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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

A ciência da quietude: nictinastia e ritmos naturais


A quietude que se sente no solo da floresta ao anoitecer não é uma ilusão provocada pela penumbra, mas sim um processo biológico ativo. Cenoura-brava (Daucus carota), prestes a despertar no matagal: rodeada por botões no meio de uma densa folhagem, uma única flor branca suspendeu o seu desabrochar até ao amanhecer, repousando lado a lado com pequenas flores roxas companheiras (talvez violetas) no sub-bosque húmido e sombreado.

Esta reação dinâmica à transição entre o dia e a noite ocorre através da nictinastia - um movimento funcional em resposta à ausência de luz e à descida de temperatura. As células das plantas da família Apiaceae alteram a sua pressão de turgor (a pressão da água no seu interior), fazendo com que a umbela e os seus botões imaturos se dobrem ou se fechem hermeticamente. Este mecanismo protege os delicados órgãos reprodutivos contra o frio e a humidade noturnos. Enquanto o mundo dorme, toda a flora parece descansar e desacelerar, respeitando em silêncio os ciclos ancestrais da Terra.

Entre o Sinal e o Silêncio
Enquanto a rede pulsa em cabos de luz,
e o ecrã consome o olhar distraído,
a terra, em segredo, a si se reduz,
num ritmo antigo, calmo e esquecido.

Procuramos o mundo num brilho irreal,
hiperconectados, em febre e desterro,
esquecidos do sopro do chão ancestral,
presos à ilusão do vidro e do ferro.

Mas lá fora, na sombra, a flor sabe esperar.
A cenoura-brava dobra o seu manto,
suspende o desabrochar até o sol voltar,
coberta de orvalho, de noite e de encanto.

Sem pressa, sem rede, sem código ou sinal,
a vida recolhe na sua quietude profunda.
O verdadeiro mistério do mundo real
é o silêncio da terra quando a noite o inunda.

Poema de João Soares, 03.08.2026

«A ilusão da falta de vida é apenas isso: uma ilusão. Em todo o lado há a garantia de que o ciclo se cumpriu, contendo em si os meios para a sua própria renovação.» - Rachel Carson in O Mar que Nos Cerca

sábado, 29 de agosto de 2026

Florence + The Machine - Cosmic Love


Letra
A falling star fell
From your heart and landed in my eyes
I screamed aloud as it tore through them
And now it's left me blind

[refrão]
The stars, the Moon
They have all been blown out
You left me in the dark
No dawn, no day
I'm always in this twilight
In the shadow of your heart

And in the dark, I can hear your heartbeat
I tried to find the sound, but then it stopped
And I was in the darkness
So darkness I became

[refrão]

I took the stars from my eyes and then I made a map
And knew that, somehow, I could find my way back
Then I heard your heart beating, you were in the darkness too
So I stayed in the darkness with you

[refrão]

A Escuridão Encoberta pelas Estrelas: Uma Análise Crítica e Mitológica de «Cosmic Love»
A banda britânica Florence + The Machine, liderada pela icónica vocalista Florence Welch, consolidou-se no cenário musical internacional através do seu som distinto focado no indie pop, baroque pop e rock artísticos. 
«Cosmic Love», lançada em 2009 como parte do álbum de estreia Lungs, é um dos temas mais emblemáticos da banda, combinando arranjos de harpa celestiais com percussões tribais e intensas. 

Liricamente, a canção aborda o impacto avassalador de um amor obsessivo e devastador. Em vez de retratar o romance de forma cor-de-rosa, Florence descreve uma paixão tão avassaladora que consome a própria luz da protagonista, projetando uma escuridão onde as estrelas, a Lua e o Sol desaparecem. Como canta a própria artista no refrão.

O teledisco da canção foi realizado pela dupla Tabitha Denholm e Tom Beard (conhecidos no meio artístico simplesmente como Tabitha & Tom). A narrativa visual acompanha Florence a caminhar por uma floresta encantada e sombria, onde encontra uma estrutura espelhada repleta de luzes cintilantes. O vídeo simboliza a busca interior e a metamorfose da dor em iluminação: ao entrar na casa de luz, o peixe de luz no seu peito irradia, sugerindo que a verdadeira energia cósmica renasce do próprio sofrimento interior.

Em termos de referências literárias e filosóficas, «Cosmic Love» dialoga profundamente com o Romantismo e o Gótico do século XIX, ecoando obras como O Monte dos Vendavais de Emily Brontë, onde o amor transcende a razão e ganha contornos destrutivos. A ideia de "uma queda de 40 dias" evoca o simbolismo bíblico do dilúvio e a perda do Paraíso em O Paraíso Perdido de John Milton. Sob uma perspectiva filosófica, a obra tangencia o conceito do Sublime de Edmund Burke e Immanuel Kant - a sensação de algo imenso e majestoso que provoca simultaneamente fascínio, pavor e um aniquilamento do próprio "eu".

Página Oficial
Florence + The Machine

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

A abertura na copa das árvores

Céu Tecido
Um campo de ondulações de espuma cinzenta e suave
estende-se amplamente pela atmosfera,
onde o ar e a humidade tecem um lar temporário,
mantendo perto a luz e a sombra.

Correntes invisíveis curvam-se e erguem-se,
arrefecendo o vapor em formas silenciosas,
um presente subtil, flutuante e vivo
antes da chegada das tempestades.

Nenhuma parte está separada do chão,
nenhuma gota existe fora do todo;
em cada sopro flutuante encontra-se
o ritmo de uma única alma.

João Soares, 28.08.2026

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Kasper Bjørke: Young Again (feat. Jacob Bellens)

Melhor som aqui

[Verse 1]
Enough is enough, no one stops the caterpillar
The weight of the world already too much to bear
You do it too loud, mix it up with vanilla
The sound is the best I have heard for a million years

[Verse 2]
From the thunder that came, I was never the same
And I would stop to think of what to do
I was taking a leap I was playing for keeps with you

[Verse 3]
Too many touches on my skin
That's lying between now and then
Too many kisses on my chin
So severe

[Verse 4]
I can't believe the state I'm in
I can't believe what's happening
We'll never be this young again
Guinevere

[Verse 5]
The comic relief that makes room for my decision
To tighten the rope so that you never will forget
The music that comes from when playing with precision
The words are too rough, I can't shake it from off my head

[Verse 6]
I was making a mess for the better I guess
With a desire to be understood
There were people around with the need to get down for good

[Verse 7]
The many touches on my skin
That's lying between now and then
The many kisses on my chin
So severe

[Verse 8]
I can't believe what's happening
I can't believe the state I'm in
We'll never be this young again
Guinevere

Significado da canção
Kasper Bjørke e Jacob Bellens são dois artistas de nacionalidade dinamarquesa que, nesta colaboração de 2009 intitulada "Young Again", criaram uma faixa que transita entre o synth-pop, o indie dance e o electro-house. Se analisarmos apenas a letra, a música foca-se na nostalgia, na efemeridade da juventude e na aceitação da passagem do tempo, deixando o aviso agridoce de que nunca seremos tão jovens como no momento presente.

O uso do nome Guinevere nesta canção baseia-se no forte simbolismo que a personagem carrega na literatura, servindo como uma metáfora perfeita para a mensagem de melancolia e nostalgia da música. O compositor Jacob Bellens, conhecido pelo seu estilo abstrato e romântico, utiliza a icónica rainha de Camelot para evocar o arquétipo do amor proibido e trágico. Na mitologia arturiana, o romance de Guinevere com Lancelot é sinónimo de uma paixão avassaladora, mas que carrega consigo a dor e a inevitabilidade da ruína, o que se alinha perfeitamente com o desabafo melancólico presente na letra da canção.

Além disso, a figura de Guinevere está intrinsecamente ligada ao fim de uma era dourada, já que a sua traição acabou por ditar a queda de Camelot e a destruição da Távola Redonda. Ao cruzar essa referência com o refrão que repete que nunca mais seremos assim tão jovens, a música transforma a personagem num símbolo da perda da inocência e da passagem implacável do tempo. Ao escolher um nome mítico e intemporal em vez de um nome comum, o autor eleva a pessoa a quem canta ao estatuto de uma musa distante e inalcançável, transformando a canção num lamento poético sobre as marcas que os amores intensos deixam na nossa pele e a saudade de um passado que não volta atrás.

No entanto, o conceito de biofilia - que remete para a ligação inata do ser humano com a natureza e com o mundo vivo - torna-se o pilar central da obra quando olhamos para a sua componente visual. No teledisco, realizado por Karim Huu Do , esta ligação é explorada de forma artística e surrealista, mostrando plantas, musgos e fungos a brotarem diretamente da pele e dos corpos das personagens. Esta fusão funciona como uma metáfora poética onde o ciclo da vida humana é equiparado ao ciclo botânico do nascimento, florescimento e decomposição. Assim, ao contrastar a batida eletrónica e sintética com imagens puramente orgânicas, a obra completa acaba por sugerir que, independentemente do quão urbanos ou tecnológicos nos tornemos, a nossa essência permanece biológica e inevitavelmente ligada à Terra.

sábado, 6 de junho de 2026

Evangelina Mascardi baroque lute: Preludio e Fuga de Sylvius Leopold Weiss

Tenho tido a incrível sorte de assistir a inúmeros concertos ao vivo ao longo dos anos, desfrutando tanto de ambientes íntimos em recintos fechados como de atuações ao ar livre, rodeadas pela natureza. Há uma alquimia única quando música bela é tocada com tanta naturalidade por um verdadeiro mestre e, para mim, Evangelina Mascardi personifica essa perfeição. O seu domínio do alaúde é absolutamente hipnotizante.

O meu profundo amor por este instrumento estende-se também à brilhante obra do alaúdista e compositor alemão Sylvius Leopold Weiss. As suas composições transmitem uma beleza profunda e intemporal que ressoa profundamente, especialmente quando trazidas à vida por artistas que compreendem a alma delicada do alaúde.

Ouvir esta música no seio da natureza é uma experiência sublime - onde o suave dedilhar das cordas se funde na perfeição com o farfalhar das folhas e o céu aberto. É uma lembrança de quão poderosa e reconfortante a arte pura pode ser.

Biografia de Evangelina Mascardi

Tocar um instrumento musical como o alaúde barroco em plena natureza é uma experiência que cruza de forma profunda a biologia, a cultura e a sensibilidade humana. Para compreender esta ação, podemos dividi-la em duas perspetivas fundamentais: a biofilia e a etnobiologia. A biofilia, um conceito popularizado pelo biólogo E. O. Wilson, sugere que os seres humanos possuem uma tendência inata para procurar conexões com o mundo natural e outras formas de vida. Ao levar um instrumento para um bosque, para uma praia ou para um jardim, o músico não está apenas a contemplar a paisagem, mas sim a interagir ativamente com ela. A música transforma-se num diálogo e numa busca por bem-estar, onde o ritmo do dedilhar e o timbre do instrumento se alinham instintivamente com o som do vento, das ondas ou do canto dos pássaros. No caso específico do alaúde barroco, esta ligação é ainda mais íntima devido à sua natureza inteiramente orgânica, construída com madeiras ressonantes leves e cordas delicadas, produzindo um som acústico e suave que não agride o ecossistema, mas funde-se perfeitamente com ele.

Por outro lado, embora o ato isolado de tocar não seja uma ciência, a relação humana e cultural que o sustenta é o objeto de estudo perfeito para a etnobiologia. Esta disciplina estuda as complexas interações entre as sociedades humanas e os ecossistemas ao seu redor. Quando analisamos o alaúde barroco sob esta lente, entramos no campo da etnobotânica aplicada à luthieria, que é a arte de construir instrumentos de corda. A própria existência do alaúde é o resultado de séculos de conhecimento acumulado por artesãos europeus sobre as propriedades físicas e acústicas das árvores. Para criar o tampo harmónico do instrumento, por exemplo, utiliza-se historicamente o abeto de ressonância, uma madeira proveniente de árvores que crescem em altitudes elevadas e em condições de frio extremo, como nos Alpes. Este crescimento lento gera anéis de madeira extremamente compactos e regulares, garantindo uma elasticidade e uma rigidez únicas que permitem ao instrumento vibrar com a máxima sensibilidade. Já para a construção da concha traseira do alaúde, recorre-se a madeiras como o ácer, que reflete o som rapidamente e confere brilho e clareza às notas, ou o teixo e as madeiras de árvores de fruto, como a ameixoeira, que trazem doçura e harmónicos calorosos à música.

Existe ainda uma ponte fascinante entre estes conceitos chamada biomúsica ou zoomusicologia, que estuda a música humana que incorpora ou responde diretamente aos sons do ambiente. No período Barroco, compositores como Sylvius Leopold Weiss criavam obras inspiradas na imitação da natureza, tentando traduzir paisagens e movimentos do mundo natural para as cordas do instrumento. Ao interpretar estas peças ao ar livre, o músico está, na verdade, a devolver essa matéria-prima florestal, agora transformada em património cultural, ao seu local de origem. Cria-se assim uma simbiose física e ambiental instantânea, uma vez que a madeira, sendo um material vivo e higroscópico, reage diretamente ao microclima, expandindo-se ou contraindo-se com a humidade e a temperatura do ar. Hoje em dia, esta relação enfrenta até desafios ecológicos modernos, pois as alterações climáticas e os invernos menos rigorosos na Europa fazem com que as árvores cresçam mais depressa, forçando os construtores de instrumentos a subir cada vez mais alto nas montanhas para encontrar a madeira ideal. Assim, tocar este instrumento na natureza manifesta o impulso biofílico de pertença ao mundo vivo e, em simultâneo, celebra o conhecimento etnobotânico que permitiu transformar a floresta em arte pura.

Finalmente, saber que o instrumento foi construído em 2024 pelo conceituado luthier Cezar Mateus, em Nova Jérsia, liga o passado histórico diretamente ao presente globalizado.

Do ponto de vista da etnobotânica moderna, a construção deste alaúde específico reflete a complexa jornada dos materiais na atualidade. Embora Cezar Mateus trabalhe nos Estados Unidos, um construtor desse nível mantém a tradição rigorosa de importar as madeiras europeias ideais, como o abeto dos Alpes para o tampo harmónico e o ácer ou o teixo para o corpo. Isto demonstra como o conhecimento tradicional sobre as árvores europeias cruzou o Atlântico, sendo aplicado por um mestre artesão nas Américas para criar um instrumento que, depois, viaja de volta à Europa para ser tocado na natureza pela alaudista Evangelina Mascardi. É a globalização ao serviço da preservação duma arte ecológica e histórica.

Além disso, o facto de ser um instrumento tão recente traz uma dinâmica física única para a biofilia e para a acústica ao ar livre. Um alaúde construído em 2024 é um instrumento "jovem". As suas madeiras ainda estão a aprender a vibrar juntas e são extremamente sensíveis às condições atmosféricas. Quando a artista o retira do ambiente controlado de um estúdio e o toca num espaço natural, o instrumento enfrenta o seu batismo de fogo ambiental, reagindo de forma muito viva à humidade e à temperatura daquele momento. Há uma beleza poética nisso: um instrumento feito recentemente com árvores antigas, esculpido do outro lado do oceano, a cantar e a vibrar pela primeira vez em plena sintonia com a natureza europeia.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

A história do adufe na Beira Baixa é uma viagem fascinante que atravessa continentes e milénios, fundindo heranças religiosas, culturais e sociais


1. A Origem Árabe e a Expansão Islâmica
A palavra adufe deriva do árabe ad-duff. O instrumento chegou à Península Ibérica durante a ocupação muçulmana (a partir do século VIII). Naquela época, os panderos quadrados eram comuns em todo o Médio Oriente e Norte de África, sendo utilizados tanto em contextos festivos como religiosos.

2. A Reconquista e a Fixação no Interior
Com a Reconquista Cristã, muitos elementos da cultura árabe foram assimilados pela população local em vez de serem erradicados. A Beira Baixa, devido ao seu relativo isolamento geográfico e carácter fronteiriço, tornou-se um "baluarte" onde estas tradições se enraizaram profundamente. Enquanto noutras regiões o instrumento se perdeu ou evoluiu para o pandeiro redondo, na Beira Baixa ele manteve a sua forma quadrangular original.

3. O Papel das Mulheres e da Religião
O adufe sobreviveu e prosperou principalmente através das mãos das mulheres (as adufeiras). Houve uma transição curiosa do seu uso:
  1. Contexto Profano: Ritmos de trabalho no campo e festas populares.
  2. Contexto Sagrado: O instrumento foi adotado pelas irmandades e festividades católicas. Tornou-se indissociável do culto à Senhora do Almortão ou à Senhora da Póvoa, onde o toque do adufe acompanha os cânticos litúrgicos e as procissões.
4. Por que é que ficou "preso" na Beira Baixa?
Existem várias teorias para a exclusividade regional:
  1. Isolamento: As serras da Estrela e da Gardunha dificultaram a entrada de influências externas que pudessem substituir o adufe por instrumentos mais "modernos".
  2. Identidade Comunitária: O adufe tornou-se um símbolo de resistência cultural e identidade local, passado de mães para filhas como uma herança viva.

Curiosidade Técnica
O que torna o adufe da Beira Baixa especial é a sua construção: dois quadrados de madeira revestidos com pele de ovelha (ou cabra), contendo no seu interior sementes ou pequenas soalhas (pedrinhas), que conferem aquele som de "chuva" característico quando o instrumento é vibrado.

Sabia que? Apesar de ser o símbolo da Beira Baixa, existem registos históricos e iconográficos que mostram que o adufe foi usado em quase todo o Portugal até ao século XVII, incluindo na corte de Lisboa, antes de se tornar uma exclusividade do interior.


quarta-feira, 18 de março de 2026

Anna Calvi - Eliza


Eliza
Anna Calvi

The lonely won't hold me for good
Peaceful is gleaming, she stood
To see her, to be her, to change
As if, like a kiss, we're the same
So hold me up, hold me up
If only I could be you

Eliza

My sister, my pistol below
If you could know all that I know
I'm falling, no warning, no way
Tomorrow, tomorrow's too late
So hold me up, hold me up
I know that I could be you

Eliza

So priceless and godless I wait
To leave this soul behind
Untangle the jangle of bells
They ring my fear through the night

Eliza

A canção "Eliza" é um dos singles mais emblemáticos da artista britânica Anna Calvi, lançada originalmente em 2013 como parte de seu aclamado segundo álbum de estúdio, intitulado "One Breath". 

Em termos de significado, a letra de "Eliza" explora o sentimento visceral do desejo e a obsessão por algo ou alguém que parece estar constantemente fora de alcance. Anna Calvi descreve a canção como uma representação da urgência e da ansiedade que acompanham a busca por uma conexão profunda. No refrão, ao cantar que não está esperando pelo nascer do sol ou pelo mundo, mas apenas para que "Eliza seja sua", ela coloca o objeto de seu afeto acima de todas as outras realidades, criando uma atmosfera de isolamento e fixação emocional.

Há também uma interpretação comum de que "Eliza" não seja apenas uma pessoa externa, mas uma personificação de uma parte da própria artista — uma versão de si mesma que ela tenta alcançar ou compreender. No videoclipe oficial, essa ideia de perseguição é reforçada visualmente pela imagem de Calvi correndo freneticamente por uma floresta, simbolizando a luta interna, a adrenalina e a vulnerabilidade de se entregar completamente a uma vontade incontrolável. No contexto do álbum "One Breath", a música sintetiza perfeitamente o conceito do disco: aquele momento de suspensão e medo logo antes de se perder o controle ou de algo grande acontecer.

sexta-feira, 13 de março de 2026

Solanaceae - I Saw Her Through The Pines


A maiden through the pines
Away, away she ran
And saw herself laid out
Upon the moss and stone

They want to hold her hand
They want to reach inside
So deep inside deep inside

I saw her through the pines
Soon the horned one goes
Deep, deep into the pines

And sounds of hooves on stone
Are carried on the wind
He wants to hold your hand

He wants to reach inside
So deep inside deep inside
I saw him through the pines


Solanaceae is the psychedelic folk side project of Danish guitarist Kim Larsen. More experimental than Larsen's main group :Of the Wand & the Moon:, Solanaceae released one self-titled LP of "themes of magick, woods and mysteries" and a split with neofolk artist King Dude. The moniker is taken from the scientific name of the deadly nightshade family which includes edibles like tomatoes, potatoes, eggplant and peppers.

Issued in 2009, Solanaceae contained pieces begun in 1997, with some songs co-written by Unto Ashes founder Michael Laird, who also contributed vocals, dulcimer, guitar and glockenspiel. Playing additional keyboards, glockenspiel and percussion, Larsen was also accompanied by, among others, Pythagumus Marshall (of like-minded American project Novemthree), Louise Nipper (of Art Cinema), Anne Eltard (of Familieorkestret), John Van Der Lieth (of Sonne Hagal), Chelsea Robb (of Arrowwood) and Larsen's occasional collaborator Fenella Overgaard.

Larsen's folk noir will appeal to listeners of Jahrtal, Forseti, In Gowan Ring, Sangre de Muerdago, Ulver and Current 93 [Fonte]

Kim Larsen can do no wrong in my opinion. Whether it is Martial Industrial (Vril Jäger) or funeral doom (Black Wreath), I love it all. But this project in particular really holds my heart, the melodies on this album are otherworldly and dreamlike, they transport to the field full of sunshine under the shady bough of an old tree as a gentle breeze blows on your face. Music that calls in the spirits or transports you into nature is the music I am drawn to listen to and make, this album is a beautiful example of the transcendental effect that music can have.[ Fonte]

sexta-feira, 6 de março de 2026

Cult of Dom Keller - This is how it feels to live your life dead


Melhor som aqui

As letras de Cult of Dom Keller, especialmente no álbum This Is How It Feels to Live Your Life Dead, são o reflexo perfeito do título: niilistas, existenciais e profundamente obscuras.

A banda não costuma escrever letras narrativas (com princípio, meio e fim); eles focam-se em criar mantras e imagens fragmentadas que reforçam a sensação de desespero e desorientação.

Temas Recorrentes
A Morte em vida: como o título sugere, as letras exploram a apatia, o vazio emocional e a sensação de estar "morto por dentro" enquanto o corpo continua a funcionar.

Decadência mental: há referências constantes a estados de psicose, alucinações e o colapso da sanidade.

Consumo e vício: metáforas sobre substâncias e a necessidade de escapar da realidade através do ruído ou da alteração da consciência.

O "Vazio" (The Void): o conceito de nada absoluto é uma constante, tanto nas letras como na própria estrutura sonora repetitiva.

Sites
Bandcamp
Facebook
Spotify
Youtube

terça-feira, 3 de março de 2026

Dia Mundial da Vida Selvagem


Hoje, 3 de março celebra-se, anualmente, o Dia Mundial da Vida Selvagem. 

Este ano com o tema Plantas aromáticas e medicinais - preservar a saúde, o património e os meios de subsistência.
A 3 de março de 2026, das 12:30 h às 14:30 (hora de Lisboa) assista aqui à celebração oficial da ONU, que contará com histórias e apresentações sobre o uso sustentável e a conservação de plantas aromáticas e medicinais, por especialistas dos Estados-Membros, representantes de alto nível de organizações internacionais, partes interessadas da indústria, líderes comunitários locais e membros de redes juvenis.

Vídeo oficial (em inglês)
Sítio oficial da comemoração (versão espanhola - permite tradução para português).

Utilize ainda os materiais informativos e educativos no sítio do ICNF - Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, I. P.

Como pode ajudar?
- Descubra mais acerca das plantas nativas da sua região.
- Ajude a conhecer onde elas existem inserindo as suas observações em plataformas de ciência-cidadã como a Biodiversity4all.
- Evite a colheita de plantas selvagens, a menos que tenha formação e autorização para tal.
- Se usar produtos à base de plantas, escolha os de origem sustentável.
- Se é pai/mãe ou professor(a) ensine os seus filhos(as) e alunos(as) a conhecer e proteger as plantas nativas.
- Maximize o seu impacto contribuindo para iniciativas de conservação.
- Tenha plantas aromáticas ou medicinais nativas em casa ou no seu jardim ou quintal.

Sabia que?
- Cerca de 25% dos medicamentos modernos são derivados de plantas.
- Estima-se que entre 50.000 a 70.000 espécies de plantas são usadas medicinalmente e cerca de 1.500 delas estão listadas nos Anexos da CITES - Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção - e mais de 800 no seu Anexo II.
- Algumas farmacopeias indígenas documentam milhares de remédios à base de plantas.
- No mundo, as plantas selvagens sustentam milhões de família rurais, através do comércio, da medicina e do artesanato.
- As práticas de cultivo e colheita de plantas aromáticas e medicinais garantem recursos vitais para muitas famílias, sendo que, no mundo, uma em cada cinco pessoas depende de plantas silvestres, algas e fungos para a sua alimentação e rendimento.
- A identidade cultural, as práticas espirituais e as tradições curativas são, frequentemente, indissociáveis da biodiversidade vegetal.
O objetivo deste dia é consciencializar os cidadãos para a proteção da fauna e flora, especialmente as espécies ameaçadas. Pretende-se, também, demonstrar os benefícios que a conservação das espécies tem para a vida no planeta e para a sobrevivência do ser humano.

Sobre o Dia Mundial da Vida Selvagem
Este dia foi criado na 16.ª Conferência das Partes da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção, em Março de 2013, por iniciativa da Tailândia. Mais tarde, a 20 de dezembro de 2013, a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou este dia, através da Resolução 68/205

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Dia Mundial das Zonas Húmidas: Expansão agrícola e urbana, alterações climáticas e invasoras continuam a pressionar estes ecossistemas vitais


Ambientes aquáticos costeiros ou interiores que albergam uma grande diversidade de formas de vida, que fornecem uma série de serviços críticos para o bom funcionamento dos ecossistemas e para a sobrevivência de humanos e não-humanos. Contudo, estão gravemente ameaçados, sobretudo devido à forma como temos lidado com eles, e a sua degradação custar-nos-á caro.

Para quem ainda não percebeu, falamos de zonas húmidas, pois esta segunda-feira, dia 2 de fevereiro, assinala-se o Dia Mundial das Zonas Húmidas. Esta efeméride foi estabelecida com a adoção da Convenção de Ramsar, em vigor desde 1975, e que tem como missão basilar a conservação desses habitats, vitais para humanos e não-humanos, para a diversidade biológica e sociocultural, e também eles muito diversos.

As zonas húmidas podem ser pântanos, charcos, ou turfeiras, naturais ou artificiais, de água estagnada ou corrente, de água doce, salobra ou salgada, incluindo áreas de água do mar cuja profundidade não seja superior a seis metros. Além disso, podem incluir zonas ribeirinhas ou costeiras que a elas sejam adjacentes, como “ilhéus ou massas de água marinha com profundidade superior a seis metros durante a maré baixa”, especialmente de forem importantes como habitats para aves marinhas.

Apesar de apenas cobrirem 6% da superfície da Terra, estimativas apontam para que cerca de 40% de todas as espécies de animais e de plantas dependem das zonas húmidas, para viverem, para se alimentarem e para se reproduzirem.

Um estudo publicado em 2023 na ‘Nature’ revelava que, entre 1700 e 2020, o mundo perdera cerca de 21% das suas zonas húmidas devido às atividades humanas, uma extensão perto dos 3,4 milhões de quilómetros quadrados. Essas perdas foram sobretudo causadas pela conversão das zonas húmidas em áreas agrícolas, mas também pela poluição, pela expansão urbana e industrial e pelo turismo insustentável.Stanford-led study finds global wetlands losses overestimated despite high losses in many regions

À Green Savers, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) explica que, quando a essas ameaças juntamos os efeitos das alterações climáticas, “o cenário torna-se, de facto, mais preocupante”.

Por provocarem secas cada vez mais frequentes e intensas, as alterações climáticas são apontadas como umas das principais ameaças às zonas húmidas. Quando esses habitats, como as turfeiras, perdem a água que lhes dá vida, o carbono aí armazenado ao longo de muitos anos no solo e na biomassa pode acabar por libertar-se na atmosfera, “contribuindo de forma significativa para um aumento das emissões globais de dióxido de carbono” e também para a crise climática.

Atualmente, aproximadamente 25% das espécies que dependem das zonas húmidas (para se reproduzirem, para se alimentarem, como pontos de paragem importantes durante migrações) estão ameaçadas de extinção, diz o ICNF. E se a destruição desses habitats não for travada e se não se recuperar dos danos causados, essas espécies enfrentarão um risco ainda maior.

As zonas húmidas em Portugal
Em Portugal, as zonas húmidas estão também a sofrer uma série de pressões, à semelhança do que se passa no resto do mundo.

Diz-nos o ICNF que, de acordo com dados comunicado pelo país à Comissão Europeia no ano passado relativos ao período entre 2019 e 2024, 58,7% dos habitas de zonas húmidas de Portugal continental e regiões autónomas estão em bom estado de conservação. Em sentido inverso, 31,7% estão avaliados como em mau estado de conservação.

Por cá, as principais ameaças às zonas húmidas são a fragmentação, degradação e destruição, especialmente devido à intensificação da agricultura e da silvicultura, à expansão urbana e à “crescente pressão turística”, explica o instituto. A agravar esses fatores está a introdução de espécies exóticas invasoras “que afeta a estrutura das comunidades biológicas nativas destes ecossistemas”, e, claro, as alterações climáticas são mais um prego no caixão.

Portugal tem 32 zonas húmidas protegidas ao abrigo da Convenção de Ramsar, com uma área total combinada de perto de 134.000 hectares. A Lagoa de Óbidos foi a mais recente adição à lista portuguesa de Sítios Ramsar, com cerca de 6,9 quilómetros quadrados e fazendo fronteira com os concelhos de Caldas da Rainha e de Óbidos.

O ICNF assegura que quase todas as zonas húmidas listadas da Convenção de Ramsar estão sujeitas a algum tipo de proteção legal, seja por serem parte da Rede Nacional de Áreas Protegidas, por serem Zonas de Proteção Especial no âmbito da Diretiva Aves da União Europeia ou Zonas Especiais de Conservação da Diretiva Habitats, por estarem sujeitas aos Planos Diretores Municipais ou ainda por estarem incluídas nas reservas agrícola ou ecológica nacionais.

No relatório nacional submetido em fevereiro do ano passado à 15.ª Conferência das Partes (COP15) da Convenção de Ramsar, que aconteceu em Victoria Falls, no Zimbabué, Portugal diz que entre a COP15 e a COP14, de 2022, conseguiu-se aumentar a consciência das populações e das autoridades locais para o valor das zonas húmidas e para a sua importância na adaptação e mitigação das alterações climáticas.

O documento aponta ainda como conquistas nesse período de três anos o aumento do número de eventos e atividades realizados todos os anos no país para celebrar o Dia Mundial das Zonas Húmidas, o “aumento significativo” do número de projetos implementados de restauro de zonas húmidas, a crescente valorização da dimensão sociocultural e histórica desses habitats e o maior número de ações para gerir e controlar espécies invasoras que ameaçam esses ecossistemas.

Entre as principais dificuldades na implementação da convenção entre 2022 e 2025 Portugal indicou a falta de planos de gestão para a maioria dos Sítios Ramsar no país, a falta de um inventário nacional das zonas húmidas, o aumento dos impactos das alterações climáticas, o aumento da agricultura intensiva em algumas zonas do país e a “rápida expansão” das espécies invasoras.

Para o biénio 2026-2028, Portugal elencou como prioridades a continuação da gestão das invasoras, o desenvolvimento do inventário nacional, a criação de um órgão equivalente a uma comissão nacional das zonas húmidas e o reforço do envolvimento da população na conservação desses ecossistemas.

As pessoas e as zonas húmidas

O tema do Dia Mundial das Zonas Húmidas deste ano pretende destacar a íntima e longeva ligação entre as culturas humanas e esses habitats aquáticos, especialmente salientando os serviços culturais por eles prestados aos humanos.

“As pessoas coexistem com as zonas húmidas desde a pré-História, aproveitando os serviços que elas prestam, e desenvolvendo um valioso conhecimento tradicional”, diz-nos fonte do ICNF. Durante milénios, essa coexistência permitiu à nossa espécie desenvolver um amplo conhecimento tradicional, transmitido de uma geração para a seguinte, que sobre os aspetos mais científicos das zonas húmidas, mas também sobre as dimensões éticas e espirituais.

Esse saber alicerçado na convivência e interligação com esses habitats, e com a vida que neles se encontra, permitiu “uma gestão sustentável dos recursos naturais fornecidos pelas zonas húmidas ao longo de milhares de anos”, afirma o instituto, que considera que devemos olhar para o passado, aprender com aqueles que vieram antes de nós, para tentar solucionar os problemas com os quais nos deparamos no presente.

“A integração destas práticas e tradições ancestrais nas estratégias de conservação atuais é essencial para obter soluções eficazes, inclusivas e duradouras”, argumenta o ICNF, destacando como fundamental o envolvimento das comunidades locais e a valorização e aproveitamento do seu conhecimento e experiência para proteger, conservar e restaurar as zonas húmidas.

“Os conhecimentos locais, bem como a ciência cidadã, já são recursos inestimáveis para se conhecer o estado das zonas húmidas.”

Por tudo isso, a continuação da perda de zonas húmidas ameaça a sobrevivência de muitas espécies de plantas e de animais que delas dependem, põe em risco a subsistência de diversas comunidades humanas que nelas encontram a sua principal fonte de sustento, como pescadores e mariscadores, e podem fazer desaparecer tradições e costumes de séculos ou de milénios de existência, como festas e romarias, que ainda hoje são celebradas e que têm as zonas húmidas no seu cerne.

“A perda e degradação das zonas húmidas agrava o problema da perda da biodiversidade e coloca em risco as espécies dependentes destes habitats”, diz-nos o ICNF, e “ameaça não só a subsistência das suas comunidades locais, como também a sua identidade cultural”.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Genders - Life Is but a Dream


I want you to see me everywhere
Don′t try to outsmart me, 'cos I′m already there
You will remember me if I'm the last thing you recall
Seems so promising but you'll never bother at all

Life is but a dream
When you′re next to me
It disappears so easily
You′re just a ghost to me

I am with you
I know you can feel me
From the fountain of youth
Now I'm floating free

Life is but a dream
When you′re next to me
It disappears so easily
You're just a ghost
Just a ghost

A canção “Life Is But a Dream” da banda americana Genders explora a efemeridade da vida e das relações humanas, usando a metáfora do sonho para expressar a fragilidade dos sentimentos e a passagem do tempo. A frase central, “a vida é apenas um sonho”, sugere que momentos de conexão e amor, por mais intensos que sejam, são transitórios e podem desaparecer facilmente, deixando apenas lembranças ou sensações de perda. A letra transmite um desejo profundo de ser lembrado e de marcar presença na vida do outro, mesmo diante da distância emocional, como evidenciado pela ideia de que a pessoa se tornará um “fantasma” ou apenas uma memória. Todo o conjunto de imagens — sonhos, fantasmas, memórias — cria um tom melancólico e introspectivo, refletindo sobre a dualidade entre a intensidade dos sentimentos e a fragilidade da realidade. Em suma, a canção é uma reflexão poética sobre amor, perda e a inevitável efemeridade da vida, mostrando como experiências que parecem reais podem ser tão passageiras quanto sonhos.

terça-feira, 8 de julho de 2025

Robin Wall Kimmerer on What Nature Teaches Us About Giving Back


Neste episódio profundamente reflexivo de "A Grande Questão", Robin Wall Kimmerer, botânica, autora de "Braiding Sweetgrass" e "The Serviceberry", professora e membro da Nação Potawatomi, junta-se a Eva Cornman, do Museu de Ciência, para explorar a relação entre os seres humanos e a Terra. Juntas, nesta entrevista completa, mergulham nas mundividências indígenas, na ideia da economia da dádiva e em como honrar a reciprocidade com a natureza nos pode guiar para soluções climáticas enraizadas na gratidão, e não na dominação.

Quer seja ambientalista, estudante, educador ou simplesmente alguém em busca de esperança e reconexão, este vídeo oferece insights valiosos de uma das vozes ecológicas mais importantes da nossa época.

terça-feira, 17 de junho de 2025

Flor de Murta


Em Junho a murta (Myrtus communis) encontra-se no seu pico de floração. Este é um dos arbustos mais emblemáticos da flora portuguesa, contudo, já foi mais comum na nossa paisagem. Incêndios, secas prolongadas e lavouras reduziram drasticamente a sua ocorrência. 

Ocorre perto de linhas de água e barrancos, bermas de estradas e caminhos, sebes e taludes, preferencialmente em encostas mais frescas e umbrias. Os seus frutos e as suas folhas podem ser utilizados em fitoterapia, como condimento ou na alimentação humana. 

Curiosamente, a flor da murta surge ligada à História de Portugal. Luísa Clara de Portugal (1702-1779), fidalga natural de Lisboa, ficou conhecida pela sua relação extraconjugal com o rei D. João V. Já era casada e mãe de três filhos quando iniciou a sua relação com o rei, de quem teve uma filha, Maria Rita Gertrudes de Portugal, que foi freira no Convento de Santos-o-Novo. Após terminar o caso com D. João V, foi amante do Duque de Lafões, de quem teve uma filha, D. Ana de Bragança. Pela sua beleza, ficou conhecida na Corte como a Flor de Murta, e deu origem a uma canção, cuja autoria alguns atribuem ao próprio rei D. João V:




Oh! flor da murta
Raminho de freixo
Deixar d'amar-te
É que t'eu não deixo.
Morrer sim
Mas deixar-te não
Oh! flor da murta
Amor do meu coração.
Oh! flor da murta
Do meu coração
Deixar d'amar-te
Ai não deixo, não.

Tal como defendeu Jorge de Sena, a sociedade portuguesa não conheceu o puritanismo protestante. O adultério foi tolerado, desde que com discrição e “sem escândalo público”. É assim a arte portuguesa de amar.

quarta-feira, 4 de junho de 2025

O contágio da gratidão, por Robin Wall Kimmerer


“As pessoas na sua maioria não veem realmente as plantas ou entendem as plantas ou o que elas nos dão... então, o meu acto de reciprocidade é mostrar as plantas como dádivas, como inteligências diferentes da nossa, como estes seres incríveis e criativos - meu Deus, elas podem fotossintetizar, isso ainda me impressiona! Quero ajudá-las a se tornarem visíveis para as pessoas. As pessoas não conseguem entender o mundo como uma dádiva, a menos que alguém lhes mostre como é.
(...)
O que me está sendo revelado pelos leitores é um profundo desejo de conexão com a natureza... É como se as pessoas se lembrassem de algum tipo de lugar ancestral dentro delas. Estão a lembrar-se como seria morar num lugar em que se sentissem companheiras do mundo vivo, não de seu afastamento. Embora o outro lado de amar tanto o mundo... é viver sozinho num mundo doente.

Tendemos a evitar essa dor... Mas acho que esse é o papel da arte: ajudar-nos a sofrer, e através do sofrimento, um pelo outro, pelos nossos valores, pelo mundo dos vivos. Sabe, penso no luto como uma medida do nosso amor, que obriga-nos a fazer algo, a amar mais... A maneira como estou a estruturar isto para mim mesma é que, quando alguém acaba este livro, os direitos da natureza fazem todo sentido para eles. Estou realmente a tentar transmitir que as plantas são pessoas.
(...)
Não tenho o poder de desmontar a Monsanto. Mas o que tenho é a capacidade de mudar a maneira como vivo diariamente e como penso sobre o mundo. Só tenho que acreditar que, quando mudamos a forma como pensamos, de repente mudamos a maneira como agimos e como as pessoas ao nosso redor agem, e é assim que o mundo muda. É mudando corações e mudando mentes. E é contagioso. Tornei-me cientista ambiental e escritora por causa do que testemunhei crescendo num mundo de gratidão e dádivas. 
Um contágio de gratidão... Estou apenas a tentar pensar sobre como seria isso. Agindo por gratidão, como uma pandemia. Eu consigo imaginar."

quinta-feira, 24 de abril de 2025

Scolimus hispanicus


A exuberância das suas belas flores amarelas era o que dava nas vistas. As suas sépalas e pétalas, atrás e à frente, davam volume e magnitude ao deleite de quem olhava e via, quando a primavera estava de abalada e o verão teimava em impor-se, ocupando o seu lugar, entrando de mansinho, com os dias a estenderem-se, nas horas de que se fazem, na luz que os ilumina, intensa e límpida e o calor que prolongava as tardes, entrando pela noite, com passagem serena pelo ocaso.
Claro está que era o que doirava o cardo, numa simbiose perfeita de luz ou novo brilho do astro, temperatura e cor. E, pois então, florescia o cardo dourado, abrindo botões de par em par ao longo do caule ascendente ou dos muitos que se bifurcavam, enlaçavam, até dar nós. Nenhum destes detalhes escapou às gentes do povo, mestres da observação, lá, onde frequentemente se encontravam, na labuta, no fazer e no desfazer dos dias que, assim, assertivamente o batizou.
Cardo de oiro, ainda, quando o vivo e quase incandescente scolimus, para a ciência, marcava a paisagem, sobressaindo nela, quando tudo à sua volta completava o ciclo vegetativo, empardecendo. De frutos e sementes retardados era assim que assegurava a sua presença anual, regressando no início de cada primavera. Protegiam-se entre os restos que continuariam de picos afiados, atirando-se dolorosamente a quem, distraidamente, por eles passasse.
Então, embora na sua perenidade, já só compunham. E eram a confirmação de uma apanha sábia, movida pela necessidade, mas caprichosa na sustentabilidade. Sabia-se que só a mão humana os controlava sem dizimar. Outros tempos... sem mondas químicas que tudo barbeiam e fazem desaparecer lentamente.
Ainda em março, mas mais em abril, ia-se aos cardos ou tengarrilhas, como se dizia por onde andámos, como se ia aos espargos. Só os picos, logo à nascença nos demoviam. Uma meia, calçada nas mãos, de pouco servia. E ripá-los não era para todos. Requeria agilidade e perícia.
Mas a necessidade é mestra de engenhos e o gostinho especial que conferiam aos cozinhados onde entravam, compensava. E ali à mão, qual dádiva da natureza, com o seu incomparável sabor silvestre (diz quem já provou os criados em estufa).
Eram estes os cardos de uns bons grãos no tarro dos afamados cozinheiros de Herdade.
Ao alcance da mão eram a melhor "mistura" da época, dispensando o que havia na horta.
Com os grãos de molho da noite anterior e os molhinhos de cardos ripados, a que se dava uma diversidade de nomes, bem cedo se chegavam as enormes panelas de ferro ao incandescente braseiro da ampla chaminé da cozinha do Monte.
A ganharia e outro pessoal da lavoura bem precisavam de um jantar (já que à noite se ceava), para repor energias da dura jornada.
Lá chegava o jumento (ou os jumentos), pachorrentamente, com avantajados tarros, nas cangalhas, não fosse o manjar entornar, enquanto tomava o "sabor" do tarro.
Todos comiam do mesmo (ou dos mesmos). À falta de colher, que cada um se encarregava de ter consigo, servia uma côdea de marrocate - que até tornava a iguaria mais apetitosa!
(Hoje sinto mesmo o cheiro, o calor - principalmente humano e solidário - deste ambiente).

sábado, 13 de abril de 2024

Música do BioTerra: Zanias - Unraveled


I had you done,
I had you figured out.
Are you too full of fear for me now? 
Are you too full of fear for me now? 
I wish I could be what you need
to feel alive for a change.
I think I might be everything you're running from. 

I wish you could see what I see,
to feel what I feel.

If only I were enough
to deserve your wounded love. 
If only I were enough.

Interpretação geral
  1. Conflito emocional: A letra reflete o peso da expectativa de atender às necessidades do outro e a frustração de se sentir inadequado.
  2. Medo e fuga: "I think I might be everything you’re running from" indica uma dinâmica em que o medo do parceiro provoca distanciamento, talvez por esse sentir-se “demais” ou assustador.
  3. Crise interna: O refrão repetido “If only I were enough” simboliza o autoquestionamento e a autocrítica, típicos de alguém que se sente emocionalmente insuficiente.

segunda-feira, 18 de março de 2024

Livro da Semana - A Sabedoria da Terra


Enquanto botanista, Robin Wall Kimmerer faz perguntas sobre a natureza com as ferramentas da ciência. Enquanto membro da Nação Potawatomi, partilha a ideia de que plantas e animais são os nossos mais antigos professores. Neste livro, a autora une essas duas lentes de conhecimento para nos guiar numa «viagem que é tão mítica quanto científica, tão sagrada quanto histórica, tão inteligente quanto sábia», nas palavras de Elizabeth Gilbert, autora de Comer, Orar, Amar. Baseando-se na sua vida como cientista, indígena, mãe e mulher, a autora mostra-nos como outros seres vivos nos oferecem dádivas e lições importantes, mesmo que nos tenhamos esquecido de como ouvir as suas vozes. Numa densa trama de reflexões, que vão da criação de Ilha da Tartaruga às forças que ameaçam hoje o seu crescimento, Robin Wall Kimmerer desenvolve a sua ideia central: o despertar de uma consciência ecológica requer o reconhecimento e a celebração da nossa relação recíproca com o resto do mundo vivo. Só quando conseguirmos ouvir as línguas de outros seres seremos capazes de entender a generosidade da terra e aprender a retribuir da mesma forma. A Sabedoria da Terra está destinado a ser um clássico da escrita sobre a natureza.

"Quando olhamos para todos os danos que infligimos, é fácil acreditar que a Terra está a ser destruída. Mas, na verdade, é a nossa relação com a terra que está destruída. Nós temos a capacidade de mudar essa realidade, podemos optar por consumir menos e agir com mais cuidado com a Terra. Podemos escolher compreender o mundo como uma dádiva e responder adequadamente.
Não necessitamos de mais política, de mais dados, nem mais dinheiro. Precisamos sim de uma mudança no nosso coração."

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Mata da Bufarda enriquece candidatura de Conímbriga a Património Mundial


A riqueza botânica e histórica da Mata da Bufarda, em Condeixa-a-Nova, defendida por sucessivas gerações de investigadores, é igualmente valorizada na candidatura da cidade romana de Conímbriga a Património da Humanidade.

O canhão do rio dos Mouros, junto ao campo arqueológico e ao Museu Nacional de Conímbriga, e aquela mata “são dois elementos preponderantes no processo”, disse à agência Lusa Miguel Pessoa, do Movimento para a Promoção da Candidatura de Conímbriga a Património Mundial da UNESCO.

“Conímbriga é muito mais do que um museu. Só se consegue perceber a longa e fascinante diacronia da cidade se entendermos o território envolvente”, confirmou Vítor Dias, diretor do Museu Nacional.

Também o presidente da Câmara de Condeixa-a-Nova, Nuno Moita, realçou a necessidade de assumir uma visão integrada do património cultural e natural do município, no distrito de Coimbra, que em termos turísticos tem vindo a apostar na herança da romanização.

“A localização que os romanos escolheram para Conímbriga tem a ver com toda a envolvente, ainda com muita biodiversidade”, afirmou à Lusa.

A importância da arte dos mosaicos, que surgem na região em diversos sítios arqueológicos ligados à ocupação romana, é igualmente reconhecida pela candidatura de Conímbriga a Património Mundial, cuja proposta foi entregue este ano à representação da UNESCO em Portugal.
“É naquelas margens do rio dos Mouros, em plena Mata da Bufarda, que encontramos os calcários de várias cores usados pelos mosaicistas”, enfatizou Miguel Pessoa, dirigente da Associação Ecomuseu, que promove o processo para a classificação em conjunto com o município de Condeixa e o Centro de Estudos Vergílio Correia.

A mata, onde foram identificadas quase 350 espécies botânicas, incluindo pinheiros-mansos e outras resinosas de um coberto vegetal mais recente, “ajuda a compreender a cidade romana”.

“Foi dali que vieram as madeiras para construir as habitações de Conímbriga”, sublinhou Miguel Pessoa.

Conímbriga, com as suas especificidades e localização, “permite uma ligação interdisciplinar com quase todos os ramos de saber, porque nos transporta para fora do edificado”, salientou Vítor Dias, por sua vez.

O diretor do Museu Nacional afirmou à Lusa que, no passado, a Mata da Bufarda “tinha mais carvalho, azinheira e sobreiro”, mas que, mais de 2.000 anos após a chegada dos romanos, continua a ser indissociável da cidade, enquanto área verde com centenas de hectares que mantém as características primitivas da floresta mediterrânica.

No verão, foram inaugurados os passadiços do rio dos Mouros, num percurso aproximado de 800 metros, entre Conímbriga e a cascata, que a Câmara Municipal quer prolongar até ao Poço, aldeia onde se cruzam as rotas turísticas pedestres de Santiago, Carmelitas e Terras de Sicó.

“Os passadiços são uma feliz iniciativa da autarquia e uma excelente oportunidade para potenciar esta dimensão paisagística e ambiental que Conímbriga e Condeixa têm”, enalteceu Vítor Dias.

A promoção das “diferentes potencialidades que o sítio encerra” exige um “planeamento com todas as entidades” que intervêm na zona.

“É necessário um planeamento conjunto, a longo prazo, que seja capaz de perspetivar as potencialidades de todo este imenso território”, preconizou o arqueólogo.

A mata não está classificada. Porém, como em parte “está dentro da zona de proteção de Conímbriga”, acaba por “ter alguma proteção”, referiu Nuno Moita.

Ressalvando que são muitos os proprietários, o autarca apelou à criação de mecanismos para preservar e tornar mais acessível este património natural em redor de Conímbriga.

“Muito diminuída e adulterada em relação à floresta original”, a Mata da Bufarda “constitui ainda um coberto vegetal de grande importância para o estudo da flora mediterrânica”, consideram Adília Alarcão, antiga diretora do museu, e o seu colega Virgílio Correia.

Num trabalho conjunto sobre Conímbriga, publicado em 2004, os dois arqueólogos abordam “a urgência da classificação desta mata”, assim defendida por historiadores, botânicos e outros investigadores.

terça-feira, 8 de agosto de 2023

Poema: The uninhabited light


I have arrived late
to the end of the promise
that I made myself
long, long ago,
when chance was violating
the principle that separates
our fingertips
in an apsidal lemniscate
and solitude was a prime number,
odd,
unstoppable odd and solitary loneliness,
more solitary, perhaps, than that flower
which veiled the unburied corpse of Robert Walser
in the snows of Herisau, and fate
awaited, cold and impatient
in my hallway,
mouldy with the rain
of a thousand nights without their moons.

And I
who loved you the best way
without thinking it better, how will I do
to resurrect the unpronounceable red of your lips
wounded by so many words
that were never said
or heard?

This is how I now contemplate
the uninhabited light
of those eyes of yours
without eaves or frost or winter ermine,
of those eyes that lost
the thirst of their forest
to become cruel basalt.

Tell me,
why do you insist
to dwell on my silent eyelids
with kindly stars and goldfinches,
if I, in your name, tear and fold
the leaves to the wind opening, on the bias,
the immediate chapter of the voice
in banks of futile birds?

Tell me,
what never happened, will it happen?

Let's play dead
now that no one can see us, that the night is still premature
and sleep is light
and the dead don't know they are dead.