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quarta-feira, 8 de julho de 2026

Haaland versus Ronaldo


Haaland compra o livro mais caro da história da Noruega para doar a biblioteca pública

O avançado do Manchester City adquiriu uma obra rara de 1594 sobre as sagas dos reis nórdicos por cerca de 116 mil euros (1,3 milhões de coroas norueguesas). O jogador impôs apenas uma condição: que o livro fique exposto ao público.

Muita gente imaginou que Erling Haaland compraria um artigo histórico tão raro para o manter na sua coleção privada. Mas o jogador fez exatamente o oposto. Ao lado do pai, Alf-Inge Haaland, o avançado adquiriu a única cópia conhecida da edição de 1594 de "Heimskringla", uma das obras mais importantes da história da Noruega.

O livro reúne as famosas sagas dos reis noruegueses, escritas originalmente pelo historiador islandês Snorri Sturluson no século XIII. A obra foi arrematada num leilão por cerca de 1,3 milhões de coroas norueguesas — aproximadamente 116 mil euros —, tornando-se o livro mais caro alguma vez vendido na história do país.

Em vez de o guardar, Haaland decidiu doá-lo à biblioteca pública de Bryne, a cidade onde cresceu. A exigência foi apenas uma: que o livro permaneça exposto ao público para que qualquer pessoa possa conhecer essa parte da história da nação.

"Nunca fui um grande leitor, mas quero que o livro esteja sempre disponível para que as pessoas possam ler sobre aqueles que vieram da minha terra, de Bryne e Jæren. É mais fácil sentirmos atração pela leitura quando nos conseguimos rever nas pessoas e nos lugares sobre os quais se escreve", afirmou Haaland em comunicado.

Além da doação, a fundação do jogador criou um projeto de incentivo à leitura direcionado para as escolas do município. A partir do ano letivo de 2026/2027, os estudantes da região participarão numa competição de leitura, e as turmas vencedoras ganharão uma viagem a Oslo para assistir a um jogo da seleção da Noruega no estádio Ullevaal, com a oportunidade de conhecer o próprio Haaland.

O avançado explicou ainda a sua motivação por trás da iniciativa: "Tive a sorte de realizar o meu sonho através do futebol, e sei que nem todos têm essa oportunidade. Os livros dão a muito mais pessoas a oportunidade de sonhar em grande, ver novas possibilidades e encontrar o seu próprio caminho."

A iniciativa foi amplamente elogiada na Noruega por unir desporto, educação e preservação da história nacional, transformando um objeto de valor milionário num património acessível a toda a comunidade.

Notícia original

Um pouco sobre a  história do livro

domingo, 24 de maio de 2026

Regina Spektor - All The Rowboats


[Verse 1]
All the rowboats in the paintings
They keep trying to row away
And the captains' worried faces
Stay contorted and staring at the waves


[Hook]
They'll keep hanging in their gold frames
For forever, forever and a day
All the rowboats in oil paintings
They keep trying to row away, row away

[Verse 2]
Hear them whispering French and German
Dutch, Italian, and Latin
When no one's looking, I touch a sculpture
Marble, cold, and soft as satin

[Pre-Hook]
But the most special are the most lonely
God, I pity the violins
In glass coffins they keep coughing
They've forgotten, forgotten how to sing, how to sing
La da da da da, la da da da da, la

[Instrumental]

[Verse 3]
First there's lights out, then there's lock up
Masterpieces serving maximum sentences
It's their own fault for being timeless
There's a price to pay and a consequence
All the galleries, the museums
Here's your ticket, welcome to the tombs
They're just public mausoleums
The living dead fill every room

[Pre-Hook]
But the most special are the most lonely
God, I pity the violins
In glass coffins they keep coughing
They've forgotten, forgotten how to sing

[Hook]
They will stay there in their gold frames
For forever, forever and a day
All the rowboats in oil paintings
They keep trying to row away, row away

[Instrumental]

[Verse 4]
First there's lights out, then there's lock up
Masterpieces serving maximum sentences
It's their own fault for being timeless
There's a price to pay and a consequence
All the galleries, the museums
They will stay there forever and a day

[Outro]
All the rowboats in oil paintings
They keep trying to row away, row away
All the rowboats in oil paintings
They keep trying to row away, row away

A música é uma metáfora brilhante sobre museus de arte interpretados como prisões de alta segurança.

Em vez de ver o museu como um lugar de celebração da beleza, Regina adota a perspetiva dos próprios objetos de arte. Ela canta sobre barcos a remo pintados em telas barrocas, estátuas e obras-primas que estão "vivas", mas trancadas, congeladas no tempo e vigiadas por câmaras e seguranças.

A arte foi feita para ser livre, para estar no mar (no caso dos barcos) ou exposta aos elementos, mas foi "capturada" pela humanidade para consumo público. Os barcos querem navegar, mas os seus "remos de tinta" não conseguem mover-se. É uma crítica poética à forma como tentamos possuir e domesticar a história e a criatividade.

Melhor som aqui

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Dia Internacional da Língua Materna


Celebrado anualmente em 21 de fevereiro, o Dia Mundial da Língua Materna é muito mais do que uma data no calendário; é um lembrete de que o idioma que aprendemos no colo dos nossos pais é a base da nossa identidade, cultura e forma de ver o mundo.

A data foi proclamada pela UNESCO em 1999 e oficializada pela ONU em 2002.

Sabia que? O idioma Ubykh (Turquia), extinto em 1992, tinha um dos sistemas sonoros mais complexos do mundo. Com a sua morte, sons que o ser humano era capaz de produzir perderam-se para sempre na prática quotidiana.

O desaparecimento acelerado de idiomas no século XXI representa uma das maiores crises de património imaterial da humanidade. Segundo o relatório Ethnologue (2025/2026), aproximadamente 40% das 7.168 línguas catalogadas no mundo estão em risco de extinção, um fenómeno impulsionado pela globalização económica e pela hegemonia de idiomas transnacionais. O World Atlas of Languages da UNESCO (2025) reforça que esta perda não é meramente vocabular, mas sim a erosão de sistemas de conhecimento ecológico, histórico e espiritual únicos. No contexto da Década Internacional das Línguas Indígenas (2022-2032), o foco global deslocou-se da simples documentação passiva para a revitalização ativa, onde o uso da língua materna na educação básica é apontado como o fator determinante para a sobrevivência de uma cultura.
A tecnologia tem desempenhado um papel ambivalente neste cenário. Se, por um lado, o mundo digital exclui línguas sem representação escrita ou técnica, por outro, surgem ferramentas inovadoras de salvaguarda. Projetos como o Woolaroo, do Google Arts & Culture, utilizam inteligência artificial para identificar objetos através da câmara e traduzi-los instantaneamente para idiomas ameaçados, como o Ibibio ou o Maia, criando uma ponte visual para as novas gerações. Outras plataformas, como o Indigenous Languages Digital Archive (ILDA) e a aplicação FirstVoices, permitem que comunidades isoladas criem os seus próprios dicionários de áudio e jogos educativos, garantindo que a fonética correta seja preservada mesmo quando o número de falantes nativos é reduzido.
A nível bibliográfico, os estudos de Crystal (2000) em Language Death continuam a ser a base teórica para compreender porque é que as línguas morrem, mas são os relatórios anuais da UNESCO (2024, 2025) que traçam o mapa atualizado da urgência. Estes documentos sublinham que a "morte" de uma língua ocorre habitualmente em três gerações: quando os avós a falam, os pais a entendem mas não a praticam, e os filhos a desconhecem por completo. Portanto, as ferramentas de gamificação e os arquivos digitais de livre acesso tornam-se, em 2026, as principais armas contra o silenciamento cultural, transformando dispositivos móveis em veículos de resistência linguística.

Referências e Relatórios Consultados:
Crystal, D. (2000). Language Death. Cambridge University Press.
Eberhard, D. M., Simons, G. F., & Robinson, A. J. (Eds.). (2026). Ethnologue: Languages of the World (29th ed.). 
UNESCO (2025). World Atlas of Languages: Global Status Report on Linguistic Diversity. 
United Nations (2022). Global Action Plan of the International Decade of Indigenous Languages (2022–2032).

Como estamos em Portugal, a análise do nosso território revela um contraste fascinante e preocupante entre a homogeneidade do português padrão e a resistência de pequenos enclaves linguísticos que lutam pela sobrevivência em 2026.

O Caso do Noroeste e Nordeste de Portugal
No interior de Portugal, a erosão linguística está diretamente ligada à desertificação humana. O Mirandês, a única língua regional oficialmente reconhecida (Lei n.º 7/99), entrou num período crítico. Segundo os relatórios mais recentes de monitorização da Associação de Língua e Cultura Mirandesa (ALCM) e estudos da Universidade de Coimbra (2025), o número de falantes nativos fluentes desceu para menos de 5.000 pessoas. Embora o Mirandês seja ensinado nas escolas de Miranda do Douro, o desafio em 2026 é a "interrupção da transmissão geracional": os avós falam, mas os jovens, embora o entendam, optam pelo português no ambiente digital e social.

Mais a sul, na zona de Castelo Branco e Alentejo, temos casos de micro-línguas ou dialetos em estado terminal:

Minderico (Minde): Originalmente uma gíria de comerciantes (piação), evoluiu para uma língua complexa. Hoje, é classificada pela UNESCO como "criticamente em perigo", restando apenas algumas dezenas de falantes que dominam o léxico completo.

Barranquenho (Barrancos): Situado na fronteira, este idioma funde elementos do português e do espanhol (extremenho e andaluz). Em 2021, foi reconhecido como património cultural, mas a pressão dos meios de comunicação de massa em português padrão continua a diluir a sua pureza fonética.

O Contraste com a Amazónia (Brasil)
Se em Portugal o risco é a assimilação cultural, na Amazónia o risco é a extinção física e territorial. O Brasil abriga cerca de 180 línguas indígenas, mas o relatório "Línguas em Trânsito" (2025) indica que a maioria delas possui menos de 1.000 falantes.

Línguas Isoladas: Grupos como os Pirahã mantêm uma língua única, sem números ou cores abstratas, que desafia as teorias linguísticas de Noam Chomsky. Contudo, a pressão do garimpo ilegal e a desflorestação forçam o contacto, o que historicamente leva à rápida substituição da língua nativa pelo português por necessidade de sobrevivência.

Resistência Digital: Em 2026, assistimos a um fenómeno inverso: o uso de redes sociais (TikTok e Instagram) por jovens indígenas (como os das etnias Guajajara ou Puyanawa) para criar conteúdos nos seus idiomas originais. Esta "re-gramatização" digital está a despertar o interesse dos adolescentes pela língua dos avós, transformando o telemóvel numa ferramenta de orgulho identitário.


Bibliografia e Documentação Específica:
Ferreira, M. B. (2024). O Mirandês no Século XXI: Entre a Escola e a Rua. Coimbra: Almedina.
Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional - IPHAN (2025). Inventário Nacional da Diversidade Linguística: Foco Amazónia.
Relatório ALCM (2026). Estado da Língua Mirandesa: Censo e Vitalidade. 
UNESCO (2025). Interactive Atlas of the World's Languages in Danger (Edição Digital 2026).
Relatório ALCM (2026). Estado da Língua Mirandesa: Censo e Vitalidade.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Crise climática faz com que estâncias de esqui tenham de repensar modelo de negócio

Uma das pistas que acolherá os Jogos Olímpicos de inverno em Cortina d'Ampezzo 

A poucas semanas da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de inverno em Milão-Cortina, prevista para 6 de fevereiro, as pistas da "pérola das Dolomitas" estão cobertas de neve. No entanto, o manto branco típico dos invernos de montanha nem sempre acompanha os turistas e os esquiadores.

Actualmente, é habitual contentarmo-nos com a presença de neve limitada às encostas. E, cada vez mais frequentemente, mesmo nas pistas, é garantida pela produção artificial de neve, o que impõe um aumento dos custos económicos e ambientais, com repercussões também nos preços dos passes de esqui. Assim, o esqui está a tornar-se um desporto reservado apenas àqueles que podem pagar preços incomportáveis para a maioria dos europeus.

A maior parte das estâncias que acolheram os Jogos Olímpicos de inverno deixarão de o poder fazer
Mesmo na famosa estância de esqui da província de Belluno, as alterações climáticas estão a tornar a queda de neve mais rara e as temperaturas mais elevadas. Um problema que afeta todo o arco alpino. O próprio COI, o Comité Olímpico Internacional, reconheceu o impacto do aquecimento global, causado principalmente pela queima de carvão, petróleo e gás.

Inevitavelmente, a própria geografia dos Jogos Olímpicos será afectada. Desde 1924, vinte e um locais acolheram os Jogos de inverno. Um estudo publicado na revista científica Taylor & Francis - realizado por investigadores da Universidade de Waterloo, no Canadá - explica que, se não forem tomadas medidas rápidas e drásticas para combater as alterações climáticas, apenas quatro desses locais continuarão a ser adequados em meados do século.

São elas Lake Placid (Estados Unidos), Lillehammer e Oslo (Noruega) e Sapporo (Japão). Para todos os outros, entre o calor e a falta de neve, será simplesmente impossível voltar a acolher os cinco anéis olímpicos, se a temperatura média global aumentar 4 graus Celsius em relação aos níveis pré-industriais. E, em 2080, apenas a estância de esqui japonesa o poderá fazer.

E não é só isso: mesmo que o Acordo de Paris seja respeitado, ou seja, limitando o aquecimento global a um máximo de 2 graus Celsius, apenas nove locais "olímpicos" poderiam voltar a acolher o evento desportivo em 2050 (apenas oito em 2080).

Itália, França, Suíça, Áustria: quanto vale a economia dos desportos de inverno na região alpina
No entanto, os Jogos só se realizam de quatro em quatro anos e durante apenas algumas semanas. No entanto, para quem vive da economia do esqui, os problemas são uma realidade quotidiana.

Os Alpes são o centro nevrálgico do turismo de inverno europeu. Segundo o Plano de Ação da UE para a região alpina, nela vivem 80 milhões de pessoas (cerca de 15% da população total da UE). E abrange 48 regiões em cinco Estados-Membros (Alemanha, França, Itália, Áustria e Eslovénia), bem como dois países terceiros (Liechtenstein e Suíça). A região alberga também um dos recursos hídricos mais importantes da Europa e uma biodiversidade inestimável.

O Instituto de Investigação Demoskopica prevê um total de cerca de 30 milhões de chegadas do estrangeiro e mais de 93 milhões de presenças nas estâncias de esqui em Itália para a época de 2025-2026, de acordo com a associação profissional Assosport.

A mesma análise indica uma despesa turística direta de quase 15 mil milhões de euros.

Em França, os números são semelhantes, com cerca de 10 mil milhões de euros de volume de negócios, que incluem os teleféricos, o alojamento, a restauração e o aluguer de equipamentos. O setor assegura igualmente (direta e indiretamente) mais de 120 mil postos de trabalho.

Também em solo transalpino, nas estâncias de esqui, uma média de 75% do volume de negócios dos hoteleiros está ligada aos desportos de inverno. Esta percentagem aumenta para 85% no caso das lojas de desporto e para 95% no caso dos teleféricos.

Da mesma forma, na Áustria, estima-se que o turismo de inverno gere um volume de negócios de 12,6 mil milhões de euros, empregando 250 mil pessoas, ou seja, 7,6% do emprego total a nível nacional. Também na Suíça, estima-se que o setor represente uma parte não negligenciável da economia do desporto, que na confederação suíça representa um valor total de cerca de 17 mil milhões de francos suíços (18,3 mil milhões de euros).

Quais são os países europeus com mais estâncias de esqui e mais esquiadores?
No que respeita às estâncias de esqui, de acordo com os dados publicados pelo portal Statista, a Alemanha é o país europeu que acolhe mais estâncias de esqui. São 498, contra 349 em Itália e 317 em França. Completam o top 10 a Áustria (253 áreas de esqui), a Suécia (228), a Noruega (213), a Suíça (181), a Finlândia (76), a Eslovénia (44) e a Espanha (32).

Em termos de quilómetros de pistas para o esqui alpino, é Sestriere, na província de Turim, que detém o recorde, com um total de 400 quilómetros. Em segundo lugar estão duas estâncias suíças: Zermatt, com 360 quilómetros, e St. Moritz, com 350 quilómetros.

Alemanha tem o maior número de esquiadores, seguida da França e da Itália
A Alemanha detém outro recorde: o do número de pessoas a esquiar. De acordo com os dados atualizados para a época de inverno de 2020/2021, trata-se de uns impressionantes 14,6 milhões de pessoas. Este número é significativamente superior aos 8,5 milhões da França, aos 7,2 milhões da Itália e aos 6,3 milhões do Reino Unido.

No entanto, os números mudam significativamente se olharmos para os números em função da população: é o Liechtenstein que tem a percentagem mais elevada, com 36%, seguido da Suíça, com 35%. Em terceiro lugar está a Áustria, com 34%, à frente de alguns países escandinavos. Seguem-se França (13%), Itália (12%), Bélgica (11%), Reino Unido (10%), Espanha (5%) e Portugal (apenas 2%).

Áustria é o maior exportador de equipamento desportivo
Outro dado que dá uma ideia clara do peso da indústria do turismo de inverno é a exportação de equipamento desportivo. Os últimos dados disponíveis são relativos a 2019 e mostram que a Áustria é claramente o país que mais exporta, com 334 milhões de euros. França situa-se nos 100 milhões, Alemanha nos 91 milhões e a Itália nos 54 milhões.

É por isso que os impactos das alterações climáticas serão particularmente pesados para a economia. Um estudo publicado em 2023 na revista científica Nature Climate Change explica que, de um total de 2 234 estâncias de esqui existentes na Europa, 53% não poderão contar com neve suficiente, mesmo com um aquecimento climático de apenas 2 graus Celsius. Em particular, um terço das estâncias de esqui dos Alpes franceses estará condenado, enquanto nos Pirinéus essa percentagem atingirá os 89%.

Se a temperatura média global aumentar 4 graus em relação aos níveis pré-industriais, quase todas as estâncias europeias não poderão contar com uma quantidade suficiente de neve: 98%.

Alterações climáticas afectarão os ecossistemas e as economias das montanhas
"Há uma variabilidade de região para região, mas podemos identificar três grandes categorias de maciços montanhosos na Europa ", diz François Hugues, investigador do Inrae (Instituto Nacional Francês para a Agricultura, Alimentação e Ambiente), à Euronews. "Um grupo que tem altitudes e condições bastante favoráveis, estamos a falar, por exemplo, dos Alpes interiores, principalmente em França, Suíça e Áustria".

"Um segundo grupo", continua o especialista, "inclui situações intermédias, que são muito mais vulneráveis às condições climáticas, como é o caso dos Alpes eslovenos ou dos Pirinéus. Por fim, há territórios que a crise climática já levou ao limite: as montanhas da Península Ibérica ou os Apeninos em Itália. Se o segundo grupo ainda tem alguma margem de manobra, para o segundo, sujeito a escolhas locais destinadas a apoiar certas zonas, é difícil prever retornos económicos positivos continuando a apostar nos desportos de inverno."

Em muitas estâncias, já estão a ser feitas tentativas para atenuar o problema com neve artificial. No entanto, já em 2007, um estudo da OCDE tinha salientado a chamada "regra dos cem dias", ou seja, a ideia de que uma zona deve poder contar com cem dias por ano de abertura, com pelo menos 30 centímetros de neve natural. Caso contrário, é difícil obter a rentabilidade esperada.
Neve artificial, apenas uma solução parcial e não isenta de custos económicos e ambientais

A neve disparada por canhões pode, portanto, ser um apoio, mas não um substituto e o preço deve ser tido em conta: "Para fazer neve numa encosta com um quilómetro de comprimento, cerca de 50 metros de largura e 40 centímetros de espessura, o custo varia entre 30 e 40 mil euros", explica a agência Agi.

Segundo a qual, "o custo de produção da neve artificial varia de 2 a 3,8 euros por metro cúbico, dependendo da temperatura e da humidade do ar. Com estes valores, a produção é de 2,5 metros de neve por metro cúbico de água. O custo da neve por hectare é de 15 mil euros".

"Os custos associados à produção de neve (artificial ) propriamente dita são, de qualquer modo, relativamente marginais em relação aos custos globais de exploração de uma estância de esqui", salienta Hugues. "Mas há também um fator ambiental a ter em conta, que está ligado aos recursos hídricos e à sua disponibilidade. De facto, é muitas vezes necessário criar lagos artificiais para poder dispor da água necessária, e estas obras representam um custo não negligenciável. Em geral, portanto, mesmo para as estâncias menos afetadas pelas alterações climáticas, é necessário repensar os modelos de negócio e adaptá-los às consequências do aquecimento global".

Neve artificial - uma enorme pegada hídrica 
A World Wide Fund for Nature (WWF) sublinhou precisamente o impacto em termos de recursos hídricos da neve disparada por canhões: "para a produção básica de neve (cerca de 30 centímetros de neve, muitas vezes mais) de uma pista de um hectare, são necessários pelo menos um milhão de litros de água, ou seja, mil metros cúbicos. Enquanto a produção de neve subsequente exige, consoante as situações, um consumo de água consideravelmente superior, que corresponde aproximadamente ao consumo anual de uma cidade de 1,5 milhões de habitantes."

É por esta razão quea União Europeia, na revisão do seu plano de ação para a região alpina, contido numa comunicação de 11 de dezembro de 2025, sublinhou que, face à pressão da crise climática, "a gestão comum e bem coordenada dos cursos de água transfronteiriços é essencial para assegurar a proteção integrada, a melhoria e a recuperação dos recursos hídricos e dos seus ecossistemas, e é fundamental para a resiliência e a segurança da água na Europa."

A eletricidade é necessária para fazer funcionar os canhões e as lanças, o que leva a um aumento do consumo e consequentes emissões de gases com efeito de estufa. Contribuindo assim para o círculo vicioso que alimenta a crise climática. De facto, calculou-se no passado que, para nevar artificialmente todo o arco alpino, seriam necessários cerca de 600 GWh, o que equivale ao consumo anual de 130 mil agregados familiares de quatro pessoas.

Custos dos passes de esqui estão a aumentar na Europa: +34,8% em dez anos
As despesas de esqui na Europa aumentaram em média 34,8%, muito acima da inflação, desde 2015, com os maiores aumentos na Suíça, Áustria e Itália. De tal forma que muitas das principais estâncias tornaram-se inacessíveis para a maioria dos turistas.

"O esqui vai tornar-se um desporto para os ricos ", explica Christophe Clivaz, professor da Universidade de Lausanne, ao Valori.it. Na verdade, "já o é, mas vai sê-lo cada vez mais, porque os custos de manutenção das pistas vão aumentar. Sem contar que para esquiar é preciso comprar ou alugar esquis e botas. E depois casacos, calças, luvas, óculos de proteção. Já hoje, num país como a Suíça, uma grande parte da população não tem meios para esquiar, sobretudo as famílias numerosas."

Segundo a associação de defesa do consumidor Assoutenti, um passe diário de esqui para o "Dolomiti Superski", que garante o acesso às doze estâncias das Dolomitas, custa atualmente 86 euros por dia, contra 67 euros em 2021.

Em Roccaraso, Abruzzo, em Itália, o preço de um bilhete semelhante atinge os 60 euros. O mesmo bilhete em 2021 custava 47 euros e no ano passado 58 euros. Em Livigno, na fronteira com a Suíça, registou-se o maior aumento: de 52 euros em 2021 para 72 euros em 2025 (mais 38%).

Os operadores das estâncias de esqui alpinas onde continuará a ser possível esquiar, conclui Hugues, "atrairão turistas ricos de mais longe, clientes provenientes, por exemplo, do Reino Unido, mas também de Espanha ou da Grécia, países onde será cada vez mais difícil esquiar. Isto pode ser positivo do ponto de vista económico, mas vai complicar as coisas do ponto de vista ambiental e climático, uma vez que irá aumentar as emissões de gases com efeito de estufa associadas às viagens turísticas, alimentando ainda mais as alterações climáticas."

Para visualizar os gráficos da Statista aqui

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

64% das raças de cães ainda carregam genes dos lobos (até os chihuahuas)



Um novo estudo publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences indica que a maioria dos cães carrega, literalmente, um pedaço de lobo dentro de si.

Pesquisadores analisaram 2.693 genomas de cães e lobos e descobriram que 64% das raças actuais possuem pequenas quantidades de DNA de lobo — vestígios que teriam sido incorporados após a domesticação e que podem ter ajudado os cães a se adaptar a uma ampla variedade de ambientes humanos.

De acordo com a autora principal, Audrey Lin, baixos níveis de fluxo génico entre as duas espécies tiveram papel importante na formação dos cães como os conhecemos hoje.

A equipa lembra que, apesar de lobos e cães poderem cruzar, a troca genética entre eles é considerada rara desde a separação, que ocorreu no Pleistoceno Superior (120-10 mil anos atrás). Mesmo assim, todos os cães de rua analisados apresentaram algum DNA de lobo, indicando que a mistura persiste onde cães vivem soltos.

Raças com mais e menos influência dos lobos.
Entre as raças modernas, o Grande Cão Anglo-Francês Tricolor e o Pastor de Shiloh exibiram os maiores índices de ancestralidade lupina não intencional, com cerca de 5,7% e 2,7%.
Cães-lobo criados deliberadamente — como o cão-lobo checoslovaco e o cão-lobo de Saarloos — apresentaram níveis ainda mais altos, entre 23% e 40%.
Em contrapartida, grandes cães de guarda, como Mastim Napolitano, Bullmastiff e São Bernardo, não mostraram qualquer traço detectável de DNA de lobo.
Já algumas raças pequenas, incluindo o chihuahua, surpreenderam ao exibir pequenas frações desse material genético.

Padrões identificados
Ao cruzar dados genéticos com padrões de comportamento descritos nos registos de raça, os pesquisadores observaram correlações curiosas: raças com mais genes de lobo tendem a ser descritas como “independentes”, “territoriais” e “desconfiadas de estranhos”, enquanto aquelas com menor influência lupina são apontadas como “amigáveis”, “afetuosas” e “cheias de energia”.

Lin reforça que os resultados não provam causalidade — apenas sugerem padrões que exigem investigação mais profunda.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Complete sequencing of ape genomes

Artigo científico
Foi feita a sequenciação genética de vários primatas, que confirma a nossa proximidade com os chimpanzés e bonobos. Na verdade, 98,7% dos genes são idênticos e apenas 1,3% explicam as nossas diferenças. 
Quando Charles Darwin publicou em 1871 "A Ascendência do Homem", puseram a sua cabeça num corpo de chimpanzé como sátira de que vínhamos dos macacos. Ainda hoje há muita gente que pensa o mesmo e que somos seres especiais vindos de não sei onde porque que assim acredita não explica a nossa origem e, não ausência de explicações válidas, remetem para os extraterrestres ou a religião, que é o conforto dos tolos.
A nossa proximidade dos chimpanzés, dos quais divergimos há 6,2 milhões de anos, não quer dizer que um dia fomos chimpanzés mas que tivemos antepassados comuns, que por sinal são mais recentes de que com os dos gorilas, dos orangotangos ou dos gibões. Cada espécie actual de primatas é a ponta de um ramo de uma árvore muito antiga que remonta aos primeiros mamíferos do Cretácico, há 71 milhões de anos, quando quando os dinossauros ainda dominavam e divergiram dos restantes mamíferos primitivos. Nessa árvore dos primatas que se subdiviu, primeiro em símios e prossimios (lémures e afins),  em numerosos galhos cada vez mais finos dos quais um somos nós, e as espécies actuais não são mais que o resultado de milhões de anos de evolução e divergências. 
Não é correcto dizer que, apesar da nossa proximidade aos chimpanzés, evoluímos a partir destes, nem é correcto dizer que evoluímos dos macacos, pois todos os primatas são macacos e nós não somos excepção. A grande diferença que temos em relação aos nossos parentes primatas mais próximos não é tanto a capacidade de fazer ferramentas, de ter cultura ou linguagem falada - os chimpanzés e bonobos também os têm -, mas a capacidade de preservar e aumentar o conhecimento pela escrita, o que levou a uma evolução sem precedentes a nível tecnológico

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Sabe o que está a comer numa lata de atum? Investigadores revelam as espécies mais usadas na indústria de conservas portuguesa



Uma equipa de cientistas dos centros de investigação MARE e CE3C descobriram quais as espécies de atum mais usadas pela indústria das conservas em Portugal. Isso, apesar de Portugal ser um dos maiores consumidores de atum enlatado per capita na Europa.

Num artigo divulgado recentemente na revista ‘Scientific Reports’, a equipa revela que, através de métodos de sequenciação molecular capazes de identificar com precisão as espécies presentes nos produtos enlatados , o atum-bonito (Katsuwonus pelamis) é a espécie predominante em todas as sete marcas portuguesas (não reveladas) e tipos de conservas analisadas.

Além dessa, foram também detetadas outras espécies, como o atum-patudo (Thunnus obesus), o atum-albacora (Thunnus albacares) e espécies do género Auxis que os autores dizem não ser “atum verdadeiro”.

Outro resultado relevante foi a deteção de múltiplas espécies dentro da mesma lata em quatro marcas distintas, uma prática que os investigadores dizem viola a legislação europeia em vigor.

“Este estudo representa o primeiro retrato molecular abrangente da indústria conserveira de atum em Portugal, revelando não apenas quais espécies chegam ao consumidor, mas também os riscos associados a uma rotulagem imprecisa”, detalha, no site do MARE, Ana Rita Vieira, primeira autora do artigo.

A investigadora acrescenta que “ao identificarmos espécies de atum com estatuto de conservação e de espécies que não são verdadeiros atuns, demonstramos a importância de reforçar mecanismos de controlo para uma rotulagem precisa, de forma a garantir que o consumidor sabe exatamente o que está a comprar e a consumir”.

E salienta que o facto de a equipa ter encontrado várias espécies na mesma lata “evidencia incumprimentos face à legislação europeia em vigor e reforça a urgência de mecanismos mais robustos de rastreabilidade”.

Ainda assim, Ana Rita Vieira dizem que o intento deste trabalho não é apontar falhas da indústria conserveira portuguesa, “uma referência histórica e económica”, mas sim fornecer informação científica sólida sobre a composição específica dos produtos disponíveis no mercado nacional, contribuindo para um debate mais informado sobre a utilização de recursos e práticas de rotulagem”.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Contaminação por raticidas ameaça aves de rapina em Portugal



Mais de 80 por cento das aves de rapina portuguesas podem estar contaminadas por raticidas anticoagulantes, ameaçando a conservação de várias espécies.

Este é um alerta lançado por um grupo de investigadores de Portugal e de Espanha num estudo publicado na revista ‘Science of The Total Environment’.

Coordenado pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e pela Universidad de Las Palmas de Gran Canaria, em colaboração com o centro de investigação CIBIO e o centro de Recuperação e Investigação de Animais Selvagens (RIAS), o trabalho incidiu sobre 210 aves de 15 espécies, entregues em centros de recuperação no continente e na Madeira. Em comunicado, as instituições chamam a atenção para uma exposição generalizada a compostos usados no controlo de roedores, revelam as instituições em comunicado.

Do total de aves analisadas entre 2017 e 2024, 83% apresenta sinais de pelo menos um raticida anticoagulante no fígado. Em quase 60% dos casos positivos surgiam dois ou mais compostos, aumentando o risco de efeitos cumulativos e potencialmente fatais.

Ana Carromeu-Santos, a ecóloga do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C), da Universidade de Lisboa, que conduziu a investigação, salienta que “os estudos de monitorização de envenenamento secundário por raticidas são recorrentes em vários países europeus, mas este é o primeiro realizado em Portugal”.

Na Madeira, o problema é ainda mais grave, mostra o estudo. Quase 90% das aves apresentam contaminação múltipla, com concentrações médias superiores às registadas no continente, sugerindo um uso mais intensivo de raticidas no controlo de pragas na ilha.

Explica a equipa que os raticidas anticoagulantes são usados para controlar roedores, provocando hemorragias internas fatais ao impedir a coagulação do sangue. Como persistem nos tecidos, acumulam-se em predadores que consomem presas contaminadas, representando um risco para aves de rapina.

Por sua vez, nas aves estes compostos podem provocar hemorragias internas, fraqueza, perda de coordenação e, em casos extremos, a morte. Mesmo em doses não letais, avisam os investigadores, reduzem a capacidade de caça, aumentam o risco de acidentes e comprometem a reprodução.

Entre os compostos detetados destacam-se o Brodifacoum e a Bromadiolona, substâncias altamente persistentes e tóxicas. As aves mais velhas revelam maiores concentrações, evidenciando o efeito de bioacumulação ao longo dos anos.

Espécies comuns como o peneireiro-de-dorso-malhado (Falco tinnunculus) e a coruja-das-torres (Tyto alba) podem servir como “sentinelas”, permitindo acompanhar a evolução da contaminação devido à sua ampla distribuição e dieta baseada em pequenos roedores.

Sofia Gabriel, investigadora do CE3C e principal coautora do artigo, alerta que “estes resultados demonstram que os raticidas utilizados no controlo de pragas de roedores estão a entrar nas cadeias alimentares da fauna selvagem, o que coloca estas espécies em risco e exige medidas de mitigação para reduzir os impactos”.

O estudo confirma que o impacto dos raticidas “já não é pontual”, salientam os cientistas, mas sim “um fenómeno persistente e transversal”, que afeta várias gerações de aves e fragiliza populações já vulneráveis.

As consequências para a biodiversidade são significativas, podendo comprometer o equilíbrio dos ecossistemas se espécies essenciais diminuírem drasticamente ou desaparecerem de determinadas regiões.

Os autores defendem medidas urgentes, incluindo monitorização regular, restrições ao uso indiscriminado de raticidas e promoção de alternativas mais seguras no controlo de roedores, fundamentais para proteger a fauna selvagem.

sábado, 20 de dezembro de 2025

Estudo aponta pegada de carbono dos centros de dados de IA ao nível da Noruega

Centro de dados da Amazon Web Services, em primeiro plano, à direita, em construção junto à central nuclear de Susquehanna, em Berwick, Pensilvânia

A pegada de carbono da inteligência artificial (IA) em 2025 poderá igualar a de Nova Iorque ou a de um pequeno país europeu e usar tanta água quanto o consumo anual global de água engarrafada este ano, indica um novo estudo.
O relatório estima que os sistemas de IA a funcionar em centros de dados poderão ser responsáveis por entre 32,6 e 79,7 milhões de toneladas de dióxido de carbono em 2025.
Valores na mesma ordem de grandeza das emissões totais de Nova Iorque, que o relatório aponta em 52,2 milhões de toneladas de CO₂ em 2023. No limite inferior, é comparável às emissões totais da Noruega em 2023, estimadas em cerca de 31,5 milhões de toneladas, segundo dados de 2025 da Agência Europeia do Ambiente.

Centros de dados são instalações de grande dimensão que alojam servidores usados para operar serviços online como cloud, streaming de vídeo e IA. Estes servidores geram grandes quantidades de calor e recorrem frequentemente a sistemas de arrefecimento à base de água para funcionarem em segurança.
À medida que a IA e outras tecnologias aceleram, também disparou a procura por centros de dados que exigem energia para funcionar e água para arrefecimento também disparou.

O estudo estima ainda que a pegada hídrica da IA poderá equivaler ao intervalo do consumo mundial anual de água engarrafada, entre 312,5 e 764,6 mil milhões de litros em 2025. O consumo de água inclui a utilização direta para arrefecer centros de dados e o consumo indireto na produção de eletricidade. O estudo concluiu que o uso indireto pode ser até quatro vezes superior ao consumo direto, mas as empresas tecnológicas raramente divulgam esta métrica.

Por isso mais de 230 grupos ambientalistas exigem, por isso, que o Congresso dos EUA proíba os centros de dados com IA.

Europa com vantagem ‘mais limpa’
A Europa acolhe cerca de 15 por cento dos centros de dados mundiais, apenas atrás dos Estados Unidos, que representam aproximadamente 45 por cento, segundo o Fórum Económico Mundial. O relatório assinala que a Europa beneficia de uma produção de eletricidade substancialmente mais limpa. As redes elétricas europeias têm uma intensidade carbónica de cerca de 174 gramas de CO₂ por quilowatt-hora (gCO₂/kWh), menos de metade da média global, de 445 gCO₂/kWh, e significativamente inferior à dos Estados Unidos, de 321 gCO₂/kWh. Isto significa que os centros de dados localizados na Europa têm uma pegada de carbono consideravelmente menor por unidade de eletricidade consumida.

Falta de transparência
O estudo analisou relatórios ambientais de 11 grandes empresas tecnológicas e encontrou falhas consistentes de transparência. As empresas incluídas (indicar aqui os nomes das empresas)
Nenhuma empresa divulga métricas ambientais específicas da IA, apesar de várias reconhecerem a IA como motor do aumento do consumo de energia.
O estudo recorreu a uma abordagem de cima para baixo, combinando relatórios públicos de sustentabilidade de grandes tecnológicas, incluindo os da Amazon, Apple, Google e Meta, com estimativas da procura de eletricidade da IA e fatores de intensidade das redes, para estimar a pegada ambiental da IA.
No entanto, o autor sublinhou que “uma incerteza significativa envolve estes números”, já que as divulgações das empresas raramente distinguem entre atividades de computação de IA e não-IA.
“Divulgações adicionais por parte dos operadores de centros de dados são urgentemente necessárias para melhorar a precisão destas estimativas e gerir de forma responsável o impacto ambiental crescente dos sistemas de IA”, escreveu de Vries-Gao.
Embora nenhuma empresa apresente métricas específicas da IA, empresas como a Google, a Meta e a Microsoft reportaram aumentos significativos no consumo de eletricidade em 2023 e 2024, atribuindo o crescimento à IA.
“Como o impacto ambiental dos centros de dados está a crescer rapidamente, também aumenta a urgência de transparência no setor tecnológico”, acrescentou.
A investigação apela a novas políticas que obriguem à divulgação de métricas ambientais adicionais, incluindo os locais específicos onde os sistemas de IA operam, a dimensão das operações em cada local e valores de eficiência no uso da água (WUE) para instalações individuais.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

O que ninguém diz sobre o novo aeroporto de Lisboa


Hoje, dia 6 de Dezembro de 2023, o velho aeroporto de Lisboa está saturado. Suponho que amanhã também estará, assim como para a próxima semana e possivelmente no próximo ano (já sem tantas certezas). Contudo, depois não sei.

O que eu aprendi nos estudos que fiz sobre obras de vulto foi que é necessário cenarizar o futuro. Atenção, cenários não são predições, nem são truques de astrologia – são futuros plausíveis!
No desenvolvimento dos cenários são utilizados modelos quantitativos e análises qualitativas. São simulações de sistemas multivariados que permitem perceber tendências.
Ou seja, quais as tendências do tráfego aéreo nos próximos 10-30-50 anos.
À partida ter-se-ão que avaliar todas as hipóteses: (a) o tráfego aéreo vai aumentar? (b) o tráfego aéreo vai manter-se? (c) o tráfego aéreo vai diminuir? e (d) a que velocidade?

Quais as variáveis que condicionam o tráfego aéreo?
A elaboração dos cenários que estão em cima da mesa baseia-se nas actuais condições e tendências e essas apontam claramente para um rápido aumento do tráfego aéreo.
Mas a questão não é linear e um estudo sério deverá considerar outros cenários hipotéticos que levem em conta outras variáveis plausíveis. Dou apenas um exemplo que tem a ver com as alterações climáticas que são uma realidade dramática.
Os acordos internacionais sobre a redução da emissão de gases com efeito de estufa são manifestamente insuficientes para retardar de forma significativa os efeitos do aquecimento global: alterações do calendário agrícola, alterações biogeográficas, alterações demográficas, conflitos territoriais, fomes, secas, cheias, aumento da frequência de acontecimentos imprevisíveis, subida do nível do mar particularmente acentuada no Atlântico, etc..
A breve prazo, a fim de evitar o descalabro ambiental e o social dele decorrente, novos acordos muito mais draconianos terão de ser assinados. A redução significativa de gases com efeito de estufa será feita, de forma significativa, à custa da redução do tráfego terrestre e aéreo.
Serão impostas quotas de tráfego e tudo leva a crer, importantes ao nível do tráfego aéreo. A decisão é simples: ou temos planeta, ou o destruímos a uma velocidade estonteante.
Portanto o que é espectável, em alternativa ao suicídio planetário, é uma diminuição significativa do tráfego aéreo. Isto leva de novo à questão: justificar-se-á um novo aeroporto?
Obviamente que isto é mau para uma economia de acumulação cada vez mais baseada no turismo (e não directamente no trabalho) como a nossa. Porque numa primeira fase a única forma que o sistema económico tem de cumprir acordos de diminuição de tráfego aéreo será tornar os preços das viagens proibitivos. Volto a questionar: justificar-se-á um novo aeroporto?
A minha resposta não é um não imediato. É, simplesmente, que faltam estudos sérios, honestos, que considerem os vários cenários plausíveis e que fundamentem a necessidade (ou não) da obra.

E coloca-se a questão central do Impacto ambiental.
Claro que há estudos de impacto ambiental honestos e também desonestos. Conheço exemplos de ambos os tipos.
Um estudo de impacto ambiental do presumível novo aeroporto, obrigatoriamente, vários capítulos. Logo o primeiro deverá incidir sobre a própria obra: o impacto da construção de estaleiros, o impacto do tráfego de camiões (ou outros meios) para transporte de materiais, o impacto da própria obra, depois o levantamento dos estaleiros, depois o próprio tráfego aéreo em função da época do ano (por exemplo, será diferente o impacto durante a nidificação das aves do impacto durante as migrações e do impacto durante o inverno, etc.), depois o impacto do transporte de passageiros ou de mercadorias para os seus destinos (não imagino que, por exemplo os turistas, venham fazer turismo exclusivamente para o Alcochete ou trincar bifanas para Vendas Novas)… e, um dia, o impacto da desactivação do aeroporto (para quem não sabe as regras aconselham). 

terça-feira, 28 de novembro de 2023

Climate change is a multidimensional phenomenon


Climate change is a multidimensional phenomenon. As such, no single metric can capture all trajectories of change and associated impacts. While numerous metrics exist to measure climate change, they tend to focus on central tendencies and neglect the multidimensionality of extreme weather events (EWEs). EWEs differ in their frequency, duration, and intensity, and can be described for temperature, precipitation, and wind speed, while considering different thresholds defining “extremeness.” We review existing EWE metrics and outline a framework for classifying and interpreting them in light of their foreseeable impacts on biodiversity. Using an example drawn from the Caribbean and Central America, we show that metrics reflect unequal spatial patterns of exposure across the region. Based on available evidence, we discuss how such patterns relate to threats to biological populations, empirically demonstrating how ecologically informed metrics can help relate EWEs to biological processes such as mangrove recovery. Unveiling the complexity of EWE trajectories affecting biodiversity is only possible through mobilisation of a plethora of climate change metrics. The proposed framework represents a step forward over assessments using single dimensions or averages of highly variable time series.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Médicos demoram mais tempo a progredir na carreira do que os professores - mas podem ganhar mais

Progressão na carreira dos médicos é, geralmente, mais lenta do que a dos docentes. Mas um médico chega mais rápido ao quadro do que um professor. Topo da carreira é difícil para ambos.


Os salários e a progressão na carreira são algumas das “bandeiras” mais reivindicadas pelos trabalhadores da Educação e da Saúde. Ambos integram as carreiras especiais da Função Pública, mas o que os separa? Geralmente, a progressão na carreira dos médicos é mais lenta do que a dos professores, mas a subida representa um aumento maior do rendimento. Comparando as duas carreiras, conclui-se que um médico entra no quadro mais rápido do que um professor e que, para ambos, é difícil chegar ao topo.

De acordo com a legislação em vigor, e que o Governo já propôs alterar, qualquer professor que celebre três contratos anuais (de setembro a agosto) com horário completo (22 horas letivas) e sem interrupções tem direito a vinculação, isto apesar de em Portugal demorar, em média, 16 anos a entrar nos quadros.

A carreira de docente tem dez escalões, com uma duração média de quatro anos cada um (exceto o quinto escalão, que tem a duração de dois anos). Para efeitos de progressão entre escalões, os professores têm de cumprir três requisitos: tempo de serviço nesse escalão, um conjunto de horas de formação e uma avaliação mínima de “Bom”.

Mas só 25% de todos os professores avaliados em cada escola podem ter “Muito Bom” ou “Excelente”, independentemente do escalão. Este modelo de avaliação de professores já foi criticado pela OCDE por contar apenas para a progressão na carreira, não contribuindo para a melhoria do sistema de ensino, segundo a organização. Esta é, aliás, a base de uma das reivindicações dos sindicatos dos professores, que pedem o fim das quotas na avaliação.

Ao ECO, o secretário-geral adjunto da Fenprof, José Feliciano Costa, explica que, ao longo da carreira e em qualquer escalão, um professor pode pedir para concorrer ao “Excelente”, o que acelera ligeiramente a progressão, dado que lhe confere “uma bonificação de um ano em cada escalão”, ou de “Muito Bom”, que permite a redução de seis meses.

Além disso, José Feliciano Costa sublinha que, a partir do momento em que um professor é vinculado, é reposicionado na tabela remuneratória equivalente aos anos de serviço acumulados, ainda que lhe seja “descontado” o tempo de serviço em que as carreiras estiveram congeladas. “A um professor com 16 anos de serviço, tiram-lhe os cerca de seis anos não recuperados, por isso, fica com dez e vai para o início do terceiro escalão”, exemplifica.

Apesar de a progressão entre escalões da carreira dos professores seguir, grosso modo, os mesmos critérios, há algumas diferenças entre cada patamar. “[Para progredir] do 2.º para o 3.º escalão da carreira, é preciso também ter aulas observadas”, sublinha o secretário-geral adjunto da Fenprof. Já para aceder ao 5.º e 7.º escalões, há quotas e vagas.“Os que não conseguirem ter, através das quotas, um ‘Muito Bom” ou ‘Excelente’ [que lhes permite o acesso direto a estes escalões], ficam à espera de vaga”, sendo que as vagas para entrada no 5.º escalão é de 50% e as do 7.º de 33% dos docentes em condições de transitar para cada um desses escalões (o Governo propôs rever estas percentagens para 75% e 58%, respetivamente). Quem não passar, é bonificado num ponto e aguarda para o ano seguinte.

Este modelo de avaliação tem sido criticado pelos docentes, que reivindicam que é bastante difícil chegar ao topo da carreira. Em média, os professores precisam de 39 anos e ter 62 anos de idade para chegar ao último escalão da carreira, segundo os dados divulgados na semana passada pelo Conselho Nacional de Educação.

E os médicos?

Uma das grandes diferenças na carreira médica é que é a única carreira da Função Pública que tem 40 horas de trabalho semanal. Depois de acabarem o curso, os médicos são colocados no internato de formação geral (IFG) durante um ano e progridem, depois, para o internato de formação específica (IFE), que tem dois escalões: o índice 90, que corresponde aos três primeiros anos do IFE, cujo rendimento mensal bruto é de 1.894,64 euros, isto é, 10,93 euros por hora; e o índice 95, que são dois anos e passam a ganhar 1.999,90 euros brutos (11,54 euros/hora).

Contas feitas, os médicos demoram, pelo menos, seis anos a tirar a especialidade e a poder, efetivamente, entrar para a carreira. A carreira médica é composta por três categorias: assistente, assistente graduado e assistente graduado sénior.

Depois de concluída a especialidade, os médicos necessitam de esperar pela abertura de um concurso público para se candidatarem à categoria de assistente, onde são colocados com base no exame que fizeram no internato. Contudo, estes concursos não são imediatos. “Por exemplo, alguém que faz exame em março normalmente é colocado em julho ou agosto. Já alguém que faz exame em outubro é colocado em dezembro ou janeiro”, explica Joana Bordalo e Sá, presidente da Federação Nacional dos Médicos (FNAM). Nesta categoria, a remuneração mensal bruta é de 2.834,86 euros, isto é, 16,35 euros por hora.

As regras ditam que a progressão da carreira médica seja feita de forma horizontal, isto é, entre escalões da mesma categoria, bem como de forma vertical (entre categorias). À semelhança do que acontece para a generalidade da Função Pública, a avaliação dos médicos para efeito de subida de escalões é da responsabilidade do Siadap, contudo, não tem sido feita. “Todo o sistema de avaliação para progressão tem estado congelado nos últimos 20 anos”, adianta Jorge Roque da Cunha, secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos (SIM), que acrescenta que esta é “uma das causas para os médicos saírem do público para o privado”.

Esta situação é também assinalada pela presidente da FNAM, que diz que “o modelo atual é inaplicável aos médicos”. Assim, os médicos apenas conseguem progredir de categoria, sendo que para concorrerem a assistente graduado têm de ter, pelo menos, cinco anos de experiência como assistentes. “Normalmente, nunca é cinco anos, acaba por ser sete e oito anos depois, porque há atrasos”, afiança o secretário-geral do SIM, que refere que, no seu caso particular, só o conseguiu “12 anos depois”.

Já a presidente da FNAM revela, que, no respetivo caso, concorreu para assistente graduada quando era assistente há cinco anos e meio, no verão de 2017. Contudo, o exame só foi realizado “em setembro/outubro de 2020” e os resultados só foram divulgados em abril de 2021. “Para se ver a injustiça, no fundo, eu passei para a categoria seguinte quando era especialista há nove anos”, conta Joana Bordalo e Sá.

Também aqui são abertas vagas e os médicos são avaliados tendo por base uma parte curricular e uma parte prática, que inclui uma discussão de casos clínicos de doentes. “Serão cerca de 60% das pessoas que iniciam a carreira que atingem esse patamar”, afirma Jorge Roque da Cunha. Nesta categoria, a remuneração mensal bruta é de 3.313,24 euros, isto é, 19,11 euros por hora.

Segue-se, posteriormente, a categoria de assistente graduado sénior, à qual os médicos podem concorrem se tiverem, pelo menos, três anos como assistentes graduados. Esta categoria é destinada a médicos que queiram desempenhar funções de chefia de serviço e de direção, e, ao contrário das restantes, a questão das vagas é um dos principais entraves à progressão. “As vagas que abrem a nível nacional são muito poucas”, sublinha a presidente da FNAM, referindo que abrem cerca de “200 a 300 vagas por ano”, pelo que “parte dos médicos nunca chega a assistente graduado sénior”.

Além das vagas, Joana Bordalo e Sá aponta ainda como entraves alguns requisitos para concorrer, nomeadamente, distinções que “habitualmente são atribuídas pelas chefias”, pertencer a comissões ou apresentar um plano de gestão “que é muito valorizado”. “Há coisas que dependem do médico, mas há outras que não dependem. É um processo muito pouco transparente”, atira.

“Quem chega ao topo da carreira são cerca de um décimo daqueles que iniciam a carreira”, afirma o secretário-geral do SIM, acrescentando que, “nos últimos dez anos, formaram-se cerca de 1.400 assistentes graduados sénior e foram abertas 300 vagas para os substituir”. Nesta categoria, a remuneração mensal brutal é de 4.163,69 euros, isto é, 24,02 euros por hora.

O que separa as duas carreiras?

Assim, a progressão na carreira dos médicos é, geralmente, mais lenta do que a dos professores, apesar de a subida representar um aumento maior do rendimento. Comparando as duas carreiras, é ainda possível concluir que um médico entra mais rápido no quadro do que um professor e, para ambos, é difícil chegar ao topo.

“Diria que o nosso sistema [de progressão dos médicos], tendo as categorias, tem a possibilidade de subir de forma mais relevante. A grande questão é que os concursos são poucos, demoram muito tempo e, na questão dos graduados séniores, têm poucas vagas“, assinala Ricardo Mexia, médico de Saúde Pública e antigo presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública (ANMSP), sublinhando que, no que toca a avaliação, “na generalidade não tem avaliação do Siadap”, apesar de “algumas exceções”.

Já Bernardo Gomes, médico de Saúde Pública, diz que prefere não comparar as duas carreiras, mas realça que o problema de falta de professores no ensino público e de médicos no Serviço Nacional de Saúde (SNS) confirma que “os sistemas de avaliação, na prática, foram implementados como filtros de não progressão” nas carreiras e que é preciso resolver o “problema” da falta de “captação e retenção de quadros qualificados no Estado”.

Para o efeito, o também investigador do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP) considera que é preciso “criar incentivos” para a capitar estes profissionais, bem como “condições” para que fiquem. “Houve uma convicção que se instalou, seja apor negligência ou intenção, que o caminho era desvalorizar o custo da mão-de-obra qualificada. Não vai dar bom resultado”, conclui.

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Negócio das barragens: novos dados reforçam a estranha intervenção do Estado



Na sequência da entrevista do vereador da Câmara Municipal de Miranda do Douro ao Expresso do passado fim de semana, a história que apresentamos de seguida revela o modo como duas instituições fundamentais do Estado português podem aparentemente desviar-se da sua função de servirem o interesse público e a legalidade. Perante a informação disponível, é uma história muito simples, apesar de nos pretenderem apresentá-la como complexa, pelo que amavelmente convidamos o nosso leitor a acompanhá-la de seguida.

A lei estabelece que devem pagar Imposto Municipal Sobre Imóveis (IMI) todos os “edifícios e construções” que “façam parte do património de uma pessoa singular ou coletiva” (artigo 2.º do Código do IMI).

Os edifícios e construções das barragens de Miranda do Douro, Picote e Bemposta, que foram recentemente vendidas pela EDP, pertenceram sempre à titularidade da concessionária, a EDP, que os vendeu à Movhera. Essa titularidade está expressa no contrato de concessão (cláusulas 6.º e 36.ª) e nas suas sucessivas adendas, incluindo aquela que foi realizada em 2020, quando foi realizado o negócio.

Do mesmo modo, esses imóveis também sempre estiveram inscritos no balanço da EDP, que amortizou também o seu custo de construção e, consequentemente, lhe permitiu evitar pagamento de Impostos sobre o Rendimento das Pessoas Coletivas (IRC).

Assim, não há dúvidas que, “fazendo parte do património” da EDP, esses imóveis estão sujeitos ao pagamento do IMI.

A verdade, porém, é que nada pagam, nunca pagaram. Perguntará o leitor, mas porquê?

A Agência Portuguesa do Ambiente (APA), que no negócio das barragens teve um comportamento estranho, porque autorizou um negócio contendo uma aparente artimanha de evasão fiscal, afirma repetidamente que aqueles imóveis integram o cadastro de bens do domínio público e, como tal, não estão sujeitos ao IMI. A Autoridade Tributária e Aduaneira (AT) parece aceitar esse entendimento, apesar da sua evidente ilegalidade.

Na verdade, note-se que a APA não tem competência para declarar quais os bens que integram o domínio público, nem para organizar e gerir o respetivo cadastro. Quem tem essa competência é a Direção Geral do Tesouro e Finanças (DGTF), a quem curiosamente parece que ninguém perguntou nada até agora, nem a APA nem, estranhamente, a AT, que com a DGTF integra o mesmo Ministério das Finanças (MF). Sabe-se agora que a DGTF informou por escrito que aqueles imóveis não constam desse cadastro; ou seja, não pertencem ao domínio público, o que é uma evidência.

É, portanto, do conhecimento geral que os edifícios e construções das barragens de Miranda do Douro, Picote e Bemposta são privados, porque eles integram o ativo da EDP e da atual Movhera. Aliás a titularidade dos bens está definida no contrato de concessão a favor da concessionária (EDP e atual Movhera).

Como se isso não chegasse, note-se que os bens do domínio público não podem ser transacionados e é crime a sua alienação. Ora se esses imóveis foram transacionados duas vezes no negócio da venda das barragens, da EDP para a Camirengia e desta para a Movhera, como é do conhecimento geral e consta dos documentos do negócio, é porque, obviamente, são do domínio privado e não do domínio público.

O comportamento da APA neste caso específico adensa a estranheza acerca do modo como interpreta o interesse público, do qual jamais de devia desviar, pelas que nos parecem legitimas as seguintes quatro questões, para as quais seria importante ter resposta. Por que motivo a APA:

(i) pratica atos em matérias que não são da sua competência, quando ainda por cima tudo leva a querer que ilegais?

(ii) informa que os imóveis são do domínio público e ao mesmo tempo, através dos mesmos dirigentes, autorizou expressamente um negócio onde esses imóveis foram transacionados duas vezes, sabendo que a transmissão de imóveis do domínio público é ilegal, nula e constitui um crime?

(iii) não pede a declaração de nulidade do negócio, se é verdade que houve duas transmissões de imóveis do domínio público – EDP para a Camirengia e Camirengia para a Movhera?

(iv) não denuncia esse crime ao Ministério Público?

Também o comportamento da AT é aparentemente muito estranho. Na verdade, podemos perguntar-nos por que motivo a AT:

(i) não aplica um despacho da sua Diretora Geral, de dezembro de 2015, que nunca foi revogado e, portanto, está em vigor, onde decidiu, expressamente e muito bem, que os imóveis das barragens, mesmo que implantados em terrenos do domínio público devem pagar o IMI, nos casos em que estiverem inscritos no balanço das concessionárias, como acontece neste caso?

(ii) não pergunta se os imóveis constam do cadastro de bens do domínio público à entidade competente, que é a DGTF, e decide perguntar a uma entidade incompetente em razão da matéria?

(iii) não usa os seus poderes de averiguação dos factos sujeitos a imposto, como a lei lhe impõe e se alheia dessa averiguação?

(iv) não acede ao balanço das concessionárias, que está à sua disposição, para verificar que os imóveis estão sujeitos ao imposto?

(v) ignora os contratos de cisão e de fusão, que são do conhecimento geral e por via dos quais esses imóveis foram transacionados?

(vi) ignora o contrato de concessão e as sucessivas adendas, onde está estabelecida, de forma cristalina, a titularidade daqueles imóveis na EDP?

A Câmara Municipal de Miranda do Douro, como credora do IMI, apresentou à AT um requerimento circunstanciadamente fundamentado, onde demonstra que o imposto é devido e deve ser liquidado. Perante esse trabalho exaustivo, a AT decidiu ignorá-lo, violando a lei que a obriga a apreciar todas as petições e perguntou de novo à APA se mantém o seu entendimento de que os imóveis integram o cadastro de bens do domínio público, quando a questão deveria ter sido colocada à DGTF.

Com a APA respondeu que sim, pode dizer-se que a AT se recusa a apreciar os factos que provam que o IMI é devido. E sendo assim, esta recusa viola o dever legal de investigação da evasão fiscal, que impende sobre a AT. Perguntamo-nos: Porquê?

Caro leitor, não tendo a AT, estranhamente, perguntado à DGTF se aqueles imóveis integram o cadastro de bens do domínio público, fê-lo a Câmara Municipal de Miranda do Douro. A resposta foi concludente: A DGTF declara que nenhum dos imóveis que compõem as barragens consta do cadastro dos bens do domínio público e também não constam do cadastro dos bens do Estado.

O estranho comportamento da AT e da APA, a “descoberta” de que ambas se baseiam numa aparente falsidade, associadas ao que já sabíamos de que o anterior Ministro do Ambiente e Ação Climática (MAAC) autorizou um negócio envolvendo um esquema de aparente evasão fiscal, para o qual estava avisado e a perseguição disciplinar movida contra cidadãos que alertaram para tal, antes e depois do negócio, creio que, no mínimo, mostram que algo precisa de ser explicado a todos os portugueses.

A menos que tudo seja claramente explicado, provando o contrário do que parece ser evidente, a aparente articulação entre a AT e a APA sugere que ambas as instituições se têm amparado uma à outra, num jogo de espelhos, para esconderem e iludirem o que parece ser a verdade subjacente aos factos. Mas mais, como a APA depende do MAAC e a AT depende do MF, será que, até prova em contrário, não podemos pensar também que alguém as articula num jogo de secretaria destinado a impedir a aplicação da lei? E se assim for, quem será e por que o fará?

Por isso, deixa-se ao juízo dos leitores a avaliação acerca de qual o tipo de interesses que a APA e a AT estão a servir, porque, pelas Terras de Miranda (mas não apenas), não se consegue vislumbrar que seja o Interesse Público, como é suposto ser num Estado de Direito. Creio, por isso, que todos estamos de acordo que é esta assunto de tal modo relevante que ainda precisa de ser cabalmente esclarecido.

Em 2020

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Rede portuguesa de Estações de Borboletas Nocturnas já registou mais de 500 espécies



Saber onde estão e quando voam as borboletas nocturnas de Portugal é o objectivo da Rede de Estações de Borboletas Nocturnas. Desde que começaram em janeiro de 2021, os cidadãos que estão a registar estes insetos em 50 locais de amostragem, incluindo em quintais e varandas de Norte a Sul do país, já fizeram mais de 11.000 registos de 512 espécies. Os resultados de 2021 já estão publicados na plataforma GBIF (Global Biodiversity Information Facility).

A Wilder falou com João Nunes, coordenador do projecto de ciência-cidadã Rede de Estações de Borboletas Nocturnas (REBN), e com a restante equipa. Aqui contam como funciona esta rede de vários locais de amostragem dispersos pelo país onde, de uma forma coordenada, se faz a amostragem destes insectos com recurso a um método estandardizado baseado em armadilhas luminosas. Além de aumentar o conhecimento sobre as espécies de Portugal, esta rede ajuda a reunir os naturalistas num objectivo comum.

WILDER: Quando e porquê começou esta a REBN a funcionar?

REBN: A Rede de Estações de Borboletas Nocturnas (REBN) começou a funcionar em Janeiro de 2021. Apesar de Portugal ter cerca de mais de 2.600 espécies de borboletas nocturnas conhecidas, os aspectos da ecologia e fenologia de muitas espécies são ainda mal conhecidos. Assim, achámos que um projecto de ciência-cidadã poderia ser a solução para uma amostragem em grande escala e de forma sistemática. Outro aspecto muito importante do projecto é a divulgação e sensibilização para a diversidade de espécies de borboletas nocturnas e o seu papel como bioindicador da qualidade dos habitats.

W: Neste momento, quando estão prestes a fazer dois anos, quantas estações existem e onde se encontram?

REBN: Neste momento temos 50 locais de amostragem, que designamos de “Estações”. Estas estações estão distribuídas por todo o país e em vários habitats diferentes, que vão desde varandas em prédios inseridos em ambiente urbano até zonas dunares. Todos os habitats são interessantes de amostrar embora, por uma questão de facilidade de acesso regular, muitas estações estão localizadas em jardins e quintais. Uma característica demográfica do nosso país é também reflectida na distribuição das estações, já que muitas estão concentradas na faixa litoral, onde há uma maior concentração de população. Esta é uma tendência que gostaríamos de contrariar e estimular a criação de estações no interior do país, que é muito biodiverso.

W: Qual o objectivo desta rede?

REBN: Um dos grandes objectivos da REBN é a recolha sistemática de dados sobre borboletas nocturnas em Portugal. Estes dados podem depois ser trabalhados de vários ângulos, mas de forma mais imediata é possível obter dados sobre a distribuição das espécies no território e períodos de voo. Pretendemos que a REBN seja um projecto de amostragem a longo prazo, de forma a trabalhar as tendências populacionais para as espécies mais comuns. Só com uma amostragem continuada no tempo, regular e padronizada é possível detectar variações nas populações de borboletas nocturnas. A REBN disponibiliza integralmente os dados que recolhe na Global Biodiversity Information Facility (GBIF), uma plataforma que agrega dados biológicos e que permite outros investigadores utilizarem os dados.

Ao integrarmos cidadãos que nunca tiveram contacto com as borboletas nocturnas estamos também a criar uma maior consciencialização para a diversidade de espécies e a necessidade de preservação dos habitats. Apesar de os dados serem muito úteis quando analisados em conjunto, há também uma outra dimensão local que é desafiante para os participantes, por exemplo, perceber quantas espécies visitam o seu jardim ou quintal.

W: Quem coordena as estações e de quem partiu a iniciativa?

REBN: A iniciativa para a criação deste projecto partiu do Helder Cardoso, ornitólogo e que se dedica a estudar borboletas nocturnas de forma amadora há 12 anos. Na sequência de amostrar durante vários anos na região Oeste, surgiu a ideia de tentar comparar dados com outros locais e seguiu-se o contacto com outros entusiastas das borboletas nocturnas. Rapidamente a ideia evoluiu para a criação de um projecto de ciência-cidadã. Os moldes do projecto são muito próximos do que tem vindo a ser feito noutros países do norte e centro da europa, caso do Reino Unido, Holanda ou Bélgica.

Neste momento o projecto é coordenado por um grupo informal de seis elementos (Ana Valadares, Helder Cardoso, João Nunes, João Tomás, Paula Banza e Thijs Valkenburg) e conta com o apoio de outras pessoas organizadas em pequenos grupos de trabalho, dedicados à edição do boletim informativo ou à divulgação do projecto.

W: Em que consistem estas estações e como funcionam?

REBN: A REBN é essencialmente uma rede de pontos de amostragem de borboletas nocturnas (Estações), com recurso a armadilhas luminosas não letais. Estas armadilhas são colocadas num local fixo e que, idealmente, não sofra muitas alterações de habitat. O princípio de funcionamento é muito simples: a lâmpada vai atrair as borboletas para dentro de uma caixa de retenção temporária. As borboletas ao entrarem, têm dificuldade em sair e vão ficar pousadas nas caixas de ovos vazias no interior.

As armadilhas devem funcionar pelo menos uma vez por mês, onde a lâmpada é ligada ao final do dia e fica a atrair borboletas a noite toda para dentro da caixa de retenção. Na manhã seguinte a armadilha é visitada e procede-se à identificação e contagem do número de indivíduos por espécie e as borboletas são posteriormente libertadas.

As amostragens decorrem durante todo o ano, já que muitas espécies estão apenas activas nos meses de inverno.

Mensalmente temos também a publicação de um boletim informativo (Borboletim). No boletim são abordados diversos temas relacionados com as borboletas nocturnas, incluindo artigos de identificação de espécies mais difíceis e também uma compilação dos dados do mês anterior. Qualquer pessoa pode subscrever o boletim gratuitamente e ficar a par do que se vai fazendo no projecto.

W: As pessoas comuns podem participar? Se sim, como? É preciso ter conhecimentos sobre estes insectos?

REBN: A participação na REBN é aberta a todos, mesmo a quem não tem qualquer tipo de experiência prévia com borboletas nocturnas e a sua identificação. Basta ter vontade de aprender e descobrir o mundo natural.

O primeiro passo para começar a participar é contactar a REBN de forma a podermos explicar como construir uma armadilha simples e onde a colocar. Criámos ainda várias ferramentas com o intuito de auxiliar quem está a começar incluindo um e-mail dedicado a dúvidas de identificação, um pequeno guia das borboletas nocturnas mais comuns e um grupo de Facebook.

W: Na vossa opinião, qual a importância deste projecto?

REBN: Projectos de monitorização de invertebrados são algo de extrema importância no panorama actual para que possamos perceber e quantificar, a longo-prazo, as tendências nas populações destes organismos. O declínio dos insectos é uma problemática conhecida. Contudo, em Portugal não temos dados passados que nos permitam quantificar com rigor quanto perdemos até agora, ou quanto o cenário se modificou até agora. Projectos semelhantes à REBN já existem em alguns países da Europa. O projecto inglês já conta com mais de 30 anos de dados, o que permitiu constatar recentemente (“The State of Britain’s Larger Moths 2021 report”), entre outras coisas, a alteração dos padrões de distribuição de algumas espécies e uma generalizada queda na abundância. Este projecto pioneiro em Portugal permitirá, a longo-prazo, avaliar o estado das populações, a real fenologia e distribuição das espécies e a sua variação no tempo. A recolha de informação já começou, agora é a parte mais difícil, manter as amostragens. As borboletas nocturnas são um grupo usualmente utilizado neste tipo de estudos devido à facilidade de atracção destes animais.

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