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domingo, 13 de agosto de 2023

Predadores marinhos podem perder 70% de habitat até 2100. Oceano Atlântico é foco de preocupação


Até ao final deste século, 12 espécies de predadores marinhos migradores, como os tubarões, os atuns e os espadartes, podem vir a perder grandes porções dos seus habitats naturais no noroeste do Oceano Atlântico e no Golfo do México. Nessas zonas, a temperatura do mar está a subir mais rapidamente do que em qualquer outra região marinha do planeta.

Segundo um estudo divulgado esta quarta-feira na revista ‘Science’, uma equipa de investigadores dos Estados Unidos da América, liderada pelo Instituto Oceanográfico Woods Hole, alerta que, até 2100, algumas dessas espécies “icónicas e económica e ecologicamente importantes” poderão perder até 70% de habitat adequado à sua sobrevivência. E os cientistas avisam que “na maioria dos casos, os impactos destas alterações induzidas pelo clima podem já ser observadas”.

No artigo, escrevem que os efeitos das alterações climáticas, os que já se sentem e os que se prevê que surjam num futuro não muito distante, destacam “a necessidade urgente de gerir de forma adaptativa e proativa os ecossistemas marinhos dinâmicos”.

Dado a dimensão e ritmo de aquecimento das águas no Golfo do México e no noroeste do Atlântico, os investigadores estimam que essas duas áreas serão ‘pontos quentes’ de perda de habitat para diversas espécies de predadores marinhos.

Camrin Braun, primeiro autor do artigo, considera que as alterações climáticas provocarão transformações profundas na distribuição e modo de vida dos predadores marinhos abrangidos pela investigação. E embora admita que o trabalho não tenha tido em consideração a capacidade de adaptação dessas espécies aos efeitos da subida da temperatura marinha, afirma que este estudo ajudará a perceber que mudanças serão essas “para que possamos fazer alguma coisa quanto a isso”.

Para chegar a essas conclusões, a equipa recorreu a dados recolhidos por satélite nos últimos 30 anos, bem como a novas informações adquiridas no ‘terreno’, que permitiram “desenvolver modelos dinâmicos da distribuição das espécies para avaliar como as alterações climáticas já estão e continuarão a afetar essas espécies de peixes”.

Rebecca Lewison, professora de biologia da Universidade de San Diego e que também assina o artigo, declara que “a nossa investigação mostra que as alterações causadas pelo clima estão a acontecer agora, não a partir de projeções, mas com base em dados de observação empírica das últimas duas décadas”.

A docente refere também a importância dos dados de satélite para perceber “como um oceano em transformação está a impactar espécies marinhas de importância comercial, como os espadartes e os atuns”. Por isso, esta investigação, defendem os seus autores, não se reveste apenas de importância ecológica, mas deve também ajudar a criar políticas de gestão de pesca que possam adaptar essa atividade de grande relevância económica e social às transformações que estão a mudar a face, e as profundezas, dos oceanos do planeta, e todas as formas de vida de neles habitam e que deles dependem.

domingo, 16 de abril de 2023

De Gaia ao Microcosmos - Ophrydium versatile - Lynn Margulis


À primeira vista, um indivíduo lento e tranquilo deslizando pelo microcosmos. Sob um olhar mais atento, essa espuma de água doce revela ser, na verdade, composta por centenas de "indivíduos" menores. Nessa espécie, cada "organismo individual" é, na verdade, "um pacote de micróbios fechado por membranas que se assemelha e age como um indivíduo" (Lynn Margulis). Ou, nas palavras de Dorion Sagan, "quase um pequeno mundo".[artigo científico original-1995]

Além das algas endossimbiontes em cada zoóide (Chlorella, Grasiella), cada colónia de Ophrydium abriga um grande número de outros organismos comensais, um verdadeiro ecossistema em miniatura. O gel no interior das esferas abriga uma grande quantidade de algas diátomas, como Cymbella e Nitzchia. Em especial, esta última espécie parece ser importante, acredita-se que seja o principal organismo produtor da substância gelatinosa que preenche a cavidade. Também há bactérias, outros protozoários, outras espécies de algas, cianobactérias, espiroquetas, além de rotíferos, vermes (nematoides, platelmintas), crustáceos (cladóceros e copépodos), um verdadeiro zoológico microscópico.

Lynn Margulis adorava observar o dia a dia dos nossos companheiros não humanos. No final dos anos 90, junto com colegas, como Lorraine Olendzenski e Lois Byrnes, alunos da Universidade de Massachusetts e o seu filho, Dorion Sagan, a microbióloga gravou uma série de vídeos sobre a vida no microcosmos. Esses vídeos são pioneiros ao mostrar intencionalmente em imagens a simbiose e a interdependência da vida. 

terça-feira, 21 de março de 2023

No Dia Internacional da Floresta cinco organizações ambientalistas exigem o fim dos subsídios à queima de biomassa florestal nas fábricas de celulose em Portugal


A queima de biomassa nas fábricas de celulose contribui cada vez mais para os lucros das duas grandes empresas de pasta e papel a atuar em Portugal, a The Navigator Company e a Altri. Apesar de afirmarem que a queima de biomassa para produção de energia ajuda a combater as alterações climáticas e a reduzir o risco de incêndios florestais, um novo relatório publicado hoje por três ONGs portuguesas e duas internacionais contesta estas afirmações, e destaca os impactos significativos para o clima e no ambiente que são escondidos pela indústria.

De acordo com Alexandra Azevedo, Presidente de Quercus, “As celuloses sempre queimaram parte dos seus resíduos industriais para produzir energia, mas nos últimos anos os lucrativos subsídios públicos às energias renováveis encorajaram a construção de grandes e ineficientes centrais termoelétricas dedicadas à queima de biomassa mesmo ao lado das suas fábricas de celulose e a substituição de centrais de cogeração a gás fóssil pela queima de biomassa. Essas centrais precisam de muito mais madeira do que é produzida como sobrantes florestais e resíduos industriais pelas fábricas de celulose, exigindo que grandes quantidades de madeira adicional sejam trazidas diretamente das operações de exploração florestal. A existência de subsídios desacoplou a queima de biomassa florestal na maioria destas fábricas dos fluxos de sobrantes industriais da produção de pasta celulósica. Os subsídios servem de base a uma nova área de negócio para estas empresas”.

O relatório mostra como as celuloses estão a queimar mais madeira para produzir energia do que qualquer outro setor em Portugal. Em 2021, gerou 80% da eletricidade produzida a partir da queima de biomassa nas suas centrais de cogeração e termoelétricas, e possuía mais da metade da capacidade industrial de queima de biomassa dedicada à produção de eletricidade. Juntos, o setor queimou quase 3 milhões de toneladas de biomassa em 2021, quase 60% das quais provenientes diretamente de operações de exploração florestal, principalmente das extensas plantações de monoculturas de eucalipto em Portugal.

Sophie Bastable, da Environmental Paper Network, afirmou que: “Globalmente, os incentivos à eletricidade a partir da queima de biomassa, como os subsídios à energia renovável, abriram um novo fluxo de receita para a indústria de pasta e papel. Essa renda incentiva a intensificação da exploração florestal e a expansão das plantações de monoculturas de árvores, muitas vezes no lugar dos ecossistemas naturais. Estamos a ver esta tendência preocupante desenvolver-se, não só em Portugal, mas em todo o mundo – da América do Sul à África do Sul.”

Dois grandes empreendimentos são destacados no relatório como emblemáticos dos problemas causados pela queima em larga escala de biomassa para geração de energia. A primeira é a central eléctrica Figueira da Foz II, na fábrica de celulose CELBI da Altri (operada pela GreenVolt, uma subsidiária da Altri), que é totalmente dependente da biomassa florestal primária e que, segundo o relatório, funciona com uma eficiência alarmantemente baixa de cerca de 22%. A segunda é a nova caldeira de biomassa da The Navigator Company, também na Figueira da Foz, que substituiu uma central a gás fóssil e requer que quase metade da biomassa que queima seja proveniente diretamente das operações florestais.

Oliver Munnion, da Biofuelwatch, declarou: “Em vez da queima de biomassa nas fábricas de celulose ser um exemplo de economia circular, como a indústria afirma, é um processo destrutivo de sentido único. Mais e mais madeira está a ser queimada com eficiências muito baixas, o que emite cada vez mais carbono para a atmosfera. De acordo com o IPCC, a queima de biomassa resulta em emissões de carbono imediatas superiores às dos combustíveis fósseis, como gás, e essas emissões têm um impacto climático significativo por longos períodos de tempo, independentemente do tipo de biomassa que está a ser queimada. Isso não pode ser considerado verde ou renovável”.

As subscritoras do relatório também questionam as alegações de que a queima de biomassa florestal ajuda a reduzir o risco de incêndios florestais, um enorme problema social e ambiental a cada verão em Portugal. Paulo Castro, Presidente da Acréscimo, afirmou: “Na última década e meia houve um aumento crescente da quantidade de biomassa retirada das áreas florestais, tanto para queima em centrais termoeléctricas como para transformação em pellets de madeira. Mas, ao mesmo tempo, a quantidade de área ardida total a cada ano em Portugal mantém tendência de crescimento e as áreas ardidas em povoamentos florestais já ultrapassaram, no último quinquênio e em 2022, outros tipos de uso da terra como os matos. Esta pseudo-estratégia de redução de incêndio claramente não está a funcionar, muito pelo contrário”. Serafim Riem da Iris, realça: “A extração excessiva de biomassa está a reduzir o coberto arbóreo, a tornar os solos mais pobres, a provocar a perda de biodiversidade e a aumentar o risco de desertificação”.

As signatárias fazem três exigências principais ao governo português. Em primeiro lugar, estão a pedir a introdução de uma moratória imediata sobre a nova capacidade de produção de eletricidade a partir de biomassa, e terminar a sua elegibilidade para subsídios de energia renovável. Em segundo, estão a pedir limites para a queima de biomassa nas fábricas de celulose, de modo que nenhuma biomassa florestal primária seja usada como matéria-prima para a geração de energia. Por fim, pedem que os subsídios à geração de eletricidade a partir da biomassa sejam redirecionados para a geração de energia genuinamente renovável, medidas de eficiência energética e técnicas de redução do risco de incêndio que incentivem a conservação e regeneração dos solos e das florestas autóctones.

domingo, 18 de dezembro de 2022

12 ONGs Portuguesas pedem ao Ministro do Ambiente e da Ação Climática apoio à criação e implementação de uma lei do Restauro da Natureza



Doze Organizações Não Governamentais portuguesas de ambiente enviaram uma carta aberta ao Ministro do Ambiente e da Ação Climática, Duarte Cordeiro, pedindo-lhe que expresse o seu apoio à proposta da Comissão Europeia para uma Lei do Restauro da Natureza e o seu compromisso com um processo expedito no próximo Conselho de Ambiente, que terá lugar a 20 de dezembro.

O objetivo desta ação conjunta é chegar-se a um acordo o mais rapidamente possível, sem comprometer o nível de ambição necessário, à luz das crises climática e de biodiversidade e do seu impacto nas pessoas e setores da economia no nosso país. Cientistas, empresas e sociedade civil em Portugal e em toda a Europa têm exigido ação urgente.

A proposta de Lei do Restauro da Natureza oferece uma oportunidade fundamental para trazer a natureza de volta a Portugal e à Europa, beneficiando a biodiversidade, o clima e as pessoas. No contexto das obrigações legais de longa data decorrentes do direito internacional, os resultados das negociações da UNFCCC COP27 e da CBD COP15 estão mais uma vez a deixar claro que é necessário combater conjuntamente o declínio da biodiversidade e as alterações climáticas para o bem-estar da nossa sociedade. O Restauro da Natureza é uma parte inerente da solução da Global Biodiversity Framework (Objetivo 2). O Restauro da Natureza é a nossa melhor apólice de seguro para a adaptação climática, por garantir maior resiliência a secas, inundações e outros eventos climáticos extremos. Consequentemente, também contribui para a segurança alimentar a longo prazo. O Restauro da Natureza é, sem dúvida, um dos melhores investimentos que Portugal pode fazer.

Embora reconheçamos que Portugal ainda está a formular a sua posição sobre a proposta de Lei do Restauro da Natureza, as entidades signatárias desta carta aberta pretendem contar com o apoio do senhor ministro à proposta legal na reunião do Conselho de dezembro. Dado o impacto contínuo das crises climática e de biodiversidade a que assistimos em Portugal, com os recentes períodos de seca histórica e incêndios, é de vital importância que o senhor ministro expresse o seu compromisso com o fortalecimento do Restauro da Natureza através da adoção oportuna de uma posição robusta sobre a proposta legal.

Apoiamos totalmente a proposta de Regulamento de Restauro da Natureza como um marco para reverter a maré de perda de biodiversidade e alterações climáticas que temos vindo a assistir na escala necessária. Em particular, foram destacados alguns elementos-chave, que permitirão que a proposta cumpra plenamente o seu potencial:
  • A proposta legal tem de incluir um forte objetivo global, para pôr em prática medidas de restauro eficazes em pelo menos 20% da área terrestre e marítima da União Europeia até 2030, para o qual todos os Estados-Membros deverão contribuir de forma justa e responsável. Isso aumentará a flexibilidade dos Estados-Membros e garantirá condições equitativas em que todos os países podem contribuir igualmente.
  • A relação com as recomendações conjuntas da Política Comum das Pescas deve ser esclarecida para evitar que os objetivos de restauro marinho se tornem impraticáveis.
  • Para garantir a implementação efetiva do Regulamento, a proposta legal deve abrir caminho para explorar e estabelecer financiamento dedicado ao Restauro da Natureza de acordo com a revisão intercalar do Quadro Financeiro Plurianual.
  • O cronograma para a implementação de medidas de restauro precisa de ser adiantado. É preciso algum tempo para que os benefícios das medidas de Restauro da Natureza se materializem. Portanto, as medidas precisam de ser implementadas mais cedo para garantir a sua contribuição efetiva para a meta de neutralidade climática da União Europeia em 2050.
  • Metas quantificadas e com prazos definidos são necessárias para o restauro dos rios e das suas bacias: 15% do comprimento dos rios (178.000 km em toda a União Europeia) devem ser restaurados em rios de fluxo livre até 2030.
  • Dado que o declínio da biodiversidade e os impactos climáticos são fortemente visíveis nas paisagens agrícolas, características de paisagens de alta diversidade devem ser implementadas em pelo menos 10% da área agrícola utilizada até 2030.
  • As turfeiras são ecossistemas chave tanto para a biodiversidade como para o clima. Portanto, os seus alvos de restauro devem ser expandidos para todas as turfeiras drenadas, que devem ser totalmente recuperadas.
Entidades signatárias : LPN


segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Rede portuguesa de Estações de Borboletas Nocturnas já registou mais de 500 espécies



Saber onde estão e quando voam as borboletas nocturnas de Portugal é o objectivo da Rede de Estações de Borboletas Nocturnas. Desde que começaram em janeiro de 2021, os cidadãos que estão a registar estes insetos em 50 locais de amostragem, incluindo em quintais e varandas de Norte a Sul do país, já fizeram mais de 11.000 registos de 512 espécies. Os resultados de 2021 já estão publicados na plataforma GBIF (Global Biodiversity Information Facility).

A Wilder falou com João Nunes, coordenador do projecto de ciência-cidadã Rede de Estações de Borboletas Nocturnas (REBN), e com a restante equipa. Aqui contam como funciona esta rede de vários locais de amostragem dispersos pelo país onde, de uma forma coordenada, se faz a amostragem destes insectos com recurso a um método estandardizado baseado em armadilhas luminosas. Além de aumentar o conhecimento sobre as espécies de Portugal, esta rede ajuda a reunir os naturalistas num objectivo comum.

WILDER: Quando e porquê começou esta a REBN a funcionar?

REBN: A Rede de Estações de Borboletas Nocturnas (REBN) começou a funcionar em Janeiro de 2021. Apesar de Portugal ter cerca de mais de 2.600 espécies de borboletas nocturnas conhecidas, os aspectos da ecologia e fenologia de muitas espécies são ainda mal conhecidos. Assim, achámos que um projecto de ciência-cidadã poderia ser a solução para uma amostragem em grande escala e de forma sistemática. Outro aspecto muito importante do projecto é a divulgação e sensibilização para a diversidade de espécies de borboletas nocturnas e o seu papel como bioindicador da qualidade dos habitats.

W: Neste momento, quando estão prestes a fazer dois anos, quantas estações existem e onde se encontram?

REBN: Neste momento temos 50 locais de amostragem, que designamos de “Estações”. Estas estações estão distribuídas por todo o país e em vários habitats diferentes, que vão desde varandas em prédios inseridos em ambiente urbano até zonas dunares. Todos os habitats são interessantes de amostrar embora, por uma questão de facilidade de acesso regular, muitas estações estão localizadas em jardins e quintais. Uma característica demográfica do nosso país é também reflectida na distribuição das estações, já que muitas estão concentradas na faixa litoral, onde há uma maior concentração de população. Esta é uma tendência que gostaríamos de contrariar e estimular a criação de estações no interior do país, que é muito biodiverso.

W: Qual o objectivo desta rede?

REBN: Um dos grandes objectivos da REBN é a recolha sistemática de dados sobre borboletas nocturnas em Portugal. Estes dados podem depois ser trabalhados de vários ângulos, mas de forma mais imediata é possível obter dados sobre a distribuição das espécies no território e períodos de voo. Pretendemos que a REBN seja um projecto de amostragem a longo prazo, de forma a trabalhar as tendências populacionais para as espécies mais comuns. Só com uma amostragem continuada no tempo, regular e padronizada é possível detectar variações nas populações de borboletas nocturnas. A REBN disponibiliza integralmente os dados que recolhe na Global Biodiversity Information Facility (GBIF), uma plataforma que agrega dados biológicos e que permite outros investigadores utilizarem os dados.

Ao integrarmos cidadãos que nunca tiveram contacto com as borboletas nocturnas estamos também a criar uma maior consciencialização para a diversidade de espécies e a necessidade de preservação dos habitats. Apesar de os dados serem muito úteis quando analisados em conjunto, há também uma outra dimensão local que é desafiante para os participantes, por exemplo, perceber quantas espécies visitam o seu jardim ou quintal.

W: Quem coordena as estações e de quem partiu a iniciativa?

REBN: A iniciativa para a criação deste projecto partiu do Helder Cardoso, ornitólogo e que se dedica a estudar borboletas nocturnas de forma amadora há 12 anos. Na sequência de amostrar durante vários anos na região Oeste, surgiu a ideia de tentar comparar dados com outros locais e seguiu-se o contacto com outros entusiastas das borboletas nocturnas. Rapidamente a ideia evoluiu para a criação de um projecto de ciência-cidadã. Os moldes do projecto são muito próximos do que tem vindo a ser feito noutros países do norte e centro da europa, caso do Reino Unido, Holanda ou Bélgica.

Neste momento o projecto é coordenado por um grupo informal de seis elementos (Ana Valadares, Helder Cardoso, João Nunes, João Tomás, Paula Banza e Thijs Valkenburg) e conta com o apoio de outras pessoas organizadas em pequenos grupos de trabalho, dedicados à edição do boletim informativo ou à divulgação do projecto.

W: Em que consistem estas estações e como funcionam?

REBN: A REBN é essencialmente uma rede de pontos de amostragem de borboletas nocturnas (Estações), com recurso a armadilhas luminosas não letais. Estas armadilhas são colocadas num local fixo e que, idealmente, não sofra muitas alterações de habitat. O princípio de funcionamento é muito simples: a lâmpada vai atrair as borboletas para dentro de uma caixa de retenção temporária. As borboletas ao entrarem, têm dificuldade em sair e vão ficar pousadas nas caixas de ovos vazias no interior.

As armadilhas devem funcionar pelo menos uma vez por mês, onde a lâmpada é ligada ao final do dia e fica a atrair borboletas a noite toda para dentro da caixa de retenção. Na manhã seguinte a armadilha é visitada e procede-se à identificação e contagem do número de indivíduos por espécie e as borboletas são posteriormente libertadas.

As amostragens decorrem durante todo o ano, já que muitas espécies estão apenas activas nos meses de inverno.

Mensalmente temos também a publicação de um boletim informativo (Borboletim). No boletim são abordados diversos temas relacionados com as borboletas nocturnas, incluindo artigos de identificação de espécies mais difíceis e também uma compilação dos dados do mês anterior. Qualquer pessoa pode subscrever o boletim gratuitamente e ficar a par do que se vai fazendo no projecto.

W: As pessoas comuns podem participar? Se sim, como? É preciso ter conhecimentos sobre estes insectos?

REBN: A participação na REBN é aberta a todos, mesmo a quem não tem qualquer tipo de experiência prévia com borboletas nocturnas e a sua identificação. Basta ter vontade de aprender e descobrir o mundo natural.

O primeiro passo para começar a participar é contactar a REBN de forma a podermos explicar como construir uma armadilha simples e onde a colocar. Criámos ainda várias ferramentas com o intuito de auxiliar quem está a começar incluindo um e-mail dedicado a dúvidas de identificação, um pequeno guia das borboletas nocturnas mais comuns e um grupo de Facebook.

W: Na vossa opinião, qual a importância deste projecto?

REBN: Projectos de monitorização de invertebrados são algo de extrema importância no panorama actual para que possamos perceber e quantificar, a longo-prazo, as tendências nas populações destes organismos. O declínio dos insectos é uma problemática conhecida. Contudo, em Portugal não temos dados passados que nos permitam quantificar com rigor quanto perdemos até agora, ou quanto o cenário se modificou até agora. Projectos semelhantes à REBN já existem em alguns países da Europa. O projecto inglês já conta com mais de 30 anos de dados, o que permitiu constatar recentemente (“The State of Britain’s Larger Moths 2021 report”), entre outras coisas, a alteração dos padrões de distribuição de algumas espécies e uma generalizada queda na abundância. Este projecto pioneiro em Portugal permitirá, a longo-prazo, avaliar o estado das populações, a real fenologia e distribuição das espécies e a sua variação no tempo. A recolha de informação já começou, agora é a parte mais difícil, manter as amostragens. As borboletas nocturnas são um grupo usualmente utilizado neste tipo de estudos devido à facilidade de atracção destes animais.

Fonte e mais fotos: aqui

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

O declínio dos insectos afecta a vida de cada um de nós

Aumento dos preços da comida, secas, incêndios florestais e pragas agrícolas também se explicam pelo declínio dos insectos. A extinção tem um impacto económico.

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Fonte: Público

O vale de Lousada, no Norte de Portugal, é um lugar raro para perceber a diversidade da paisagem rural europeia. Os campos estendem-se até perder de vista em fracções bem demarcadas. Há pedaços de floresta nativa, outros do eucaliptal que ganhou terreno nas últimas décadas. Há vinhas e pequenas aldeias. Há hortas com grande diversidade de plantações e outras onde só se planta uma espécie de cada vez.

Nos carvalhos mais antigos da paisagem, a vaca-loura vai encontrando maneira de sobreviver. Chama-se Lucanus cervus e é o maior escaravelho europeu. A sua população está seriamente ameaçada em todo o continente. “Não conseguimos determinar com certezas absolutas o nível da sua regressão porque só há uns anos começámos a monitorizá-la em Portugal”, diz João Gonçalo Soutinho, o biólogo que coordena o grupo de monitorização desta espécie para a Associação Bioliving. “O que sabemos é que, em toda a Europa, ela está à beira da extinção. Em países como a Polónia, por exemplo, já não existe de todo.”

As vacas-louras são insectos possantes e chegam a medir mais de oito centímetros de comprimento. Só em Portugal, são conhecidos por 32 nomes diferentes, sendo vaca-loura e cornélias os mais comuns. As mandíbulas dos machos assemelham-se aos chifres dos veados, e é exactamente como esses herbívoros que eles combatem entre si para conquistar as fêmeas. “Tradicionalmente, as pessoas caçavam-nos, arrancavam-lhes as cabeças e cobriam-nas de ouro para serem usados como amuletos. Como voam, havia também quem lhes prendesse uma guita às patas e os usasse como animal de estimação. Há um enorme folclore à volta desta espécie”, diz João Gonçalo Soutinho. “Ou havia, porque hoje são extremamente escassos.”

Para o cientista da Associação Bioliving, as vacas-louras têm um dos ciclos de vida mais generosos da natureza. “Normalmente vivem três a quatro anos e passam esse tempo a comer, a copular e a embebedar-se com o etanol produzido na seiva das árvores”, ri-se. Mas há um trabalho que estes animais operam e que é de grande utilidade para as populações humanas. E, à medida que as vacas-louras desaparecem da paisagem, os seres humanos também pagam o preço.

A casa onde vivem as vacas-louras
Uma grande função dos escaravelhos é decomporem a matéria morta. Árvores que tombam nas florestas, cadáveres de animais, as fezes do gado que circula nos prados. No caso das vacas-louras, elas são especialistas em árvores de grande porte, sobretudo carvalhos. “É lá que passam todas as suas vidas, na verdade, ou à volta deles”, diz o biólogo. “As fêmeas escavam buracos na terra, junto às raízes, para depositar os ovos a 15 centímetros de profundidade. As larvas passam dois a três anos a comer, até estarem prontas fazer um casulo grande o suficiente para que possam fazer a sua metamorfose.

Decompõem por isso as madeiras mortas, devolvendo os nutrientes, o carbono e sobretudo a hidratação aos solos. “Estes animais criam terrenos mais resistentes aos fogos florestais e às secas extremas. Por um lado, previnem a desumidificação dos terrenos, por outro impedem mais facilmente a propagação das chamas. E mesmo que esses fenómenos atinjam esses habitats, eles vão ser os actores principais de uma recuperação rápida”, diz Soutinho.

A escassez de insectos também está a criar problemas nos serviços ecossistémicos que eles providenciam aos seres humanos. “Quando eu vinha aqui ter convosco”, haveria de dizer semanas depois, na Alemanha, o director do comité de invertebrados da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), Axel Hochkirch, “reparei que havia fezes de vacas e cavalos secas há semanas e que não estavam a ser decompostas naturalmente”, diz. “Se isso não acontece, elas vão ter de ser retiradas manualmente porque significam um perigo para a saúde pública, vão criar doenças no gado e inviabilizam o crescimento de novos prados.” Isso aumenta custos à produção, que vão ser necessariamente pagos pelos consumidores.

Há todo um problema económico que se levanta para as populações humanas quando os insectos entram em declínio tão acentuado. Da polinização, como já se viu na primeira parte desta série de reportagens, depende um terço da comida que consumimos e há lugares onde faltam tantas abelhas, borboletas e libélulas que os processos naturais de polinização e floração estão ameaçados.

Em Maio deste ano, por exemplo, a Euronews ouvia um especialista britânico dizer que o declínio dos insectos pode significar um aumento de 2360 milhões de euros nos preços da comida só no Reino Unido. Ou seja, uma subida de 17% no orçamento de cada família – e com efeitos já a médio prazo.

Mas, se o assunto é o custo da extinção dos mais pequenos dos animais, então há outros factores a ter em conta. Os aumentos dos custos da comida são essenciais, mas não é apenas aí que se vai sentir o impacto na agricultura. No Parque Natural de Montseny, em Espanha, o biólogo Constanti Stefanescu, da Rede Catalã de Monitorização de Borboletas, avança com outra perspectiva. “Um colapso total dos insectos, que é a situação para onde parece estarmos a caminhar, terá impacto a nível da produção, seguramente. Mas também terá no controlo de pragas.”

As libélulas consomem várias espécies que se alimentam das pragas que afectam as produções agrícolas. Muitas aves e morcegos fazem a mesmíssima coisa. Sem eles, os campos estão mais expostos e o uso de pesticidas tende a ser reforçado. “Ao desaparecerem os insectos, desaparece toda a cadeia de que eles estão dependentes”, continua Stefanescu. A mesma ideia se pode aplicar aos terrenos que ardem todos os Verões ou que são assolados pelas secas. Há uma factura a pagar por cada metro quadrado de tragédia. E essa conta, mesmo que não demos por ela, é inevitavelmente imputada à humanidade.

A diversidade em causa
Sónia Ferreira, entomóloga do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto, percebeu há uns meses um problema no Alentejo, Sul de Portugal, quando estudava os insectos. “As fezes dos rebanhos de ovelhas, muito comuns na região, não estavam a ser decompostas. O uso de pesticidas tinha acabado com os insectos decompositores, e agora há um problema grave para resolver: como se faz desaparecer o esterco dos olivais e dos pomares intensivos?”

Sónia Ferreira sabe bem do que fala. Na Universidade do Porto, a cientista está a desenvolver um programa de sequenciação genética para registar o ADN dos insectos que ocupam uma determinada paisagem. “Temos hoje tecnologia que permite fazer recolhas e isolar o material genético que existe num território – usando máquinas de leitura do código genético”, explica. Essa informação pode ser angariada através de armadilhas luminosas que convocam invertebrados, sim, mas também pelos dejectos dos animais que ocupam determinados espaços.

No vale do rio Tua, no Norte de Portugal, a entomóloga tem participado num projecto que analisa as fezes dos morcegos que ocupam as vinhas do Douro, a mais antiga região demarcada de produção vinícola do mundo. “Ao monitorizarmos a alimentação destes animais, poderemos determinar se há perda de biodiversidade nos insectos, que é basicamente o que eles comem”, diz Ferreira. Com menos opções alimentares, os morcegos tenderão a desaparecer – é algo que poderá ter consequências sérias para o mercado do vinho, visto estes animais serem um dos mais eficientes controladores de pragas destas explorações agrícolas. E há uma regra de ouro em biologia: “Primeiro perdemos a abundância, depois vem a extinção”, diz a entomóloga.

Axel Hochkirch também tem desenvolvido uma série de estudos nesta área. Além do seu cargo como responsável pela conservação de invertebrados na UICN, também é professor de biogeografia na Universidade de Trier, na Alemanha, e presidente eleito da Sociedade dos Ortópteros, uma organização científica internacional que reúne entomólogos em 60 países especializados no estudo de gafanhotos, grilos e seus familiares. Nos últimos anos, tem realizado uma série de estudos no Oeste do país, sobretudo no estado da Renânia-Palatinado – tido como um dos grandes hotspots da biodiversidade ecológica germânica.

“As conclusões a que estamos a chegar é que nem sempre há menos quantidade de insectos. Mas também há um fenómeno novo, que é a menor diversidade de espécies”, diz o cientista. Ou seja, mesmo que passemos um Verão a sentir que estamos a ser atacados constantemente por abelhas ou zangões, pode muito bem ser verdade que o calor tenha produzido mais exemplares num ou outro ano. “Mas são as espécies mais dominantes que estão a vencer a batalha do território”, explica Horchkirch.

As monoculturas agrícolas e as explorações intensivas de gado fazem com que os prados se encham constantemente das mesmas flores. As alterações climáticas, por sua vez, estão a provocar um efeito de subida de latitude – espécies que antes ocupavam os trópicos e as zonas meridionais ocupam hoje regiões mais a norte. “E a verdade é que estão a conseguir sobreviver nas paisagens do Norte, onde antes nunca as poderíamos imaginar”, explica Horchkirch. “Com isso, conquistam habitats e uniformizam paisagens que antes eram heterogéneas. Mesmo que estabelecêssemos que há hoje mais insectos, seriam sempre os mesmos, independentemente da região do globo onde os fossemos monitorizar.”

Guillerm Mas, biólogo espanhol da associação Paisatges Vius, tenta olhar para o problema a partir dos Pirenéus. “Por um lado, temos um enorme abandono dos espaços agrícolas, por outro temos uma agricultura intensiva baseada em monoculturas, que interrompe a biodiversidade e com isso fragiliza os territórios que todos queremos que funcionem. Economicamente também, claro. Os conservacionistas não querem que a agricultura falhe, querem que ela funcione melhor.” Um estudo de 2021 mostra bem essa inversão que ele sente na vida das montanhas.

Nisto, Guillerm Mas encontra um vizinho dos prados na curva da estrada, um homem chamado Donat, que se apresenta com uma giesta presa aos lábios e a medalha de ser o último pastor de Queralbs, aldeia encostada à fronteira com França e já perto do principado de Andorra. Pode não ter feito curso de biologia, mas percebe o drama da mudança da paisagem. “Quando eu era pequeno andávamos todos a ver quem tinha as melhores batatas, as melhores couves e os melhores cabritos. Agora ninguém quer saber porque só há milho e vacas”, conta. “Ou então não há nada, estão os campos ao abandono.”

Chamaram-lhe estúpido muitas vezes por não se converter aos cultivos que a Europa financiava. Agora ri-se ele, diz que soube esperar e agora pagam-lhe o dobro porque o que produz é biológico. Guillerm Mas anda a tentar convencê-lo a abdicar de um par de hectares de prado para criar uma paisagem florida para as borboletas. “Está bem”, diz ele no fim da conversa. “Podes vir lá deixar uma parte da erva crescer. Se calhar ainda voltam as abelhas também. Só não quero é ser mais um a viver do turismo.” É essa a história dos seus vizinhos, afinal. Os campos de onde desaparecem os mais minúsculos dos bichos parecem não ser grande coisa na hora de servir os homens.

Saber mais:

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Mais de 5.000 espécies de aves estão em declínio ou em perigo de extinção no planeta

Pilrito-colhereiro (Calidris pygmaea). Foto: Alexander Lees


Mais de 5.000 espécies de aves estão em declínio (com perda continuada de populações) ou em perigo de extinção em todo o mundo. No total, estima-se que 48% das 11.000 espécies de aves conhecidas para a Ciência estão a passar por uma redução da população, de acordo com um novo relatório.

O documento revela ainda que 39% (4.295 espécies) mantêm tendências estáveis e apenas 6% (676) mostram tendências de população em aumento. Sobre 7% (778) não existem dados suficientes para definir o seu estado de conservação.

Estes são alguns dos dados da actualização de 2022 do relatório sobre o Estado das Aves do Mundo (State of the World’s Birds), publicado na revista Annual Review of Environment and Resources (edição provisória online a 5 de Maio, edição definitiva prevista para Outubro de 2022).

A investigação actualizou alterações na biodiversidade do mundo das aves usando dados da Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) para revelar as alterações populacionais das 11.000 espécies de aves do mundo.

Os autores do relatório resumem a situação afirmando que “estão a produzir-se descidas assombrosas nas populações de aves em todo o mundo”. Os investigadores identificaram a perda e degradação de habitats naturais, a sobreexploração directa de muitas espécies e as alterações climáticas como as maiores ameaças.

“Estamos hoje a presenciar os primeiros sinais de uma nova vaga de extinções de espécies de aves com distribuição continental, depois da perda histórica das espécies das ilhas, como o Dodo”, disse o principal autor do relatório, Alexander Lees, da Universidade Metropolitana de Manchester e investigador associado no Laboratório de Ornitologia de Cornell. “A diversidade de aves alcança o seu ponto máximo a nível mundial nos trópicos e é ali onde também encontramos a maior quantidade de espécies ameaçadas”, acrescentou.

Estima-se que 90% das espécies de aves que se extinguiram desde 1500 até hoje, num total de 187 espécies, são espécies insulares, ou seja, que viviam em ilhas. Essas extinções aconteceram em regiões como o Havai, Austrália, Nova Zelândia e Polinésia Francesa. A principal causa foi a introdução de mamíferos nessas ilhas, como os ratos (que estão ligados à extinção de 52 espécies de aves) e os gatos (40 espécies).

Os autores mostram a preocupante situação actual mas deixam lugar à esperança, ainda que sublinhem que para recuperar populações e salvar espécies da extinção é preciso mudanças realmente transformadoras na relação dos humanos com a natureza.

Entre os seis exemplos de espécies de aves que foram alvo de projectos de conservação de sucesso está o priolo (Pyrrhula murina), ave endémica da ilha açoriana de São Miguel. Em tempos já foi a ave mais ameaçada da Europa; hoje a sua população está estável. “A população começou a recuperar graças ao restauro da floresta Laurissilva nativa, controlo de plantas invasoras e a criação de pomares”, explicam os autores.

“O destino das populações de aves depende, em grande medida, de conseguirmos travar a perda e degradação dos habitats. Isto é, frequentemente, causado pela procura por recursos, incluindo alimentação”, detalha Lees.

“As decisões que tomamos sobre o que vamos almoçar, onde e como foi produzido reverberam por todo o planeta e no futuro. Precisamos considerar melhor como os fluxos de produtos básicos podem contribuir para a perda de biodiversidade e precisamos tentar mitigá-los.”

O relatório é assinado por nove autores da Universidade Metropolitana de Manchester, do Laboratório de Ornitologia de Cornell, Birdlife Internacional, Universidade de Joanesburgo, Pontificia Universidad Xavierian e da Fundação para a Conservação da Natureza.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

O número de espécies de árvores na Terra

A diversidade de árvores é fundamental para a estabilidade e para os serviços do ecossistema florestal. No entanto, devido aos dados disponíveis limitados, as estimativas de diversidade de árvores em grandes domínios geográficos ainda dependem fortemente de listas publicadas de descrições de espécies que são geograficamente desiguais em cobertura. Essas limitações impediram os esforços para gerar uma perspectiva global. Aqui, com base em um banco de dados global de origem terrestre, estimamos o número de espécies de árvores em escalas de bioma, continental e global. Estimamos uma riqueza global de árvores (≈73.300) que é ≈14% maior do que os números conhecidos hoje, com a maioria das espécies desconhecidas sendo raras, continentalmente endémicas e tropicais ou subtropicais. Esses resultados destacam a vulnerabilidade da diversidade global de espécies arbóreas às mudanças antrópicas.

Artigo científico completo aqui

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

COP26: esperado texto "praticamente final" em dia dedicado a cidades e regiões

Os negociadores da cimeira do clima devem apresentar hoje um texto de conclusões.


Os negociadores da cimeira do clima em Glasgow, Reino Unido, devem apresentar hoje um texto de conclusões "praticamente final", segundo o presidente da conferência, Alok Sharma, num dia também dedicado às cidades e regiões.

Na quarta-feira Alok Sharma pediu "abertura e flexibilidade" aos negociadores e disse esperar para hoje um texto de resoluções "praticamente final".

A 26.ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP26), termina na sexta-feira, quando se espera que dela saiam decisões para que o mundo evite um aquecimento global que vá além dos 1,5ºC (graus celsius) em relação à época pré-industrial.

Hoje, além de um balanço dessas conclusões, a cimeira debate a importância das cidades, regiões e ambiente construído na mitigação das emissões de gases com efeito de estufa.

Será o dia dos governos nacionais, das cidades e das regiões e da sua colaboração com o setor privado para um melhor ambiente construído, no sentido de se começar a luta contra as alterações climáticas a nível local para a partir daí se chegar ao nível global.

Vai falar-se por exemplo do que se pode fazer a nível dos municípios para um melhor ambiente, sem emissões de gases com efeito de estufa e ao mesmo tempo mais resistente aos efeitos das alterações climáticas.

Crise dos direitos da criança

No penúltimo dia da cimeira serão ainda discutidos temas como a crise climática e a crise dos direitos da criança, num debate organizado pela UNICEF; o caminho para acabar com a produção de combustíveis fósseis, ou a forma de impedir o colapso climático agindo sobre a Amazónia.

Duas outras organizações internacionais, a ambientalista "World Wide Fund for Nature" (WWF) e a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) estão também na organização de outros eventos que decorrem paralelamente às conversações para se encontrar um acordo final e consensual na sexta-feira.

Mais de 120 líderes políticos e milhares de especialistas, ativistas e decisores públicos estão reunidos até sexta-feira em Glasgow, na Escócia, na COP26 para atualizar os contributos dos países para a redução das emissões de gases com efeito de estufa até 2030.

A COP26 decorre seis anos após o Acordo de Paris, que estabeleceu como meta limitar o aumento da temperatura média global do planeta a entre 1,5 e dois graus celsius acima dos valores da época pré-industrial.

Apesar dos compromissos assumidos, as concentrações de gases com efeito de estufa atingiram níveis recorde em 2020, mesmo com a desaceleração económica provocada pela pandemia de covid-19, segundo a ONU, que estima que, ao atual ritmo de emissões, as temperaturas serão no final do século superiores em 2,7 ºC.

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Uma em cada três árvores do mundo está ameaçada de extinção, diz estudo



Pelo menos 30% das espécies de árvores do mundo podem ser extintas, de acordo com um novo estudo.

As espécies ameaçadas são variadas: desde carvalhos e magnólias bem conhecidos a árvores de madeira tropical.

Os especialistas dizem que no total 17,5 mil espécies de árvores estão em risco — o dobro do número somado de mamíferos, pássaros, anfíbios e répteis sob ameaça.

Grupos de conservação estão pedindo esforços urgentes de proteção em meio a ameaças como desmatamento, exploração madeireira e mudanças climáticas.

"Temos quase 60 mil espécies de árvores no planeta e, pela primeira vez, sabemos quais dessas espécies precisam de ações de conservação, quais são as maiores ameaças para elas e onde elas estão", diz Malin Rivers, da instituição de caridade Botanic Gardens Conservation International em Kew, Londres.

A Avaliação Global de Árvores, por 500 especialistas em árvores e 61 instituições, reúne dados sobre o estado de conservação de todas as árvores

Para um mundo saudável, precisamos da diversidade de espécies de árvores, diz Sara Oldfield, co-presidente do Grupo Global de Especialistas em Árvores da União Internacional para a Conservação da Natureza.

"Cada espécie de árvore tem um papel ecológico único a desempenhar", disse ela. "Com 30% das espécies de árvores do mundo ameaçadas de extinção, precisamos urgentemente aumentar as ações de conservação."

O relatório Estado das Árvores do Mundo descobriu que pelo menos 30% das 60 mil espécies de árvores conhecidas estão em risco de extinção.

Cerca de 142 espécies já desapareceram da natureza. E 442 estão perto da extinção — nestes casos, há menos de 50 árvores individuais de cada espécie restantes.

As maiores ameaças às árvores em todo o mundo são o desmatamento para plantações (afetando 29% das espécies), extração de madeira (27%), desmatamento para pecuária (14%), desmatamento para ocupação (13%) e incêndios (13%).

Uma em cada cinco espécies de árvores é usada por humanos como alimento, combustível, madeira, remédios e outras coisas

Mudanças climáticas, condições meteorológicas extremas e aumento do nível do mar são ameaças crescentes às árvores. Mas os autores dizem que com ações de conservação, há esperança para o futuro.

"O relatório nos dá esse roteiro para mobilizar a comunidade ambientalista em geral e outros atores importantes para garantir que a preservação de árvores esteja na vanguarda da agenda de conservação", disse o Dr. Rivers.

Especialistas pedem diversas ações, como:
  • Preservar as florestas existentes e expandir as áreas protegidas (atualmente pelo menos 64% de todas as espécies de árvores podem ser encontradas em pelo menos uma área protegida)
  • Manter espécies ameaçadas em jardins botânicos ou bancos de sementes na esperança de que um dia possam ser devolvidas à natureza (atualmente cerca de 30% de todas as árvores são protegidas desta forma)
  • Educar para garantir que esquemas de reflorestamento e plantio de árvores sejam realizados cientificamente, com a árvore certa no lugar certo, incluindo espécies raras e ameaçadas
  • Aumentar o financiamento para a conservação de árvores.
  • As florestas tropicais estão enfrentando ameaças de mudanças climáticas e condições meteorológicas extremas.
Os cientistas estimam que um milhão de animais e espécies de plantas estão ameaçados de extinção.

Nos últimos 300 anos, a área florestal global diminuiu cerca de 40% e 29 países perderam mais de 90% de sua cobertura florestal.

A pesquisa mostra que sete commodities principais impulsionam mais da metade do desmatamento em todo o mundo.

As árvores em particular risco de extinção incluem:
  • Grandes árvores tropicais conhecidas como dipterocarpos que estão sendo perdidas devido à expansão das plantações de óleo de palma
  • Carvalhos perdidos para a agricultura e o desenvolvimento em partes do México, Chile e Argentina
  • Árvores de ébano e pau-rosa sendo derrubadas para produzir madeira em Madagáscar
  • Árvores de magnólia ameaçadas por coleta insustentável de plantas
  • Árvores que estão morrendo de pragas e doenças no Reino Unido e na América do Norte

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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

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