irlanda, e ainda este mês o Reino Unido, a Grécia ou a Hungria.

Nos meses de verão predominam no mapa os países da América do Sul e a dezembro chegam três países: a Indonésia, o Equador e Jamaica.

Os dados indicam que seriam precisos 5,1 planetas se todos fossem norte-americanos, 4,5 planetas se o mundo fosse como a Austrália e apenas 0,8 planetas se todos vivessem como os indianos.

A Pegada Ecológica avalia as necessidades humanas de recursos renováveis e serviços essenciais e compara-as com a capacidade da Terra para fornecer tais recursos e serviços, a biocapacidade.

A associação explica que a Pegada Ecológica mede o uso de terra cultivada, florestas, pastagens e áreas de pesca para o fornecimento de recursos e absorção de resíduos (por exemplo, o dióxido de carbono proveniente da queima de combustíveis fósseis), e que a biocapacidade mede a quantidade de área biologicamente produtiva disponível para regenerar esses recursos e serviços.

Reportagam CNN - 7 de Maio de 2023

terça-feira, 7 de março de 2023

SUVs- uma praga, entenda!


"Somos os Extintores de Pneus. Tornaremos impossível possuir um SUV nas áreas urbanas do mundo. Para clima, saúde, segurança pública". É assim que se apresenta em uma rede social um grupo de ativistas ambientais que está dando o que falar no Reino Unido, e quem sabe em breve, no mundo.

O controverso grupo fornece instruções sobre como esvaziar pneus de Sport Utility Vehicles, mais conhecidos como SUVs, e atua desde julho de 2021, quando colocou no ar seu website e abriu uma conta no Twitter. Os primeiros relatos de ações surgiram há pouco tempo, no início de março, mas vem escalonando desde então. Apenas na semana passada, ativistas esvaziaram pneus em Londres, Brighton e Hove e Manchester. Segundo o The Guardian, o grupo também está recebendo mensagens de ativistas de Itália, França e Alemanha pedindo que o folheto explicativo fosse traduzido para seus idiomas.

Segundo os ativistas, a resposta do público foi muito mais acolhedora do que eles esperavam. “Estamos recebendo muitos e-mails de motoristas de SUVs em partes do país onde ninguém realmente nos disse que está fazendo alguma ação, então provavelmente há muita coisa acontecendo que não sabemos. É claro que isso faz parte da força da ação. Nem mesmo aqueles de nós que estão no centro disso sabem o número de pessoas envolvidas, ou mesmo quem são”, afirma o Tyre Extinguishers.

SUVs produzem 25% mais CO2 do que carros comuns e foram desenhados para trafegar em terrenos difíceis, mas grande parte circula nas cidades.

Os carros foram apelidados pelo grupo de “tratores de Chelsea” — bairro nobre de Londres onde são muito vendidos — , uma vez que, embora os veículos sejam originalmente destinados para uso ​​em terrenos difíceis, se tornaram onipresentes em áreas urbanas abastadas. Um estudo recente descobriu que 75% dos 360 mil SUVs vendidos em 2019 no Reino Unido foram comprados por pessoas que vivem em vilas e cidades.

Carros do tipo SUV foram o segundo maior contribuinte para o aumento das emissões globais de gases de efeito estufa entre 2010 e 2018. A cada ano, os SUVs libertam 700 megatoneladas de CO2, o que corresponde aproximadamente a quantidade de emissões do Reino Unido e da Holanda juntos. Se todos os motoristas de SUV se unissem para formar seu próprio país, ele seria o sétimo maior emissor do mundo.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

A poluição não é só má para os pulmões, também prejudica a Saúde Mental



A exposição prolongada à poluição atmosférica aumenta o risco de depressão, de acordo com um conjunto de novos estudos publicados na rede de revistas científicas JAMA.

Um estudo publicado na sexta-feira na JAMA Network Open descobriu que a exposição a longo prazo a níveis elevados de poluição atmosférica aumenta o risco de depressão tardia entre os idosos.

O outro estudo, publicado na JAMA Psychiatry, descobriu que a exposição a longo prazo mesmo a níveis baixos de poluentes atmosféricos estava associada ao aumento da incidência de depressão e ansiedade.

A poluição do ar está há muito ligada a doenças cardiovasculares e respiratórias.

Os novos estudos acrescentam um conjunto crescente de provas de que a poluição atmosférica também afeta a saúde mental.

Para o estudo dos efeitos da poluição atmosférica nos idosos americanos, investigadores de Harvard e da Universidade Emory examinaram os dados de quase nove milhões de pessoas no Medicare, o sistema de seguro de saúde do governo dos EUA para as pessoas com mais de 64 anos.

Mais de 1,52 milhões delas foram diagnosticadas com depressão durante o período de estudo de 2005 a 2016, de acordo com as alegações da Medicare.

“Observámos associações estatisticamente significativas prejudiciais entre a exposição prolongada a níveis elevados de poluição atmosférica e o aumento do risco de diagnóstico de depressão tardia”, disseram os investigadores.

“Neste estudo, observou-se que os indivíduos socialmente desfavorecidos apresentavam um risco muito mais elevado de depressão tardia”, sublinharam, acrescentando que “estão simultaneamente expostos tanto a stress social como a más condições ambientais, incluindo a poluição atmosférica”.

Para o estudo, os investigadores cartografaram os níveis de poluição e compararam-nos com os endereços dos pacientes do Medicare.

Os poluentes a que foram expostos eram partículas finas, tais como pó ou fumo, dióxido de azoto, que provém principalmente das emissões do tráfego, e ozono, que é emitido por automóveis, centrais elétricas, e refinarias.

Os investigadores disseram que os idosos podem ser particularmente suscetíveis à depressão ligada à poluição, devido à sua vulnerabilidade pulmonar e neural.

“Embora a depressão seja menos prevalecente entre os adultos mais velhos em comparação com a população mais jovem, pode haver consequências graves, tais como perturbações cognitivas, doenças físicas comórbidas, e morte”, disseram eles.

No outro estudo, investigadores na Grã-Bretanha e na China investigaram a associação de exposição prolongada a múltiplos poluentes atmosféricos e a incidência de depressão e ansiedade.

Estudaram um grupo de quase 390.000 pessoas, a maioria na Grã-Bretanha, durante um período de 11 anos e descobriram que havia um risco acrescido de depressão e ansiedade, mesmo a níveis de poluição abaixo dos padrões de qualidade do ar britânicos.

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Comércio de rua. A lenta agonia das lojas com história


Há muito tempo que isto está a acontecer. Não é só Lisboa. É em quase todos os centros históricos, um pouco por todas as cidades do País. A péssima decisão de liberalizar shoppings e quando se esgotaram "inventar" as licenças para fóruns deu nisto. A juntar a isto um Lidl, Minipreço e um Aldi em cada esquina.
Os anglicismos também irritam. YOU are in Portugal, damn it! Aprendam Português. Ainda somos uma Língua que se fala em locais mais distantes e incríveis!
A culpa já vem de trás, com o Cavaquistão!!
O comércio local ficou desprotegido e não envolve suficiente capital para baixar margens.
Um modelo desastroso e quase único na Europa que Eu conheço.
E afecta muito a nossa memória. Já não há personificação do tratamento cliente/loja; perderam-se os contactos, os afectos e pequenas histórias de bairro e da rua. Muito triste ver a substituição destas lojas históricas para bancos, hostéis e orientais.

Saber mais:

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Petição: Cidades seguras para todas as pessoas

O que nos define como sociedade evoluída é o modo como tratamos os mais vulneráveis: as crianças, as pessoas mais velhas e as que têm mobilidade reduzida. O espaço público é o espelho das nossas escolhas: se os mais vulneráveis entre nós podem mover-se com liberdade, independência e segurança, todos teremos os mesmos direitos. Mas as nossas cidades têm sido desenhadas para dar prioridade ao automóvel, com vias que convidam ao excesso de velocidade, que não é fiscalizado, criando graves situações de insegurança para todos. Portugal tem dos piores indicadores de segurança rodoviária dentro das localidades da União Europeia [1]. Temos que mudar esta situação.

Em 2019, morreram em Portugal, por atropelamento, 134 pessoas a pé e 26 em bicicleta, a maioria dentro de localidades [2]. Um peão atropelado a 50 km/h só tem cerca de 20% de probabilidade de sobreviver, enquanto a 30 km/h tem cerca de 90% de probabilidade de sobreviver [3].

Em 2017, os Ministros de Transportes da União Europeia assinaram a Declaração de Valeta, que inclui o objetivo de reduzir a zero o número de mortes nas estradas europeias. Como consequência a Comissão Europeia e o próprio Estado Português adotaram a "Visão Zero": todas as mortes na estrada são eticamente inaceitáveis. A promoção da segurança rodoviária só é eficaz quando assenta num pressuposto básico da ”Visão Zero": errar é humano. Temos, por isso, de garantir que os erros que inevitavelmente serão cometidos, não sejam erros mortais. O primeiro passo é reduzir a velocidade.

Em 2020, Portugal assinou a Declaração de Estocolmo. Nela se estabeleceu claramente que os Estados signatários deverão priorizar a gestão da velocidade como uma intervenção chave de segurança rodoviária, em particular para “fortalecer a aplicação da lei, para prevenir o excesso de velocidade e determinar uma velocidade máxima de 30 km/h conforme apropriado nas áreas onde utilizadores vulneráveis e veículos se misturam … ”. A Declaração de Estocolmo ressalta ainda que os esforços para reduzir a velocidade têm um impacto benéfico na qualidade do ar e nas alterações climáticas - não haverá mobilidade sustentável sem segurança, nem segurança sem mobilidade sustentável.

Em maio de 2021, a Organização Mundial da Saúde (OMS) patrocinou a 6ª Semana Global de Segurança no Trânsito da ONU, a destacar os benefícios de ruas de baixa velocidade em áreas urbanas e apelando aos países a limitar as velocidades a 30 km/h nas ruas partilhadas entre peões, utilizadores/as de bicicleta e o tráfego motorizado. A OMS, baseada em inúmeros estudos epidemiológicos, é muito clara: o risco de morte e ferimentos reduz consideravelmente quando as velocidades praticadas são abaixo dos 30 km/h.

O Parlamento Europeu, em outubro de 2021, aprovou - com 90% de votos a favor - a recomendação da adoção de uma velocidade máxima de 30 km/h "em zonas residenciais e com um elevado número de peões e utilizadores de bicicleta", argumentando que o excesso de velocidade é um fator determinante em cerca de 30% dos sinistros rodoviários mortais.

Também queremos zero mortes nas ruas e estradas de Portugal. Vimos, assim, apelar à Assembleia da República e ao Governo que Portugal cumpra a Declaração de Estocolmo, as recomendações da OMS e do Parlamento Europeu e altere o limite máximo de velocidade de 50 km/h para 30 km/h em áreas urbanas, onde o tráfego motorizado interage com peões e utilizadores/as de bicicleta (definido no Código da Estrada como “dentro das localidades” com a excepção de “vias reservadas a automóveis e motociclos”).

[1] Organização Mundial de Saúde
[2] Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária
[3] European Conference of Ministers of Transport

domingo, 4 de julho de 2021

Nós, os das bicicletas, somos Patrizia Paradiso

Foto: Homenagem a Patrizia Paradiso, 3 de Julho- Lisboa


Um pequeno exemplo do dia a dia. Trabalho em Matosinhos-Sul e existe uma pequena ciclovia, já perto do mar, que atravessa uma rua (Brito Capelo) com duas faixas para automóveis, sentido único. Uso-a praticamente todos os dias e, naquele ponto, os carros têm de subir para um patamar ligeiramente superior da via - as duas faixas deixam de ser alcatrão para ser granito - para dar prioridade a peões e bicicletas. Há ainda uma placa a sinalizar isso mesmo. Quantas vezes estive a um passo de ser atropelado com a bicicleta? Muitas. E só não fui porque sei o país em que vivo: paro e atravesso apenas quando percebo que o veículo me vai deixar passar. É que, apesar de estarem a velocidade quase zero, alguns condutores aceleram instintivamente, irritados com a existência daquele obstáculo ao seu império de quatro rodas. E já me aconteceu de tudo: perante os meus protestos, param para insultar, e um condutor conseguiu mesmo atirar-me ao chão.

Quando isso aconteceu, estava por perto um polícia. Veio ver se precisava de ajuda. Disse-lhe que sim: precisava que a via fosse mais bem sinalizada. A resposta dele foi curiosa: sim, tinham comunicado à Câmara de Matosinhos. Havia ali problemas, frequentemente. Mas a informação que tinham na PSP era a de que a câmara não alterava nada porque o arquiteto não deixava. Foi há dois anos. Continua igual.

Talvez devesse ter levado o caso mais longe, mas o que se passa à volta mostra que as "ciclovias" são vias faz-de-conta. Explico: o início desta miniciclovia, com apenas 1 km, inicia-se numa rua em que a entrada para a própria ciclovia se faz entre carros estacionados - não há, sequer, um pequeno acesso reservado. E, entretanto, o próprio acesso não tem uma rampa - é bater com a roda na berma do passeio e subir... (terá sido o mesmo arquiteto?).

Outro detalhe: esta ciclovia (designada por Broadway - fancy, não?!) inicia-se numa rua que só tem um sentido. No regresso, tem de se andar pelo passeio ou em contramão. Era necessário gastar-se uma lata de tinta e marcar-se um pequeno corredor de acesso até às imediações do Parque da Cidade através de uma rua com três faixas e sem trânsito. Certamente ninguém da câmara passou por lá, uma única vez, para perceber "a obra".

As ciclovias e a prioridade aos ciclistas - em certo sentido, a questão ambiental - não são levadas a sério. As autarquias fazem-nas, aos poucos, mas como os presidentes e vereadores não as usam, são "números verdes". É pena, porque iam gostar, compreender melhor as suas cidades e nunca mais fariam outra coisa. Além disso, os condutores que odeiam as bicicletas encontram muitos erros nos ciclistas mas nunca lhes ocorre pensar que talvez o ciclista seja o único a garantir o ar que ambos respiram. Todavia, a questão essencial é o menosprezo pela pessoa-ciclista que está na estrada. Desde a desatenção à velocidade, passando pelo novo colossal perigo - os motards Uber Eats, Glovo,... , tudo pode acontecer.

Ontem foi homenageada Patrizia Paradiso, que um dia deixou Itália para ser professora e investigadora em Portugal e morre aos 37 anos, atropelada, grávida de quatro meses, num sábado à tarde em que vibrava com a luz e o encanto de Lisboa e do Tejo. Uma mulher grávida, inseparável da sua bicicleta. Vítima do costume: uma desatenção misturada com velocidade. E assim termina uma vida com tudo para ser ainda mais brilhante. Patrizia passa a ser a minha heroína de duas rodas e as minhas camisolas brancas passam a ser dela. Prémio Patrizia Paradiso. Em cada dia que regresso a casa inteiro.

segunda-feira, 15 de março de 2021

Cidades de 15 minutos: o novo modelo de urbanismo que várias metrópoles já estão a aplicar




Quanto tempo você leva de casa ao trabalho? E do trabalho até uma área de lazer ou comércio? Se você mora em grandes cidades brasileiras, como São Paulo e Rio de Janeiro, esses trajetos podem levar muitos minutos ou até horas e normalmente são feitos de carro ou ônibus. Em Paris, uma proposta radical da prefeita, Anne Hidalgo, tem como objetivo transformar a capital da França em uma “CIDADE DE 15 MINUTOS”, ou seja, uma cidade em que o cidadão levaria apenas 15 minutos de bicicleta ou a pé para chegar ao seu trabalho, casa e equipamentos de lazer.

A ideia por trás da “cidade de 15 minutos” é que a população esteja mais integrada aos seus bairros e possa comer, cuidar de si mesmo, se divertir, fazer atividades físicas, mas também trabalhar a apenas 15 minutos de sua casa. A pé ou de bicicleta, é claro, para reduzir a emissão de poluentes na cidade.

A espinha dorsal do plano de Anne Hidalgo é a implantação em larga escala de ciclovias em todas as ruas de Paris, algo que já vem sendo feito durante seu atual mandato. Além das ruas 100% amigáveis à bicicleta, o plano também prevê a remoção de espaços para carros, como vagas na rua e faixas de rodagem, para a ampliação de calçadas para pedestres.

A proposta também inclui tornar as principais vias de Paris inacessíveis aos carros, transformando avenidas e rotatórias em praças para pedestres, como foi feito com a região da Times Square, em Nova York.

A importância do home office

Fazer com que bairros tenham mais parques e serviços públicos pode ser tarefa relativamente fácil, porque depende exclusivamente das ações do poder público. O desafio do plano da “cidade de 15 minutos” é fazer com que as pessoas trabalhem perto de suas casas.

Parte do plano prevê a construção de escritórios e espaços de coworking em vizinhanças que não tenham essa estrutura, mas isso não é suficiente. O grande obstáculo, segundo o site da FastCompany, que detalhou os planos da prefeita, será convencer as empresas da cidade a permitirem que seus trabalhadores tenham direito ao trabalho remoto ou home office, com horários flexíveis. (Falamos sobre essa tendência por aqui. Clique para ler)

Urbanismo

Na origem do conceito de “cidade de quinze minutos” está o urbanista Carlos Moreno, professor da universidade de Sorbonne, que está dando consultoria a Anne Hidalgo no plano. O conceito da “cidade de 15 minutos” baseia-se na ideia de Moreno de “crono-urbanismo”, ou de ter comodidades, empregos e compras perto de casa. Isso significa “mudar nossa relação com o tempo, essencialmente o tempo relacionado à mobilidade”, diz Moreno.

Durante o anúncio do plano, Moreno explicou que quer mudar a visão que as pessoas têm das cidades. “Vivemos em cidades fragmentadas, onde frequentemente trabalhamos longe de onde moramos, onde não conhecemos nossos vizinhos, onde estamos sozinhos, onde sofremos”, disse o pesquisador.

Segundo Moreno, citado pela Forbes, o planejamento das cidades “ainda é movido pelo paradigma da era do petróleo mas a era dos carros onipresentes está chegando ao fim”.

De acordo com o pesquisador, as cidades mais densas e mais populosas do futuro, e não apenas Paris, precisarão “transformar ruas em espaços livre da emissão de carbono, com mobilidade a pé ou de bicicleta”.

sábado, 13 de março de 2021

Uma utopia para pedestres: as "cidades de 15 minutos"

Pense na cidade onde você mora. Quanto tempo você leva para chegar ao supermercado a pé? A sua escola ou trabalho é perto o suficiente para ir caminhando? Que tal um parque público, um consultório médico, uma creche ou qualquer outro lugar que você visita diariamente? Enquanto algumas cidades já entenderam a importância de se viver perto de todas essas necessidades, outras estão reformulando suas estratégias de planejamento urbano e projetando seus bairros para serem mais amigáveis aos pedestres, com o conceito de “cidades de 15 minutos”.

via Paris En Common
via Paris En Common
Parcialmente inspirado no trabalho de Jane Jacobs, que via os bairros como conectores sociais, a ideia por trás das cidades de 15 minutos foi desenvolvida por Carlos Moreno, um professor da Sorbonne que visava melhorar a qualidade de vida urbana. Com a “hiper proximidade” de equipamentos, empregos, serviços governamentais, parques públicos, comércio e uma variedade de opções de entretenimento, acessados apenas de bicicleta ou a pé, o conceito repensa como as cidades podem ser melhor projetadas de forma a atender às necessidades básicas dos habitantes. Dentro deste pequeno raio, a partir de suas casas, comunidades mais fortes serão criadas, permitindo que os moradores se sintam mais incluídos nos comércios e serviços de sua região.

via Bike Republic.pl
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Embora a cidade de 15 minutos possa parecer uma utopia distante, muitos gestores públicos ao redor do mundo já estão começando a dar uma nova identidade aos seus núcleos urbanos, a partir de um melhor planejamento da cidade, com a descentralização de serviços, bens, e novas leis de zoneamento, que retiram os carros das ruas e abrem espaço para os pedestres e ciclistas. Uma cidade que está liderando essa estratégia urbana é Paris, sob a liderança de sua prefeita, Anne Hidalgo. Tal objetivo foi um dos pilares de sua campanha política à bem-sucedida reeleição. Seu intuito é incentivar o desenvolvimento de comunidades autossuficientes em cada distrito de Paris. Batizada de "cidade de 15 minutos" (“ville de quart d'heure”), o objetivo é transformar a capital, em bairros mais eficientes, para reduzir a poluição e criar áreas social e economicamente diversas. Ao revelar esse plano, Hidalgo insistiu que esse esforço de revitalização também incorporaria outras estratégias - incluindo uma força policial desarmada de 5.000 pessoas, um compromisso maciço de plantar mais árvores e multas pesadas por comportamento não civis, como jogar lixo em locais inadequados. Mais notavelmente, ela afirmou que deseja continuar a promover a circulação de pedestres na capital, estabelecendo uma ciclovia em todas as ruas, nos próximos três anos - ao mesmo tempo, em que retirará 60.000 vagas de estacionamento para veículos.

© Kaley Overstreet
© Kaley Overstreet
Ao lado de Paris, Melbourne também criou sua própria versão, com bairros de 20 minutos, isto é, locais onde tudo está dentro de um trajeto de 20 minutos. Copenhague, talvez um exemplo mais conhecido, centralizou seu senso de urbanismo em torno da dependência de bicicletas com uma camada de proximidade de lugares desejáveis. Atualmente, até as cidades americanas estão explorando mais de perto esse método, especialmente com as lições aprendidas e a autorreflexão da pandemia de COVID-19. Em um momento em que as pessoas costumam passar de 1 a 2 horas por dia apenas se deslocando para o trabalho através de meios de transporte privativos, há um foco maior em devolver as ruas às pessoas, encontrando maneiras de reduzir a forte dependência de carros e recriar um senso de vizinhança, que diminuiu com o aumento da expansão urbana. A empresa Here Technologies criou um mapa interativo que mostra quais cidades já estão inclinando a atender esta escala, e ficarem mais alinhadas com os objetivos da cidade de 15 minutos. Embora alguns bairros já possam ser percorridos a pé, provavelmente muitos mais se moverão nessa direção conforme os urbanistas e gestores começarem a aplicar essa estratégia para desenvolver seus próprios conceitos de cidade do futuro.

Na próxima vez que você viajar 30 minutos de carro para o shopping, considere o tempo que você economizaria e a qualidade de vida aprimorada que você teria, se o local estivesse a apenas 15 minutos de bicicleta de distância. A cidade de 15 minutos não é apenas uma tendência urbana, mas uma estratégia de projeto altamente viável, que em breve poderá chegar a uma cidade perto de você.

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Os transportes públicos devem ser grátis? Vantagens e desvantagens

Depois de várias cidades, de Talin a Kansas City, tornarem o transporte público grátis, é a vez de um país, o Luxemburgo. Quais as vantagens e desvantagens desta política? É o preço um fator fundamental para que se dê a mudança do paradigma automóvel para o do transporte público?



Este sábado é o primeiro dia do resto da vida do Luxemburgo - pelo menos enquanto a nova política de transportes públicos gratuitos se mantiver, naquela que é uma estreia a nível mundial, a do primeiro país a pô-la em prática.

O objetivo expresso pelo governo é atrair mais passageiros e diminuir a utilização do carro, que de acordo com um inquérito de 2018 corresponde a 47% das deslocações para o trabalho e 71% das de tempos livres. Já os autocarros seriam usados apenas em 32% das deslocações de trabalho, percentagem que desce para 19% no caso do comboio.

Especialmente em causa nesta nova política estarão os congestionamentos de tráfego na cidade do Luxemburgo, capital do país, que como Lisboa tem pouco mais de 100 mil habitantes mas recebe diariamente 400 mil pessoas para ali trabalhar. Em 2016, um estudo estimava em 33 horas o tempo que os condutores ali passaram em engarrafamentos naquele ano.

A medida já foi tomada em algumas cidades - da capital da Estónia, Talin, a Kansas City, a capital do estado americano do Missouri - mas nunca num país. Se bem que, como frisa José Manuel Viegas, ex secretário-geral do Fórum Internacional dos Transportes da OCDE e professor catedrático do Instituto Superior Técnico, "é um país do tamanho de uma cidade."

De facto, o Luxemburgo tem cerca de 600 mil habitantes e 2586 quilómetros quadrados. E, não despiciendo, um dos mais altos PIB per capita do mundo e um ordenado mínimo de mais de 2000 euros. O valor pago pelos bilhetes já só correspondia a 8% do valor gasto com as operações de transporte público, correspondendo a 41 milhões dos 500 milhões anuais. Agora, será o Estado a suportar os 100%.

José Manuel Viegas tem dúvidas de que a gratuidade, que terá como únicas exceções as viagens em primeira classe em comboio e algumas carreiras de autocarro noturnas, resulte no abandono do transporte individual - sobretudo tendo em conta que o preço já era muito barato. "Tendo em conta que a percentagem dos gastos coberta era já muito baixa, até pode ser que se ganhe dinheiro com a inexistência de bilhetes e de controlos. Mas as pessoas acima de um determinado nível de rendimento, e o nível de rendimento no país é bastante alto, não mudam para o transporte público por ser barato ou grátis mas apenas se apresentar vantagens. Se queremos tirar as pessoas dos automóveis temos que lhes oferecer bons transportes públicos, eficientes, rápidos, com boa cobertura."

100 cidades com transportes grátis
Haverá hoje no mundo, no entanto, cerca de 100 cidades que oferecem transportes públicos grátis, 23 das quais em França. A maior é Dunquerque, com 257 mil habitantes e um sistema de autocarros grátis cuja utilização aumentou 60% nos dias de trabalho e 100% nos fins de semana. 48% dizem que deixam os carros em caso e 5% venderam o seu.

Wojcieh Keblowshi, um especialista em transportes da Universidade Livre de Bruxelas, comentando as medidas anunciadas para a cidade de Paris - que a partir de setembro de 2019 tem viagens grátis no metro e autocarro para menores de 11 (incluindo estrangeiros) e para deficientes com menos de 20 anos, assim como um desconto de 50% para estudantes -, chama a atenção para o facto de que "a utilização pelos grupos vulneráveis, como os desempregados, os idosos e os jovens que não são classe media aumenta muito quando o preço é zero. A cidade fica muito mais acessível para eles. Podem procurar emprego e frequentar atividades culturais, etc. Essa vantagem é especialmente notória no contexto francês."

Mas a tendência não é exclusivamente europeia: além de Kansas City (488 mil habitantes), que anunciou em 2019 um sistema de autocarros grátis, Olympia, capital do estado de Washington, com cerca de 51 mil habitantes, vai fazer o mesmo, e Lawrence, no Massachusetts, com 80 mil, começou em setembro um programa piloto de autocarros grátis. Este último caso, tal como o de Dunquerque, parece ter resultado num aumento de frequência: a cidade diz ter mais 24% de passageiros.

"Se o objetivo é maximizar o uso, eliminar o custo para o utilizador é uma estratégia bastante ineficaz. E como é também cara, talvez não deva ser a primeira em que se deve pensar."

Até uma das grandes cidades dos EUA, Boston, capital do Massachusetts, com 685 mil habitantes, está a ponderar entrar na onda. O valor dos bilhetes pagos pelos utilizadores ultrapassa 100 milhões de dólares, o que está a ser encarado como um obstáculo, mas há quem argumente que o sistema de pagamento e bilhética custa 36 milhões e o resto seria facilmente pago pelo aumento da taxa de combustível da cidade em 2%. Uma ideia defendida pelo jornal Boston Globe num editorial do primeiro dia do ano cujo título clama: "Em Boston, vamos tornar os autocarros grátis."

Há no entanto quem torça o nariz. Por exemplo a Associação de Utilizadores de Transportes Públicos do estado australiano de Victoria, que num artigo com o título "Mito: Tornar os Transportes Públicos Grátis Encoraja a Sua Utilização e o Apoio Político", chama a atenção para o facto de os economistas considerarem que existe para os transportes públicos uma baixa elasticidade da procura com base no preço.

O que isso quer dizer é que, prossegue o artigo, se tudo permanece igual, uma descida de 10% no preço do transporte não causa um aumento de 10% na utilização. Assim, conclui, "se o objetivo é maximizar o uso, eliminar o custo para o utilizador é uma estratégia bastante ineficaz. E como é também cara, talvez não deva ser a primeira em que se deve pensar."

Melhor transporte público poupa vidas e aumenta resiliência económica
Em contrapartida, propõe a associação, que tal aplicar os mil milhões (de dólares australianos, ou seja, 590 milhões de euros) que custaria abolir as tarifas na cidade de Melbourne, capital do estado de Victoria, com quase cinco milhões de habitantes, em mais e melhor transporte público? Isso sim, conclui, iria aumentar o número de utilizadores, e porque mais passageiros significa maior entrada de dinheiro, permitiria melhorar ainda mais a oferta.

Certo é que os sistemas de transportes públicos que se pagam com o preço de bilhetes e passes se contam pelos dedos de uma mão. São, como frisa José Manuel Viegas, casos excecionais, correspondendo, como o metro de Tóquio, a zonas densamente populadas onde não existe realmente alternativa no trânsito automóvel. Por definição, o transporte público é deficitário.

O que não significa, pelo contrário, que fazendo as contas incluindo as chamadas "externalidades positivas" não acabe por ser muito compensador em termos económicos.

Estudos económicos recentes, de 2015 e 2017, citados num muito aprofundado relatório de outubro de 2019 da organização independente canadiana Victoria Transport Policy Institute sobre Custos e Benefícios dos Transportes Públicos, indicam que cada dólar (ou euro) investido em transportes públicos resulta em mais de um dólar em benefícios económicos. Isso é mais verdade, diz o relatório, nas grandes áreas urbanas, mas também sucede nas rurais. 

Entre os vários benefícios dos transportes públicos está a diminuição da sinistralidade e das mortes. De acordo com o relatório, nas 32 cidades americanas com mais de meio milhão de habitantes a correlação negativa entre a utilização de transportes públicos e as taxas de mortalidade rodoviária é muito forte. Em quase todas as cidades grandes com menos de 30 viagens por ano, per capita, em transportes públicos há mais de seis mortes em acidentes rodoviários por 100 mil residentes, e em quase todas as que apresentam mais de 50 viagens por ano per capita em transportes públicos o número de mortes é menor.

Num estudo de 2014 (Stimpson et al), a análise de dados de 100 cidades americanas relativos a mais de 29 anos, e tendo em conta variados fatores geográficos e económicos, levou a concluir que cada aumento de 10% na fatia de utilização de transportes públicos no total das viagens está associada uma redução de 1.5% nas mortes devidas a acidentes rodoviários. E um estudo de 2012 (Lalive, Luechinger and Schmutzler) sobre utilização de transporte ferroviário apurou que aumentar a frequência do serviço em 10% reduzia o uso de carros e motos em quase 3%, e os acidentes na estrada em 4.6%.

Outro dos benefícios é naturalmente o da redução da emissão de gases poluentes que contribuem para as alterações climáticas. Estudos de 2008 e 2010 relativos ao Canadá apontam para que, diminuindo a utilização de automóvel, os engarrafamentos e melhorando os padrões de uso do solo, os transportes públicos reduzem em cerca de 37 milhões de toneladas as emissões anuais de CO2.

Mas talvez uma das descobertas mais interessantes seja a de três estudos diferentes (Gilderbloom, Riggs e Meares em 2015, Lee e Li em 2017 e Welch, Gehrke and Farber em 2018) que, segundo o relatório citado, indicam que os lares nas zonas bem servidas por transportes públicos têm mais baixas taxas de incumprimento nas hipotecas, indicando maior resiliência financeira. O que parece fundamentar a ideia de que, ao melhorar as opções de mobilidade para os que partem de desvantagens físicas, económicas e sociais, transportes públicos de qualidade tendem a melhorar as oportunidades económicas (acesso a educação, emprego, bens de consumo e serviços essenciais) e portanto a dita resiliência.