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sexta-feira, 7 de agosto de 2026
She Past Away - Soluk
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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026
She Past Away - Mizantrop
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domingo, 18 de janeiro de 2026
Anti-Imigrantes e Conservadores, pensem nisto - a vida de Lupe Vélez
Lupe Vélez, atravessou as Duas Grandes Guerras Mundiais. Uma Mulher muito à frente do seu tempo! Lupe Vélez, cujo nome verdadeiro era María Guadalupe Vélez de Villalobos, foi uma atriz Mexicana que fez carreira nos EUA, nascida a 18 de julho de 1908 em San Luis Potosí, México, e falecida em Beverly Hills, Califórnia, a 13 de dezembro de 1944. É conhecida pela sua prestação no filme "O Marido da Mulher Indiana" (1931), de Cecil B. DeMille.
A imagem que Lupe projetava na tela grande nada mais era do que um reflexo da sua própria personalidade. Vélez manipulava conscientemente a sua imagem. Com sua proclamação: "Eu não sou selvagem. Eu sou apenas Lupe", Vélez cultivou uma reputação pública como uma mulher explosiva e irreverente em Hollywood, e se identificava com papéis cinematográficos de mulheres da "classe média baixa" e personagens exóticas. Jornalistas de Hollywood a apelidaram de Whoopee Lupe , A Pantera Mexicana e La Chinampina . Chegaram ao ponto de proclamá-la a Garota Mexicana do Momento, em resposta ao sucesso da "flapper girl" da moda, Clara Bow , a chamada Garota do Momento . Vélez revelou: "A que atribuo meu sucesso? Acho, simplesmente, que sou diferente. Não sou bonita, mas tenho olhos lindos e sei exatamente o que fazer com eles. Mesmo que o público pense que sou uma garota muito selvagem, na verdade não sou." Sou apenas eu, Lupe Vélez, a simples e natural Lupe. Se estou feliz, danço, canto e ajo como uma criança. E se algo me irrita, grito e choro. Alguém chamou isso de "personalidade". Personalidade nada mais é do que ser você mesmo perto de outras pessoas. Se eu tentasse parecer e agir como Norma Talmadge , a grande atriz dramática, ou como Corinne Griffith , a aristocrata do cinema, ou como Mary Pickford , a doce e gentil Mary, eu não seria nada mais do que uma imitação. É por isso que eu só quero ser eu mesma, Lupe Vélez". Infelizmente teve um fim trágico. Naquela época, ser mãe solteira era socialmente inaceitável e teria acabado com sua carreira; ela descartou a alternativa de um aborto. Desesperada, cansada do amor não correspondido e deprimida pelo escândalo iminente, ela viu apenas uma saída: decidiu cometer suicídio.
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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
Inicitiva Liberal - um partido extremista e misógino
"Sobre Bernardo Blanco diretor de campanha de Cotrim de Figueiredo e mencionado lateralmente na história de assédio da alegada vítima de Cotrim de Figueiredo. Uma vez convidou-me para uma palestra sobre liberalismo e feminismo. Eu aceitei e escreveu-me, como que a sugerir, de como afinal tinha sido o capitalismo a libertar as mulheres, com a invenção dos eletrodomésticos que facilitavam a vida às mulheres. Portanto para ele a libertação feminina tinha sido as mulheres deixarem de lavar a roupa num tanque à mão para passarem a pôr tudo numa máquina de lavar e, quiçá, não estragarem tanto a manicure. Disse-lhe que se fosse para propalar tão estúpida teoria eu não era a pessoa certa. Disse-me que não, para ficar, e eu já com má impressão lá fui para o IEP na Católica para a dita palestra. Foi uma coisa tenebrosa. Estava lá a palestrar também a Ana Vasconcelos, eurodeputada, que também já veio defender o seu colega do Parlamento Europeu. É uma daquelas mulheres que considero como idiota útil do patriarcado. Não sabia nada do assunto feminismo, dizia que o feminismo certo era o de John Stuart Mill (homem moderno para o fim do século XIX e agora completamente ultrapassado e que, como sabe quem já leu The Subjection of Women, com uma visão confrangedoramente conservadora sobre mulheres), negava que existisse qualquer preconceito que prejudicasse mulheres (donde, se enfrentam discriminação é porque são, coitadas, mázitas), até brincou que se calhar sofria de machismo intrínseco (no kidding), como se tal coisa não existisse. Ah, e não entendia por que carga de água as mulheres não formavam partidos se não estavam bem representadas nos existentes. A estupidez vinda desta senhora foi avassaladora.
A grunhice da conferência foi de tal ordem que houve quem sugerisse que se deviam diminuir os direitos das mulheres para não incomodar os imigrantes que chegavam de sítios mais conservadores. Bernardo Blanco e uma outra criatura da assistência puseram em causa a existência da licença de maternidade porque, afinal, é um direito que discrimina positivamente as mulheres e, portanto, não é justo para os homens; também argumentavam que não era o estado que tinha de suportar a escolha individual das mulheres terem filhos. Sim, foi a este nível e foi este Bernardo Blanco que Cotrim de Figueiredo escolheu para diretor de campanha. (Até a IL no parlamento já se conseguiu livrar de Bernardo Blanco, mas Cotrim reciclou-o).
Bernardo Blanco fez parte de uma coisa tenebrosa que era o Instituto Mises Portugal, grupo de gente anarco capitalista que gozava (gulosamente) com os assassinatos de Pinochet dos comunistas que eram atirados de helicópteros. Que debatiam, como se fosse debatível, a ‘remoção física’ de comunistas e - tcharan - democratas. Bernardo Blanco é um extremista e um fanático que faz António Filipe parecer moderado. E, na minha humilde opinião, capaz de tudo.
Outra pessoa que é mencionada nas alegações de assédio a Cotrim de Figueiredo é Ricardo Pais Oliveira. Não o conheço pessoalmente, mas foi a pessoa que organizou no twitter, nos primórdios da IL, a campanha mais nojenta de ódio online aos opositores que eu jamais vi. Não pode ser pessoa decente.
Isto para dizer o quê? Alguém que desgosta destas duas personalidades é uma pessoa com valores no sítio certo e que me merece, pelo menos, o benefício da dúvida. Mais do que quem escolhe rodear-se destas pessoas."
Funker Vogt - Wahre Helden
Aggrotech (ou Hellektro) é um subgénero agressivo de música eletrónica industrial, caracterizado por batidas de techno rápidas, vocais distorcidos e sintetizadores pesados, com temas líricos sombrios, militares e apocalípticos, popular nos anos 2000 e associado a estéticas como o cybergoth. Bandas como Combichrist, Hocico e Grendel são exemplos do género, que combina elementos de hard electro, EBM e industrial hardcore, explorando visuais de guerra urbana, biohazard e temas perturbadores.
Características Principais:
- Música: batidas eletrónicas fortes, sintetizadores proeminentes (muitas vezes com o som 'Supersaw'), vocais agressivos, distorcidos ou alterados, e uso de efeitos de glitch e estática.
- Origens: desenvolveu-se a partir do electro-industrial e do dark electro, emergindo em meados/fins dos anos 90 na Alemanha e Bélgica (onde é conhecido como Hellektro).
- Temas Líricos: exploram a misantropia, violência, terror, temas médicos, distopias e cenários de "fim do mundo".
- Estética visual: fortemente influenciada por temas táticos, militares, biohazard (símbolos de radiação, máscaras de gás) e imagens de horror/fetiche, contrastando com cores neon do cybergoth tradicional. Artistas Notáveis: Funker Vogt, Combichrist, Hocico, Grendel, Psyclon Nine, Suicide Commando, Agonoize, Nachtmahr.
- Popularidade: teve um pico de sucesso underground nos anos 2000, com a ascensão da subcultura cybergoth, embora a sua popularidade tenha diminuído nos anos 2010, com muitos artistas a migrarem para outros estilos.
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sexta-feira, 26 de dezembro de 2025
A era das relações tóxicas
“Todos estamos em perigo”, disse Pasolini em sua última entrevista, poucas horas antes de ser assassinado. Esta frase me vem à mente ao ler o último livro da psicanalista Clotilde Leguil, A Era do Tóxico – Ensaio sobre o novo mal-estar na civilização [sem tradução para no Brasil]. Todos estamos em perigo não apenas pela ameaça externa de poderes destrutivos para a vida, mas também pela possibilidade de que o veneno da destrutividade atue e se espalhe a partir do nosso próprio interior. Nós somos parte do perigo.
É isso que Leguil se propõe a pensar, escutando o que diz uma palavra-sintoma que circula hoje por toda parte: o “tóxico”. Com o auxílio da literatura, do cinema e da psicanálise, Leguil interpreta o tóxico como um novo imperativo de gozo, a compulsão por uma satisfação bruta e imediata, uma voracidade que não pode ser saciada de forma alguma. O mal do ilimitado. O regime do hiper (hiperatividade, hiperestimulação, hipersexualização).
O filósofo Félix Guattari propôs, há vinte e cinco anos, pensar interligados três “ecossistemas”: o íntimo, o relacional e o planetário. O ensaio de Leguil reflete sobre o “veneno” que hoje ameaça desertificar os três, esgotando o corpo individual, social e terrestre. E propõe uma ética do desejo, da responsabilidade perante o nosso desejo, como resistência e limite.
O mal-estar do ilimitado
Apesar de Heidegger, que afirmava que a fala corrente é uma fala “inautêntica”, repleta de clichês, a senhora decide escutar o mal-estar na linguagem ordinária e fixa-se numa palavra de uso corrente hoje: o tóxico. Um exercício de escuta analítico, poderíamos dizer, de um sintoma de época. Quais possibilidades e riscos tem este exercício de escuta? A senhora teme ter contribuído para legitimar uma palavra que provém do âmbito da autoajuda, do coaching, da educação sentimental das redes sociais?
Interessei-me por este significante do “tóxico” a partir do seu novo uso, que me fez levantar questões. Apostei em levar a sério esta extensão do termo, própria da nossa época. Hoje em dia, o tóxico já não designa apenas as substâncias em si, mas uma modalidade de relação com o outro, que se assemelharia a um veneno. Partindo desta constatação, tentei interpretar esta nova metáfora do nosso mal-estar, uma nova metáfora que capturei primeiro através da linguagem, do discurso concreto, da forma como os sujeitos falam do seu mal-estar. Não se trata apenas de usar esta palavra para legitimá-la, mas de interpretá-la e tentar ver o que ela abrange, de que é sintoma.
O tóxico, diz a senhora, fala-nos de um novo mal-estar, do mal-estar específico da nossa época. Já não estamos na época em que o mal-estar tinha a ver com a proibição e a lei, com um esmagamento do desejo através da repressão, mas houve uma mudança. Do que se trata?
Efetivamente, interpretei esta influência do tóxico nas relações humanas a partir da psicanálise. Na minha opinião, ela testemunha uma nova figura do Supereu, aquela que Lacan definiu em seu escrito Kant com Sade em 1963. Estaríamos nos encontrando perante uma inversão do Supereu da proibição, do Supereu freudiano. E esta inversão revelaria também a verdadeira função do Supereu, que é sempre da ordem da forçatura, do forçamento. Este novo Supereu é aquele que força a gozar cada vez mais. Produz o que Lacan chamou a busca de um plus de gozo, que se impõe a cada um. O termo “tóxico” poderia dar testemunho dos efeitos deste “excesso” de gozo, não no sentido de “excesso” de prazer, mas no sentido de “excesso” de forçamento do prazer, de exigências pulsionais que aniquilam o desejo.
O tóxico, no uso corrente do termo, faz-nos pensar sempre que é um problema do outro. O outro é a pessoa tóxica da qual convém afastar-se, o tóxico vem de fora, etc. No entanto, a senhora complexifica o termo para nos dar a entender que o tóxico está em nós mesmos. O “fora”, o que vem de fora, articula-se ou ativa algo “dentro”, no nosso próprio interior. Como é essa dialética dentro-fora?
Sim, a experiência tóxica, tal como a interpreto, é da ordem de uma nova dialética entre o exterior e o interior. Algo do outro vem tocar o nosso corpo, como uma flecha envenenada que nos fere, mas, antes disso, também nos embriaga. É o lado anfibológico do tóxico: por um lado, a experiência tóxica faz experimentar uma forma de prazer estranho e novo; por outro lado, conduz a derivar para um gozo mau e destrutivo.
A marca do excesso no nosso interior, diz a senhora, é a “pulsão”. O mandato de época impele à satisfação pulsional total. Mas, o que é a pulsão? É biológica, é cultural? É ontológica, é histórica? Um cruzamento de ambas?
A pulsão, tal como a define Freud, é uma força libidinal que se situa entre o somático e o psíquico. Direi com Lacan que a pulsão é também o que responde no corpo a uma angústia perante o desejo do outro. É a forma como o vínculo com o outro pode suscitar uma espécie de exigência pulsional, à qual o sujeito não consegue dizer “não”. A dimensão da hýbris, do excesso, poderia ser a que evoca o termo “tóxico”. Há algo que é “demasiado” e que provoca angústia.
No gozo, no tóxico, o outro, o diferente, desaparecem. Desaparece o vínculo, desaparece o tempo como duração, desaparece o mundo compartilhado. Evaporam-se como simples instrumentos ou ocasiões de gozo. Isso tem efeitos terríveis sobre o que Félix Guattari chamava de “as três ecologias”: o ecossistema pessoal, o ecossistema social e o ecossistema terrestre. Em todos os três casos, um tipo de forçamento ameaça chegar até o colapso e o esgotamento (da energia, da atenção, dos vínculos).
Sim, no meu ensaio interessei-me por estes três campos: o campo íntimo, o campo ecológico e o campo político. Porque o interesse deste termo “tóxico” é que se situa na encruzilhada dos três. Em cada um deles, o que se denomina “tóxico” é o que põe em perigo a vida, o que obriga os seres vivos a suportar uma estimulação que vai além do suportável.
O tóxico articula-se com a linguagem. Há uma palavra que envenena. Como entender isto?
Situo a experiência tóxica no nível de uma modalidade do discurso que exige uma forma de forçamento pulsional que coloca o sujeito em perigo: uma frase tóxica seria uma frase que envenena o sujeito, injetando em seu corpo uma forma de crença, mas também transgredindo uma fronteira. Penso nos discursos tóxicos como aqueles que te fazem abandonar toda ética.
Poderíamos entender assim o discurso das novas ultradireitas? Um discurso que induz e justifica a rejeição ao diferente (as mulheres, os migrantes), a cegueira em relação aos limites (as desigualdades, o entorno natural), etc. Judith Butler fala do “sadismo desavergonhado” de Trump como novo tipo de poder, uma nova retórica de poder, uma nova exibição do poder.
Podemos falar de toxicidade do poder, pensando na dimensão predatória de certa modalidade de exercício do poder. O que há então de tóxico nestes discursos é a abolição de toda relação com a verdade, a história e a ética. É também o que se denomina pós-verdade, que permite reescrever a História. O apagamento da verdade histórica é sempre um mau augúrio. Lembremos 1984, de George Orwell. O regime do Grande Irmão, mediante uma propaganda contínua, tenta envenenar a psique dos indivíduos até fazê-los renunciar a toda singularidade. O poder tóxico é aquele que conduz à renúncia de toda ética. Portanto, continua a ser necessário perguntar-se sempre: “A que obedecemos? Em que acreditamos? A que consentimos?”.
A resistência do desejo
Não é fácil limitar o gozo. Não se trata de uma questão racional, de informação, de melhores argumentos ou novas pedagogias, mas sim de algo do corpo. O mal, o perigo, estão no corpo. O que cura, o que salva, portanto, também deve provir do corpo. Aqui encontro um limite ao racionalismo progressista da esquerda, tão confiante sempre no discurso, na política da explicação, mas tão ignorante por vezes do corpo, da realidade pulsional.
A busca de um limite é o resultado de uma forma de angústia perante esta desmedida, perante esta deriva. Mas este limite não dependerá de nenhuma pedagogia. Porque, com a experiência tóxica, trata-se daquilo que o sujeito não compreende, não sabe, não vê. Portanto, trata-se também do inconsciente. E de um inconsciente que se acopla ao corpo, como diz Lacan em Televisão. Por isso, a palavra na psicanálise não é da mesma ordem que uma racionalização ou uma introspecção. Trata-se de poder dizer o que nos supera, o que nos transborda, o que nos confronta também com um enigma na relação com o desejo e o gozo.
Os limites clássicos evaporam-se: o Saber, o Pai, a Lei mostram hoje uma face obscura, muito inquietante para o pensamento ilustrado. Retomando a análise de Lacan, a senhora faz uma crítica das insuficiências de Kant e do seu imperativo categórico. Em que consiste essa crítica?
Lacan mostrou em Kant com Sade – escrito que a princípio era um prefácio para A Filosofia no Boudoir do Marquês de Sade – uma proximidade entre o dever moral kantiano e o imperativo do gozo sádico. Um seria a outra face do outro. Tanto no imperativo categórico kantiano quanto no imperativo do gozo sadiano, trata-se de sacrificar algo do próprio desejo e da relação com o objeto do desejo. Em Kant, este sacrifício faz-se em nome da relação com o universal; em Sade, este sacrifício faz-se em nome da necessidade de obedecer à natureza, que segundo ele quer o crime, ou seja, o prazer sem limites. Portanto, deve existir uma terceira via, que abra caminho ao desejo.
A palavra é toxikon e phármakon. Pode envenenar o corpo, como dissemos antes, mas também pode acalmá-lo, aliviá-lo, curá-lo. Que tipo de palavra é essa que cura, ou pode curar, diferente, pelo que entendo, do mero Logos-Lei (deves/não deves)?
Se algumas palavras podem ser tóxicas, ou seja, empurrar para a pulsão de morte, outras palavras podem ser remédios. A cura pela palavra que é a psicanálise faz da experiência de “dizer” um phármakon. Tentar “dizer” o que nos envenenou também nos leva a desfazermo-nos disso, a desprender-nos disso, a separar-nos disso. Através da palavra como phármakon, o sujeito volta a conectar com o seu desejo, ou seja, com o seu poder de agir. Porque, ao interpretar os conflitos e tormentos da sua existência, também pode perceber o ponto em que tem certa responsabilidade na forma como responde aos acontecimentos da sua existência.
O que pode limitar o gozo é o desejo. É a proposta forte do livro, desenvolvida na sua última parte. Qual é a diferença entre gozo e desejo? Por que “só o desejo pode desintoxicar-me”?
Sim, esta distinção lacaniana entre desejo e gozo é fundamental, já que proporciona uma orientação ética. Permite ver com maior clareza a questão: “Mas o que é o bom?” Ou também: “Como saber o que devo fazer?”, “Como saber se devo dar rédea solta a uma forma de gozo ou se devo virar noutra direção?”. A fórmula de Lacan no seu seminário sobre A Ética da Psicanálise, “não ceder no desejo”, permite valorizar o desejo como um antídoto contra a pulsão de morte.
Essa última parte, aviso, está escrita em primeira pessoa. Pensando o tempo todo que o seu livro aborda o problema do gozo nos seus aspetos sociais, coletivos, políticos (emergência climática, management, poder tóxico), pergunto-me: há uma dimensão ou declinação coletiva, política, partilhada do desejo? Podemos conceber “políticas do desejo”, antídotos coletivos?
A relação com o desejo não é alheia à civilização e trata-se precisamente de abrir um caminho ao desejo para que a civilização seja em si mesma desejável. Neste sentido, há uma dimensão política na ética do desejo.
Em cada um dos meus livros, direi que há um elogio da singularidade do sujeito, do valor do desejo, mas também da necessidade do encontro. Porque o desejo sempre supõe também o encontro com o “desejo do outro”. Como escreveu Alexandre Kojève, o grande introdutor de Hegel em França, a nossa história é sempre a dos “desejos desejados”. Este é, a propósito, o tema do meu novo ensaio: O Desprendimento – Ensaio sobre as molas íntimas da desobediência, que acaba de ser publicado.
sábado, 19 de julho de 2025
O mundo é dos brutos — a ascensão da violência e a queda da empatia
Qualquer pessoa que conheça história sabe que aquilo a que chamamos “civilização” é muito mais frágil do que a crueldade, a violência, a prepotência, a vingança, o poder absoluto e brutal. Não é preciso sequer escolher grandes períodos da história, a “civilização” é uma raridade, acontece por pequenos períodos, torna a vida dos que vivem nesses tempos melhor e depois esgota-se e acaba. Não me interessa fazer grandes exercícios analíticos sobre qualquer das palavras que estou a usar, seja civilização, seja barbárie, toda a gente sabe a diferença entre um mundo, imperfeito que seja, desigual, muitas vezes injusto, mas onde as pessoas são senhoras do seu destino pelo voto, vivem no primado da lei, têm liberdade religiosa, acedem a condições mínimas de existência. Para contrariar o meu argumento podem vir com mil exemplos de imperfeição, de injustiça, de exclusão, mas o que sobra é melhor do que um mundo com pena de morte, tortura, censura, ausência de direitos, em que todos são indefesos face aos mais fortes.
A “civilização” como a conhecemos no mundo democrático ocidental está a acabar, diante dos nossos olhos, pela ascensão da brutalidade, da educação dos jovens pela distracção, da ignorância e do valor da força, do individualismo agressivo, do culto da ignorância e do pseudo-igualitarismo das redes sociais. A violência torna-se a regra nas relações como “outro” e o “outro” é fácil de encontrar nas nossas ruas, os imigrantes.
Não adianta virem-me dar lições de que este catastrofismo civilizacional é recorrente em certos momentos da história cultural, o que é verdade. Mas também é verdade que a catástrofe já ocorreu várias vezes, uma das quais nos anos 20-30 do século passado. O mundo que filósofos como Comte entendiam ter entrado numa senda de “progresso”, com a revolução técnico-científica do final do século XIX, entrou na barbárie da I e da II Guerra com milhões de mortos e anos de brutalidade em vários países “civilizados” da Europa e na URSS.
Há muitas explicações socioeconómicas para esta crise civilizacional, muito sérias, mas a guerra cultural dos nossos dias tem um papel fundamental. O culto imberbe pela modernidade, assente num deslumbramento tecnológico que oculta muita preguiça e manipulação, em que meia dúzia de gestos num telemóvel, explorando três ou quatro funções simples, passam por um saber semelhante ao falar português sem um erro ortográfico a cada palavra, a arrogância de dar opiniões sobre coisas que não se viram, ouviram e leram — tudo isto ajuda a erodir a frágil democracia porque “molda” a cabeça. É o que já cá está e o que vem aí.
Basta ver o X para se perceber o impacto em quem vive dependurado nas redes do que lá encontra: cenas de violência em que velhos, mulheres e brancos são atacados por imigrantes, em que mulheres de burka reclamam a conversão da Europa ao Islão, cenas de pancadaria para “punir” um ladrão ou um molestador apanhado em flagrante por “cidadãos verdadeiros”, acidentes de automóvel com pancadaria, uma sucessão elogiosa de enormes explosões na Síria, no Líbano, em Gaza, com origem nos “amigos de Israel”, a generalização da palavra “traidor” para designar quem não participa da fúria anti-imigrante e não quer participar na chamada “remigração” (e porque não organizar uns pogroms?), etc., etc.
No Instagram e no TikTok, um bom exemplo da platitude intelectual dos nossos dias é a classificação de “influenciadores”. Uma pequena multidão compete por essa “influência” nas redes sociais, alguns/algumas com alguma imaginação e esperteza, mas, por regra, com uma absoluta indigência intelectual, gigantesca ignorância, muito mau carácter, e truques de ganância que é, nos nossos dias, o principal motivador dinâmico do comportamento. Esses “influenciadores”, na sua maioria do sexo feminino, actuam para um público adolescente, também na sua maioria feminino, mas atingindo um público muito mais vasto e para além do nível etário da adolescência, embora, como se saiba, nos dias de hoje é-se jovem até aos 35 anos.
Alguns/algumas já cometeram crimes, desde violência sobre crianças (a história do banho de água fria para calar os berros da filha) ao atropelamento e fuga de um “criador de conteúdos”, forcado e apoiante do Chega. Ambos gabaram-se destes feitos, porque tudo é bom para terem os célebres 15 minutos de fama, e acabaram em tribunal. O facto de terem feito estas violências sem qualquer hesitação moral significa que olharam para elas como olham milhares de pessoas cuja principal preocupação, quando assistem a uma qualquer violência sobre os mais fracos, é puxar do telemóvel e filmar, para terem “material” para colocar nas redes sociais, e não ajudar.
No plano político, nestes “influenciadores”, predominam os homens e o Chega. Produzem uns comentários indigentes, mas sublinhando os temas da propaganda do partido, e fazem quase de imediato uns pequenos filmes em que qualquer das personagens da direita radical que tenha um debate com alguém à esquerda “arrasa”, “esmaga”, com imagem a condizer. As redes sociais, o YouTube, o Instagram, o TikTok estão cheios destes produtos, que funcionam como multiplicadores e são consumidos por um público jovem e adulto, o jovem mais atraído pela distracção que dá o confronto, quem “ganha” e quem “perde”, o adulto procurando um espelho daquilo que já pensa.
Este submundo é hoje o mundo. Sem princípios, sem saber, sem mediação, com apologia da força, elogio da violência e hostilidade aos mais fracos. Já estão a ganhar e, se os justos não lhes respondem alto e bom som, ainda vai ser pior.
terça-feira, 23 de maio de 2023
Música do BioTerra: Nico - Femme Fatale
You better watch your step
She's going to break your heart in two
It's true
It's not hard to realize
Just look into her false colored eyes
She builds you up to just put you down
What a clown
'Cause everybody knows
(She's a femme fatale)
The thing she does to please
(She's a femme fatale)
She's just a little tease
(She's a femme fatale)
See the way she walks
Hear the way she talks
You're put down in her book
You're number thirty-seven, have a look
She's going to smile to make you frown
What a clown
Little boy, she's from the street
Before you start, you're already beat
She's gonna play you for a fool
Yes, it's true
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domingo, 8 de agosto de 2021
Filme: Last Night in Soho - A Noite Passada em Soho (2021)
O filme Last Night in Soho (2021), realizado por Edgar Wright e coescrito por Krysty Wilson-Cairns, estrutura-se como um thriller psicológico profundamente interdisciplinar que entretece a estética do terror com reflexões sobre a memória, o trauma e a obsessão.
Sinopse
No domínio da saúde mental, a fita mobiliza quadros da neuropsiquiatria como motores da tensão e do isolamento. A sensibilidade empática e a sinestesia da protagonista Eloise articulam-se com a herança psiquiátrica de uma mãe vitimada pela psicose, gerando um constante estado de paranoia em torno da dúvida entre o discernimento da realidade e o início de um surto. Paralelamente, a trajetória da personagem Sandie reflete o impacto do trauma complexo (C-PTSD) e da violência sistémica, demonstrando a dissociação como mecanismo de defesa da identidade, enquanto a fixação pela década de 1960 surge como uma resposta de esquiva cognitiva e negação da adaptação ao presente.
Sobre o Filme
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sábado, 20 de abril de 2019
Ensaios produzidos por Adauto Novaes agora estão disponíveis na internet
Mutações: A Resistência pelo Pensamento
As revoluções biotecnológica, científica e digital empurraram-nos para mutações vertiginosas, que tendem a eliminar o pensamento e a tornar-nos reféns do que o poeta Paul Valéry chamou de "barbárie dos factos". Há 13 anos que Adauto Novaes coordena ciclos sobre múltiplos aspetos das mutações, com a participação de alguns dos mais brilhantes intelectuais brasileiros e estrangeiros. Publicou seis volumes de ensaios, que abordam os temas da violência, da velocidade, da preguiça produtiva, da destruição do pensamento, da revolução digital, do vácuo dos valores e da necessidade de cultivar "as coisas vagas" (a arte, o pensamento, o ócio criativo e a crítica).
Mas, agora, o ciclo entra numa nova etapa, com a chegada à plataforma digital. Uma vaga de 313 ensaios e 24 filmes está disponível, gratuitamente, no site Artepensamento; em breve, serão acrescentados mais 345 ensaios, perfazendo quase 900. O alvo são, principalmente, os estudantes universitários. Lá, poderão ler textos de François Hartog, José Miguel Wisnik, Jacques Rancière, Marilena Chauí, Nicole Loraux, Gérard Lebrun, Benedito Coutinho, José Américo Pessanha, entre outros.
Nos ensaios, os autores travam um corpo a corpo dramático com os temas urgentes do nosso tempo:
"É quase uma enciclopédia", comenta Adauto Novaes. O professor Antônio Candido escreveu que o ciclo das mutações constitui um dos feitos mais importantes do nosso tempo no país. E, nesta entrevista, Adauto fala sobre o percurso dos 13 anos de mutações, a perspetiva de interação digital, o diálogo com as novas gerações e os desafios de um tempo sem passado e sem futuro, refém de um eterno presente.
As plataformas digitais foram temas de reflexões e críticas nos ciclos por si promovidos. O que é que elas proporcionam na difusão do projeto das mutações?
Na realidade, temos de ser coerentes com o que discutimos há 13 anos: as mutações produzidas pelas revoluções biotecnológica, científica e digital. Seria uma incoerência não usarmos a plataforma digital. É algo incontornável para quem deseja comunicar e interagir com as novas gerações. Os livros são muito importantes, fizeram história, como disse Antonio Candido. Mas as novas gerações procuram o conhecimento dos textos através dos novos meios. Pouco tempo após o lançamento, temos mais de 130 mil acessos. Mas o próprio Antonio Candido escreveu que os ciclos da mutação constituem um dos feitos mais importantes do nosso tempo no Brasil. Traçam os rumos da civilização contemporânea. Por todas estas razões, é importante que cheguem às novas gerações.
Como avalia o trajeto do ciclo das mutações?
Começámos com os sentidos da paixão, o desejo, temas que mesmo o pensamento de esquerda não levava em conta. Diziam que eram coisas ilusórias. Mas são elas que definem a atividade humana. Chegou um momento em que a ideia de "crise" já não era suficiente para explicar o que acontecia no mundo. Então, começámos com a ideia das mutações.
O que caracteriza, essencialmente, o tempo de mutações?
Diferente do Iluminismo, é uma era feita no vazio do pensamento, como dizia Hannah Arendt. A contribuição que damos é essa. Incluiremos os seis primeiros livros sobre as mutações. É algo muito sério. Se a política está neste estado, se os valores tendem a desaparecer, temos de refletir. Gostaria de ressaltar que grandes pensadores do Brasil e do exterior, na atualidade, participaram no ciclo. Poderia citar François Hartog, Frédéric Gros, Nicole Loraux, Jacques Rancière. E também do Brasil: José Américo Pessanha, Marilena Chauí, José Miguel Wisnik, Gerard Lebrun. Se não tivéssemos criado a plataforma, as novas gerações não saberiam. Os ensaios foram publicados em livro, mas, quase sempre, só estavam acessíveis às pessoas de algumas capitais. No Nordeste, por exemplo, muitas pessoas não têm acesso a esses livros. Preparámos cuidadosamente a apresentação; cada ensaio é precedido de uma síntese; trabalho com uma equipa há dois anos.
Como vê as possibilidades de uso deste material pelas novas gerações e pelos cursos universitários?
Isso é fundamental. E está a ser usado. Não é que o livro vá desaparecer. Mas a tendência é que as novas gerações procurem o conhecimento nos novos meios. Encontro-me com professores e eles dizem que está a ser muito útil. Se quer discutir filosofia, história, tecnologia, biociência ou ética, está tudo ali. É um pouco uma enciclopédia.
Que balanço faz das séries, que vão do silêncio dos intelectuais ao desejo, às paixões, às novas tecnologias e à barbárie?
Sempre nos preocupámos muito com isso. Vai sair um novo livro do ciclo, Dissonâncias do Progresso. É uma crítica contra o progresso, que se tornou extremamente atual. Há uma negação muito grande em relação às humanidades. Veja-se o que está a acontecer com as grandes empresas de mineração em Minas Gerais. É o resultado de uma ideia de progresso que não quer saber do que acontece. A questão da bomba atómica e a possibilidade apocalíptica rondam-nos o tempo todo.
Estas linhas de pensamento ajudam a pensar ou a repensar o Brasil e o mundo?
Esse é o grande problema. O próprio Claude Lefort disse-me uma vez: "Temos de repensar todos os conceitos, até o de luta de classes. A própria classe operária tende a desaparecer. Existe a classe de trabalhadores". Ajuda a repensar os conceitos da política. A globalização criou um estado de desespero para os indivíduos. O pensador polaco Zygmunt Bauman disse que, antes da globalização, existia a luta de classes; hoje, existe a luta do indivíduo contra o resto do mundo.
O que pensa dessa afirmação?
É que, na globalização, existe uma tendência para o egoísmo organizado; a ideia de comunidade tende a desaparecer da história. Robert Musil dizia que o capitalismo é o egoísmo organizado. Há um problema muito maior aí: a própria política tende a desaparecer. Quem manda são os conglomerados e os técnicos. Numa sociedade tecnicizada, a política também tende a ser tecnicizada.
É precisa muita velocidade de pensamento para acompanhar as mutações do mundo globalizado? Fizemos um ciclo muito importante, O Elogio da Preguiça. Sem o tempo do ócio, não se cria nem obra de arte nem pensamento. Vivemos um momento em que não se vive o tempo do pensamento. As pessoas submetem-se a este tempo veloz da vida. E isso é terrível.
E como é que este estado de coisas está a afetar a escalada da violência?
As pessoas acabam por interiorizar muito a violência e o ódio. Albert Camus deu conferências nos Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial. Muitos acreditam que o monstro morreu, mas o veneno não morreu: o nazismo e o nazi-fascismo. A civilização criou muitas coisas importantes e corretas, mas também acumulou muito ódio. Só é possível superar este estado de coisas com um trabalho cuidadoso da educação e da sociedade. Temos de pensar mais profundamente sobre a constituição do ódio e da violência.
O que cria um clima favorável aos valores do nazismo e do fascismo nos dias de hoje?
O neofascismo adquiriu uma nova forma. Não é a mesma coisa de 1940. E estamos a ver como estas coisas estão a acontecer. O domínio da tecnociência distrai o pensamento, ninguém pensa mais. A sociedade já não tem forma porque não tem ideias. Qualquer coisa que se apresente tem probabilidades de obter adesão. Não é só no Brasil, mas também na Holanda, na Áustria e na Alemanha. Paul Valéry tem uma ideia interessante; diz que a barbárie é o império dos factos, e que precisaríamos das "coisas vagas", que são a arte, as ideias políticas e as utopias. A ausência de pensamento é um "prato cheio" para os aventureiros se estabelecerem. Valéry dizia, também, que estamos a viver um tempo em que desapareceram as duas maiores invenções da humanidade: o passado e o futuro. Não sabem o que aconteceu há 10 ou há 50 anos. As revoluções anteriores permitiam dar um salto. Mas, se o passado desaparece, não temos futuro. Ficamos reféns do presente e da barbárie dos factos.
domingo, 13 de abril de 2008
Grupo 1143: organização envolvida em várias polémicas e manifestações racistas e xenófobas
O 1143 é um grupo neo-nazi, formado em 2003 no seio da Juventude Leonina e liderado por Mário Machado, que tomou contacto com as ideologias de extrema-direita ao frequentar os jogos com a claque, com 13 anos. Na altura, era composto por skinheads, na sua maioria jovens com menos de 30 anos, e estava intimamente ligado aos Hammerskins, o grupo de extrema-direita mais violento das últimas décadas em Portugal.
Apesar de ter nascido no seio da claque verde e branca, o 1143 isolava-se em relação aos restantes membros da Juventude Leonina. Este isolamento, a par com os ataques racistas cometidos contra adeptos da própria equipa de futebol, acabou por levar à separação da claque logo em fevereiro de 2003.
Conhecido pela violência durante os jogos, ataques racistas indiscriminados e o uso de símbolos nazis – como a suástica, a cruz celta ou as runas SS, usadas pela polícia paramilitar política nazi –, serviu como ferramenta de recrutamento para os Hammerskins. Historicamente, o 1143 faz parte de uma rede alargada de organizações de extrema-direita em Portugal, cujo ponto de contacto é Mário Machado.
Entre estas organizações contam-se o PNR – que entretanto mudou o nome para Ergue-te e de que Mário Machado foi um destacado dirigente –, a Frente Nacional, a banda de rock Ódio, o Fórum Nacional ou a Nova Ordem Social, fundados por Mário Machado.
O longo sono do 1143
Em 2015, lia-se nas redes sociais afetas aos verdes e brancos que o 1143 estava “morto”, os seus membros “casados ou reformados”. Outros defendiam que estava apenas “adormecido”, devido à saída de Mário Machado, em 2014, e às detenções de cerca de 20 membros dos Hammerskins, em 2016.
O grupo parece ter acordado, no final do ano passado, desse longo sono, reorganizado como movimento político anti-muçulmano. Mário Machado reformulou a organização que fundou há 20 anos, que agora se dedica a perseguir minorias, ataca os símbolos do progressismo em Portugal e organiza manifestações contra muçulmanos e imigrantes.
Apesar de não ser explícita a ligação aos Hammerskins, continua a usar os seus símbolos, slogans e estética. O grupo continua a usar a referência à fundação de Portugal no nome – 1143, ano da assinatura do Tratado de Zamora, em que Portugal se tornou independente de Espanha – e o slogan “Orgulhosamente Sós” utilizado pelos ultras do futebol.
A estreita ligação entre o 1143 e os Hammerskins foi sendo descoberta pelas autoridades, nomeadamente através de buscas e operações policiais realizadas ao longo dos anos. Documentos judiciais obtidos pelo Projeto Global Contra o Ódio e o Extremismo, relacionados com uma rusga aos Hammerskins, em 2016, demonstram que foram apreendidos vários objetos do 1143, como um taco de basebol de madeira com ponta de chumbo e a inscrição “grupo 1143”.
A política e as ruas como base de apoio
Com esta refundação levada a cabo por Mário Machado, em 2014, depois de ter saído da prisão, o 1143 alargou-se além das bancadas dos estádios de futebol e procurou diversificar a sua base de apoio nas ruas, fora dos tradicionais círculos neo-nazis e da extrema-direita. Se, anteriormente, era composto quase exclusivamente por jovens homens brancos, o grupo conseguiu atrair uma pequena percentagem de mulheres.
Entre os apoiantes do 1143 contam-se os habituais adeptos de grupos neofascistas, como skinheads, nazis de estilo casual e promotores regulares de conteúdos neo-nazis nas redes sociais como o X, que viu um aumento do discurso de ódio desde que Elon Musk comprou o então Twitter. Os números 1143 e 88 – respetivamente ligados à fundação de Portugal e ao Adolf Hitler – estão bem representados nos nomes de vários utilizadores ligados ao grupo.
Com membros e apoiantes em várias cidades, entre elas Lisboa, Porto, Évora, Braga, Guimarães, Évora e Santarém, o 1143 é responsável pela organização de várias ações de rua racistas e xenófobas, como a inscrição nas paredes com símbolos do 1143, bandeiras LGBTQ+ rasgadas e o assédio a minorias em todo o país. Várias dessas inscrições incluem símbolos tradicionais da extrema-direita, como o slogan “Portugal aos Portugueses” ou a cruz celta neonazi.
Foi também à política que o 1143 foi buscar apoiantes. A sua ligação ao PNR é antiga. Depois do desaparecimento da Frente Nacional – que fundou, em 2004, como movimento nacionalista de participação política, adotando o mesmo nome do partido francês liderado por Jean-Marie Le Pen, em França, entretanto rebatizado União Nacional, sob liderança da filha, Marine Le Pen; do partido político que teve uma breve existência em 1980; e da organização defensora do Estado Novo, fundada em 1959 –, juntou-se ao PNR, em 2005, levando consigo elementos da Frente Nacional.
A relação de Mário Machado com José Pinto Coelho é antiga. “Sou amigo do Mário, é um excelente nacionalista. Aprovo todos os tipos de nacionalismo, de toda a gente que ama a sua pátria. O Mário foi a face mais visível da fase impulsionadora do nacionalismo”, dizia o presidente do PNR, a 14 de abril de 2007, em entrevista ao Sol.
A sua influência dentro do partido liderado por José Pinto Coelho está documentada em escutas telefónicas ao militante da extrema-direita, em que este terá dado “instruções ao presidente” sobre a “estrutura orgânica, intervenções e iniciativas partidárias”. Fontes ligadas à investigação asseguraram ao Correio da Manhã que as conversas gravadas “não deixam dúvidas. Há instruções ao nível de intervenções públicas, iniciativas do partido e até distribuição de cargos dentro do PNR”.
No entanto, com o eclipse do PNR, motivado pelo aparecimento e crescimento do Chega – que, segundo os especialistas, teve um efeito de eucalipto político para a fação nacionalista portuguesa – e diferendos entre Mário Machado e José Pinto Coelho sobre o rumo a seguir pelo partido, levou a que o 1143 se aproximasse do partido fundado em 2019 por André Ventura. Vários ativistas do partido, que estiveram presentes em convenções partidárias, costumam partilhar conteúdos do 1143 nas redes sociais.
O Projeto Global Contra o Ódio e o Extremismo garante que “vários membros do Chega, antigos e atuais, fazem parte do movimento”, entre eles Rui Roque, proponente da polémica moção para a remoção do útero de qualquer pessoas que realize um aborto.
Manifestação e contra-manifestação
A 18 de junho de 2005, Mário Machado foi um dos organizadores daquela que foi na altura considerada “a maior manifestação xenófoba de sempre”, precisamente entre o Martim Moniz e o Rossio. O encontro foi convocado pela Frente Nacional e tinha como objetivo combater a “criminalidade crescente”, a par de vários apelos ao repatriamento de imigrantes.
A manifestação surgiu depois de conhecidas notícias que davam conta de um arrastão na praia de Carcavelos. As imagens transmitidas mostravam jovens negros a correr pela praia, o que provocou uma reação da Frente Nacional e do PNR, que aproveitaram a ocasião para convocar a manifestação para a semana seguinte. Associaram-se ao evento várias organizações de extrema-direita, como a Causa Identitária, o que motivou protestos d’Os Verdes, Frente Anti-Racista, Renovação Comunista, CDS e do bispo das Forças Armadas.
“Queremos dizer aos portugueses que existem brancos que têm muito orgulho em ser brancos e estão aqui para atender aos interesses dos portugueses. Porque nós somos portugueses há 850 anos. Não somos portugueses há 30. (…) Eles não podem pensar que vêm aqui fazer o que querem. Isto é nosso”, afirmou na altura Mário Machado à reportagem da SIC.
Juntaram-se entre 300 a 500 manifestantes, número inédito em manifestações de extrema-direita desde 1970, com cabeças rapadas, cruzes suásticas tatuadas e saudações nazis, enquanto entoavam o hino nacional e empunhavam bandeiras nacionais e do PNR e cartazes e faixas com frases como “Isto é nosso”, “Não existem direitos iguais quando és um alvo por seres branco” e “Imigrantes igual a crime”.
Nesse dia, à chegada ao Rossio, registaram-se momentos tensos entre os manifestantes e alguns populares, que gritaram palavras de ordem como “Fascistas!” e “25 de abril sempre!”. A atuação do Corpo de Intervenção da PSP e agentes com cães impediram que a situação escalasse para a violência.
Quem é Mário Machado
Nascido em 1977, é considerado um dos nomes mais conhecidos e o mais influente ativista da extrema-direita em Portugal. Desde cedo que esteve ligado a diversas organizações da extrema-direita, como os Hammerskins, o Movimento de Ação Nacional, Ordem Lusa, Irmandade Ariana ou o PNR, tendo fundado vários movimentos, como a Frente Nacional e Nova Ordem Social, que liderou entre 2014 e 2019.
O militante de extrema-direita tem um registo criminal marcado por várias condenações, entre as quais a sentença, em 1997, a quatro anos e três meses de prisão pelo envolvimento na morte de Alcindo Monteiro.
A 10 de Junho de 1995, Alcindo Monteiro foi brutalmente agredido por membros do grupo 1143, no Bairro Alto, em Lisboa, acabando por morrer dois dias depois. O seu assassinato e a agressão de mais 10 pessoas faziam parte das celebrações do Dia da Raça – como era conhecido o Dia de Portugal durante o Estado Novo – do grupo de extrema-direita.
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