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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Dia Mundial da Fotografia - o poder de uma imagem para proteger o planeta

A fotografia de conservação serve como a ponte visual essencial entre a ciência e a empatia pública, transformando dados ecológicos abstratos em narrativas capazes de mobilizar populações e influenciar decisões políticas. Ao documentar o estado dos ecossistemas, esta disciplina cumpre papéis fundamentais: fornece provas visuais indispensáveis para a investigação científica, como a monitorização de populações e da perda de habitat, aproxima realidades ambientais distantes do quotidiano das pessoas e atua como um catalisador direto para a criação de áreas protegidas e alteração de legislação ambiental.

Muitos dizem que uma imagem vale mais que mil palavras, mas na conservação da natureza, uma fotografia pode significar a sobrevivência de uma espécie. Neste Dia Mundial da Fotografia, celebramos mais do que a técnica e a estética - celebramos a lente como uma ferramenta crucial de preservação ambiental. É através do olhar atento e paciente de fotógrafos de natureza que conseguimos testemunhar a beleza frágil de ecossistemas ameaçados, apoiar biólogos no mapeamento da fauna e da flora, e dar voz a causas que exigem a nossa atenção urgente. A fotografia de natureza não existe apenas para registar o mundo, mas sim para nos lembrar do nosso dever de o proteger, pois é impossível cuidar daquilo que não conhecemos


Embora a tecnologia tenha evoluído drasticamente, a fotografia digital luta hoje para manter a sua essência de registo real face à ascensão das imagens geradas por Inteligência Artificial.

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quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Dia Mundial do Elefante 20026


Introdução e Contexto Histórico

Celebrado anualmente a 12 de agosto, o Dia Mundial do Elefante - instituído em 2012 por iniciativa da realizadora canadiana Patricia Sims e da Elephant Reintroduction Foundation da Tailândia - constitui um marco global para a consciencialização sobre a preservação e gestão sustentável da família Elephantidae. Em 2026, a efeméride assume um caráter de acrescida urgência analítica: o declínio demográfico persistente em África e na Ásia impõe a revisão contínua das estratégias de gestão de ecossistemas, o combate ao comércio ilícito de marfim e a reavaliação ética dos modelos do ecoturismo e dos safaris.

1. Divergência taxonómica: as três espécies reconhecidas
A biogeografia contemporânea e a genómica populacional reconhecem atualmente três espécies distintas de elefantes:
  1. Elefante-de-savana-africano (Loxodonta africana): é o maior mamífero terrestre do planeta. Distribui-se maioritariamente pelas savanas e habitats abertos da África Subsaariana. Encontra-se classificado como Em Perigo (EN) pela Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN.
  2. Elefante-da-floresta-africano (Loxodonta cyclotis): distinguido formalmente do L. africana devido a evidências genéticas inequívocas, habita as florestas tropicais densas da África Central e Ocidental. De menor porte e com presas mais retas, está classificado como Em Perigo Crítico (CR) pela IUCN, tendo sofrido perdas drásticas devido à caça furtiva.
  3. Elefante-asiático (Elephas maximus): presente de forma fragmentada em 13 países do Sul e Sudeste Asiático. Morfologicamente caraterizado por orelhas menores e por uma única projeção digital na tromba, encontra-se igualmente classificado como Em Perigo (EN) na IUCN Red List.
2. Ponto de Situação Populacional e Ameaças
De acordo com os dados compilados no African Elephant Database mantido pela IUCN, estima-se que restem cerca de 400.000 a 415.000 elefantes africanos na natureza. Relatórios da World Wildlife Fund (WWF) e do programa CITES MIKE (Monitoring the Illegal Killing of Elephants) indicam que a população do elefante-da-floresta declinou mais de 86% em três décadas. A população selvagem de elefantes asiáticos é estimada em apenas 40.000 a 50.000 indivíduos.

As pressões antrópicas organizam-se em três eixos centrais:
  1. Caça furtiva e tráfico: a procura ilegal de marfim continua a perturbar as demografias locais.
  2. Fragmentação de habitat: a conversão agrícola e a urbanização destroem cenários de dispersão.
  3. Conflito Humano-Fauna (CHF): o aumento das sobreposições territoriais gera episódios letais de retaliação motivados pela destruição de culturas agrícolas.
3. Estratégias de Preservação e Conservação
As respostas institucionais assentam na transição para abordagens integradas de paisagem e tecnologia:
  1. Corredores ecológicos Transfronteiriços: iniciativas de grande escala, como a KAZA TFCA (Kavango-Zambezi Transfrontier Conservation Area), conectam parques nacionais em cinco países da África Austral, garantindo rotas de migração seguras.
  2. Tecnologia de rastreio e monitorização: implementação de coleiras com GPS via satélite geridas por organizações como a Save the Elephants e aplicação da plataforma de dados SMART (Spatial Monitoring and Reporting Tool) pelas brigadas de fiscalização.
  3. Mitigação biológica do CHF: desenvolvimento de cercas de colmeias (beehive fences) promovidas por projetos científicos como o Elephants and Bees, que aproveitam o repúdio natural dos elefantes relativamente às abelhas para afastar os animais de áreas agrícolas.
4. Restrições no turismo de safari e atividades recreativas
A indústria do ecoturismo atravessa uma reestruturação normativa impulsionada pelo bem-estar animal e por relatórios globais de entidades como a World Animal Protection.

Proibição de Safaris de Montaria (Elephant Rides)
A exploração turística assente na montaria e contacto direto tem sido desmantelada progressivamente:
Na África Austral (em particular no Botsuana), as diretivas da indústria de safari e das autoridades de conservação baniram as práticas comerciais de passeios a dorso de elefante.

No Sudeste Asiático (Tailândia), estudos de monitorização continuada promovidos pela World Animal Protection registam uma queda consistente na oferta de viagens a monte e a transição gradual para o modelo de "apenas observação" (observation-only sanctuaries).

Restrições de Capacidade e Impacto Ambiental em Safaris
Nos ecossistemas de safari em parque aberto (como no Parque Nacional do Chobe ou na Reserva do Masai Mara), os organismos governamentais aplicam diretrizes rigorosas:
  1. Lotação por avistamento: proibição de aglomeração de mais de 2 a 3 veículos em simultâneo junto a manadas.
  2. Manutenção de distâncias mínimas: para evitar stresse comportamental nas matriarcas e crias.
  3. Proibição do Off-Roading: Confinamento estrito aos trilhos oficiais para evitar a degradação da flora nativa.
Considerações Finais
A análise do estado de conservação dos elefantes em 2026 demonstra que a viabilidade a longo prazo da família Elephantidae depende da consolidação de corredores ecológicos contínuos, do combate intransigente ao crime ambiental e da transição definitiva do turismo recreativo para um modelo ético, sustentável e baseado exclusivamente na observação à distância.

domingo, 2 de agosto de 2026

Estarão os milhões de espécies de insetos não descritos sujeitos à extinção?


Numa investigação, ecologistas sublinharam que os milhões de insetos que permanecem por descobrir e sem nome por parte dos investigadores são provavelmente mais vulneráveis à extinção do que as espécies designadas.

Numa investigação, ecologistas sublinharam que os milhões de insetos que permanecem por descobrir e sem nome por parte dos investigadores são provavelmente mais vulneráveis à extinção do que as espécies designadas.

Em Insect Conservation and Diversity, os Professores Eméritos Nigel Stork e Roger Kitching do Centro de Saúde Planetária e Segurança Alimentar de Griffith trabalharam com investigadores internacionais num estudo que analisou as espécies de insetos e a sua prevalência nos trópicos húmidos da Austrália.

Nos trópicos húmidos da Austrália, o Professor Stork e os coautores descobriram que, entre as 107 espécies de escaravelhos identificadas, 58 não estavam descritas pela ciência.

Tal como se previa, as espécies não descritas eram significativamente mais pequenas, menos abundantes e menos disseminadas do que as espécies descritas, o que as tornava mais difíceis de encontrar e mais propensas à extinção do que as espécies designadas.

“Nos últimos anos, as estimativas do número de espécies de insetos que podem existir na Terra têm variado entre 100 milhões ou mais e apenas 2 milhões”, afirma o Professor Stork.

“Um número consensual de 5 milhões de espécies publicado por mim é agora frequentemente utilizado, apoiado por quatro métodos diferentes de cálculo da riqueza global de espécies”, adianta.

“Uma vez que apenas 1 milhão destas espécies foram nomeadas e descritas até agora nos últimos 240 anos de taxonomia Linnaean, a questão intrigante é: onde estão os outros 4 milhões de espécies que ainda não foram encontradas e nomeadas?”, questiona.

“Como são, qual a probabilidade de serem descobertos e descritos e se são mais vulneráveis à extinção? Os nossos estudos revelam que são mais pequenos, mais raros e mais difíceis de encontrar, para além de serem mais propensos à extinção”, explica.

Apenas 20% das cerca de 5 milhões de espécies de insetos existentes na Terra são descritas e, no entanto, os insetos estão pouco representados nas avaliações das áreas protegidas e o seu declínio é preocupante a nível mundial.

Para aumentar as taxas de descrição das espécies e evitar que a maioria das espécies se extinga antes de ser nomeada, os Professores Stork e Kitching apelam aos taxonomistas para que utilizem novos sistemas de caracteres fornecidos pelos métodos de ADN e pelos avanços no domínio da inteligência artificial em rápido desenvolvimento.

“Os componentes desconhecidos da biodiversidade dos insetos tropicais são provavelmente mais afetados pelas alterações ambientais induzidas pelo homem”, afirma o Professor Kitching.

“Se estes padrões se generalizarem, qual será a precisão das avaliações do declínio dos insetos nos trópicos?”, questiona.

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terça-feira, 14 de julho de 2026

Volta a Portugal quer entrar no coração do Gerês, mas ICNF ainda não aprovou a etapa


A 87ª Volta a Portugal em Bicicleta prepara-se para entrar, pela primeira vez em quase um século de história, no coração do Parque Nacional da Peneda-Gerês. O percurso anunciado para a sétima etapa da edição de 2026 atravessa a Mata de Albergaria e a Portela do Homem, uma das zonas de maior sensibilidade ecológica do país, tendo já desencadeado críticas de ambientalistas e especialistas ligados ao parque. O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), porém, ainda não deu luz verde.

A etapa, marcada para 13 de Agosto, liga Vieira do Minho às Termas do Gerês e assume um carácter inédito. Não há registos recentes de a Volta a Portugal ter atravessado a Mata de Albergaria, tendo esta incursão sido apresentada pela organização como uma estreia.

Contactado pelo PÚBLICO, o ICNF limita-se a afirmar que “recebeu um pedido de parecer sobre o percurso da Volta a Portugal em Bicicleta, que se encontra em análise”, o que significa que não existe, para já, qualquer decisão sobre a passagem pela área protegida.

Processo depende de autorizações
A Federação Portuguesa de Ciclismo sublinha que o processo segue os trâmites habituais de licenciamento e que a realização da etapa dependerá sempre das autorizações das entidades competentes.
“Como acontece com todas as provas do calendário nacional e internacional, os percursos são propostos pela organização e os respectivos processos de licenciamento encontram-se em tramitação junto das entidades competentes, às quais cabe emitir os pareceres e autorizações legalmente exigidos”, afirma Jorge Rodrigues, assessor da direcção, ao PÚBLICO.

Área de sensibilidade elevada
A Mata de Albergaria é uma zona especial do parque. Trata-se de uma Reserva Biogenética reconhecida pelo Conselho da Europa, integrada no Parque Nacional da Peneda-Gerês e na Zona Especial de Conservação.
Para Miguel Dantas da Gama, membro do Conselho Estratégico do parque, a proposta é inaceitável. “Entram no Parque pela Caniçada, sobem às Termas, Albergaria, Portela do Homem, saem para Espanha, descem a Lobios, entram no Lindoso, Britelo, sobem de novo para Brufe, barragem de Vilarinho da Furna, Covide, S. Bento da Porta Aberta, Caniçada. Inacreditável”, critica.

“Não é aceitável que, em 2026, ainda haja quem se atreva a propor este tipo de atentados contra o único parque nacional português”, acrescenta.

O especialista lembra que a estrada Mata de Albergaria–Portela do Homem atravessa precisamente a zona mais sensível do Parque Nacional Peneda-Gerês e está sujeita a regras específicas de circulação [nota embaixo]

Mais do que discutir a legalidade de eventos desportivos em áreas protegidas - admitida pela legislação desde que existam pareceres e autorizações -, o debate centra-se na oportunidade de permitir a entrada de uma das maiores operações logísticas do desporto português numa zona de elevado valor ecológico e que em 2016 sofreu um grande incêndio.

Legislação
Esta área protegida rege-se pelo Plano de Ordenamento do Parque Nacional da Peneda-Gerês (POPNPG) aprovado pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 11-A/2011 de 4 de fevereiro.

Ora esse Plano determina, no seu Artigo 8.º (Actos e actividades condicionados) que "[...] na área de intervenção do POPNPG ficam sujeitos a parecer do ICNB, I. P., os seguintes actos e actividades, quando realizados em áreas sujeitas a regimes de protecção [como é o caso da Mata de Albergaria]: "e) A prática de actividades desportivas e recreativas não motorizadas [...] bem como a realização de eventos desportivos ou recreativos, [...] excepto se previstas na Carta de Desporto de Natureza;", o que não acontece.

Não faltam locais montanhosos em Portugal onde esta competição se poderia realizar, mas acertaram logo numa área protegida, o que mostra, por um lado, a profunda iliteracia ambiental e, por outro, o enorme recuo das medidas e ações de conservação da natureza.

Fonte

Relacionado:
Colocam enormes limitações (e bem) de visita à Mata de Albergaria

quinta-feira, 9 de julho de 2026

O Imperativo Biológico: Ecologia Pura e sobrevivência na Era da Simulação


No fecho desta década de 2020, a humanidade encontra-se numa encruzilhada moldada por uma profunda contradição. Por um lado, enfrentamos o esgotamento dos sistemas biofísicos da Terra; por outro, assistimos à ascensão meteórica da Inteligência Artificial (IA), uma infraestrutura tecnológica abstrata que consome recursos tangíveis a um ritmo sem precedentes. Tentamos curar uma ausência profunda de contacto com o mundo natural através de ecrãs brilhantes, mas a verdade subjacente permanece inalterável: a IA nunca saciará a nossa fome biológica pelo toque da terra, pelo voo de uma borboleta ou pelo aroma da floresta.

Quando escolhemos pausar, observar e registar um ser vivo real, estamos a exercer um ato de resistência cultural. A inteligência artificial é apenas uma ferramenta; ela não pode substituir o dever sagrado da preservação da natureza. A verdadeira conservação significa muito mais do que qualquer tecnologia simulada alguma vez poderá oferecer. Precisamos, urgentemente, de regressar à Ecologia Pura - o estudo científico das interações que determinam a distribuição e abundância dos organismos vivos na sua essência não domesticada - e de regular a tecnologia para salvaguardar a nossa própria sobrevivência.

A Década do rebound e a ilusão da desmaterialização
Ao olharmos para os desafios desta década que agora chega ao fim, o maior deles foi a ilusão de que o mundo digital era etéreo. A expansão dos modelos de linguagem e da computação generativa transformou os bits em fardos ecológicos massivos. Estudos recentes sobre a pegada carbónica e hídrica da IA indicam que o consumo elétrico dos centros de dados duplicou substancialmente nos últimos anos (Wheeler, 2026).

O impacto ambiental da IA segue uma dinâmica conhecida como o Paradoxo de Jevons: à medida que a tecnologia se torna mais eficiente, o seu custo diminui, o que gera um aumento explosivo na procura que anula os ganhos ecológicos iniciais. O treino e a inferência contínua de grandes modelos exigem volumes críticos de dissipação de calor, gerando uma pegada hídrica local severa em regiões que já sofrem de stress hídrico (Pinheiro Privette, 2026). Proteger a nossa sobrevivência exige reconhecer que a computação não flutua numa nuvem; está, sim, ancorada na biosfera.

A Filosofia da teia viva: Capra, Abram e a Matriz Biológica
Para compreender a urgência da regulação da IA, é crucial resgatar o pensamento sistémico de Fritjof Capra e a ecologia fenomenológica de David Abram. Capra demonstrou que a vida é uma rede de padrões interdependentes, onde nenhum elemento subsiste isoladamente. A mentalidade mecanicista que vê a IA como o apogeu da evolução humana comete o erro elementar de isolar a mente do corpo e o organismo do seu habitat.

David Abram, em The Spell of the Sensuous, lembra-nos de que a nossa própria perceção e linguagem nasceram do diálogo com um ecossistema animado. O vento, o sol e a terra não são estímulos secundários; são os coautores da consciência humana. A IA carece desta reciprocidade sensorial. Ela processa sintaxe, mas não experiencia o significado. Substituir a nossa orientação na Terra por arquiteturas algorítmicas cria uma forma profunda de solipsismo tecnológico, uma cegueira ecológica que nos permite destruir os suportes da vida planetária enquanto otimizamos métricas digitais virtuais.

O Princípio de "Metade da Terra" como meta de sobrevivência
A Ecologia Pura lembra-nos de que a natureza tem limites invioláveis de resiliência. O ecologista Edward O. Wilson, um dos maiores defensores da biodiversidade, formalizou a teoria da biogeografia de ilhas (Handel, 2022), demonstrando como a fragmentação dos habitats acelera a extinção de espécies. Diante disso, Wilson e a nova geração de cientistas que lhe seguiu as pisadas consolidaram o princípio do "Half-Earth" (Metade da Terra): a necessidade imperativa de destinar cerca de metade da superfície terrestre e marítima do planeta à conservação estrita, livre da intervenção industrial humana 

A premissa científica é exata e matemática:

Espécies PreservadasÁrea Conservadaz

De acordo com este modelo de área-espécies, se protegermos 50% dos habitats globais de forma estrategicamente otimizada, garantiremos a sobrevivência de aproximadamente 85% a 90% da biodiversidade planetária (Pimm et al., 2018). Sem esta meta, os ecossistemas colapsarão num efeito dominó, comprometendo os ciclos de carbono, azoto e oxigénio de que dependemos. A inteligência artificial pode mapear estes dados, mas apenas a governação humana e a contenção económica podem implementar esta reserva de vida (Ellis & Mehrabi, 2019).

Conclusão: a urgência da regulação e o regresso à Terra
Regular a IA nesta viragem de década não é apenas uma questão de mitigar a desinformação, salvaguardar a propriedade intelectual ou proteger postos de trabalho; é um imperativo de segurança ecológica. A regulamentação deve impor limites estritos ao consumo energético e hídrico das infraestruturas digitais (Vandenbergh, 2026), obrigando as corporações tecnológicas a subordinarem-se aos limites biofísicos da Terra.

A biosfera é a única tecnologia verdadeiramente insubstituível. Ela carrega ADN, luta pela sobrevivência e reage de forma dinâmica ao vento e ao sol. Salvaguardar a nossa própria existência exige que libertemos o olhar dos ecrãs e olhemos para o solo que pisamos. O futuro não pertence às máquinas que simulam o pensamento, mas às comunidades vivas que protegem a integridade do planeta que respira.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Zonas protegidas ardem duas vezes menos, indica análise da WWF

As Zonas Especiais de Conservação (ZEC) da Rede Natura 2000 arderam duas vezes menos entre 2021 e 2025 do que o restante território, segundo uma análise da WWF Portugal, sugerindo uma abordagem integrada de prevenção e conservação da natureza.

“Os resultados desta análise sugerem a necessidade de uma abordagem integrada de políticas públicas que articule prevenção de incêndios, conservação da natureza e gestão ativa do território”, defendeu a associação ambientalista num comunicado hoje divulgado.

A análise da WWF Portugal, ao indicar que nas ZEC há menor proporção de área ardida, contraria estudos que indicam que estas áreas ardem mais. A organização cruzou dados de incêndios com informação sobre o uso do solo e habitats naturais em Portugal continental.

A diretora de Conservação e Políticas da WWF Portugal, Catarina Grilo, disse, citada no comunicado, que os resultados da análise mostram que a conservação da natureza “não é incompatível” com a prevenção de incêndios.

“Pelo contrário, as áreas classificadas analisadas registaram uma incidência proporcionalmente menor de área ardida do que o restante território, o que demonstra a importância de olhar para os incêndios de forma holística e integrando perceções não só dos setores florestal e da proteção civil, mas também da conservação da natureza”, sublinhou.

Por isso, concluiu, integrar prevenção de incêndios e conservação da natureza “não é apenas possível, é indispensável”.

De acordo com os dados divulgados no trabalho, com o título “Natureza e Incêndios: áreas e habitats mais afetados em Portugal”, entre 2021 e 2025 ardeu cerca de 6,1% da área fora das ZEC, face a 2,9 dentro dessas áreas.

A associação notou que cerca de um quarto da área ardida no período em causa ocorreu no interior das zonas protegidas e os incêndios afetam sobretudo matos e formações arbustivas, um tipo de vegetação que desempenha um “papel ecológico relevante”, mas que “continua a não ser tido em conta na gestão do território”.

A WWF Portugal salientou também que alguns habitats classificados exigem atenção redobrada, como charnecas, zonas rochosas e determinadas formações florestais, que apresentam “níveis relevantes de afetação pelo fogo”, e que por isso precisam de medidas de gestão e conservação específicas.

O estudo apontou para a importância não só de gerir de forma estratégica áreas de matos e mosaicos agroflorestais, como também considerar a distribuição de habitats na definição de medidas de prevenção, e integrar melhor o conhecimento científico nas políticas públicas.

Indicou ainda que as causas intencionais de incêndio têm maior expressão nas ZEC do que fora delas, algo que “merece aprofundamento”, inclusive “procurando explorar fatores de ordem social”.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Portugal deve liderar a proteção do Mar dos Sargaços




Uma “floresta tropical flutuante dourada” precisa urgentemente de proteção. Perto dos Açores, uma extensão de oceano aberto em águas internacionais abriga verdadeiros tesouros da Natureza. Tapetes de algas douradas, chamadas Sargassum, fervilham de vida: são refúgio para espécies ameaçadas, berçário para tartarugas-bebé e uma paragem na rota migratória das majestosas baleias jubarte.

Longe dos olhares do mundo, esta região de águas cheias de vida e de tapetes de algas absorve carbono em quantidades sete vezes superiores às de outras regiões semelhantes. Um trabalho absolutamente fundamental para a equilibrar o clima.

Apesar de todos estes benefícios para os seres humanos e para o planeta, o Mar de Sargaços está em grave risco. Sem proteção, encontra-se vulnerável a interesses de governos e empresas. Contudo, recordamos que Portugal comprometeu-se a proteger 30% dos Oceanos. É urgente começar pelo Mar de Sargaços!

O Mar de Sargaços está em risco…
Os Oceanos são verdadeiros tesouros e, entre governos e empresas, não falta quem os queira explorar, longe dos olhares do mundo.

O que está em risco no Mar de Sargaços:
  1. Poluição: o mesmo sistema de correntes que mantém o Sargaço nesta região, aprisiona plásticos e outro tipo de poluição, que ameaçam asfixiar as tartarugas e restantes espécies marinhas.
  2. Mineração em mar profundo: empresas e líderes mundiais já começaram os primeiros testes para conseguirem rasgar o fundo do oceano e extrair minerais. Para alimentar interesses financeiros, querem colocar em risco ecossistemas essenciais à vida no planeta.
  3. Exploração: a pesca industrial excessiva está a dizimar as populações de peixes e a destruir habitats marinhos.
  4. Dados científicos recolhidos ao longo de 40 anos revelam uma aceleração acentuada nas alterações da temperatura, salinidade, níveis de oxigénio e acidez da água.
Cada momento de atraso na criação de um santuário totalmente protegido significa que podemos perder para sempre a vida marinha e um ecossistema insubstituível.

O que podemos fazer?
A recente entrada em vigor do Tratado Global dos Oceanos é uma prova inequívoca de que os governos conseguem unir-se para proteger o nosso futuro comum. Após vários anos de campanha da Greenpeace e de outras organizações da sociedade civil, esta vitória histórica para os oceanos é apenas o início de um novo capítulo na defesa do mar. Falta agora tornar a sua promessa em realidade: proteger 30% dos oceanos até 2030.

Através desse Tratado, o Governo português tem agora a oportunidade e o dever de assumir um papel de liderança internacional, apoiando a criação de um santuário marinho protegido no Mar dos Sargaços.

Esta seria uma ação fundamental que ajudaria a estabilizar o clima, proteger os meios de subsistência de milhões de pessoas e garantir um oceano saudável para as próximas gerações!

Exige que o Governo português atue já, liderando a criação de um santuário marinho no Mar dos Sargaços e protegendo tartarugas, baleias, tubarões e tantas outras espécies. Os oceanos não podem esperar!

Saber mais
1.Tratado do Alto-Mar entra em vigor e Portugal é desafiado a proteger Mar de Sargaços
2.Assinar e divulgar a petição da Greenpeace

terça-feira, 9 de junho de 2026

Serra da Estrela ganha novo selo da UNESCO e passa a ter dupla proteção internacional


A Serra da Estrela foi integrada esta sexta-feira, dia 3 de junho, na Rede Mundial de Reservas da Biosfera da UNESCO, uma distinção internacional que premeia territórios que conciliam a conservação da natureza com o desenvolvimento sustentável

A Serra da Estrela passa a integrar a Rede Mundial de Reservas da Biosfera, distinção atribuída pela UNESCO a territórios que conciliam "a conservação da natureza com o desenvolvimento humano sustentável", foi divulgado esta sexta-feira.

O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) adiantou, em comunicado, que a aprovação da candidatura foi anunciada hoje na 38.ª sessão do Conselho Internacional de Coordenação do Programa Homem e Biosfera (MAB), que decorre no Centro de Convenções Itaipu Roga, em Hernandarias, Paraguai, desde 3 de junho.

Com esta aprovação, Portugal passa a contar com 14 Reservas da Biosfera da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), lembrou o ICNF.

Já a Serra da Estrela passa a deter duas designações UNESCO para o mesmo território: o Geopark Global UNESCO, reconhecido em julho de 2020, e agora a Reserva da Biosfera.

"Os dois estatutos serão geridos de forma integrada, numa lógica de governança conjunta que permitirá otimizar recursos humanos, financeiros e materiais", referiu o ICNF.

De acordo com o instituto, a nova Reserva da Biosfera da Estrela abrange uma área total de 2.372,99 quilómetros quadrados (km²), distribuída pelos seis municípios do Parque Natural da Serra da Estrela, Seia, Gouveia, Celorico da Beira, Guarda, Manteigas e Covilhã.

A Reserva da Biosfera da Estrela está estruturada em três zonas complementares: uma Zona Núcleo onde se concentram os valores naturais mais relevantes (212,55 km²), uma Zona Tampão de mediação ecológica (679,65 km²) e uma Zona de Transição dedicada às atividades humanas sustentáveis (1.480,80 km², correspondendo a 62% da reserva).

A candidatura foi promovida pela AGE - Associação Geopark Estrela, com coordenação científica de Helena Freitas, do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra.

O ICNF realçou que a iniciativa resultou "de um amplo processo participativo que envolveu autarquias, sociedade civil, comunidade educativa e organizações ambientais, tendo como base o Plano de Cogestão do Parque Natural, aprovado em novembro de 2024".

"Esta designação não é apenas um reconhecimento internacional, é um compromisso ativo com os objetivos globais de conservação da biodiversidade inscritos no Quadro Global de Biodiversidade Kunming-Montreal, e uma oportunidade para afirmar a Serra da Estrela como referência nacional e internacional em práticas inovadoras de sustentabilidade e educação ambiental", salientou ainda o ICNF.

Já a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, realçou que o reconhecimento é "uma oportunidade para reforçar a sustentabilidade da Serra da Estrela, colocando a inovação e a educação ambiental ao serviço das comunidades e das gerações futuras".

Numa nota divulgada pelo ministério, Maria da Graça Carvalho destacou "o forte envolvimento dos autarcas e da sociedade civil, que tanto contribuíram para o sucesso do projeto, o papel da Associação Geopark Estrela, que promoveu a candidatura, e da professora Helena Freitas, que assegurou a sua coordenação científica".

Ler mais:
Serra da Estrela: Quo vadis biodiversidade?

sábado, 6 de junho de 2026

Pandora


Pandora

Oculta sob a asa inferior verde-musgo de bosques antigos,
Filha do romper da alva e do cardo aquecido pelo sol,
Que ama o primeiro calor do sol matinal, o néctar doce das flores roxas e a quietude silenciosa antes do voo,
Que suporta o frio diário da sombra matinal, esperando que a luz lhe desperte as asas,
Que deu ao mundo um contraste impressionante de brilhantismo oculto, provando que um exterior modesto pode guardar uma maravilha deslumbrante,
Que anseia manter os seus segredos guardados sob as asas dobradas, mas que inevitavelmente liberta o seu espírito vibrante no ar,
Que traz uma tempestade mítica da história a um campo simples, unindo o abismo entre os contos antigos e a natureza viva,
Residente dos vales banhados pelo sol, para sempre ancorada por um frágil fio de Esperança.

Saber mais sobre Pandora - Mitologia Grega:

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Olhar nos olhos de uma ave

Papa-amoras-comum (Curruca communis)

"Olhar nos olhos de uma ave não é encarar um reflexo primitivo do passado, mas sim vislumbrar uma forma alternativa de inteligência. Sob o crânio minúsculo de um pássaro esconde-se um novelo de engenho: uma mente que mapeia continentes sem bússola, que cria ferramentas com a astúcia de um artesão e que reinventa a música todas as manhãs. A verdadeira genialidade das aves não está na capacidade de voar, mas na audácia de compreender o mundo com um cérebro do tamanho de uma noz."-Jennifer Ackerman

quarta-feira, 27 de maio de 2026

ONGA acusam Governo de se preparar para enfraquecer proteção do lobo-ibérico

Vinte e uma organizações não-governamentais de ambiente criticaram nesta terça-feira propostas de alteração ao Plano Estratégico da Política Agrícola Comum (PEPAC), considerando que as mudanças põem em causa a proteção do lobo-ibérico em Portugal e contradizem compromissos anteriormente assumidos pelo Governo.

Num comunicado conjunto, entidades como a Liga para a Proteção da Natureza (LPN), Quercus, a Rewilding Portugal, a Palombar, a WWF Portugal e a Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável apelam à ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, para que trave as alterações propostas pelo Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral (GPP) do Ministério da Agricultura e Mar.

Segundo as ONGA, as alterações previstas permitiriam que beneficiários de apoios do PEPAC — nomeadamente agricultores e produtores pecuários — continuassem a receber financiamento destinado à manutenção de cães de proteção de gado, mesmo depois de condenações por crimes ambientais relacionados com o abate de lobos.

As organizações consideram que esta possibilidade cria uma contradição nas políticas públicas de conservação da natureza. “Se legalmente se penaliza, e bem, quem abate esta espécie protegida, não se pode manter apoios para proteção da espécie aos mesmos que as abatem”, defendem no comunicado.

As associações sustentam ainda que as alterações representam um sinal “profundamente negativo” para a sociedade e para o setor agropecuário, ao enfraquecerem a coerência entre os apoios públicos e os objetivos de conservação do lobo-ibérico.

O comunicado recorda declarações feitas por Maria da Graça Carvalho em setembro de 2024, após Portugal ter votado favoravelmente a proposta da Comissão Europeia para reduzir o estatuto de proteção do lobo na Europa. Na altura, a ministra garantiu que não haveria alterações na política nacional de proteção da espécie.

“As alterações agora propostas contrariam diretamente essa promessa”, salientam as ONGA.

As organizações alertam também para a necessidade de reforçar o combate ao crime ambiental, lembrando que o abate ilegal continua a ser uma das principais ameaças ao lobo-ibérico em Portugal. Nesse sentido, defendem que os instrumentos de apoio público devem promover comportamentos compatíveis com os objetivos de conservação e não beneficiar, “na prática”, infratores condenados por crimes ambientais.

As associações subscritoras sublinham que acreditam na compatibilização entre atividade agropecuária e conservação da natureza, desde que existam políticas públicas coerentes e práticas de gestão sustentáveis.

O PEPAC é o instrumento que enquadra a aplicação dos fundos europeus da Política Agrícola Comum em Portugal, financiando medidas ligadas à agricultura, floresta e pecuária, incluindo ações de conservação da biodiversidade e proteção de espécies ameaçadas.

Entre as 21 entidades que assinam o comunicado estão também a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), o Grupo Lobo – Associação para a Conservação do Lobo e do seu Ecossistema, o GEOTA (Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente) e a Confederação Portuguesa das Associações de Defesa do Ambiente (CPADA).

Recuperação do lobo em Portugal
A 5 de dezembro de 2025, o Governo aprovou o Programa Alcateia 2025-2035, documento através do qual o país quer conseguir um estado de conservação favorável do lobo-ibérico.

Até 2035, o Programa Alcateia quer reverter a diminuição do número de lobos-ibéricos em Portugal, assegurando que esta espécie Em Perigo de extinção passa a estar em situação de conservação favorável. 

Em Portugal, o lobo esteve presente em todo o território continental até ao início do século xx. Desde então, e à semelhança do registado no resto da Europa, verificou-se uma drástica redução da sua área de distribuição e do respetivo efetivo populacional. 

Com o desaparecimento progressivo do lobo, de sul para norte e do litoral para o interior, a área de presença ficou circunscrita a áreas do Norte e Centro do País correspondendo atualmente a cerca de 20 % da distribuição original.

Hoje existem quatro núcleos populacionais: Peneda/Gerês, Alvão/Padrela, Bragança e Sul do Douro, segundo o Censo do Lobo-Ibérico 2019/2021. Foram detetadas 58 alcateias (56 confirmadas, 2 prováveis). Estima-se que a população ronde os 300 animais, o que corresponde ao valor médio da estimativa de 190 a 390 lobos. A população portuguesa representa cerca de 15 % da população ibérica de lobo.

terça-feira, 12 de maio de 2026

O Adeus à Árvore da Vida: Ciência revela perda de 300 mil milhões de anos de história botânica


As plantas são a base da maior parte da vida na Terra, mas as Alterações Climáticas e a Crise Ecológica estão a remodelar rapidamente os seus habitats e a aumentar o risco de extinção de formas inesperadas.

Dois estudos recentes, publicados na revista Science no dia 7 de maio de 2026, utilizam modelação evolutiva de larga escala e projeções climáticas de alta resolução para preencher lacunas críticas no nosso conhecimento sobre como a flora global reagirá ao aquecimento do planeta.

O primeiro estudo, de Wang et al., revela um paradoxo preocupante: embora as migrações induzidas pelo clima possam aumentar a riqueza de espécies a nível local (em cerca de 28% da superfície terrestre), este "baralhamento" geográfico não reduz o risco global de extinção. A investigação estima que entre 7% e 16% das mais de 67 mil espécies analisadas correm alto risco até 2100. O dado mais alarmante é que cerca de 80% destas extinções serão causadas pelo desaparecimento absoluto de habitats adequados, e não apenas pela incapacidade das plantas em migrarem. Ou seja, mesmo que as espécies consigam acompanhar a velocidade das alterações climáticas, muitas deixarão de ter um local viável para viver.

Complementando esta visão, o estudo de Forest et al. foca-se na integridade evolutiva, analisando a "árvore da vida" de mais de 335 mil espécies de plantas com flor. Os investigadores concluíram que aproximadamente 21,2% da história evolutiva destas plantas está ameaçada — o que equivale à perda potencial de 307 mil milhões de anos de progressos biológicos únicos. O estudo identifica quase 10 mil espécies prioritárias (conhecidas como espécies EDGE), que são evolutivamente distintas e estão globalmente em perigo. A perda destas linhagens seria catastrófica, pois representam "ramos" únicos da árvore genética que não têm parentes próximos, eliminando potenciais recursos medicinais e características de resiliência que levaram milhões de anos a desenvolver.

Em conjunto, estas investigações demonstram que as estratégias de conservação atuais são insuficientes. Os autores defendem uma mudança de paradigma: não basta proteger áreas aleatórias; é urgente focar os esforços na identificação de refúgios climáticos estáveis e na preservação de linhagens evolutivas insubstituíveis, recorrendo também à expansão de bancos de sementes e, em certos casos, à migração assistida para evitar uma simplificação irreversível da biodiversidade terrestre.

Já em 2014 foi publicado Natural History is Dying, and We Are All the Losers, na revista Scientific American

domingo, 10 de maio de 2026

ICNF e APA: WWF, Zero, SPEA e Quercus questionam reestruturação anunciada pela ministra do Ambiente



As quatro organizações reagiram esta quinta-feira com preocupação ao anúncio feito pelo gabinete da ministra do Ambiente e Energia. Quercus pede reunião urgente com Maria da Graça Carvalho.

As mudanças planeadas para o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e para a Agência Portuguesa de Ambiente (APA), anunciadas esta semana pela ministra da tutela, Maria da Graça Carvalho, estão a ser vistas com apreensão por várias organizações ligadas à defesa do ambiente, que pedem para ser escutadas neste processo e receiam que a anunciada “simplificação profunda dos processos de licenciamento” enfraqueça ainda mais a conservação do património natural.

A WWF Portugal foi uma das primeiras a reagir, manifestando preocupação com os planos de reestruturação e exigindo que “qualquer processo de reforma reforce a capacidade técnica e operacional da APA e do ICNF, assegure qualidade técnica nas avaliações ambientais, garanta participação pública efectiva e transparente e mantenha elevados padrões de protecção da natureza e ordenamento do território”

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“O comunicado do Governo centra-se exclusivamente na linguagem da desburocratização e da facilitação do investimento, sem uma única menção à missão fundamental destas instituições: proteger o património natural de Portugal”, afirma a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), defendendo que “a eficiência administrativa não pode ser alcançada à custa do enfraquecimento dos mecanismos de proteção ambiental”.

A mesma opinião é partilhada pela ZERO, que aponta o dedo às reformas em cima da mesa, considerando-as “uma clara tentativa de fragilizar ainda mais as instituições que devem defender o bem comum, criando não só uma inaceitável pressão adicional sobre recursos técnicos que já estão há muito no limite das suas capacidades, mas também prejudicando a qualidade e o rigor das avaliações que serão efetuadas, o que poderá levar a decisões tecnicamente pouco ponderadas”.

A ONG questiona também se este processo de “debilitação” poderá ser agravado por “cortes nos orçamentos de funcionamento das instituições, situação que gerará a inoperacionalidade quase total dos serviços públicos”. E alerta para uma possível “tentativa de desestruturação da política pública de ambiente, em benefício de interesses que poderão não ser compatíveis com os instrumentos de gestão territorial ou com a conservação dos valores naturais protegidos”.

Também a Quercus exige cautela neste processo de reestruturação, admitindo que “a modernização, simplificação e automatização de processos é desejável”, mas desde que “não abra caminho ao eventual esvaziamento de competências e de autonomia destes organismos” nem comprometa a sua capacidade operacional e os meios necessários para fiscalizarem no terreno.

Fiscalizar antes ou no final?
Outra das medidas olhadas com preocupação, aliás, é a “simplificação profunda” dos processos de licenciamento, incluindo a passagem de um modelo de controlo prévio para a aposta na fiscalização a posteriori.

A Quercus teme que a simplificação anunciada tenha de facto como objetivo a criação de “um ‘livre-trânsito’ para atropelar os interesses e as regras ambientais”.

“A destruição de um habitat prioritário, a perturbação de espécies em época de nidificação ou a alteração irreversível de uma zona húmida não são danos que possam ser remediados com uma multa ou uma ordem de reposição”, acrescenta por seu lado a SPEA, que afirma que “enfraquecer os mecanismos de avaliação prévia não só agravaria a situação do património natural como exporia Portugal a sanções comunitárias acrescidas”.

“Proteger a natureza é proteger o futuro de Portugal e dos portugueses. As zonas húmidas que filtram a água que bebemos, as paisagens naturais saudáveis que nos protegem dos incêndios, os ecossistemas costeiros que defendem as comunidades piscatórias — tudo isto depende de instituições públicas capazes de fazer o seu trabalho. Quando se enfraquecem a APA e o ICNF, não é só a Natureza que fica desprotegida são só as aves que ficam desprotegidas: são as pessoas”, afirma Pedro Neto, diretor-executivo da SPEA.

Também a ZERO avisa para a necessidade de mais reflexão face a uma nova simplificação dos processos de licenciamento, depois das iniciativas do Governo socialista (Simplex) e do atual Executivo. “Não deixa de ser preocupante que se proponha mais simplificação sem uma efetiva avaliação de quais foram os resultados das medidas tomadas anteriormente. Não seria aconselhável avaliar o que já foi proposto antes de voltar a sugerir mais alterações?”, questionam.

Além do mais, acrescenta a mesma associação, “o discurso político parece querer passar a mensagem que o licenciamento não tem uma função ou dignidade próprias”. “Ele existe para garantir a equidade entre todos (todos devem ter de cumprir as mesmas obrigações) e garantir que o bem comum não seja usurpado ou prejudicado para interesse apenas de alguns. Nem todo o investimento contribui para o desenvolvimento sustentável do país, nem deve ser aprovado”, sustenta.

ONG de Ambiente querem ser ouvidas
A SPEA apela também à tomada de várias medidas da parte do Governo, incluindo que a missão de conservação da natureza seja assumida como “pilar central da reforma” e não como “o obstáculo a remover”, e lembra também a necessidade de reforço dos meios humanos, técnicos e financeiros do ICNF e da APA – “condição indispensável para que qualquer reforma produza resultados reais”.

Tanto a WWF, SPEA como a Quercus e a ZERO exigem que o processo de reestruturação envolva ouvir as organizações de conservação da natureza, mas também outras entidades como a comunidade científica, “garantindo que as decisões são informadas pelo melhor conhecimento disponível”.

A Quercus anunciou também que vai pedir uma reunião “com urgência” à ministra do Ambiente, “a fim de expôr as suas reservas, preocupações e obter todas as informações sobre esta reestruturação”. “Paralelamente, iremos solicitar uma audiência a todos os Grupos Parlamentares sobre este assunto no sentido de exigir a fiscalização necessária para garantir a defesa do Ambiente”, avisa esta ONG.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

David Attenborough faz 100 anos: O maior aliado da Natureza ainda tem fé no Homem


Sir David Attenborough celebra esta sext-feira o 100.º aniversário e dispensa apresentações. A paixão e o entusiasmo com que deu a conhecer, ao longo das últimas sete décadas, o complexo e mágico mundo selvagem educou, entreteve e inspirou milhões de pessoas em todo o Mundo. Antes de alertar para questões ecológicas, ele ensinou-nos a amar cada espécie, mesmo as mais estranhas e perigosas.

David Frederick Attenborough nasceu a 8 de maio de 1926 em Isleworth, Londres, mas passou a infância em Leicester. Fascinado por fósseis, estudou Geologia e Zoologia. Em 1952 tornou-se estagiário na BBC e dois anos depois apresentava ‘Zoo Quest’ - apesar de acharem que os seus dentes eram “demasiado grandes” -, que combinava cenas de estúdio com imagens reais da vida selvagem, algo inédito até então. Imerso nos ambientes que visita, foi pioneiro em técnicas de filmagem e nunca hesitou em ultrapassar os limites para captar a essência dos 94 países que explorou, o que lhe permitiu viver experiências marcantes com alguns dos animais mais raros do planeta, como os gorilas da montanha no Ruanda. Na sua vida, apenas se arrepende de não ter sido um pai mais presente para Susan e Robert, frutos da sua relação com Jane Oriel, com quem casou em 1950. Esta viria a morrer em 1997, quando o britânico estava a filmar ‘The Life of Birds’, na Nova Zelândia. “Em momentos de luto - luto profundo - o único consolo que podemos encontrar é no mundo natural.”

Atualmente, Attenborough reduziu o ritmo das viagens, mas continua a trabalhar em estúdio: “No dia em que deixar de conseguir subir e descer as escadas é o dia em que paro.” O seu foco é agora na conservação do mundo natural: “É a maior fonte de tanta coisa na vida que a torna digna de ser vivida. Talvez um dia possa ser visto como alguém que documentou o início de uma nova relação entre a humanidade e a natureza.”

O centenário do naturalista é hoje assinalado com um evento no Royal Albert Hall, em Londres, e com o lançamento do documentário ‘Life on Earth: Attenborough’s Greatest Adventure’, da BBC.

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quarta-feira, 6 de maio de 2026

O legado ambiental de Ted Turner


Ted Turner é frequentemente recordado como o magnata da comunicação que fundou a CNN, mas o seu impacto mais duradouro reside na escala colossal da sua filantropia e conservação ambiental. Ele não se limitou a doar dinheiro; transformou a forma como os grandes detentores de capital (bilionários) encaram a responsabilidade ecológica, integrando a preservação da natureza na gestão de grandes ativos.
Um dos pilares centrais do seu legado foi a histórica promessa, em 1997, de doar mil milhões de dólares para criar a Fundação das Nações Unidas. Esta iniciativa foi pioneira ao direcionar recursos privados para causas globais, com um foco acentuado na mitigação das alterações climáticas, na promoção de energias limpas e na proteção da biodiversidade, forçando a filantropia internacional a pensar de forma sistémica e transfronteiriça.
No terreno, Turner utilizou a sua vasta propriedade de terras — chegou a ser o maior latifundiário privado dos Estados Unidos — para implementar o que designou como "capitalismo sustentável". O exemplo mais emblemático deste esforço é a recuperação do bisão americano. Através das suas herdades, Turner geriu o maior rebanho privado do mundo, retirando a espécie do limiar da extinção e restaurando o equilíbrio ecológico das Grandes Planícies. Através do Turner Endangered Species Fund, financiou também a reintrodução de predadores e espécies nativas, provando que a exploração económica da terra pode coexistir com a conservação rigorosa.
Além da ação direta, Turner compreendeu o poder da narrativa. Ao co-criar a série de animação Capitão Planeta, educou uma geração sobre a importância da ecologia. Utilizou ainda o seu império mediático para dar palco a documentários e debates ambientais numa época em que o tema era ignorado pelo grande público. Para Ted Turner, a proteção do meio ambiente sempre esteve ligada à segurança global, levando-o a investir também no desarmamento nuclear como forma de prevenir o desastre ecológico definitivo. O seu legado é o de um visionário que transformou a figura do empresário na de um guardião do ecossistema.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Mais um miradouro, neste caso, em frente à Cascata de Fisgas do Ermelo


A cascata das Fisgas de Ermelo, conhecida como uma das maiores de Portugal e da Europa, tem agora um novo miradouro. A inauguração oficial aconteceu na manhã deste domingo, 19 de abril, em Mondim de Basto, no distrito de Vila Real. O momento contou com a presença do Secretário de Estado do Turismo, Comércio e Serviços, Pedro Machado.

A queda de água tem um impressionante desnível de 400 metros e já contava com um miradouro natural. No entanto, a Câmara Municipal realizou recentemente uma construção para melhorar as condições de acesso, deixando-as mais seguras para os visitantes e atletas que percorrem a região.

Foram criados um acesso pedonal e um passadiço para permitir que os visitantes consigam aceder ao miradouro sem qualquer problema. A construção, segundo o autarca, já devia ter sido inaugurada, mas sofreu atrasos devido à falência da empresa responsável.

“Tivemos a infelicidade de a empresa que estava responsável pela construção da plataforma ter entrado em falência. Portanto, todo o procedimento para que a autarquia pudesse assegurar a concretização da obra foi moroso”, apontou, aqui citado pelo “Público”.

As obras também chegaram a ser criticadas por alguns residentes, que acreditam que a nova construção afeta a paisagem natural. No entanto, a autarquia acredita que vai atrair mais turistas para a região.

𝐏𝐞́𝐬𝐬𝐢𝐦𝐚 𝐧𝐨𝐭𝐢́𝐜𝐢𝐚!  Mais um postal para a "Disneylândia" da natureza - a tendência das autarquias para artificializar paisagens selvagens através da construção de passadiços e plataformas de metal e vidro. Este fenómeno transforma o contacto com o mundo natural numa experiência de consumo visual rápido, focada na partilha em redes sociais, em vez de promover uma ligação autêntica e educativa com o ecossistema. 

Paralelamente, o impacto na biodiversidade e na geologia é preocupante, uma vez que estas estruturas permanentes podem fragmentar habitats — afetando aves de rapina que nidificam nas escarpas — e descaracterizar a geologia local, sendo a perfuração de rochas milenares para fixar estacas vista como um atentado ao património.

O Parque Natural do Alvão, com as suas escarpas rochosas e vales profundos (como as Fisgas de Ermelo), é um habitat crucial para várias aves de rapina rupícolas. Espécies notáveis que nidificam nas escarpas incluem o Grifo (Gyps fulvus), o Bufo-real (Bubo bubo), a Águia-real (Aquila chrysaetos) e o Falcão-peregrino (Falco peregrinus).

A área também é frequentada por outras rapinas, como o Bútio-vespeiro e a Águia-cobreira, que, embora prefiram árvores, podem caçar nas áreas rochosas. 

A ZEC Marão-Alvão é uma zona fundamental para a conservação destas espécies em Portugal, beneficiando da orografia acidentada.[Consultar ICNF

Além disso, o lobo-ibérico marca presença no Parque Natural do Alvão, sendo um dos habitantes mais emblemáticos e importantes desta área protegida. Esta espécie, cientificamente designada como Canis lupus signatus, encontra no Alvão e nas serras vizinhas, como o Marão, um habitat fundamental para a sua sobrevivência a sul do rio Minho. Apesar de estar classificado como "Em Perigo" em Portugal, o lobo mantém alcateias na região. Porém no último Censo 2019-2021 [consultar ICNF] este núcleo populacional sofreu uma redução do número de alcateias detectadas, da ordem dos 50 %, não tendo sido detectada a presença de 7 das 13 das alcateias registadas no anterior censo. 

Esta facilitação do acesso acaba por gerar problemas graves de capacidade de carga e massificação, atraindo milhares de pessoas para zonas antes preservadas pelo seu isolamento, o que resulta em acumulação de lixo, pressão sobre os recursos hídricos e perturbação do sossego da vida selvagem. Estes projetos raramente incluem planos de gestão a longo prazo para mitigar o impacto humano. O investimento deveria priorizar a vigilância e a conservação, através da contratação de mais vigilantes da natureza, em vez de se concentrar exclusivamente em infraestruturas turísticas.  
 
Muitas destas obras ignoram o que acontece "antes" e "depois" do miradouro:
1. Estacionamentos - para levar pessoas ao novo miradouro, é preciso alargar estradas e criar parques de estacionamento, o que impermeabiliza o solo.
2. Espécies Invasoras: o movimento constante de carros e pessoas facilita o transporte de sementes de espécies invasoras nas solas dos sapatos e nos pneus, que acabam por colonizar o Parque Natural e expulsar a flora nativa.

Portugal tem um histórico de construir passadiços e miradouros magníficos que, cinco anos depois, estão degradados, tornando-se perigosos e visualmente ainda mais chocantes na paisagem.

segunda-feira, 23 de março de 2026

Dia Mundial do Urso

Ver com mais detalhe aqui
O seu regresso reflete a capacidade da natureza para recuperar e mostra a necessidade de trabalhar ativamente na forma como as pessoas e a vida selvagem partilham o espaço.

Os ursos pardos ajudam a moldar as paisagens, dispersando sementes, reciclando nutrientes e sustentando uma vasta gama de espécies. A sua presença destaca a importância de paisagens conectadas e funcionais.

Nas nossas paisagens de rewilding, as equipas estão a trabalhar com as comunidades para apoiar o regresso dos ursos de formas que tornem a partilha do espaço mais possível. Estas incluem medidas práticas para reduzir os danos, melhorar a sensibilização, ligar habitats e apoiar economias baseadas na natureza e ligadas à presença da vida selvagem. Saiba mais aqui


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World Bear Day

sábado, 21 de março de 2026

O bom exemplo do bilionário Tim Sweeney, que trocou os iates pela Floresta


Tim Sweeney - O exemplo raro de Capitalismo de Conservação  

Enquanto a maioria dos bilionários gasta fortunas em iates de luxo, ilhas privadas ou na corrida ao espaço, Tim Sweeney, o CEO da Epic Games (criador do Fortnite e do Unreal Engine), está a trilhar um caminho solitário e admirável: a proteção permanente da biodiversidade.

Sweeney tem investido silenciosamente centenas de milhões de dólares na compra de vastas áreas de floresta na Carolina do Norte. O seu objetivo? Impedir o betão. Ao contrário de outros investidores, Sweeney utiliza mecanismos legais conhecidos como conservation easements (servidões de conservação) para garantir que estas terras nunca sejam alvo de construção ou exploração madeireira, protegendo-as para as gerações vindouras.

O que torna esta estratégia única?
Proteção contra infraestruturas: em 2016, Sweeney comprou a área de Box Creek Wilderness (cerca de 2.800 hectares) apenas para impedir que uma empresa de energia passasse uma linha de alta tensão através de um ecossistema sensível.

Doação histórica: em 2021, realizou uma das maiores doações de terra privada na história dos EUA, transferindo cerca de 3.000 hectares em Roan Highlands para uma organização de conservação, garantindo que o público possa usufruir da natureza intocada.

Filantropia de legado: com mais de 20.000 hectares já protegidos sob a sua influência direta, Sweeney é hoje um dos maiores conservacionistas privados do mundo.

Numa era em que o impacto ambiental é tantas vezes ignorado pelo lucro imediato, Sweeney demonstra que o verdadeiro poder da tecnologia pode — e deve — ser usado para salvar o mundo biológico. Como ele próprio afirmou, a terra protegida durará muito mais do que qualquer código de programação.

Fontes e leitura adicional (em inglês):

segunda-feira, 16 de março de 2026

A campanha “Salvar o tartaranhão-caçador” já arrancou em Portugal e no oeste de Espanha e uma aplicação de ciência cidadã pode ajudar a salvá-lo da extinção



Os utilizadores da aplicação eBird podem ter um papel importante na conservação do tartaranhão-caçador (Circus pygargus), ave de rapina migradora que está Em Perigo em Portugal. O apelo é feito pelo projeto LIFE SOS Pygargus, que incentiva observadores de aves e cidadãos em geral a registar e partilhar dados sobre a espécie.

Segundo os responsáveis pelo projeto, a participação pública é fundamental para recolher informação atualizada sobre a distribuição da ave e apoiar a campanha anual “Salvar o Tartaranhão-caçador”, que procura melhorar a proteção dos ninhos e compreender as ameaças que afetam esta espécie.
Uma população em forte declínio

A situação do tartaranhão-caçador na Península Ibérica é preocupante. Em Portugal, a população diminuiu cerca de 80% entre 2012 e 2022.

Esta ave de rapina passa o inverno na África subsaariana e regressa à Península Ibérica na primavera para se reproduzir, permanecendo aqui entre março e setembro.

Nesta altura do ano, os primeiros indivíduos já começaram a chegar aos territórios de nidificação, sobretudo em áreas agrícolas e paisagens abertas.

Para os investigadores, recolher dados sobre locais de reprodução, áreas de alimentação e potenciais ameaças é hoje uma prioridade para travar a tendência negativa da espécie.

Como os cidadãos podem ajudar
Os observadores de aves que encontrem um tartaranhão-caçador, um casal ou um ninho podem registar a sua observação na aplicação eBird, considerada a maior plataforma mundial de ciência cidadã dedicada à observação de aves e gerida pelo Laboratório de Ornitologia da Universidade Cornell, nos Estados Unidos.

Além do registo na aplicação, os participantes podem enviar informações adicionais à equipa do projeto, como coordenadas GPS, fotografias, vídeos ou notas de campo. Estes dados ajudam os investigadores a localizar ninhos e a planear medidas de proteção durante a época de reprodução.

Durante este período, que decorre entre março e agosto, é também importante reportar anilhas coloridas de identificação, usadas em programas de monitorização da espécie.

Esta ave de rapina nidifica no solo, sobretudo em campos agrícolas com cereais ou forragens, e depende também desse habitat para se alimentar. Dada esta dependência, uma ameaça importante a esta espécie é a perda de habitat, devido ao declínio acentuado da área semeada com cereais e passagem para outras culturas permanentes, ou outros tipos de uso do solo. A substituição das áreas de cereal para grão por forragens e as alterações climáticas aumentaram significativamente as atividades de ceifa durante o período de nidificação desta espécie, com forte impacto nos casais reprodutores por destruição involuntária dos ninhos e aumento das taxas de predação.[Fonte]

A colaboração dos agricultores com os conservacionistas e cientistas é, por isso, essencial para ajudar na identificação dos ninhos e permitir a implementação de medidas no terreno para os proteger e reduzir ameaças, como a instalação de vedações para garantir a sua salvaguarda durante as atividades agrícolas e evitar ataques de espécies predadoras, como a raposa, por exemplo.

Se forem encontrados ninhos ou situações de risco — como atividades agrícolas próximas, incêndios ou predadores - os responsáveis recomendam que a informação seja comunicada rapidamente à equipa do projeto.

No caso de uma ave ferida ou morta, a recomendação é não tocar no animal e contactar as autoridades ambientais, como o Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente da GNR.

Uma rede de “amigos” para proteger a espécie
Para reforçar a participação pública, o projeto criou ainda a rede “Amigos do Tartaranhão-caçador”, aberta a qualquer pessoa interessada em acompanhar e apoiar as ações de conservação desta ave.

O projeto LIFE SOS Pygargus é uma iniciativa ibérica financiada pelo programa LIFE da União Europeia e envolve várias organizações científicas e ambientais, incluindo a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves SPEA, a Palombar, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) ou a Associação BIOPOLIS-CIBIO.

Para os investigadores, cada registo conta. E, neste caso, um simples registo numa aplicação pode ajudar a garantir o futuro de uma das aves de rapina mais ameaçadas da Península Ibérica.