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quinta-feira, 23 de abril de 2026

Morreu Desmond Morris, o zoólogo que confiou o seu conhecimento à Universidade do Porto

The Trap, 2020

Ficou conhecido pelos seus estudos inovadores sobre o comportamento humano e animal, mas foi também um destacado comunicador, autor de dezenas de livros e ainda pintor surrealista. Era, sobretudo, um “fascinado pelo mundo”, movido pela “alegria de observar o que nos rodeia”. A mesma “missão” que, em 2014, confiou à Universidade do Porto quando doou ao Museu de História Natural e da Ciência (MHNC-UP) o seu vasto arquivo científico. Desmond Morris morreu, no passado dia 19 de abril, aos 98 anos.

Natural do Wiltshire, onde nasceu em 1928, Desmond Morris desde cedo adotou os animais e a arte como as suas grandes paixões. O estudo dos animais levou-o a formar-se na Universidade de Birmingham, em 1951, e a prosseguir um doutoramento (e pós-doutoramento) em Oxford. Em 1956, aceitou o cargo de diretor da unidade televisiva e de filmagens do Jardim Zoológico de Londres e, em 1959, assumiu o lugar de curador de mamíferos.


Em 1967, deixou o Zoo para se tornar diretor do Institute of Contemporary Arts. Nesse mesmo ano, publica The Naked Ape (O Macaco Nu), obra precursora da etologia humana (na qual propôs uma leitura inovadora do ser humano à luz da biologia evolutiva) e com o qual viria a ganhar notoriedade internacional.

Em 1968, mudou-se para Malta, onde nasceu o filho Jason. Regressou a Oxford em 1974 e aí permaneceu até 2019, altura em que, na sequência da morte da mulher, Ramona, se mudou para a Irlanda, para ficar junto da família e dedicar-se ativamente à escrita e à pintura.

Autor de dezenas de artigos científicos, Morris escreveu 80 livros e foi traduzido para 43 línguas ao longo de seis décadas de uma carreira multifacetada, que cruzou ciência, comunicação e artes visuais. Entre 1956 e 1998, apresentou mais de 700 programas televisivos. Pintou também mais de 3.400 quadros e apresentou mais de 60 exposições individuais.

“Compete-nos continuar a cuidar deste tesouro”
Em 2014, Desmond Morris surpreendeu o mundo quando decidiu doar ao Museu de História Natural e da Ciência da U.Porto (MHNC-UP) o seu arquivo científico, composto por todos os seus livros publicados, respetivas traduções, registos e notas de investigação, correspondência, coleções de revistas científicas, artigos científicos, coleções de fotografias e negativos, gravações vídeo e áudio e artefactos vários. Em troca, uma promessa feita meses antes pelo então Diretor do MHNC-UP, Nuno Ferrand de Almeida: “Se nos deixarem ficar com o seu arquivo, não vamos apenas guardá-lo, vamos utilizá-lo, analisá-lo. Teremos investigadores a trabalhar nele”.

Aquando da doação, ficou também estabelecida a preferência para que a sua editora em Portugal fosse a Arte e Ciência, título do primeiro projeto editorial do MHNC-UP, lançado em 2018. Desde essa data, foram publicados os livros A Tribo do Futebol (com prefácio de José Mourinho) e a reedição de O Macaco Nu , com uma nova tradução de Carla Morais Pires e prefácio de Jorge Rocha, e, com a mesma tradutora, O Macaco Criativo e Observar.

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Jane Goodall - a cientista que redifiniu a Humanidade e respeito pelos Primatas


Morreu Jane Goodall, a mulher que demonstrou durante mais de 50 anos que os chimpanzés têm cultura e são parecidos com os humanos. Muito mais tarde, a genética acabaria por comprovar que diferimos apenas 1,2% a nível genético e que os chimpanzés e bonobos têm linguagem, usam e inventam instrumentos e são capazes de articular algo semelhante a palavras e de transmitir o conhecimento adquirido. Uma das suas observações mais emblemáticas foi acompanhar uma fêmea que se deslocou de um grupo que sabia apanhar formigas com uma vara previamente desramada e esfolada, o que per si já demonstra um enorme poder cognitivo, transmitindo esse conhecimento ao novo grupo, que assim pode ter acesso a proteína fácil. A aprendizagem da captura das formigas não é tarefa fácil e demora mais de 10 anos, pelo que demonstra que os chimpanzés também têm cultura. Obrigado, Jane!

Outras leituras

quinta-feira, 13 de junho de 2024

O PAN às vezes parece uma seita new age


Vou explicar: são contra as jarras de flores, coitadas, condenadas a morrer lentamente. As plantas ornamentais e autóctones podem estar envasadas ou em terrenos. Vamos queimar todos os quadros de natureza morta? Vamos exigir às pessoas que gostam de jarras de flores uma coima por destruir o valor estético das flores, às vezes só com 5-6 plantas diferentes? Mas temos o uso medicinal das mesmas. Vamos arrancá-las meigamente ou nunca podemos utilizá-las? Outra- charretes de cavalos. Pobres cavalos manipulados e escravizados pelo homem para fins não agrícolas, fins turísticos e até religiosos. Vamos condenar e criminalizar os Amish, por exemplo? Outra embirração do PAN: aquários- ai pobres peixinhos só para "efeitos" decorativos, descaracterizando a sua senciência, etc, etc. Mas há aquários científicos, onde é a única solução que se encontra para salvar espécies em vias de extinção. Ou que dizer da relevância dos aquários para o estudo do ciclo de vida dos corais? Sim, porque na Natureza é muito mais difícil compreender e estudar os diferentes estádios de desenvolvimento do corais. Finalmente, o ataque cerrado aos jardins zoológicos e oceanários. Esquecem-se que hoje em dia estes evoluíram na sua concepção e não são meras telas e jaulas de exibição de animais, mas sim, têm cada vez mais importância na conservação de animais com estatuto vulnerável ou próximo da extinção.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Teias de aranha capturam DNA ambiental de vertebrados terrestres


A rica tapeçaria da vida na Terra está a desgastar-se, em grande parte devido à perda de habitat causada pelo homem e às alterações climáticas. À medida que mais espécies desaparecem, os investigadores correm para acompanhar este declínio global da biodiversidade para compreender as suas consequências e combatê-lo através de iniciativas de conservação.

Esses esforços dependem de uma monitorização precisa dos animais, o que pode ser difícil, demorado e caro. Agora, numa nova investigação publicada na revista iScience, os investigadores apresentam evidências de uma nova ferramenta não invasiva e de baixo custo que pode ser usada para monitorizar animais: as teias de aranha.

Veja como as coisas funcionaram por um tempo: se você quisesse saber quais animais estavam em um determinado lugar, você caminharia ou entraria em seu habitat e esperaria para vê-los ou ouvi-los. Mas essa abordagem pode ter suas desvantagens.

“Se você entrar em um ambiente inóspito várias vezes para fazer pesquisas visuais”, diz Josh Newton, Ph.D. estudante de biodiversidade genética na Curtin University em Perth, Austrália, "isso é um pouco complicado".

Outro problema do monitoramento tradicional é que ele pode envolver a captura de animais. “Isso coloca estresse nos animais”, diz Newton. “Especialmente se você está procurando uma espécie rara e ameaçada de extinção, isso não é uma grande coisa – não é algo que você queira fazer.”

O DNA está em toda parte
Nos últimos anos, os cientistas recorreram a uma forma diferente de monitorizar a biodiversidade. Eles estão usando DNA ambiental, ou eDNA, que é simplesmente DNA de diferentes criaturas espalhadas pelo ambiente. Você pode pensar nisso como a versão ecológica de "tudo em todos os lugares ao mesmo tempo".

“Todas as espécies que existem num determinado ambiente, num determinado ecossistema – podem estar a morrer, a decompor-se, a urinar, a defecar, a respirar, o que quer que seja”, diz Morten Allentoft, biólogo evolucionista da Universidade Curtin. E esse conjunto de processos “facilita a liberação de células no meio ambiente, e todas as células contêm DNA”.

Os pesquisadores retiraram o eDNA de folhas e flores, filtraram-no da água, retiraram-no do ar e até o coletaram nas entranhas de besouros de esterco e nas refeições de sangue de sanguessugas.

Um dia, enquanto Allentoft caminhava ao redor do Lago Bibra em sua casa em Perth, ele notou nas árvores montes de teias gigantes que foram formadas por aranhas tecendo orbes douradas.

“Nos meus tempos de biologia, disseram-me que as teias de aranha [são] pegajosas”, diz ele com uma risada. "Você pode ver que eles estão bagunçados, estão sujos. E eu estava pensando comigo mesmo: 'Talvez essas teias de aranha [sejam] grandes filtros de ar passivos. Eles ficam lá por dias ou semanas - meses até. Eles podem muito bem estar capturando o DNA que [está] flutuando.'"

Trabalhos anteriores mostraram que as teias são boas fontes de DNA de insetos, incluindo o que as aranhas comem. Mas Allentoft e Newton queriam ver se as teias também retinham ADN de animais vertebrados, talvez levados para lá pelo vento ou depositados por insectos.

Cangurus e cangurus e outros animais.Meu Deus!
Então Newton dirigiu até o Karakamia Wildlife Sanctuary, uma floresta a cerca de 48 quilómetros de Perth, e coletou teias de aranha nos galhos e arbustos. “Se você olhar para Shrek, onde a princesa Fiona coleta fio dental de teia de aranha para Shrek, é muito semelhante a esse processo”, diz Newton. "Basta pegar um pedaço de pau e envolvê-lo."

Nenhuma aranha foi ferida ou coletada, mesmo que suas teias tenham sido desmanteladas. “Nós simplesmente os retiramos da web”, diz Newton.

É claro que não está claro o que as aranhas pensaram dessa abordagem.

“Então, quando dizemos que isto não é invasivo”, acrescenta Allentoft com um sorriso, “bem, as aranhas podem realmente não pensar isso”.

De volta ao laboratório, Newton amplificou as pequenas quantidades de DNA das teias. Eles estavam cheios de material genético de animais de Down Under.

“Foi maravilhoso”, diz Allentoft. "Podíamos ver esses cangurus [e] cangurus." Havia outros nove mamíferos, 13 espécies de pássaros, o sapo motociclista e o lagarto-olho-de-cobra. A análise da floresta também foi capaz de coletar DNA da raposa vermelha, do rato doméstico e do rato preto – espécies invasoras que não pertencem à Austrália.

Para confirmar que as teias estavam captando DNA de animais locais, Newton também coletou amostras no Zoológico de Perth. E essas teias continham DNA de 21 aves, cinco répteis, dois anfíbios e 33 mamíferos, incluindo girafas, elefantes, rinocerontes, orangotangos, lémures e suricatos.

Por outras palavras, a técnica funcionou. Representa uma nova forma de rastrear a biodiversidade animal e de nos alertar quando devemos intervir para conservar as espécies nativas e intensificar os esforços para eliminar as invasoras.

“Acho que é inteligente e fofo”, diz Elizabeth Clare, ecologista molecular da Universidade York, em Toronto, que não esteve envolvida no estudo. "É uma boa forma não invasiva de amostragem de vertebrados terrestres. Existem milhares de documentos em papel que estão a  estudar o movimento do DNA através da água e muito poucos na terra. E por isso precisamos realmente de mais explorações como esta para começar a diminuir a distância que o material viaja, como se acumula e quanto tempo duram estes sinais."

Por exemplo, Newton não sabe se as teias que coletou estavam no lugar há dias, semanas ou meses. Mas existem certas aranhas orbe que constroem uma nova teia todas as noites antes de destruí-la pela manhã. “Imagine que você pode obter DNA dessas teias de aranha”, diz Allentoft. “Então eles capturariam, em um momento muito preciso, quais espécies realmente existem no momento”.

A seguir, Newton e Allentoft investigarão o que a localização e a vida útil das teias de diferentes espécies de aranhas podem lhes dizer sobre quais animais estão rondando nas proximidades. É a versão deles da rede mundial de computadores – não menos cheia de informações importantes.

segunda-feira, 14 de agosto de 2023

Dia Mundial do Lagarto: 4 curiosidades que talvez desconheça sobre este grupo de répteis


Chamamos lagarto, sensu latu, a um grupo de répteis pertencentes aos Squamata, geralmente quadrúpede, que inclui mais de 7.000 espécies, incluindo espécies tão emblemáticas como os camaleões ou os dragões de Komodo e outras tão próximas do nosso dia-a-dia como são as inúmeras espécies de lagartixas ou osgas.

Estas podem ser encontradas um pouco por todo o mundo, exceto em locais onde se registam temperaturas extremamente frias (como a Antártida) e algumas ilhas.

No entanto, é importante notar que “lagarto” não é um termo com validade taxonómica. Isto porque, da maneira que o termo é normalmente utilizado, designa um grupo parafilético, ou seja, deixa de fora animais (nomeadamente as cobras e anfisbaenas) que são parentes mais directos de alguns dos seus membros do que os restantes.

Neste Dia Mundial do Lagarto, debrucemo-nos sobre alguns factos interessantes sobre este grupo tão diverso e tão próximo de nós:

1. Os lagartos têm tamanhos muito variáveis
As espécies actuais de lagartos apresentam uma enorme diversidade de tamanhos, indo do recém-descoberto madagascarenho nano-camaleão (Brokeesia nana), que não só é o mais pequeno lagarto conhecido, mas provavelmente o mais pequeno de todos os répteis, com pouco mais de dois centímetros da ponta do nariz à ponta da cauda, até ao enorme dragão-de-Komodo (Varanus komodoensis), um lagarto monitor endémico de algumas ilhas do Sul da Indonésia, que pode chegar aos três metros de comprimento e mais de 70 quilogramas de peso. Mas mesmo este último não alcança o tamanho do seu parente extinto, o Megalania prisca da Austrália, que poderá ter alcançado mais de cinco metros! Em Portugal, as espécies nativas têm tamanhos bem mais modestos: o nosso maior lagarto, o sardão (Timon lepidus) atinge, no máximo, um metro e meio de comprimento, sendo dois terços deste referentes à cauda.

2. Alguns lagartos são venenosos
Já há muito tempo que se sabe que os lagartos do género Holoderma,  que inclui o famoso monstro-de-Gila (Holoderma suspectum), possuem não só veneno, como um sistema de aplicação do mesmo único entre os vertebrados. Este é injectado vindo de glândulas na mandíbula inferior (e não na superior, como nas cobras) na base dos dentes e se espalha nestes por fenómenos de capilaridade, sendo depois aplicado na presa por mastigação. Embora em geral não seja mortal para os humanos, este veneno provoca edemas e baixas súbitas na tensão arterial e é considerado talvez o mais doloroso produzido por um vertebrado. No entanto, só mais recentemente foi descoberto que os Varanidae (o grupo a que pertence, por exemplo, o dragão-de-Komodo) também possuem glândulas que produzem veneno, e que o usam corriqueiramente na obtenção de presas. No entanto, estes não possuem sistemas de aplicação do mesmo tão sofisticados como os Holoderma, tendo talvez por isso passado despercebidos durante mais tempo. Em Portugal, não temos espécies venenosas.

3. Portugal tem uma espécie de lagarto endémica
Embora o país tenha várias espécies de lagartos (e, graças a análises genéticas, o número destas tenha aumentado nos últimos anos), quase todas as espécies nativas existem também nativamente noutros países, principalmente na vizinha Espanha. No entanto, há uma espécie de lagarto que só ocorre nativamente em Portugal: a lagartixa-da-Madeira (Teira dugesii). Embora este réptil apareça também nos arquipélagos dos Açores e das Canárias e tenha duas populações estabelecidas em Portugal Continental, estas devem-se a introduções acidentais pelo homem, provavelmente através da carga de navios, sendo esta espécie apenas nativa da Madeira e das Selvagens.

  Lagartixa da Madeira (Teira dugesii)          

4. A reprodução dos lagartos é extremamente variável
A maior parte dos lagartos é, como a generalidade dos répteis, ovípara, ou seja, reproduzem-se pondo ovos. No entanto, existem espécies que desenvolveram outras estratégias, como a ovoviparidade (existem ovos, mas estes são incubados dentro do corpo da progenitora) ou mesmo, no caso de uma espécie em específico, Zootoca vivipara, a viviparidade (ou seja, a fêmea dá à luz juvenis já formados, sem terem passado um período dentro de um ovo). Esta última espécie é particularmente interessante, visto que apresenta populações ovíparas e vivíparas, por vezes vivendo lado a lado.

Adicionalmente os lagartos apresentam um número assinalável de espécies totalmente partenogénicas (sendo que algumas outras demonstram capacidade partenogénica facultativa). Isto significa que as espécies em que não ocorre fecundação são constituídas totalmente por fêmeas. No entanto, nenhuma destas espécies ocorre no nosso país.

Não te esqueças de partilhar fotos e vídeos do teu lagarto favorito nas redes sociais com #WorldLizardDay
Don’t forget to share pictures and videos of your favorite lizard on social media with #WorldLizardDay

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Um décimo das espécies animais do Brasil estão em risco de extinção


Um décimo das espécies animais do Brasil está em risco de extinção em algum grau, segundo uma plataforma lançada na quarta-feira pelo Governo brasileiro que inclui dados sobre 14.785 espécies.

Avaliar populações de animais nos mais diversos biomas brasileiros e conhecer as possíveis ameaças: queimadas, desmatamentos, destruição de habitat, caças e matanças deliberadas. Nesta quarta-feira (2), o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) divulgou a evolução de estudos e a publicação de uma plataforma na internet que apresenta a situação de quase 15 mil espécies no país. Trata-se do Sistema de Avaliação do Risco de Extinção da Biodiversidade, conhecido como Salve.  

De acordo com a Plataforma de Avaliação do Risco de Extinção da Fauna (Salve), uma plataforma virtual lançada hoje na sede do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) em Brasília, 10,8% das espécies do país estão criticamente ameaçadas, em perigo, vulneráveis ou quase ameaçadas.

A plataforma descreve 364 espécies, 2,5% do total, como criticamente em perigo; outras 428 como em perigo (2,9%), 469 como vulneráveis (3,2%) e 320 como quase ameaçadas (2,2%).

Das espécies listadas, seis já estão extintas, uma está extinta na natureza (restam exemplares em cativeiro) e três estão extintas nas suas regiões de habitat.

De acordo com a plataforma, a grande maioria das espécies brasileiras (11.767 ou 79,6%) está numa situação "menos preocupante" em termos de ameaças de extinção, e para outras 1.207 (8,2%) não há dados suficientes para indicar o grau de ameaça que enfrentam.

Qualquer pessoa pode fazer pesquisa na plataforma, pelo nome popular ou científico do animal. Para o coordenador da Coordenação de Avaliação do Risco de Extinção das Espécies da Fauna (Cofau) e analista ambiental do ICMBio, Rodrigo Jorge, a iniciativa vai contribuir para a conservação das espécies ameaçadas. 

“Precisamos avançar na realização de análises para estimar a tendência da biodiversidade no Brasil”, afirma. Ele explica que houve um aumento do número de espécies ameaçadas, mas o universo de espécies avaliadas também cresceu. 

Políticas públicas
O pesquisador Rodrigo Jorge acredita que, a partir das avaliações feitas pelos cientistas, a perda e a degradação de habitat da fauna são algumas das principais ameaças. Segundo ele, há uma relação direta com o aumento do desmatamento nos últimos anos. 

“Fica evidente a necessidade urgente de reverter essa tendência. Por isso, a postura da atual gestão de priorizar o combate ao desmatamento traz boas perspectivas para a conservação da biodiversidade”, opina.

As pesquisas do ICMBio contaram com apoio do Projeto Pró-Espécies: Todos contra a Extinção, e com a participação de especialistas da comunidade científica.

Como aponta a entidade, a iniciativa tem o objetivo de facilitar a gestão do processo de avaliação do risco de extinção e tornar essas informações mais acessíveis para a geração de conhecimento e implementação de políticas públicas voltadas à conservação da biodiversidade. 

Catalogação
Dentro das quase 15 mil espécies avaliadas, já estão publicadas e disponíveis as fichas completas de 5.513 espécies. Segundo o ICMBio, a expectativa é que - até o final deste ano - sejam concluídos os trabalhos para a publicação de nova atualização da lista de espécies ameaçadas da fauna brasileira e disponibilização das fichas das espécies. 

“O Brasil é reconhecido mundialmente por abrigar a maior biodiversidade do planeta, e a partir da atualização e disponibilização desses dados será possível reforçar a implementação de ações que promovam a conservação da nossa fauna”, diz Rodrigo. 

O ICMBio exemplifica que as informações disponíveis na plataforma podem ser utilizadas para processos de licenciamento ambiental. Acentua que “análises realizadas a partir dos registros de ocorrência de espécies disponibilizados no Salve permitirão verificar áreas de concentração de espécies ameaçadas”.

Segundo o instituto, o desenvolvimento da plataforma teve início em 2016. Esse processo de avaliação do risco de extinção das espécies da fauna brasileira foi conduzido pelos 13 centros nacionais de pesquisa e conservação (CNPC) do órgão.

Mais de 1,5 mil profissionais participam das avaliações. Os trabalhos seguiram o método de categorias e critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e os resultados são publicados somente após a validação das informações. 

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

The Huxleys: a revolution in how we see ourselves


Ao longo dos séculos 19 e 20, a família Huxley reformulou a forma como pensamos sobre a humanidade e nosso relacionamento com o mundo natural. Dentro de uma família de cientistas, educadores, romancistas, místicos e cineastas, dois homens lideraram o caminho: ‘Darwin’s Bulldog’, o zoólogo T.H. Huxley e seu neto e herdeiro intelectual, o ecologista e conservacionista Julian Huxley.

Da religião à genética e à psicologia humana, o impacto dos Huxleys foi sentido em alguns dos tópicos mais controversos e significativos de sua época. Nos estudos do mundo natural, eles contribuíram para a fundação das novas ciências da ecologia e da conservação animal.

Adeptos de escrever sobre si mesmos de maneiras dolorosamente reveladoras, honestas e sem precedentes, as vidas da família, casamentos, sucessos e fracassos também estavam sujeitos ao seu fascínio pela experiência emocional, sexual e psicológica.

Na RSA, a importante historiadora da ciência Alison Bashford se junta ao historiador Thomas Dixon e ao escritor Stuart Jeffries para discutir o impacto de três gerações de Huxleys, explorando como as raízes do legado de Huxley se aprofundam nas conversas científicas e culturais que ainda estamos tendo hoje .

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Qual a diferença entre veganismo e vegetarianismo?


A principal diferença entre veganos e vegetarianos é que os veganos não consomem nada que tenha origem animal, seja em sua alimentação ou outros produtos, como artigos para higiene, limpeza, vestuário ou remédios. Já o vegetariano não come carne, peixe e aves, mas consome outros produtos de origem animal.

A principal motivação dos veganos e vegetarianos é ética, no entanto, o vegetarianismo também pode ser motivado por questões de saúde e religião.
VeganoVegetariano
AlimentaçãoRejeita qualquer alimento relacionado com animais, como carne, leite, mel, ovos, etc.Não consome peixe, carne e aves.
Produtos lácteos e derivadosNão consome.Pode consumir.
ProdutosNão usa produtos relacionados a animais.Usa produtos relacionados a animais.
O que éPode ser visto como um estilo de vida.É um tipo de dieta.
RazõesA principal razão é a questão ética, pela não exploração animal.Pode ser adotado por questões éticas, alimentares, de saúde ou religião.

O que é ser vegetariano?
É considerado vegetariano o indivíduo que exclui carne, aves e frutos do mar de sua dieta. Porém, existem diferentes tipos de vegetarianismo e alguns também excluem laticínios e ovos.

Os tipos mais comuns de vegetarianos incluem:
Ovo-lacto vegetarianos: vegetarianos que evitam carne de animais, mas consomem laticínios e produtos com ovos.
Lacto-vegetarianos: vegetarianos que evitam carne e ovos, mas consomem produtos lácteos, como leite, queijo, iogurte, manteiga, entre outros.
Ovo-vegetarianos: vegetarianos que evitam todos os produtos de origem animal, porém consomem ovos.

Ainda há a dieta flexitariana, feita por pessoas que estão cortando a ingestão de carne, mas ainda comem em alguns casos. Também é considerado aquele que não come outros tipos de carne, porém consome peixe.

Embora às vezes considerados vegetarianos, os flexitarianos comem carne animal ocasionalmente. Portanto, eles tecnicamente não se enquadram na definição de vegetarianismo.

O que é ser vegano?

O veganismo pode ser visto como a forma mais radical e estrita de vegetarianismo. Mais do que uma dieta, pode ser considerado um estilo de vida, que busca excluir todas as formas de exploração e crueldade animal.

Os veganos, além de não consumirem nenhum tipo de carne, dão um passo adiante eliminando todos os alimentos de origem animal de sua dieta, incluindo leite, mel e ovos.

Além disso, o veganismo não se limita à alimentação. O vegano não utiliza nenhum produto de origem animal, incluindo produtos de higiene, cosméticos, vestuário, medicinas, entre outros.

Razões do vegetarianismo e veganismo

As dietas vegetarianas já existem desde 700 a.C. Suas razões podem ser éticas, mas a dieta também pode ser adotadas por questões de saúde, ambientalismo e religião.

Já a razão para o veganismo é principalmente ética. A motivação é evitar todas as formas de exploração animal e, por isso, além da alimentação, os veganos abrem mão de qualquer produto de origem animal, seja para higiene, medicina, entre outros.

Em termos de ética, os vegetarianos se opõem a matar animais para alimentação, mas consideram aceitável o consumo de subprodutos de origem animal, como leite e ovos. Por outro lado, os veganos acreditam que os animais têm o direito de estar livres do uso humano, seja para alimentos, roupas, ciência ou entretenimento.

Veganos também tendem a evitar circos, zoológicos, rodeios, corridas de cavalos e qualquer atividade envolvendo o uso de animais para entretenimento.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Almodôvar vai ter um hotel e um safari com animais da savana de África




Em 2018, após uma reunião com a Câmara Municipal de Almodôvar, tornou-se público o desejo que a empresa angolana Africa Land: Turismo e Natureza, gerida por Paulo Catalo, tinha em inaugurar um parque zoológico e um enorme hotel no município. Três anos depois, o sonho começa a passar do papel para a realidade, graças a um investimento de dois milhões de euros.

A 23 de dezembro foi disponibilizada a consulta pública deste novo projeto, que pode ser vista até 3 de fevereiro, adiantando a vontade da empresa em “recriar o ambiente dos Safari que se realizam em África, contemplando um conjunto de exemplares de animais típicos da savana africana, felinos e herbívoros (21 exemplares de carnívoros e 65 exemplares de herbívoros), que servem como referencial da conservação da vida animal aliada às vertentes de educação e investigação.”

Com esta abertura pode-se começar a questionar a segurança dos animais que ali estarão, mas a Africa Land antecipa-se a esta preocupação: “O espaço foi concebido e dimensionado tendo em conta o bem-estar dos animais, no sentido de lhes serem proporcionadas as melhores condições, tão próximas quanto possível dos seus ecossistemas naturais.”

O Africa Safari Park — Almodôvar vai nascer na propriedade da Herdade da Camacha, localizada a cerca de sete quilómetros da vila de Almodôvar.

Segundo os planos da empresa, o novo safari assentará em três pilares cruciais: conservação, para chamar a atenção da sociedade para as questões da sustentabilidade e proteção da biodiversidade; educação, onde visam desenvolver um projeto de formação e divulgação dos temas relacionados com a sobrevivência das espécies que lá estarão presentes e investigação, graças à criação de um espaço onde este pilar terá um papel de extrema relevância na procura de soluções para os problemas e ameaças crescentes a estes ecossistemas, a sua diversidade e riqueza.

Nos primórdios do projeto, os felinos ficariam localizados na zona norte, mas à medida que o tempo foi passando, acharam que era melhor passá-los para a área sul do recinto, após um parecer do Instituto da Conservação da Natureza e Departamento de Conservação da Natureza e Florestas do Alentejo. O projeto passou, ainda, a incluir uma faixa de proteção à ribeira de Oeiras, vedada à circulação de animais, e foram delimitadas áreas vedadas para a circulação dos animais para proteção de núcleos relevantes de regeneração de azinheiras.

Com uma área total de 147,67 hectares, o Africa Safari Park — Almodôvar estará dividido em três zonas diferentes. A primeira é a portaria, constituída pela entrada principal do empreendimento, uma área de estacionamento principal, um abrigo de veículos transfer, a área reservada aos contentores para deposição de resíduos sólidos urbanos e um portão de acesso à via de serviço/via de segurança do parque.

O Africa Safari Lodge, o estabelecimento hoteleiro de cinco estrelas, é descrito como sendo a zona dois, e inclui um edifício central e 32 unidades de alojamento com 72 camas e capacidade para 108 hóspedes. Além disso, quem lá pernoitar poderá desfrutar de um spa, piscina exterior, restaurante, bar e uma sala para eventos e conferências. A visita ao safari funcionará mediante uma reserva prévia, dando-se prioridade a todos os visitantes que ficarem alojados no hotel.

Já o tão aguardado zoo, que se estende por 141 hectares, terá as áreas de herbívoros e de carnívoros, edifícios de apoio, área técnica, quarentena e centro de interpretação. Ao vermos o documento é possível verificarmos alguns animais que farão parte da savana, caso tudo corra conforme planeado: elands, palancas, oryxs, kudos, hartebeests, leões, girafas, linces-ibéricos, caracais, chitas, tigres, zebras, entre vários outros.

As visitas ao parque serão feitas em veículos todo-terreno, que terão capacidade para nove ou 12 passageiros. Ainda não há data de abertura, mas a empresa responsável já estima que, diariamente, terão aproximadamente 200 visitas (cerca de 5160 por mês e 54810 por ano). Este novo espaço planeia criar 18 postos de emprego permanentes em Almodôvar. O hotel deverá empregar outros 40 funcionários. Totalizará quatro por cento dos empregos na freguesia de Almodôvar.

domingo, 26 de dezembro de 2021

Thomas Lovejoy, grande estudioso da Amazónia, morre nos EUA



O biólogo americano Thomas Lovejoy, conhecido como o "padrinho da biodiversidade" por ter cunhado o termo na década de 1980 e um dos principais especialistas em floresta amazônica, morreu neste sábado (25/12), aos 80 anos de idade, em Washington.

Lovejoy decidiu estudar biologia após fazer um estágio num zoológico no estado de Nova York quando ainda estava na escola. Ele começou a estudar a floresta amazónica no Brasil em 1965 e obteve seu doutorado pela universidade Yale em 1971.

Grande estudioso da interação entre mudanças climáticas e biodiversidade, ele ganhou em 2012 o prémio Blue Planet, considerado o Prémio Nobel do Meio Ambiente.

Lovejoy foi conselheiro ambiental dos ex-presidentes americanos Ronald Reagan, Bill Clinton e George W. Bush e ex-conselheiro-chefe do Banco Mundial para biodiversidade, e era um membro honorário da National Geographic, que financiou as suas primeiras pesquisas sobre pássaros da floresta amazónica.

Ele também foi diretor da organização ambientalista WWF, dos Estados Unidos, de 1973 a 1987, tendo sido responsável pela orientação científica a respeito das florestas tropicais do hemisfério ocidental.

"Tom deixa um profundo legado no campo da biologia e na National Geographic. (...) As pesquisas pioneiras de Tom sobre a Amazónia, sua advocacia apaixonada e muitas outras de suas conquistas nos ajudaram a melhor entender, apreciar e a cuidar da grande diversidade da vida em nosso planeta", disse Jill Tiefenthaler, diretor executivo da National Geographic, em um comunicado.

O governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), também lamentou a morte de Lovejoy no Twitter, e afirmou que ele era "um dos maiores cientistas e estudiosos da Amazôóia", que "deixa um legado incomparável de conhecimento sobre a Amazónia para esta e futuras gerações".

Vínculo com o Brasil
Lovejoy esteve inúmeras vezes no Brasil para estudar a floresta amazónica, e ajudou a fundar o Centro de Biodiversidade da Amazónia e o Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais, no final da década de 1970.

Ele foi o primeiro ambientalista condecorado pelo governo brasileiro com a Ordem do Rio Branco, em 1988, e também recebeu a Ordem do Mérito Científico, em 1998.

Em entrevista à DW Brasil em agosto de 2019, Lovey demonstrou preocupação com o futuro da floresta em relação ao avanço do desmatamento e afirmou que o presidente Jair Bolsonaro ignorava o meio ambiente a a ciência.

Alguns meses antes, ele havia assinado um editorial na revista científica Science Advances, ao lado do climatologista brasileiro Carlos Nobre, no qual alertava que o desmatamento na Amazónia estava caminhando para o que chamam de ponto de inflexão, a partir do qual os padrões biológicos e climáticos são afetados de modo irreparável.

Na entrevista, ele afirmou ainda ter esperança que o Brasil pudesse no futuro retomar o posto de líder global no meio ambiente e que as ameaças à biodiversidade fossem enfrentadas "por meio do bom diálogo entre nações".

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

China: A Convivência Nem Sempre Pacífica Entre Humanos e Elefantes

Esbarrar com um elefante selvagem está a transformar-se em algo comum para alguns aldeões na China, onde o aumento de espécimes e a redução do seu habitat implica uma convivência às vezes complicada com os humanos.


Atualmente, a China está apaixonada pelos paquidermes devido à incrível travessia de 14 desses animais, que no ano passado saíram de uma reserva no sudeste tropical rumo ao norte.

Acompanhada diariamente pelas câmaras de televisão, esta misteriosa transumância destrói plantações agrícolas e causa calafrios às autoridades, preocupadas com a segurança dos moradores.

Quase todos os elefantes asiáticos presentes na China estão na cidade de Xishuangbanna, um território tropical povoado por minorias étnicas e localizado nas fronteiras com Mianmar e Laos.

Os elefantes asiáticos estiveram à beira da extinção na China na década de 1980, quando havia apenas 150 espécimes restantes. A proibição da caça em 1988 e a criação de reservas no território fragmentado melhoraram a situação e hoje há mais de 300 animais. Elefantes num centro de tratamento em Xishuangbanna, província de Yunnan 

Com um peso que pode chegar a quatro toneladas, cada animal é capaz de comer até 200 quilos de alimento por dia, o que os leva a roubar quintas, devorar cultivos e provocar danos nas casas, com prejuízos estimados em 20 milhões de yuanes (quase 3 milhões de dólares) por ano.

Em Xishuangbanna, eles são inclusive a principal fonte de pedidos de indemnização às seguradoras, de acordo com Zhang Li, professor de Ecologia na Universidade Normal de Pequim e comprometido com a proteção dos elefantes.

Os paquidermes também mataram 41 pessoas entre 2013 e 2019, afirma. As vítimas foram estranguladas, pisoteadas ou até mesmo desmembradas.

A imprensa local informa com frequência sobre os ataques, que costumam ser cometidos por mães que protegem os filhos ou por machos jovens solitários e instáveis.

Os moradores acostumaram-se e sabem como agir em caso de alerta. Devem refugiar-se em locais fechados, subir as escadas, não se aproximar dos animais e, acima de tudo, não usar fogos de artifício para assustá-los, já que isso os enfurece.

A viagem dos 14 elefantes continua
A razão exata pela qual os 14 elefantes começaram sua viagem para o norte ainda é um mistério.

"A perda e fragmentação de seu habitat poderia ser a causa principal", estima o professor Zhang Li. Um fenómeno que se intensificou com a competição entre paquidermes pela comida, à medida que sua população aumenta. Zhang Li acredita que as coisas podem piorar ainda mais com o aquecimento global.

A China está a desenvolver um novo sistema de parques nacionais para fortalecer a proteção do habitat de espécies como pandas e tigres. Um elefante "beija" uma turista num parque temático dedicado aos animais em Xishuangbanna, província deYunnan 

Os cientistas propõem um parque nacional dedicado aos elefantes de Xishuangbanna. O projeto, no entanto, é politicamente arriscado, já que exigiria tomar terras agrícolas e deslocar centenas de milhares de pessoas para garantir a continuidade territorial entre as diferentes áreas.

Enquanto isso, os chineses estão a aprender a conviver com os elefantes. "Não posso dizer que gosto dessa situação", disse o agricultor Lu Zhengrong. "Mas temos de encontrar um equilíbrio entre os animais e os humanos. Devemos protegê-los", acrescentou.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Dia Mundial do Elefante

Este dia, conhecido mundialmente como World Elephant Day, tem em vista a preservação dos elefantes de todo o mundo. A cada quinze minutos morre um elefante na África, envenenado ou baleado pelo seu marfim e pela sua carne. Na China o marfim vale mais do que o ouro. 

O elefante é o maior mamífero da terra (pode pesar 7 toneladas) e mesmo assim um animal muito vulnerável. A sua tromba é capaz de arrancar ramos ou de apanhar uma única folha do chão. Inteligente, dedicado à família, emocional e com uma memória extraordinária, o elefante é um animal dotado das boas características do homem, mas que recebe os piores comportamentos por parte deste.  

Origem do dia
Símbolo nacional da Tailândia, o elefante mereceu um dia próprio em 2012. O Dia Mundial do Elefante foi fundado pela realizadora canadiana Patricia Sims e pela Elephant Reintroduction Foundation da Tailândia. Atualmente a data é apoiada por cerca de 70 fundações de vida selvagem no mundo.

No dia do Elefante, deixamos algumas curiosidades sobre o maior animal terrestre do mundo:
  1. O elefante pesa entre 4 a 6 toneladas e mede em média quatro metros de altura;
  2. É um mamífero herbívoro, podendo comer entre 70 a 150 kg de alimento por dia;
  3. Pode levantar até 10.000 kg;
  4. Os filhotes podem nascer com 90 kg.
  5. A tromba, tem entre 40000 a 100 000 músculos individuias, sendo este órgão extremamente forte mas também muito sensível - pode arrancar 1 só folha de erva, ou derrubar uma árvore. Serve para arrancar alimento e levá-lo à boca, para beber água (até 14 litros de cada vez), para tomar banho, e serve de tubo de respiração durante a natação, e é usado em interações sociais e para cheirar.
  6. As presas de um elefante crescem continuamente (aproximadamente 15 cm por ano num adulto). São usadas para escavar, para retirar a casca das árvores, transportar árvores ou ramos para criar trilhos, marcar território e como armas, ocasionalmente
  7. São paquidermes, que significa “com pele espessa” (cerca de 2,5 cm de espessura).
  8. As grandes orelhas do elefante são são feitas de material muito fino esticado sobre cartilagem e uma vasta rede de vasos sanguíneos. Nos dias quentes, os elefantes agitam constantemente as orelhas, criando uma brisa suave. Esta brisa arrefece  os vasos sanguíneos à superfície, e o sangue mais fresco circula então.
  9. Mais sobre os elefantes aqui
Atualmente todas as espécies de elefantes são considerados como espécies em perigo de extinção, segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (UICN). Os elefantes encontram-se ameaçados pela caça ilegal e perda de seu habitat.

Atividades
Neste dia pode:
  1. aderir a um evento para a proteção dos elefantes no site oficial desta data;
  2. assistir ao premiado documentário “Return to the Forest”;
  3. vestir de cinzento ou roupa com desenhos de elefantes;
  4. desenhar um elefante e colocar o desenho online (20 mil desenhos equivalem a 150 mil dólares na ajuda aos elefantes);
  5. fazer donativos a entidades de proteção de elefantes;
  6. visitar o jardim zoológico; 
  7. divulgar a data nas redes sociais e promover a proteção dos elefantes.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Discurso e Prática na Comunicação Ambiental, por Ricardo Goothuzem



Recentemente, descobri um interessante resumo dos discursos vigentes na área ambiental em um excelente artigo da pesquisadora norte-americana Tema Milstein, publicado na revista ‘Environmental Communication’, sobre o papel dos zoológicos como agentes sistêmicos de transformação cultural e ambiental. Partindo do princípio de que a prática discursiva abriga conteúdos ideológicos que podem revelar relações de poder e subordinação – e, ao mesmo tempo, pressupõe o surgimento de discursos opostos –, ela estabelece três formas de dialética entre os discursos dominantes na área ambiental.
A primeira seria a dialética entre Domínio-Harmonia: o tradicional discurso do progresso com base no indispensável domínio sobre e transformação da natureza para atender às necessidades da sociedade industrial gera seu oposto – a argumentação de que há uma forma de viver em harmonia com o todo. Ao contrário do que se possa pensar, essa última forma de pensar não é recente e foi manifestada na obra de filósofos e pensadores durante o surgimento e a consolidação da revolução industrial.
Outra dialética seria a da “Outrização” (sim, essa é a esquisita tradução para Othering) em contraposição à Conexão. O discurso da Outrização estabelece a predominância e a separação de alguns seres humanos com relação à natureza e a outros seres humanos, o que ajuda a justificar as práticas abusivas de exploração econômica e social. Em contraposição, temos o conceito Conexão como interconectividade universal, a relação de interdependência que impera na natureza e que compreende o homem apenas como mais uma espécie.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Estou a ler: O Mundo Sem Nós de Alan Weisman

Legenda em Português (Scientific American Brasil) do filme:

Imagine que em uma manhã o dia começou como qualquer outro, mas com uma grande diferença: todos os humanos desapareceram. Como seria a Terra sem pessoas? Obviamente, muito mais silenciosa. Mas o que realmente aconteceria? Poderia a natureza apagar todos os traços da nossa existência? Algumas coisas mudariam rapidamente. Primeiro, os serviços de energia começariam a desligar. Em uma cidade como Nova York, as bombas nos metrôs seriam desligadas e a água invadiria tudo. As ruas acima entrariam em erosão rapidamente e desabariam. Em alguns dias, a natureza começaria a espalhar-se. Sem a constante atenção dos humanos, o exterior dos edifícios e construções ficaria imundo, racharia, e a vegetação começaria a se enraizar. Passo a passo, um estranho e novo ecossistema urbano começaria a se desenvolver. E rápido. Dez anos depois e o Central Park está se tornando um vasto pântano, como era no começo. Cem anos passam e a infra-estrutura de aço de muitos prédios está sendo corroída. As fachadas estão se soltando. Alguns começam a cair. O que antes eram agitadas avenidas, agora são canyons. Mil anos depois e quem sabe? Com o aquecimento global e a proliferação de descendentes de animais de zoológico, o Central Park começaria talvez a se parecer com algum lugar da África. Dez mil anos se passam. Talvez algum traço da nossa civilização permaneça, e não apenas o lixo tóxico que geramos para termos combustível para nossa existência. Uma Terra sem pessoas provavelmente seria muito diferente. Mas quem saberia disso?

Aconselho vivamente a ler o livro e também a Reportagem (de 8 páginas) Uma Terra Sem Humanos, publicada em Agosto de 2007 pela Scientific American Brasil

sábado, 5 de fevereiro de 2005

Documento denuncia Zoo de Lisboa abate animais ilegalmente



Documento denuncia Zoo de Lisboa abate animais ilegalmente Administração do zoo admite abate e justifica acto com a lei que regulamenta parques Susana Leitão
O Jardim Zoológico de Lisboa "abate animais ilegalmente". O abate acontece "às segundas-feiras, às 08.15, junto ao gabinete de compras, perto do armazém, num matadouro, também ele ilegal". Esta é uma das queixas que consta de documentação que denuncia algumas situações ocorridas no zoo, e aque o DN teve acesso.A administração do zoo admite que abate animais, mas diz que não é ilegal, justificando o acto com a legislação. E o veterinário do parque argumenta ser normal todos os zoos do mundo praticarem a eutanásia. "Só há um decreto lei que regulamenta a actividade do parque e que é o que aplicamos no zoo, Decreto-lei 59/2003 Artigo 13, nº. 1. Com base neste artigo decidimos que determinados animais têm de ser abatidos. Todos os zoos praticam a eutanásia, todos os zoos têm de praticar a eutanásia", afirmou ao DN o veterinário-administrador da instituição, Fernando Paisana. O responsável defende que "se o animal é abatido é porque tem de ser. É porque um conjunto de veterinários, e não só um, decidiu que assim tinha deser. E vamos continuar a abater". Acrescentando "Se tenho uma exploração com animais em vias de extinção, nasce um macho e nasce outro macho, um destes tem que ser abatido. Por norma, contactamos a Associação Europeia de Zoos e Aquária (EAZA) e perguntamos se há algum zoo interessado no animal, se não há o animal tem que ser abatido, com base legal". Muita da carne que alimenta os carnívoros do parque é oferecida por particulares. No entanto, na maior parte das vezes chega ao zoo ainda com vida."Num local qualquer matamos um burro, ou um cavalo, cortamos aos bocados e damos aos leões», explica Fernando Paisana. «Uma coisa que fazemos com rigor é não dar carne aos nossos animais sem que seja inspeccionada por um veterinário, e de forma tão rigorosa como se fosse para consumo público" ,salienta. O presidente da Animal - Associação Nortenha de Intervenção no MundoAnimal -, Miguel Moutinho confirmou ter conhecimento desta situação ecritica a atitude, argumentando que "a maneira como os burros (e,eventualmente, cavalos ou outros animais) são mortos no Jardim Zoológico de Lisboa, revela que há várias infracções ao Decreto-lei n.º 28/96, de 2 de Abril, que regulamenta a protecção dos animais no abate". Por seu lado, Fernando Paisana garante que todos os passos são efectuados com o "conhecimento da Direcção-Geral de Veterinária. E a única recomendação que esta dá é que o animal seja abatido com o mínimo de dor. São abatidos atiro, morte instantânea, aqui no zoo, não pode ser noutro sítio".Outra situação denunciada no dossier é a falta de condições em que vivemalguns animais, nomeadamente felinos, grandes primatas, e outros animais de grande porte (ver texto ao lado). O veterinário administrador do zoo assume também que há, de facto, animais mal instalados, mas sublinha que a situação será resolvida. "Temos problemas nos grandes primatas e nos felinos. Não é oj ardim que é uma porcaria. A ala dos felinos, com excepção dos leões, está mal. As restantes estão bem. Os primatas estão pessimamente, mesmo assim estão melhor do que em grandes zoos da Europa".
Jaulas podem ter os dias contados na Maia
Paula FerreiraSansão vai, em breve, viajar para um jardim zoológico na Holanda. O jovem orangotango vive no Zoo da Maia num espaço exíguo. Com acara encostada ao vidro da jaula, os olhos não perdem a expressão triste,apesar das manifestações de carinho de uma funcionária do zoo. "Ele é um barato, é o meu preferido", diz a tratadora das focas, inactiva até que oespectáculo aquático regresse, em Fevereiro.DN-Ursula Zanggerfuturo. Objectivo é acabar com as jaulas e instalar os animais em ilhas, comtoda a segurança para os visitantesO orangotango representa o paradigma deste zoo. Carlos Teixeira, presidenteda Junta de Freguesia da Maia, entidade que gere o espaço temático dedicadoà vida selvagem, lembra que o Sansão "veio de um jardim onde se encontravaainda em piores instalações". Não encontrou as condições ideais, isso énotório, embora, como ressalva o autarca, pelo menos "tem aquecimento".Conscientes de que aquele espaço não é o indicado para o primata, osresponsáveis trataram de arranjar uma alternativa. Na passada semana chegou a resposta um zoo dos Países Baixos vai acolher Sansão que poderá ver a suaqualidade de vida melhorar bastante.Este é um dos caminhos encetados para adaptar o zoo às exigências da novalegislação. Se no momento não é possível aumentar a área do parque, com 3,5hectares, optou-se por diminuir o número de animais, sobretudo no que dizrespeito aos mamíferos. Os próximos a serem contemplados com mais espaço serão os leopardos. Um animal será cedido a outro zoo e as duas jaulasexistentes transformadas numa única.O espaço, considera o presidente da autarquia, é uma questão des ensibilidade, mas não está esquecido. "Temos um acordo verbal com a Câmarada Maia que permitirá triplicar a área". O sonho de Carlos Teixeira é acabarcom as jaulas e instalar os animais em ilhas com toda a segurança para os visitantes. Até lá, vão diminuindo o número de efectivos. Em relação aos pumas, jaguares, tigres ou panteras "não há dificuldades" em conseguir interessados. Mas, em outros casos, a estratégia é evitar que procriem, "uma vez que somos contra a eutanásia", afirma o responsável do zoo. Para evitar o crescimento das espécies, separam os animais na altura do cio ou optam pela utilização de anticoncepcionais. Mas a procriação é também uma mais-valia. Ontem, o urso pardo encontrava-se sozinho. A sua companheira estava na maternidade com o ursinho nascido emDezembro. Mãe e filho deverão regressar daqui a um mês para deliciar ascrianças, principais clientes do Zoo da Maia. Em breve, os visitantes poderão visionar o que se passa na maternidade através de circuito vídeo,reforçando a componente pedagógica do parque temático. Essa necessidade foi,segundo Carlos Teixeira, a principal observação da equipa do Instituto de Conservação da Natureza e da Direcção-Geral de Veterinária, que está a acompanhar o processo de licenciamento do zoo, o qual deverá ser concluído em Abril
Lei proíbe exibição de animais O Decreto-lei n.º 59/2003 de 1 de Abril, transposição para a legislação portuguesa de uma directiva comunitária aprovada há três anos, obriga todos os jardins zoológicos a salvaguardar os parâmetros de bem-estar de cada animal, assim como proíbe a exibição de animais unicamente para fins comerciais. Ou seja, os jardins zoológicos, e parques temáticos, vão ser obrigados a ter um papel pedagógico e de preservação da natureza e de espécies. A mesma legislação assegura a fiscalização aos recintos. Se estas exigências não forem cumpridas até Abril deste ano, os recintos deverão ser encerrados de vez. Entretanto, a administração do zoo de Lisboa garantiu ao DN que até lá irá começar as obras para melhorar as instalações dos animais,c om ou sem ajuda do Estado.
Zoológico tem más condições 
O Jardim Zoológico de Lisboa não tem "condições mínimas" para alojar os animais. "As instalações são muito pobres. Aliás, é mesmo um dos mais pobresda Europa". A caracterização foi feita por Daniel Turner, da Born Free Foundation, uma organização de defesa dos animais, que esteve recentemente em Portugal para investigar aquele recinto. E a análise realizada é bastante crítica no que toca ao funcionamento do parque, confirmando um conjunto dequeixas reunidas no dossier interno a que o DN teve acesso. A associação Animal diz "não estranhar estas denúncias", apesar de o seu autor preferir manter o anonimato. "Todos os dias recebemos cartas, email sou telefonemas com as mesmas reclamações. No entanto, as pessoas não se identificam, o que nos impossibilita de dar seguimento jurídico às questões", explica Miguel Moutinho, presidente daquela associação. Por seu turno, o responsável da Born Free Foundation explica porque é que as instalações do recinto lisboeta não têm condições "Quando o zoo foi construído não se teve em conta os animais, mas sim o público. Uma prática que tem vindo a manter ao longo dos anos", afirma Daniel Turner. Segundo o dossier, os "casos mais aberrantes são os dos grandes primatas e felinos". O especialista britânico explicou ao DN que a depressão em alguns animais é bastante visível e resulta das "condições miseráveis em que são mantidos e pela falta de estímulos. Esse tipo de distúrbio comportamental, nomeadamente a repetição permanente dos movimentos estereotipados, assim como a auto-mutilação, é passível de ser revertida, mas para isso era necessário devolver aos animais algumas das condições que eles teriam no seu habitat natural".Daniel Turner alerta para o facto de as instalações dos grandes animais,como os elefantes, girafas, gorilas ou chimpanzés terem "condições miseráveis . E, aproveita para lembrar a Aldeia dos Macacos. "Aquela aldeia, como lhe chamam", ironizou, "está na mesma há anos. Os animais têm de facto espaço, mas a qualidade do mesmo é má, pois não têm vegetação para fazer oque fazem na vida selvagem, como andarem de ramo em ramo". Um dos grandes problemas, explica, é que "muitos Zoos não entendem que o importante é a qualidade das instalações e não a quantidade".O responsável deixa um alerta "Será que as grandes empresas que patrocinam estes animais sabem em que condições é que estes vivem? Julgo que não. Caso contrário, tudo seria mais grave".S.L

"People say they don't care about politics; they're not involved or don't want to get involved, but they are. Their involvement just masqueradesas indifference or inattention. It is the silent acquiescence of the millions that supports the system. When you don't oppose a system, your silence becomes approval, for it does not hing to interrupt the system. People use all sorts of excuses for their indifference. They even appealto God as a shorthand route for supporting the status quo. They talkabout law and order. But look at the system, look at the present social"order" of society. Do you see God? Do you see law and order? There is nothing but disorder, and instead of law there is only the illusion ofsecurity. It is an illusion because it is built on a long history ofinjustices: racism, criminality, and the enslavement and genocide of millions. Many people say it is insane to resist the system, butactually, it is insane not to."*/Mumia Abu-Jamal/*

domingo, 19 de dezembro de 2004

Estamos no Antropodenial?

Dotar os animais de emoções humanas tem sido um tabu científico. Mas se não o fizermos, corremos o risco de perder algo fundamental, sobre os animais e nós.


Quando os convidados chegam ao Centro Regional de Pesquisa de Primatas de Yerkes, na Geórgia, onde trabalho, eles costumam fazer uma visita aos chimpanzés. E muitas vezes, quando ela os vê se aproximando do complexo, uma chimpanzé fêmea adulta chamada Georgia corre até a torneira para pegar um gole de água. Ela então se misturará casualmente com o resto da colônia atrás da cerca de malha, e nem mesmo o observador mais perspicaz notará algo incomum. Se necessário, Georgia esperará minutos, de boca fechada, até que os visitantes se aproximem. Então haverá gritos, risadas, saltos - e às vezes quedas - quando ela de repente os borrifa. Conheço alguns macacos que são bons em surpreender as pessoas, ingénuas ou não. Heini Hediger, o grande zoobiólogo suíço, conta como ele - estando preparado para enfrentar o desafio e prestando atenção a cada movimento do macaco - foi encharcado por um chimpanzé experiente. 

Certa vez, me vi em uma situação semelhante com a Geórgia; ela tinha tomado um gole da torneira e estava se esgueirando até mim. Eu a olhei bem nos olhos e apontei meu dedo para ela, avisando em holandês, eu vi você! Ela imediatamente recuou, deixou um pouco da água escorrer de sua boca e engoliu o resto. Certamente não quero afirmar que ela entende holandês, mas ela deve ter percebido que eu sabia o que ela estava fazendo e que não seria um alvo fácil. Agora, sem dúvida, mesmo um leitor casual deve ter notado que, ao descrever as ações de Georgia, insinuei qualidades humanas como intenções, a capacidade de interpretar minha própria consciência e uma tendência para o mal. No entanto, a tradição científica diz que devo evitar tal linguagem – estou cometendo o pecado do antropomorfismo, de transformar não-humanos em humanos. 

A palavra vem do grego, significando forma humana, e foram os antigos gregos que primeiro deram má reputação à prática. Eles não tinham chimpanzés em mente: o filósofo Xenófanes se opôs à poesia de Homero porque ela tratava Zeus e os outros deuses como se fossem pessoas. Como pudemos ser tão arrogantes, perguntou Xenófanes, a ponto de pensar que os deuses deveriam se parecer conosco? Se os cavalos pudessem fazer desenhos, ele sugeriu zombeteiramente, eles sem dúvida fariam seus deuses parecerem cavalos. Hoje em dia, os descendentes intelectuais de Xenófanes advertem contra a percepção de que os animais são como nós. Existem, por exemplo, os behavioristas, que acompanham o psicólogo BF Skinner ao ver as ações dos animais como respostas moldadas por recompensas e punições, e não como resultado de decisões internas, emoções ou intenções. Eles diriam que a Geórgia não estava tramando nada quando borrifou água em suas vítimas. Longe de planejar e executar uma trama perversa, Georgia simplesmente caiu na recompensa irresistível da surpresa e aborrecimento humano. Considerando que qualquer pessoa agindo como ela seria repreendida, presa ou responsabilizada, a Geórgia é de alguma forma inocente. 

Os behavioristas não são os únicos cientistas que evitam pensar na vida interior dos animais. Alguns sociobiólogos - pesquisadores que buscam as raízes do comportamento na evolução - descrevem os animais como máquinas de sobrevivência e robôs pré-programados colocados na Terra para servir a seus genes egoístas. Há um certo valor metafórico nesses conceitos, mas foi negado pelo mal-entendido que eles criaram. Tal linguagem pode dar a impressão de que apenas os genes têm direito a uma vida interior. Nenhuma ideia antropomorfizante mais ilusória foi apresentada desde a mania do pet-rock dos anos 1970. Na verdade, durante a evolução, os genes – um mero lote de moléculas – simplesmente se multiplicam em taxas diferentes, dependendo das características que produzem em um indivíduo. Dizer que os genes são egoístas é como dizer que uma bola de neve que cresce à medida que desce uma colina é ávida por neve. Logicamente, essas atitudes agnósticas em relação a uma vida mental em animais só podem ser válidas se forem aplicadas também à nossa própria espécie. No entanto, é incomum encontrar pesquisadores que tentam estudar o comportamento humano puramente como uma questão de recompensa e punição. 

Descreva uma pessoa como tendo intenções, sentimentos, e pensamentos e você provavelmente não encontrará muita resistência. Nossa própria familiaridade com nossa vida interior anula qualquer coisa que alguma escola de pensamento possa reivindicar sobre nós. No entanto, apesar desse duplo padrão em relação ao comportamento de humanos e animais, a biologia moderna não nos deixa escolha a não ser concluir que somos animais. Em termos de anatomia, fisiologia e neurologia, não somos realmente mais excepcionais do que, digamos, um elefante ou um ornitorrinco à sua maneira. Mesmo tais marcas presumidas da humanidade como guerra, política, cultura, moralidade e linguagem podem não ser completamente sem precedentes. 

Por exemplo, diferentes grupos de chimpanzés selvagens empregam diferentes tecnologias – alguns pescam cupins com paus, outros quebram nozes com pedras – que são transmitidas de uma geração para outra por meio de um processo que lembra a cultura humana. Diante dessas descobertas, devemos ter muito cuidado para não exagerar a singularidade de nossa espécie. Os antigos aparentemente nunca deram muita atenção a esta prática, o oposto do antropomorfismo, e por isso nos falta uma palavra para isso. Vou chamá-lo de antropodenial: uma cegueira para as características humanas de outros animais, ou para as características animais de nós mesmos. Aqueles que estão em antropodenia tentam construir uma parede de tijolos para separar os humanos do resto do reino animal. Eles continuam a tradição de René Descartes, que declarou que enquanto os humanos possuíam almas, os animais eram meros autômatos. Isso gerou um sério dilema quando Charles Darwin apareceu: se descendíamos de tais autômatos, não éramos nós mesmos autômatos? Se não, como chegamos a ser tão diferentes? Cada vez que devemos fazer tal pergunta, outro tijolo é arrancado da parede divisória, e para mim essa parede está começando a parecer uma fatia de queijo suíço. 

Trabalho diariamente com animais dos quais é tão difícil se distanciar quanto de Lucy, o famoso fóssil australopitecíneo de 3,2 milhões de anos. Se devemos a Lucy o respeito de um ancestral, isso não força um olhar diferente para os macacos? Afinal, tanto quanto podemos dizer, a diferença mais significativa entre Lucy e os chimpanzés modernos é encontrada em seus quadris, não em seus crânios. Assim que admitimos que os animais são muito mais parecidos com nossos parentes do que com máquinas, então a antropodenização se torna impossível e o antropomorfismo se torna inevitável – e cientificamente aceitável. Mas nem todas as formas de antropomorfismo, é claro. A cultura popular nos bombardeia com exemplos de animais sendo humanizados para todos os tipos de propósitos, variando de educação a entretenimento, de sátira a propaganda. Walt Disney, por exemplo, nos fez esquecer que Mickey é um rato e Donald um pato. George Orwell disfarçou os males da sociedade humana sobre uma população de gado. 

Certa vez, fiquei impressionado com um anúncio de uma empresa de petróleo que afirmava que seu propano salvava o meio ambiente, no qual um urso pardo desfrutando de uma paisagem intocada tinha o braço em volta dos ombros de sua companheira. Na verdade, os ursos são míopes e não formam pares, então a imagem diz mais sobre nosso próprio comportamento do que sobre o deles. Talvez fosse essa a intenção. O problema é que nem sempre nos lembramos de que, quando usado dessa maneira, o antropomorfismo pode fornecer uma visão apenas dos assuntos humanos e não dos assuntos dos animais. Quando meu livro Chimpanzee Politics saiu na França, em 1987, meu editor decidiu (sem eu saber) colocar François Mitterrand e Jacques Chirac na capa com um chimpanzé entre eles. Só posso presumir que ele queria insinuar que esses políticos agiam como mães macacos. No entanto, ao fazer isso, ele foi totalmente contra o objetivo do meu livro, que não era ridicularizar as pessoas, mas mostrar que os chimpanzés vivem em sociedades complexas cheias de alianças e jogos de poder que, de certa forma, refletem os nossos. Muitas vezes você pode ouvir tentativas semelhantes de humor antropomórfico nas multidões que se formam em torno da exibição de macacos em um zoológico típico. Não é interessante que antílopes, leões e girafas raramente provocam hilaridade? 

Mas as pessoas que observam os primatas acabam gritando e gritando, se coçando em exagero e apontando para os animais enquanto gritam: Tive que olhar duas vezes, Larry. Pensei que eras tu! Na minha cabeça, o riso reflete o antropodenismo: é uma reação nervosa causada por uma semelhança incômoda. Essa mesma semelhança, no entanto, pode nos permitir fazer melhor uso do antropomorfismo, mas para isso devemos vê-lo como um meio e não como um fim. Não deveria ser nosso objetivo encontrar alguma qualidade em um animal que seja precisamente equivalente a um aspecto de nossa própria vida interior. Em vez disso, devemos usar o fato de sermos semelhantes aos animais para desenvolver ideias que possamos testar. Por exemplo, depois de observar um grupo de chimpanzés longamente, começamos a suspeitar que alguns indivíduos estão tentando enganar os outros - dando alarmes falsos para desviar a atenção indesejada do roubo de comida ou da atividade sexual proibida. Uma vez que enquadramos a observação nesses termos, podemos validar previsões testáveis. Podemos imaginar exatamente o que seria necessário para demonstrar a fraude por parte dos chimpanzés. Dessa forma, uma especulação se transforma em um desafio. Naturalmente, devemos estar sempre em guarda. Para evitar interpretações tolas baseadas no antropomorfismo, deve-se sempre interpretar o comportamento animal no contexto mais amplo dos hábitos e da história natural de uma espécie. 

Sem experiência com primatas, pode-se imaginar que um macaco rhesus sorridente deve estar encantado, ou que um chimpanzé correndo em direção a outro com grunhidos altos deve estar em um estado de espírito agressivo. Mas os primatologistas sabem, por muitas horas de observação, que os macacos rhesus mostram os dentes quando são intimidados e que os chimpanzés costumam grunhir quando se encontram e se abraçam. Em outras palavras, um sorridente macaco rhesus sinaliza submissão, e o grunhido de um chimpanzé geralmente serve como uma saudação. Um observador cuidadoso pode, assim, chegar a um antropomorfismo informado que está em desacordo com as extrapolações do comportamento humano. Também é preciso estar sempre ciente de que alguns animais são mais parecidos conosco do que outros. O problema de partilhar as experiências de organismos que dependem de diferentes sentidos é profundo. Foi expresso de forma mais famosa pelo filósofo Thomas Nagel quando ele perguntou: Como é ser um morcego? Um morcego percebe seu mundo em pulsos de som refletido, algo que nós, criaturas de visão, teríamos dificuldade em imaginar. Talvez ainda mais estranha seja a experiência de um animal como a toupeira de nariz estrelado. Com 22 tentáculos rosa contorcendo-se em torno de suas narinas, é capaz de sentir texturas microscópicas em pequenos objetos na lama com o mais aguçado senso de toque de qualquer animal na Terra. Os humanos mal conseguem imaginar o Umwelt de uma toupeira de nariz estrelado - um termo alemão para o ambiente percebido pelo animal. Obviamente, quanto mais próxima uma espécie estiver de nós, mais fácil será entrar em seu Umwelt. É por isso que o antropomorfismo não é apenas tentador no caso dos macacos, mas também difícil de rejeitar com base no fato de que não podemos saber como eles percebem o mundo. Seus sistemas sensoriais são essencialmente os mesmos que os nossos. 

No verão passado, um macaco salvou um menino de três anos. A criança, que havia caído 20 pés na exibição de primatas no Brookfield Zoo de Chicago, foi resgatada e carregada para um local seguro por Binti Jua, uma gorila fêmea de oito anos de idade. O gorila sentou-se num tronco em um riacho, embalando o menino no colo e dando tapinhas em suas costas, e então o carregou até uma das portas da exposição antes de deitá-lo e continuar seu caminho. Binti se tornou uma celebridade da noite para o dia, figurando nos discursos dos principais políticos que a apontavam como um exemplo de compaixão tão necessária. Alguns cientistas foram menos líricos, no entanto. Eles alertaram que os motivos de Binti podem ter sido menos nobres do que pareciam, apontando que esse gorila foi criado por pessoas e aprendeu habilidades parentais com um bichinho de pelúcia. O caso todo pode ter sido um instinto maternal confuso, eles alegaram. O intrigante nessa enxurrada de explicações alternativas é que ninguém pensaria em levantar dúvidas semelhantes quando uma pessoa salva um cachorro atropelado por um carro. O socorrista pode ter crescido em um canil, foram elogiados por serem gentis com os animais, têm uma personalidade carinhosa, mas ainda assim veríamos seu comportamento como um ato de carinho. Por que então, no caso de Binti, seu passado foi usado contra ela? Não estou dizendo que sei o que passou na cabeça de Binti, mas sei que ninguém a preparou para esse tipo de emergência e que é improvável que, com seu próprio bebê de 17 meses nas costas, ela tenha maternalmente confuso. Como no mundo um animal tão inteligente poderia confundir um garoto loiro de tênis e camiseta vermelha com um gorila juvenil? Na verdade, a maior surpresa foi a surpresa da maioria das pessoas. Os estudiosos do comportamento dos macacos não achavam que Binti tivesse feito algo incomum. Jörg Hess, um especialista em gorilas suíço, disse sem rodeios: O incidente pode ser sensacional apenas para pessoas que não sabem nada sobre gorilas. A ação de Binti causou uma profunda impressão principalmente porque beneficiou um membro de nossa própria espécie, mas em meu trabalho sobre a evolução da moralidade e da empatia, encontrei vários exemplos de animais cuidando uns dos outros. 

Por exemplo, um chimpanzé consola uma vítima após um ataque violento, colocando um braço em volta dela e dando tapinhas em suas costas. E os bonobos (ou chimpanzés-pigmeus) são conhecidos por ajudar companheiros novos em seus aposentos em zoológicos, levando-os pela mão para guiá-los pelo labirinto de corredores que conectam partes de seu prédio. Esses tipos de casos não chegam aos jornais, mas são consistentes com a ajuda de Binti ao infeliz menino e a ideia de que os macacos têm capacidade de simpatia. O baluarte tradicional contra esse tipo de interpretação cognitiva é o princípio da parcimônia – que devemos fazer o mínimo de suposições possível ao tentar construir uma explicação científica, e que assumir que um macaco é capaz de algo como simpatia é um salto muito grande. Mas esse mesmo princípio de parcimônia não argumenta contra assumir uma enorme lacuna cognitiva quando a distância evolutiva entre humanos e macacos é tão pequena? Se duas espécies intimamente relacionadas agem da mesma maneira, seus processos mentais subjacentes provavelmente também são os mesmos. O incidente no Zoológico de Brookfield mostra como é difícil evitar ao mesmo tempo o antropodenismo e o antropomorfismo: ao tentar evitar pensar em Binti como um ser humano, nos deparamos diretamente com a percepção de que as ações de Binti fazem pouco sentido se nos recusamos a assumir intenções e sentimentos. No final, devemos perguntar: que tipo de risco estamos dispostos a correr - o risco de subestimar a vida mental animal ou o risco de superestimá-la? Não há uma resposta simples. Mas, de uma perspectiva evolutiva, a bondade de Binti, assim como a travessura de Georgia, é explicada de maneira mais parcimoniosa da mesma forma que explicamos nosso próprio comportamento - como resultado de uma vida interior complexa e familiar.