Um novo estudo, publicado na revista Nature Food em 23 de fevereiro de 2026, apresenta uma análise sem precedentes sobre a relação entre a produção global de mercadorias, a desflorestação e as respetivas emissões de carbono.
Através da criação do modelo DeDuCE, os investigadores Chandrakant Singh e Martin Persson conseguiram mapear o impacto de 184 produtos em 179 países, cobrindo o período entre 2001 e 2022. A grande revelação do estudo é que as políticas ambientais atuais podem estar a sofrer de uma "visão em túnel", ao focarem-se excessivamente em produtos de exportação mediáticos, como a carne bovina, a soja e o óleo de palma, enquanto negligenciam o peso das culturas de subsistência e de base alimentar.
Nomeadamente as commodities como óleo de palma e soja têm um impacto concentrado (Sudeste Asiático e América do Sul, respectivamente). Por outro lado, a desflorestação causada por culturas básicas (arroz e milho) está globalmente distribuída, o que torna o seu controlo mais complexo para as cadeias de abastecimento internacionais.
Os dados revelam que a expansão de pastagens para o gado continua a ser a principal culpada, sendo responsável por 42% da desflorestação global e mais de metade das emissões de carbono associadas. No entanto, o estudo destaca que o arroz, o milho e a mandioca — frequentemente ignorados em regulamentações internacionais como as da União Europeia — representam já 11% da perda de florestas no mundo.
Este fenómeno é particularmente desafiante porque estas culturas básicas estão dispersas globalmente e são destinadas, em grande parte, ao consumo interno dos países produtores, o que as torna menos suscetíveis a pressões comerciais externas.
Ao longo das duas décadas analisadas, a desflorestação para fins comerciais resultou na perda de quase 122 milhões de hectares de floresta e na emissão de 41,2 gigatoneladas de CO2. Os autores sublinham que, se o objetivo internacional for atingir a neutralidade carbónica e travar a perda de biodiversidade, é urgente alargar o âmbito da monitorização.
O artigo conclui que não basta focar as atenções nas cadeias de abastecimento de luxo ou de exportação; é imperativo integrar as culturas agrícolas de base nas estratégias de conservação, equilibrando a necessidade crítica de segurança alimentar com a proteção dos ecossistemas florestais.
Os países que votaram contra o acordo entre a União Europeia e o Mercosul justificaram a sua posição sobretudo com preocupações económicas e ambientais, fortemente ligadas à agricultura. França, Irlanda, Polónia, Áustria e Hungria consideram que o acordo expõe os agricultores europeus a uma concorrência considerada desleal, em especial nos sectores da carne bovina, aves, açúcar e cereais, uma vez que os produtores do Mercosul operam com custos mais baixos e regras ambientais e sanitárias menos exigentes do que as da UE. Para estes países, isso pode provocar uma queda dos preços, perda de rendimentos e dificuldades acrescidas para a agricultura familiar.
Além disso, França e Áustria têm sublinhado que as salvaguardas ambientais incluídas no acordo são insuficientes, nomeadamente no que diz respeito ao combate à desflorestação na Amazónia e ao cumprimento dos compromissos climáticos. Em vários destes Estados-membros, a oposição ao acordo é também alimentada por forte pressão política interna do sector agrícola e por posições já assumidas anteriormente pelos respetivos parlamentos ou governos, tornando o voto contra uma decisão tanto económica e ambiental como politicamente estratégica.
Os defensores do acordo afirmam que este ajudará a aprofundar a cooperação económica da UE com o Sul Global, onde a China já procura alianças em consequência da rutura provocada por Donald Trump na ordem comercial internacional.
O acordo ajudará também a UE a libertar-se da dependência da China em relação aos minerais críticos e às terras raras vitais para os sectores automóvel e tecnológico, uma vez que estes elementos são abundantes nos países do Mercosul.
O Brasil detém cerca de 20% das reservas mundiais de grafite, níquel, manganês e terras raras. Mas também detém 94% das reservas globais de nióbio, um metal utilizado na indústria aeroespacial, enquanto a Argentina é o terceiro maior produtor de lítio, um material utilizado nas baterias de veículos elétricos.
“O acordo não se resume apenas a questões económicas. A América Latina é uma região de intensa competição por influência entre os países ocidentais e a China. A não assinatura do acordo de comércio livre UE-Mercosul representava o risco de aproximar ainda mais as economias latino-americanas da órbita de Pequim.
“A conclusão do acordo sinaliza também que os europeus estão empenhados em diversificar os seus mercados de exportação, reduzindo a dependência dos EUA”, afirmou Agathe Demarais, investigadora sénior do Conselho Europeu dos Negócios Estrangeiros, um dos principais thinktank da UE.
Bélgica optou por abster-se na votação.
Preocupações ambientais mantêm-se
1.No final do ano passado, um conjunto de organizações agrícolas acusava o acordo de representar “graves riscos” para a segurança alimentar europeia, para os objetivos ambientais, para o bem-estar animal, para os padrões de condições de trabalho e para a subsistência dos agricultores.
2. Em abril passado, a organização não-governamental CAN Europe publicou uma análise na qual se dizia que o acordo UE-Mercosul provavelmente faria aumentar a contribuição do bloco para a crise climática, ao aumentar o comércio de produtos de elevada intensidade em termos de emissões. Na mesma análise, são levantadas preocupações relativamente à influência do acordo no aumento da desflorestação, com um aumento esperado nas importações europeias de carne de bovino e de soja, no enfraquecimento dos compromissos ambientais dos Estados-membros e no aumento do comércio de pesticidas proibidos no bloco europeu.
3. Mais de 450 organizações europeias e sul-americanas (incluindo redes ambientais, sindicatos, movimentos sociais e associações indígenas) têm criticado o acordo por “ser ruim para o planeta e para as pessoas”, denunciando negociações opacas e exclusão da sociedade civil.
Os negociadores do Parlamento e do Conselho chegaram a um acordo político provisório para adiar a aplicação do Regulamento Europeu de Desflorestação (EUDR), para ser aplicado pelos Estados-membros a partir de dezembro de 2025. Porém, afastam as alterações de atenuação do mesmo propostas pelos legisladores da União Europeia (UE).
O EUDR estabelece a proibição de comercialização na UE de produtos que causem desflorestação no mundo e que impactam produtos como óleo de palma, gado, madeira, café, cacau e soja.
Os grandes operadores e comerciantes terão agora de respeitar as obrigações deste regulamento a partir de 30 de dezembro de 2025, e as micro e pequenas empresas a partir de 30 de junho de 2026. Este tempo adicional destina-se a ajudar as empresas de todo o mundo a implementar as regras de forma mais suave desde o início, explica o PE em comunicado.
"Prometemos e cumprimos. Este adiamento significa que as empresas, os silvicultores, os agricultores e as autoridades terão mais um ano para se prepararem. Garantimos que a Comissão irá concluir a plataforma online e a categorização dos riscos no prazo de seis meses, garantindo mais previsibilidade em toda a cadeia de abastecimento", refere a relatora do Parlamento, Christine Schneider, em comunicado. E acrescenta: "Uma avaliação de impacto e uma maior simplificação deverão seguir-se na fase de revisão para os países ou regiões de baixo risco, proporcionando aos países um incentivo para melhorarem as suas práticas de conservação florestal".
A votação do acordo informal entre os colegisladores será incluída na ordem de trabalhos da próxima sessão plenária do Parlamento (16-19 de dezembro). Para que o adiamento entre em vigor, o texto acordado terá de ser aprovado pelo Parlamento e pelo Conselho e publicado no Jornal Oficial da UE antes do final do ano.
No decorrer do ano de 2024, foram várias as vozes que se levantaram contra as novas normas. A indústria de café, por exemplo, manifestou que teria dificuldades em cumprir os prazos. Também os ministros da Agricultura de 20 dos 27 países-membros da UE apoiaram um apelo da Áustria para rever o regulamento. Os países produtores de café também criticaram o regulamento, afirmando que era discriminatório e que poderia acabar por vedar o acesso dos pequenos agricultores ao lucrativo mercado da UE. Também os secretários do Comércio e da Agricultura dos Estados Unidos tinham pedido à UE um adiamento da proibição de importação de produtos ligados à desflorestação, argumentando que colocava desafios críticos aos produtores norte-americanos.
A soja tem dificuldades em abrir mão do Estado-babá? Como todo produto do colonialismo, o grão depende fortemente de subsídios públicos. Um novo estudo mostra que a produção custa quase R$ 60 biliões ao ano apenas em renúncia fiscal. O valor é o dobro das desonerações garantidas à cesta básica, e seria suficiente para arcar com quatro meses de Bolsa Família.
O autor, o economista Arnoldo de Campos, destrincha leis que garantem isenções para a produção agrícola em várias etapas, desde insumos (como fertilizantes e agrotóxicos) até a livre circulação pelos estados e a exportação, passando pelo processamento de óleos, biodiesel e farelo de soja.
O resultado é uma estimativa de renúncia de R$ 56,81 biliões apenas em impostos federais ao longo de 2022. Isso equivale a 15% do faturamento estimado para a produção de soja, de R$ 400 biliões.
"Estamos trazendo ao público a informação de quanto é o custo para o país como um todo de uma opção estratégica que foi tecida durante a ditadura, onde não houve esse processo de transparência, participação e democracia. Esse é o cerne do nosso estudo", diz Marcos Woortmann, coordenador de Políticas Socioambientais do Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), uma das organizações responsáveis pelo estudo. Ele faz alusão ao fato de que a estrutura tributária atual do país começou a ser instituída durante o regime autoritário, e depois foi apenas sendo sucessivamente remendada.
"O Brasil é o país que mais se desindustrializou no mundo nos últimos trinta anos. E existe uma razão do porquê isso aconteceu. Não houve priorização da indústria na economia. Um setor está pagando, o outro está recebendo. O setor industrial paga IPI, CSLL, Cofins. E o setor da soja não paga. E quem paga somos nós como contribuintes."
O relatório traça ainda uma projeção para a renúncia fiscal de ICMS em Mato Grosso, maior produtor de soja e estado-símbolo do agronegócio no Brasil. A estimativa é de uma perda de quase R$ 8 biliões, o que equivale a 6,1% do faturamento da cadeia de soja no estado. No total, a desoneração foi maior que a própria arrecadação, projetada em R$ 5,9 biliões.
"Não sou um otimista", diz Woortmann sobre a possibilidade de que a reforma em tramitação no Congresso acabe com os privilégios do agronegócio. "O Brasil está subsidiando a destruição ambiental, a concentração de renda e o autoritarismo. A democracia brasileira está subsidiando as forças que atentaram contra ela. E isso ficou profundamente nítido a partir das investigações de financiamento dos atos antidemocráticos de 8 de janeiro. Esses atos foram subsidiados por empresas subsidiadas pelo contribuinte. Existe uma complexidade do momento histórico que é gravíssima."
Papa-tudo
Não é de hoje que a capacidade da soja em ser predatória com outras culturas chama atenção. Ainda assim, o avanço do grão nos últimos anos tem se dado em bases astronômicas. A projeção da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para a safra atual é de 44 milhões de hectares, o equivalente à soma dos territórios de Mato Grosso do Sul e Pernambuco. Se fosse um país, a soja teria o tamanho aproximado de Marrocos.
Como assinala o relatório, é verdade que o cultivo teve um ganho de produtividade, mas a principal explicação reside na expansão geográfica: na comparação com o primeiro mandato de Lula, a soja mais do que dobrou de tamanho.
"O estudo é uma oportunidade de abrir um debate de que existem alternativas", assinala Paula Johns, diretora-executiva da ACT Promoção da Saúde, outra das organizações responsáveis pela análise. "Para desnaturalizar essa coisa que está dada na sociedade, de que o agronegócio é que salva a lavoura no Brasil. Esses números mostram que o que a gente tem de aparentemente bem-sucedido é o fruto de um investimento de décadas. Hoje a gente sabe que esse investimento tem uma série de consequências ambientais e de saúde humana. A gente pode rever essa rota."
Essa capacidade de concentração fica explícita também na pesquisa Produção Agrícola Municipal, cuja versão mais recente foi divulgada em setembro pelo IBGE. Tirando da conta o milho, nem mesmo a soma de todos os demais produtos faz frente à soja: são R$ 292,7 biliões entre cana-de-açúcar, café, algodão, trigo, arroz, laranja, feijão, mandioca e outros alimentos.
Como temos mostrado no Joio, o mote de que o agro é tudo cai por terra diante da desproporção entre a soja e todo o restante. Sem o grão, o agro perderia quase metade do valor de produção, o que expõe a fragilidade do setor que se apresenta como "indústria-riqueza do Brasil".
Segundo o estudo, a participação da cadeia da soja no PIB do agro passou de 9% para 27% entre 2010 e 2022 – uma expansão de 58%, contra apenas 8% do agro como um todo.
O relatório analisa como essa concentração se reflete na concessão de crédito. Os dados do Banco Central mostram que o grão sugou 52% dos recursos de financiamento em 2022. "Ou seja, de um total de R$ 133,2 biliões emprestados para custear as lavouras no país, R$ 69,5 biliões foram destinados para financiar exclusivamente o custo da soja."
Somando o milho, chega-se a 72%, ou seja, todos os restantes alimentos, num total de 140 culturas, ficam com apenas 28% do crédito rural. O feijão, por exemplo, ficou com menos de 1% dos recursos, num total de 8,4 mil contratos para um universo de quase um milhão de produtores.
A porta de saída
O estudo defende que a soja é o exemplo-mor da ênfase colocada pelo Estado na transformação do país em potência agrícola. O grão é o resultado de políticas agrícolas, comerciais, de infraestrutura e de tributação. Vale lembrar que a adaptação do cultivo ao Cerrado é vista como uma das maiores realizações da Embrapa, que celebra 50 anos em 2023.
"Se o objetivo de fomentar e desenvolver o agronegócio foi alcançado, como demonstra o caso da soja aqui destacado, será que faz sentido manter os atuais níveis de apoio que as cadeias produtivas privilegiadas receberam ao longo de décadas?", questiona o relatório, sugerindo que está na hora de o agronegócio brasileira começar a devolver parte dos investimentos feitos pelo país.
O texto aponta que parte da elite do país questiona o tempo do qual famílias pobres dependem de programas sociais, como o Bolsa Família, "e cobra do poder público as chamadas 'portas de saída', para que estas famílias deixem, depois de um determinado período, de receber o apoio do Estado. Dizem que as famílias não deveriam ficar ‘dependentes’ das políticas sociais".
Então, por que a soja deveria ficar eternamente dependente do Estado? A pergunta, ao fim, é: o agronegócio sobrevive sem fartos apoios públicos?
O relatório "O custo da soja para o Brasil: renúncias fiscais, subsídios e isenções da cadeia produtiva" foi produzido por ACT Promoção da Saúde, Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio), Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC) e Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN)
A Índia e outras áreas do sul da Ásia estão vivenciando chuvas generalizadas de monções que beneficiam a maioria das culturas de kharif, conforme análise divulgada pelo USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) em seu boletim semanal. No entanto, em partes mais secas do leste do país, ainda é necessário um maior volume de precipitação.
As chuvas de monções prevaleceram em grande parte da região, incluindo seções anteriormente secas do leste da Índia e Bangladesh. Apesar de algumas áreas de cultivo de arroz no leste terem recebido mais de 100 mm de chuva, ainda há bolsões de clima mais seco, e mais precipitação é necessária para aliviar os déficits de humidade sendo experienciados - com a chuva chegando a ser 60% abaixo do normal.
Em contraste, a maioria das outras áreas de cultivo da Índia beneficiou-se de chuvas consistentes, com a maioria das regiões registando de 25 a 100 mm ou mais no período atual. No entanto, em Telangana, áreas de cultivo de algodão provavelmente enfrentaram inundações com mais de 200 mm de chuva.
Essa chuva, embora necessária para o crescimento das culturas, pode se tornar prejudicial se ocorrer em excesso, como em Telangana, onde há um risco de inundações nas áreas de cultivo de algodão.
A monção é vital para a agricultura na Índia e em outras partes da Ásia do Sul, pois a maior parte das chuvas anuais na região ocorre durante a estação das monções. A agricultura da Índia depende muito das chuvas da monção para o cultivo de kharif, que inclui culturas como milho, algodão, soja e arroz
A Comissão Europeia autorizou três novas variedades de milho geneticamente modificado, bem como a renovação das autorizações de três variedades de soja transgénica e de uma variedade de algodão. Estes transgénicos são todos propriedade da Bayer e destinam-se a ser importados como alimentos para consumo humano e animal. Até à data, a Comissão Europeia autorizou a importação de cerca de uma centena de plantas geneticamente modificadas, incluindo milho, soja, colza, algodão e beterraba. Estas autorizações, válidas por dez anos, não permitem o cultivo destas plantas, mas apenas a sua utilização na alimentação humana e animal (milho, soja, colza) ou como agrocombustível (colza, soja). Apenas o milho Mon810 continua a ser autorizado para cultivo, após a renovação da sua autorização em 2017.
A Comissão recorda que “qualquer produto feito a partir destes OGM estará sujeito a regras estritas da UE em matéria de rotulagem e rastreabilidade”, duas obrigações que permitem nomeadamente aos agricultores e consumidores fazer uma escolha informada. Ainda assim, essas autorizações levantam questões. A Comissão Europeia está em processo de desregulamentação de novos OGMs (sem definir seu contorno científico e legal). E, num documento recentemente vazado , a DG Saúde considerou que eles "são tão seguros quanto seus equivalentes convencionais". A DG Saúde também propõe simplesmente não detectar e rastrear esses novos OGMs.
A Comissão Europeia e as empresas vendem-nos o sonho de novos OGM, mais precisos, mais rápidos de desenvolver, mais interessantes para o consumidor nos Estados Unidos, onde as primeiras decisões de desregulamentação de novos OGM datam de mais de dez anos. Os novos OGMs ainda não são cultivados em larga escala, e as questões de precisão e economia de tempo ainda precisam ser demonstradas, além dos discursos publicitários.
“Parece mais sensato propor à América Latina um olhar de a-crescimento, no qual o objetivo do crescimento económico seja deslocado de sua centralidade, e indicadores como o PIB sejam complementados com outros. Uma economia em que haverá setores que necessariamente devem crescer, como a saúde, a educação ou a habitação, e outros que podem permanecer iguais, mas também haverá aqueles que devem diminuir porque expressam opulência e impactos socioambientais intoleráveis”, escreve Eduardo Gudynas, pesquisador do Centro Latino-Americano de Ecologia Social - CLAES, em artigo publicado por Brecha, 27-01-2023. A tradução é do Cepat.
Eis o artigo.
Nos últimos anos, nos países mais ricos, multiplicam-se os questionamentos sobre a obsessão pelo crescimento económico como condição central para a compreensão do desenvolvimento. Uma obsessão que, quando concretizada, também tinha um lado obscuro em seus impactos sociais e ambientais. Entre as diferentes respostas alternativas, surgiu o chamado decrescimento, conforme resenhado no excelente artigo de Geoff Mann publicado no Brecha em 20 de janeiro (“Darle la vuelta a la ecuación”). Mas várias questões permanecem pendentes, especialmente desde uma perspectiva do Sul. A mais óbvia é se o decrescimento faz sentido para um país latino-americano ou se, em vez de resolver nossos problemas, não os agravaria.
Os defensores mais entusiastas do decrescimento encontram-se na Europa Ocidental, entre alguns académicos e ativistas sociais. Por outro lado, em quase toda a América Latina, as abordagens têm sido muito mais limitadas e permaneceram distantes dos grandes movimentos sociais. A novidade mais recente é que essa inusitada palavra veio à tona na Colômbia, como resultado das intenções da nova ministra de Minas e Energia de limitar a exploração de petróleo. Encurralada pelas interpelações da imprensa, chegou a justificar a medida apelando à ideia do decrescimento.
Um equivalente uruguaio dessa posição seria como se o ministro da Pecuária, Agricultura e Pesca dissesse que deseja limitar a expansão da soja ou da celulose e, ao clamor da media sobre uma catástrofe económica, respondesse dizendo que a economia deve reduzir.
Na Colômbia, o debate se intensificou quando o novo presidente, Gustavo Petro, apoiou a ideia, indicando que “hoje a ciência sabe que o consumo de petróleo e carvão deve diminuir substancialmente, que o consumo de carne bovina, desde que seja sustentado por combustíveis fósseis, deve diminuir em escala global”, e concluiu dizendo que devemos nos acomodar ao “equilíbrio da vida no planeta” (1).
Uma palavra gatilho
Os usos atuais do termo decrescimento têm origem na França, com economistas e ativistas políticos. O décroissance foi popularizado pelo economista Serge Latouche nos anos 2000, entendendo-o como um slogan ou palavra gatilho para atacar a obsessão pela ideia de desenvolvimento como crescimento perpétuo (2). Com o passar dos anos, tornou-se mais complexo, e agora, na academia, é definido como uma "crítica à economia do crescimento", que busca a "abolição do crescimento económico como objetivo social", ao mesmo tempo em que incentiva alternativas baseadas na simplicidade, no convívio, no cuidado e na partilha. Isso implicaria uma redução equitativa da produção e do consumo, de modo a reduzir os fluxos de energia e matérias-primas (3).
Não é de estranhar que, para a grande maioria dos que vivem nos países do Sul, um apelo a decrescer não faça muito sentido. Eles imediatamente imaginam contrações económicas com consequências negativas para suas vidas. É um termo que se choca com ditados repetidos há décadas, que assumem que o emprego e o bem-estar derivam do crescimento da economia.
Por outro lado, para algumas pessoas e movimentos de países ricos, o decrescimento faz sentido, pois reduziria os impactos sociais e ambientais, aplacaria o consumismo e até mesmo a extração de recursos naturais. No entanto, essas conceituações de decrescimento não oferecem argumentos ou modelos precisos para o Sul, onde, para muitos, o problema é o subconsumo que traz a pobreza.
De qualquer forma, o questionamento ao crescimento, como adverte o artigo de Mann, contém verdades que não podem ser ignoradas. Em 2022, as economias da Argentina e do Uruguai, por exemplo, apresentaram bom crescimento económico, mas esses indicadores macroeconómicos não se traduziram em melhorias nas condições de vida da maioria. A história latino-americana está repleta de casos semelhantes, em que o crescimento económico beneficia alguns poucos, mas sempre se defende indicando que geraria derramamentos ou gotejamentos que atingiriam o restante da população.
Limites do crescimento
Ao mesmo tempo, fica claro que o crescimento económico perpétuo proposto pelos economistas é impossível. Pelo menos desde a década de 1960, houve alertas sobre os chamados limites do crescimento, tanto sociais quanto ambientais. Os mais evidentes estão no esgotamento dos recursos naturais (por exemplo, as reservas limitadas de minerais ou hidrocarbonetos) ou na incapacidade de lidar com impactos ambientais crescentes (manifestada, por exemplo, nas mudanças climáticas). As economias não podem crescer indefinidamente porque o planeta é finito.
No Uruguai, tais limites já estão diante dos nossos olhos. A agropecuária está limitada às terras disponíveis no país, razão pela qual o aumento da produção passa por uma maior intensidade, o que desencadeia múltiplas alterações sociais e econômicas, enquanto a pressão sobre o solo se multiplica e a água é contaminada. Apesar disso, políticos, empresários e quase toda a academia parecem minimizar ou ignorar esses limites.
Na Colômbia, por outro lado, alguns desses limites são mais prementes. Há quem avalie que as suas reservas exploráveis de hidrocarbonetos têm apenas cinco anos, o que significaria que sua economia não pode mais crescer à custa das receitas do petróleo. Nessas condições, não surpreende que o novo governo use a palavra decrescimento para discutir o futuro da economia nacional.
Mas esses casos mostram que o decrescimento postulado para o Norte rico, como descreve o artigo de Mann, não pode ser transplantado para a América Latina. Impor uma redução geral das economias seria catastrófico. Mas ele consegue nos obrigar a questionar se o crescimento econômico deve ser a questão essencial que deve orientar e organizar uma economia. A resposta é “não”, por vários dos motivos que já foram referidos e outros que todos podemos acrescentar. Parece mais sensato propor para o Uruguai, e outros países da região, um olhar de a-crescimento, no qual o objetivo do crescimento econômico seja deslocado de sua centralidade, e indicadores como o PIB sejam complementados com outros. Uma economia em que haverá setores que necessariamente devem crescer, como a saúde, a educação ou a habitação, e outros que podem permanecer iguais, mas também haverá aqueles que devem diminuir porque expressam opulência e impactos socioambientais intoleráveis.
Não devemos cair nas modas, repetindo a moda do decrescimento porque se popularizou em Paris, Madri e Berlim, mas buscar as nossas próprias soluções ajustadas às nossas urgências e necessidades.
Notas
1. Gustavo Petro no Twitter, 02-09-2022.
2. Ver, por exemplo, La apuesta por el decrecimiento, por S. Latouche, Icaria, Barcelona, 2008.
3. ‘Decrescimento’, por G. Kallis, F. Demaria e G. D’Alisa, em Decrescimento. Vocabulário para um novo mundo. Porto Alegre: Tomo Editorial, 2016.
As florestas asseguram um vasto conjunto de bens e serviços, sendo essenciais para proteger a biodiversidade e o solo, manter as reservas de água doce, regular o clima, e promover a resiliência e o bem-estar das comunidades humanas. Mas a acelerada degradação dos ecossistema florestais ameaça a sustentabilidade dos serviços que providenciam, num tempo em que sobrevém uma crescente desvinculação entre as pessoas e a floresta, em especial porque diminui a população rural que dela beneficia diretamente, e cresce a população urbana que apenas indiretamente beneficia dos bens florestais.
As frentes de desflorestação multiplicam-se em todo o mundo. Segundo dados da organização não-governamental WWF, entre 2004 e 2017 desapareceram cerca de 43 milhões de hectares em 24 regiões do mundo, sendo que as florestas tropicais estão particularmente ameaçadas. De acordo com esta mesma organização, a União Europeia é o segundo maior importador de bens promotores de desflorestação (a seguir à China), sendo responsável por 16% da desflorestação associada ao comércio internacional. O reconhecimento desta responsabilidade, conduziu a uma importante iniciativa europeia com vista a travar a desflorestação global, introduzindo novas regras para assegurar que quem compra os bens não contribui para degradar os ecossistemas florestais.
No início deste mês, a tempo de inspirar a COP15, os 27 estados-membros da UE acordaram numa iniciativa legislativa com vista a combater a degradação das florestas e travar a desflorestação global; o Conselho Europeu e o Parlamento Europeu firmaram um acordo provisório visando garantir que as empresas que pretendem vender no mercado europeu sete produtos e seus derivados, não são responsáveis pela desflorestação nem pela degradação das florestas por via da sua produção. Os produtos incluídos no novo regulamento europeu são: óleo de palma, cacau, café, borracha, gado, madeira e soja, bem como os seus derivados, entre outros, carne de vaca, couro ou produtos de papel impressos, cosméticos ou chocolate. Esta lista será revista e atualizada, tendo em conta novos dados, tais como alterações nos padrões de desflorestação. Quem explora estes produtos e quer comercializá-los na UE, deve fazê-lo com recurso a um rótulo que verifique se estes bens foram produzidos em terras que não sofrem desflorestação desde 31 de dezembro de 2020, cumprindo ainda toda a legislação afim no país de produção. Além disso, devem recolher informação geográfica precisa sobre a origem e produção dos bens, permitindo verificar o cumprimento de todas as normas.
Os 27 estados-membros responsabilizam-se pela aplicação de sanções firmes e dissuasoras a quem não cumprir as regras. Bruxelas está confiante que o impacto desta iniciativa será global, embora o grupo europeu seja um dos maiores consumidores destes bens. A lista de produtos sujeitos às novas regras deverá ser alargada. Foi incluída uma disposição que permitirá à Comissão avaliar - o mais tardar um ano após a entrada em vigor do regulamento, caso se alarguem as regras a outras zonas florestais. E dentro de dois anos será ponderada uma eventual extensão a outros ecossistemas, incluindo territórios com elevada biodiversidade ou com interesse para o sequestro de carbono.
Mais de 30 organizações ambientalistas e cívicas que representam povos indígenas e a sociedade civil do Brasil, Indonésia e Europa instam o Governo a abandonar a importação e o uso de óleos de palma e de soja nos biocombustíveis consumidos em Portugal.
Numa carta aberta endereçada ao Primeiro-ministro António Costa, ao ministro do Ambiente e Ação Climática, Duarte Cordeiro, e ao Secretário de Estado da Energia, João Galamba, as organizações “apelam ao Governo da República Portuguesa que aceite a proposta do Parlamento Europeu no sentido de eliminar no curto prazo os biocombustíveis produzidos a partir de óleos de soja e de palma, defendendo esta posição nas próximas negociações do trílogo sobre a Diretiva das Energias Renováveis da UE (RED, sigla em Inglês)”, salientam em comunicado.
Os signatários consideram que vivemos “um momento decisivo para a Europa, para o Brasil e para a Indonésia” e que o mundo tem o seu alcance “uma oportunidade histórica para garantir que as políticas Fit for 55 contribuam realmente para mitigar a crise climática, para proteger a biodiversidade e para garantir os direitos dos povos indígenas, incentivando o uso de energias limpas, tanto na Europa como no resto do mundo”.
As 33 organizações destacam o “uso da soja e da palma para a produção de biocombustíveis” é a causa de “inúmeros” problemas, entre eles o aumento da procura por produtos derivados da soja e da palma que “levaria à conversão de ecossistemas naturais ricos em carbono, como é o caso das florestas tropicais e das turfeiras, em solos agrícolas”, e que “algumas das áreas do mundo com maior biodiversidade biológica serão substituídas por plantações monoculturais”.
Avisam também que “o aumento da procura por terra para a produção de soja e palma no Brasil e na Indonésia provoca conflitos territoriais graves com os povos indígenas e outras comunidades locais, cujas terras são invadidas pelas plantações em expansão”. E esses confrontos “impedem a gestão sustentável das florestas tropicais e outras zonas e levam à violência contra os nossos defensores do ambiente e à violação dos direitos humanos, assim como à destruição dos nossos meios de subsistência”.
Por fim, explicam que quanto maior for a procura pela soja e pela palma para integrarem os biocombustíveis, maior serão também os preços dos óleos alimentares vegetais e a sua escassez nos mercados mundiais. Por isso, “acreditamos firmemente que os solos agrícolas devem ser utilizados para a produção de alimentos e não para produzir combustíveis que são queimados nos nossos veículos”, argumentam as organizações, acrescentando que “numa situação em que a escassez de alimentos pode ser uma realidade global, é fundamental ter isto em consideração”.
As organizações que assinam a carta aberta ao Governo português defendem que a certificação dos produtos de soja e de palma não é a solução, que só poderá passar pela eliminação, “o mais rapidamente possível”, de biocombustíveis feitos a partir desses produtos vegetais.
E dizem que é fundamental “eliminar a soja e a palma dos nossos combustíveis de forma simultânea”, pois se apenas “abandonarmos o óleo de palma, o mais provável é que venha a ser substituído por soja na produção de biocombustíveis, deslocando assim os problemas de um local para o outro, sem os resolver”.
Assim, pedem aos três governantes “para estarem à altura das circunstâncias ao adotarem o abandono imediato e simultâneo da soja e da palma nos biocombustíveis da Europa, como proposto pelo Parlamento Europeu, para que as políticas sobre as energias renováveis contribuam para um futuro sustentável, ao invés de expor os nossos países e povos a um aumento da desflorestação e à violação dos nossos direitos básicos”.
Is the ‘old’ Monsanto, the one responsible for producing Agent Orange, PCB’s and DDT and a terrible record at covering up and denying the tragedies that have resulted from their use, the same as the ‘new’ Monsanto, the one at the forefront of research in plant gene technology? We argue their scientific and ethical track record is entirely relevant to what they do today.
The vast majority of European crop production is used to feed animals and create biofuels, rather than feeding people, new analysis has found. At the same time, Europe is over-producing meat and dairy, with EU production of beef, pork and poultry 4%, 16% and 8% higher than consumption respectively, and production of dairy 14% higher than consumption.
The analysis found that in, 2018/2019, 62% of all cereal crops were used to feed animals and 12% used in industry and as biofuel, with only 23% going to feed people. A striking 88% of soy and 53% of protein-rich pulses were also used for animal feed.
This imbalance in production and consumption is driven by a focus on crops for profit, not food for people, said Greenpeace. Greenpeace is calling on the EU to refocus its food and farming policy to prioritise local production of the kind of food Europe needs, farmed in a way that guarantees a fair price for farmers, affordable and healthy food for people, and protects the environment.
Greenpeace EU agriculture and forest campaigner Sini Eräjää said: “EU leaders talk big about food security, but they back policies that overproduce meat, rely on massive soy imports and burn food as fuel. European farmers can produce enough healthy, affordable food for Europeans, but now they’re being squeezed to do bulk production to supply export markets. We need a food and farming policy that ensures farmers make a good living, people can afford healthy food, and that nature doesn’t suffer in the process – the current plans sacrifice all three in favour of corporate profits.”
The European Parliament will vote on the EU’s common agricultural policy in its plenary next week. The latest compromises struck by the major parties, EPP, S&D and Renew Europe, fail to address the disproportionate support given to industrial animal farming and feed production, and include no measures to limit public spending on factory farming. The EU is also currently debating new free trade agreements such as EU-Mercosur, that would only further encourage the industrialisation of animal farming and the focus on bulk production for exports.
"Bolsonaro foi fiel à sua palavra. O seu mandato foi desastroso para a ciência, para o ambiente e para o povo brasileiro", declarou a revista científica Nature.
Num editorial publicado esta quarta-feira, a revista acusa Bolsonaro de ter assumido o cargo "negando a ciência, ameaçando os direitos dos povos indígenas e promovendo as armas como solução para os problemas de segurança".
"Bolsonaro foi fiel à sua palavra. O seu mandato foi desastroso para a ciência, para o ambiente e para o povo brasileiro", observou a revista, que criticou ainda os cortes feitos pelo atual Governo brasileiro na área da educação.
A Nature comparou Bolsonaro com o "ex-colega populista dos Estados Unidos" Donald Trump, com quem coincidiu na negação dos "avisos dos cientistas sobre o coronavírus", bem como dos "perigos da doença".
Ao mesmo tempo que criticou duramente Bolsonaro, a revista elogiou algumas das políticas de financiamento levadas a cabo durante os mandatos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em domínios como a educação, ciência e ambiente.
"Durante algum tempo, o Brasil quebrou a ligação entre a desflorestação e a produção de carne de bovino e soja. Parecia que o país poderia ser pioneiro na sua própria marca de desenvolvimento sustentável. Muito desse progresso foi desmantelado", lamentou a Nature.
Lula da Silva e Bolsonaro disputam no domingo a segunda volta das eleições presidenciais brasileiras.
Tanto a desflorestação como a degradação florestal estão a ocorrer a um ritmo alarmante, agravando as alterações climáticas e a perda de biodiversidade. A expansão das áreas de produção agrícola de matérias-primas, mercadorias ou também chamadas commodities – como o gado bovino, a madeira, o óleo de palma, a soja, o cacau e o café – é o principal motor da desflorestação e a degradação florestal.
Em 2017, a União Europeia (UE) foi um dos maiores blocos consumidores de commodities associadas à desflorestação e à degradação das florestas, responsável por 16% da desflorestação associada ao comércio internacional, num total de 203.000 hectares.
PORTUGAL TAMBÉM É RESPONSÁVEL PELA DESFLORESTAÇÃO NA AMAZÓNIA?
Em Portugal, a pecuária intensiva é o principal motor da desflorestação causada pelas importações, sobretudo ligada à produção de matérias-primas para a alimentação animal como a soja e o milho. A maior parte da soja importada vem do Brasil, onde os grandes campos de soja estão ligados à destruição da Amazónia e de biomassa importantes como o Cerrado e o Pantanal. O agronegócio da soja está também ligado a violações de Direitos Humanos através da apropriação de terras e recursos naturais a comunidades locais.
A importação de mercadorias de países com fraca regulamentação ou controlo dos agroquímicos utilizados na sua produção também aumentam o risco para a saúde pública, sempre que entrem na cadeia alimentar, algo que já se está a verificar.
Portugal emitiu uma exceção à entrada de milho para alimentação animal com limites máximos de resíduos de pesticidas acima do permitido na UE (Despacho nº 28/2022 da DGAV), derivado das necessidades sobretudo da pecuária industrial que vêem o fornecimento a partir da Ucrânia em risco, devido ao atual contexto. A importação desta mercadoria deverá ser reforçada junto de países Sul Americanos, como a Argentina e o Brasil, onde a sua produção poderá estar ligada à desflorestação, degradação de biomas de alto valor e violações dos Direitos Humanos.
Estas matérias-primas estão nos produtos que consumimos diariamente, no entanto desconhecemos os impactes dos produtos disponíveis nos nossos locais de compra. O que compramos contribuir de forma direta ou indireta para a desflorestação? Quanto custa realmente aquilo que consumimos? (ou quais os custos escondidos daquilo que consumimos).
REGULAMENTO DA UE PARA PRODUTOS SEM DESFLORESTAÇÃO
A Comissão Europeia (CE) apresentou uma proposta de regulamento, a 17 de novembro de 2021, com o objetivo de garantir que as cadeias de abastecimento Europeias não causam desflorestação e degradação das florestas.
O regulamento para produtos livres de desflorestação proposto pela CE assume um caminho de transparência e de responsabilização de toda a cadeia de abastecimento, para que se torne cada vez mais difícil a circulação de mercadorias ligadas à desflorestação ou à degradação de ecossistemas florestais. No entanto, algumas definições vagas e aspetos pouco claros podem enfraquecer o regulamento e deixá-lo vulnerável a emendas que comprometam a sua eficácia, tais como:
As isenções para empresas, resultantes de uma definição excessivamente abrangente de pequenas e médias empresas (PME), podem deixar de fora cadeias importadoras.
A falta de responsabilização do setor financeiro permitirá que se continue a financiar a destruição de florestas tropicais.
Mercadorias como a borracha e o milho, a par de outros ecossistemas para além das florestas, já deveriam estar incluídos na primeira versão do regulamento, caso contrário resultarão danos evitáveis e um atraso considerável na concretização dos objetivos do diploma.
Não estão devidamente acautelados mecanismos de recurso à justiça em caso de violação dos Direitos Humanos e outros direitos.
O sucesso deste regulamento vai, pois, depender do empenho e ambição dos Estados-Membros, crucial durante a discussão ao longo dos próximos meses. Assegure-se que a sua opinião é representada!
Watch a recording of a presentation delivered by IATP's Dr. Steve Suppan above titled "Nano-enabled RNAi based pesticides: Modes of Action, risks and regulation."
The development of and investment in nanotechnology-enabled pesticides is a new phase in the effort to fight against weed and pest resistance. Some of these pesticides are in an advanced state of product development and a few are near commercialization. Therefore, an introduction to how these products work (Modes of Action) and their risks is timely. (The benefits claimed for these pesticides are widely publicized by their developers and so are mentioned only in passing here.)
Socioeconomic context
This scientific battle against resistance particularly concerns plants that are genetically engineered (GE) to resist proprietary pesticides and to enable continuation of current extensive monocropping practices that incubate resistance.1 In our November 22, 2021 presentation for a webinar co-organized by the Brazilian Research Network on Nanotechnology Society and Environment (Renanosoma), we showed a photo of a weed scientist standing in a soybean field overgrown with weeds nearly as tall as him. The weed scientist referred to the dramatic increase in the number of herbicide-resistant weed types, forecast to begin as early as 2024, as a Pandora’s Box, a reference to an ancient mythical source of all the evils plaguing the world. A creative headline writer characterized the new nano-enabled GE pesticides developed to prevent further U.S. weed resistance plaguing soy, maize and other crops2 as “Breaking Pandora’s Box.”
Of course, the increased scope and efficacy of weed resistance is not limited to the United States. Weed scientists have documented a sharp increase in weed resistance in Brazil correlated with the introduction of a very high percentage of GE maize, cotton and soybean crops. The same researchers have charted a boom in the number of unique cases of herbicide resistant weeds. Seventeen of 51 weed types are resistant to multiple herbicides. The chart characterizes a “pre-glyphosate era” ending in 2005 with a “post-glyphosate era” of herbicide resistant weeds.3 Because of the economic losses associated with crop yield losses and the costs of more numerous applications of herbicides to more hectares of herbicide resistant GE crops, governments, universities, start-up companies in GE research and pesticide manufacturers have invested public funds and private capital to “Break Pandora’s Box.”
Another important incentive for new pesticide products is government granted patents that confer monopoly rights to commercialize the patented products. Start-ups usually sell active ingredient (AI) and/or related technology patents to a pesticide manufacturer for subsequent incorporation into a patented herbicide, insecticide or fungicide. An agribusiness reporter’s analysis of the value of AI patents scheduled to expire in 2020 estimated the worth of the patents at $4 billion4 of an estimated $68 billion global agrichemical market value in 2020.5 A lot of money is at stake, beyond the value of crops losses, in developing a technology that will “Break Pandora’s Box.”
Three technology types to break a Pandora’s Box of increasing resistance
Pesticide product developers have offered three ways to defeat weed resistance to the GE crop and proprietary pesticide technology package:
1) apply herbicides more toxic than glyphosate to crops engineered to resist those herbicides;
2) coat existing AIs with patented nanoscale material coatings to better control the pace of the AI release and in theory reduce the rate of weed resistance;
3) develop new AIs, also nano-enabled, to “silence” the genomic sequences of the weeds or other pests that are vital for their survival. We’ll discuss the first two technologies proposed to “Break Pandora’s Box” very briefly before focusing on the third nano-enabled GE RNA interference pesticides.
One response to the increasing failure of glyphosate to control weeds in GE crops designed for glyphosate use is a revival in the use of more toxic pesticides, such as dicamba, and the development of new GE crops, above all soy and maize, designed to withstand dicamba applications. However, dicamba is a highly volatile herbicide whose drift has damaged hundreds of thousands of U.S. hectares of horticulture plants and trees not genetically engineered for dicamba. Lawsuits to obtain compensation for dicamba damages continue to grow in scale and number.6 The U.S. Environmental Protection Agency has been sued for allowing dicamba to be commercialized despite what was known about the herbicide’s drift damage when used according to manufacturer instructions.7
Weed scientists at the Brazilian Agribusiness Research Corporation (EMBRAPA) have run test plot studies to estimate how much damage would be caused by dicamba to Brazil’s huge soybean crop, including GE soy designed to resist pesticides other than dicamba.8 These scientists conclude, “A 1% dicamba drift in tropical conditions reduces soybean yield by 12%.” This yield reduction, from dicamba sprayed by farm workers on the ground, would increase over time as weeds in soybean fields became resistant to dicamba. (Pesticide toxicity to farmworkers is discussed briefly at the end of this article.)
A second response to the “Pandora’s Box” of weed resistance to herbicides has been to coat the AIs of current herbicides with nano-scale materials, usually chemically inert nano-clays or nano-composite materials, to control the release rate of AIs and to enable them to penetrate more efficiently weed plant cells, which macro-scale herbicide droplets cannot do. The result is a higher kill rate while using less volume of AI. Embrapa is also engaged in this research, with scientists claiming that nanotechnology-enabled pesticide products will reduce the volume of pesticides applied and in so doing, cause less damage to the environment adjacent to the nano-pesticide sprayed cropland.9
Lessons learned in nano-coating current AIs have been applied to the development of nano-enabled GE RNA interference (i) pesticides. Oddly, the properties of nanomaterials in this new generation of pesticides have received relatively little risk analysis, compared to that received by the CRISPR Cas9 and other GE techniques used to modify RNAi to target specific weed and insect pests.
First, we’ll briefly discuss risks associated with the application of CRISPR Cas9 applied to plants. We’ll summarize the Mode of Action (MoA) of GE RNAi to turn off or “silence” genes in genomic sequences of weeds and insects that are vital for expressing proteins necessary for the targeted pests’ survival. Among the off-target mutations of the CRISPR Cas9 techniques are those in plants and animals surrounding the crops not engineered to resist the new AI, GE RNAi. We review risks associated with those mutations and other risks, including to farmworkers, enabled by the nano-coatings necessary to stabilize and protect the GE RNAi, making it an applicable pesticide.
The role of CRISPR Cas9 GE technique in nano-enabled RNAi pesticide
The idealized image of CRISPR Cas9 is of the Cas9 “scissors,” an enzyme, cutting a genome sequence, with the cut neatly repaired by an RNA messenger (mRNA) “thread,” guided by the data of a genomic library.10 Messenger RNA is defined as “a single-stranded RNA molecule that is complementary to one of the DNA strands of a gene.”11 (mRNA is used in the manufacture of vaccines, including some anti-SARS CoV-2 vaccines.) RNAi is a double stranded RNA molecule designed to suppress in the targeted genomic sequence genes critical for a pest’s survival. The ideal result of GE techniques is a neatly modified sequence that produces only the genetic mutations and corresponding traits informed by the data library.
In practice, however, the use of CRISPR Cas9 can result in hundreds of unintended mutations when the selection of genomic data to guide the mRNA repair is erroneous.12 As a result, the Cas9 “scissors” cuts in the wrong places in the DNA sequence, and the mRNA makes its repair at an erroneous site. Some of these unintended mutations can express harmful traits, while other traits are beneficial or benign. The genetic engineering of naturally occurring RNAi to silence genes in targeted weeds and other pests can likewise result in unintended mutations in the targeted weeds.
A Friends of the Earth (U.S.) report explains, “Developers of RNAi pesticides aim to exploit naturally existing RNAi pathways in plants, animals, and fungi by manufacturing synthetic interfering RNAs of a particular sequence in order to silence a specific gene or genes.”13 The report’s authors continue: “The interfering RNA and a target messenger RNA bind as they share a sequence that is matching or like each other. The messenger RNA is then cleaved and destroyed. No protein is produced, resulting in ‘interference’ of gene expression, also known as ‘gene silencing.”14 If the sequence deleted is large enough to change the structure of the plant, the RNA interference may be heritable from one generation of the target plant to the next. The RNA interference can also affect non-targeted plants if their gene deleted sequences are similar enough to bind with the sequences of non-target plants.15
Some of the risks associated with the GE risks of RNAi pesticides are as follows: erroneous and on-target gene silencing express unwanted traits; long deletions may result in undesirable heritable traits; altered plant genetic composition may result in allergenicity, increased toxicity, changes in nutritional composition; unwanted immunostimulatory effects can reduce white blood cell count in humans and non-target organisms throughout the food chains.16 These risks do not include those associated with the fate and transport of nano-scale materials that coat RNAi, stabilizing it and preventing its destruction by ultra-violate light rays. RNAi would not be an AI without the protective nanomaterials that enable both the RNAi’s survival and its efficacy in killing pests. Risks specific to these nanomaterials are described in the next section.
The world’s forests are being destroyed against a background of corruption, illegality and apathy.
A complex web of financial instruments allowing crime, corruption and wrong-doing, hidden behind shell corporations and offshore companies was exposed with the release of thePanama Papers.
This shadow network is being used by individuals and companies behind the destruction of our planet’s forests.
Indonesia has lost vast amounts of primary rainforest, behind only Brazil in scale for these losses. Some of the largest palm oil and timber companies operating in the country have disguised the extent of their operations through “shadow companies”. This means that who truly benefits from their activities is deliberately made harder or impossible to trace.
Indigenous
The Indonesian part of the island of Papua is a “new frontier” of palm oil deforestation in the country. This is against theexpress wishes of local Indigenous peoples. Previous deforestation went ahead despiteIndonesian government officials claiming that the permits to do so in the regionwere falsified.
Companies were then given permission to continue clearing the forest as long as they “fix their permits”. In other words, as long as they retrospectively got the permits they needed from the start.
However, the forests of Papua may have been handed a lifeline: the Indonesian government has just cancelled192 deforestation permits. For the sake of people, wildlife and the climate, they need to stay cancelled.
Forests will keep being cleared with impunity without financial transparency, accountability and enforcement.
The “clear forests first, apply for permits later” approach is not limited to Indonesia. In Paraguay,a government whistleblower provided evidence that the same problem was happening there. In that case, the deforestationincluded the lands of the Ayoreo Totobiegosode Indigenous peoples.
Deforestation
Where voluntary pledges have led to environmental successes they have been partial. The Amazon soy moratorium was designed to stop companies clearing Amazonia for the crop, and it has had some impact.
The rate of soy-related deforestation in Amazonia fell by84 percent between 2004 and 2012, as a result of the moratorium and connected policy efforts.
However, this is arguably because companies have simply been able to shift to another, less protected biome; the neighbouring Cerrado, a precious ecosystem in its own right, which is now thefrontier of deforestation in South America.
Data on corporate deforestation from the supply chain mapping initiative Trase show that companies who have pledged not to cause deforestation for soy causeas much as those who have made no such commitment.
Felled
The New York Declaration on Forests from 2014 pledged tohalve deforestation by 2020 and end it by 2030, yet rates of forest loss have been41 percent higher in the years since the agreement was signed.
The impact of pledges made at COP26 to reverse and end deforestationin a decade is yet to be seen, but it is noteworthy that the Brazilian Amazon started 2022 with the fastest rate of deforestation in 14 years.
Certification schemes purporting to ensure wood and timber products also have weaknesses. The assessment bodies responsible for conferring prized sustainability certification like the Forest Stewardship Council ecolabel are paid for by the companies they audit, competing with one another for this income. This creates a “race to the bottom” as it incentivises weak auditing in order to win more business.
These certification schemes have also been found to accredit illegally felled wood, including trees fromprotected forests in Siberia, some of which ended up in childrens’ furniture from IKEA.
Time-bound
No wonder, then, that many timber firms arelobbying to be exempt from upcoming EU laws to keep the products of environmental destruction and human rights abuses out of European supply chains. They claim that certified status – demonstrated to be flawed – should be enough to allow them this exemption.
While a great deal of forestry is not connected to crime, corruption, human rights abuses and the destruction of irreplaceable nature, far too much is. All our most basichuman rights depend on a sustainable environment. We cannot let it be destroyed for a handful of people to profit.
Without financial transparency, accountability, and enforcement of strong laws to protect forests, they will keep being cleared with impunity.
States must step in andpass legislation which requires robust, transparent and time-bound reductions in deforestation for companies wishing to be part of their supply chains. The future of people and the planet depends on it.