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sexta-feira, 17 de julho de 2026

O Elogio da Lentidão

Estava na minha lista de espera há alguns anos. Esta semana conclui a sua leitura. Foi como um longo suspiro de alívio que eu nem sabia que precisava de dar. A própria capa do livro Elogio da Lentidão, com aquele tom azul sereno e uma tipografia que se impõe sem gritar, já parecia antecipar o tom da leitura. Porque, no fundo, ler o Lamberto Maffei é exatamente isso: uma conversa pausada com um cientista que nos tenta resgatar da nossa própria exaustão diária. Por ser um ensaio, não há personagens ou uma narrativa de ficção; o protagonista aqui é o próprio funcionamento da nossa mente. Além disso, para quem já leu o Elogio da Rebeldia, a ligação é imediata: no mundo de hoje, recusar a pressa é a forma mais pura de insubmissão.

Curiosamente, este título partilha o nome exato com outro clássico contemporâneo: o Elogio da Lentidão do jornalista Carl Honoré (2004), o grande manifesto do movimento Slow. No entanto, a forma como os dois autores abordam o mesmo problema revela perspectivas muito diferentes, embora profundamente complementares. Enquanto Honoré adopta uma abordagem sociológica e cultural, mapeando como a pressa invadiu a nossa alimentação, o sexo, o trabalho e as cidades, Maffei vai à raiz biológica do problema. Honoré foca-se no estilo de vida e nas escolhas do quotidiano, propondo uma revolução comportamental; já Maffei foca-se na evolução da espécie, demonstrando que a pressa digital é uma violência contra a nossa própria anatomia cerebral. Para Honoré, abrandar é uma questão de qualidade de vida; para Maffei, é uma necessidade de preservação neurológica.

Vivemos numa época em que a rapidez é aplaudida como a virtude suprema e a pressa é constantemente confundida com produtividade. Como nos lembra o historiador Eric Hobsbawm, o século XX consagrou o triunfo da velocidade, transformando a aceitação da aceleração num mito que dita as regras do mundo contemporâneo. Desde o Manifesto Futurista de Marinetti, decretou-se que o tempo e o espaço tinham morrido em nome de uma pressa omnipresente. Hoje, quem escolhe ser lento é frequentemente visto como indolente ou pouco perspicaz. No entanto, o que Maffei faz, com a mestria e a bagagem de um neurobiologista, é desmontar essa armadilha em que todos caímos. Ele explica-nos, com uma clareza desarmante, que o cérebro humano é, essencialmente, uma máquina lenta. A tecnologia tornou as comunicações externas instantâneas, mas as conexões entre os nossos neurónios permanecem inalteradas desde a nossa filogénese. O cérebro rápido e reativo pertence aos nossos mecanismos ancestrais mais primitivos - aqueles focados apenas na sobrevivência imediata, que não calculam consequências. O pensamento profundo - aquele que nos permite criar significado, resolver problemas complexos e construir memórias que perduram - exige algo que a sociedade moderna detesta: tempo e silêncio.

A literatura já nos tinha avisado disso. Como bem escreveu Milan Kundera, a lentidão está diretamente ligada à intensidade da memória, enquanto a velocidade nos empurra para o esquecimento. No final luminoso de As Vinhas da Ira, de Steinbeck, o adjetivo "lentamente" repete-se como um mantra no gesto de compaixão pura de Rosa de Sharon.

É essa a grande lição partilhada pela ciência de Maffei e pela arte da escrita: a lentidão não melhora apenas a qualidade do nosso pensamento; ela é a condição necessária para a empatia, para o cuidado e para a solidariedade.

No final, ler este livro deixa-nos com uma cumplicidade desarmante e com uma certeza irrefutável. Maffei comprova biologicamente aquilo que o nosso corpo já tentava dizer-nos em cada momento de exaustão: nós fomos feitos para abrandar.

sábado, 20 de junho de 2020

O Elogio da Rebeldia

A obra de Lamberto Maffei, condensada de forma magistral no seu tríptico constituído por Elogio da Lentidão, Elogio da Palavra e Elogio da Rebeldia, ganha uma nova e inquietante espessura quando se corrige a grelha de leitura cronológica do autor, onde as siglas a.P. e d.P. significam, com precisão histórica, "antes da Pandemia" e "depois da Pandemia". O pensador e neurocientista italiano não se limita a tecer uma crítica cultural superficial sobre os malefícios do isolamento tecnológico; ele ancora a sua reflexão na biologia do cérebro humano para demonstrar como o trauma civilizacional da Covid-19 acelerou geometricamente a migração definitiva da nossa vida social para o interior dos ecrãs, forçando uma mutação patológica na nossa ecologia mental. Esta viragem histórica projeta a análise de Maffei diretamente para o campo da biopolítica, uma vez que o confinamento normalizou o controlo, a vigilância e a mediação algorítmica de todas as esferas da vida, transformando o próprio cérebro no território definitivo onde o poder contemporâneo opera.

Ao cruzar este diagnóstico com a sociologia, percebe-se que a transição para o cenário d.P. materializou o solipsismo militante de Gilles Lipovetsky e radicalizou a tese de Zygmunt Bauman, revelando uma sociedade que ultrapassou o estado líquido para se tornar completamente liquefeita. Trata-se de uma rede de comunicação crescentemente sofisticada que, sob o pretexto de nos manter conectados em segurança sanitária, funcionou como uma parede invisível que aprisionou o indivíduo num isolamento entristecedor. Para um neurocientista, a biopolítica do século XXI já não se exerce apenas através de decretos de Estado ou cercas físicas, mas sim na modelação mecânica do sistema nervoso das populações através da captura dos circuitos biológicos de dopamina. Ao habituar-se à ausência de corpos reais e tridimensionais, o cérebro humano, devido à sua plasticidade sináptica, adapta-se à reclusão digital, gerando uma atrofia das áreas ligadas à empatia e ao pensamento crítico lento, o que torna as massas mais dóceis, previsíveis e fáceis de governar.

Esta rutura comunicacional d.P. afeta diretamente os processos identitários descritos por Paul Ricoeur, que defendia que o si-mesmo só se conhece verdadeiramente através do outro. Para compreender a gravidade desta fratura, é essencial convocar o olhar da psicanálise de Sigmund Freud e os seus conceitos de transferência e contratransferência. A alteridade necessita do atrito e da presença do interlocutor para que o sujeito descodifique os seus próprios traços de personalidade, seja por oposição ou por identidade. Quando a biopolítica pós-pandémica confina os corpos e substitui o próximo por uma imagem plana filtrada pelo ecrã, a contratransferência real é amputada, o diálogo converte-se num monólogo estéril e o autoconhecimento fica gravemente comprometido.

Face a este cenário de liquefação social e domesticação cognitiva, a resposta que emana da obra de Maffei assume o caráter de uma contra-biopolítica urgente. Dado que a plasticidade cerebral garante que não estamos biologicamente condenados ao determinismo digital, a rebeldia proposta pelo autor deixa de ser um mero manifesto intelectual para se tornar num ato de resistência biológica defensiva. Educar os indivíduos no espírito crítico, forçando a suspensão do juízo e o confronto presencial com a contradição, é uma forma de terapia ocupacional que reabilita o córtex pré-frontal contra os automatismos da pressa digital. Rebelar-se na era depois da pandemia significa, portanto, resgatar deliberadamente a lentidão e a palavra dita para abrir caminhos sinápticos alternativos, salvaguardando a soberania do pensamento e a profundidade da condição humana perante os sistemas de controlo da modernidade.

Para aprofundar este diagnóstico diretamente a partir das palestras do autor, a intervenção Lamberto Maffei - Le nuove frontiere delle neuroscienze: ambiente e cervello ilustra com clareza como o neurocientista detalha a vulnerabilidade do sistema nervoso às pressões ambientais e a urgência de defender a nossa biologia. Adicionalmente, para compreender a transição teórica do controlo dos corpos para o controlo digital das mentes, o ensaio sobre a Psicopolítica de Byung-Chul Han oferece uma excelente ponte filosófica para a anatomia da resistência proposta por Maffei.