Mostrar mensagens com a etiqueta José Saramago. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta José Saramago. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Dia de Mísia - "Ausência"


Letra
Namorei a tua ausência
Por tantas noites vazias
Que agora pede à prudência
Que eu te ausente dos meus dias

É que a ausência de ti
É uma noite tão escura
Que eu não sei sair dali
Sem ir à tua procura

O corpo senta-se ausente
Na cama onde não se deita
E sabe o melhor presente
Que a noite não aceita

Meu amor, chegou a hora
De o tempo negar o espaço
Em que o corpo se namora
Por ausência ou por cansaço
Meu amor, choras?

No entanto és sempre tu
Sempre que canto o meu fado
É quase o teu corpo nu
Que quase que tenho ao lado

Tenho a noite por exílio
A tua ausência por lei
Vem em meu auxílio
Ou nunca mais cantarei

O corpo senta-se ausente
Na cama onde não se deita
E sabe o melhor presente
Que a noite não aceita

Meu amor, chegou a hora
De o tempo negar o espaço
Em que o corpo se namora
Por ausência ou por cansaço
Meu amor, chegou a hora

Significado da canção
A letra explora o vazio psicológico e físico deixado pela perda do ser amado. O eu lírico descreve uma relação quase obsessiva com a própria solidão, chegando a dizer que "namorou a ausência" durante tantas noites que agora precisa de fazer um esforço consciente para afastar essa sombra dos seus dias. A falta da outra pessoa é comparada a uma noite escura e intransitável, um labirinto de onde não se consegue sair sem ceder à tentação de ir à procura de quem partiu.

Há uma forte presença do corpo e do espaço físico: a cama vazia onde o corpo já não se deita e o exílio da noite. No final, a ausência funde-se com a própria arte da fadista. Ela confessa que o seu fado será sempre sobre essa pessoa e lança um apelo desesperado: se o amor não vier em seu auxílio para quebrar este silêncio, a dor será tão grande que a impedirá de voltar a cantar.

Pequena homenagem
Filha de pai português e mãe catalã (bailarina de cabaré), Mísia trouxe para o fado muita inovação, maior projecção universal, uma sensualidade provocadora, uma ginga malandra e uma alegria solar.

A genuína essência de Mísia reside na audácia de ter sido a grande anarquista e esteta do fado, uma artista singular que habitou a fronteira exacta entre a tradição mais visceral e a vanguarda mais culta.

Longe de se fechar no purismo das tascas ou no fado-destino resignado, Mísia limpou o género do bafio do passado e elevou-o ao estatuto de alta literatura, desafiando os maiores escritores contemporâneos — como José Saramago, Agustina Bessa-Luís, Lídia Jorge e António Lobo Antunes — a escreverem para a sua voz. Havia na sua presença uma solenidade aristocrática misturada com uma atitude punk e até gótica, mas reduzir a sua obra à dor é ignorar a sua vibrante veia artística.

Mísia apoiava muito o seu canto no registo de peito, o que conferia à sua música uma ressonância profunda, noturna e ligeiramente rouca - características muito valorizadas tanto no fado clássico como no ambiente de cabaré que ela tanto adorava.

Mísia avant-garde introduziu instrumentos "proibidos" no fado tradicional - como o violino, o violoncelo, o piano e o acordeão - criando uma atmosfera de fado de câmara.

A sua melancolia não era de resignação (o típico "fado-destino"); era uma melancolia de combate, sensual, visceral e assumidamente trágica.

No fundo, Mísia libertou o fado das suas próprias amarras, provando que a tradição também se faz com pele, desejo, fragilidade humana, muita sensualidade, uma pitada de humor, festa e uma enorme liberdade criativa.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

O Prémio ao Cimento: Cavaco Silva e o "Whitewashing" à Europeia


Bom dia. Acordei a meio da noite para ir à casa de banho e, na ingenuidade de quem acha que consegue controlar tudo (inclusive o tempo), dei uma espreitadela no telemóvel com o intuito de voltar a adormecer... O resto é algo que podem imaginar — algumas horas de sono perdidas. Li esta notícia: "
Cavaco Silva condecorado com a Ordem Europeia do Mérito em Estrasburgo" - fui de imediato ver se era alguma partida de 1 de abril ou mais uma "exclusividade" da edição digital da Folha Nacional - que, para quem anda distraído, é o jornal oficial e o órgão de propaganda do partido Chega. Mas nem uma coisa, nem outra. Aconteceu mesmo!
Logo hoje, que eu ia usar o meu precioso tempo para falar das escolhas (fortemente questionáveis) do selecionador nacional para o Mundial de 2026... Quero que saibam que estou desde as 05:30 (e já passa das 08:00!) a escrever este texto. Porquê? Porque me dei ao hercúleo trabalho de procurar algo que este homem tenha feito para merecer tamanha distinção. Confesso que de pouca coisa me lembrava; tive de fazer arqueologia política, escavar muito numa rocha a que chamam de Google, isto para não fazer má figura, nem enganar ninguém.
Meus amigos, aconteceu terça-feira, na cidade de Estrasburgo, França, Europa — a uns 2.000 quilómetros de Lisboa. No meio de palminhas ensaiadas e sorrisos amarelos, a Múmia de Boliqueime — aquele ser de uma modéstia ímpar que dizia que "nunca tinha dúvidas e raramente se enganava" — recebeu uma medalha do tamanho do seu ego chamada Ordem Europeia do Mérito. Sim, deram-lhe um prémio daqueles grandes, com fitinha dourada e tudo!
E quem melhor para receber um prémio da Europa do que o nosso Doutor Alcatrão, o homem que transformou Portugal num parque de estacionamento gigante? A escolha foi feita por um júri de líderes europeus e, vejam bem a ironia, um deles era Durão Barroso. Alguém que não o conhece de lado nenhum, nem nunca tinha ouvido falar dele, decidiu dar nota positiva ao morto-vivo da nossa política. E lá estava ele, parecia preso por arames (pelas fotos que acompanham a notícia), a receber a medalha ao lado de figuras de relevo mundial, como a alemã Angela Merkel — a "Chanceler de Ferro", também conhecida por "Mamãzinha" no tempo em que controlava os seus subalternos europeus. Imagino a conversa de circunstância em "bom alemão"...
Se bem se lembram, enquanto os outros mandavam de facto nos seus países, o "Bolo Rei" do nosso orçamento limitou-se a gerir o alcatrão de estradas como a A1 e a EN125. Os chefes da Europa acham que ele mereceu o prémio por nos enfiar na UE, mas nós cá na paróquia lembramo-nos bem do que ele fez nos anos 80 e 90 — pormenores que a medalha finge esquecer. Foi a autêntica loucura do betão. Entrou tanto dinheiro vindo de Bruxelas e, em vez de modernizar o país, construir escolas de futuro e hospitais, o agora medalhado gastou quase tudo em autoestradas para podermos viajar mais depressa e gastarmos mais combustível.
Depois, veio o crime no setor primário: o governo aceitou as ordens de Bruxelas de cabeça baixa e trocou os nossos barcos e campos por subsídios para pescadores e agricultores ficarem em casa a ver as telenovelas. O interior esvaziou e passámos a comprar tomates a Espanha com o dinheiro que vinha de fora (porque os nossos já tinham ido à vida). Ainda hoje não os temos.
Para além disso, privatizou bancos e empresas estatais quase às escondidas, num número  de magia financeiro. E quem esquece aquele feitio altivo, com laivos pidescos? Um chefe teimoso e prepotente que ignorou a revolta do buzinão da Ponte 25 de Abril e os protestos dos estudantes contra as propinas. A brilhante ideia de mandar polícias avançar à força contra os seus próprios colegas - a que deram  ao episódio os "Secos e Molhados" — um espetáculo absolutamente lastimável. E, claro, como o homem gostava de silêncio, houve até espaço para a censura, ao proibir um livro do nosso único Nobel da Literatura, José Saramago.
Não esquecendo que essa múmia também não quis dar uma pensão a Salgueiro Maia. Não esquecendo que essa múmia também, umas semanas antes do BES ter entrado em falência, disse sem hesitação que o BES era um banco seguro. E por coincidência o genro dele de nome António Montez ganhou a compra, por proposta em "carta fechada" da atual MEO Arena, quando essa personagem estava falida. 
Durante os seus mandatos presidenciais, a par da governação PSD/CDS-PP liderada por Passos Coelho, o país implementou as duras medidas de austeridade associadas ao resgate da Troika, um rumo que Cavaco Silva chancelou. 
Mas a internet não perdoa e o timing é cruel. Enquanto o para mim "inexpressivo de Boliqueime" subia ao palco todo vaidoso a receber o metal, o feed das redes sociais dava atenção a um jovem, em França, que saltou para um rio perigoso para salvar um pato bebé. A piada faz-se mesmo sozinha: um rapaz arrisca a vida por um patinho indefeso, enquanto a Europa dá uma medalha de ouro ao agora surdo-mudo Cavaco - o homem que usou a força do cimento para empurrar a nossa agricultura e a nossa pesca para o fundo do poço.
Parabéns! Eu não, mas a Europa agradece penhoradamente por nos teres deixado permanentemente agarrados ao soro deles.
Texto adaptado de Luís Santos

domingo, 16 de novembro de 2025

Dia de José Saramago


José Saramago, nascido em 1922 na aldeia ribatejana de Azinhaga e falecido em 2010, em Lanzarote, consolidou-se como uma das vozes literárias mais singulares e influentes da língua portuguesa. A sua vida, marcada por origens humildes, por um percurso autodidata e por uma profunda consciência social, moldou uma obra que interroga, de forma obstinada, as estruturas de poder, as fragilidades humanas e as possibilidades éticas do mundo contemporâneo. Tipógrafo, serralheiro mecânico, funcionário público, tradutor e jornalista, Saramago chega à literatura “tarde”, mas com uma maturidade que lhe permite transformar o romance num espaço de experimentação filosófica, histórica e política.

A obra saramaguiana caracteriza-se por uma escrita inconfundível: longos parágrafos, uso singular da pontuação, diálogos integrados no fluxo narrativo e um narrador irónico, muitas vezes cúmplice, que desmonta convenções literárias e desafia o leitor a participar no processo interpretativo. Essa forma, longe de ser mero artifício, revela uma visão do mundo onde a realidade é sempre problemática, polifónica, sujeita a reinterpretações constantes. A sua linguagem, simultaneamente coloquial e metafísica, cria um espaço literário em que o quotidiano se cruza com o fantástico, não como fuga, mas como método de conhecimento.

O pensamento de Saramago assenta numa postura humanista e crítica. Ateu declarado, questionador pertinaz de instituições — sobretudo políticas e religiosas —, o escritor vê a literatura como instrumento de desvelamento do que se oculta por trás dos discursos oficiais. Em obras como Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis ou História do Cerco de Lisboa, revisita a História para expor as suas lacunas e manipulações, revelando a força das narrativas no exercício do poder. Noutros romances, como Ensaio sobre a Cegueira e Ensaio sobre a Lucidez, constrói alegorias sociais que expõem a fragilidade das democracias, a tendência humana para a violência e a responsabilidade moral que cada indivíduo carrega, mesmo — ou sobretudo — quando tudo parece ruir.

A dimensão ética está também presente na centralidade que atribui à compaixão, à solidariedade e à memória das injustiças. Para Saramago, a humanidade só se reconhece plenamente quando se vê ao espelho das suas próprias misérias e contradições. Daí a insistência em narrativas que funcionam como experiências-limite, onde personagens comuns enfrentam situações extremas que as obrigam a reflectir sobre o sentido da liberdade, da dignidade e da convivência social.

A vida de Saramago, especialmente após conquistar o Prémio Nobel da Literatura em 1998, tornou-se também um gesto público de coerência com suas ideias. Ele utilizou a visibilidade para afirmar posições políticas contundentes, muitas vezes polémicas, mas sempre sustentadas por uma convicção ética profundamente enraizada. A sua mudança para Lanzarote após o episódio de censura de O Evangelho segundo Jesus Cristo é emblemática do modo como articulava criação literária, vida pessoal e intervenção pública.

No conjunto, vida, obra e pensamento formam uma unidade coerente: Saramago é um escritor que concebe a literatura como forma de resistência e de revelação; um intelectual que recusa simplificações e dogmas; um observador crítico que acredita, apesar de tudo, na possibilidade de o ser humano se tornar melhor. A sua escrita permanece como convite — e desafio — para que continuemos a interrogar o mundo com a mesma lucidez inconformada que ele cultivou ao longo de toda a vida.

sábado, 14 de junho de 2025

José Saramago


Vivemos num mundo que está a ir de mal a pior e é humanamente inútil. O espetáculo global é uma demonstração clara e óbvia daquilo a que chamo a irracionalidade humana. Vemos o abismo, está mesmo diante dos nossos olhos, mas movemo-nos em direção a ele como uma turba de lemingues suicidas, com a diferença fundamental de que, ao longo do caminho, nos divertimos a enganarmo-nos uns aos outros.
Cadernos de Lanzarote

segunda-feira, 9 de junho de 2025

Gabor Maté: “No Ocidente há um vazio profundo, que vem da falta de pertença, da perda de ligação”

"
O corpo e a mente são inseparáveis e o modo de vida ocidental põe-nos doentes, diz este médico-pensador. Os seus livros são best-sellers. Um deles chama-se 'No Reino dos Fantasmas Famintos'.
Pedro Rios, Público, 2/05/2025

Ela tinha 27 anos. Era trabalhadora do sexo e tinha VIH. “A primeira vez que consumi heroína foi como um abraço quente e terno”, disse esta toxicodependente de Vancouver ao médico Gabor Maté, que então trabalhava com esta população.
No gueto das drogas de Vancouver, Maté ouviu muitas histórias idênticas. Como a de Nick, viciado em heroína e metanfetaminas, consumidor de drogas “para não sentir a porcaria dos sentimentos” que sentia quando não as consumia; a de Frank, “alma doce”, “solitário heroinómano”, que escreveu num poema que procurava “alívio para a dor”, mas só encontrou um “bilhete de ida num comboio para o inferno”; ou a de Serena, mulher indígena de pouco mais de 30 anos que encontrava nas drogas uma forma de esquecer os abusos sexuais que começou a sofrer aos 7 anos.
São histórias contadas por Gabor Maté em 'No Reino dos Fantasmas Famintos', finalmente publicado em Portugal. Disseram-lhe que o livro humaniza os toxicodependentes, um reconhecimento que “reflecte uma percepção errada fundamental e comum”, a de que os viciados em droga não são realmente humanos como os restantes. “O que impede tantas pessoas de verem isso?”
Com mestria de contador de histórias e apoiado por estudos e pela sua experiência como médico residente da Portland Hotel Society (uma organização sem fins lucrativos que apoia toxicodependentes, dando-lhes alojamento e cuidados médicos), Maté explica que as drogas são o fraco e sempre incompleto consolo de muitos humanos (como Nick, Frank e Serena), preenchendo vazios afectivos que remontam quase sempre à infância, tal como o trabalho, o jogo, a pornografia ou compras são respostas aos vazios de outros. “A nossa sociedade, com pessoas cada vez mais desesperadas para escapar ao isolamento e desânimo das suas vidas quotidianas, está repleta de todos os tipos de dependências, e cada vez surgem mais”, escreve o autor, que, em 2018, foi distinguido com a Ordem do Canadá.
Quando publicou este livro, em 2008, o húngaro-canadiano era já conhecido como especialista em temas como as dependências, o stress, o trauma, o desenvolvimento infantil e o défice de atenção. Os seus livros, as suas palestras e as suas entrevistas chegam a uma multidão de pessoas à procura de respostas num mundo agitado, nervoso, ansioso como elas. No livro que se seguiu, 'O Mito do Normal' (2022), interpreta várias epidemias no Ocidente (como a de obesidade ou de doenças mentais) como, em boa medida, manifestações de uma cultura “doente”, que negligencia que corpo e mente são indissociáveis, que varre para debaixo do tapete os traumas e o stress que carregamos nesse corpo-mente.
Ele que o diga. Conta com frequência que, aos 12 meses, foi temporariamente abandonado pela mãe. Na verdade, a mãe entregou o bebé Gabor a familiares para lhe salvar a vida (o episódio passou-se na Hungria sob o domínio nazi, em 1944, e os Maté são uma família judia). “Vivi aquele acontecimento da única forma como um bebé poderia viver: como abandono”, escreve no livro agora editado em Portugal. O “abandono” ficou como que inscrito nos circuitos cerebrais do médico. Encheu esse vácuo com o serviço a populações vulneráveis, mas também com uma compulsão de compras de CD de música clássica e um vício no trabalho, uma forma de mostrar o seu valor. Por isso, os toxicodependentes de Vancouver reconheciam nele outro “fantasma faminto”.
Trauma é a palavra grega para “ferida”. Escreve em 'O Mito do Normal': “As feridas psíquicas que sofremos são-nos frequentemente infligidas antes de o nosso cérebro ser capaz de formular qualquer tipo de narrativa verbal, como no meu próprio caso. Em segundo lugar, mesmo depois de nos tornarmos dotados de linguagem, algumas feridas são impressas em regiões do nosso sistema nervoso que não têm nada que ver com linguagem ou conceitos; isto inclui áreas do cérebro, claro, mas também o resto do corpo.”
“Por dentro, posso ser tão miserável, deprimido e com problemas como toda a gente, sabe?”, diz nesta entrevista ao Ípsilon por videochamada. “Mas tenho esta vocação. E tenho sorte: tenho 81 anos e posso viajar por todo o mundo a dizer a minha verdade. E as pessoas ouvem-me. É assim que eu me vejo.”

No 'Reino dos Fantasmas Famintos' foi publicado originalmente em 2008 e chega agora a Portugal. O que o levou a escrever este livro e como o vê hoje, 17 anos depois?
Pensei que seria interessante escrever sobre a experiência de trabalhar em Vancouver, numa zona de grande consumo de droga. Ao pesquisar, espantei-me: não havia um único livro que reunisse histórias de vida das pessoas, a ciência do trauma, a ciência do desenvolvimento do cérebro e da psicologia, e que olhasse para a sociedade. Toda a ciência e a experiência acumulada desde então só validam o que escrevi.
Muitas pessoas disseram-me que este livro lhes salvou a vida. Houve até pais cujos filhos morreram de overdose que vieram ter comigo para me agradecer. E isso também me surpreendeu porque digo no livro que os traumas de infância estão na base da toxicodependência. Esses pais agradecem-me porque compreendem que não os estou a culpar: [o trauma] é multigeracional.
Há vários cépticos da valorização que faz dos traumas infantis para comportamentos como as dependências. Dizem que exagera, que pode haver outras causas.
Em 'O Mito do Normal', voltei a olhar para a literatura [científica] mais recente e aconteceu a mesma coisa: mais provas, mais provas, mais provas. Os cépticos não têm em conta a forma como o cérebro é verdadeiramente programado ou influenciado no seu desenvolvimento pelas experiências emocionais das pessoas — até no útero. Não invento estas coisas. Para mim, nem sequer é controverso.

É muito interessante a forma subtil como passa das histórias de toxicodependentes de Vancouver para a sua própria história de viciado — em trabalho e em compras de CD de música clássica. Escreve que chegou a gastar dois mil dólares em apenas um mês e meio.
Outras pessoas pensam: como é que se pode comparar aos toxicodependentes? Eu respondo que as diferenças entre mim e eles são óbvias, mas as semelhanças é que são interessantes: o impulso, a impotência perante o impulso, a mentira, a batota, a desonestidade, o ignorar de outros aspectos da vida. E os circuitos cerebrais são os mesmos.
Quando contei aos meus pacientes toxicodependentes os meus hábitos, eles não disseram “Como é que te podes comparar?”, mas antes “És igual a todos nós, não és?”.
Onde quer que eu fale, digo às pessoas que as dependências podem ser de drogas, mas também de sexo, jogo, alimentação, compras, trabalho, pornografia, bulimia ou automutilação. Quando perante 8000 pessoas, como aconteceu em Sydney, em Fevereiro, peço que quem tem uma dependência que levante a mão, 7999 levantam. É muito importante que as pessoas percebam que os toxicodependentes não são assim tão diferentes. Apenas sofreram mais, só isso.

As dependências são respostas aos vazios que carregamos?
Quando perguntamos às pessoas não o que está errado com a dependência, mas o que está certo, o que é que ela faz por elas a curto prazo, dizem: “entorpece a minha dor”, “diminui o meu stress”, “faz-me sentir mais vivo”, “dá-me prazer”, “relaxa-me”. São coisas boas. A dependência não é o problema principal, o problema principal é o sofrimento e a dor emocionais, a falta de tranquilidade e paz, o isolamento, a perda de vitalidade. É esse o vazio de que estou a falar. Ele vem primeiro e as dependências vêm depois. E isso remonta sempre à infância.

Nesta edição de 'No Reino dos Fantasmas Famintos', dá Portugal, onde a posse de drogas para uso pessoal foi despenalizada, como raro bom exemplo nesta matéria. A tendência vai em que sentido?
O que vejo a nível internacional são países a caminhar na direcção oposta. São duros perante o crime e as drogas — como na Hungria, o meu país natal, onde acabaram de aprovar uma série de leis duras [contra a droga], sem estratégia de redução de danos. Nos Estados Unidos e no Canadá, há uma pressão no mesmo sentido.

Do trabalho aos smartphones, porque é que parece haver tantas dependências no Ocidente?
Para sermos justos, temos de dizer que as dependências já existem há muito tempo, muito antes do surgimento da sociedade ocidental. Mas pioraram. É uma questão de necessidades das pessoas. Quando as necessidades de amor, aceitação e pertença são satisfeitas, as pessoas não precisam de se viciar. Nos Estados Unidos, morrem de overdose o dobro das pessoas que morreram nas guerras do Vietname, do Afeganistão e do Iraque juntas, todos os anos. O dobro! O que aconteceu? Nos centros industriais dos Estados Unidos, os empregos foram deslocados para o estrangeiro. Sem empregos, as pessoas perderam um sentido, especialmente os homens da classe trabalhadora, e o seu sentimento de pertença e de propósito. Esta sociedade diz-nos que o nosso significado, o nosso propósito e o nosso valor dependem da nossa contribuição económica ou das nossas posses.
Se olharmos para as culturas indígenas, percebemos que a forma como evoluímos ao longo de centenas de milhares de anos prevê um sentimento de pertença, de comunidade, de carinho, de ligação. Já a sociedade ocidental diz que os seres humanos são individualistas, egoístas, agressivos e interessados em bens materiais. Numa cultura assim, as necessidades das pessoas não são satisfeitas e há um vazio profundo e real, que vem do sentimento de falta de pertença, da perda de ligação.
Isso remonta à infância. As crianças deviam estar com os pais durante anos e anos e anos. [Em sociedades antigas] ficavam com os pais até à adolescência — não apenas com os pais, mas também com a tribo ou o clã. Hoje em dia, os pais têm de abandonar os filhos para ir trabalhar, deixando-os com estranhos. Há uma sensação geral de isolamento, solidão e desconexão, e as crianças não têm o ambiente propício para um desenvolvimento saudável.
E não é só isso. Há indústrias inteiras que se baseiam em dizer-nos que não somos suficientemente bons ou felizes a menos que compremos alguma coisa. Continuam a fomentar este vazio em nós para poderem vender os seus produtos.
Sou pai. Ouvi com frequência que devemos deixar os bebés dormir sozinhos, mesmo que chorem, porque isso dá-lhes “independência”, “maturidade”.
Diga a uma mãe macaca para ignorar o seu bebé. Nesta sociedade, os peritos dizem-lhe para ignorar os seus instintos. Qual é o seu instinto quando o seu bebé está a chorar?

Confortá-lo, abraçá-lo.
Exactamente. Não espanta que as pessoas tenham problemas.

Pais e filhos, corpo e mente e “a destruição das relações tradicionais, da família alargada, do clã, da tribo e da aldeia” (No 'Reino dos Fantasmas Famintos') devido às mudanças económicas e sociais. O seu pensamento denuncia um mundo que promove, de várias formas, a separação. Um neurocientista português, António Damásio, que o Gabor costuma citar, falou no “erro de Descartes”, a separação do corpo e da mente. Ainda estamos nesse mundo cartesiano?
Estamos. Todos os meus livros são sobre isso. Há toda uma ciência que mostra a unidade corpo-mente, ela é evidente, mas nas faculdades de Medicina ensinam-nos que o corpo e a mente são coisas separadas. O médico médio não recebe uma única palestra sobre trauma, apesar de o trauma ser uma influência tão grande na vida e no desenvolvimento das pessoas. Há um fosso entre a ciência e a prática. A prática ainda está presa a essa divisão cartesiana.
E há razões para isso. Se reconhecêssemos, como sociedade, que as emoções das pessoas e a sua fisiologia são inseparáveis, trataríamos as pessoas da mesma forma? Iríamos controlá-las, oprimi-las e manipulá-las? O capitalismo olha para o corpo como uma unidade de produção ou como uma unidade de consumo: está interessado em nós enquanto estivermos a produzir ou a consumir.

Em "O Mito do Normal" dá vários exemplos de atitudes e realidades consideradas normais nas sociedades ocidentais, mas que, segundo diz, criam doenças e disfunções. Pode dar exemplos?
Há certos limites fisiológicos que são normais. Se a sua tensão arterial estiver num intervalo normal, está saudável. “Normal” significa saudável e natural, mas tem outro significado, que é o que quer que seja que costumamos fazer. Numa determinada altura, era normal bater nas crianças — e em muitos países ainda é assim, lá é normal porque muita gente o faz. Mas será que é saudável e natural? Não. É traumatizante para a criança, em todos os casos. É normal nas sociedades ocidentais deixar os bebés chorar e não pegar neles. É normal porque toda a gente o faz. É saudável e natural? Pelo contrário. É normal nas sociedades ocidentais que se diga às pessoas que os seres humanos são egoístas e agressivos. Isso é saudável e natural? Não, não é. É normal ter de fazer um trabalho de que não se gosta? É alienante. É normal no sentido em que se espera que as pessoas o façam. É saudável e natural? Não, é mau para a saúde.

A série televisiva 'Adolescência' levou para o mainstream fenómenos como a cultura incel (“celibatários involuntários” que não conseguem ter relações amorosas com mulheres e que, muitas vezes, as culpam por isso ou as odeiam). Ficou surpreendido com o conteúdo de Adolescência?
É uma série muito poderosa, incrivelmente bem feita. Esses miúdos estão totalmente perdidos no seu próprio mundo e estão desligados dos adultos. E os resultados são desastrosos. Foi por isso que escrevemos este livro [mostra Hold On To Your Kids, co-escrito com o psicólogo Gordon Neufeld], há 20 anos. Faz parte da “normalidade” do mundo moderno o facto de as crianças estarem desligadas dos adultos. Para o desenvolvimento infantil, é um desastre.

Vivemos numa era de “homens fortes” e que desvalorizam ou desprezam a empatia: Donald Trump, Viktor Orbán, Elon Musk… A sua teoria da dependência aplica-se a eles?
Um académico [Robert Hare] que estudou personalidades psicopáticas disse [em 2002]: “Nem todos os psicopatas estão na prisão, alguns estão na sala de reuniões.” Olhemos para algo como o clima. Desde 1970 que tem havido todo o tipo de provas científicas sobre o que estamos a fazer ao clima e as suas consequências. As companhias petrolíferas sabiam-no. Ignoraram a ciência, contrataram cientistas falsos para a negar e políticos para lhes permitirem continuar a destruir a Terra. Bem, isso é sociopatia. [A crise climática] já matou dezenas de milhares de pessoas.
Trump foi uma criança muito traumatizada. Uma vez, ele disse que o mundo é um lugar horrível, onde todos estão contra nós, salve-se quem puder; os teus amigos querem a tua casa, a tua riqueza, a tua mulher. Bem, se é nisso em que acreditamos, quem é que temos de ser? Temos de ser grandiosos, agressivos, manipuladores e egoístas só para nos protegermos. Esta foi a defesa [de Trump].
Nesta sociedade louca, essas pessoas são recompensadas com sucesso. E as pessoas pensam que são fortes e que, por isso, são bons líderes. Mas não são fortes, são apenas agressivos.

Vê vias de fuga para este quadro global?
A história do mundo, incluindo a de Portugal, passa por ciclos. Portugal teve a sua história de repressão e ditadura.
Os judeus, o meu povo, sofreram terrivelmente em vários momentos da História, sobretudo na Europa dos anos 30 e 40. O que é que eles estão a fazer agora? A assassinar os palestinianos! Assassinam-nos! Crianças! É a pior coisa que já vi em toda a minha vida.
A história funciona por ciclos. Penso que estamos a passar por um desses ciclos. O sistema está em dissolução, está em apuros, é cada vez menos capaz de satisfazer as necessidades das pessoas, e, por isso, elas estão desesperadas por algum tipo de solução, por alguém forte. Projectam as suas necessidades nesses líderes, que são viciados em poder.
Estamos longe dos “fantasmas famintos”, mas é a mesma coisa. O sistema está sempre com fome. Nunca tem o suficiente. Tem de continuar a crescer, a crescer e a crescer. E não importa qual seja o custo. Se precisarmos destruir a Terra, destruiremos a Terra.

Porque é que conta tantas vezes, nos seus livros e nas suas palestras e entrevistas, a história de como foi temporariamente entregue pela sua mãe a alguém que para si, então um bebé de 12 meses, era uma perfeita desconhecida? Isto no contexto da Hungria sob o jugo nazi.
Conto essa história porque é muito comum algum tipo de abandono, talvez não tão dramático como o que me aconteceu. Tantas crianças experimentam a perda de ligação, a perda de carinho, a perda de serem vistas, também de serem compreendidas, a perda de serem abraçadas emocionalmente. Conto a minha história porque quero que as pessoas se sintam normais. Quero que compreendam que somos todos iguais e que o que aconteceu há 80 anos ainda pode aparecer na minha vida. Utilizo essa história para ilustrar o poder ou o impacto da experiência precoce.
É visto como o oposto de Jordan Peterson — curiosamente, também canadiano. Ele vê as coisas de forma diferente. Advoga que castigar crianças é benéfico para elas. Sublinha a importância da ordem e da disciplina férrea. O pensamento de Peterson é hoje particularmente sedutor para homens adolescentes ou adultos.
Peterson fala da raiva que as pessoas têm — e as pessoas estão mesmo zangadas. As pessoas estão zangadas quando estão frustradas — e estão frustradas quando as suas necessidades não estão satisfeitas. Há uma escassez de empregos e de amor neste mundo. E Jordan Peterson aparece a dizer “tens todo o direito de estar zangado porque o problema são estas mulheres que não te amam” ou “o problema são estas pessoas trans que estão a tentar destruir a tua masculinidade”. Ele identifica a raiva — e, quando o ouvimos, notamos que ele está cheio de raiva, a sufocar de raiva — e dá aos seus seguidores um alvo para a raiva. Isso valida-os. Ele não é um psicólogo. É um propagandista político e a direita adora-o.

A raiva é poderosa. Dá-nos uma gratificação, mesmo que temporária. Como as dependências de que fala em No 'Reino dos Fantasmas Famintos'?
Absolutamente. Quando estamos zangados, estamos a gerar poder. É um substituto para a falta de poder que temos na nossa vida. Há uma coisa que ele diz que é verdade: as pessoas devem assumir responsabilidade por si próprias. Mas só se pode assumir responsabilidade quando se compreende realmente o que se está a passar. É isso que tento transmitir.

Foi sionista, mas hoje é um sonoro crítico da política seguida por Israel, antes e depois do 7 de Outubro de 2023, o dia do ataque do Hamas. Haverá poucos sítios mais traumatizados no mundo do que a Palestina. Onde já esteve…
Foi em 1992. Chorei todos os dias. Também estive lá em 2023, seis meses antes do 7 de Outubro, na Cisjordânia, para trabalhar com mulheres que tinham sido torturadas em prisões israelitas.

Que imagens, impressões, sentimentos trouxe de lá?
As pessoas no Ocidente não fazem ideia da crueldade, da opressão, da escuridão, da agressão e da brutalidade da ocupação israelita. Estou a falar de antes do 7 de Outubro. Já dura há décadas e piora todos os anos. É inacreditável! É a pior situação em todo o mundo — há muitas situações más no mundo, de Myanmar [Birmânia] ao Sudão, mas esta está a acontecer com o apoio e a cumplicidade do mundo “civilizado” e “democrático”. E as mentiras, a hipocrisia e a incapacidade de dizer a verdade ou de informar sobre o que se está a passar.

Vê uma saída?
Como se chama o vosso grande escritor? José Saramago?

Sim.
Li o seu livro sobre Jesus [O Evangelho segundo Jesus Cristo], um belo livro, no ano passado. Portugal pode produzir um Salazar, mas pode também produzir um Saramago, cheio de humanidade e justiça social. E o ser humano é assim. Portanto, eu acredito. Tenho uma certa confiança na verdade. Eu não fazia ideia do impacto que 'Fantasmas Famintos' ia ter, mas ando por todo o mundo e as pessoas dizem-me que o livro salvou as suas vidas. É ensinado nas universidades. Há algo de muito poderoso em dizer as coisas como elas são, em dizer a verdade tal como a entendemos.
Penso que as pessoas têm capacidade para se curar. Penso que as sociedades têm capacidade para se curar. Envolve muito trabalho, muito desânimo, muito sofrimento, mas acho que, no final, é possível. É isso que me faz continuar. Não é uma fé religiosa. É apenas uma espécie de confiança…

É uma fé não religiosa.
É uma fé não religiosa.

Dá entrevistas e palestras, escreve livros. Parece incansável. Dizer o que pensa sobre desenvolvimento infantil, dependências, saúde, a forma como vivemos é uma missão?
[Pega num conjunto de papéis] Isto é um livro de memórias dactilografado que a minha prima escreveu. Ela era psicóloga. E cuidou de mim quando me separei da minha mãe. Foi a família dela que cuidou de mim durante seis semanas. Eu estava muito doente.
Encontrei as memórias dela recentemente, vou traduzi-las do húngaro para si. Quando isto estava a acontecer, em 1944, ela tinha 11 ou 12 anos. E tomou conta de mim com a sua família. E ela diz: “A tosse do Gabor não passava, estava a ficar mais espasmódica e ele com mais cãibras. (...) Não conseguia respirar. Por isso, o meu pai teve de procurar um médico que estivesse disposto a pôr em risco a sua vida.” Porque os médicos estavam proibidos de tratar judeus na Hungria sob o jugo nazi. Isto passa-se em 1944, Janeiro. E ela encontrou um jovem médico, um pediatra. Como é possível que este médico cristão tenha ido ver um bebé judeu? No final, acariciou o meu corpo e disse-me: “Não te preocupes, meu querido. Mais tarde vais pagar-lhes.”
Não conhecia essa história até há pouco tempo. Mas é isso que tenho estado a fazer toda a minha vida: tenho estado a pagar ao mundo. Porque, apesar de toda a tragédia que está nessa história, apesar de toda a tristeza, veja todo o amor que há nela. Imagine a minha mãe a passar-me a um estranho. Quanto amor foi necessário! Imagine uma mulher cristã desconhecida a acolher este bebé judeu. Imagine os meus familiares. Imagine este médico.
A dependência não é o problema principal, é o sofrimento e a dor, a falta de tranquilidade e paz, o isolamento. É esse o vazio.
Tenho de ser como toda a gente. Acontece que eu sou articulado. E consigo ver coisas e ligações, e isso é bom. Mas, por dentro, posso ser tão miserável, deprimido e com problemas como toda a gente, sabe? Mas tenho esta vocação. E tenho sorte: tenho 81 anos e posso viajar por todo o mundo a dizer a minha verdade. E as pessoas ouvem-me. É assim que eu me vejo.
Suspeito que veja a natureza humana como intrinsecamente positiva. Mais Rousseau do que Hobbes.
Se pegarmos numa semente de qualquer planta e não lhe dermos sol, nutrição ou irrigação suficientes, como é que a planta vai ficar?

Frágil, como morta.
Pode dizer que é a sua natureza ser assim, mas não é. E se a puser num chão fértil com muitos minerais, luz do sol, água? Eu prefiro não falar da natureza humana, mas de potencial humano e sobre que condições são favoráveis a esse potencial. Sabemos que quando as crianças são bem tratadas, amadas, nutridas, vão ficar bem. Deixe-me fazer-lhe uma pergunta: já foi invejoso ou agressivo?

Sim.
E como se sentiu?
Como se estivesse em piloto automático, sem pensar no que estava a fazer.
E depois disso, o que sentiu?
Uma espécie de ressaca. Remorsos.
E já foi generoso e gentil?
Sim.
E como se sentiu?
Bem.

É a sua natureza, de facto. A questão é que condições a podem fazer florescer.
As primeiras palavras de 'O Mito do Normal': “Na sociedade mais obcecada pela saúde de sempre, nem tudo está bem. A saúde e o bem-estar tornaram-se uma fixação moderna.” Descreve o “dilúvio diário” de notícias ou conteúdos virais a promover modos de “auto-aperfeiçoamento”. “Tomamos suplementos, inscrevemo-nos em estúdios de ioga, mudamos de dieta em série, pagamos testes genéticos, estratégias para prevenir o cancro ou a demência, e procuramos aconselhamento médico ou terapias alternativas para doenças do corpo, da psique e da alma. E, no entanto, a nossa saúde colectiva está a deteriorar-se.” A que se deve este aparente paradoxo?
Quanto mais doente for uma sociedade, quanto mais desesperadas estiverem as pessoas, mais elas querem ser saudáveis. 70% dos adultos americanos tomam um medicamento. Comem lixo! A cultura vende-lhes lixo para comer! E o stress aumenta por causa dessa comida. Claro que as pessoas estão desesperadas por serem saudáveis. Mas não estão à procura das causas, estão só a ver os efeitos.
O mesmo sistema que promove produtos prejudiciais vende produtos para contrariar os seus efeitos?
É um sistema brilhante.

Disse há instantes que o “sistema está em dissolução”, “em apuros”. Mas ele parece particularmente resistente.
É extraordinariamente resistente — mas a que custo? À custa do ambiente, pondo em perigo a existência humana. À custa do sofrimento que impõe em todo o mundo, à custa de deixar o povo doente. O sistema só quer sobreviver, como uma fera. A razão pela qual não só os meus livros, mas outros livros sobre trauma e outros temas, são tão lidos hoje em dia é precisamente porque as pessoas estão à procura de respostas."

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

José Saramago - sobre História


"A História é tão pródiga, tão generosa, que não só nos dá excelentes lições sobre a actualidade de certos acontecidos outrora como também nos lega, para governo nosso, umas quantas palavras, umas quantas frases que, por esta ou aquela razão, viriam a ganhar raízes na memória dos povos."
José Saramago - in Diário de Notícias (2009)

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

José Saramago- centenário

Se estivesse vivo, Saramago faria 100 anos.
Assinala-se esta quarta-feira o centenário do nascimento de José Saramago (1922-2010), o primeiro e único Nobel da Literatura português (e da língua portuguesa), um militante construtor de alegorias políticas que foi, no seu próprio país, tão polémico quanto reverenciado.

A que estamos obrigados para connosco mesmos e para com aqueles que nos sobreviverão, os sujeitos e as organizações do nosso tempo? Além de afirmar os seus inegáveis direitos, o que devem fazer os grupos económico-empresariais, as associações civis, as comunidades religiosas, os meios de comunicação, os partidos políticos ou os indivíduos concretos que habitam a Terra? Para lá de desesperanças e possibilidades individuais de realização, a que deveríamos, cada um de nós, estar obrigados, em função das nossas circunstâncias, capacidades e possibilidades, para connosco, os outros, a nossa comunidade, o nosso sistema de governo ou o espaço em que habitamos? O facto de uma ou muitas pessoas o saberem não é suficiente para encetar acções na direcção correcta. É necessário dizê-lo, afirmá-lo, comprometermo-nos, para que as coisas comecem a caminhar nessa direcção. Tal como há anos se vem apregoando a necessidade de que cada um se reconheça como sujeito pleno de direitos e seja capaz de compreendê-los e exercê-los, também é necessário que, através de um exercício de educação cívica, se discutam os deveres e as obrigações que tais titularidades implicam.
Este é, finalmente, o objecto desta proposta: ajudar-nos a tomar consciência de que a nossa condição humana passa, desde logo, pela plena titularidade dos direitos que admitimos como inatos a todos os seres humanos, mas também pela aceitação de deveres, obrigações e responsabilidades para connosco e para com os outros. Como expressado por José Saramago num dos discursos que pronunciou aquando da entrega do Prémio Nobel de Literatura em 1998, fazendo referência ao 50.º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos:
"Foi-nos proposta uma Declaração Universal de Direitos Humanos, e com isso julgámos ter tudo, sem repararmos que nenhuns direitos poderão subsistir sem a simetria dos deveres que lhes correspondem, o primeiro dos quais será exigir que esses direitos sejam não só reconhecidos, mas também respeitados e satisfeitos. Não é de esperar que os Governos façam nos próximos cinquenta anos o que não fizeram nestes que comemoramos. Tomemos então, nós, cidadãos comuns, a palavra e a iniciativa. Com a mesma veemência e a mesma força com que reivindicarmos os nossos direitos, reivindiquemos também o dever dos nossos deveres. Talvez o mundo possa começar a tornar-se um pouco melhor." in Carta dos Deveres e das Obrigações dos Seres Humanos

Para saber mais

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

Espere "fenómenos extremos" na sua vida daqui em diante


Eventos extremos mais frequentes e mais intensos - prepara-se para isso. A Natureza está à procura de "um novo equilíbrio" - e quem vive em Portugal e Espanha está mesmo a viver a metáfora da "Jangada de Pedra" do Nobel português

Ondas de calor, incêndios e inundações: várias cidades europeias passaram por vários e diferentes fenómenos climáticos extremos nos últimos dias. Foi o que aconteceu em Londres ou Paris, capitais europeias que ainda há pouco tempo assinalavam recordes de temperatura e que esta semana foram surpreendidas com fortes chuvadas. Em Portugal a água ainda não chegou, mas o decorrer da situação aponta que isso possa acontecer, nomeadamente com o aproximar do inverno.

Os especialistas admitem esse cenário, sendo certo que o futuro se fará de mais fenómenos extremos. Os níveis de precipitação até podem vir a diminuir, mas a intensidade dos mesmos deverá aumentar, como aconteceu em França ou Inglaterra: mesmo com as chuvas que atingiram as capitais daqueles países, o ano continuará a ser de seca extrema para ambos.

Filipe Duarte Santos, um dos primeiros investigadores que estudaram as alterações climáticas em Portugal, aponta à CNN Portugal que esse é o futuro: “Há uma maior probabilidade de termos eventos extremos mais frequentes e mais intensos. Esses eventos podem ser ondas de calor, secas e períodos de precipitação intensa”.

O especialista, que lecionou vários anos na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, afirma que essa é uma consequência clara das alterações climáticas, apontando mesmo que há vários anos que identificou este tipo de problema, que só agora começa a ter maior atenção. É natural, por isso, que os anos venham a ser cada vez mais secos, trazendo consigo fenómenos extremos.

Carlos da Câmara concorda que será cada vez mais normal assistirmos a fenómenos extremos, apontando a expressão "extremos compostos" para definir o caso. O climatologista, um dos mais experientes em Portugal, lembra que 14 dos últimos 20 anos foram de seca em Portugal, mais extrema ou mais moderada, mas há algo que está a mudar: num mesmo ano estão a aparecer vários fenómenos extremos que se verifiquem de forma seguida - em 2003, por exemplo, houve uma forte onda de calor mas não houve seca, já em 2005 aconteceu o contrário, uma das piores secas de sempre mas que não foi acompanhada de qualquer onda de calor. "Em 2017 conjugaram-se os dois fenómenos e este ano há uma seca e já existiram três ondas de calor", nota o também professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, explicando assim que se deverão verificar mais fenómenos extremos num mesmo ano.
Variação de temperatura e precipitação em Portugal (APA)


Por isso mesmo se torna normal que num ano de seca possam aparecer fenómenos como cheias e inundações. Apesar disso, segundo Carlos da Câmara, não é possível estabelecer uma relação causa-efeito entre o aparecimento de secas ou ondas de calor e cheias. Por isso, e mesmo sabendo que, mais tarde ou mais cedo, Portugal vai voltar a ser fustigado por violentas inundações, não é possível prever quando isso vai acontecer.

"Era raro fenómenos como estes encontrarem-se mas a probabilidade de ter os dois está a aumentar muito", vinca, referindo que esta é a forma que a Natureza encontra para procurar "um novo equilíbrio". É como se a Terra tivesse de encontrar forma de se "refrescar", o que leva a que uma atmosfera mais quente resulte em mais vapor de água, o que também vai levar a maior precipitação.

Filipe Duarte Santos também não consegue apontar uma altura exata para um fenómeno de cheias e inundações em Portugal, afirmando que essa é uma tarefa que é difícil para qualquer meteorologista ou climatologista: “Não é seguro que logo após uma seca existam eventos de precipitação muito violentos. Pode acontecer ou não. Aquilo que se está a observar é que há mais movimentos convectivos na atmosfera, há mais movimentos ascensionais do ar que aquece junto à superfície”, afirma, vincando que, embora o ar suba, isso não quer dizer que consigo leve humidade, precisamente por causa da seca que atravessa o território.

O especialista refere ainda que, apesar de não ser possível prever quando vão acontecer, os fenómenos como cheias vão ser "muito mais frequentes e variáveis".

Devemos preparar-nos: como?
O presidente do Centro de Estudos e Intervenção em Proteção Civil afirma que todos os sistemas de Proteção Civil se devem adaptar aos desafios e ameaças que se colocam nos diferentes tempos. Para Duarte Caldeira, o mais importante é ouvir a Ciência, afirmando que "temos um longo caminho a percorrer na adaptação" a essas novas ameaças.

Para o investigador na área da Proteção Civil, esse caminho é particularmente difícil nos instrumentos jurídicos, havendo já uma noção daquilo que é preciso fazer, mas não existindo ainda forma de o aplicar ao nível legal. Será também necessária uma melhor formação da sociedade, através dos vários intervenientes, começando logo pela escola, e progredindo nos restantes níveis.

"Temos um longo caminho a percorrer, precisamos de dotar os serviços de Proteção Civil de massa critica, é necessário que os serviços ao nível local, nacional e regional estudem estas matérias para terem informação científica sustentada para que os decisores políticos possam tomar as suas decisões", refere, vincando que Portugal "é uma das zonas mais vulneráveis" aos efeitos das alterações climáticas.

Falando especificamente sobre os perigos de inundações, e mencionando os exemplos de Lisboa ou do Porto, Duarte Caldeira lembra que as autarquias há muito que desenvolvem planos específicos contra as alterações climáticas, englobando neles a prevenção necessária para combater fenómenos novos e mais agressivos. Mas também nestas zonas "falta transpor as medidas identificadas para atos de natureza jurídica e decisão política", algo de que ainda "estamos distantes", em especial na questão do ordenamento territorial mas também no comportamento dos cidadãos.

"As cheias são uma caraterística do disparate do planeamento adotado, como zonas de construção em zonas de permeabilização do solo", afirma, falando mesmo em "erros de anos". Agora, diz Duarte Caldeira, não se pode simplesmente destruir as zonas já edificadas, passando a solução por uma "palavra mágica": adaptação, que servirá para a correção dos erros cometidos.

O especialista em Proteção Civil aponta algumas soluções, como a criação de esgotos pluviais, que permitiriam escoar a água da chuva em momentos mais críticos: todos nos lembramos como fica a zona dos Restauradores ou da Praça de Espanha, em Lisboa, quando chove torrencialmente - esse é precisamente o efeito da ausência de esgotos pluviais.

Filipe Duarte Santos não tem dúvidas: "É importante que Portugal e Espanha, os países mais afetados da Europa, se preparem para estes fenómenos extremos". O especialista diz que essa preparação deve acontecer já tendo em vista este outono e inverno, que vão ser marcados pela continuação da seca mas que podem trazer as tais chuvadas, o que "não são boas notícias".

Carlos da Câmara afirma que Portugal, tal como o resto da Europa, "acordou demasiado tarde" para o problema, insistindo na ideia de que a Ciência não foi ouvida atempadamente: "Se acham que está a doer agora, pergunto: de que precisam mais para agir?".

O climatologista não se foca apenas em Portugal, apontando as graves cheias que devastaram a Alemanha em 2021, provocando vários mortos e vários milhões de euros em prejuízos. Por isso, diz o professor, "tem de haver ao nível europeu uma política comum para nos adaptarmos a uma nova ordem do clima". "Já estamos atrasados mas a Ciência já está habituada. Os apelos científicos só têm repercussão muito mais tarde."

No caso português, refere ainda Carlos da Câmara, deve haver uma melhor política hidrológica, até porque uma das grandes consequências das alterações climáticas tem que ver com a escassez de água, que não vai ficar resolvida pelo aparecimento de grandes chuvas, uma vez que a erosão dos solos torna-os mais impenetráveis, contribuindo como mais um fator para o aumento da seca.

Isso quer dizer melhor armazenamento e gestão da água, nomeadamente através das barragens, instrumentos essenciais no racionamento e na reciclagem da água, dois processos que Carlos da Câmara diz serem essenciais para fazer face às alterações climáticas.

Mais frio mas sem chuva: uma projeção
O Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais (EFFIS, na sigla original) faz uma projeção para o próximo inverno que anuncia a continuação de uma seca em Portugal. Trata-se de uma projeção e não de uma previsão, como nota Filipe Duarte Santos, uma vez que “uma previsão eficaz só se pode fazer com uma semana de antecedência”.

Para aquele organismo europeu, e segundo a sua projeção a longo prazo, Portugal deverá continuar em valores “anómalos” de temperatura e precipitação. Essa anomalia acontece quando os valores verificados num determinado período estão acima ou abaixo do considerado normal para o período entre 1971 e 2000.

Esses valores vão estar abaixo do normal para a precipitação até fevereiro de 2023, segundo a projeção, algo que não se deve verificar na temperatura, que também terá uma anomalia mas neste caso negativa, nomeadamente para a faixa litoral compreendida entre Porto e Beja. Um vídeo divulgado pela Agência Portuguesa do Ambiente mostra também como o clima está a mudar, ilustrando o que significa as anomalias de temperatura superiores aos valores de referência.

Mas o facto de o país continuar em seca não quer dizer que não chova. Filipe Duarte Santos explica que essas anomalias podem existir e, ainda assim, verificarem-se fenómenos extremos de precipitação que podem levar a cheias um pouco por todo o país. “É possível termos uma anomalia negativa [valores abaixo do normal] na precipitação e ainda assim termos trovoadas fortes.”

Sobre essas anomalias, Carlos da Câmara explica que se têm verificado valores bem acima do esperado. Os cientistas que estudam o clima pensavam em ondas de calor com valores 1 ou 2 graus acima da referência 1971-2000, mas o que têm verificado é que esses valores ficam 3 a 4 graus acima, o dobro do esperado. "A realidade é que as ondas de calor estão a ser mais intensas do que se previa", diz, reforçando que isso vai piorar com o passar dos anos.

Saramago, uma metáfora
Se as alterações climáticas podem vir a mudar a forma de viver na Europa, certamente que a Península Ibérica será um dos primeiros locais a sentir o efeito. Filipe Duarte Santos recorda o livro "A Jangada de Pedra", de José Saramago, que idealiza uma separação daquele território do resto do continente, algo que também acontece ao nível do clima.

"A Península Ibérica funciona como uma frigideira, a terra aquece mais do que o mar. A frigideira aquece, o ar sobe e é substituído pelo que vem do Mar Mediterrâneo ou do Oceano Atlântico, tornando-se húmido e formando depressões, as tais trovoadas", aponta.

O professor refere que isso pode tornar-se mais frequente, até porque se espera um aumento das temperaturas em Portugal e Espanha, que estão numa transição para ficarem com um clima cada vez mais parecido com o do norte de África: "O que se observa é uma deslocação dos climas para norte. Por isso, Portugal e Espanha vão transitar para um clima como o de Marrocos".

E isso vai originar um solo ainda mais seco na Península Ibérica, o que, aliado a ondas de calor, pode resultar em situações muito graves. Carlos da Câmara refere que isso vai acontecer com maior relevância em zonas como Portugal ou Espanha, que vão ser alvos de uma "reação violenta" da Terra, que procurará o tal "equilíbrio".

segunda-feira, 28 de março de 2022

Homilía Colectiva

Picasso


“Renovo o meu apelo: Basta! Parem! Calem as armas! Empenhem-se seriamente pela paz! Rezemos sem descanso à Rainha da Paz, a quem consagrámos a humanidade, de modo particular, a Rússia e a Ucrânia, com uma participação grande e intensa, pela qual agradeço a todos.”
Papa Francisco, há poucas horas
"Senti vergonha quando um grupo de Estados se comprometeu gastar 2% do PIB para comprar armas, em resposta ao que está a passar-se. Uma loucura"
Idem, há uns dias
«Até agora a humanidade foi sempre educada para a guerra, nunca para a paz. Constantemente nos aturdem os ouvidos com a afirmação de que se queremos a paz amanhã não teremos mais remédio que fazer a guerra hoje. Não somos ingénuos ao ponto de acreditarmos numa paz eterna e universal, mas se os seres humanos foram capazes de criar, ao longo da História, belezas e maravilhas que a todos nos dignificam e engrandecem, então é tempo de deitar mãos à mais maravilhosa e formosa de todas as tarefas: a incessante construção da paz. Que essa paz, porém, seja a paz da dignidade e do respeito humano, não a paz de uma submissão e de uma humilhação quantas vezes disfarçadas sob a máscara de uma falsa amizade protectora. Já é hora de que as razões da força deixem de prevalecer sobre a força da razão. Já é hora de que o espírito positivo da humanidade se dedique, de uma vez, a sanar as inúmeras misérias do mundo. Essa é a sua vocação e a sua promessa, não a de pactuar com supostos ou autênticos «eixos do mal»...»
José Saramago, há nove anos

domingo, 25 de julho de 2021

De Como Saramago Não Precisou De Um Pseudónimo

“Contei noutro lugar como e porquê me chamo Saramago. Que esse Saramago não era um apelido do lado paterno, mas sim a alcunha por que a família era conhecida na aldeia. Que indo o meu pai a declarar no Registo Civil da Golegã o nascimento do seu segundo filho, sucedeu que o funcionário (chamava-se ele Silvino) estava bêbado (por despeito, disso o acusaria sempre meu pai), e que, sob os efeitos do álcool e sem que ninguém se tivesse apercebido da onomástica fraude, decidiu, por sua conta e risco, acrescentar Saramago ao lacónico José de Sousa que meu pai pretendia que eu fosse. E que, desta maneira, finalmente, graças a uma intervenção por todas as mostras divina, refiro-me, claro está, a Baco, deus do vinho e daqueles que se excedem a bebê-lo, não precisei de inventar um pseudónimo para, futuro havendo, assinar os meus livros. Sorte, grande sorte minha, foi não ter nascido em qualquer das famílias da Azinhaga que, naquele tempo e por muitos anos mais, tiveram de arrastar as obscenas alcunhas de Pichatada, Curroto e Caralhana.
Entrei na vida marcado com este apelido de Saramago sem que a família o suspeitasse, e foi só aos sete anos, quando, para me matricular na instrução primária, foi necessário apresentar certidão de nascimento, que a verdade saiu nua do poço burocrático, com grande indignação de meu pai, a quem, desde que se tinha mudado para Lisboa, a alcunha desgostava. Mas o pior de tudo foi quando, chamando-se ele unicamente José de Sousa, como ver se podia nos seus papéis, a Lei, severa, desconfiada, quis saber por que bulas tinha ele então um filho cujo nome completo era José de Sousa Saramago. Assim intimado, e para que tudo ficasse no próprio, no são e no honesto, meu pai não teve outro remédio que proceder a uma nova inscrição do seu nome, passando a chamar-se, ele também, José de Sousa Saramago. Suponho que deverá ter sido este o único caso, na história da humanidade, em que foi o filho a dar o nome ao pai. Não nos serviu de muito, nem a nós nem a ela, porque meu pai, firme nas suas antipatias, sempre quis e conseguiu que o tratassem unicamente por Sousa.”

sábado, 3 de abril de 2021

O Português a Saque


Entre o inglês contrabandeado e o brasileiro das novelas, a língua portuguesa agoniza. Nunca se falou e escreveu tão mal e o exemplo vem de cima
(Por Rui Cardoso, in Expresso Revista, 2021-04-01)
Jovens mulheres, às quais prestamos tributo e que são oficiais dos serviços de inteligência, estão focadas em desencriptar informações sobre químicos nocivos que, segundo as evidências científicas, podem ter efeitos análogos aos do antraz. Receia-se que esta situação ponha em causa a resiliência das políticas corporativas a nível mundial, dificultando, ao fim do dia, o empoderamento das novas gerações e possa levar alguns elementos destas a cometer suicídio
Assim se fala e escreve nos tempos que correm. Vejamos em pormenor.
JOVENS MULHERES
Se dissermos “uma jovem” estaremos a definir sem ambiguidades aquilo de que estamos a falar. Um pleonasmo, além do mais sexista, já que não consta que se costume aludir a “jovens homens”. Tudo radica, diz Joana Rabinovitch, ex-docente da Faculdade de Letras de Lisboa e da Universidade Nova, no facto de “em inglês, ao contrário do português, os adjetivos e os artigos não terem género.” Daí que a young woman, não se possa traduzir à letra. Em português, palavras como “forte” ou “jovem” são neutras. É o vocábulo que os antecede que lhes dá o género: uma jovem, várias jovens, diversas jovens...
TRIBUTO
Quem pagava tributo a Vasco da Gama era o Samorim de Calecute e, de uma forma geral, os vassalos aos senhores feudais ou os cativos aos seus captores. É certo que em dicionários portugueses recentes se refere que “tributo” pode ter a aceção de homenagem. Mas isso parece resultar, não da etimologia, mas de um anglicismo recente. Até porque não consta que a Autoridade Tributária tenha como principal missão homenagear os contribuintes…
OFICIAIS
Em inglês, officer tanto pode designar um oficial das forças armadas, como um agente policial, um funcionário da administração pública ou de uma companhia privada. Atenção ao contexto, portanto.
SERVIÇOS DE INTELIGÊNCIA
Se existisse tal coisa, sendo a natureza tendencialmente simétrica, seria combatida pelo seu contrário, ou seja pelos serviços de estupidez... Os serviços ou agências de informações (é disso que se trata) dedicam-se às mais diversas coisas: espionagem, contraespionagem, vigilância pessoal, eletrónica, etc.
FOCO
Os dispositivos óticos, dos faróis às lentes, é que têm profundidade de campo, distância focal, etc. A expressão to be focused on significa estar empenhado, concentrado ou atento.
ENCRIPTADO
É certo que existe uma técnica ou ciência chamada criptologia, relativa à forma de comunicar secretamente entre emissor e recetor. Mas o que faz é codificar ou descodificar, cifrar ou decifrar mensagens e não encriptá-las ou desencriptá-las, o que literalmente significaria enterrá-las ou desenterrá-las numa cripta ou cave...
QUÍMICO
Designa fenómenos ligados à composição, estrutura e propriedades da matéria ou os profissionais que os estudam. O que há em português são produtos químicos que, por sua vez, podem ser elementos, compostos, misturas, ácidos, bases, sais e muitas coisas mais.
EVIDÊNCIA CIENTÍFICA
Eis um oximoro capaz de fazer Bento de Jesus Caraça, Rómulo de Carvalho ou Mariano Gago revolverem-se na tumba. Aquilo que é evidente, isto é, que entra pelos olhos dentro, não carece, por isso mesmo, de explicação científica. Em contrapartida, aquilo que é científico raramente é evidente, por recorrer a conceitos, matemáticos ou outros, com os quais o cidadão comum não está familiarizado. Daí a importância da divulgação científica. Evidence em inglês significa somente prova, seja esta do foro científico ou jurídico, e não qualquer outra coisa.
ANTRAZ
Muito falado a seguir ao 11 de Setembro, este pó branco, mandado pelo correio, continha esporos do Bacillus anthracis, causador do carbúnculo. Não confundir com antraz, conjunto de furúnculos, geralmente causado por bactérias do género estafilococo. A descoberta do agente causador daquela infeção (respiratória, cutânea ou gastrointestinal) e a preparação de uma vacina tornaram mundialmente famoso Louis Pasteur em 1881.
RESILIÊNCIA
Para quê recorrer ao anglicismo derivado de resilience para designar tenacidade, superação, galhardia ou simplesmente… resistência?
CORPORATIVO
No inglês falado nos EUA a palavra corporation designa as empresas cotadas em bolsa. Logo, não há “políticas corporativas” mas, quando muito, empresariais. Em português, corporações são as dos bombeiros, as dos artesãos da idade média (tecelões, ourives, correeiros, etc.) ou as instâncias de conciliação entre capital e trabalho criadas pelo Estado Novo.
EMPODERAMENTO
Dito assim, parece ter a ver com espalhar algum tipo de pó. Empowerment traduz-se por ter acesso a algum tipo de poder ou responsabilidade ou, mais simplesmente, capacitação.
AO FIM DO DIA
Tradução literal da expressão coloquial at the end of the day, equivalente a, no final, em última análise, ou… trocado por miúdos.
COMETER SUICÍDIO
Em português as pessoas matam-se ou põem termo à vida. To commit suicide traz consigo a carga ideológica protestante de infração à lei divina, logo do cometimento de um pecado.
Como se vê, uma novilíngua orwelliana parece querer substituir o português. É uma mistura de chavões, tiques de linguagem, modismos e palavras contrabandeadas do inglês aprendido à pressa. Qual vírus parasitando o sistema imunitário, contagia os media e as universidades, sem esquecer figuras públicas de quem se esperaria outro aprumo na forma de expressão.
O MITO DA EVOLUÇÃO DA LÍNGUA
“Dou aulas de português I e II na Universidade Católica e muitos alunos, alguns vindos de colégios caríssimos, chegam aqui incapazes de fazer uma conjugação pronominal, além de não conhecerem autores portugueses fundamentais”, vinca Jorge Vaz de Carvalho, docente e escritor.
Não se trata de defender que escrevamos ou falemos como os nossos avós. Camilo não escrevia como Sá de Miranda, nem Saramago como Fernando Pessoa. A língua é um organismo vivo em permanente evolução. E tanto pode prosperar como morrer. “Se fôssemos dizer a um grego ou um romano do séc. I a.C. que as suas línguas iriam deixar de ser faladas, eles rir-se-iam mas foi o que aconteceu”, diz Jorge Vaz de Carvalho.
Como refere Angélica Varandas do Departamento de Estudos Anglísticos da Faculdade de Letras de Lisboa, “a língua evolui, acompanhando o desenvolvimento social. O que não me parece certo é que se oblitere o português no mundo académico, se estudem os autores portugueses no 2º e 3º ciclos de modo antiquado e que os meios de comunicação social não saibam dar o exemplo”.
É bom lembrar que, na própria natureza, nem todas as mutações são benignas. Enquanto no meio natural a competição evolutiva tende a eliminá-las, com a língua dá-se o oposto. Tal como na Lei de Gresham, postulando que a má moeda expulsa a boa moeda, o mau português tende a escorraçar o outro.
O MASSACRE DOS PRONOMES
É o que se verifica, por influência do Brasil ou de África, com os pronomes: “vou dizer a ele” em vez de “vou-lhe dizer”. Dar conta da execução de um trabalho nos seguintes termos: “já fiz ele”. Ou patentear uma relação perversa com a causalidade: “por causa de que”… Sem esquecer o mau emprego dos verbos defetivos. Haver não tem plural: não se diz haverão ou haveriam. No presente do indicativo, falir, chover ou ladrar não têm a primeira nem a segunda pessoa, a não ser em contexto metafórico.
Voltando ao inglês, temos essa coisa extraordinária que são as armas de destruição maciça (filhas bastardas de weapons of mass destruction). Como maciço significa o contrário de oco, depreende-se que se esteja a falar, não de bombas atómicas ou gases neurotóxicos, mas de mocas de Rio Maior. Que tal traduzir por armas de destruição em massa?
E a mania de designar incidentes com armas de fogo, frequentes como se sabe nos EUA, por tiroteios? Tiroteio pressupõe uma troca de disparos entre dois indivíduos ou grupos. Resulta da confusão entre shooting (disparos) e gunfight (esse, sim, tiroteio).
Exemplo digno da lei de Gresham é o redundante anglicismo “implementar” (que nada acrescenta relativamente a iniciar, aplicar, pôr em prática, levar a cabo, dar andamento, concretizar, etc.). De tal forma se generalizou, que começou a expulsar o verbo, legítimo mas foneticamente semelhante, implantar. Já vi escritas enormidades como “5 de Outubro de 1910, data da implementação da República”.
Ao mesmo tempo, difundiu-se a ideia peregrina de que semelhanças fonéticas tornam equivalentes palavras de línguas diferentes.
“FACILIDADES” E “INAUGURAÇÕES”
No passado dia 20 de janeiro, Joe Biden não foi “inaugurado”, mas investido nas funções presidenciais. Facilities são infraestruturas, instalações ou funcionalidades. Charities, instituições de solidariedade social. Tal como ingenuity não significa ingenuidade, mas engenho. E memories são recordações e não memórias. Audience é sinónimo de público e não de audiência, expressão reservada para os tribunais ou os encontros institucionais. Pelo que não há níveis de audiência mas repercussão no público ou nos espectadores.
Em inglês, abstract, argument, deception, fabric, preservative, protester ou sympathetic não querem dizer o que à primeira vista se poderia pensar. Já as razões pelas quais uma rapariga fica embaraçada são totalmente diferentes em Portugal ou em Espanha. Tal como “oficinas” e “talheres” significam coisas muito diferentes nas duas línguas ibéricas.
Se há coisa para a qual qualquer professor de línguas chama a atenção logo na primeira aula é para o perigo dos “falsos amigos”, pelos vistos, em vão.
De tudo isto resulta o empobrecimento do vocabulário e o afunilamento dos modos de expressão. Os doentes nunca mais foram operados, passaram a ser “submetidos a cirurgias”. Os edifícios deixaram de desabar, as encostas de sofrer derrocadas ou as pontes de cair. Tudo “colapsa”. Adeus limites ou exigências — o que não se pode passar são as “linhas vermelhas”. As propostas, políticas ou soluções, passaram a frequentar o ginásio ou tomar esteroides para se tornarem “robustas” (em vez de sólidas, eficazes, adequadas ou funcionais). Num universo lexical em que os apoios passaram a meros “suportes”, cessou o estudo, acompanhamento, medida, avaliação ou vigilância: “monitoriza-se…”
UM ESPECTRO AMEAÇA O PORTUGUÊS
A novilíngua não é imposta por um tirano orwelliano mas por aquilo a que Jorge Vaz de Carvalho chama “o imperialismo da língua inglesa e o colonialismo do português brasileiro”. Quando as duas influências convergem, o resultado é devastador.
A propósito de droga fala-se em “adição” (de adiction). Ora, só tem problemas “aditivos” quem não sabe o resultado de dois mais dois. O resto são fenómenos de dependência ou, querendo usar uma palavra mais antiquada e com alguma carga moralista, vício.
Os homenzinhos verdes que saem dos discos voadores e (supostamente) levam pessoas para o cosmos não as raptam, “abducam-nas” (de abduction). E as amendments à constituição dos EUA de que tanto se fala a propósito da liberdade de expressão ou do porte de arma não são “emendas” mas adendas ou revisões constitucionais.
Gerações inteiras formatadas pela novilíngua reproduzem-na, tornando-a moeda corrente.
“Há dois fenómenos convergentes. As pessoas leem muito mais em inglês do que há uns anos e ao mesmo tempo embarcam na última moda de expressão porque acham giro”, comenta Joana Rabinovitch.
“É inevitável que o inglês se tenha tornado a língua franca porque a nível elementar a sua aprendizagem é simples. Basta ver as conjugações verbais. Lembro-me, quando era miúdo, do desembaraço com que pescadores algarvios, semianalfabetos em português, comunicavam com as turistas. Daí a saber, de facto, falar inglês vai alguma distância”, alerta Jorge Vaz de Carvalho.
A pressão estende-se aos docentes. Como refere Angélica Varandas, “no mundo académico, o que dá pontos na avaliação curricular e de desempenho é a internacionalização, ou seja, publicar em editoras internacionais. Por muito que alguns de nós tentemos estabelecer um equilíbrio, sabemos que é em inglês que seremos mais valorizados enquanto docentes e investigadores. É-nos pedido que lecionemos em inglês, porque temos muitos alunos em regime Erasmus. Os congressos são todos em inglês, e até já se usa a palavra conferência para congresso quando conference quer dizer outra coisa.”
Um ex-camarada de redação contou-me que a nora lhe pediu para não ser tão estrito na revisão da sua tese académica, porque se começasse a eliminar sistematicamente os “implementares” iria arranjar problemas com os professores.
Algo de semelhante aconteceu a uma professora aposentada de Português, a quem fora pedido que revisse um trabalho na área dos recursos humanos. Quando quis corrigir o uso da aberração “presenteísmo” para designar aquele que no local de trabalho faz figura de corpo presente, a autora pediu-lhe para não o fazer por receio de vir a ser penalizada na avaliação.
Nem sempre foi assim. No Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) havia tradutores e revisores literários. As traduções eram acompanhada entre parêntesis pelos termos originais para que se soubesse do que se estava a falar. Pelo LNEC passou, entre outros, o jornalista e escritor Baptista-Bastos, enquanto Maria Isabel Barreno trabalhou no Instituto Nacional de Investigação Industrial (INII).
O “TU” DO FUTEBOLÊS
No futebol, falar bem é a exceção. Mas comparem-se os discursos atuais em “futebolês”, muitas vezes gritado e insultuoso, com as crónicas de um Carlos Pinhão ou um Aurélio Márcio nas páginas de “A Bola”. Em ambos os casos se fala de 22 sujeitos em calções aos pontapés a uma bola mas a diferença é abismal!
Em tempos, treinador que se prezasse usava mais vezes “na medida em que” do que a sua equipa metia golos. Os jogos perdiam-se “derivado ao vento”. E agora usa-se o metafórico “tu” como se tivesse deixado de haver sujeitos impessoais em português. Não se joga mas “tu jogas”. Não é o caso de alguém fazer um passe mas é “quando tu passas”. Os portugueses têm o “se”, os franceses o “on” mas os espanhóis ou os britânicos não. Porquê copiá-los?
A canção ‘You’ll never walk alone’ que ecoa nas bancadas do estádio de Anfield pertenceu originalmente a “Caroucel” (musical de 1945 e filme de 1956). Nesse contexto era uma mensagem de esperança de uma amiga para outra que acabara de perder o amor da sua vida. Por isso lhe cantava: “Se superares a escuridão e a dor, [tu que estás à minha frente] nunca estarás sozinha.” Quando 60 mil pessoas entoam o refrão “you’ll never walk alone” não estão a falar para nenhum “tu” à frente deles. Estão a dirigir-se aos 11 jogadores do Liverpool lá em baixo e o sentido é, portanto, vós que estais no relvado e nós aqui nas bancadas estaremos sempre lado a lado, ganhemos ou percamos.
Chamada de atenção elementar: em inglês you tanto é a segunda pessoa do singular (tu) como a segunda pessoa do plural (vós, vocês, alguém)...
A INOCÊNCIA PERDIDA DA PALAVRA
Valha a verdade, os meios de comunicação não estão isentos de culpas. Para um jornalista, a língua é uma das suas ferramentas de trabalho, porventura a mais importante. Ao trabalho jornalístico aplica-se a tese de Júlio César sobre as virtudes femininas: não basta ser sólido do ponto de vista das fontes, do rigor factual e do distanciamento — é preciso que o pareça, ou seja, que a linguagem seja rigorosa, formalmente correta e, ao mesmo tempo, capaz de envolver o leitor.
Não se trata apenas de evitar o português do “focado”, das “evidências” e do “implementar”. A escolha das palavras nunca é inocente. Os islamofascistas que massacraram nas ruas de Paris ou degolaram inocentes em Mossul ou Sirte não pertenciam a nenhum “estado islâmico” porque, nem este reunia as condições internacionais para ser aceite como tal nem a sua interpretação do islamismo era representativa, por primária, sanguinolenta e ultraminoritária. Por isso, boa parte dos media preferiram o acrónimo árabe Daesh, para nós um mero vocábulo destituído de carga, ainda que em árabe tenha alguma conotação irónica.
Em 2017, uma das comunicações apresentadas ao IV Congresso dos Jornalistas criticava a utilização da palavra “colaborador” no noticiário económico, uma vez que, subliminarmente, diluía a relação entre empregador e empregado, reduzindo este último a uma espécie de ser descartável, tendencialmente destituído de direitos laborais e a caminho da precariedade. E nessa altura ainda pouco se falava de “uberitos”, motoristas de táxis das plataformas e demais proletariado da internet...
Confinados que estamos, em vez de vermos palhaçadas no YouTube não perdíamos nada em (re)descobrir Raul Brandão, Teixeira de Pascoaes ou Sophia de Mello Breyner. Talvez implementássemos menos...