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quinta-feira, 30 de julho de 2026

Sistema da cunha num Estado que falha a cidadãos: Nobel arrasa Portugal


Estudo que vai ser apresentado esta quinta-feira tece várias críticas a Portugal: um Estado que falha com os cidadãos e que vive com um sistema da "cunha". É da autoria do Prémio Nobel da Economia de 2024, James A. Robinson, e do economista português Nuno Palma.

Um estudo do Prémio Nobel da Economia de 2024, James A. Robinson, e do economista português Nuno Palma, que vai ser apresentado esta quinta-feira, tece várias críticas a Portugal: um Estado que falha com os cidadãos e que vive com um sistema da "cunha".

"O cidadão que quer um lugar no setor público concorre: entrega um currículo, faz provas, é avaliado. Mas o presidente do regulador da energia - a pessoa que decide as tarifas que paga - é nomeado por escolha política, sem concurso aberto, sem júri independente, sem critérios transparentes. Há uma palavra para este sistema, e todos a conhecem: cunha - a ligação de dentro, o telefonema da pessoa certa, o favor do padrinho, associado ao nepotismo e ao compadrio", refere Robinson, no estudo, citado pelo Jornal de Notícias, que teve acesso prévio ao documento.

Aliás, o mesmo jornal descreve mesmo que o cenário traçado pelo Nobel sobre a economia portuguesa é "devastador", considerando que o país vive uma "catástrofe silenciosa", décadas de degradação institucional que impedem o país de convergir com os países mais ricos da Europa.

De uma maneira geral, os autores do estudo consideram que Portugal está preso num sistema de compadrio, com justiça lenta, reguladores capturados e um Estado que falha aos cidadãos.

A mensagem positiva é que Portugal não precisa necessariamente de um Estado mais pequeno, mas sim de um Estado que cumpra o que promete: "Essa única coisa é um Estado que cumpre a palavra dada: Portugal a horas. Perseguida obsessivamente, essa política arrasta o resto atrás de si: uma justiça rápida e previsível, concorrência real, um Estado meritocrático e capaz, uma fiscalidade favorável ao investimento, capital humano aplicado e habitação a preços comportáveis", revela ainda o JN, citando o estudo.

Acordos coletivos só deviam ser para sindicalizados
O mesmo estudo revela que os acordos coletivos só se deviam aplicar a quem estiver representado pelos parceiros sociais, defendendo que a medida fomentaria a representatividade destas entidades, segundo a agência Lusa.

O estudo "Desbloquear o crescimento de Portugal - Reformas estruturais e desafios à implementação de políticas económicas", encomendado pela CIP - Confederação Empresarial de Portugal e pelo IDL - Instituto Amaro da Costa, é hoje apresentado no Museu do Oriente, em Lisboa.

"Em Portugal, sindicatos que não são representativos participam regularmente em decisões de negociação coletiva que afetam todos os trabalhadores", aponta o estudo, que defende que o Governo deve "envidar esforços para fomentar a representatividade dos sindicatos e das associações patronais".

Nesse sentido, os autores sugerem que o executivo deveria "promover a descentralização dos acordos de negociação coletiva, para aumentar o alinhamento entre os trabalhadores e os seus representantes, e entre as empresas e os seus representantes".

Como tal, para James A. Robinson e Nuno Palma, "um passo importante" para atingir estes objetivos seria "tornar a extensão administrativa dos acordos coletivos a trabalhadores não sindicalizados condicional à representatividade dos parceiros sociais".

Por outras palavras os autores sugerem ao Governo que anuncie que "no futuro, os acordos coletivos apenas se aplicarão a quem estiver diretamente representado pelos parceiros sociais".

Por outro lado, defendem que se passe a produzir "estatísticas regulares sobre o número de trabalhadores filiados em cada sindicato e de empresas filiadas em cada associação patronal", bem como que se torne "o acesso aos fundos europeus - nomeadamente os do FSE+ relacionados com formação profissional e apoio social às empresas - condicional ao grau da sua representatividade".

sábado, 16 de maio de 2026

A mercantilização da vida: onde a poesia de Zeca Afonso enfrenta a frieza do "Trabalho XXI"


Rendido a esta interpretação de Gisela João.  E revoltado (ou não, já imaginava a posição do IL que defende flexibilização laboral e aponta rigidez como travão aos salários!!) e enfrentando a desumanização e a máquina trituradora, sem chão, do neoliberalismo, plutocracia, nepotismo,tecnofeudalismo e cleptocracia.

A desumanização das relações e a mercantilização do afeto vertidas em "Que Amor Não Me Engana" espelham de forma crua as dinâmicas socioeconómicas contemporâneas, encontrando um eco surpreendente nas discussões em torno da nova proposta de reforma laboral do Governo — o pacote "Trabalho XXI". 

Quando José Afonso canta sobre a urgência de um amor que não atraiçoe e a amargura de quem olha em redor e, "à porta do muro", não vê ninguém, ele traduz liricamente o isolamento do indivíduo perante estruturas que priorizam a métrica e a eficiência em detrimento da dignidade humana. 

Essa mesma tensão entre a necessidade de conexão genuína e a frieza dos sistemas reflete-se diretamente na flexibilização proposta pelo novo quadro legislativo, nomeadamente através do regresso do banco de horas por acordo individual e do alargamento dos contratos a termo para cinco anos no caso de termos incertos. 

Estas medidas, embora desenhadas sob a premissa de dotar o mercado de maior agilidade e produtividade, correm o risco de aprofundar a precariedade existencial do trabalhador, transformando o tempo de vida e de descanso numa mercadoria transacionável e adiável, onde a segurança psicológica é sacrificada em nome da sobrevivência económica. 

O "engano" de que Zeca falava materializa-se hoje na ilusão de autonomia individual perante plataformas digitais e algoritmos de inteligência artificial que passam a gerir recursos humanos e a ditar despedimentos e avaliações; uma realidade tão desprovida de empatia que a nova lei se vê obrigada a legislar para garantir um controlo humano mínimo sobre as decisões das máquinas. 

No fundo, ao cruzar a poesia de resistência com a nova legislação laboral, percebe-se que a busca por um "amor que não engana" continua a ser a busca por um ecossistema social e profissional que reconheça o trabalhador não como uma ferramenta de rendimento descartável, mas como um ser humano que necessita de amparo, tempo e verdade nas suas relações.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Shell reportou lucros avultados ($ 7 biliões) após a subida dos preços do petróleo provocada pela guerra entre os EUA - Israel contra o Irão.


Shell has become the latest energy giant to report a jump in profits following the sharp increase in oil prices since the beginning of the Iran war.

It reported profits of $6.92bn (£5.1bn) for the first three months of the year, which was higher than analysts had expected and up from $5.58bn in the same period a year earlier.

The price of oil has soared since the start of the US-Israel war with Iran as the key Strait of Hormuz, which usually carries about 20% of the global supplies of oil and liquid natural gas (LNG), has been effectively closed.

Last week, rival oil giant BP said its profits for the first three months of the year had more than doubled.

Other oil firms have also reported bumper results. On Wednesday, Norway's Equinor said profits in the first three months of the year had hit $9.77bn, its highest quarterly profit for three years.

Traders profit
Shell chief executive Wael Sawan said: "Shell delivered strong results enabled by our relentless focus on operational performance in a quarter marked by unprecedented disruption in global energy markets.

"The safety of our people remains our priority as we work closely with governments and customers to address their energy needs."

Like BP, one of the factors behind Shell's profits rise was better results from its oil trading business.

Before the conflict began, the price of Brent crude, the global benchmark for oil prices, was around $73 a barrel.

Since then, oil has seen sharp swings - peaking above $120 at one point, but also falling below $100 on other occasions as speculation has swirled over when the Strait of Hormuz will reopen.

The big movements in the oil price that have been seen since the Iran war began can widen the gap between buying and selling prices. This typically enables traders to make bigger profits.

Shell's profits were also boosted by higher margins at its refining business, which turns crude oil into finished products such as petrol and jet fuel.

However, the company said its oil and gas output had fallen by 4% compared with the final three months of last year due to the conflict.

Shell's LNG production in Qatar has been shut down since early March because of the conflict, and its Pearl GTL site in Qatar has been damaged by attacks.

Last week, Shell announced it was buying Canadian shale producer ARC Resources for $16.4bn, which Sawan said would "deliver value for decades to come".


Call to strengthen windfall tax
The surge in profits being reported by energy firms has led to criticism from environmental groups.

Danny Gross, climate campaigner at Friends of the Earth, said: "Once again, fossil fuel giants are pocketing monstrous profits while drivers are being squeezed at the petrol pump and households are set to pay higher energy bills.

"The answer is clear: strengthen the windfall tax on these indefensible profits and break our dependence on fossil fuels by powering our economy with homegrown renewables."What is the windfall tax?

Energy firms operating in the UK are subject to a windfall tax, called the Energy Profits Levy, that was introduced in 2022 as a response to soaring profits following Russia's full-scale invasion of Ukraine. Labour extended the life of the tax to March 2030.

However, the levy only applies to profits made from extracting oil and gas in the UK, whereas the bulk of energy giants' earnings are made overseas. The UK accounts for less than 5% of Shell's global oil and gas production.

Gas and electricity bills for most households in Britain are protected for the moment by the energy price cap.

Until 30 June, the typical annual bill for dual-fuel households who pay by direct debit will be £1,641.

However, the jump in wholesale oil and gas prices since the Iran war began means the cap is currently estimated to rise by about £200 when it is revised in July.

Shipping giant passing on costs

Meanwhile, the chief executive of Danish shipping giant Maersk told the BBC it was passing on rising costs due to the war to its customers.

Vincent Clerc said the sharp rise in energy prices was adding half a billion dollars of extra costs per month to the business.

"What is really important is actually to pass on these cost increases to our customers as much as possible, so that we can protect our margin and the operations' integrity going forward," he said.

He added there was uncertainty over whether this would eventually lead to inflation and lower demand.

Maersk's latest earnings show operating profits slightly above analysts' forecasts, although that was mostly for the period just before the Iran war started.

On Monday, Maersk said its US-flagged vessel, the Alliance Fairfax, which had been stranded in the Gulf since the end of February, had managed to exit the Strait of Hormuz accompanied by US military assets.

Clerc said Tehran's ambition for control of the Strait and eventual toll charges would be a significant change for the industry, "similar to the canals in Suez and in Panama, where we also pay to go through".

But he said at this stage any toll charges on the Strait of Hormuz were "very, very speculative" and it would have to reopen first.

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segunda-feira, 6 de abril de 2026

Spinumviva: contratos públicos de grupo empresarial ligado à empresa familiar de Montenegro disparam após ida para São Bento


Existe uma velha adivinha que pergunta como pode um elefante passar despercebido no meio de uma cidade. A resposta é simples: em manada. A divulgação “em manada” da lista de clientes da empresa Spinumviva pelo primeiro-ministro, Luís Montenegro, poderá ter servido precisamente para isso: diluir, no volume do conjunto, eventuais suspeitas sobre relações posteriores entre o poder político e interesses económicos anteriormente ligados ao chefe do Governo.

Mas uma análise detalhada do PÁGINA UM aos contratos públicos celebrados por empresas do universo Trivalor — nos 24 meses anteriores à tomada de posse de Montenegro como primeiro-ministro e nos 24 meses subsequentes — fez acender luzes vermelhas em duas sociedades em particular: a ITAU — Instituto Técnico de Alimentação Humana, ligada ao sector das refeições colectivas, e a Sogenave, uma sociedade dedicada à distribuição alimentar e não alimentar. Ambas integram o grupo Trivalor, um dos maiores operadores nacionais na prestação de serviços ao Estado, hoje com liderança operacional associada a Filipe Crisóstomo Silva, ex-CEO da Galp Energia, que herdou a posição (quase 90%) do seu pai.

Na análise, baseada em dados do Portal BASE, compararam-se dois períodos simétricos: de 1 de Abril de 2022 a 1 de Abril de 2024 e de 2 de Abril de 2024 a 1 de Abril de 2026. No conjunto das empresas identificadas da holding Trivalor — ITAU, Sogenave, Gertal, Iberlim, Strong Charon, Cerger, Socigeste, Ticket Restaurant, Sinal Mais, Papiro e S Team Consulting —, o número de contratos passou de 1.434, no período anterior à primeira tomada de posse de Montenegro, para 1.668, no período subsequente homólogo, já com funções em São Bento. 

A subida relativa nos contratos (+16,3%) ficou, ainda assim, aquém do salto na facturação registado entre Abril de 2024 e o início do mês actualmente em curso: de 344,2 milhões de euros passou para 468,9 milhões, um crescimento de 36,2%. Isto traduz-se num incremento absoluto de quase 125 milhões de euros. Saliente-se que alguns contratos mais recentes poderão ainda não ter sido introduzidos no Portal BASE.

Mas é na leitura fina dos dados que o padrão ganha relevo, tendo como referência o período do PSD na oposição e o período de Montenegro como líder do Governo. O preço médio por contrato das empresas da Trivalor aumentou de cerca de 240 mil euros para 281 mil euros (+17,1%), enquanto o preço mediano — que representa melhor o contrato “típico” — caiu de 22.416 euros para 16.285 euros (-27,4%). Esta divergência é relevante: significa que o crescimento do grupo foi puxado simultaneamente por contratos muito grandes e por uma multiplicação de contratos de menor dimensão, expandindo a presença do grupo na máquina pública.

Neste contexto, sobressaem ainda mais os casos da ITAU e da Sogenave, que foram clientes directos dos ‘trabalhos’ de Montenegro através da Spinumviva.

Comparando os períodos pré e pós-Governo Montenegro, a ITAU mantém praticamente o mesmo número de contratos (143 para 140), mas o valor total disparou de 86,6 milhões para 144,2 milhões de euros (+66,5%). O valor médio por contrato subiu de 605,7 mil euros para 1,03 milhões (+70,0%). Ou seja, neste caso, a empresa não cresceu em volume contratual, mas sim em escala financeira, passando a ganhar contratos significativamente maiores.

Já a Sogenave apresentou um movimento inverso, mas também favorável no período de Governo de Montenegro. O número de contratos subiu de 786 para 1.079 (+37,3%), e o valor total passou de 37,5 milhões para 55,9 milhões de euros (+49,1%), com um aumento mais moderado do preço médio (+8,6%). Aqui, o crescimento foi claramente extensivo: mais contratos, mais clientes, maior capilaridade no sector público.

Em conjunto, ITAU e Sogenave passaram de 124,1 milhões para 200,1 milhões de euros, um aumento de 61,2%, com mais 290 contratos. Estas duas empresas representam, sozinhas, uma parcela muito significativa do reforço do grupo no período posterior à tomada de posse de Montenegro.

Mas o crescimento da Trivalor não se limitou a estas sociedades. A Gertal, por exemplo, já com forte presença no sector da alimentação colectiva, passou de 197,8 milhões para 221,4 milhões de euros. A Strong Charon, ligada à segurança privada, saltou de 14,0 milhões para 43,8 milhões, um crescimento expressivo que reforça a ideia de expansão transversal do grupo.

Outro dado bastante relevante incide na alteração dos procedimentos de contratação. O número de contratos por concurso público desceu ligeiramente (655 para 622), enquanto os contratos por ajuste directo em regime geral subiram de forma significativa, passando de 380 para 626, muito associados à Sogenave, embora o valor global até tenha descido ligeiramente (de 56,7 para 50,5 milhões de euros). A consulta prévia manteve-se estável.

Porém, foi nos concursos limitados — procedimento que restringe previamente quem pode concorrer — que as empresas da Trivalor mais se reforçaram. Os dois maiores contratos do grupo, que beneficiaram a Gertal (Vila Nova de Gaia, com 38,4 milhões de euros, e Matosinhos, com 13,7 milhões), foram obtidos por este tipo de procedimento.

Isto significa que o grupo passou a aparecer com maior frequência em procedimentos com concorrência limitada ou nula, embora, em termos de valor, os concursos públicos continuem a representar a maior fatia do dinheiro adjudicado — cerca de 60% no período posterior.

Há ainda um fenómeno de concentração. Apesar de o número de entidades adjudicantes subir de 401 para 424, uma parcela crescente do valor total concentra-se nos maiores compradores. Os cinco principais adjudicantes passaram a representar 35,9% do total (contra 27,1% antes de Montenegro assumir a liderança do Governo), e os dez maiores quase metade do valor global (49,2%). Entre esses grandes compradores surgem entidades como a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, o Município de Vila Nova de Gaia (que só recentemente passou para a liderança social-democrata), o Município de Lisboa, a empresa pública SUCH (sector hospitalar) e o Centro Hospitalar Universitário do Porto

Curiosamente, o crescimento do grupo não assentou de forma relevante em novos clientes. Apenas 20 entidades passaram a contratar com o grupo no período posterior à chegada de Montenegro ao poder, representando cerca de 13,8 milhões de euros, ou seja, menos de 3% do total. Isto indica que a expansão resultou sobretudo do reforço de relações já existentes e da capacidade de aumentar o volume contratual junto de grandes adjudicantes.

Os maiores contratos ilustram bem a escala do fenómeno. Entre eles estão um contrato da Gertal com o Município de Vila Nova de Gaia superior a 38 milhões de euros, um da ITAU com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) próximo de 31,9 milhões, outro da Gertal com o Município de Lisboa acima de 31,1 milhões, bem como contratos relevantes da Strong Charon e da própria ITAU com grandes entidades públicas.

O caso da SCML é particularmente sintomático da “sorte grande” que saiu ao grupo Trivalor desde a ascensão de Montenegro ao Governo. Nos dois anos anteriores à chegada ao poder da nova AD, em Abril de 2024, as adjudicações da SCML totalizaram 8,5 milhões de euros. Já nos dois anos posteriores, com Montenegro em São Bento, a ITAU conseguiu contratos no valor de 35,6 milhões de euros e a Strong Charon de 19,6 milhões. Resultado: entre um período e outro, a Trivalor registou um crescimento de cerca de 547% no valor dos contratos com esta entidade.

Os dados não permitem, por si só, concluir pela existência de favorecimento político, embora tenham sido aplicados três testes estatísticos que confirmam que a mudança de padrões entre o período anterior e posterior à entrada de Montenegro em São Bento é estatisticamente muito significativa. Mas permitem afirmar, com base empírica, que o grupo Trivalor reforçou de forma expressiva a sua presença na contratação pública após a chegada de Luís Montenegro ao cargo de primeiro-ministro, e que esse reforço se mostra particularmente visível em duas empresas com relevância directa no contexto da lista de clientes anteriormente divulgada.

Tal como na adivinha, o elefante pode tentar passar despercebido. Mas, neste caso, mesmo em manada, há sinais demasiado grandes para as autoridades ignorarem. Recorde-se que o PÁGINA UM intentou uma intimação no Tribunal Administrativo de Lisboa no sentido de a Procuradoria-Geral da República disponibilizar o acesso à averiguação preventiva relativa à Spinumviva, entretanto arquivada, mas ainda não tornada pública.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Rallying for the Future of Humanity and a Safe AI


Let me stipulate five things:

First, Artificial Intelligence is a tsunami bearing down on human beings at a remarkable speed.

Second, AI has the potential to make life on this planet better in many ways, but if unregulated, it could do terrible things, including ending human life altogether.

Third, huge sums are being spent on AI by governments (especially the U.S. and China) and by private tech corporations.

Fourth, the incipient AI industry has already become a major political force in the U.S., supporting candidates who pledge not to regulate it and opposing candidates who intend to regulate it.

Finally, the Trump regime and its puppets in Congress don’t want to regulate it. That’s partly because the regime and its puppets are rife with corruption and conflicts of interest. Several key officials have personal investments in AI and want it to be as profitable as possible.

Now, given all this, I think we should all be grateful that at least one prominent AI corporation — which has developed one of the most successful AI systems — is requiring that any purchaser of it agree not to use it for doing bad things. Specifically, it is prohibiting users from utilizing its AI to surveil American citizens or create automated weapons uncontrolled by human beings.

I’m referring, of course, to Anthropic and its CEO and founder, Dario Amodei.

Enter Pete Hegseth, Trump’s “Secretary of War” and one of the most incompetent people ever to become a member of a president’s Cabinet.

He and the Trump regime have come to rely on Anthropic’s AI. As Trump’s war has entered its third week, the U.S. military is using it to help analyze intelligence.

But Hegseth and the regime hate the fact that Anthropic has put the two above-mentioned conditions on its use.

So they blacklisted Anthropic from future defense contracts, calling it a “supply-chain risk” (a label previously used only to bar foreign companies that posed risks to national security). Because the U.S. government is such a huge purchaser of AI, that blacklisting is almost a kiss of death for Anthropic.

What did Anthropic then do? It didn’t back down. Instead, it sued the regime, accusing the Pentagon of punishing it on ideological grounds and arguing that the regime is violating its First Amendment rights.

Yesterday, the Trump regime defended its decision in court — calling Anthropic an unacceptable risk to national security because it could disable or alter its technology to suit its “own interests” in a time of war.

The regime also argued that it has the authority to choose vendors and that Anthropic has no right to “unilaterally impose contract terms on the government.”

So who has the best argument here?

When we’re dealing with a gigantic force (AI) that must have guardrails to ensure it’s used in ways consistent with the common good, and the government refuses to supply such guardrails, a courageous private AI corporation and CEO should have the right to impose them as a condition for using its product.

As nearly 150 retired federal and state judges wrote in their amicus brief supporting Anthropic: “No one is trying to force the Department to contract with Anthropic. Instead, Anthropic is asking only that it not be punished on its way out the door.”

Exactly.

By the way, when did you last hear of former judges, appointed by both Republicans and Democrats, submitting an amicus brief on behalf of a private company against the government?

Tech companies and their employees have also filed legal briefs in support of Anthropic. Even Microsoft, a major investor in Anthropic competitor OpenAI, filed a friend-of-the-court brief. Thirty-seven engineers and researchers from OpenAI and Google, including Jeff Dean, Google’s chief scientist, have also filed a brief supporting Anthropic.

The American Civil Liberties Union and the Center for Democracy and Technology filed a brief, arguing that Anthropic was protected by the First Amendment in speaking up against the Pentagon about its AI technology.

What we have here is one the clearest examples so far of countervailing powers — a leading corporation, a federal court, former federal judges, other tech companies and their engineers, and civil society nonprofits — joining together to confront a rogue and corrupt regime on an issue of extraordinary importance to the future.

It should be a comfort to us all that even when the normal processes of democracy are taken over by a tyrannous regime, such countervailing powers are still able and willing to rally for the common good.

Granted, it is a small comfort. But in these dark days, even small comforts must be celebrated. Tyranny cannot succeed where people refuse to submit to it.

sábado, 7 de março de 2026

Mafalda Livermore: a ironia faz-se sózinha


O caso de Mafalda Livermore é o exemplo acabado de como a realidade, por vezes, se encarrega de expor as maiores contradições sem precisar de floreados. A ironia faz-se sozinha porque o choque entre a retórica e a prática é absoluto: uma criminologista, ligada a um partido que se apresenta como o único capaz de limpar a corrupção e combater o "sistema" de privilégios, acaba exonerada por um caso de nepotismo direto e pela exploração de condições de habitabilidade indignas. Rever Prova dos Factos

A situação torna-se particularmente gritante quando observamos que o lucro vinha precisamente da população imigrante, o grupo que o partido mais utiliza como alvo do seu discurso de insegurança e desordem. Quando uma estrutura política que reclama a exclusividade da moralidade e da "lei e ordem" se vê enredada em esquemas de favorecimento familiar e na precarização de seres humanos, a narrativa de "pureza" colapsa. Não é necessário um debate ideológico profundo para perceber a incoerência; basta olhar para os factos, que se revelam tão opostos às promessas eleitorais que a própria situação se torna uma sátira da mensagem política que o partido tenta vender.

O Chega é um verdadeiro poço de bandidos de toda a ordem. Quase não há dia nenhum em que não se descubra que mais um bandido chegano foi caçado numa das milhentas falcatruas possíveis de serem feitas neste mundo de pseudo empresários nascidos nas redes sociais.
As escandaleiras envolvendo cheganos são tantas e de tal ordem que já ninguém se admira quando um qualquer noticiário abre com a noticia de um chegano metido em vigarices ou enfiado num qualquer processo judicial. Escolheram-nos a dedo o que não admira numa seita montada sobre milhentas assinaturas falsificadas pelas quais ninguém foi responsável nem responsabilizado. Até hoje ninguém percebe como um gangue de bandidos pode concorrer a eleições com órgãos diretivos ilegais, com contas não aprovadas pelo tribunal Constitucional e com estatutos reprovados pelo mesmo Tribunal. O Chega utiliza estas derrotas no Tribunal Constitucional para alimentar a sua própria narrativa: presentam-se como vítimas de uma perseguição das elites ou dos juízes "do sistema" e quanto mais o TC chumba os seus estatutos, mais o partido diz aos seus eleitores que "eles" (os poderes instituídos) estão a tentar calar a voz do povo.
Mas se toda esta vigarice causa estranheza a muita gente mais estranheza causa que 25% dos eleitores nacionais estejam de tal forma alienados e hipnotizados com este bando de gangsters que lhes entregam o seu voto.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Não é o socialismo: como o capitalismo morre


Muitos liberais e conservadores que defendem o bom e velho capitalismo tendem a encarar o socialismo como o seu principal rival. Estão a mirar no alvo errado. Nota: socialismo e democracia dizem respeito, sobretudo, a arranjos políticos, enquanto capitalismo e economia planeada são arranjos económicos. A oposição relevante, portanto, não é apenas entre “capitalismo” e “socialismo”, mas entre diferentes formas de organizar o poder político e económico.

A discussão aqui desenvolvida é que o capitalismo não é a condição normal da vida económica da humanidade. A condição “normal” é a economia de compadrio (cronyism): um sistema no qual elites políticas e económicas cooperam para obter privilégios em benefício próprio.

O capitalismo — entendido como mercados impessoais, com direitos de propriedade estáveis, possibilidade de entrada e saída, alguma previsibilidade institucional — só conseguiu emergir, e de forma sempre parcial e frágil, quando estruturas jurídicas e institucionais deixaram de proteger, ou passaram a limitar, essa economia de compadrio.

É facto que o socialismo representou, ao longo do século XX, uma grande ameaça ao sistema económico que mais elevou o padrão de vida da humanidade. No entanto, a competição histórica entre economias de mercado e regimes de planeamento central confirmou algo que hoje é amplamente reconhecido: uma economia de mercado é capaz de gerar resultados superiores a um arranjo em que um grupo restrito de burocratas, num sistema de partido único, toma todas as decisões económicas.

Os socialistas que admiravam a URSS — onde os meios de produção eram controlados por um partido que supostamente “representava” o povo — sofreram um choque profundo com a sua dissolução.

Após a vitória ocidental na Guerra Fria, alguns liberais concluíram que o “fim da história” havia chegado: a democracia liberal e o capitalismo teriam demonstrado a sua superioridade e nada mais poderia ameaçar a sua hegemonia.

A China, porém, introduziu um elemento de complicação nesse quadro. Trata-se de um modelo híbrido: sistema político fechado, de partido único, combinado com uma economia relativamente liberalizada em vários setores, mas com forte intervenção e controlo sobre grandes empresas. Ainda assim, é algo bastante distinto da rigidez económica da antiga URSS.

Hoje, o capitalismo continua a ser questionado como sistema económico sustentável, mas as alternativas apresentadas como substitutas pouco inovam. Em geral, são releituras de modelos anteriores que tentam apenas corrigir falhas já conhecidas de arranjos estatistas.

Os críticos apontam, com razão, para a crescente parceria entre elites políticas e económicas, que alimenta a estagnação, a desigualdade e a erosão democrática. Marx não foi o primeiro a constatar este entrelaçamento.

Os liberais clássicos, por sua vez, também condenaram os privilégios e a procura de rendas (rent seeking) gerados pelo Estado através do conluio, ainda que cheguem a diagnósticos distintos. Adam Smith tentou alertar-nos:

“A proposta de qualquer nova lei ou regulamento comercial que provenha desta classe deve ser sempre examinada com grande precaução e cautela, não só com a atenção mais escrupulosa, mas também com a maior desconfiança. É uma proposta que advém de uma classe de pessoas cujo interesse jamais coincide exatamente com o do povo, as quais, em geral, têm interesse em enganá-lo e mesmo oprimi-lo e, consequentemente, têm, em muitas oportunidades, tanto iludido como oprimido esse povo” (SMITH, 2023, p. 228).

Smith via o mercantilismo como um sistema que enriquecia interesses particulares e enfraquecia a prosperidade geral. De facto, essa descrição ajusta-se ao sistema económico vigente no Brasil: um arranjo no qual elites políticas e económicas cooperam para obter benefícios mútuos à custa da sociedade.

O caso recente do Banco Master, os escândalos de corrupção envolvendo a JBS, Odebrecht, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, Braskem e uma lista praticamente inesgotável de empresas com forte envolvimento político ilustram claramente este padrão.

Diante deste quadro, o “socialismo” chinês — ou qualquer variação contemporânea de experiência estatista — não é a maior ameaça ao capitalismo. A ameaça principal vem de dentro: do entrelaçamento entre grandes empresários, políticos, burocratas e juízes.

A maioria dos defensores do capitalismo interpreta a situação atual como uma traição aos princípios originais do sistema, um subproduto não intencional do ideal de liberdade natural de Adam Smith. Nota: dentro da tradição da Escola de Virgínia, há um debate importante: de um lado, a visão de que o capitalismo tende a evoluir para um “capitalismo de compadrio”, à medida que grupos de interesse aprendem a usar o aparelho estatal em seu favor; de outro, a perspetiva de que mercados e Estados estão inerentemente entrelaçados, de modo que o cronyism é uma característica recorrente — e não uma anomalia — de todas as economias políticas.

Já os críticos de inspiração marxista afirmam que o Estado é um comité que administra os interesses da burguesia (MARX; ENGELS, [2024], p. 46). Esta análise capta parte da realidade, mas é incompleta e enganosa. Parte da premissa de que a captura do Estado é uma via de sentido único, na qual agentes económicos subordinam a autoridade política. Nesta leitura, o capitalismo é o problema.

O erro começa ao tratar políticos como déspotas benevolentes ou figuras ingénuas, sem poder próprio de decisão, supostamente manipuladas por capitalistas gananciosos. Tal como contribuintes, consumidores e eleitores — que, em larga medida, são as mesmas pessoas — têm os seus interesses, os políticos e os grandes empresários também têm os seus. O que vemos não é um lado “puro” corrompido pelo outro, mas um conluio de interesses: uma ordem de laços ou compadrio em que elites políticas e económicas se reforçam mutuamente — e em que a sociedade paga a conta.

Esta forma de análise parte de uma redução simplista de “mercado” e “Estado”, quando, na verdade, deveríamos olhar para os indivíduos. Apenas os indivíduos agem. A unidade básica de decisão é o indivíduo. Coletivos não são agentes que “tomam decisões” por si mesmos; toda a decisão coletiva é sempre o resultado de algum mecanismo de escolha — votação, negociação — baseado nas decisões individuais.

O “Estado” não é um bloco monolítico orientado por objetivos homogéneos; é um conceito abstrato que reúne uma multiplicidade de objetivos que, muitas vezes, são conflituosos entre si. Um exemplo pode ser visto quando o Estado – encarado como o monopólio legítimo da força – oferece serviços de segurança e policiamento. De um lado, há órgãos que querem endurecer punições, ampliar o poder da polícia, facilitar prisões e alargar o uso da força. De outro, há instituições que defendem garantias individuais, o devido processo legal, limites à ação policial, proteção de minorias e a redução do encarceramento em massa.

Algo semelhante ocorre no que chamamos de “mercado”: algumas empresas produzem e comercializam cigarros, enquanto outras vendem pastilhas e medicamentos para ajudar as pessoas a deixar de fumar. Não há um “propósito único” do mercado, mas uma multiplicidade de estratégias e objetivos individuais que, em conjunto, produzem resultados muitas vezes contraditórios.

E por que razão os interesses destas elites – que são minorias – prevalecem sobre os interesses do resto da sociedade? Pelo mesmo motivo apontado anteriormente: a sociedade não é um bloco monolítico dotado de um interesse homogéneo.

A maioria das pessoas está ocupada a trabalhar, a ganhar a vida, a cuidar da família e a ter algum tempo para o lazer. Do ponto de vista individual, faz pouco sentido investir tempo e esforço para se informar profundamente sobre política ou para tentar mudar o governo, porque a probabilidade de a sua opinião ou o seu voto alterarem o resultado é extremamente baixa. Trata-se do problema da ignorância racional: é racional para o cidadão médio não se envolver politicamente de forma intensa.

Já os grupos que se beneficiam de favores políticos enfrentam um conjunto de incentivos muito diferente. Empresários que recebem subsídios, proteção regulatória ou contratos privilegiados possuem empresas; essas empresas têm empregados; e tanto empresários como empregados têm um forte interesse em preservar estes arranjos que garantem os seus ganhos e os seus empregos.

Estes grupos são relativamente pequenos, organizados e enfrentam custos de coordenação muito menores. Isto gera um forte incentivo para que se organizem.

No entanto, este interesse é antagónico ao interesse dos consumidores, que passam a pagar preços mais altos ou a consumir produtos e serviços de pior qualidade, sofrendo uma perda de bem-estar. É também antagónico ao interesse dos contribuintes, que veem uma parte significativa da receita fiscal ser utilizada para criar ou perpetuar privilégios em vez de financiar bens públicos genuínos.

Assim, benefícios concentrados para poucos são financiados por custos difusos impostos sobre muitos, o que ajuda a explicar por que os interesses das elites organizadas frequentemente prevalecem sobre os da sociedade em geral.

Do lado político, a assimetria de informação faz com que as elites políticas influenciem os eleitores através de narrativas. Eles "vendem" estas políticas de defesa do emprego, proteção da indústria nacional, justiça social, soberania nacional, estabilidade, etc.

Em vez de forçar ou comprar poder, as elites políticas usam o discurso, a propaganda e o enquadramento (framing) para tornar desejáveis políticas que criam ou preservam privilégios em seu favor. As pessoas acabam por usar o voto expressivo para, de alguma forma, “se sentirem do lado certo da história”, “reforçarem a sua identidade de grupo (trabalhador, empresário, patriota, socialista, liberal, etc.)” ou para “não se sentirem culpadas depois”.

O resultado é que o processo democrático fornece uma aparência de consentimento popular a arranjos que, na prática, beneficiam minorias organizadas às custas do restante da sociedade. E o problema reside aqui: as pessoas que mais beneficiam de uma economia livre não se manifestam para a defender.

Para Schumpeter, o capitalismo não sucumbe por fracasso económico, mas porque o seu próprio sucesso destrói a base social que o apoiava. Ao burocratizar a atividade empresarial e fomentar o surgimento de uma intelligentsia hostil, o sistema gera uma sociedade na qual quase ninguém está disposto a defendê-lo. O capitalismo, em última instância, morre não por falta de eficiência, mas por falta de defensores.

Smith escrevia num contexto em que a economia política dominante era o mercantilismo: um sistema supostamente voltado para o “interesse nacional”, no qual o Estado distribuía sistematicamente privilégios a guildas, burocratas e companhias de comércio. Este arranjo começava a ser desafiado por uma ordem emergente de livre comércio. De certa forma, o padrão permanece o mesmo, com o Estado contemporâneo a atuar como vendedor de favores, enquanto elites económicas investem recursos para os capturar, produzindo um sistema de compadrio.

Tanto o período que antecede Smith como o momento atual indicam que o padrão histórico é uma economia política de manutenção de privilégios. A liberdade económica não aparece como ponto de partida, mas como um “acidente da história”, resultado de mudanças institucionais específicas que, por algum tempo, limitaram a capacidade de grupos organizados de usar o poder político em benefício próprio.

O que chamamos de capitalismo — entendido como mercados impessoais, com direitos de propriedade estáveis, possibilidade de entrada e saída, alguma previsibilidade institucional — surge, assim, como uma rutura rara com essa lógica de privilégio, e não como o “estado natural” da cooperação social. Nota: isto não constitui um argumento contra a ideia de que o ser humano é naturalmente inclinado à troca voluntária, mas sim o reconhecimento de que, na maior parte da história, os arranjos institucionais vigentes impediram que essa inclinação se traduzisse em mercados livres e competitivos.

A economia livre é uma construção institucional improvável e frágil, que precisa continuamente de resistir às pressões de grupos organizados — pressões essas frequentemente legitimadas por apoiantes que, em tese, deveriam defender justamente o contrário.

Se o capitalismo do tempo de Adam Smith já não existe, o que precisamos de fazer para que algo semelhante volte a prevalecer? De modo geral, tomo o pensamento de Randall Holcombe e Richard Wagner como base para escrever este texto e para uma síntese de resolução.

Os defensores da economia de mercado devem atuar em três frentes: política, económica e no mercado de ideias.

1. Ordem espontânea não é passividade Em primeiro lugar, os liberais precisam de compreender a importância da ordem espontânea. Isto significa abandonar a ilusão de que a sociedade pode (ou deve) ser planeada de cima para baixo por algum agente benevolente. Não trabalhamos com a hipótese de imposição centralizada. Isto, porém, não implica uma postura passiva. Pelo contrário: é preciso agir sobre regras, incentivos e ideias para que a ordem social emergente seja mais compatível com a liberdade económica. Não se trata de desenhar um “plano perfeito”, mas de criar arranjos institucionais que limitem a capacidade de grupos organizados de capturar o Estado para fins privados.

2. Promover a “destruição criativa” entre as elites Em segundo lugar, é necessário fomentar a concorrência entre elites estabelecidas e elites emergentes — aquilo que Holcombe descreve como o conflito entre o grupo do “getting ahead” (chegar à frente) e o do “staying ahead” (manter-se à frente).

O grupo do staying ahead é composto por empresas e empresários que já estão no topo. Trata-se de uma elite económica consolidada, cuja sobrevivência depende, em larga medida, de lucros e ganhos derivados de rent seeking. Para este grupo, a concorrência deixa de ser oportunidade e passa a ser ameaça; por isso, os seus membros tendem a usar o poder político para erguer barreiras à entrada, proteger mercados e congelar a ordem existente.

Já o grupo do getting ahead é formado por aqueles que querem “chegar lá”: empreendedores inovadores que, em geral, não têm acesso direto ao poder político. Para eles, a única via legítima de ascensão é a inovação, a criação de valor, a expansão da oferta de bens e serviços que melhoram a vida das pessoas. O espírito empreendedor é, por natureza, criativo o suficiente para contornar barreiras e encontrar brechas — desde que essas barreiras não sejam institucionalmente intransponíveis. Uma sociedade mais livre é aquela em que este segundo grupo consegue desafiar o primeiro em vez de ser bloqueado por uma muralha de privilégios legais.

3. Fortalecer a democracia constitucional Por fim, é preciso fortalecer a democracia constitucional, não como ídolo, mas como instrumento. Isto requer uma constituição que limite de maneira clara o poder da elite política de intervir na economia e, sobretudo, que restrinja o espaço para interpretações discricionárias por parte de juízes e tribunais. Os juízes devem dizer o que a lei é, não o que acham que ela deveria ser. Quanto maior a margem para “criar” direitos, benefícios ou privilégios a partir da caneta judicial, mais vulnerável o sistema se torna à pressão de grupos organizados.

À primeira vista, pode parecer contraditório dedicar boa parte do texto a criticar os problemas da democracia e, ao mesmo tempo, defendê-la como componente de uma sociedade livre. Mas a tensão é apenas aparente. Apesar de todas as suas falhas, a democracia ainda é o melhor mecanismo político de que dispomos para limitar o poder concentrado e permitir a alternância desse poder. Ela não é uma forma de santidade política, mas sim uma tecnologia institucional imperfeita, porém superior às alternativas historicamente testadas.

A proposta, portanto, não é tratar a democracia como um fim em si mesma, mas como um meio: um arranjo que, quando combinado com um Estado de direito robusto e limites constitucionais claros, pode abrir espaço para que uma ordem de mercado relativamente livre floresça.

Não podemos resolver todos os problemas de maneira perfeita, mas podemos criar um ambiente em que uma sociedade livre possa experimentar, errar, corrigir e produzir modelos institucionais melhores ao longo do tempo.

Defender o capitalismo, neste contexto, não é defender o status quo, mas exatamente o oposto: é recusar o comodismo de um sistema de privilégios travestido de mercado e trabalhar pela reconstrução de um arranjo institucional em que a regra geral, e não o favor particular, seja a norma.

Isto exige clareza conceptual, coragem intelectual para chamar pelo nome o capitalismo de compadrio que nos cerca e disposição para atuar simultaneamente na política, na economia e no mercado de ideias, limitando o poder discricionário do Estado, abrindo espaço para novas elites empreendedoras e reforçando os travões constitucionais à manipulação das regras do jogo.

Não há promessas de harmonia perfeita nem de fim definitivo do compadrio. O que há é a possibilidade modesta, mas real, de construir instituições que tornem mais difícil comprar e vender privilégios, que preservem algum grau de concorrência e que mantenham aberto o espaço para que pessoas comuns possam melhorar de vida sem precisar de um padrinho político.

Se o capitalismo é, como sugerimos, um “acidente feliz” na história da humanidade, cabe-nos decidir se aceitaremos passivamente o retorno ao padrão histórico de privilégios ou se estaremos dispostos a defendê-lo — não como dogma, mas como a melhor oportunidade que temos de conciliar prosperidade, liberdade e dignidade individual numa ordem social imperfeita, porém continuamente aperfeiçoável.

Referências

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. 1. ed. São Paulo: CEDET, mar. 2024.

SMITH, Adam. A riqueza das nações: investigação sobre a sua natureza e suas causas. Vide Editorial, 2023, p. 228.

HOLCOMBE, Randall G. “Crony Capitalism: By-Product of Big Government.” Independent Review, 2013

HOLCOMBE, Randall G. Political Capitalism: How Economic and Political Power Is Made and Maintained. Cambridge University Press, 2018.

HOLCOMBE, Randall G. Coordination, Cooperation, and Control: The Evolution of Economic and Political Power. Springer, 2020.

HOLCOMBE, Randall G. Following Their Leaders: Political Preferences and Public Policy. Cambridge University Press, 2023.

WAGNER, Richard E. Politics as a Peculiar Business: Insights from a Theory of Entangled Political Economy. Edward Elgar, 2016.

WAGNER, Richard E. (org.). Entangled Political Economy. Emerald, 2014.

EKELUND, Robert B.; TOLLISON, Robert D. Mercantilism as a Rent-Seeking Society: Economic Regulation in Historical Perspective. Texas A&M University Press, 1981.

HODGSON, Geoffrey M. “Capitalism, Cronyism, and Democracy.” The Independent Review, v. 23, n. 3, 2019, p. 345–355.

TULLOCK, Gordon. “The Transitional Gains Trap.” Bell Journal of Economics, 1975.

OLSON, Mancur. The Logic of Collective Action: Public Goods and the Theory of Groups. Harvard University Press, 1965.

CAPLAN, Bryan. The Myth of the Rational Voter: Why Democracies Choose Bad Policies. Princeton University Press, 2007.

BRENNAN, Geoffrey; LOMASKY, Loren. Democracy and Decision: The Pure Theory of Electoral Preference. Cambridge University Press, 1993.

MUNGER, Michael C.; VILLARREAL-DÍAZ, Mario. “The Road to Crony Capitalism.” The Independent Review, 2019.

Fonte

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

A pobreza gera dinheiro para muitas pessoas e sectores, directa e indirectamente.


A pobreza, além de ser um problema social evidente, é também uma fonte de rendimento para muitos sectores. Existem empresas que dependem diretamente da existência de trabalhadores com poucas alternativas e que, por isso, aceitam salários baixos, como acontece na agricultura intensiva, na restauração, nas limpezas, nas plataformas digitais e nas fábricas de têxteis. Sem pobreza, estes setores teriam custos muito maiores e lucros mais reduzidos. Outros negócios lucram com a fragilidade financeira das pessoas pobres, como bancos e financeiras que oferecem crédito caro ou empréstimos rápidos a juros elevadíssimos, explorando a falta de alternativas. Há ainda empresas de segurança privada, alarmes e serviços de vigilância que prosperam em contextos de maior desigualdade, porque a insegurança cresce quando há fraturas sociais profundas.

No setor social e no Estado, a pobreza cria também um grande número de empregos. Assistentes sociais, psicólogos, técnicos de apoio, gestores de instituições, funcionários de programas estatais, ONGs e IPSS dependem da existência de pessoas que necessitam de ajuda. Não significa que estas pessoas desejem que a pobreza se mantenha, mas é um facto que a existência de pobreza sustenta estas estruturas e gera carreiras inteiras. Algo semelhante acontece com organismos internacionais que lidam com desenvolvimento, desigualdade e exclusão, que movimentam grandes orçamentos devido à persistência dessas condições.

A desigualdade também alimenta setores indiretos, como o imobiliário, que beneficia quando muitas pessoas não têm capacidade para comprar casa e acabam presas a arrendamentos caros. Superfícies comerciais, cadeias de fast food e empresas de produtos baratos lucram quando a população tem poucas alternativas, porque consome aquilo que consegue pagar. Ao mesmo tempo, a pobreza é também rentável politicamente. Partidos de diferentes ideologias constroem discursos, programas e mobilizam eleitores em torno da questão da desigualdade, uns defendendo mais apoio social, outros defendendo incentivos ao trabalho, mas todos a usar a pobreza como parte da sua narrativa. A comunicação social também ganha com isto, porque a desigualdade gera histórias, reportagens, audiências e campanhas solidárias.

Em resumo, a pobreza não é apenas uma condição social; é também um elemento estrutural que alimenta mercados, empregos, discursos e modelos económicos. Há pessoas e instituições que trabalham para a combater, outras que lucram indiretamente com ela, mas o resultado final é o mesmo: a pobreza gera dinheiro para muitos, mesmo que traga sofrimento para quem a vive.

Referências:
Estudo da FFMS - A Pobreza em Portugal (2021)
Vidas em fuga da pobreza: a mobilidade social nas classes trabalhadoras em contextos de realojamento
(2007-2010)

No Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, Francisco Louçã explica: "Para que servem os milionários?"



Um bilionário serve para jogar ao monopólio com a vida de milhares ou milhões de pessoas e com o planeta. E serve para alimentar a ganância destes em subir no ranking dos milionários.

Esta sexta-feira assinala-se o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza. Apesar da taxa de risco de pobreza ou exclusão social ter diminuído no país, este continua a ser um "problema estrutural", refere a EAPN Portugal.

A taxa de risco de pobreza ou exclusão social em Portugal é a mais baixa desde 2015. Ainda assim, cerca de 1,8 milhões de portugueses vivem em famílias com um rendimento mensal inferior a 632 euros, segundo um relatório da Pordata divulgado esta sexta-feira, Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza.

A mesma fonte, na qual constam dados até 2023, indica que os idosos são o grupo etário em que a taxa de risco de pobreza mais tem aumentado, tendo passado de 17,1%, em 2022, para 21,1%, em 2023. Verifica-se que um em cada cinco idosos em Portugal vive sozinho com um rendimento bruto inferior a 632 euros, ou faz parte de um agregado familiar em situação de pobreza.

Depois das famílias monoparentais com crianças, que continuam a ser “as que revelam maior vulnerabilidade”, destaca a Pordata, seguem-se as pessoas que vivem sozinhas - estas registam um agravamento da taxa de risco de pobreza que passou de 24,9%, em 2022, para 28,6%, em 2023.

Já 44% dos desempregados residentes em Portugal encontram-se em agregados familiares com rendimentos abaixo do limiar de pobreza.

Oeiras lidera no rendimento médio mensal
A região metropolitana de Lisboa lidera a tabela dos residentes em Portugal com rendimentos médios mensais mais elevados (1.375 euros), com o munícipio de Oeiras a registar o maior rendimento médio (1.637 euros). Por outro lado, a região do Tâmega e Sousa regista o valor mais baixo (883 euros).

Segundo dados do relatório "Pobreza e Exclusão Social 2025", no âmbito do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, o arquipélago dos Açores é outra das regiões mais vulneráveis do país com 28,4% da população em risco de pobreza ou exclusão social. Também a península de Setúbal se destaca como a região mais vulnerável no Continente (21,8%).

A EAPN Portugal "sublinha que o número absoluto de pessoas em risco [de pobreza] se mantém, de forma persistente, acima dos dois milhões" e que tal reforça que "a pobreza continua a ser um problema estrutural do país". Refere, ainda, que as mulheres continuam a representar a maioria das pessoas em situação de pobreza (56%).

A nível da União Europeia, Portugal ocupa a 19º posição entre os 27 países do bloco no rendimento mediano mensal das famílias, tendo sido ultrapassado pela Letónia. Este ranking é liderado pelo Luxemburgo e pela Dinamarca, países com os rendimentos mais elevados.

domingo, 16 de novembro de 2025

Palácio da Horta Seca - Isto não é política. É um banquete.


No exato momento em que o discurso oficial exige "moderação salarial" aos trabalhadores, em que a inflação esmaga o poder de compra e em que se negoceia um pacote laboral desenhado para "flexibilizar" (leia-se precarizar) ainda mais a vida de quem produz a riqueza, o Governo decide celebrar os seus verdadeiros parceiros.

E como o faz? Com um brinde simbólico, a entrega de um palácio.
Não é um escritório vago num bairro periférico. É o Palácio da Horta Seca, um símbolo de luxo e poder na artéria mais cara de Lisboa, um edifício histórico que o povo português pagou para restaurar.

Isto é mais do que um favor, é uma declaração de vassalagem. É o Estado, que devia ser o garante do bem comum, a curvar-se e a premiar a confederação patronal que, por definição, representa os interesses dos grandes grupos económicos, os mesmos que exigem menos direitos, menos salários e menos impostos.


É um ato de profundo desdém. É olhar nos olhos dos trabalhadores em greve, dos jovens precários, dos reformados com pensões miseráveis, e dizer-lhes, sem pudor: "Para vocês, sacrifícios e contas certas. Para eles, o luxo dos palácios que vocês pagaram."


Não se trata de uma simples cedência de instalações. Trata-se da materialização da captura do poder político pelo poder económico. É a transformação do património de todos na gorjeta luxuosa para o topo da pirâmide. É um escárnio que transforma a concertação social numa farsa, onde um dos lados negoceia no conforto de um palácio e o outro na incerteza do fim do mês.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Num País de rastos e a exigir austeridade para todos, afinal há dinheiro - estudo de caso do Paulo Pedroso


Por muitas justificações que Paulo Pedroso invoque, 46.000 euros é muito dinheiro. Apesar de a decisão ter sido justificada com o “preço mais baixo”, a opção por uma empresa ligada a um ex-governante do PS é favorecimento político com impacto nos negócios com o Estado. Em 13 de Julho PP afirmava o seguinte: "A Iniciativa Liberal, na moção de Mariana Leitão, é um partido conservador liberal, encostado à direita, mas totalmente despido de consciência social. O elogio rasgado a Milei, sintetiza-o."
 
Coerência? Nenhuma! Não sei como quebrar este imbróglio, mas revolta-me.

Cai por terra o que aqui escreve: "Aos liberais que acreditam que a solução para as relações de trabalho é o regresso ao paradigma da igualdade entre as partes não podemos deixar de recordar que essa foi a base do desastre do capitalismo liberal da segunda metade do século XIX, com as insanáveis contradições da “questão social”, o empobrecimento generalizado dos trabalhadores numa sociedade que gerava cada vez mais riqueza. Esse foi o quadro social que gerou as reações críticas de setores tão dispares quanto os movimentos socialistas de vários matizes e a doutrina social da igreja."

Claro que é um pagamento abusivo. O orçamento de Estado para a Ciência, para a Educação e para a Saúde são miseráveis. O da Cultura e Ambiente (quase a zeros)!!! E agora que seja uma equipa que vai trabalhar por 2 meses e 3 semana pedir 46.000 euros é revoltante! Onde está a "consciência social" que ele escreve no artigo da Revista "Solidariedade"? E mais, o referido contrato foi assinado um dia após a data da nova lei do Código dos Contratos Públicos (CCP) - Decreto‑Lei n.º 112/2025, de 23 de outubro de 2025. Houve claramente um aproveitamento político e abuso. 

Nesta nova Lei, os ajustes directos têm a seguinte redacção:
1.Procedimento de consulta prévia simplificada com convite a pelo menos cinco entidades: valor inferior a € 143.000 (quando adjudicante central/Estado) ou € 221.000 (outras entidades)
2. Procedimento de ajuste direto (regime geral): valor igual ou inferior a € 30.00 euros
3. Procedimento de ajuste direto simplificado: valor igual ou inferior a € 15.000

Preparemo-nos: vamos assistir nos próximos meses a situações muito escabrosas. E o nosso erário público e reserva do Banco de Portugal a saque!!!!

Filho de Marques Mendes envolvido em megacentral fotovoltaica Sophia


De acordo com uma investigação de oRegiões, conduzida pelo jornalista Fernando Jesus Pires, o nome do filho de Luís Marques Mendes é referido como estando associado ao projeto solar Sophia, que prevê o abate de 421 sobreiros e 1120 azinheiras para se construir um parque fotovoltaico. A iniciativa poderá afectar habitats de mais de 100 espécies registadas na região e estudos gerais indicam que os parques solares poderão causar um aumento local da temperatura entre 3 a 5 graus.

O projeto está ligado à Coloursflow (gerida por Miguel Ricardo Fernandes Lopes Lobo). O único sócio da Coloursflow é a Lightsource Renewable Energy Portugal (HoldCo), Lda., sociedade detida por João Pedro Pinto Salazar Marques Mendes, filho de Luís Marques Mendes, antigo líder do PSD e actual candidato à Presidência da República, e por Ana Carolina Miranda Almeida. Já a gestão é assumida por Carlos Alexandre Henriques dos Santos.

No início de 2025, segundo uma notícia da ECO, a PLMJ (uma sociedade de advogados) “assessorou a Lightsource bp na venda do projeto solar fotovoltaico “Cibele” (com capacidade de 130MW e em fase de “ready-to-build”) à Exus Renewables. A referida sociedade de advogados fundada por José Miguel Júdice e Francisco Oliveira Martins, assessorou a transação que foi liderada por João Marques Mendes, sócio da área de Energia e Recursos Naturais, e por Nuno Serrão Faria, associado coordenador na área de Corporate M&A.” De relembrar que José Miguel Júdice é actualmente mandatário nacional de João Cotrim de Figueiredo, como candidato à Presidência da República.

Recentemente, a Lightsource bp promoveu uma apresentação sobre “Hybrid PPA: bringing innovative solutions to your procurement energy strategy“ e o evento contou com uma intervenção de João Marques Mendes, sócio da PLMJ Advogados.

De notar que a TVI já tinha feito uma reportagem sobre a Operação Influencer, em que João Marques Mendes, filho de Luís Marques Mendes, é ouvido em escutas.

Actualmente, a futura central solar fotovoltaica encontra-se em consulta pública para licenciamento ambiental, abrangendo cerca de 400 hectares no Fundão. Ainda, irá afectar a Reserva Ecológica Nacional, incluindo cursos de água, leitos, margens e zonas de elevado risco de erosão do solo. Algumas espécies em perigo como a Águia Imperial Ibérica, o Abutre Preto e a Cegonha Preta poderão ver os seus habitats perturbados.Imagem ilustrativa de um parque fotovoltaico

Não menos importante, esta decisão poderá desfigurar a paisagem natural e cultural da Beira Baixa, nomeadamente os mosaicos de oliveiras, sobreiros e muros de xisto.

Fontes:
  1. Silêncio Solar: O Negócio do Filho de Marques Mendes e a Submissão dos Autarcas à Nova Colonização Energética – oRegiões
  2. Media Lobo
  3. A CSF de Sophia e as LMAT associadas
  4. Operação Influencer: João Marques Mendes, filho de Luís Marques Mendes, ouvido em escutas | TVI Player
  5. Agência Portuguesa do Ambiente
  6. PPA híbridos: a nova geração de soluções energéticas renováveis para empresas comprometidas com o crescimento económico | Lightsource bp
  7. PLMJ assessora Lightsource bp na venda de projeto solar – ECO

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Abusadores da mama


Portugueses, a hora é grave: há bebés a mamar à conta do patronato até irem para a escola (ao menos, vá lá, não até irem para a tropa). Tudo para mães desviantes abocanharem uma redução de horário no trabalho. Ao que chegámos, compatriotas. Por isso é que isto está como está. Cuspam no chão, em repugnância. Felizmente, a ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social está à coca. "Infelizmente, temos conhecimento de muitas práticas em que, de facto, as crianças parece que continuam a ser amamentadas para dar à trabalhadora um horário reduzido, que é duas horas por dia que o empregador paga, até andarem na escola primária", disse em entrevista ao JN e TSF, no último domingo.

Agora, acabou-se a mama. O Governo propõe-se impor que o atestado médico para aceder à redução de horário, hoje só necessário a partir do primeiro ano de vida do bebé, passe a ser obrigatório desde a nascença e renovado a cada seis meses. O resultado prático, previsível, será diminuir o acesso a este direito, ou impedi-lo de todo. “Vai claramente afetar a sociedade mais vulnerável a nível económico, como é o caso das mães solteiras e vai empobrecer as famílias”, disse à SÁBADO Sara do Vale, da Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto. Faz hoje mesmo um ano e oito meses, o Estado português criou a Comissão para a Promoção do Aleitamento Materno, com a missão de mais do que duplicar a taxa de aleitamento materno exclusivo nos primeiros meses de vida do bebé. Agora sabota essa missão, para acabar com a fraude.

Qual fraude? A ministra não explicou, nem o Ministério responde a questões dos jornalistas sobre o assunto, desde domingo. Não há dados, nem provas, nem o mais leve indício publicado que fundamente que o problema existe, muito menos qual a sua dimensão. Há o “temos conhecimento” da ministra. Um achismo autossuficiente que justifica alterar uma política pública sem sequer validar os seus fundamentos ou estudar os seus impactos.

O Governo anda a prometer, e bem, desburocratizar e simplificar o funcionamento do Estado para facilitar a vida a investidores e empresas. Mas, quando se trata de direitos sociais, cria obrigações acrescidas de provas, papéis e carimbos de seis em seis meses para infernizar a vida de todos, a cavalo de umas vagas fraudes cuja dimensão, ou sequer existência, nem se maça a demonstrar. O Estado ágil e descomplicado é para quem possa pagá-lo.

Na verdade, não surpreende ver a ministra da Solidariedade mais empenhada na solidariedade corporativa do que na solidariedade social. Maria do Rosário Ramalho é hoje o exemplo mais gritante de uma cultura de conflitos de interesses que há muito permeia a política e se instalou no Governo. A sua família direta ilustra de forma eloquente um mercado de influências que une poderes públicos e privados e se banqueteia nos favores da lei. Ramalho, convém lembrar, é o apelido do gestor António Ramalho, marido da ministra, com profícua carreira, quer no setor público, quer no privado. Passou pela Infraestruturas de Portugal antes de aterrar no Novo Banco, de que foi CEO no período em que o “banco bom” do BES, comprado pelo fundo abutre da Lone Star, se serviu de 3,4 mil milhões de euros do Fundo de Resolução.

Sugado o filão das garantias públicas, Ramalho deu por concluído o seu serviço aos cobóis do Texas, que agora empocharam 4,8 mil milhões com a venda do Novo Banco. Ainda passou por uma consultora que o próprio havia contratado, na mesma lógica de porta giratória em que construiu o seu currículo, antes de uma passagem fulgurante pela Cruz Vermelha Portuguesa. Em maio, voltámos a vê-lo num lugar-chave: a presidência da Lusoponte, precisamente no momento em que a concessionária das pontes 25 de Abril e Vasco da Gama começa a negociar com o Governo uma eventual extensão da concessão (ou um novo concurso) para construir a terceira (e quem sabe a quarta) travessias, já anunciadas pelo Governo. Ramalho parte para essa negociação com a experiência que traz do lado público, na Infraestruturas de Portugal, e com o conforto de ter a esposa sentada à mesa do Conselho de Ministros. Como se não bastasse, a sua filha, Inês Ramalho, é vice-presidente do PSD. Entre pai, mãe e filha, a tríade Ramalho está instalada, simultaneamente, no concessionário, no Governo e no partido.

Depois dos dois anos, estranhou a ministra, “acho difícil de conceber” que uma criança continue a precisar de leite materno durante o horário de trabalho. Já um banco ou uma concessionária precisam da amamentação do contribuinte durante muito mais tempo do que isso. As prioridades públicas no combate aos abusos ficam claras. Acautelem-se, mães e bebés: a mama não é para todos.

E as Misericórdias roubam que se fartam. Roubam aos utentes, roubam aos municípios, roubam à Segurança Social.