Mostrar mensagens com a etiqueta Enrique Leff. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Enrique Leff. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

A ilusão do consumo e o silêncio da extinção: uma crítica da ecologia política ao poder corporativo

A ilustração contrapõe a marcha inevitável da fauna selvagem rumo à porta da extinção à apatia de uma multidão imersa no consumo frenético, nas redes sociais e na validação individual. A provocação estampada na base - "We didn’t notice them leaving" - expõe não um mero esquecimento coletivo acidental, mas o resultado de um projeto de alienação sistémica. Sob as lentes da ecologia política, da economia ecológica e do decrescimento, o cartaz denuncia como a captura democrática operada por corporações transnacionais desestrutura a resiliência comunitária, coloniza as subjetividades e cega a sociedade para o colapso biológico.

A economia ecológica e a farsa da separação
A economia ecológica demonstra que o sistema económico capitalista é um subsistema aberto, limitado pelas leis da termodinâmica e pela capacidade de suporte da biosfera. O cartaz capta a rutura dessa lógica: a civilização consome como se o ecossistema fosse infinito. O letreiro "SALE" e o carrinho com o "LATEST MODEL" revelam a redução de toda a riqueza natural a valor de troca. A biodiversidade não possui precificação direta no mercado e, por isso, torna-se invisível ao cálculo capitalista até à sua liquidação total. O movimento dos animais simboliza a ultrapassagem dos limites planetários. Enquanto a produção industrial avança, a perda de habitats acelera sem que os indicadores macroeconómicos tradicionais registem essa perda de património biológico real.

Captura democrática, coaptação e ecologia política
A ecologia política desfaz a ilusão de que a destruição ambiental é culpa de uma "natureza humana" gananciosa de forma genérica. Trata-se da ação de atores com poder assimétrico. Grandes multinacionais exercem uma captura direta do Estado e das instâncias decisórias através do fenómeno de regulatory capture. Por meio de lobbying, financiamento de campanhas e estratégias de greenwashing, as corporações bloqueiam legislações ambientais rígidas e desmontam coletivos locais de resistência que historicamente atuam como guardiões da biodiversidade.

Paralelamente, o conceito de Soluções Baseadas na Natureza (SBN), originalmente voltado à restauração ecossistémica integrando saberes comunitários, é frequentemente cooptado pelo poder corporativo para virar mecanismos de compensação que permitem a continuidade da poluição no Norte global enquanto mercantilizam territórios no Sul global. A sacola com a sátira "JUST BUY IT" e os balões de curtidas virtuais corporificam a transferência da culpa do colapso ecológico para o consumidor. O sistema ensina a sociedade a canalizar a sua agência política para escolhas de consumo "sustentáveis" individuais, desmobilizando a organização coletiva.

O decrescimento como ruptura e a redefinição da prevenção ecológica
Para conter a marcha representada no lado esquerdo da imagem, a literatura do decrescimento e da prevenção ecológica defende que ajustes tecnológicos marginais são insuficientes. O modelo que exige a compra constante do "modelo mais recente" é incompatível com a finitude planetária. O decrescimento propõe a redução planeada do consumo de energia e materiais, priorizando a sobriedade, a reparabilidade e o bem-estar social em vez do lucro privado. A prevenção ecológica exige desmantelar a máquina publicitária que associa a felicidade ao acúmulo de mercadorias. A multidão absorta em telemóveis exemplifica a "colonização da atenção", onde o espetáculo digital bloqueia a percepção da urgência ecológica concreta.

O limite da pedagogia, o ambientalismo coercivo e o estado de exceção ecológico
A eficácia da educação ambiental crítica revela-se manifestamente insuficiente perante a dimensão da crise. Apesar de as novas gerações serem expostas a conteúdos de consciencialização ecológica, observa-se a sua rápida absorção pela "mercantilização das mentes". O trabalho pedagógico é constantemente anulado por um ecossistema mediático e de consumo desenhado para converter o conhecimento em apatia funcional e as preocupações éticas em meras tendências de estilo de vida.

Perante o fracasso da pedagogia e a captura anarco-capitalista da democracia liberal, a resposta teórica e prática desloca-se da persuasão moral para a soberania coerciva. No ensaio Political Theory and Climate Change: The Case for Eco-Authoritarianism (2021), Ross Mittiga defende explicitamente que, se os regimes liberais continuarem incapazes de garantir a segurança básica dos seus cidadãos perante a emergência climática, a restrição de certos direitos políticos e o recurso ao estado de exceção ecológico tornam-se moralmente legítimos. Esta incapacidade estrutural já tinha sido diagnosticada por David Shearman e Joseph Wayne Smith em The Climate Change Challenge and the Failure of Democracy (2007). Para estes autores, a democracia liberal falhou no combate à degradação ambiental devido à sua vassalagem aos mercados e ao poder corporativo, o que exige a transição para uma "epistocracia verde" - um modelo de governação liderado por autoridades técnicas e peritos ecologistas capazes de tomar decisões imunes ao ciclo eleitoral.

Críticos ao Estado de Excepção Ecológica
No entanto, o risco de o estado de emergência ser cooptado pelo próprio capital é alertado por Joel Wainwright e Geoff Mann em Climate Leviathan: A Political Theory of Our Planetary Future (2018). Os teóricos mapeiam a emergência do "Leviatã Climático", uma forma de soberania global de exceção onde o capital transnacional e as forças estatais se fundem para gerir a escassez de recursos sob o pretexto da urgência biológica, preservando contudo as assimetrias da estrutura de classes. Em contrapartida, sob a perspetiva da implementação pragmática, Yifei Li e Judith Shapiro, em China Goes Green: Coercive Environmentalism for a Troubled Planet (2020), analisam o "ambientalismo coercivo". Os autores demonstram como o uso centralizado do poder estatal - contornando a morosidade e as negociações paralisantes do parlamentarismo liberal - consegue impor metas de restauração ecológica e racionamento de recursos a uma velocidade incompatível com a lentidão das democracias de mercado.

O Diagnóstico de George Tsakraklides: nem reforma de esquerda, nem mercado de direita 

Finalmente temos uma corrente colapsista, ecologia profunda contemporânea e anarco-socialista proposta por George Tsakraklides. Como defende que o colapso da civilização industrial é inevitável por limites biofísicos e termodinâmicos, o seu pensamento não oferece "soluções de políticas públicas" viáveis para aparelhos de Estado ou corporações. Tsakraklides rejeita a viabilidade de reformar o sistema. Para ele, qualquer tentativa institucional de "salvar o sistema" não passa de uma maquilhagem do que ele chama de necrosistema.  George Tsakraklides desenvolve uma crítica incisiva à esquerda tradicional e aos movimentos ecologistas mainstream - como o Extinction Rebellion, a Greenpeace ou intelectuais como George Monbiot -, acusando-os de cobardia intelectual ao transformarem a sobrepopulação num tabu intocável. Na perspetiva do autor, o argumento comum da esquerda de que o problema reside exclusivamente no consumo excessivo do "1%" ou no capitalismo predatório assenta numa falácia estatística, pois ignora que o impacto ecológico absoluto é uma equação direta da pegada per capita multiplicada por biliões de indivíduos a exigir energia, tecnologia e alimentos. Como biólogo, Tsakraklides contesta a utopia ecologista de que é possível reeducar comportamentalmente oito mil milhões de pessoas para as tornar "ecologicamente neutras", sustentando que a espécie humana possui uma tendência biológica evolutiva para a expansão e ocupação de território que nenhuma propaganda ideológica conseguirá travar. O ensaísta defende que o receio de acusações de ecofascismo ou eugenia fez com que as organizações ambientais institucionais capitulassem diante da correção política para protegerem o seu financiamento e aceitação mediática. Além disso, Tsakraklides rejeita propostas como o Green New Deal ou a "transição energética" defendidas pelo ecologismo dominante, classificando-as como ilusões que apenas alimentam uma nova vaga de extrativismo mineral para sustentar uma escala demográfica insustentável, desculpabilizando a responsabilidade do próprio consumo de massa da população global.

A crítica de George Tsakraklides à direita política- abrangendo conservadores, liberais e o Partido Republicano nos EUA - é visceral e intransigente. Se o autor acusa a esquerda de ingenuidade e cobardia por alimentar uma «ilusão sustentável», enxerga a direita como o motor ideológico e o braço executivo do necrocapitalismo. Na sua perspetiva, a direita comete a heresia científica definitiva ao colocar o dogma do crescimento económico perpétuo, da desregulamentação e do mercado livre acima das leis invioláveis da termodinâmica e da biologia. Tsakraklides ridiculariza a crença de que a tecnologia, a inovação privada ou a "mão invisível" resolverão o esgotamento planetário, classificando o mercado livre como um algoritmo cego concebido para devorar matérias-primas e gerar lucro imediato. A acumulação de capital é descrita como uma força patológica que atua como um cancro, consumindo o hospedeiro ecossistémico até ao colapso inevitável.

Sendo a sobrepopulação um pilar central da sua reflexão, o ensaísta ataca frontalmente o natalismo conservador e a oposição aos direitos reprodutivos, sustentando que essas agendas servem unicamente para garantir mão de obra barata e expandingir a base de consumidores para as corporações. Ao alimentar o mito antropocêntrico de uma Terra com capacidade infinita, a direita recusa enfrentar a crise ambiental porque fazê-lo exigiria admitir o fracasso do capitalismo industrial. Em obras como Frankenpolitics, Tsakraklides evidencia como o setor empresarial privado e a direita fundiram o Estado e o capital, reduzindo a política a uma fachada destinada a proteger os lucros das indústrias extrativas enquanto a biosfera colapsa.

Esta transição ecológica desmantela a figura do político mercenário através de imperativos legais e fiscais draconianos: a proibição constitucional do lobbying corporativo, o racionamento severo de recursos primários, a taxação punitiva do sobreturismo e o encerramento forçado de indústrias ecocidas. Quando a deliberação democrática se torna refém da lógica do capital, a sobrevivência exige que a autoridade coerciva intervenha diretamente sobre as forças de mercado. A frase «We didn't notice them leaving» deixa, assim, de ser um lamento sobre o esquecimento passivo para se converter na certidão de óbito da ilusão liberal-democrática perante o ecocídio.

Bibliografia
  1. Agamben, G. (2004). Estado de Sítio. Edições 70.
  2. Carvalho, I. C. M. (2012). Educação Ambiental: a formação do sujeito ecológico. Cortez Editora.
  3. Daly, H. E. (1996). Beyond Growth: The Economics of Sustainable Development. Beacon Press.
  4. Escobar, A. (2011). Encountering Development: The Making and Unmaking of the Third World. Princeton University Press.
  5. Georgescu-Roegen, N. (1971). The Entropy Law and the Economic Process. Harvard University Press.
  6. Kallis, G. (2018). Degrowth. Handbooks in Health Economic Series, Resilience Press.
  7. Latouche, S. (2009). Farewell to Growth. Polity Press.
  8. Leff, E. (2001). Saber Ambiental: Sustentabilidade, Racionalidade, Complexidade, Poder. Vozes.
  9. Li, Y., & Shapiro, J. (2020). China Goes Green: Coercive Environmentalism for a Troubled Planet. Polity Press.
  10. Loureiro, C. F. B. (2004). Trajetória e Desafios da Educação Ambiental Crítica. Editora Cortez.
  11. Mann, G., & Wainwright, J. (2018). Climate Leviathan: A Political Theory of Our Planetary Future. Verso Books.
  12. Martínez-Alier, J. (2002). The Environmentalism of the Poor: A Study of Ecological Conflicts and Valuation. Edward Elgar Publishing.
  13. Mittiga, R. (2021). Political Theory and Climate Change: The Case for Eco-Authoritarianism. American Political Science Review, 116(3), 994-1008.
  14. Ophuls, W. (1977). Ecology and the Politics of Scarcity. W. H. Freeman and Company.
  15. Shearman, D., & Smith, J. W. (2007). The Climate Change Challenge and the Failure of Democracy. Praeger.
  16. Tsakraklides, G. (2019). The Nothing Manifesto: Building a zero-impact movement. Independently Published
  17. Tsakraklides, G. (2020). Frankenpolitics: How corporate power and technology created a monster. Independently Published.
  18. Tsakraklides, G. (2021). Biology Lessons in Degrowth. Independently Published.
  19. Tsakraklides, G. (2022). Necrocene: The psychology of human collapse. Independently Published.

domingo, 26 de outubro de 2025

Ecologia, Democracia Participativa e Cultura: antídotos contra o extremismo



Sim, existe extrema-esquerda violenta na Europa, com grupos anarquistas e de esquerda radical envolvidos em ataques (principalmente sabotagem, incêndio) em vários países.

Na história recente da Europa, a maioria dos grupos terroristas, da Irlanda à Espanha, da Alemanha à Itália foram todos de extrema-esquerda. E continua viva e activa. Pelo que também têm de ser combatida com a mesma força e veemência que a extrema-direita.

Muitos ataques atribuídos à extrema-esquerda não visam necessariamente vítimas humanas ou grandes danos, mas sim alvos simbólicos (infraestruturas, empresas) — o que dificulta comparações directas com terrorismo de outra natureza. Dizem-se anti-capitalistas, anti-globalização, anti- indústria fóssil.

Os dados mais robustos sobre “crimes de ideologia” (fora da classificação de terrorismo) são menos sistematicamente agregados a nível europeu para extrema-esquerda.

No entanto, em termos de terrorismo global ou ataques massivos, nem sempre esses grupos têm a mesma escala de operação que outras ameaças extremistas (como jihadistas).

As instituições europeias (como a RAN, Europol e o Conselho da Europa) já reconhecem esse risco e trabalham para monitorá-lo e combatê-lo.

Existiram muitos grupos de extrema-esquerda radical também na América do Sul. Contudo foram extintos e alguns formaram partido democrático, como o Movimento de Participação Popular ( MPP ), que é um partido político de esquerda uruguaio , fundado por ex-guerrilheiros do Movimento de Libertação Nacional-Tupamaros . O MPP faz parte da Frente Ampla , seu líder é Yamandú Orsi e, antes de sua morte, José Mujica . O MPP hoje em dia concorre às eleições com o nome Espacio 609.

Porém e centrando em Portugal, a extrema-esquerda terrorista não existe. A violência política mais grave (bombas, atentados) foi, na verdade, de origem de extrema-direita, como as FP-25 (Forças Populares 25 de Abril) nos anos 1980 — embora estas misturassem retórica de esquerda revolucionária com práticas paramilitares, e sejam frequentemente classificadas como um grupo terrorista de matriz “nacional-revolucionária”. 

Hoje, a extrema-esquerda portuguesa manifesta-se de forma pacífica e democrática, através de partidos como: Bloco de Esquerda (BE) Partido Comunista Português (PCP). Ambos participam no sistema parlamentar e rejeitam a luta armada.

Recuando aos anos quentes do PREC falemos do Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP) essa sim foi uma organização terrorista de extrema-direita portuguesa ativa, cujos membros ainda estão vivos: José Miguel Júdice e Diogo Velez Mouta Pacheco de Amorim (actual vice-presidente da Assembleia da República e guru do Chega). Em 1962 Diogo Amorim centra a sua actividade política na teorização e combate em prol do integracionismo, insurgindo-se contra a política de autonomia, então protagonizada pelo ministro do Ultramar, Adriano Moreira. Distancia-se também da perspectiva adoptada por Cunha Leal. Em 1971 é um dos ferozes críticos da política assumida por Marcelo Caetano no plano das autonomias ultramarinas. A obra nesse ano editada, “Na Hora da Verdade”, ia-lhe valendo nova passagem pela prisão: em Conselho de Ministros, o então Ministro do Ultramar Silva Cunha, propôs a sua prisão. Os restantes ministros apoiaram. Opôs-se o ministro César Moreira Baptista por considerar que isso teria efeitos contraproducentes. Marcelo Caetano decidiu a favor de Moreira Batista. Fernando Amorim não desistiu e fundou o PND, populista de direita, eurocéptico e extremamente conservador.

O livro de Miguel Carvalho já em sexta edição "Quando Portugal ardeu" aborda as relações de parte da direita tradicional com o MDLP, Plano Maria da Fonte e quejandos.

Portanto, o balanço geral é que a extrema-direita é tão preocupante neste momento como a extrema-esquerda. Há os dois populismos, claro.

O avanço da extrema-direita é um sintoma de crises profundas — sociais, ecológicas e culturais. Quando as pessoas se sentem inseguras, isoladas ou sem futuro, crescem o medo e a desconfiança. É nesse terreno que o extremismo floresce.

A ecologia e a democracia oferecem caminhos opostos: cultivam empatia, interdependência e responsabilidade partilhada. Educar para o pensamento crítico, reforçar a solidariedade local e comunicar com clareza são formas de resistência cívica. Contra narrativas de extrema-direita e extrema-esquerda.

Proteger a Terra e cuidar das pessoas são faces da mesma luta. Só uma sociedade justa, informada e ambientalmente consciente poderá travar o ódio e reconstruir a confiança.

O Contexto actual
A extrema-direita em ascensão na América do Norte, na Europa, Rússia, China, em Israel e mais além encontra muito do seu apelo em histórias sobre o que está para vir. Os desejos nativistas de proteger o Ocidente do declínio cultural e da "substituição" demográfica, embora ostensivamente retrógrados, encontram a sua urgência na ansiedade de que em breve será demasiado tarde para mudar de rumo, misturada com a esperança de um confronto político. Para os verdadeiros crentes, o futuro é uma fonte de colapso iminente, que aguçará identidades, hierarquias e limites, algo para o qual se deve acelerar. A nova direita identitária de hoje está menos preocupada com o brilho caloroso do passado imaginado do que com as novas possibilidades que se reservam "no rescaldo do caos", como descreveu o activista francês da nova direita Guillaume Faye.

A direita radical e terrorista já existe. O terrorismo de direita moderno apareceu pela primeira vez na Europa Ocidental na década de 1980 após a dissolução da União Soviética. Os terroristas de direita pretendem derrubar governos e substituí-los por governos nacionalistas ou de orientação fascista. O núcleo desse movimento inclui skinheads neofascistas, hooligans de extrema-direita, e jovens simpatizantes que acreditam que o Estado deve se livrar de elementos estrangeiros para proteger os cidadãos ditos "legítimos". Senão travarmos a tempo, a cegueira destes novos extremistas de direita vai ser um luta armada para impôr o seu propósito fascista. 

O terrorismo de direita é terrorismo motivado por uma variedade de ideologias e crenças de extrema-direita, pós-apocalíptica (só a tecnologia supra-nacionalista "salvará" a humanidade) como já referi anteriormente em conluio com a os extremistas de direitas mais tradicionais como o anticomunismo, neofascismo, neonazismo, racismo, xenofobia, homofobia, transfobia, contra a "islamização" em curso e uma oposição clara à imigração. Esse tipo de terrorismo tem sido esporádico, com pouca ou nenhuma cooperação internacional. 

Contudo, em ambos movimentos o conceito de seita existe. Uma espécie de clã, de um primitivismo atroz, quase teológico. Que abala todos os nossos valores de humanismo, de ajuda mútua, valores democráticos e extinção da mesma. Realmente esta corja, com intentos irracionais e antidemocráticos, vai chegar o apelo à força, ao armamentismo. Esta mensagem está ganhar terreno desde inícios de Janeiro deste ano por fulanos como Elon Musk (o homem mais rico do mundo), que já chegou a dizer que empatia ameaça a civilização. Ele está errado. Ele é essa ameaça.

A confluência dos extremistas de direita tecno-futurista com o extremismo de direita mais tradicional são uma ameaça contemporânea mas evitável. Porém é urgente o seu combate e desejamos que voltem para as cavernas e ao seu silenciamento/cancelamento antes que seja demasiado tarde.

sábado, 11 de outubro de 2025

Política ecológica vs Ecologia política: entender para agir


Nos discursos sobre ambiente e sustentabilidade, termos como política ecológica e ecologia política aparecem com frequência — por vezes usados como sinónimos. Mas há diferenças importantes que convêm conhecer para pensar e agir de forma crítica e eficaz.

O que é política ecológica

A política ecológica é prática: refere-se às decisões, leis, regulamentos, políticas públicas ou privadas que visam incorporar preocupações ecológicas. Por exemplo:

  • Legislação para conservação de espécies ou de habitats;

  • Políticas de energias renováveis ou de eficiência energética;

  • Programas de redução de emissões de gases com efeito de estufa;

  • Políticas de gestão de resíduos e economia circular.

Ou seja, política ecológica lida com o que se faz para proteger ou restaurar o ambiente, com metas, instrumentos regulatórios, incentivos ou penalizações, e com a implementação prática.

O que é ecologia política

Ecologia política é reflexão e análise crítica: estuda como fatores como poder, desigualdade, economia ou cultura moldam as interações entre sociedade e natureza. Envolve perguntas como:

  • Quem decide sobre o uso da terra ou dos recursos naturais?

  • Quem lucra e quem sofre com os impactos ambientais?

  • Como formas de conhecimento e cultura (saberes locais, indígenas, campesinos) são valorizadas ou rejeitadas?

  • Que narrativas legitimam certas políticas ecológicas, enquanto marginalizam outras?

  • Como as estruturas globais (capitalismo, colonialismo, sistema internacional) influenciam crises ecológicas? 

A ecologia política procura revelar as relações de poder que estão por baixo das políticas ecológicas, ajudar a diagnosticar injustiças ambientais e indicar caminhos para transformações mais radicais e justas.

Por que a distinção importa

  • Políticas ecológicas bem-intencionadas podem falhar ou gerar injustiças se ignorarem quem é afetado: por exemplo projetos de conservação que deslocam populações locais, ou medidas climáticas que penalizam os mais pobres sem alternativas de adaptação.

  • Entender ecologia política ajuda a construir políticas que não só cuidam da natureza, mas promovem justiça ambiental e equidade social.

  • Serve também de base para a participação democrática, valorização de saberes diversos, e para que os agentes menos poderosos (comunidades, movimentos sociais) sejam parte da mudança — não apenas objeto dela.

Principais eixos de diferença

AspectoPolítica ecológicaEcologia política
Objetivo principalregulação, proteção, mitigação, implementação práticaanálise crítica, compreensão das estruturas de poder, justiça ambiental
Atores focadosgovernos, organismos internacionais, ONG, políticas públicascomunidades locais, movimentos sociais, académicos, grupos marginalizados, etc.
Questões centraislegislação ambiental, conservação, emissões, energia limpa, biodiversidadedesigualdade no acesso aos recursos, quem decide o uso da terra, imperialismo ecológico, narrativas dominantes, justiça ambiental, conflitos ecológicos


Autores e pensadores importantes da Ecologia Política

AutorContributo principal
Piers BlaikieUm dos fundadores da ecologia política. No livro The Political Economy of Soil Erosion in Developing Countries (1985), argumenta que a erosão do solo não é só resultado da má gestão ou população, mas está ligada a desigualdades sociais, estruturas políticas, poder. Wikipedia
Harold BrookfieldTrabalhou com Blaikie em Land Degradation and Society; focou nas interações entre uso da terra, práticas agrícolas, colonialismo e desenvolvimento; acrescentou dimensão histórica e de escala nas análises. Wikipedia
James C. ScottNão se define como ecólogo político, mas suas obras influenciam fortemente o campo: Seeing Like a State, The Art of Not Being Governed, etc. Ele analisa como o Estado, burocracias e práticas de poder simplificam e moldam a natureza e sociedades; sua atenção à resistência local, ao conhecimento prático (metis) é muito relevante para ecologia política. read.dukeupress.edu
Murray BookchinCriou a “ecologia social” (social ecology), uma filosofia política que vê os problemas ecológicos como inseparáveis dos problemas sociais: hierarquias, dominação, desigualdade. Propõe uma reestruturação social para uma democracia direta, comunitária, descentralizada. Wikipedia
Enrique LeffTrabalha com ecologia política, epistemologia ambiental, e conflituosidade socioambiental; por exemplo no livro Political Ecology: Deconstructing Capital and Territorializing Life. Ele aprofunda como saberes, poder e território se entrecruzam. SpringerLink
Tor A. Benjaminsen & Hanne Svarstad
No livro Political Ecology: A Critical Engagement with Global Environmental Issues (2021). Trabalham com estudos de caso, poder, justiça ambiental, conflitos em uso da terra, mitigação climática, Norte‐Sul. SpringerLink



Raymond L. BryantUm geógrafo-chave no campo, autor de Third World Political Ecology com Sinéad Bailey, entre outros, mostrando como mudanças ambientais distribuem benefícios e custos desigualmente. Wikipedia
Giorgos KallisEmbora mais ligado à economia ecológica, é importante para debates de degrowth, crítica do crescimento infinito, alternativas de desenvolvimento mais sustentáveis. Wikipedia


Outros autores relevantes: Nancy Lee Peluso, Michael Watts, Arturo Escobar, Richard Peet, , que tratam de colonialismo, direito à terra, práticas de resistência, justiça ambiental.
Artigos de revista como Journal of Political Ecology Wikipedia
 

Exemplos de articulação

Para tornar concreto, alguns casos ou estudos-que-se podem usar:

  • Em Portugal, artigos comparativos que relacionam ecologia política e justiça ambiental, p.ex. o artigo “Justiça Ambiental e Ecologia Política: Entre sinergias e Benefícios Mútuos…” da UTAD que examina como os debates de justiça ambiental se interligam com ecologia política. periodicos.unievangelica.edu.br

  • Na América Latina, Enrique Leff escreveu sobre “Political Ecology in Latin America: A field in construction”, apontando que a ecologia política emergiu como uma resposta aos conflitos pelo uso da natureza, à desigualdade territorial, e à necessidade de repensar as relações entre natureza, cultura e política. revistaschilenas.uchile.cl

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

Amazônia Profunda: para evitar mais do mesmo


Ali, durante a Conferência Rio 1992 da ONU, mais de 100 mil pessoas reunidas no Aterro do Flamengo no então conhecido Fórum Paralelo ouviram a força dos Povos da Floresta, ainda sob os ecos dos tiros que mataram Chico Mendes em dezembro de 1988. Estávamos diante de uma inflexão no chamado movimento ambientalista com a emergência dos povos e comunidades tradicionais questionando, como o fez explicitamente Chico Mendes, essa gente que defende a floresta e não os Povos da Floresta. Enfim, punha-se em xeque um ambientalismo a meias, como se costuma dizer em Portugal.

E, mais, os Povos da Floresta gritaram bem forte associando o ano de 1992 ao ano de 1492, quando os europeus acreditaram ter descoberto o mundo, na verdade, encobrindo a história milenar de civilizações, povos e culturas não-ocidentais. A Amazônia já ali, em 1992, dava o alerta para o encobrimento dos Povos que ali habitavam há, pelo menos, 19.000 anos como a Formação Cultural Chiribiquete na atual Amazônia colombiana. Como se vê, as datas matam e o 1492 silencia sobre esses milhares de anos de coevolução de vidas nessa região que, hoje, se apresenta como a maior reserva de vida do planeta e que ainda cumpre um papel central na dinâmica climática global em função da enorme extensão territorial, cerca de 800 milhões de hectares, com uma elevada concentração de biomassa que, diga-se de passagem é, em média, conformada por 70% de água que evapotranspira em função da enorme incidência de radiação solar e se redistribui mais além dessa região hoje conhecida como Amazônia.

Essa região, segundo o geógrafo Aziz Ab’ Saber, estava coberta entre 18000 e 13000 anos A.P. por savanas em função do clima mais seco do planeta que reinava à época devido à Glaciação Wurn que retinha congelada águas nas altas latitudes, água essa que não circulando deixava os climas do planeta mais secos. Somente com o recuo dessa glaciação, cerca de 12000 A.P., é que o atual desenho dos oceanos e mares – o mar então subiu cerca de 100 metros – e os atuais biomas ganharam a cartografia atual.

Observemos que a Amazônia já tinha gente antes de ter floresta e que essa enorme floresta ganhou a extensão territorial que hoje tem há cerca de 12000 anos. São, portanto, 12 milênios de coevolução do metabolismo da vida com as culturas dos Povos que ali habitavam e habitam. Sublinhe-se que ninguém vive sem saber coletar, sem saber caçar, sem saber plantar, sem saber pescar, sem saber se proteger das intempéries inventando suas arquiteturas, sem saber curar-se inventando suas medicinas. Enfim, sejamos explícitos: ninguém vive sem saber. No fazer há, sempre, saber, não necessariamente escolarizado como os ocidentais tentam convencer o mundo.

Se hoje a Amazônia se apresenta como tema central para evitarmos o anunciado colapso capitalista ecológico global, conforme nos alerta Luiz Marques, devemos deixar registrado que todo esse patrimônio que hoje a humanidade ainda pode contar para evitar o pior é um legado desses Povos e suas culturas cujos territórios devem ser devidamente respeitados no interior dos estados que ainda os tratam de modo colonial como se essa região fosse um vazio demográfico e como se só o conhecimento científico convencional tenha autoridade para garantir sua existência. Não confundamos conhecimento científico com conhecimento tout court. Afastemos a colonialidade com seus obstáculos cognitivos que nos impede de reconhecermos essa obviedade que é esse enorme patrimônio de vida e de conhecimento que a floresta abriga. Os trabalhos de Manoela Cardoso da Cunha, Eduardo Neves, Darell Posey e William Balle, entre outros, estão aí a reconhecer essa riqueza. Reconheçamos, ainda, as enormes contribuições que esses Povos vêm dando na revolução do direito na América Latina quando propõem os direitos da natureza como várias Constituições hoje abrigam. Ou quando propõem reinventar o estado como estado plurinacional e não somente estado nacional com toda a colonialidade (e seu colonialismo interno).

Recentemente, o filósofo Enrique Leff em pronunciamento no Congresso da CLACSO chamou a atenção que já se passaram 50 anos desde a 1ª conferência da ONU sobre Meio Ambiente realizada em Estocolmo em 1972. Sim, são cinco décadas ou simplesmente meio século que o chamado sistema de governança global não consegue encontrar como se autorregular para dar conta do colapso ambiental que se avizinha conforme vem anunciando os cientistas do Painel do Clima da ONU. Tudo indica que se continua prisioneiro de seus próprios obstáculos cognitivos que nos impede de encontrar uma solução verdadeira haja vista que querem encontrar uma solução dentro do sistema quando é o próprio sistema o problema. A última moda é o mercado de carbono e sua métrica cuidadosamente criticada por Camila Moreno. Afinal, a questão ambiental é a uma só vez uma questão social, como já nos havia alertado Chico Mendes. Afinal, a grande dificuldade de superarmos o paradigma que separa o homem da natureza reside justamente aí: não se trata de uma questão exclusivamente de paradigma, embora também o seja. Afinal, vivemos uma sociedade de natureza mercadológica que para ser tal necessita praticamente separar as comunidades e transformá-las em indivíduos isolados, separando homens e mulheres das condições metabólicas de reprodução da vida, condições essas que passam a ser regidas pelo princípio da propriedade privada e seu direito e ainda por ideologias que justificam que índios, negros e mulheres “por natureza” fiquem subordinados àqueles que se tornaram proprietários privados. Como se vê, a natureza bem vale uma missa!

Fiquemos atentos, pois, aos Povos da Floresta para que vejam respeitado seu legado amazônico e não deixemos que venham ser transformados em medidores de carbono de ONGs e das corporações que as financiam. A Vida merece respeito e honrar o legado desses povos é o reconhecimento prático dessas experiências consubstanciadas nessa Amazônia que hoje se coloca como tão decisiva para a humanidade e o planeta! Descolonizemo-nos, pois!

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Ainda a Pegada Ecológica, Overshoot , Relatório Meadows e Sustentabilidade: conhecer Enrique Leff



Enrique Leff é um economista mexicano. Doutor em Economia do Desenvolvimento pela Sorbonne (1975), é professor de Ecologia Política e Políticas Ambientais na Pós-Graduação da Universidade Nacional Autónoma do México (UNAM) e, desde 1986, coordenador da Rede de Formação Ambiental para a América Latina e Caribe do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).
Leff também é conhecido no Brasil como professor do Curso de Doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento da Universidade Federal do Paraná.

Entrevista a Enrique Leff Revista Senac e educação ambiental - Ano 16 n.1 jan/abril 2007 (em português)

Ler até ao fim esta crónica de Enrique Leff Decréscimo ou desconstrução da economia

Em 1972, um estudo do Clube de Roma apontou, pela primeira vez, “Os limites do crescimento”. Quatro décadas depois, a destruição das florestas, a degradação ambiental e a poluição aumentaram de forma vertiginosa, gerando o aquecimento do planeta pelas emissões de gases causadores do efeito estufa. A solução para esse grave problema é mais crescimento?

Sobre Overshoot

Outras Leituras:
Até o Planeta entra em deficit!, por Mário Dorminski