Mostrar mensagens com a etiqueta Luís Vicente. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Luís Vicente. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 17 de julho de 2026

O fenómeno do pára-brisas limpo: a dita "viagem confortável" que esconde uma catástrofe ecológica


Durante décadas, quem conduzia pelas estradas de Portugal conhecia um pequeno incómodo inevitável. Ao fim de algumas dezenas de quilómetros, sobretudo nas noites quentes de Primavera e Verão, o pára-brisas ficava coberto de insetos esmagados. Era preciso lavar o vidro, limpar os faróis, remover aquela película de pequenos corpos que se acumulava ao longo da viagem.

Hoje, muitos automobilistas já nem se lembram disso. As viagens fazem-se com os pára-brisas quase limpos.

O fenómeno tornou-se tão banal que poucos se interrogam sobre o seu significado. Afinal, quem haveria de lamentar a ausência de insetos esmagados? E, no entanto, o que a ciência designa formalmente por "fenómeno do pára-brisas" (windshield phenomenon) é, na verdade, um dos sinais mais inquietantes da transformação ecológica do nosso tempo.

O desaparecimento dos insetos não é uma curiosidade estatística nem uma preocupação romântica. Em Portugal, o alerta deixou de ser apenas uma suspeita visual para passar a ser um facto científico incontornável. A publicação do Livro Vermelho dos Invertebrados de Portugal Continental, que contou com forte liderança e coordenação científica nacional, revelou que mais de duas centenas de espécies de invertebrados terrestres e de água doce estão ativamente ameaçadas de extinção no nosso território.

Os insetos constituem uma parte fundamental da biomassa animal terrestre. São a base alimentar de inúmeras espécies de aves, morcegos, anfíbios, répteis, peixes e pequenos mamíferos. Quando os insetos desaparecem, toda a cadeia ecológica começa a vacilar. Uma andorinha não se alimenta de teorias económicas. Um morcego não vive de discursos políticos. Um papa-moscas não sobrevive de boas intenções. Todos dependem de insetos reais, capturados todos os dias, aos milhares. Quando esses insetos escasseiam, a fome instala-se, a reprodução diminui e as extinções locais sucedem-se em absoluto silêncio.

Ao mesmo tempo, tornam-se raros os insetos que desempenham funções vitais. Os polinizadores são o exemplo mais flagrante. Abelhas selvagens, abelhões, moscas-das-flores e borboletas garantem a reprodução de grande parte das plantas silvestres e cultivadas. Para tentar travar este colapso, Portugal aprovou o plano nacional [Polinizadores em Ação]. Desenvolvido em parceria com a comunidade científica da Universidade de Coimbra e o ICNF, este roteiro define mais de uma centena de medidas urgentes para recuperar os habitats destes animais, cientes de que, sem eles, não desaparecem apenas as flores - diminuem drasticamente as colheitas e a nossa própria segurança alimentar.

Mas talvez as histórias mais elucidativas sejam aquelas que envolvem criaturas aparentemente insignificantes. Tomemos as joaninhas.

Durante milhões de anos, as joaninhas foram aliadas silenciosas da agricultura, alimentando-se de afídios e cochonilhas de forma gratuita e altamente eficaz. Depois vieram os pesticidas químicos. Investigadores portugueses ligados ao cE3c (Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais) têm vindo a alertar para esta realidade, tendo inclusive participado em debates científicos de relevo nacional como o documentário O Apocalipse dos Insetos , focado precisamente no esforço urgente para travar esta extinção em massa provocada pelo ser humano. Ao inundarmos os campos com veneno, eliminámos os inimigos naturais das pragas. Sem as joaninhas, as cochonilhas encontraram caminho livre para se multiplicarem, restando ao ser humano a habitual e ingénua surpresa: “Como é possível haver tantas cochonilhas?”

A história dos pirilampos é ainda mais poética e, por isso, mais dolorosa. Quem cresceu no campo recorda-se das noites de Verão iluminadas pelos seus lampejos verdes. Hoje, a poluição luminosa e a destruição de habitats afastaram-nos da nossa vista. Mas há um elo invisível e químico: as larvas dos pirilampos alimentam-se de caracóis e escaravelhos. Ao aplicarmos produtos químicos nos jardins e campos, quebramos estas cadeias tróficas.

Projetos nacionais de conservação ativa, como o inovador LIFE BEETLES nos Açores - que conta com a cooperação de investigadores do próprio cE3c -, provam que o caminho tem de ser inverso: focar no restauro dos habitats e na recuperação destas espécies outrora desvalorizadas.

Os ecossistemas não são coleções de espécies independentes. São redes complexas de interdependências construídas ao longo de milhões de anos de evolução. Quando retiramos um fio, outros começam a ceder.

Por tudo isto, o pára-brisas limpo de um automóvel é hoje uma imagem profundamente cinzenta. Não representa uma viagem mais confortável. Representa um silêncio biológico crescente. Um vazio que se instala lentamente nas noites de Verão, nos campos agrícolas e nas bermas das estradas.

Quando os últimos lampejos dos pirilampos se apagarem e as joaninhas sobreviverem apenas nas ilustrações dos livros infantis, talvez compreendamos finalmente que a verdadeira praga nunca foram os insetos. A verdadeira praga foi a nossa incapacidade de perceber que tudo está ligado.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

O que ninguém diz sobre o novo aeroporto de Lisboa


Hoje, dia 6 de Dezembro de 2023, o velho aeroporto de Lisboa está saturado. Suponho que amanhã também estará, assim como para a próxima semana e possivelmente no próximo ano (já sem tantas certezas). Contudo, depois não sei.

O que eu aprendi nos estudos que fiz sobre obras de vulto foi que é necessário cenarizar o futuro. Atenção, cenários não são predições, nem são truques de astrologia – são futuros plausíveis!
No desenvolvimento dos cenários são utilizados modelos quantitativos e análises qualitativas. São simulações de sistemas multivariados que permitem perceber tendências.
Ou seja, quais as tendências do tráfego aéreo nos próximos 10-30-50 anos.
À partida ter-se-ão que avaliar todas as hipóteses: (a) o tráfego aéreo vai aumentar? (b) o tráfego aéreo vai manter-se? (c) o tráfego aéreo vai diminuir? e (d) a que velocidade?

Quais as variáveis que condicionam o tráfego aéreo?
A elaboração dos cenários que estão em cima da mesa baseia-se nas actuais condições e tendências e essas apontam claramente para um rápido aumento do tráfego aéreo.
Mas a questão não é linear e um estudo sério deverá considerar outros cenários hipotéticos que levem em conta outras variáveis plausíveis. Dou apenas um exemplo que tem a ver com as alterações climáticas que são uma realidade dramática.
Os acordos internacionais sobre a redução da emissão de gases com efeito de estufa são manifestamente insuficientes para retardar de forma significativa os efeitos do aquecimento global: alterações do calendário agrícola, alterações biogeográficas, alterações demográficas, conflitos territoriais, fomes, secas, cheias, aumento da frequência de acontecimentos imprevisíveis, subida do nível do mar particularmente acentuada no Atlântico, etc..
A breve prazo, a fim de evitar o descalabro ambiental e o social dele decorrente, novos acordos muito mais draconianos terão de ser assinados. A redução significativa de gases com efeito de estufa será feita, de forma significativa, à custa da redução do tráfego terrestre e aéreo.
Serão impostas quotas de tráfego e tudo leva a crer, importantes ao nível do tráfego aéreo. A decisão é simples: ou temos planeta, ou o destruímos a uma velocidade estonteante.
Portanto o que é espectável, em alternativa ao suicídio planetário, é uma diminuição significativa do tráfego aéreo. Isto leva de novo à questão: justificar-se-á um novo aeroporto?
Obviamente que isto é mau para uma economia de acumulação cada vez mais baseada no turismo (e não directamente no trabalho) como a nossa. Porque numa primeira fase a única forma que o sistema económico tem de cumprir acordos de diminuição de tráfego aéreo será tornar os preços das viagens proibitivos. Volto a questionar: justificar-se-á um novo aeroporto?
A minha resposta não é um não imediato. É, simplesmente, que faltam estudos sérios, honestos, que considerem os vários cenários plausíveis e que fundamentem a necessidade (ou não) da obra.

E coloca-se a questão central do Impacto ambiental.
Claro que há estudos de impacto ambiental honestos e também desonestos. Conheço exemplos de ambos os tipos.
Um estudo de impacto ambiental do presumível novo aeroporto, obrigatoriamente, vários capítulos. Logo o primeiro deverá incidir sobre a própria obra: o impacto da construção de estaleiros, o impacto do tráfego de camiões (ou outros meios) para transporte de materiais, o impacto da própria obra, depois o levantamento dos estaleiros, depois o próprio tráfego aéreo em função da época do ano (por exemplo, será diferente o impacto durante a nidificação das aves do impacto durante as migrações e do impacto durante o inverno, etc.), depois o impacto do transporte de passageiros ou de mercadorias para os seus destinos (não imagino que, por exemplo os turistas, venham fazer turismo exclusivamente para o Alcochete ou trincar bifanas para Vendas Novas)… e, um dia, o impacto da desactivação do aeroporto (para quem não sabe as regras aconselham). 

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

E 2022? Por Luís Vicente

E 2022?
Amanhã será a primeira segunda-feira do novo ano.
Enganadas pelo clima, as roseiras do meu quintal teimaram em florir ao longo de todo o mês de Dezembro.
As aves marinhas mediterrânicas continuarão a nidificar alegremente no Atlântico norte e as do Atlântico norte a aproximarem-se cada vez mais do Árctico.
Neste meu Alentejo desgraçado, olival e amendoal intensivos continuarão em expansão aterradora.
Chamam-lhes aqui, os seus proprietários, “olival sustentável” e “amendoal sustentável”. Só se for porque os sustenta a eles. Se não fosse triste dava vontade de rir.
A EDIA continuará a desviar as águas do Alqueva para estes “sustentáveis”, tirando-a aos pequenos e médios agricultores. A EDIA continuará a transvasar água do Guadiana para o Sado promovendo a contaminação genética entre duas bacias biogeograficamente separadas há muitos milhares de anos. Que se lixe a biodiversidade!
Com a miragem de nunca baixar os lucros, agora com a desculpa esfarrapada do “ambientalismo”, continuarão a promover-se os veículos eléctricos. Para carregar as suas ávidas baterias de lítio electrificam-se cada vez mais as cidades. Toneladas e toneladas de fio de cobre que nada têm de sustentável.
Continuarão a achar que a energia solar é a panaceia para os gases com efeito de estufa. E as toneladas de metais raros utilizadas no fabrico dos paineis solares? Qual o custo ambiental e humano da sua extração e do seu processamento?
E a eólica? Quantas toneladas de alumínio na construção de uma torre eólica?
Insistem que a carne de vaca é boa para a saúde. Mas esquecem que a pecuária é responsável por 18% dos gases com efeito de estufa. Comam feijão. É saudável e não mata o clima.
E matam florestas tropicais e subtropicais para a soja das rações.
E o clima?
Aumentará a frequência de fenómenos imprevisíveis. Nevões, tufões, cheias, ondas de calor. Por cá, fogos em florestas que há muitas décadas que não são florestas mas matas tristemente desordenadas.
E os gelos do Árctico continuarão a derreter, inexoravelmente.
Crime atrás de crime, a dicotomia é e será lucro versus ambiente… e ganhará o lucro.
E pandemias? Descansem, outras virão cada vez com mais frequência. Lucrarão as farmacêuticas.
Uma pandemia é sempre um bom motivo para domesticar a malta e para culpar a malta.
Querer-nos-ão consumidores olímpicos e acríticos, bem domados para adquirirmos as futilidades que nos impingem. Quem lucra?
No fim, se lá chegarmos, muito fogo de artifício. Morrerão milhares de animais, uma boa parte simplesmente de susto, ou seja, ataque cardíaco, outra parte serão as crias abandonadas pelos pais que desertam em pânico. E os miúdos autistas entrarão em descompensação.
Depois os fofinhos dirão que estamos à beira do abismo e darão abracinhos à Greta.
Como já o fiz em 2021, passarei o ano a explicar aos meus estudantes que não, que não estamos à beira do abismo. Sim, já estivemos nas décadas de 70 e 80 do século passado. Mas já demos o passo em frente. Agora estamos em queda livre. Sem rede.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Os morcegos de Portugal continental estão a voar no seu primeiro atlas

O morcego-rato-grande (Myotis myotis)
ANA RAINHO
São animais nocturnos que metiam medo, associados até à bruxaria, e que as pessoas expulsavam das suas casas e das igrejas à vassourada. Muito mudou entretanto, agora são protegidos e, nos últimos dois anos, muita gente tornou-se voluntária de um projecto que deu origem ao Atlas dos Morcegos de Portugal Continental, apresentado ontem e com edição do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

Este projecto partiu da ideia de um grupo de voluntários que pretendia aglutinar, pela primeira vez, toda a informação dispersa sobre morcegos em Portugal continental. Era importante “conhecer melhor os seus abrigos, para termos mais informação e actuarmos na conservação das espécies”, diz a bióloga Luísa Rodrigues, técnica do ICNF envolvida no projecto, com coordenação nacional de Ana Rainho, também do ICNF.

O primeiro trabalho publicado sobre os morcegos de Portugal continental remonta a 1863, quando o naturalista José Vicente Barbosa du Bocage apresentou a primeira lista de espécies no país. Na década de 1960 houve publicações pontuais, mas foi na década de 1970 que a equipa do biólogo Jorge Palmeirim começou a fazer a recolha sistematizada de informação sobre morcegos.

O trabalho do atlas surgiu integrado no Ano do Morcego, uma campanha que começou 2011 e terminou em 2012 e incluiu ainda dados de 2010. Participaram 159 pessoas, desde biólogos, técnicos e, também, cidadãos voluntários que desenvolveram trabalho no terreno. Houve ainda quem ajudasse através da Internet, dando informações ou pistas sobre a localização de morcegos.

Muitas destas suspeitas resultavam de relatos antigos sobre o paradeiro de morcegos, que mais tarde, com este trabalho, até se confirmaram. Para quem pouco sabia de morcegos, fizeram-se cursos sobre estes animais e os sons que emitem. No fundo, apenas era necessário “ter o gosto e esforçar-se”, diz a bióloga.

Sabe-se que existem 25 espécies de morcegos em Portugal continental (nos Açores e na Madeira, além dessas espécies, há mais duas). Durante o projecto, detectaram-se 24 espécies no Continente: ficou por encontrar o morcego-arborícola-grande (Nyctalus noctula), espécie cuja presença tinha sido registada no Norte do país.

Consoante a espécie, os morcegos podem alimentar-se de fruta, néctar e pólen das flores, peixe, carne e, claro, sangue. Podem caçar alimentos do chão ou efectuar voos a grandes altitudes, acima da copa das árvores e, nas cidades, indo para lá da altura dos prédios, como é o caso do morcego-rabudo (Tadarida teniotis).

Quanto ao peso, os morcegos portugueses têm entre cerca de cinco gramas (como um pacote de açúcar do café) e, no máximo, 45 gramas.

Para compilar toda a informação do atlas, que custa oito euros, os participantes observaram morcegos que se encontravam tanto em abrigos como em voo. Nos abrigos, registava-se o número de indivíduos, o número de machos e de fêmeas, o número de fêmeas com crias, a temperatura ambiente e a humidade, se existia alguma ameaça e se era preciso tomar medidas a curto prazo. Quanto aos que estavam a voar, assinalavam-se coordenadas geográficas, mas também características do terreno.

Apesar de terem uma grande longevidade — podem viver até 30 anos —, como têm apenas uma cria por ano constituem o “grupo mais ameaçado da nossa fauna”, frisa Jorge Palmeirim, da Faculdade de Ciências da Universidade Lisboa. As mais ameaçadas são as espécies cavernícolas que habitam, por exemplo, grutas ou minas abandonadas: é o caso do morcego-rato-pequeno (Myotis blythii) e do morcego-ferradura-mediterrânico (Rhinolophus euryale).

As ameaças podem ser intencionais mas, também, inadvertidas. Ter visitantes numa gruta com morcegos no período de hibernação ou de maternidade é logo uma perturbação para eles. Mas, em geral, os morcegos estão em risco se os obrigarmos a despender energia em excesso na altura da hibernação, forçando-os a voar, se lhes destruirmos as florestas onde vivem ou se lhes provocarmos alterações na alimentação.

Os pesticidas podem ser também um factor de risco, ao diminuírem o número de insectos disponíveis como fonte de alimento e ao comerem animais contaminados. “Não há dados concretos. De vez em quando, encontramos muitos morcegos mortos e calcula-se que os pesticidas sejam a causa”, diz Luísa Rodrigues.

O desaparecimento dos morcegos teria consequências para nós próprios. Como diz Jorge Palmeirim, eles são importantes para a “manutenção do equilíbrio dos ecossistemas naturais e humanizados”.

A percepção actual das pessoas sobre os morcegos mudou muito nos últimos 30 anos e perseguição directa já não ocorre com tanta regularidade. Jorge Palmeirim conta, entre gargalhadas, que antigamente, quando dizia às pessoas que trabalhava com morcegos, elas perguntavam-lhe se era bruxo. “Já muita gente tem simpatia por morcegos. A televisão tem mudado a percepção das pessoas. Apesar de tudo, os morcegos continuam a ter uma imagem negativa.”

A este propósito, Luísa Rodrigues diz que são cada vez mais as pessoas que telefonam para o ICNF a contar que têm morcegos em casa, que cuidam deles e que querem ter mais. E há ainda quem não os tenha em casa e deseja tê-los. “Começa a haver uma aceitação das espécies e do respeito que devemos ter pelos seres vivos.”

Esta fotografia dos morcegos de Portugal continental vai agora permitir fazer comparações e ver o que está a acontecer às suas populações.

Texto editado por Teresa Firmino

domingo, 17 de janeiro de 2010

Livro "Ecossistemas e Bem-Estar Humano - Avaliação para Portugal do Millennium Ecosystem Assessment"

O livro representa um esforço único no contexto científico nacional ao reunir o trabalho de mais de 60 cientistas, que de um modo integrado avaliaram o estado dos ecossistemas em Portugal.

A cerimónia de lançamento do livro foi presidida pelo Secretario de Estado do Ambiente, Prof. Doutor Humberto Rosa. O evento decorreu na livraria Escolar Editora, no edifício C5 da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, no dia 13 de Janeiro.

Capa e sinopose do livro aqui

Ricardo Garcia faz uma crónica sobre este livro, publicada no Público dia 14 de Janeiro, com o título sugestivo (e verdadeiro!)
"Deterioração dos ecossistemas pode trazer problemas ao país, da economia ao lazer
Aqueles que consideram que preservar a natureza é coisa dos "malucos do ambiente" estão redondamente enganados. Um livro lançado ontem, em Lisboa, deixa claro que se os ecossistemas do país se deteriorarem - e alguns estão neste caminho - estaremos em maus lençóis em vários domínios, da economia ao lazer.

"Ecossistemas e Bem-Estar Humano" é uma versão completa e actualizada da contribuição portuguesa para o Millenium Ecosystem Assessment, um programa lançado pela ONU no princípio desta década e concluído há quatro anos. O objectivo do programa global era o de avaliar como as actividades humanas interagem com os serviços que os ecossistemas colocam à nossa disposição - como produção de água ou de alimentos, protecção dos solos ou simplesmente fonte de receitas [ver nota minha 1] .

Uma das formas de se olhar para estes serviços é através do seu valor, em dinheiro. "É uma linguagem que todos percebem", afirma Henrique Miguel Pereira, do Centro de Biologia Ambiental da Universidade de Lisboa, que coordenou o livro com mais três investigadores - Tiago Domingos (Instituto Superior Técnico), Luís Vicente e Vânia Proença (ambos também do Centro de Biologia Ambiental).

Por exemplo, a água mobiliza um sector, o do abastecimento, que vale dois mil milhões de euros por ano. E para que haja água de qualidade é preciso que vários ecossistemas estejam a funcionar bem, como as florestas, os aquíferos subterrâneos ou os rios e albufeiras.

Facilmente se atribui uma cifra a outros serviços dos ecossistemas. O livro salienta que as florestas representam dez por cento das exportações nacionais. Além disso, retiram dióxido de carbono da atmosfera, ajudando a conter o aquecimento global. Em 2007, absorveram 5,44 milhões de toneladas de CO2, um serviço que vale 65 milhões de euros, aos valores de hoje do mercado do carbono.

Até uma paisagem pode ter um valor. Um estudo mencionado no livro concluiu que os portugueses estarão dispostos a pagar 30 euros para preservar um terço das estepes cerealíferas de Castro Verde, no Alentejo - o habitat de excelência de algumas aves ameaçadas, como a abetarda. Ajustando-se o resultado para toda a população e para as áreas em causa, chega-se ao valor da preservação de um hectare por ano em Castro Verde: 446 euros, muito mais do que a compensação a que os agricultores têm direito (73 euros por hectares) para conservarem aquele ecossistema.

A agricultura, porém, é um dos sectores que saem mal na fotografia do livro. A maioria das práticas actuais está a degradar o solo, sem conseguir suprir as necessidades de alimentação do país. "Temos muito poucos bons solos e não temos feito um bom trabalho para os proteger", diz Henrique Pereira.[ver nota minha 2]

Na água, o cenário é ambivalente. O país tem-na em excesso: apenas dez por cento da precipitação é utilizada. Mas, quando chega ao solo, a água confronta-se com a poluição, sobretudo a difusa, proveniente da agricultura, por exemplo. Resultado: 40 por cento dos rios e albufeiras estão poluídos.

Com isso, a água - uma matéria-prima gratuita - passa a ter um custo adicional à sua captação e distribuição: o tratamento. "Se os sistemas estiverem degradados, vamos ter de gastar mais", afirma o investigador.

O livro conclui que há uma tendência para se utilizarem mais "os serviços de produção" dos ecossistemas, em detrimento dos "serviços de regulação e culturais". Isto só poderá ser contrariado "se a sociedade se aperceber das implicações negativas para o bem-estar humano". Esperemos que sim.

[1] Esta publicação esclarece melhor todos os aspectos da estrutura conceptual da Avaliação do Milénio dos Ecossistemas
[2] Esta apresentação, de 2004, mostra já uma enorme preocupação desta equipa pelo estado da arte nas florestas, agricultura e da água em Portugal

Ler ainda:
Entrevista a Henrique Miguel Pereira, Confagri, 2004