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quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

OCDE - Portugal é dos países onde os professores mais se queixam da indisciplina


"A indisciplina reina nas salas de aula e coloca Portugal no primeiro lugar do tempo perdido para começar uma aula. Os seus professores são, na Europa, os mais desgastados e os que mais preenchem burocracia inútil. São vítimas de uma organização de trabalho que os adoece, mas são os melhores a adaptar as aulas às necessidades dos alunos." Estas conclusões têm cerca de uma década.

Ora, a mesma OCDE conclui em 2025 ("reportado por 62,1% dos professores, sendo muito mais alto, 73,6%, entre quem tem 5 ou menos anos de experiência"): "barulho e interrupções: Portugal é dos países onde os professores mais se queixam da indisciplina. A sua maior fonte de stress é o trabalho administrativo. Em nenhum país a taxa é tão alta."

E o que mais impressiona nestes 10 anos de intervalo, é o silêncio do MECI e o desprezo do mundo político. Quando muito, a direita, que inclui a extremada, finge que acompanha os protestos dos professores quando a esquerda governa e vice-versa. Logo que se passa para governo ou para suporte parlamentar, assume-se a condição de amnésico. Além disso, um manto de mutismo caracteriza as campanhas eleitorais.

Aliás, ser professor tornou-se, há muito, uma gestão do desgaste, da mágoa, da revolta contida e da possibilidade da baixa médica. Acima de tudo, uma sociedade adoeceu quando mais de metade dos professores relata "agressões físicas ou verbais por parte dos alunos”. Apesar de, e como já escrevi, ser injusto generalizar até pela dificuldade dos estudos empíricos: "cada aluno não é um potencial agressor, nem cada professor um provável agredido."

E o pior é o vigente cruzar de braços. Mas há soluções e sumarie-se duas ou três.
Mude-se radicalmente (e este radical é no mais sensato registo) o trágico, e populista, "estatuto" que fez do encarregado de educação um "cliente que tem sempre razão" na escola, com a habitual alegação indisciplinadora que os miúdos, as crianças-rei, percebem desde cedo: - Se a professora não se portou bem, diz que eu vou à escola.

Este clima é uma das consequências da burocracia, da autocracia desastrosa nos mega-agrupamentos, da avaliação dos professores e do que converteu em "castigo" as horas de redução por idade e tempo de serviço dos seus horários - é até degradante quando a "pena" cai nas mãos de pequenos tiranetes.

Na verdade, recorde-se que a maioria dos professores viu a idade da reforma passar dos 52 (pré-escolar e primeiro ciclo) ou 57 anos de idade (restantes ciclos), para os recentes 66 anos e 11 meses. E como nunca se criaram equipas educativas para leccionar o primeiro ciclo - o professor da turma finge que lecciona todo o currículo e não tem redução de horário com a idade -, infernizou-se os horários dos restantes ciclos - nivelando por baixo e estimulando a divisão da classe - com inutilidades destinadas aos excessos e aos dogmas na avaliação dos alunos, na interdisciplinaridade e nas articulações horizontal e vertical. Como tudo isto se tornou monstruoso sem sistemas de informação modernos e com avaliações externas inspiradas em meados do século XX, a redução transformou-se num "castigo" e num dos principais contributos para o desgaste que dificulta a liderança em ambientes de indisciplina e para a "fuga" ao exercício.

E, claro: se temos anos a fio de ciberbullying e dos algoritmos do ódio (as crianças crescem, desinformam-se e indisciplinam-se num país deslaçado, agressivo e violento), também temos uma maioria política desinteressada em limitar o acesso a redes sociais com o argumento surreal da censura às crianças e jovens.

Aliás, veja-se a indiferença da sociedade com a crescente doença silenciosa dos quadros de mérito académico ou de valor até em crianças do primeiro ciclo e pré-adolescentes (no desporto, já se fazem Campeonatos do Mundo para miúdos de 10 a 12 anos de idade). Para além da tensão relacional entre os miúdos após as primeiras publicações e da violação dos direitos fundamentais, a OMS já inclui o bournout precoce na prevenção da saúde pública (e, no mínimo, reflicta-se com Roy Baumeister ou Michael Sandel. ou pelo recente "Range" de David Epstein, (com um estudo comparado que tem, para além de outros dados, uma contraposição do percurso saudável, por especialização "tardia e generalista", do tenista Roger Federer ao dramático esgotamento emocional, por especialização precoce, do golfista Tiger Woods ou das irmãs Polgar - xadrezistas vítimas de uma "MãeTigre"; aliás, fenómeno que exigiu mudanças recentes e drásticas nas políticas de Singapura relacionadas com os resultados escolares -). E apesar desta pandemia ainda se sustentar na ditadura portuguesa, a obra fundamental "Nenhuma medalha vale a saúde de uma criança", de Jacques Personne, descreve a tragédia na União Soviética e na RDA. Os quadros e medalhas, equiparados à exploração do trabalho infantil, destinavam-se à arrepiante promoção de dirigentes, médicos, treinadores, professores e políticos, e, tantas vezes, à "sobrevivência" dos progenitores (e também ao ego).

De facto, e em síntese, a prevalecente imaturidade pedagógica, que estimula a indisciplina nas salas de aula, espelha-se em gritantes irresponsabilidades da seguinte família: publicitar informação crítica, e detalhada, sobre as formas de ciberbullying no mesmo espaço escolar onde se divulga quadros de mérito.

Nota: por falar em silêncio e mutismo, registe-se o apagão mediático quase generalizado da seguinte notícia do Público de 27 de Novembro de 2025: "Tolentino de Mendonça partilha Prémio Eduardo Lourenço com a “classe dos professores em crise". O cardeal e poeta falou da “precariedade nas condições de trabalho”, da “complexidade sempre maior dos requisitos burocráticos” e de “uma espécie de solidão social” que afectam tantos professores. Diz-se hoje que são uma classe em crise e que perdeu o prestígio social que lhe estava associada. São preocupantes, em muitas partes do mundo, os indicadores do desgaste, desmotivação e burnout entre os professores.(...)"Numa época de acelerada transformação, como a que vivemos, onde se inauguram tantas possibilidades, mas também tantas incógnitas, como o impacto da inteligência artificial, a omnipresença da tecnologia, a crescente incerteza e vulnerabilidade entre os jovens, precisamos de potenciar o papel dos professores como indispensáveis mediadores culturais e humanos.(...)O professor "não é uma profissão do passado, é uma missão indispensável ao futuro", porque é necessária a existência de "mestres e educadores, não só para encontrar respostas, mas para formular perguntas"."

sexta-feira, 11 de abril de 2025

Não Deixeis um Grande Amor


Aos poucos apercebi-me do modo
desolado incerto quase eventual
com que morava em minha casa

assim ele habitou cidades
desprovidas
ou os portos levantinos a que
se ligava apenas por saber
que nada ali o esperava

assim se reteve nos campos
dos ciganos sem nunca conseguir
ser um deles:
nas suas rixas insanas
nas danças de navalhas
na arte de domar a dor

chegou a ser o melhor
mas era ainda a criança perdida
que protesta inocência
dentro do escuro

não será por muito tempo
assim eu pensava
e pelas falésias já a solidão
dele vinha

não será por muito tempo
assim eu pensava
mas ele sorria e uma a uma
as evidencias negava

por isso vos digo
não deixeis o vosso grande amor
refém dos mal-entendidos
do mundo

José Tolentino Mendonça, in 'Longe não Sabia'

sexta-feira, 28 de março de 2025

Teilhard de Chardin, uma das figuras mais fascinantes do século XX

Por José Tolentino de Mendonça

Pierre Teilhard de Chardin é uma das figuras mais fascinantes e complexas do pensamento do século XX. Sua obra, que se encontra na intersecção entre ciência, teologia e filosofia, representa uma tentativa ousada de integrar a evolução cósmica com uma visão espiritual do universo. Em sua vida e em seus escritos, surge uma síntese original que desafia as dicotomias tradicionais entre fé e razão, natureza e espírito, tempo e eternidade. Este volume se propõe a explorar o pensamento de Teilhard em profundidade, oferecendo uma perspectiva penetrante sobre seu legado intelectual e espiritual.

Mercè Prats, professora e documentarista da Fondation Teilhard de Chardin, é conhecida pelos acadêmicos por ter conseguido reconstruir a circulação clandestina dos escritos do pensador jesuíta francês. Ela consultou arquivos até então inacessíveis, reconstruindo a transmissão em estilo cíclico de seus textos. Esses escritos, que frequentemente apresentavam perspectivas teológicas inovadoras e, às vezes, controversas, foram copiados e distribuídos de forma privada durante décadas, alimentando uma rede de leitores e apoiadores.

O que torna este volume particularmente original em comparação com outros estudos sobre Teilhard de Chardin é também a abordagem inovadora e interdisciplinar adotada pela autora. Prats não apenas examina as ideias de Teilhard em seu contexto histórico e filosófico, mas também as relê à luz dos desafios do mundo contemporâneo. Essa capacidade de dialogar com questões atuais, como a crise ecológica, a globalização e a busca de significado espiritual na era tecnológica, confere ao seu trabalho uma relevância e um frescor extraordinários.

Outra característica distintiva do texto de Prats é sua capacidade de tornar conceitos complexos do Teilhardi acessíveis a um público amplo. Por meio de um estilo claro e envolvente, a autora consegue traduzir as profundas intuições de Teilhard numa linguagem compreensível sem sacrificar a sua profundidade.

Teilhard de Chardin foi um jesuíta, um paleontólogo e um místico. Sua vida foi marcada por uma busca incessante de significado, alimentada tanto pela observação científica quanto pela contemplação espiritual. Nascido em 1881 na França, ele cresceu num ambiente rico em estímulos culturais e espirituais. Sua formação jesuíta lhe proporcionou uma sólida base teológica, enquanto seu trabalho como cientista o colocou frente a frente com as grandes questões da evolução e da natureza do homem. A fé e a ciência moldaram o seu pensamento, que se distingue por sua capacidade de integrar diferentes perspectivas em uma visão de mundo unificada.

O ponto central do pensamento de Teilhard é a ideia de que o universo está evoluindo constantemente em direção a uma maior complexidade e a uma consciência mais profunda. Essa “teologia da evolução”, como foi frequentemente chamada, é uma de suas percepções mais originais e provocativas. Para Teilhard, a evolução não é simplesmente um processo biológico, mas um movimento cósmico que envolve toda a criação. O universo, em sua visão, é animado por uma força interna que o conduz ao ponto ômega, um termo cunhado por Teilhard para denotar o ápice da evolução, onde a consciência humana e a divina se unem em harmonia.

O pensamento de Teilhard – como Mercè Prats ilustra muito bem – provocou muitos debates, tanto na comunidade científica quanto no âmbito teológico. Por um lado, sua visão da evolução como um processo intrinsecamente orientado para o transcendente levantou questões sobre a compatibilidade de suas ideias com a teoria darwiniana. Por outro lado, sua ousadia em reinterpretar a fé católica à luz das descobertas científicas provocou reações contrastantes dentro da Igreja. Apesar das controvérsias, ou talvez por causa delas, o seu pensamento continua exercendo uma profunda influência, inspirando novas gerações de pensadores e fiéis.

O Papa Francisco recordou a figura de Teilhard em setembro de 2023, durante sua viagem à Mongólia, no vizinho deserto de Ordos, exatamente onde, cem anos antes, o jesuíta rezou sua famosa “Missa sobre o mundo”. Francisco pronunciou as palavras dessa oração e depois disse: “Esse padre, muitas vezes incompreendido, intuiu que ‘a Eucaristia é sempre celebrada, em certo sentido, no altar do mundo’ e é ‘o centro vital do universo, o centro transbordante de amor e de vida inesgotável’, mesmo em uma época como a nossa, de tensões e de guerras”. Dessa forma, Francisco quis comemorar e enaltecer a figura desse pensador cristão a quem o então Santo Ofício impôs um Monitum em 1962, mas que também foi citado por vários Pontífices ao longo do tempo.

Um aspecto particularmente significativo do pensamento de Teilhard, que Prats explora com grande sensibilidade, é seu profundo otimismo. Numa época em que o progresso é frequentemente associado a riscos e perigos, Teilhard nos convida a ver a evolução não apenas como uma fonte de conflito, mas também como uma oportunidade de crescer como espécie e como indivíduos. Seu otimismo não é ingênuo, mas está radicado em uma profunda confiança na capacidade do homem de colaborar com as forças criativas do universo.

Outra contribuição significativa de Teilhard é sua reflexão sobre o amor como uma força cósmica. Para Teilhard, o amor não é apenas um sentimento ou uma virtude moral, mas uma força fundamental que guia a evolução em direção a uma maior união e complexidade. Esse aspecto de seu pensamento, que Prats desenvolve com grande profundidade, oferece uma nova perspectiva sobre a natureza do amor e seu papel em nossa vida pessoal e coletiva.

O volume de Mercè Prats é uma contribuição importante não apenas para os estudiosos de Teilhard de Chardin, mas também para qualquer pessoa interessada em refletir sobre as grandes questões da existência. A capacidade da autora de tornar conceitos complexos acessíveis e de entrelaçar o pensamento de Teilhard com os desafios de nosso tempo faz deste livro uma leitura desafiadora, porém importante.

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

A Esperança Digna de Espanto


Enganem-se os que pensam que só nascemos uma vez. Para quem quiser ver, a vida está cheia de nascimentos. Nascemos muitas vezes ao longo da infância, quando os olhos se abrem em espanto e alegria. Nascemos nas viagens sem mapa que a juventude arrisca. Nascemos na sementeira da vida adulta, entre invernos e primaveras maturando a misteriosa transformação que coloca na haste a flor e dentro da flor o perfume do fruto. Nascemos muitas vezes naquela idade avançada onde os trabalhos não cessam, mas se reconciliam com laços interiores e caminhos adiados. Nascemos quando nos descobrimos amados e capazes de amar. Nascemos no entusiasmo do riso e na noite de certas lágrimas. Nascemos na prece e no dom. Nascemos no perdão e no confronto. Nascemos em silêncio ou iluminados por uma palavra. Nascemos na tarefa e na partilha. Nascemos nos gestos ou para lá dos gestos. Nascemos dentro de nós e no coração de Deus.
Não podemos viver sem esperança, mas esta não é uma tarefa nem evidente, nem fácil. Precisamos de uma educação para a esperança. A esperança não é um lenitivo que adormece a dor até que ganhemos coragem para tratar a sério da vida, mas uma força que impregna já o presente e nos motiva para a transformação da história.
A esperança é, então, um dinamismo concreto, uma laboriosidade no aqui e no agora, um fazer aberto ao futuro.
Sobre o seu significado profundo e como se pratica, há aquela história do velho monge que se propunha alcançar o cimo de uma montanha e que, numa das etapas iniciais do caminho, pernoitou numa estalagem. O estalajadeiro reparou na sua fragilidade e tentou dissuadi-lo, enumerando os perigos que o espreitavam. O monge, porém, respondeu: ‘Tenho a certeza de que chegarei lá’. ‘E como é que um homem fraco como tu pode ter semelhante certeza? Para mais, vem aí um inverno duro’. O ancião retorquiu: ‘Coloquei lá em cima o meu coração e por isso sei que, mesmo assim inseguros, os meus passos hão de chegar lá’.
José Tolentino Mendonça, in Expresso, 12.01.2019

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Sobre a amizade


Sobre a amizade
O modo como uma grande amizade começa é misterioso. Podemos descrevê-lo como um movimento de empatia que se efetiva, um laço de afeição ou de estima que se estreita, mas não sabemos explicar como é que ele se desencadeia. Irrompe em silêncio a amizade. Na maior parte das vezes, quando reconhecemos alguém como amigo, isso quer dizer que já nos ligava um património de amizade, que nos dias anteriores, nos meses anteriores, como escreveu Maurice Blanchot, «éramos amigos e não sabíamos».
Aquilo de que uma amizade vive também dá que pensar. É impressionante constatar como ela acende em nós gratas marcas tão profundas com uma desconcertante simplicidade de meios: um encontro dos olhares (mas que sentimos como uma saudação trocada entre as nossas almas), uma qualidade de escuta, o compartilhar mais breve ou demorado de uma mesa ou de uma  conversa, um compromisso comum num projeto, uma qualquer ingénua alegria… A linguagem da amizade é discreta e ténue. E, ao mesmo tempo, é inesquecível e impressiva.
José Tolentino Mendonça

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Sem lentidão não há paladar

Ruta de Samieira, Galiza

"Sem lentidão não há paladar. (...) Os nossos estilos de vida parecem irremediavelmente contaminados por uma pressão que não dominamos; não há tempo a perder; queremos alcançar as metas o mais rapidamente que formos capazes; os processos desgastam-nos, as perguntas atrasam-nos, os sentimentos são um puro desperdício: dizem-nos que temos de valorizar resultados, apenas resultados. À conta disso, os ritmos de actividade tornam-se impiedosamente antinaturais." ~ José Tolentino Mendonça in "A mística do instante"

domingo, 17 de janeiro de 2021

«Fratelli Tutti»: «Uma política que semeia divisão, inimizade ou um ceticismo desolador é uma política condenada ao fracasso» – D. José Tolentino Mendonça

Cardeal português comentou a encíclica do Papa na primeira sessão do curso «Filosofia, Literatura e Espiritualidade» promovido pela Capela do Rato


Lisboa, 11 jan 2021 (Ecclesia) – O cardeal D. José Tolentino Mendonça afirmou hoje que a modernidade “persistirá como um projeto incompleto” se esquecer a fraternidade, disse que lógicas de xenofobismo são indesculpáveis e que uma política que “semeia a divisão” está “condenada ao fracasso.

“Uma política que semeia divisão, inimizade ou um ceticismo desolador, uma política que é incapaz de um projeto comum, inclusivo, é uma política condenada ao fracasso”, afirmou o bibliotecário e arquivista da Santa Sé na primeira sessão do curso “Filosofia, Literatura e Espiritualidade”, promovido pela Capela do Rato, do Patriarcado de Lisboa, onde comentou a encíclica do Papa Francisco ‘Fratelli Tutti’.

O cardeal D. José Tolentino Mendonça comentou a encíclica do Papa publicada no oitavo ano do pontificado de Francisco considerando que se trata de um “texto de síntese” onde se pode compreender “a visão, o legado, o projeto que o Papa Francisco oferece ao nosso tempo e àquele que virá”, nomeadamente no que diz respeito ao exercício da atividade política.

“As grandes perguntas que acabam por julgar a qualidade da atividade política pública são ‘Quanto amor coloquei no meu trabalho? Em que fiz progredir o povo? Que marcas deixei na vida da sociedade? Que laços reais construí? Que forças positivas desencadeei? Quanta paz social semeei? Que produzi no lugar que me foi confiado?’”, referiu D. José Tolentino Mendonça, citando a encíclica do Papa.

O cardeal português lembrou a “visão crítica” de Francisco em relação aos “populismos e neoliberalismos exacerbados”, que “pensam que o mercado aberto é suficiente para regular todas as assimetrias sociais”, desafiando “os atores políticos a reencontrarem a nobreza da atividade política como a grande expressão do amor comum”.

O poeta madeirense comentou também as caraterísticas da “bandeira do projeto de modernidade”, consignadas nos atributos da liberdade, igualdade e fraternidade, considerando que as “sociedades democráticas acolheram a liberdade e a igualdade”, mas “a fraternidade ficou de fora”, como “não se pudesse legislar, como não pudesse ser operacionalizada como um dever, como uma proposta ética, concreta a efetivar nas sociedades". O cardeal Tolentino Mendonça lembra que o Papa Francisco reconheceu a demora da Igreja Católica a condenar a escravatura e “tantas outras formas de violência”, acrescentado que, hoje, não há desculpas para continuar “dentro de lógicas de violência, de xenofobia ou de desprezo pelos outros seres humanos”.

Recordando a primeira saudação após a eleição, no dia 13 de março de 2013, D. José Tolentino lembrou que o Papa Francisco se referiu a “um caminho de fraternidade” ao afirmar, no primeiro discurso: “Rezamos uns pelos outros, rezamos pelo mundo, para que o mundo seja uma grande fraternidade". O cardeal Tolentino Mendonça sublinhou que “a fraternidade é uma palavra, uma ideia, uma experiência, um desafio que acompanha o pontificado do Papa Bergoglio desde o primeiro momento”.

Para o arquivista e bibliotecário da Santa Sé, a fraternidade não é uma “ideia nova nem solitária” no pontificado do Papa, mas “um tópico central” nos diálogos, na diplomacia e nos pronunciamentos de Francisco, que pretende promover um diálogo com todos e “chegar a todos”.

O comentário à encíclica do Papa Francisco ‘Fratelli Tutti’ pelo cardeal D. José Tolentino Mendonça constituiu a primeira sessão do curso “Filosofia, Literatura e Espiritualidade”, promovido pela Capela do Rato, no Patriarcado de Lisboa, que reúne a partir desta segunda-feira perto de 500 participantes na plataforma zoom, semanalmente. José Tolentino Mendonça disse que a encíclica ‘Fratelli Tutti’ tem um “forte componente de desejo”, “não é um documento sobre a atualidade” ou de doutrina, mas “uma espécie de corpo de fogo atirado mais longe, um bólide espiritual lançado ao presente e ao futuro”, que consiste “num novo sonho de fraternidade espiritual”.

terça-feira, 16 de junho de 2020

A solidão não se mede aos palmos, por Tolentino Mendonça


Por vezes, dentro de uma casa, a solidão mais invisível é a dos jovens. A solidão não se mede aos palmos — isto deve ser explicado a quem pensa que ela está confinada ao mundo dos adultos. É certo que, a partir de certa idade, e de uma sucessão de acontecimentos desamparados com os quais se colide, surge esse coágulo da alma, que luta para se tornar fixo. Não admira que os adultos farejem mais recorrentemente a solidão uns nos outros, lhe reconheçam os códigos, despistem os seus ziguezagues... Mas, por serem adultos, podem também fazer uso de mais recursos internos, de forças que possuam já ou que procurem, para fazer-lhe frente. A vulnerabilidade dos (mais) velhos é ainda outro discurso, porque aí a solidão, não raro, é um eufemismo para ocultar a palavra abandono. E, sobre isso, as nossas sociedades precisariam de refletir melhor. Mas a solidão dos (mais) novos é, porventura, aquela mais submersa, mais enigmática e confusa para os próprios sujeitos, aquela sobre a qual falamos menos. Possivelmente só daqui a muitos anos, por exemplo, vamos perceber como é que a geração das crianças e adolescentes de hoje viveu esta experiência da pandemia, que medos e incertezas se alojaram neles pela primeira vez ou que perguntas sem resposta se fizeram. Só mais adiante compreenderemos o que representou para eles o fecho abrupto das escolas, a distância dos amigos e coetâneos ou este regresso a uma intensidade da família nuclear, que antes talvez não haviam tido. Contou-me uma amiga que um dos filhos à mesa, tentando interpretar a situação extraordinária que a família está a viver, disse: “Acho que estamos aqui a construir memórias.” Todos olharam para ele, espantados com a grandeza inesperada da definição na boca de um fedelho, mas seguramente aquelas palavras corresponderam dentro dele a emoções, a um esforço concreto de aproximação a uma realidade complexa, a um apaziguamento que encontrou quando foi capaz de justificar a estranheza com uma missão que unia — e unirá depois ainda — toda a sua família, pois as memórias são, como se sabe, moedas para ser usadas no país do futuro.

 

Nós adultos esquecemo-nos depressa de como as vidas são fragilmente construídas sobre certezas cuja evidência depende da confiança, e que esta é um tão longo e feliz e sofrido caminho

 

Muitas vezes, quem os vê armados de tecnologia, estirados pela casa, aparentemente fechados nos seus interesses, com a cabeça noutro lado, a responder com monossílabos a frases inteiras não imagina que esse é o modo possível de se protegerem de um mundo que sentem em derrapagem. Que quando vagueiam numa passividade onde só vemos desnorte e indolência eles estejam engolidos, com uma dolorosa reverberação que não captamos, pelo indizível espavento de se terem olhado ao espelho, e de se interrogarem como serão ao acordar no dia seguinte, e no mês seguinte. E que quando parecem implicativos e agressivos estão, a bem dizer, apenas assustados. Nós adultos esquecemo-nos depressa de como as vidas são fragilmente construídas sobre certezas cuja evidência depende da confiança, e que esta é um tão longo e feliz e sofrido caminho.

 

Ganharíamos tanto se em vez da pressa dos juízos nos déssemos ao trabalho de sintonizar com a solidão dos outros, aprendendo assim a reconciliar-nos com a nossa. A solidão é uma das primeiríssimas experiências de humanidade que fizemos. Lembro aquilo que escreveu a pedopsiquiatra Françoise Dolto: “A solidão dos bebés existe. Eles têm necessidade de que lhes falem, de que lhes cantem, mesmo se ao longe. Ouvem uma voz, não estão completamente sozinhos. O ser humano precisa de companhia. O espaço de um ser humano, desde o nascimento, precisa de ser povoado pela presença psíquica de outro ser para o qual ele existe.”

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Naturismo e Religião


A relação entre o naturismo e a religião é, historicamente, um campo de tensões profundas e, simultaneamente, de convergências inesperadas. No contexto da cultura ocidental, fortemente marcada pela tradição judaico-cristã, a nudez foi frequentemente associada à queda, ao pecado e à vergonha. Todavia, uma análise mais detalhada revela que a prática naturista pode ser entendida não como uma afronta ao sagrado, mas como um esforço de regresso a uma pureza primordial, despida das convenções sociais e materiais que afastam o ser humano da sua essência e do seu Criador.

Do ponto de vista teológico, a narrativa do Génesis é o ponto de partida inevitável. A "nudez inocente" de Adão e Eva antes da queda representa um estado de plena harmonia com a divindade e com o cosmos. Para muitos defensores de um naturismo cristão, a prática de estar nu em comunhão com a natureza não é um ato de exibicionismo, mas sim um exercício de humildade e de aceitação da obra divina tal como ela foi criada. Neste sentido, o vestuário é interpretado como uma construção artificial que mascara a igualdade fundamental entre os indivíduos perante Deus. Ao remover a roupa, removem-se também os símbolos de estatuto e as barreiras que alimentam a vaidade, promovendo uma fraternidade mais autêntica.

Por outro lado, em religiões de matriz panteísta ou em espiritualidades contemporâneas de cariz pagão, o naturismo é visto como uma via direta de ligação à "Mãe Terra". Aqui, o corpo não é um recipiente de pecado, mas uma extensão do ecossistema. A exposição direta aos elementos — o sol, o ar, a água — funciona como um ritual de purificação e de reafirmação da pertença ao mundo natural. O naturismo, nestas vertentes, assume uma dimensão quase litúrgica, onde o silêncio e o contacto físico com o ambiente natural substituem os templos de pedra.

Contudo, a oposição religiosa ao naturismo não pode ser ignorada. Muitas instituições religiosas argumentam que a nudez pública, mesmo em contextos controlados, atenta contra a "modéstia" e a "dignidade da pessoa humana", podendo conduzir à objetificação do corpo. Esta visão pressupõe que o vestuário cumpre a função de proteger a sacralidade da intimidade. O debate, portanto, reside na definição de onde termina a liberdade individual e onde começa a responsabilidade moral perante a comunidade.

Em conclusão, o naturismo e a religião, embora pareçam opostos num olhar superficial, partilham uma busca comum pelo sentido da existência e pela verdade do ser. Enquanto a religião procura frequentemente essa verdade através da norma e do rito, o naturismo procura-a através da desconstrução do artifício. Em última análise, ambos podem convergir na ideia de que o corpo humano é uma manifestação do sagrado que merece ser respeitada, cuidada e compreendida na sua totalidade, sem as amarras do preconceito.

Referências Bibliográficas
Para um aprofundamento sobre os temas da corporeidade, ética e espiritualidade, sugerem-se as seguintes obras de referência:

Foucault, Michel (1984). História da Sexualidade I: A Vontade de Saber. Lisboa: Relógio D'Água. 
Moltmann, J. (1985). Deus na Criação: Uma doutrina ecológica da criação. São Paulo: Vozes. 
Ponte, A. (2010). Naturismo em Portugal: História e Perspetivas. Lisboa: Edições Colibri. 
"Este é o meu Corpo" (2016, Afrontamento): Organizado por José Tolentino Mendonça e Alfredo Teixeira.
Williams, Rowan (2007). Grace and Necessity: Reflections on Art and Love. London: Bloomsbury.