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segunda-feira, 13 de julho de 2026

Entrevista. Clara E. Mattei: “A austeridade é muito eficaz a produzir individualismo, alienação, ódio aos mais pobres, vergonha de ser pobre”


No imaginário comum, o economista é uma figura formal, absorvida por cálculos, gráficos e fórmulas, entregue a um labor inevitavelmente chato. Contudo, uma nova geração de profissionais tem desafiado este estereótipo: são um sucesso nas redes sociais, participam em debates que mobilizam grandes audiências, publicam em várias línguas. Thomas Piketty, Mariana Mazzucato, Gabriel Zucman [recorda a entrevista] ou Kate Raworth são alguns exemplos desta constelação. Mas Clara E. Mattei talvez seja a estrela que melhor desmonta o cliché do economista enfadonho. Além da sua simpatia, é divertida. Parece movida a pilhas, tal é a energia e a vitalidade que irradia.

Esta entrevista devia ter acontecido horas antes da conferência organizada pelo FREE - Forum for Real Economic Emancipation [Fórum para a Emancipação Económica Real, em tradução livre] - organização que Clara fundou e à qual preside -, numa escola secundária em Bishop’s Stortford, no leste de Inglaterra, a 50 minutos de comboio do centro de Londres. Ia debater-se o impacto das guerras no custo de vida e as alternativas económicas e políticas à austeridade. Mas, à última hora, os planos mudaram. Mattei tinha uma reunião na London School of Economics and Political Science (universidade londrina especializada em ciências sociais), e só seria possível conversar durante a viagem entre a capital britânica e o local do evento.

Uma entrevista on the road, dentro de um táxi, no para-arranca do trânsito. Entre perguntas e respostas, apartes para a comitiva que seguia connosco, a economista ainda recebia ou fazia chamadas com a equipa de voluntários que a estava a ajudar: “Salvatore, temos de comprar comida para o lanche. Qualquer coisa: uns snacks, fruta, legumes crus, húmus, queijos… Sim, vão ao supermercado mais próximo. Deixem lá panfletos!”

Chegámos à escola quinze minutos antes do início do debate. Clara saiu do carro à pressa e desapareceu por momentos. Tinha ido acertar os últimos detalhes com a organização, mas pouco depois já estava de volta: “Ainda temos dez minutos para recrutar pessoas. Venham!” E lá foi ela, de passo apressado, distribuir mais uns folhetos promocionais a quem passava. Para usar um termo do país onde vive e dá aulas, é uma mulher cheia de stamina.

Clara Elisabetta Mattei é professora de Economia na Universidade de Tulsa, no Oklahoma, Estados Unidos da América, e tem licenciatura e mestrado em Filosofia, antes de se doutorar em Economia. O seu livro mais conhecido, A Ordem do Capital - Como os economistas inventaram a austeridade e abriram o caminho ao fascismo (ed. Temas e Debates, 2024), nasceu de uma investigação nos arquivos do Banco de Itália e do Banco de Inglaterra sobre o período que se seguiu à Primeira Guerra Mundial. Entre centenas de cartas, memorandos e textos técnicos, encontrou documentos, muitos deles traduzidos pela primeira vez e nunca antes divulgados, que sustentam a sua tese de que as políticas de austeridade do pós-guerra prepararam o terreno para a ascensão dos fascismos que conduziriam à Segunda Guerra Mundial.

Em janeiro, publicou Escape from Capitalism - Economics is Political, and Other Liberating Truths [ainda sem tradução em português], livro em que questiona a ideia de que a economia é uma ciência neutra e apolítica. Parte de conceitos como a austeridade, o desemprego ou a inflação para mostrar como são habitualmente mobilizados para preservar o status quo e apresentar o capitalismo como inevitável. É um manifesto contra a resignação: recusa tratar a pobreza e a desigualdade como acidentes, ou a ordem económica atual como algo natural ou eterno.

Clara acredita que essa ordem pode ser mudada. Uma convicção que lhe corre no sangue, como mostra a história dos seus tios-avós, Gianfranco e Teresa Mattei, duas figuras da resistência antifascista italiana a quem dedica os seus escritos. Gianfranco, químico e militante clandestino, suicidou-se em 1944, depois de ser preso e torturado, para não denunciar os companheiros. Teresa, conhecida como “Chicci”, foi eleita para a Assembleia Constituinte italiana, em 1946, e contribuiu para inscrever no artigo 3.º da Constituição uma ideia fundamental: não há igualdade efetiva enquanto obstáculos económicos e sociais continuarem a limitar a liberdade das pessoas.

Clara Mattei estará em Lisboa, a 15 de julho, na Lisbon Praxis Summer School 2026, organizada pelo Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, sob o tema “Teorias Críticas do Fascismo”.

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Novo livro de Nancy Fraser denuncia o capitalismo que devora as condições que o sustentam


A filósofa norte-americana Nancy Fraser defende que o capitalismo contemporâneo está a “devorar as próprias condições que o sustentam” e propõe repensar as bases do sistema, no livro intitulado “Capitalismo Canibal”, que chega este mês às livrarias portuguesas.

Com o subtítulo “O capitalismo está a devorar a democracia, os cuidados sociais e o planeta”, o ensaio de Nancy Fraser, publicado originalmente em 2022 e editado agora pela Antígona, alerta para a forma como o capitalismo atual, que descreve como “omnívoro e alarve”, é capaz de canibalizar todas as esferas da vida.

Segundo a autora, trata-se de um sistema que devora as bases que o sustentam, desde a natureza às instituições democráticas, passando pelo que chama de “reprodução social”, ou seja a sustentação material, emocional e relacional da vida humana.

Essa dinâmica manifesta-se na exploração intensiva dos recursos naturais, nas desigualdades de classe e etnia, na precarização do trabalho e no esvaziamento das práticas políticas, como se lê num excerto da obra.

Nancy Fraser defende que as múltiplas crises contemporâneas, sejam económicas, sociais, ambientais ou democráticas, têm como origem comum o apetite insaciável de um modelo económico que consome as próprias condições que o tornam possível.

No livro, a autora parte de uma releitura crítica de Marx para propor uma conceção alargada de capitalismo, que ultrapassa o domínio estritamente económico.

No primeiro capítulo da obra – “Omnívoro: Porque Precisamos de Alargar a Nossa Concepção do Capitalismo” -, sustenta que o sistema não se limita à exploração do trabalho assalariado, apoiando-se também em “fenómenos ‘não-económicos’ como o aquecimento global, o ‘défice das prestações de cuidados’ e o esvaziamento a todos os níveis do poder público”, que são simultaneamente indispensáveis e sistematicamente degradados.

“O capital expande‑se apropriando-se do excedente do tempo de trabalho dos assalariados explorados e igualmente expropriando a riqueza não-capitalizada e subcapitalizada dos prestadores de cuidados, das populações racializadas e da natureza. Por outras palavras, não se expande por si mesmo, mas canibalizando-nos”, apropriando-se do excedente humano e natural, sem reabastecer o que destrói, escreve Nancy Fraser no livro.

Numa entrevista dada em 2022 à revista The New Republic, a filósofa explicou que a metáfora do canibalismo procura inverter o uso colonial e racista original do termo: “Quem se dedica a acumular capital é que é o verdadeiro canibal”.

E acrescenta que o capitalismo destrói as próprias infraestruturas que o sustentam, entre as quais os sistemas políticos, jurídicos e sociais que garantem o funcionamento económico.

Nancy Fraser identifica uma crise global da reprodução social, resultante do neoliberalismo e do “capitalismo financeirizado”, de que são exemplo as mulheres, incluindo com filhos pequenos, que nas últimas décadas foram massivamente integradas na força de trabalho, enquanto os Estados reduziram os apoios públicos, criando uma “tempestade perfeita” de sobrecarga e falta de tempo.

Simultaneamente, o endividamento crescente – por via de hipotecas, cartões de crédito e empréstimos – desvia o rendimento familiar, “que poderia ser dedicado à construção de uma espécie de infraestrutura de cuidado”, para os bancos e para a ‘indústria de crédito’, numa nova forma de expropriação.

Na mesma entrevista, a autora alerta também para uma crise de “hegemonia”, conceito herdado de Antonio Gramsci, segundo o qual uma classe dominante mantém o seu poder não apenas pela força, mas também pelo consentimento.

Esta crise manifesta-se em dissidências e numa polarização, decorrente do “surgimento de narrativas concorrentes, que lutam entre si pelo que será a nova hegemonia”, que “substituirá o senso comum neoliberal de que tudo o que precisamos são mercados mais livres e uma menor interferência do Estado”.

Para a filósofa, a perda de confiança nas instituições e nas elites políticas está a abrir espaço tanto a movimentos emancipatórios, como o socialismo democrático e novas plataformas mediáticas de esquerda, como a forças reacionárias, incluindo o ‘trumpismo’, os movimentos antivacina e os discursos xenófobos.

A dimensão ecológica ocupa igualmente um lugar central na análise de Nancy Fraser, segundo a qual “o capitalismo separou brutalmente os seres humanos dos ritmos naturais e sazonais”, transformando a agricultura e a indústria em sistemas subordinados ao lucro e sustentados por combustíveis fósseis e fertilizantes químicos, descreve a sinopse do livro.

Ao mesmo tempo, o neoliberalismo promete fazer desaparecer a fronteira entre o humano e a natureza, com técnicas reprodutivas e tecnologias ciborgue, que em vez de reconciliar, intensificam a canibalização da natureza pelo capital.

Na entrevista à Common Wealth , a autora reconhece que o sistema capitalista demonstrou grande capacidade de reinvenção, mas considera que a mudança climática representa “um limite objetivo”, podendo tornar “a vida literalmente impossível para um número cada vez maior de populações”.

A filósofa defende a necessidade de imaginar novos sistemas para substituir o modelo atual, reduzindo as emissões, evitando que os custos recaiam sobre as populações mais vulneráveis e reconstruindo as bases da democracia e do cuidado.

Nancy Fraser desafia leitores e decisores a repensarem as estruturas fundamentais da vida social e económica antes que o sistema consuma tudo o que o sustenta.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

A farewell to copitalism


The COP26 conference has failed to usher in a new era where capital is constrained to prevent catastrophic climate breakdown.

The future was supposed to be copitalism: a new global economic paradigm where national governments work together through the United Nations (UN) Conference of the Parties (COP) process to limit emissions and prevent runaway climate breakdown - while leaving capitalism otherwise intact.

The climate conferences have taken place annually for a quarter of a century. The aim is to negotiate global emissions targets that will be translated into national policies. The high-water mark was the Paris Agreement of COP21 when the worlds’ leaders agreed to limit global heating to 1.5C.

The mechanism agreed was "nationally determined contributions" (NDCs). This means national governments are responsible for submitting commitments to cut emissions to the UN. The COP process is also supposed to include a “ratchet mechanism” where those government commitments are made increasingly ambitious.

Credibility
In order to deliver on the NDCs each country would have to use a combination of carrot – investment, incentives, tax cuts – and stick – regulation and taxation – to move capital away from fossil fuels and towards “green” technology and infrastructure. The most obvious and effective means of reducing emissions is a limit or stop on the exploitation of coal, oil and gas.

Thus, "copitalism" is designed to maintain the status quo except where specific economic activity drives us towards climate breakdown. Capital accumulation remains the logic of our economies. Economic growth is maintained, or profit is delivered by the distribution of wealth from the poorest to the richest. Corporations continue to deliver profits for shareholders. Social inequality deepens. Poverty grinds.

The Glasgow conference, COP26, was the first deadline for presidents and prime ministers to hand in their Paris Agreement homework. The problem is, reducing fossil fuel exploitation involves a confrontation with the wealthiest, most entrenched monopoly corporations in human history.

And even on its own terms, the outcomes from the COP process over the last two weeks are catastrophic. As Climate Action Tracker (CAT) reported during the conference: "The projected warming from current policies - not proposals, what countries are actually doing – is...at 2.7 ̊C with only a 0.2 ̊C improvement over the last year and nearly one degree above the net-zero announcements governments have made."

The distressing truth is Copitalism should be a dystopian nightmare.
Bill Hare, the chief executive of Climate Analytics, a CAT partner organisation, has said: “It’s all very well for leaders to claim they have a net zero target, but if they have no plans as to how to get there, and their 2030 targets are as low as so many of them are, then frankly, these net zero targets are just lip service to real climate action. Glasgow has a serious credibility gap.”

The new promises emanating from Glasgow would reduce this warming by just 0.1C. As Climate Action Tracker has established, there is a “very big credibility gap” when it comes to net-zero policy. Life under such conditions will not be worth living for millions, if not billions, of people.

Damage
The primary weakness of the COP process is that even the best outcomes are, by design, not action but words. The conferences are focused on national governments setting out new commitments, always framed by deadlines years into the future. The politicians and their parties may not even be in power when those chickens come home to roost.

Those members of civil society paying the most attention - concerned citizens, protesters, charities and NGOs and the thousands of journalists - feel duty bound to celebrate and amplify the smallest successes from the COP process. There is a deep concern that the general public will become disheartened, climate anxiety will intensify and campaigners will switch off.

And so one of the major successes being touted at the conference is an agreement signed by 40 countries to phase out coal power by the 2030s for the coloniser economies and 2040s for the colonised, and to end all investment in new coal power generation. China has not agreed to reduce coal production and burning at home.

There has also been much fanfare about the surprise agreement between the United States – historically the largest contributor to climate breakdown – and China – currently the largest national contributor. But even here the response of many at COP26 has been characterised thus: "This was a stage-managed nothingburger. There was nothing new bar words, nothing on coal, finance or loss and damage."

The problem is, climate breakdown is a physical reality.

Share price
A total of 88m barrels of oil were produced per day globally in 2020. The historically unprecedented international shutdown of production as a result of the global pandemic did not come close to reducing our use of oil by the levels necessary to prevent climate breakdown. Indeed, production was at a historic high of 95m barrels per day in 2019. There is no reason to believe it will not return to these suicidal levels in the coming years.

Further, a total of 7,741,600,000 tonnes of coal were produced globally in 2020. Again, the pandemic slowdown resulted in a dip in mining. But, even so, coal production globally is higher today than when the gavel was struck to mark the signing of the Paris Agreement in 2016. And bear in mind that there remains 1,074,108,000,000 tonnes of proven coal reserves around the world.

The actual introduction of a copitalist economy would inevitably result in coal, oil and gas becoming stranded assets. Those companies that hold these assets would not be able to exploit them, turning assets into sales into profits into dividends for shareholders. The share prices might not collapse, but they would certainly move. If capitalism works on any level, then it is that those with capital will only invest in companies that deliver a return on that investment.

The share prices of the major energy companies tell the same story. ExxonMobil currently has a market capitalisation of $281 billion. A share in the company today is worth $64 - indistinguishable from the price on the opening day of COP26 and well above the $35 price from this time last year. ExxonMobil shareholders do not fear copitalism.

Likewise, the share price of the Peabody Energy Corporation - the world’s largest private coal company - remains steady at $11, almost three times its value last year. Closer to home, shares in BP have risen from £2.36 each to £3.41 in the course of the last year, as the company recovers from the pandemic.

Campaigners
The justification for this political project is that the need to avert climate breakdown is so urgent and critical, and the likelihood of a wider and deeper political transformation of our societies and our economies is so remote, that the capitalists must be appeased while being persuaded that climate mitigation is in their interests as much as anyone else’s.

The problem with the capitalist project is that capitalists are not running the capitalist system, but perversely the capitalist system runs the capitalists. The corporate leadership of any country does not choose what or how it produces but instead is the flotsam of our societies willing to do anything to ride the wave of capitalist wealth-making at any cost.

Ben van Beurden, the chief executive of Shell, is a moral vacuum. But this is not a personal failing of a human being who just happens to have risen through the ranks of his corporation through hard work and diligence.

A capitalist logic has promoted those executives who deliver results, deliver profits, precisely by grinding the most out of the human and natural resources they control. No amount of evidence or hectoring can change van Beurden’s mind. And if it does, he will be out of a job.

The assembled delegates, the surrounding banks of NGO campaigners and exhausted journalists try to understand the daily shocks and disappointments of the COP process. It is assumed that a failure of understanding on the part of a particular leader – usually someone else’s leader – is the cause of failure at the conference. We are wedded to the idea of human agency, of powerful saviours, of national leaders.

Billionaires
The delegates of COP26 negotiating our collective future are hidden away in a cordoned off zone within the Blue Zone. More than 500 of those delegates are either directly within the employ of fossil fuel companies or delegates for government departments working with Big Coal, Oil and Gas. The NGOs and the journalists accredited to the zone are locked out of the real discussions, relying on press conferences for any crumbs of information.

The Blue Zone itself feels like a military encampment on the banks of the River Clyde. The fences tower overhead with delegates rushing through turnstiles guarded by security. The Green Zone along the road is entirely separate, but here the pavilions are dominated by National Grid, Unilever, Sainsbury’s and Microsoft. The message – that corporations are the solution – is not subtle. The Green Zone is open to the public, and school children tour the science museum styled displays.

Civil society is represented in Glasgow. But the COP26 Coalition is both physically and metaphorically cast into the hinterland in venues scattered across the living centre of the city of Glasgow. Here the science of climate change is understood and accepted, and the reality of the actual change needed to prevent calamity is discussed. The attendees are actual people from Glasgow.

The discussions at the venue in Adelaide Place were wide ranging and meaningful, taking in the Green New Deal, degrowth, Indigenous traditions, the threat of green colonialism, food sovereignty, international trade, and more. But the event seemed only to coincide with the COP negotiations happening less than two miles away. There seemed no possibility of these debates influencing the proceedings.

Copitalism should be a dystopian nightmare. The COP26 conferences are a political project aimed at maintaining as much as possible of our current global economic system. The billionaires will continue to make gargantuan profits, fuelling their intergalactic fantasies. At the same time, 15 million people have likely died from coronavirus and billions are denied a cheap vaccine to maintain the profits of the pharmaceutical industry.

Monsters
But the experience of COP26 during the last few days suggests that copitalism itself is an unachievable utopian dream, as vacuous as Charles Fourier’s vision of the oceans turning to lemonade. There is, alas, no real need for a neologism. Capitalism cannot allow copitalism to exist, such is its rapacious need for mountains and oceans of coal, oil and gas.

Barack Obama when president of the United States was instrumental in defusing the Paris Agreement and now calls on young people to protest for climate action. During his speech on Monday he made the following confession: “There are times where the future seems somewhat bleak. There are times where I am doubtful that humanity can get its act together before it’s too late, and images of dystopia start creeping into my dreams.”

The reality is that COP26 is failing because capitalism cannot allow copitalism to supersede. We cannot postpone the work of ending capitalism until after we have moved to avert climate breakdown. Because capitalism is climate breakdown. Ta’Kaiya Blaney of the Tla A’min Nation, the Indigenous activist told People's Plenary meeting before a walkout today: “Cop26 is a performance. It is an illusion constructed to save the capitalist economy rooted in resource extraction and colonialism. I didn’t come here to fix the agenda – I came here to disrupt it.”

This argument does not have to be simplified for the public. We already know. As Cora, a 15-year-old member of Fridays For Future from Edinburgh said so eloquently this week: “Letting that kind of capitalist theatre run every COP? We are never going to see the change that we need now.”

But if copitalism is now an impossible utopia, is capitalism really the only game in town? Is it easier to imagine the end of the world than the end of the billionaire? Or is now the time for the climate movement to merge fully into the environment movement, the social justice movement, the (dare I say it) anti-capitalist movement so that we can aggregate our traumas, our grievances, our hopes, into something with the force and multitude that can begin to challenge the capitalist machine at the core of our misfortunes?

The famous quote from the Italian philosopher Antonio Gramsci also seems apposite right now. “The old world is dying and the new world struggles to be born. Now is the time of monsters.”

This Author

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Adiaforização na modernidade líquida

A clássica obra de Zygmunt Bauman, filósofo e sociólogo polaco radicado em Inglaterra, aponta e analisa as mudanças vivenciadas pela sociedade atual que atravessa desde o individualismo nas relações de trabalho, de família e comunidade e, indica que o tempo e o espaço deixam de ser absolutos e concretos para serem sempre líquidos e relativos.

Zygmunt Bauman tinha formação marxista e era detentor de uma extensa produção académica dotada de intensas reflexões sobre a sociedade e o mundo contemporâneo. Nasceu numa família judia e, ainda criança, teve de fugir com a família devido ao nazismo, exilando-se na URSS. O filósofo polaco chegou mesmo a combater no Exército Soviético durante a Segunda Guerra Mundial, o que viria mais tarde a ser um dos seus principais campos de estudo.

A posteriori veio a ser expulso do Partido Comunista, num episódio notabilizado pelo antissemitismo. Inicialmente mudou-se para Tel Aviv e, mais tarde, para Inglaterra, onde em 1971 adquiriu a nacionalidade britânica e veio a lecionar na Universidade de Leeds, onde permaneceria durante a maior parte da sua carreira.

Reconhece-se que Bauman foi a voz dos pobres, num mundo revoltado e aviltado pela globalização. No seu último livro intitulado "Viver com o tempo emprestado", publicado em 2009, analisou a situação e os desafios que o mundo globalizado enfrenta, em que tudo, da natureza ao ser humano, se converte em mercadoria.

Analisou a crise dos refugiados, a perda de direitos e a construção de muros nas fronteiras, em vez de pontes, tema que dominou o último ensaio de Bauman publicado no final de 2016, intitulado "Estranhos batendo à porta", no qual aborda o impacto das atuais ondas migratórias.

Ganhou o prémio Amalfi de Sociologia e Ciências Sociais em 1992, o prémio Theodor W. Adorno em 1998 e venceu ainda o prémio Príncipe das Astúrias de Comunicação em 2010.

Zygmunt Bauman é um sociólogo polaco nascido em 1925 e falecido a 09.01.2017 aos noventa e um anos, tendo-se mantido lúcido e atuante. Publicou mais de quarenta livros, entre os quais a "Modernidade Líquida".

Modernidade Líquida foi publicada no ano 2000, na famosa viragem do século, sendo efetivamente lançada em 2001. Nesta ocasião, o mundo estava em pânico, pois havia diversas previsões de falhas tecnológicas em programas de computador espalhados pelo mundo; esperava-se o tão propalado bug do milénio, ou seja, as máquinas e aplicações informáticas estavam apenas preparadas para executar até 1999, o que exigiria muitas adaptações para que não se instaurasse o caos tecnológico nos diversos setores da vida humana.

O bug do milénio foi um medo coletivo de que os computadores da época não compreendessem a mudança de milénio e passassem a apresentar uma paralisia geral dos sistemas e serviços em todo o mundo.

Desde 1960, os computadores usavam calendários internos com apenas dois dígitos. Depois do ano 99, viria o 00 que as máquinas entenderiam como 1900 ou como 19100, e não como 2000.

Porém, o medo tinha pouco fundamento, visto que muitos computadores já registavam datas em quatro dígitos. Mesmo assim, não se impediu que o pânico se espalhasse pelo mundo fora e que fossem gastos muitos milhares de milhões de dólares em todo o mundo em medidas preventivas.

Na contextualização, constata-se que, durante a década de 1990, existiram crises económicas creditadas à globalização crescente, além de guerras como a do Golfo e nos Balcãs. A internet disseminava um conceito de universo social, criando tribos virtuais que iam desde o consumismo desenfreado até à militância por causas ambientalistas.

O próprio título da obra já classificou a modernidade da sociedade que avança em diversos sentidos, embora seja questionável nas suas atitudes e no seu contexto enquanto sociedade. A liquidez proposta por Bauman advém do facto de os líquidos não terem uma forma, ou seja, são fluidos que se moldam conforme o recipiente no qual estão contidos, diferentemente dos sólidos que são rígidos e sofrem uma tensão de forças para se moldarem às novas formas.

Os fluidos movem-se e adaptam-se facilmente, escorrem entre os dedos, transbordam, vertem e preenchem vazios com leveza e fluidez. Muitas vezes, não são facilmente contidos, como ocorre, por exemplo, numa hídrica e num túnel de metro, lugar onde se podem observar goteiras, fissuras ou uma pequena gota numa fenda mínima. Os líquidos atingem e penetram os lugares, as pessoas, contornam o todo, vão e vêm ao sabor das ondas da conveniência do momento.

A obra traz a análise da liquidez existente em cinco tópicos básicos, a saber: a emancipação, a individualidade, o tempo e o espaço, o trabalho e a comunidade.

O filósofo apontou a questão sobre o conceito de liberdade, questionando se seria uma bênção ou uma maldição. Seria bênção, no sentido de que o indivíduo pode agir conforme os seus pensamentos e desejos, mas, em sentido contrário, cogita-se ser uma maldição, já que recai sobre o indivíduo toda a responsabilidade dos seus atos, ações e opções.

Na modernidade líquida, a hospitalidade dá lugar à crítica, onde se passa do estado de agente passivo para o de agente ativo que questiona e reflete sobre as ações e as razões das coisas e a ação do indivíduo sobre a sociedade e vice-versa.

A sociedade sólida, ou seja, a da modernidade clássica, sendo concreta, estava impregnada de um certo totalitarismo, visto ser rígida, sem resiliência, e não se adaptar às novas formas.

Bauman abordou que o principal objetivo da teoria crítica era a defesa da autonomia, da liberdade de escolha e da autoafirmação humana, do direito de ser e permanecer diferente. Noutros termos, essa hospitalidade à crítica é onde o indivíduo transita em liberdade e está aberto aos questionamentos e reflexões; o indivíduo flui então pela sociedade, pelo tempo e espaço, pode reclamar ao sentir-se prejudicado, reivindicar os direitos e exercer deveres, mas é também responsabilizado pelas ações e reações decorrentes dos seus atos.

A respeito da reflexão sobre a emancipação, Bauman traz a lume o pensamento de Max Weber, que discursava sobre a impossibilidade de se atingir a satisfação plena, porque o momento da autocongratulação e realização completa movia-se demasiado rápido, para mais e mais além, fazendo com que o indivíduo fosse impulsionado para a frente, perseguindo outros objetivos e anseios.

Para Bauman, há duas características que tornam a forma de modernidade nova e diferente: uma que relata o declínio da crença no fim do caminho em que andamos, ou seja, para ele a modernidade é um caminho infindável de oportunidades, desejos e realizações a serem perseguidos continuamente.

A segunda crença cogita sobre a mudança da desregulamentação e a privatização de tarefas e deveres modernizantes, ou seja, a tarefa apropriada ao coletivo, simbolizado na figura da sociedade, que sofreu uma fragmentação para o indivíduo.

Continuar a leitura em: Modernidade líquida, incertezas sólidas