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quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Dia Mundial do Elefante 20026


Introdução e Contexto Histórico

Celebrado anualmente a 12 de agosto, o Dia Mundial do Elefante - instituído em 2012 por iniciativa da realizadora canadiana Patricia Sims e da Elephant Reintroduction Foundation da Tailândia - constitui um marco global para a consciencialização sobre a preservação e gestão sustentável da família Elephantidae. Em 2026, a efeméride assume um caráter de acrescida urgência analítica: o declínio demográfico persistente em África e na Ásia impõe a revisão contínua das estratégias de gestão de ecossistemas, o combate ao comércio ilícito de marfim e a reavaliação ética dos modelos do ecoturismo e dos safaris.

1. Divergência taxonómica: as três espécies reconhecidas
A biogeografia contemporânea e a genómica populacional reconhecem atualmente três espécies distintas de elefantes:
  1. Elefante-de-savana-africano (Loxodonta africana): é o maior mamífero terrestre do planeta. Distribui-se maioritariamente pelas savanas e habitats abertos da África Subsaariana. Encontra-se classificado como Em Perigo (EN) pela Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN.
  2. Elefante-da-floresta-africano (Loxodonta cyclotis): distinguido formalmente do L. africana devido a evidências genéticas inequívocas, habita as florestas tropicais densas da África Central e Ocidental. De menor porte e com presas mais retas, está classificado como Em Perigo Crítico (CR) pela IUCN, tendo sofrido perdas drásticas devido à caça furtiva.
  3. Elefante-asiático (Elephas maximus): presente de forma fragmentada em 13 países do Sul e Sudeste Asiático. Morfologicamente caraterizado por orelhas menores e por uma única projeção digital na tromba, encontra-se igualmente classificado como Em Perigo (EN) na IUCN Red List.
2. Ponto de Situação Populacional e Ameaças
De acordo com os dados compilados no African Elephant Database mantido pela IUCN, estima-se que restem cerca de 400.000 a 415.000 elefantes africanos na natureza. Relatórios da World Wildlife Fund (WWF) e do programa CITES MIKE (Monitoring the Illegal Killing of Elephants) indicam que a população do elefante-da-floresta declinou mais de 86% em três décadas. A população selvagem de elefantes asiáticos é estimada em apenas 40.000 a 50.000 indivíduos.

As pressões antrópicas organizam-se em três eixos centrais:
  1. Caça furtiva e tráfico: a procura ilegal de marfim continua a perturbar as demografias locais.
  2. Fragmentação de habitat: a conversão agrícola e a urbanização destroem cenários de dispersão.
  3. Conflito Humano-Fauna (CHF): o aumento das sobreposições territoriais gera episódios letais de retaliação motivados pela destruição de culturas agrícolas.
3. Estratégias de Preservação e Conservação
As respostas institucionais assentam na transição para abordagens integradas de paisagem e tecnologia:
  1. Corredores ecológicos Transfronteiriços: iniciativas de grande escala, como a KAZA TFCA (Kavango-Zambezi Transfrontier Conservation Area), conectam parques nacionais em cinco países da África Austral, garantindo rotas de migração seguras.
  2. Tecnologia de rastreio e monitorização: implementação de coleiras com GPS via satélite geridas por organizações como a Save the Elephants e aplicação da plataforma de dados SMART (Spatial Monitoring and Reporting Tool) pelas brigadas de fiscalização.
  3. Mitigação biológica do CHF: desenvolvimento de cercas de colmeias (beehive fences) promovidas por projetos científicos como o Elephants and Bees, que aproveitam o repúdio natural dos elefantes relativamente às abelhas para afastar os animais de áreas agrícolas.
4. Restrições no turismo de safari e atividades recreativas
A indústria do ecoturismo atravessa uma reestruturação normativa impulsionada pelo bem-estar animal e por relatórios globais de entidades como a World Animal Protection.

Proibição de Safaris de Montaria (Elephant Rides)
A exploração turística assente na montaria e contacto direto tem sido desmantelada progressivamente:
Na África Austral (em particular no Botsuana), as diretivas da indústria de safari e das autoridades de conservação baniram as práticas comerciais de passeios a dorso de elefante.

No Sudeste Asiático (Tailândia), estudos de monitorização continuada promovidos pela World Animal Protection registam uma queda consistente na oferta de viagens a monte e a transição gradual para o modelo de "apenas observação" (observation-only sanctuaries).

Restrições de Capacidade e Impacto Ambiental em Safaris
Nos ecossistemas de safari em parque aberto (como no Parque Nacional do Chobe ou na Reserva do Masai Mara), os organismos governamentais aplicam diretrizes rigorosas:
  1. Lotação por avistamento: proibição de aglomeração de mais de 2 a 3 veículos em simultâneo junto a manadas.
  2. Manutenção de distâncias mínimas: para evitar stresse comportamental nas matriarcas e crias.
  3. Proibição do Off-Roading: Confinamento estrito aos trilhos oficiais para evitar a degradação da flora nativa.
Considerações Finais
A análise do estado de conservação dos elefantes em 2026 demonstra que a viabilidade a longo prazo da família Elephantidae depende da consolidação de corredores ecológicos contínuos, do combate intransigente ao crime ambiental e da transição definitiva do turismo recreativo para um modelo ético, sustentável e baseado exclusivamente na observação à distância.

terça-feira, 30 de junho de 2026

A onda de calor na Europa é a mais quente e húmida de sempre

As temperaturas actuais na Europa ocidental e central teriam sido virtualmente impossíveis há 50 anos, e os níveis de humidade sem precedentes tornam esta onda de calor especialmente perigosa.
Não sou eu que o digo. É a Ciência e a Biogeografia que o dizem.

A Europa está a viver um verão histórico e extremamente severo. Após um final de junho com recordes absolutos de temperatura estilhaçados por todo o continente, com os termómetros a passarem os 41°C na Alemanha e os 44°C em França e Espanha, os modelos de previsão sazonal apontam para uma continuidade deste cenário crítico nos meses de julho e agosto.
As previsões detalhadas para as próximas semanas indicam que, em julho, haverá o retorno da crista de altas pressões. Embora os primeiros dias do mês tragam um ligeiro alívio temporário em partes da Europa Central e Ocidental devido a uma mudança de fase na Oscilação do Atlântico Norte (NAO), o calor extremo vai regenerar-se rapidamente. Em Portugal e Espanha, o IPMA e a AEMET já emitiram avisos para o início de julho, prevendo máximas entre os 40°C e os 43°C, especialmente nos vales do Tejo, Douro e Alentejo, acompanhadas de "noites tropicais" onde as mínimas não descem dos 20°C a 25°C. 
Já na segunda quinzena de julho, os modelos europeus, como o ECMWF, apontam para o regresso em força da crista de alta pressão e de um bloqueio atmosférico. Espera-se que o núcleo do calor extremo se mova ligeiramente mais para Leste, afetando severamente a Europa Central, Itália e os Balcãs, mas mantendo todo o sul do continente com temperaturas muito acima da média.
Por sua vez, as previsões para agosto desenham-se como o mês mais preocupante em termos de persistência e risco de incêndios, caracterizando-se por calor sustentado e seca. 
Os modelos de longo prazo estimam que as temperaturas globais em agosto sejam 1°C a 2°C mais quentes do que a média histórica de referência de 1991–2020, sendo que no sul da Europa e no Mediterrâneo essa anomalia pode ser ainda maior. 
A probabilidade de ocorrência de ondas de calor com temperaturas acima do normal em agosto é de 60%, esperando-se que os sistemas de alta pressão se tornem dominantes e estacionários, o que favorece períodos de calor mais longos e secos. Adicionalmente, o fator marítimo terá um papel crucial, dado que as águas do Atlântico e, muito em particular, o Mar Mediterrâneo estão a registar uma onda de calor marinha. Esta água invulgarmente quente impede o arrefecimento noturno das zonas costeiras e atua como um combustível que intensifica a sensação de abafamento e a força das massas de ar quente que sobem do Norte de África.

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terça-feira, 23 de junho de 2026

Alterações climáticas estão a causar mais extinções locais de espécies em zonas temperadas

Salamandra-europeia (Salamandra salamandra)

As alterações climáticas estão a causar mais extinções locais de espécies nas regiões temperadas do que nos trópicos, revelou um estudo da Universidade do Arizona divulgado no dia 18 de junho.

Segundo os cientistas, a principal razão é que as regiões temperadas estão a aquecer mais depressa dos que as tropicais.

Os investigadores descobriram que 49% das espécies de regiões temperadas sofreram extinção local nas áreas mais quentes em que se encontram implantadas, em comparação com 33% das espécies tropicais.

O trabalho, publicado na revista científica ‘Nature Climate Change‘, abrangeu cerca de 5.100 espécies de animais e plantas e desafia as ideias de longa data relativamente às espécies que estão mais ameaçadas, de acordo com os autores.

Entre os objetos de análise, estão centenas de espécies de borboletas e besouros, centenas de peixes e aves, mamíferos, rãs, salamandras e lagartos e quase 3.000 plantas.

A investigação, apresentada como a maior análise já realizada sobre extinções locais de espécies impulsionadas pelo clima, baseou-se em levantamentos da biodiversidade em quase 40.000 locais no mundo e permitiu comparar registos históricos com dados recolhidos mais recentemente.

“Durante décadas, os cientistas acreditaram que as espécies de climas temperados eram menos vulneráveis às alterações climáticas”, disse o autor principal do trabalho, Gopal Murali, da Universidade do Arizona, Estados Unidos, citado em comunicado. “Estamos surpreendidos com os resultados”, admitiu.

Os novos dados revelaram-se consistentes em diferentes grupos de organismos, incluindo insetos, vertebrados, plantas e espécies marinhas e de água doce.

Outro autor sénior da investigação, John Wiens, afirmou ter publicado em 2016 um estudo com 976 espécies, utilizando o mesmo tipo de dados, mas com conclusões diferentes: “Mostrou o padrão exatamente oposto, com mais extinções locais entre espécies tropicais”.

“O mundo mudou desde 2016”, disse Wiens, referindo que houve mais aquecimento na zona temperada da Terra, especialmente em latitudes mais elevadas.

“É possível que o padrão se tenha simplesmente invertido nas últimas décadas, o que ajuda a explicar a mudança nos resultados. Verificamos que as extinções em regiões temperadas superaram as das regiões tropicais”, disse.

As extinções locais observadas não significam que a espécie inteira foi extinta em todo o mundo, mas demonstram que as populações não conseguem sobreviver à transformação das condições ambientais numa determinada região.

“Perdas semelhantes ao longo da área de distribuição de uma espécie podem levar à extinção da espécie como um todo”, precisaram os cientistas.

“Normalmente, as pessoas pensam que uma espécie se move, simplesmente, para uma zona mais fria quando o clima aquece. Mas descobrimos que mais de 70% das espécies não está a fazer isso”, revelou Wiens.

“No essencial, a vida e a morte da maioria das espécies pode ser determinada por essas extinções locais e pela capacidade de as populações conseguirem, ou não, sobreviver no próprio local”, concluiu.

domingo, 21 de junho de 2026

Alterações climáticas provocam redução significativa de aves migratórias

No Parque Tommy Thompson, em Toronto, uma estação de anilhagem de aves está a registar sinais preocupantes de declínio nas populações migratórias. Os investigadores começam a associar as mudanças ao impacto crescente das alterações climáticas.

Ao amanhecer, Shane Abernethy verifica as redes de captura de aves em busca de pássaros presos. É assim que começa a rotina diária do coordenador da estação de anilhagem do Parque Tommy hompson, em Toronto, que recolhe dados em tempo real sobre as aves migratórias num contexto de aquecimento global.
“Esta estação existe para monitorizar as aves migratórias que passam pela cidade de Toronto. Estamos no meio de uma importante rota migratória e um local como este é uma das melhores formas de as observar. A rotina diária é chegar aqui cedo, abrir as redes para capturar as aves antes de estarem completamente despertas e passar o resto do dia a capturá-las e a marcá-las. Verificamos estas redes a cada 30 minutos".
Num dia normal, a estação regista entre 100 a 150 aves, por vezes ultrapassam as 200.

Sinais de mudança
Os dados do Relatório Anual de 2025, recentemente divulgado pela estação, apontam para uma tendência preocupante: uma descida significativa no número de anilhagens na primavera e no verão, em comparação com médias históricas.

Durante uma recente onda de calor, com a humidade a fazer a temperatura percebida ultrapassar os 40ºC, os investigadores observaram uma redução acentuada no número de crias que conseguiram abandonar os ninhos.
“Isto leva-nos a extrapolar que pode haver uma taxa de falha de ninhos mais elevada localmente. O calor extremo afeta o sucesso da nidificação porque os progenitores têm um limite para a termorregulação, nomeadamente para arrefecer o ninho. Quando a temperatura ultrapassa um determinado limite, todo o ninho pode falhar".
As alterações climáticas estão também a alterar o calendário natural das espécies. Gregor Beck, diretor sénior para o Norte do Canadá da Birds Canada, explica que o aquecimento mais precoce da primavera está a fazer com que as populações de insetos atinjam o pico demasiado cedo, antes de muitas aves migratórias chegarem aos locais de reprodução.
“O clima em constante mudança também está a desorganizar os ciclos sazonais. Um dos desafios é que as alterações climáticas estão a fazer com que as coisas aqueçam mais rapidamente na primavera, pelo que o pico de abundância de insetos não coincide com a época de migração das aves”, disse Gregor.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

A Ilusão Verde: A Desbiologização do Vegetal na Era do Antropoceno

Introdução
Na civilização contemporânea, o verde tornou-se a cor predileta do marketing global. Das fachadas dos arranha-céus urbanos aos relatórios de sustentabilidade corporativa, o mundo vegetal é constantemente evocado como a salvação do planeta. Contudo, sob esta aparente celebração, esconde-se um fenómeno alarmante denunciado pelo ecólogo Carlos M. Herrera no Blog AEET: a desbiologização do vegetal. Este conceito descreve um processo cultural e semântico em que as plantas são progressivamente despidas da sua identidade como seres vivos complexos, dinâmicos e evolutivos, sendo reduzidas a meras infraestruturas funcionais, mercadorias ou elementos de decoração.

O redutivismo funcional: da vida à infraestrutura
O cerne da desbiologização reside na transformação de organismos vivos em métricas económicas e utilitárias. Na linguagem política e económica atual, as florestas já não são vistas como ecossistemas dinâmicos gerados por milhões de anos de seleção natural; em vez disso, são rebatizadas como "sumidouros de carbono", "infraestruturas verdes" ou "capital natural".

Este vocabulário, que funciona como uma forma de anestesia social, despoja o vegetal da sua essência biológica. Ao focar a atenção pública exclusivamente na capacidade de uma árvore sequestrar dióxido de carbono ou conter a erosão, a sociedade ocidental comete um erro categórico: confunde a função ecológica de um organismo com a sua totalidade existencial. Uma planta não existe para servir o ser humano ou mitigar os excessos da indústria; ela existe como o resultado de uma linhagem evolutiva própria, marcada por complexas interações ecológicas com polinizadores e dispersores.

[Visão Tradicional] -> Ecossistema complexo, evolução e biodiversidade. vs. 
[Visão Desbiologizada] -> "Massa", créditos de carbono e infraestrutura útil.

A amnésia evolutiva e a cegueira botânica
A desbiologização alimenta-se e, ao mesmo tempo, aprofunda a chamada cegueira botânica (plant blindness) - a incapacidade humana de notar as plantas no seu próprio ambiente. Ao tratar os vegetais através de termos homogeneizadores como "massa florestal", ignora-se a complexidade subindividual, a variação genética e as intrincadas redes que ligam as plantas aos seus ecossistemas.

Quando a opinião pública é anestesiada por este reducionismo, torna-se fácil justificar o extrativismo acientífico. Se uma floresta antiga é vista apenas como um armazém de carbono, a lógica tecnocrática sugere que ela pode ser cortada e substituída por uma plantação homogénea de árvores exóticas de crescimento rápido, desde que a "métrica de carbono" seja compensada. Esta visão ignora que a biodiversidade, a história evolutiva e as relações tróficas daquela comunidade original são insubstituíveis. O declínio no conhecimento e na educação botânica nas academias agrava este cenário, distanciando os cidadãos da realidade ecológica básica.

Conclusão: recuperar a biologia do verde
A desbiologização do vegetal é, em última análise, um reflexo do antropocentrismo radical que carateriza a crise climática atual. Para reverter este cenário, não basta plantar árvores de forma indiscriminada sob a bandeira de uma sustentabilidade cosmética. É urgente resgatar o olhar científico que reconhece as plantas como agentes ativos da biosfera. Romper com a anestesia social exige rejeitar o jargão que transforma a natureza num balanço contabilístico corporativo e redescobrir o vegetal na sua plenitude biológica: como um organismo vivo, vulnerável, em constante evolução e dotado de uma dignidade ecológica intrínseca.

Referências Bibliográficas
Herrera, C. M. (2026). Desbiologizar lo vegetal. Asociación Española de Ecología Terrestre.
Herrera, C. M. (2008). Evolución de las relaciones entre plantas y polinizadores. Real Academia Sevillana de Ciencias. 
Stroud, S., Fennell, M., & Mitchley, J. (2022). The botanical education extinction and the fall of plant science. Plants, People, Planet, 4(6), 551-562. 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Indigenous Communities Report Dramatic Loss Of Large Bird Species Over 80 Years


A recently published international study reports there are fewer and fewer large bodied bird species in Africa, Latin America and Asia. Led by a large team of researchers based at Institute of Environmental Science and Technology at the Universitat Autònoma de Barcelona (ICTA-UAB), the study finds that birds living in these regions are considerably smaller than those that predominated in 1940. The study documents the collective ecological memories of 10 Indigenous Peoples and local communities and reports a reduction of up to 72% in the mean body mass of the bird species present in these areas between 1940 and 2020.

“The project began in 2013, during my PhD fieldwork in the Bolivian Amazon,” ethnobiologist Álvaro Fernández-Llamazares told me in email. Dr Fernández-Llamazares works as a senior researcher at the ICTA-UAB. “Knowledge holders of the Tsimané people repeatedly told me that the large birds they had grown up with were rapidly disappearing.”

The Tsimané are indigenous people living in lowland Bolivia. They are primarily a subsistence agriculture culture, although hunting and fishing also contribute to many of the settlements’ food supplies.

“The Tsimané interact with birds on a daily basis through hunting, farming, rituals, and storytelling, which gives them long-term ecological memories that extend far beyond the timeframe of scientific monitoring,” Dr Fernández-Llamazares explained to me in email.

“As I later worked with Indigenous communities in other parts of the world, I realized that remarkably similar observations were being made elsewhere. That convergence made me realize that these place-based memories could reveal large-scale patterns of biodiversity change. This is what motivated me to carry out a global analysis to understand what Indigenous and local knowledge systems can tell us about long-term changes in bird populations.”
F I G U R E 1 : Locations of the ten study sites.doi:10.1017/s0030605325102615


The research is based on a global survey of 1,434 adult participants from 10 place-based communities across three continents (Figure 1). In total, Dr Fernández-Llamazares and collaborators surveyed 1,434 adults in ten communities in Bolivia, Chile, Mexico, Brazil, China, Ghana, Kenya, Madagascar, Mongolia, and Senegal. They compiled 6,914 unique bird reports (Figure 2) corresponding to 283 bird species, and compared the bird species most commonly reported during participants’ childhoods with those currently reported in their territories.
Distribution of bird reports over time in the 10 study sites (Fig. 1) and across all sites combined.

The reported differences in bird species were statistically significant in territories such as Tsimane (Bolivia), Timucuy (Mexico), Vavatenina (Madagascar) and Ordos Desert (China). At the same time, no significant differences were reported for Lonquimay (Chile) and Bulgan soum (Mongolia).

The Indigenous Peoples’ cultural memory strongly contrasts with most people’s memories of environmental conditions, which are continually deteriorating over time, a phenomenon known as the Shifting Baseline Syndrome (ref). Basically, in the absence of past information or experience with historical conditions, members of each new generation accept the situation in which they were raised as being “normal”. This psychological and sociological phenomenon is increasingly recognized as one of the fundamental obstacles to addressing a wide range of today’s global environmental issues.

Dr Fernández-Llamazares and collaborators’ analysis reveals the deeply worrying pattern where large bodied bird species are rapidly disappearing from local environments, only to be replaced by smaller bodied species. For example, this study found that the average mass of reported bird species exceeded 1,500 grams (3.3 pounds) in the 1940s, whereas the average mass in 2020 is reported to be closer to 535 grams (1.17 pounds). This coincides with a significant decline in body mass of 72% over eight decades.

The secretary bird (Sagittarius serpentarius) is a large endangered bird of prey that is endemic to open grasslands and savannah of the sub-Saharan region of Africa. Its body mass ranges from 2.3kg to 5kg (5–11 pounds) 

What happened to these large birds? They were likely driven locally extinct because large bird species are more vulnerable than small ones to hunting, habitat destruction and fragmentation, and to infrastructure development, according to Dr Fernández-Llamazares. Further, the loss of these birds threatens biodiversity and environmental health and is accompanied by the loss of key functional roles held by these birds in their ecosystems, particularly seed dispersal, pest control, and forest regeneration.

Dr Fernández-Llamazares and collaborators’ study serves to highlight critically important alterations to the intimate, lived experiences with nature of generations of people within their territories. It also points to the collective impoverishment of Indigenous Peoples’ cultural identity, memory and traditional practices around the world.

“Bird declines are not abstract statistics: they are visible, remembered, and felt by people who live closest to nature,” Dr Fernández-Llamazares stated in email. “When ten Indigenous Peoples and local communities across three continents independently report that birds are getting smaller, it tells us the avian extinction crisis is deeper and more pervasive than we tend to acknowledge with scientific data.”

Source:
Álvaro Fernández-Llamazares et. al. (2026). Indigenous Peoples and local communities report a consistent decline in the body mass of birds across three continents, Oryx | doi:10.1017/s0030605325102615

segunda-feira, 14 de abril de 2025

Qual a dimensão do património natural de Portugal?

A diversidade topográfica e edafoclimática do nosso país
permite uma multiplicidade de áreas com valor de conservação (mapa do continente).
Fonte (adaptada): Relatório Estado do Ambiente, APA, consultado em Abril 2025 (ICNF, 2024)

O património natural de Portugal inclui cerca de 35 mil espécies de animais e plantas, segundo a União Internacional da Conservação da Natureza (IUCN), citada na Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e Biodiversidade (ENCNB 2030). Estes valores representam 22% da totalidade das espécies descritas na Europa e 2% das espécies mundiais.

As áreas portuguesas com valor de conservação e biodiversidade encontram-se integradas no Sistema Nacional de Áreas Classificadas – SNAC. Além de incluir as áreas classificadas como a Rede Natura 2000, o SNAC abrange também a Rede Nacional de Áreas Protegidas (RNAP) e outras áreas classificadas na sequência de compromissos internacionais assumidos pelo Estado português.

De acordo com o geocatálogo do ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (consultado em março de 2025), existem no território continental 55 áreas protegidas:

Todas elas integram a RNAP e juntas correspondem a uma área de 816 mil hectares (dos quais 746 mil hectares de área terrestre), que ocupa cerca de 9% do território nacional.

Além destas tipologias de proteção, o ICNF refere ainda:
  1. 05 Sítios Natura 2000, com uma área de 4,5 milhões de hectares, dos quais 1,6 milhões de hectares em área terrestre;
  2. 6 Reservas da Biosfera, com 1,1 milhões de hectares, maioritariamente em área terrestre;
  3. 18 Sítios Ramsar, que se estendem por 117 mil hectares de área terrestre;
  4. e 4 Geoparques, que ocupam 836 mil hectares de área terrestre (em vez de quatro, a lista de Geoparques Mundiais da UNESCO, indicada por esta organização, refere cinco em território continental: Naturtejo da Meseta Meridional, Arouca, Terras de Cavaleiros, Serra da Estrela e Oeste, tendo este último sido integrado ainda em 2024).
No seu conjunto, estas áreas classificadas ocupam 3,1 milhões de hectares de área terrestre – 34,8% do território terrestre de Portugal continental – e 3,4 milhões de hectares de área marinha – 10,7% do território marítimo de Portugal continental. E não está ainda aqui considerado o Geoparque do Oeste.

Quanto à Rede Natura 2000, esta rede ecológica para o espaço da União Europeia (UE) integra cerca de 22% da área total terrestre nacional, da que acrescem uma área marinha de cerca de 10,7%. O país ocupa, a propósito, o 10.º lugar entre os 28 Estados-Membros da UE em termos de percentagem de área total integrada na Rede Natura 2000, realça a ENCNB 2030.

Os ecossistemas agrícolas e florestais ocupam cerca de 80% das áreas protegidas ou classificadas em Portugal continental, segundo a ENCNB 2030. O 6.º Inventário Florestal Nacional (IFN6, publicado pelo ICNF em 2019), que fornece um retrato mais focado na importância da área florestal para a biodiversidade, indica que a área florestal integrada no SNAC corresponde a 18,7% da floresta nacional e que 5,5% da floresta está incluída na RNAP, com várias espécies presentes.

Aproximadamente 25% da área florestal sob Planos de Gestão Florestal está englobada no SNAC, ou seja, em áreas classificadas e, por isso, sujeitas a Planos de Gestão da Biodiversidade, reforça o 5.º Relatório Nacional à Convenção sobre a Diversidade Biológica.

Património natural das regiões autónomas
Ao património natural continental somam-se ainda inúmeras áreas terrestres e marinhas nos arquipélagos dos Açores e da Madeira:

– Na Região Autónoma dos Açores, estão classificadas 24 Reservas Naturais, 10 Monumentos Naturais e 16 Paisagens Protegidas; 4 Reservas da Biosfera; 13 sítios Ramsar, 1 Geoparque e 40 áreas de Rede Natura 2000.

– Na Região Autónoma da Madeira, contabilizam-se o Parque Natural da Madeira (que abrange cerca de dois terços da ilha da Madeira), 4 Reservas Naturais, 2 Áreas Protegidas e a Rede de Áreas Marinhas Protegidas de Porto Santo.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Global groundwater levels declining rapidly, but they can recover



The research, published in Nature, analysed measurements taken over the last two decades from 170,000 wells in 1,693 aquifer systems across more than 40 countries. The team found that groundwater levels are declining by more than 10 cm per year in 36% of the monitored aquifer systems and are rapidly declining by more than 50 cm per year in 12% of them, with the most severe declines under cultivated lands in dry climates.

Groundwater supplies roughly half of the water used for drinking and irrigation worldwide and sustains rivers and streams in the absence of rainfall. Depleted aquifers cause land subsidence which can damage infrastructure. In coastal environments, this depletion can induce seawater to intrude and contaminate freshwater wells.

Co-author Dr Mohammad Shamsudduha (UCL Institute for Risk & Disaster Reduction) said: “This is the most comprehensive analysis of global groundwater levels published to date. Unlike satellite observations that make coarse approximations of groundwater storage changes over areas the size of the United Kingdom, groundwater levels from monitoring wells provide a direct measure of groundwater resources at the scale at which groundwater is used.”

In addition, the researchers found that groundwater-level declines have accelerated over the past four decades in 30% of the world’s regional aquifers.

Co-author Professor Richard Taylor (UCL Geography) said: “This widespread acceleration in groundwater-level declines not only threatens drinking water supplies and global food production but also our use of groundwater to adapt to the amplification of floods and droughts caused by climate change.”

The team also examined examples where depleted groundwater resources recovered following human interventions. In a series of accompanying case studies ranging from Albuquerque, New Mexico to Bangkok, Thailand, the researchers analyse the practical and policy actions taken to replenish groundwater levels. They highlight how interventions including the successful implementation of water conservation policies, water transfers between basins, and the use of surface water and floodwaters, can replenish depleted aquifers.

Lead author, Dr Scott Jasechko of UCSB, said: “This study shows that humans can turn things around with deliberate, concentrated efforts.”

The study focuses on areas where long-term groundwater-level records exist. The 1,693 monitored aquifer systems examined in this study account for about 75% of all groundwater withdrawals worldwide. However, in some regions including tropical Africa and Latin America long-term records are more limited and further work is required to better understand groundwater-level trends in these environments.

This research was supported by the National Science Foundation, the Canadian Institute for Advanced Research, and the Zegar Family Foundation.

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quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Pesquisadores encontram a árvore mais alta da Amazónia


Um Angelim vermelho de 88,5 metros, na Floresta Estadual do Paru, no Amapá.
A seguir, assista ao vídeo gravado que revela o momento do encontro do Angelim vermelho, a árvore mais alta da Amazônia, já catalogada.

O encontro com a maior árvore da Amazônia – um Angelim vermelho (Dinizia excelsa Ducke) -, só foi possível graças a cinco expedições cientificas realizadas durante quatro anos pelo grupo de pesquisadores que integra o Projeto Árvores Gigantes da Amazônia, liderado pelo Instituto Federal do Amapá (Ifap).

A árvore majestosa, que tem 88,5 metros de altura (similar a um edifício de 30 andares!) e 9,9 metros de circunferência, foi identificada por satélite em 2019, e está localizada no sul do Amapá, na Floresta Estadual do Paru (fronteira entre Pará e Amapá).

Sua idade foi estimada pelos pesquisadores em cerca de 400 anos a partir de cálculos matemáticos realizados com base na dendrocronologia, técnica que analisa os anéis de crescimento das árvores. Mas ainda falta comprovar esse dado.

A gigante faz parte de um santuário de árvores de grande porte (cinco exemplares com mais de 80 metros de altura; a média no bioma é de 40 a 60 metros) localizado na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Iratapuru, onde vivem populações tradicionais que exploram a castanha de forma sustentável.

Em 2019, os cientistas foram ao encalço dessa gigante, mas, quando faltavam apenas três quilômetros para chegar ao local exato, tiveram que desistir da viagem por falta de alimentação, combustível e tempo suficientes.

Em outubro de 2020, após sete meses de pausa devido à pandemia da covid-19, uma nova expedição percorreu a região e fez o registro da mais alta castanheira (Berthollhetia excelsa) – 66,66 metros – já mapeada na reserva do Rio Iratapuru.

No ano passado, em setembro, em nova incursão pela floresta, os cientistas se depararam com a segunda maior árvore da espécie Angelim vermelho, com 85,44 metros de altura e circunferência de 9,45 metros, em Porto Alegre, na região do rio Cupixi. Sua idade foi estimada em 500 anos.

E, finalmente, este ano, durante a expedição realizada de 11 a 22 de setembro, os pesquisadores brasileiros ficaram diante da maior árvore da Amazônia.

Eles partiram da região do Laranjal do Jari, a 275 Km de Macapá, acompanhados por guias amapaenses. Durante oito dias de viagem: durante quatro, percorreram 250 Km pelo rio Jari, enfrentando corredeiras, e mais quatro para vencer 40 km de caminhadas pela floresta nativa.

“Olha só a emoção da equipe toda! Olha só o tamanho dessa gigante, desta rainha da Amazônia! Nossa, é linda, é linda!”, declarou João Matos, engenheiro florestal da Promotoria do Meio Ambiente de Macapá, que registrou o encontro com o magnífico angelim em vídeo, que você pode assistir no final deste post. “Muita emoção! Valeu todo o sacrifício!”, completou.

O projeto

Para criar um mapa da biomassa florestal na Amazônia Legal, o professor Eric Gorgens, da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), trabalhou em parceria com um grupo de pesquisa do Inpe – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, que realizou mais de 800 sobrevoos na Amazônia.

As informações obtidas por eles foram cruzadas com dados de 594 ‘coleções de árvores’ espalhadas por toda a Amazônia brasileira, analisados por pesquisadores de universidades do Brasil, da Finlândia e do Reino Unido. Esses dados foram obtidos por meio de sensoriamento remoto e identificaram sete áreas com árvores muito altas, que ultrapassam 80 metros.

Seis dessas regiões estavam próximas do Rio Jari, no sul do Amapá, incluindo a área na qual foi encontrada o angelim vermelho mais alto do bioma, em setembro último (para compreender a dimensão dessa descoberta, vale lembrar que as sequoias-gigantes – consideradas as árvores mais altas do mundo – medem entre 85 e 110 metros e são naturais do hemisfério norte).

A partir desse levantamento foi criado o Projeto Árvores Gigantes da Amazônia – coordenado por Gorgens e por Diego Armando, professor do Instituto Federal do Amapá, Campus Laranjal do Jari -, cuja missão é potencializar o uso sustentável dos recursos naturais de forma a aprimorar atividades e práticas como o extrativismo, a produção artesanal, o cooperativismo e o turismo ecológico, favorecendo todos que vivem na região, em especial o povo ribeirinho.

O projeto conta com financiamento da Fundação Jari, da Universidade de Swansea (Reino Unido), do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia), além da empresa de energia North Solar.

Por que tão gigantes?

Com o Projeto Árvores Gigantes da Amazônia foi possível descobrir uma região de floresta – próxima do Rio Jari – que se destaca por concentrar as espécies mais altas do bioma, incluindo o Angelim vermelho de quase 90 metros.

As pesquisas identificaram que, por crescer entre vales, essa espécie se beneficia da pouca incidência de ventos, o que favorece seu crescimento e a busca por sol para a realização da fotossíntese. Além disso, as chuvas caem com regularidade e o solo é profundo e bem estruturado. Talvez isso justifique seu crescimento ‘exagerado’.

Mas, além dessas peculiaridades, Erik Gorgens destacou à reportagem do G1 que, por estarem situadas numa unidade de conservação as espécies gigantes estão protegidas contra a ação predatória do homem. O que não significa que a criação de leis que garantam proteção integral seja dispensável já que a devastação na Amazônia é cada vez mais constante.

Nesse aspecto, a adesão do Ministério Público do estado do Amapá como parceiro do projeto Árvores Gigantes da Amazônia, em 2021, foi bastante acertada: a instituição assumiu compromissos para incentivar e articular a criação de um projeto de lei voltado para a proteção das espécies gigantes, além de apoio logístico para a continuidade das pesquisas.

E Erik acrescentou: “A espécie não está em risco humano, mas ainda estamos estudando para entender o quão raras são as gigantes da Amazônia. Aliado a isso, percebemos a importância, por exemplo, da captação do estoque de carbono que essas florestas guardam, especialmente neste momento de mudanças climáticas”.

É bem provável que o angelim vermelho tenha maior capacidade de absorção de gás carbônico, visto que, as pesquisas apontam que 60% de sua biomassa é composta por ele. Mas Erik destaca que ainda é cedo para afirmar que as alterações do clima interferem no desenvolvimento da espécie ou se o avanço do desmatamento ainda poderá impactá-la. Afinal, de acordo com o Inpe, somente este ano foram derrubadas cerca de 1.752.296 árvores por dia!

“Ainda não dá pra detectar uma tendência de prejuízo. Mas o aquecimento global, por exemplo, faz com que se reduza a quantidade de nuvens, que protegem os Angelins. Com isso, ela pode sofrer maior incidência solar e ter seu desenvolvimento prejudicado. Todos os extremos climáticos podem gerar risco”.

sábado, 17 de junho de 2017

País quer fazer mais pela natureza, mas falta-nos um bom retrato da biodiversidade

Recuperação de atrasos na monitorização será essencial para o sucesso da nova Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e Biodiversidade, que vai para discussão pública.


Portugal vai ter até ao final do ano uma nova Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e Biodiversidade. O documento, que entra em discussão pública na segunda-feira, coloca o país perante um compromisso mais exigente do que as metas internacionais de curto prazo, que propõem o estancar da extinção de espécies vulneráveis e da degradação dos habitats, e ambiciona conseguir, até 2025, “uma recuperação e valorização do património natural”. Um caminho difícil, tendo em conta o desconhecimento, assumido, do estado em que se encontram muitas das espécies a proteger e os respectivos habitats.

“Os últimos anos foram tempos muito duros para a conservação da natureza em Portugal”, nota o ministro do Ambiente, João Matos Fernandes, assinalando que só recentemente foram lançados os concursos para a elaboração da cartografia dos habitats e dos planos de gestão dos 60 sítios da Rede Natura 2000, abrangendo 22% do território e 90% das áreas protegidas.

Atrasos de anos
Estes trabalho é essencial para a definição de prioridades, metas específicas de curto e longo prazo e modelos de gestão destes espaços. Segundo a ENCNB, o quadro de referência na caracterização dos habitats naturais em Portugal tem cerca de 20 anos, e pelo meio o país investiu muito pouco na monitorização, o que significa que os dados estão desactualizados. A gestão das áreas protegidas assenta em instrumentos de planeamento também com mais de duas décadas, e Portugal já leva um atraso de seis anos na constituição das Zonas Especiais de Conservação, um novo estatuto de protecção para os Sítios de Interesse Comunitário identificados na Rede Natura 2000.

A ENCNB 2025 assenta em três eixos estratégicos, a partir dos quais são sistematizados 30 objectivos que se desdobram numa centena de medidas. Tem como propósito fundamental a melhoria do estado de conservação de habitats e espécies, mas considera que tal será difícil de atingir sem “a apropriação dos valores naturais e da biodiversidade pela sociedade, aos mais diferentes níveis” e sem o reconhecimento do valor do património natural.

Na estratégia europeia para a diversidade, de 2011, estimava-se, por exemplo, que os serviços ambientais prestados pelas zonas da Rede Natura 2000, cuja manutenção custava 5,8 mil milhões de euros por ano, podiam chegar aos 300 mil milhões de euros por ano.

Matos Fernandes argumenta que o país não pode centrar-se em visões do passado e continuar a articular o verbo conservar, isoladamente. “É preciso cuidar e valorizar também”, insiste, considerando que sem investimento na designada Economia Verde, sustentada nos recursos existentes nas áreas protegidas, o país dificilmente conseguirá estancar o processo de despovoamento do interior que, insiste, acaba por ter consequências negativas na biodiversidade.
Portugal perdeu 10% da população nos chamados territórios de baixa densidade, mas nas áreas sob protecção, essa perda foi de 20%, argumenta Matos Fernandes.

Entre os 30 objectivos da futura estratégia Nacional contam-se, no primeiro eixo a consolidação do sistema nacional de áreas classificas e da sua gestão; a melhoria do estado de conservação dos habitats e a tendência populacional das espécies protegidas; a aprovação de intervenções de âmbito nacional nesse sentido; o reforço do controlo de invasoras; a promoção da diversidade genética animal e vegetal; o reforço da regulamentação legal e das condições para o seu cumprimento; o reforço da investigação orientada para os objectivos anteriores; a monitorização continuada do estado de conservação dos valores naturais e o aumento da visibilidade destes, bem como da percepção pública dos serviços prestados pelos ecossistemas.

No segundo eixo, o do reconhecimento do valor do património natural, a ENCNB prevê o mapeamento e avaliação dos ecossistemas e medidas para melhorar a sua capacidade de fornecer serviços de forma durável. Abre-se a projectos que ajudem a pôr em evidência a economia da biodiversidade, assume a necessidade de um maior investimento público na conservação deste património natural e da criação de instrumentos fiscais que incentivem a sua exploração sustentável. Estes, propõe, terão de ser contrabalançados com o fim de apoios a actividades que possam ter um impacto negativo para os valores naturais a proteger.

No terceiro e último eixo, que procura fomentar a apropriação dos valores naturais e da biodiversidade, entram todas as medidas que permitam aprofundar os contributos da agricultura, da silvicultura, das pescas e outras actividades que utilizam os recursos marinhos e os recursos em rios e águas interiores para a conservação da natureza e a preservação das espécies. Inclui também medidas que, permitindo ao país cumprir as metas do clima, mitiguem o impacto estimado das alterações climáticas nos ecossistemas, e pretende assegurar que a exploração de recursos minerais respeita a biodiversidade.

Aposta no biológico
Esta incorporação dos valores naturais na actividade humana não deixa de lado a aposta no turismo de natureza e o aumento da oferta de produtos e serviços integradores do património natural e cultural. E abarca também a necessidade de assegurar a sustentabilidade da utilização de recursos genéticos marinhos ou terrestres por sectores da biotecnologia ou a investigação científica.

Neste eixo, o plano aborda também a necessidade de mitigar a ausência de conectividade entre habitats (adaptando, se necessário, as vias de transporte que cortam o território) e a cobertura adequada, em termos de telecomunicações, das áreas protegidas, como forma de dinamizar a visitação e assegurar um rápido socorro em caso de acidentes. Um projecto em linha com este objectivo está a ser levado a cabo no Parque Nacional da Peneda-Gerês.

A nova estratégia vai para discussão pública, mas alguns dos instrumentos que contribuem para o seu sucesso estão em fase mais adiantada. O Conselho de Ministros aprovou ontem, numa reunião com uma agenda dedicada ao ambiente, o Plano de Acção para a Economia Circular, que, visando incentivar práticas de reutilização de produtos e a incorporação de resíduos na produção de novos bens diminui a necessidade de matérias-primas e a pressão sobre os ecossistemas.
O Governo aprovou também a Estratégia Nacional para a Agricultura Biológica e o Plano de Acção para a produção e promoção de produtos agrícolas e géneros alimentícios biológicos, tendo em vista um aumento do consumo e o fomento da exportação.
Ao mesmo tempo é criado o Observatório Nacional da Produção Biológica que tem como principais funções avaliar e apresentar propostas de revisão da estratégia.

Milhões para educação ambiental
Outro diploma que saiu desta reunião do Conselho de Ministros foi a Estratégia Nacional para a Educação Ambiental (ENEA), com um pacote de investimento de 18,2 milhões de euros, até 2021. O ministro do Ambiente, Matos Fernandes, destacou o facto de a ENEA incluir a possibilidade de realização de actividades destinadas a empresas e respectivos funcionários, não se quedando pelas medidas destinadas ao público escolar.
Os três grandes eixos temáticos da ENEA são a descarbonização da sociedade (com implicações em sectores como os transportes ou a energia), a economia circular e a questão da valorização do território. A maior parte das verbas disponíveis são do Prograqma Operacional para a Sustentabilidade e Eficiência no Uso dos Recursos, sendo o restante alocado a partir do Fundo Ambiental. Segundo o ministro as organizações não governamentais e os privados vão poder candidatar-se já em Julho a uma linha de apoio a projectos, no valor de 1,5 milhões de euros, provenientes deste fundo. 


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