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quarta-feira, 28 de maio de 2025

Cântaros para água sempre fresca


Um amigo perguntou-me porque é que os barris e cântaros de barro mantêm a água sempre fresca.
A resposta é simples, mas, por infelicidade de uma escola que tem dado e continua a dar diplomas, mas não deu e continua não dar cultura, a grande maioria dos portugueses, está longe de a conhecer.
Numa visita, à semelhança de muitas outras que continuo a fazer, a uma escola pública, perguntei aos alunos do 9º ano de uma turma de Ciências, a razão desta frescura e nem um levantou a voz. Nesse mesmo dia, fiz a mesma pergunta aos meus netos (dois no 9º e um no 10º) e o silêncio foi a resposta.
Vou colocar aqui esta mesma pergunta aos meus leitores e para os que eventualmente não conheçam a resposta, aqui a deixo.
Bilhas, jarros, barris, cantis e outros recipientes de barro não vidrado, sendo porosos, as suas paredes permitem que a água esteja sempre a aflorar à superfície e, portanto, sempre a evaporar-se. Sabido que a evaporação é um fenómeno endotérmico, isto é, que absorve calor, percebe-se que esse calor é retirado da água a daí a sua frescura sempre que mantida nestes recipientes. É o mesmo que se passa, quando transpirados, intensificamos a evaporação do suor, com um leque ou um abanico.

terça-feira, 20 de maio de 2025

No auge da crise


Julgo ser evidente que Portugal atravessa uma deplorável crise, não do foro económico, financeiro ou social, mas dos partidos políticos e dos seus protagonismos na condução da vida nacional. Uma crise de valores sem precedentes, deveras preocupante que, salvo meia dúzia de excepções, bateu fundo e isso ficou bem claro na pobreza desta corrida ao poder que ontem teve fim.Sou um geólogo e a minha cultura social e política resume-se ao que tenho aprendido na vivencia atenta do dia-a-dia. Bom ou não, é este o meu sentir que, como sempre, divulgo como dever de cidadania, honesta e humildemente.
Sempre procurei pensar pela minha cabeça, na convicção de que a política partidária é uma habilidade para manusear conhecimentos do foro das ciências políticas e sociais, tendo em vista a conquista do poder. Dito isto e para que não restem dúvidas, reafirmo que sempre estive ao lado dos explorados e ofendidos, contra os exploradores e ofensores.
Todos os que os que não andam distraídos, e são muitos, têm vindo a dizer e eu também digo que, no tempo que estamos a viver, paira grande insegurança a nível internacional, não só no que respeita a economia, com inevitável reflexo na vida nacional, como também no que envolve o espectro da guerra e a corrida aos armamentos, com todas as consequências e sofrimentos daí decorrentes.
À semelhança do que se passou com a Primeira República, a classe política, no seu todo, a quem os Capitães de Abril, há meio século, generosa, honradamente e de “mão beijada” entregaram os nossos destinos, mais interessada nas lutas pelo poder, esqueceu-se completamente de facultar aos cidadãos cultura civilizacional necessária na sociedade que se quer democrática. Esqueceu-se ou não quis. Há uma máxima que diz que “o poder do feiticeiro reside na ignorância dos seus irmãos tribais”, máxima que é fácil entender como uma metáfora do que tem sido a nossa democracia.
Já escrevi o essencial destas minhas palavras não sei quantas vezes, mas sei que não foram as suficientes. Também já disse e volto a dizer que, entre os sectores da vida nacional que nada beneficiaram com esta abertura à liberdade e à democracia está a educação. E, aqui, a escola falhou completamente. Uma escola que tem vindo e continua a dar diplomas, mas que não deu e continua a não dar cultura no sentido mais amplo da palavra.
Nesta “apagada e vil tristeza”, uma muito significativa parcela do nosso povo, destituído dessa cultura, foi presa fácil do populismo da extrema-direita. Uma extrema-direita que, beneficiando da liberdade e democracia que tanto custaram a ganhar, já mostrou, sobejamente, procurar destruí-las e voltar ao “antigamente”.
Tudo isto são gravíssimas preocupações nacionais, que se adicionam as das áreas da saúde, da habitação, da justiça e outras. Preocupações que, tendo em conta as condicionantes nacionais e internacionais, socialistas e sociais-democratas, cujos fundamentos que os inspiraram não estão, assim, tão afastados, tinham obrigação de se ter entendido, a bem deste, deste sempre, maltratado povo. Os seus actuais protagonistas mostraram não terem sabedoria ou vontade para o fazer, pelo que há que encontrar, entre os seus correligionários, quem o possa fazer. Chame-se Bloco Central ou outra coisa qualquer, mas é, no tempo que estamos a viver, em que as esquerdas se têm vindo a autodestruir, o único caminho a seguir.
Quem me conhece e tem acompanhado as minhas intervenções e tomadas de posição públicas, sabe, volto a dizer, da minha independência face aos aparelhos partidários e não espera de mim outro pensamento que não seja este.

domingo, 26 de novembro de 2023

Monge eremita Santo Antão, o Anacoreta, o Pai de Todos os Monges


Conversa ficcionada com um erudito, sobre temas ligados ao cristianismo, que só muito tarde aprendi e que sei que a maioria dos leitores terá interesse em conhecer.

- Comecemos, então, por dizer que as palavras sinónimas mosteiro e monastério radicam nos elementos gregos monós, que quer dizer sozinho, e terion, que alude ao lugar para fazer algo. Devo dizer que, originalmente, todos os monges cristãos eram eremitas, ou seja, homens que, usualmente por penitência, religiosidade, misantropia ou simples amor à natureza, viviam sozinhos, em um lugar isolado, longe do mundo, designado eremitério. Sabeis que houve um eremita que ficou na história do monaquismo cristão?
- Não sei. A minha ignorância é muita. Mas sei que a palavra eremita radica no grego erémos, que significa deserto, desabitado, étimo que serviu de raiz ao termo latino eremita, com o significado de "morador do deserto", e à nossa palavra ermo, que quer dizer, deserto, no sentido de desabitado.

- Foi Santo Antão, o Anacoreta, o Pai de Todos os Monges. Muito jovem abraçou o Evangelho como único caminho para a salvação, desfez-se de todos os seus bens, que distribuiu pelos pobres, partindo, depois, para o deserto, onde iniciou uma inspiradora vida monacal.
- Só sei que fui baptizado na igreja que lhe foi dedicada, em Évora.

- Também ficou conhecido por Santo Antão do Egipto, Santo Antão, o Grande e Santo Antão, o Eremita. Natural do Egipto, viveu entre os séculos III e IV, com grande destaque entre os chamados Padres do Deserto, de que foi fundador, sendo lembrado pelo seu papel no desenvolvimento da vida monástica. A vida de Santo Antão e as suas tentações inspiraram numerosos artistas, como Bosch, Brueghel, Velázquez, Flaubert, Zurbarán e Dali.
Falai-me, se puderdes, das Tentações de Santo Antão.
- Sei que mostram um mundo angustiante, entregue ao pecado, dominado por monstros e forças demoníacas, face aos quais, a única esperança e salvação estavam em Cristo. A lição que delas tiramos é que, só pela força da renúncia e fortemente apoiados na Fé nos podemos libertar-se dos demónios que nos atormentam.

- E os Padres do Deserto?
- Foram monges eremitas que viveram e exerceram a sua acção evangelizadora, sobretudo, no deserto da Nítria, a Oeste do delta do Nilo, entre Alexandria e o Cairo. Deste grande santo dizia-se que, por sua acção, “o deserto se tinha tornado uma cidade”.

- Bonita imagem!
- Os Padres do Deserto tiveram uma enorme influência nos primeiros tempos do cristianismo, que podemos dizer primitivo. Quer o monaquismo oriental, representado no Monte Athos, na Grécia, quer o ocidental, definido na Regra de São Bento de Núrsia, escrita na abadia de Monte Cassino, em Itália, quer, em geral, todo o monaquismo medieval, revelam acentuada inspiração nas práticas iniciadas no deserto. Crenças religiosas recentes como o metodismo saído da Igreja anglicana inglesa, o evangelismo alemão e o pietismo do estado norte-americano da Pensilvânia, nascido na Igreja Luterana alemã, têm algumas das suas raízes nos Padres do Deserto. Também a Igreja Ortodoxa tem, nestes padres, as suas raízes.

- Depois deste interessante desvio, continuemos a conversa sobre mosteiros, conventos e abadias.
- Se nos reportarmos aos mosteiros cristãos ocidentais, podemos chamar-lhes conventos cartuxos, conventos de frades, abadias e priorados. Volto a dizer que um mosteiro é uma instituição edificada que alberga uma comunidade de monges ou de monjas, levando uma vida de oração e trabalho, em completo afastamento da sociedade.

terça-feira, 1 de agosto de 2023

Manifesto - Urge Mitigar as Alterações Climáticas Antropogénicas


Todos os dias, neste Verão quente que estamos a viver, a comunicação social enche o seu espaço noticioso com as altas temperaturas registadas por todo lado. Seria bom que, por arraste, trouxesse à ribalta, com a mesma intensidade e frequência, os cientistas que sabem falar sobre este assunto, visando uma política de educação sobre estas matérias, dirigida a uma população cientificamente inculta (e não só) e desinteressada dessas culturas, a que a Escola, em geral, tem dado e continua a dar diplomas, mas não deu nem continua a dar conhecimento. Há excepções, claro.
Sem menosprezar os efeitos da sociedade poluente que, lamentavelmente, nos caracteriza, vale a pena lembrar as alterações climáticas naturais que os geólogos, de há muito, puseram em evidência. Este é um dado do problema. Outro é a evidência de que já temos de estarmos a destruir, não o Planeta (esse tem vida assegurada por mais 5 mil milhões de anos), mas uma boa parte da biodiversidade e nessa parte está a humanidade.
O ritmo das alterações climáticas naturais, como se pode ver no quadro abaixo, tem sido da ordem dos milhares de anos e tudo leva crer que assim se manterá. A este ritmo, a sociedade humana sustentável, num equilíbrio possível com a natureza teria uma longevidade nessa ordem de grandeza. Acontece que a sociedade ultra consumista, que estamos a viver, está a diminuir drasticamente a duração deste ritmo, o que, posso admitir, irá criar graves dificuldades aos nossos netos. Já aqui o escrevi, a este ritmo, em associação com toda sobreexploração e poluição que estamos a causar, um dia virá em que um copo de água vale mais do que um diamante.
A bem dos nossos descendentes é, pois, preciso que os “donos do mundo” e a comunicação social (que tem aqui um papel importantíssimo) se disponham a pôr travão a este caminhar para o abismo a que estamos a assistir. Também é preciso que voltem a surgir, por todo o mundo, mais Gretas Thunberg, a menina tão mal tratada que foi por parte de inconfessáveis interesses.
Durante o Quaternário, ocorreram fortes oscilações climáticas, à escala do planeta, traduzidas em fases glaciárias que alternaram com fases interglaciárias, de que resultaram quatro glaciações: Gunz, Mindel, Riss e Würm. Diga-se que estas foram antecedidas, no Pliocénico, pelas glaciações Biber e Donau.
Nome e idade em mil anos                                                      
Pós-Glaciário 10 - presente                               
Glaciação Würm 10 - 80                                                                 
Interglaciário Riss-Würm,  80 - 140                     
Glaciação Riss 140 - 200                                                                   
Interglaciário Mindel-Riss 200 - 450                 
Glaciação Mindel 450 - 580                                                                
Interglaciário Günz-Mindel 580 - 750                   
Glaciação de Günz 750 - 1.100                                          
Estamos. pois, não o esqueçamos, desde há 10 mil anos, num período Pós-glaciário, de aquecimento global, portanto, que continuará a aquecer, até voltar a arrefecer se as condições naturais assim o determinarem. Repito dizendo que o que estamos, estupidamente, a fazer é a acelerar o ritmo natural com evidentes danos para os nossos netos.

No pico da última glaciação, a Würm, a calote escandinava avançou em território europeu até latitudes próximas dos 50º, cobrindo-se também de neves permanentes as zonas montanhosas.
Em Portugal, os gelos cobriram permanentemente os cumes das serras da Estrela, Peneda e Gerês. Na actualidade podemos encontrar evidentes registos da acção erosiva glaciária na Serra da Estrela, fortemente afectada por esta glaciação e que teve o seu pico nesta zona do País há cerca de 80 a 20 mil anos.

terça-feira, 23 de maio de 2023

A Bem dos Nossos Descendentes


Todos sabemos que a Paleontologia (do grego “palaios”, antigo, “óntos”, ser e “logos”, conhecimento, estudo) é a ciência que, através dos fósseis, estuda os seres vivos que, ao longo de centenas de milhões de anos, povoaram a Terra. Nela aprendemos que todas as espécies animais ou vegetais, em número de muitos milhares (talvez milhões), surgiram num dado momento, aqui se mantiveram por períodos menos ou mais longos e se extinguiram, umas, no decurso de grandes eventos ditos catastróficos, nas chamadas “extinções em massa”, outras, na sequência da sua condição natural de coabitação e competição no seio da biodiversidade.
Todas tiveram um fim.
E esta espécie que somos nós, baptizada Homo sapiens, não é excepção. Antes desta, outras espécies, com destaque para Homo erectus, Homo habilis e Homo neanderthalensis, sugiram, viveram e desapareceram de vez, “em cumprimento deste destino”, maneira literária de dizer, que a extinção das espécies é uma condição natural. O problema que hoje se nos coloca, e com cada vez mais premência, é:Por quanto tempo ainda cá andaremos?

Embora se queira acreditar que o génio humano, através da ciência e da tecnologia, saberá encontrar soluções que o habilitem a sair vitorioso na competição com outras espécies, e a ultrapassar dificuldades, crises ou catástrofes naturais, a verdade é que a insaciável ganância do mundo do dinheiro, próprio do capitalismo selvagem, a que estamos a assistir, está a acelerar o fim da nossa passagem por este mundo.
Ao promover a sobre-exploração dos recursos naturais não renováveis, uma realidade indesmentível, e ao poluir, a uma intensidade e a um ritmo nunca vistos, o ar, a água e os solos, a sociedade dita do desenvolvimento aproxima o terminar inglório desta “coisa” que somos nós.
E esta “coisa”, que saiba quem nunca pensou nisso, é matéria que, convenientemente estruturada (o nosso cérebro), conquistou a capacidade de se interrogar e de intervir no seu próprio destino. Carbono como o que forma o carvão e o diamante, oxigénio e azoto como os do ar que respiramos, hidrogénio igualzinho ao que se usa para encher balões que sobem no ar, fósforo e umas pitadas de outros elementos químicos combinam-se, ao longo de uma evolução de cerca de treze mil e oitocentos milhões de anos (a idade do Universo), num conjunto complexo e único com capacidade e ver, ouvir, sentir, pensar, amar, criar…
Um mundo harmonioso e belo, fruto dessa imensidade de tempo, um mundo que tem tudo o que, de essencial, precisamos para viver (o ar que respiramos, a água que bebemos, o chão que nos dá o pão e tudo o que nos permitiria ser felizes) tem vindo a ser agredido, conspurcado e já, em parte, destruído, pela dita insaciável ganância. E acresce que, a par desta triste e suja realidade, estão, bem à vista de todos, a escandalosa riqueza de uns tantos e a extrema pobreza de muitos.
Se os políticos, os empresários, as organizações não governamentais e os cidadãos dignos desse nome, souberem e quiserem intervir no sentido de inverterem (ainda estamos a tempo) esta caminhada para o abismo (a perspectiva de conflitos armados não está fora deste quadro) podermos dar aos nossos descendentes um horizonte de vida, não só mais alargado, mas mais feliz.
A imagem, cuja autoria desconheço, reflecte muito do mundo que estamos a viver. 

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Está de Férias? Carlos Fiolhais recomenda-lhe livros de ciência para o Verão

O Verão é tempo de leitura. Sendo um bom tempo para ler qualquer género de literatura, venho recomendar, com breves comentários, alguns livros de divulgação científica saídos recentemente entre nós.


A ordem é alfabética do apelido do autor.

– Bernardo, Luís Miguel. Sobre As Causas do Atraso Científico Português. Uma digressão histórica. UMinho Editora.

Livro de um físico e historiador de ciência, apresentado por mim recentemente em Braga, que disseca em pormenor as razões do nosso menor desenvolvimento. Está acessível gratuitamente na Net.

– Carvalho, A. M. Galopim, As Pedras na Ciência e na Cultura. Âncora.

Uma verdadeira enciclopédia de geologia da autoria do estimado decano dos divulgadores de ciência portugueses.

– Cobb, Mathew. Uma História do Cérebro. O passado e o futuro da neurociência. Temas e Debates / Círculo de Leitores.

Um ensaio, de um psicólogo e geneticista inglês, sobre a história das nossas ideias sobre cérebro, no qual o autor nos conta episódios fascinantes da neurociência, e nos dá, no final, um panorama dos problemas actuais.

– Eagleman, David. O Cérebro em Ação. Nos bastidores do cérebro em constante mudança. Lua de Papel.

Na sequência do seu livro O Cérebro. À descoberta de quem somos (na mesma editora), o autor, neurocientista norte-americano, explica melhor, neste livro, que tem um prefácio meu, o modo como funciona o nosso órgão mais precioso.

– Greene, Brian, Até ao Fim dos Tempos. O Homem, o Universo e a nossa busca pelo sentido da vida. Desassossego.

O físico norte-americano especialista na teoria das supercordas e autor de O Universo Elegante e O Tecido do Cosmos, ambos saídos na Gradiva, fornece-se nos neste livro a sua visão “unificada” do mundo.

– Haskell, David George, As Canções das Árvores. História sobre as grandes redes da natureza. Gradiva.

O autor, biólogo norte-americano nascido no Reino Unido, autor de um outro livro sobre a floresta, que já lhe valeu vários prémios, fala neste livro, também premiado, num tom por vezes poético, da nossa profunda ligação ao mundo das árvores. Tem prefácio de António Bagão Félix.

– Hesse, Boris, Einstein e Lenine em Moscovo. Polémicas filosóficas da ciência soviética, Parsifal.

É bem conhecido o terror estalinista que afectou a ciência: basta pensar em Lysenko. Mas há mais histórias negras desse tempo. Com selecção e introdução do físico Rui Borges, são apresentados textos de um cientista russo pouco conhecido, nascido em 1883, que resistiu aos ataques à “ciência burguesa” e que, preso e executado em 1936, foi das primeiras vítimas de Estaline.

– Klein, Grady e Bauman, Yoram, Introdução ao Cálculo em Banda Desenhada, Gradiva.

A BD pode ser uma maneira leve e divertida de aprender ou consolidar o cálculo infinitesimal. Dos autores, que já tinham publicado na mesma editora Introdução à Economia em Banda Desenhada, o primeiro é cartunista e o segundo define-se como o “primeiro e único economista stand-up do mundo.”

– Moalem, Shäron. A Melhor Metade. Sobre a superioridade genética da mulher. Temas e Debates / Círculo de Leitores

Um médico e escritor canadiano escreve sobre a diferença entre os sexos humanos num livro que é dedicado à “sua melhor metade”. Já sabíamos que as mulheres vivem em média mais tempo do que os homens. Mas ficamos a saber que o facto de terem um cromossoma X em vez de um Y as torna mais fortes. A ler tanto por mulheres como por homens…

– Nurse, Paul. O Que é a Vida? Compreender a vida em 5 lições.

Sir Paul Nurse, Prémio Nobel da Medicina de 2001, ex-presidente da Royal Society e director do Francis Crick Institut em Londres, apresenta, numa obra breve, o fenómeno da vida de um modo assaz pedagógico: sendo tão diferentes, o que é que os seres vivos, dos quais fazemos parte, têm em comum?

– Rees, Martin. Sobre o Futuro. Perspetivas para a Humanidade. Desassossego.

Sir Martin Rees, o astrónomo real inglês, ex-presidente da Royal Society e autor de Para o infinito. Horizontes da ciência (Gradiva), que já visitou Portugal a convite da Fundação Francisco Manuel dos Santos, fala das ameaças que pairam sobre a Terra e sobre o poder e os limites da ciência.

– Roveli, Carlo, Anaximandro de Mileto ou o nascimento do pensamento científico. Edições 70.

O conhecido físico teórico italiano, que em vários livros tem tentado revelar os mistérios do tempo, fala aqui de um dos primeiros filósofos gregos, que ele considera o fundador da ciência, e discorre sobre o pensamento científico. Depois de Anaximandro, começámos a compreender a ciência sem a necessitar dos deuses.

– Simões, Ana e Diogo, Maria Paula (eds. gerais), Ciência, Tecnologia e Medicina na Construção de Portugal, Tinta da China.

Da pena de muitos autores, são quatro volumes que, no seu conjunto, fornecem uma vasta e variada panorâmica da história da ciência em Portugal. Vai ser certamente uma obra de referência. Eu e o David Marçal escrevemos, no último volume, um texto sobre a cultura científica ao longo do século XX.

Boas leituras!

 Autor: Carlos Fiolhais é Professor de Física na Universidade de Coimbra

terça-feira, 3 de agosto de 2021

Sal, Palavra Antiga Com Larga Descendência Na Língua Portuguesa


Por António Galopim de Carvalho
Salsicha e salpicão são palavras começadas por “sal” uma vez que referem a enchidos temperados com sal. Mas há mais palavras na língua portuguesa, construídas com este nome que nos chegou dos latinos (sal, salis), que tanto a empregavam para designar o produto material extraído, por evaporação, da água do mar, como para aludir, em sentido figurado, à vivacidade, à finura cáustica, ao espírito picante, ao bom gosto, à inteligência. E foi assim, com estes dois sentidos, que esta palavra entrou no nosso dia-a-dia.
Salada, no feminino, é um prato de vegetais em cujo tempero entra o sal, mas no masculino, salado, significa salgado, do mesmo modo que salão é terreno salgadiço, salgadio ou salino.
Salário foi ração de sal e é hoje significado de remuneração.
Saleiro tanto é o recipiente onde se guarda o sal, com o qual salpresamos ou salpicamos os alimentos no prato, como é o homem que vende sal ou o que o produz, isto é o salineiro ou marnoto.
Mas saleira, no feminino, é o barco de fundo chato, do Vouga, que transporta o produto do seu trabalho, e salero, no dizer de espanhóis e também de portugueses, é graça, vivacidade.
Salga é o acto de salgar, o que os nossos pais faziam aos toucinhos e outras carnes, após a matança do porco, guardando tudo na salgadeira.
Salgadinhos comemo-los como aperitivos ou fazem o almoço frugal de muitos e salganhada ou salmonada é a falta de arrumo, é confusão.
Salgados são as terras baixas, alagadiças, invadidas por águas cuja salinidade ou salugem as torna salgadiças, sendo nestas baixas que, preferencialmente, se instala a salicultura ou salicicultura.
Salicáceas são as plantas de uma família botânica e salinómetro é o aparelho que mede o teor de sal.
Salícula ou salífero é o terreno que produz sal.
Salmoura é água mais ou menos saturada de sal, como a que conserva o atum e salmoeira, a vasilha.
Salmurdo é sinónimo de sonso ou matreiro.
Salobra ou salmaça diz-se da água mais ou menos contaminada com sal.
Salsa, como adjectivo, é o mesmo que salgada; como substantivo é a erva que usamos como tempero de muitas confecções culinárias.

terça-feira, 6 de julho de 2021

Entrevista ao Professor António Galopim de Carvalho

A - o jovem/estudante:
1 - Como foi o Galopim, enquanto estudante (ensino básico/secundário e universidade)?
GC – Detestei a Escola Primária que foi um tempo de sofrimento. No Liceu, fui bom aluno nas disciplinas com cujos professores estabeleci laços afectivos. Nas outras fui sofrível, por vezes mau. Na Universidade, como aluno de Geologia, fui francamente bom.
2 - Qual foi o(s) motivo(s) que o levou/aram à Geologia?
GC – A influência do professor de Ciências Naturais no meu 5º ano do Liceu (actual 9º ano do básico). Ele colocou em mim a semente que floresceu muitos anos depois (aos 27 anos) durante os quais me movimentei, a contragosto e sem sucesso, bela licenciatura em biologia e pelo serviço militar onde, sem perspectivas de emprego, permaneci como miliciano até o posto de tenente.
3 - Qual o Professor que mais o impressionou durante o trajeto estudantil? Porquê?
GC – Pelas piores razões, o professor primário. No Liceu e pelas melhores razões, que já referi, o dito professor de Ciências Naturais. Entre os universitários, o que mais me marcou foi o professor de Geografia Orlando Ribeiro, da Faculdade de Letras de Lisboa, com quem aprendi a associar uma componente humanista em toda a minha actividade profissional.
4 - Um episódio marcante durante os anos de aluno universitário.
GC - Na necessidade de garantir a minha subsistência consegui, em acumulação com o de vendedor de máquinas registadoras e de escritório, um lugar de delegado de propaganda de produtos farmacêuticos. Por um salário de 600$00 (267 euros) mensais, cumpria-me visitar uns 4 ou 5 médicos por dia, numa zona compreendendo a Avenida da Liberdade e suas envolventes mais próximas. Este trabalho era normalmente feito ao fim da tarde, percorrendo consultórios nos quais exerciam clínicos de diversas especialidades. Assim, muitas vezes, num único local, cumpria a minha obrigação contratual sem perder muito do tempo que me era precioso para estudar.
Nesta actividade houve uma situação que retive bem viva na memória. Passou-se com um médico que me recebeu com simpatia e muito boa disposição. Devo começar por dizer que entre as especialidades farmacêuticas que eu representava, havia uma pomada e uns supositórios para alívio do hemorroidal, em cujos princípios activos figurava vitamina F99 (assim se dizia), dois fármacos cujos nomes eram, respectivamente, Algan e Sulgan. Acontece que, quando entrei no gabinete deste simpático clínico, não me dei conta que a sua especialidade era oftalmologia. Comecei, de imediato, a desbobinar a cassete adequada à gama dos medicamentos que me competia propagandear, com ênfase especial nas propriedades terapêuticas, quase milagrosas, da dita vitamina na aludida enfermidade. Com bonomia, o meu interlocutor deixou-me “estender o lençol”, já muito estereotipado, por força da repetição, e só no fim, quando abri a mala em que transportava as amostras e lhe perguntei quais desejava, ele olhou-me nos olhos e, num admirável sentido de humor, disse:
- Tendo em conta as afinidades com o meu trabalho, só se forem aqui estes supositórios.
Esta resposta e o sorriso que se lhe abriu no rosto, ao dizê-la, denunciaram-me a associação que fez entre os olhos da cara e o outro, escondido na base das costas. Só então me dei conta de que entrara no consultório errado.
B - O Professor universitário:
5 - A carreira de professor universitário era um objetivo pré-definido, ou surgiu em virtude das circunstâncias que foi vivendo como aluno universitário?
GC – Acontece que dada a paixão pela geologia nascida com o dito professor do Liceu, fui um aluno interessado e, logo que concluí a licenciatura em Ciências Geológicas na Faculdade de Ciências de Lisboa, em 1961, fui convidado a ficar como “segundo assistente, além do quadro”. Percorri aí todas as avaliações próprias desta docência e saí, em 2001, como professor catedrático jubilado, com a idade de 70 anos.
6 - Como acompanhou os avanços no conhecimento geológico, nomeadamente a Tectónica de Placas, enquanto jovem adulto?
GC – A tectónica de placas só entrou nos nossos curricula, 4 ou 5 anos depois da minha entrada na dita carreira. A partir de então, esta nova visão global da geologia nunca mais deixou de ser o fulcro da investigação e do ensino que ali se promovem.
7 - O que mais o apaixona na Geologia?
GC – Praticamente, tudo. Além de ter investigado, com a profundidade possível, o domínio da geologia que reúne a sedimentologia e a geomorfologia, fui e continuo a ser um generalista como professor e divulgador científico.
8 - Como surgiu a campanha que desenvolveu com os "Dinossáurios"?
GC – Tudo começou em 1986, quando dois finalistas da Licenciatura em Geologia da Faculdade de Ciências de Lisboa, Carlos Coke e Paulo Branquinho, meus ex-alunos, descobriram um vasto conjunto de pegadas de dinossáurios no fundo de uma pedreira abandonada e, na altura, a ser usada como vazadouro de entulhos e lixeira clandestina, em Pego Longo (concelho de Sintra) na vizinhança imediata de Carenque (Concelho da Amadora). Havia, pois, que proteger este património paleontológico, lutando por ele. Em 1990, surgiu um projecto de construção de uma autoestrada (a CREL) cujo traçado iria destruir o dito património. A luta em que, então, me envolvi (nessa altura eu era director do Museu Mineralógico e Geológico da minha Faculdade) ficou conhecida por Batalha de Carenque, que publiquei em livro pela Editorial Notícias, em 1994, já como director do Museu Nacional de História Natural.
9 - Que impacto teve em si essa campanha e que feedback teve dos pais/crianças do país?
GC - Em apoio desta luta apareci imensas vezes na comunicação social, a falar de dinossáurios. Fiz palestras por todo o lado e em especial nas escolas, e promovi grandes exposições sobre dinossáurios robotizados e outras que fizeram história na museografia nacional. Sem me dar conta, toda esta imensa e prolongada actividade associou o meu nome, definitivamente, aos ditos animais do passado. Para os mais jovens tornei-me o pai dos dinossáurios. Passados 30 anos, esta luta ainda não terminou e eu continuo nela, não como pai, mas como avô.
10 - Qual o papel que teve na inclusão da Geologia nos programas oficiais em Portugal?
GC – Não sei responder. Não obstante ter publicado vários livros nesta área de ensino, muitos artigos de opinião e entrevistas, nunca o Ministério da Educação me procurou.
11 - O que pensa sobre o facto de a Biologia e a Geologia estarem associadas ou separadas enquanto disciplinas do ensino secundário?
GC – No modo em que se insiste no tipo de programas em vigor (o de geologia é muito mau, sobre o de biologia não me pronuncio), acho que as duas disciplinas deveriam estar separadas e ministradas por professores da área. Num outro tipo de programas visando cultura científica e valorização da condição de cidadãos conscientes, as duas disciplinas (mais interessadas nos processos e princípios fundamentais do que nas definições estereotipadas dos conceitos) deviam estar fundidas.
12 - Qual a sua opinião relativamente ao estado do ensino das ciências naturais, nomeadamente a preparação dos professores desta área e dos alunos que são atualmente formados nestas áreas?
GC – Falo aqui não só dos desta área, mas de todas. Sou um crítico, não tão activo como devia e, ao mesmo tempo, um defensor tenaz da classe dos professores das nossas escolas. Esta importante classe profissional deveria estar (e, desgraçada e infelizmente não está) entre as primeiras (talvez, mesmo, a primeira) preocupações dos governantes. Acontece que a imensa maioria dos professores está prisioneira de múltiplas obrigações que nada têm a ver com o acto de ensinar. São uma classe desacarinhada, desprotegida e mal paga, a que a democracia retirou o respeito e a consideração que já tiveram. Relativamente aos alunos, já o disse e escrevi muitas vezes que, em termos de educação, não estamos a formar a maioria dos cidadãos que a democratização do ensino trouxe às nossas escolas. Estamos a trabalhar para os “rankings” e para as estatísticas. Estamos a forçar os professores a amestrarem os alunos a acertarem nas questões que irão encontrar nos exames finais.

quinta-feira, 10 de junho de 2021

No dia 10 de junho celebra-se em Portugal o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Um pouco de Geologia


Por António Galopim de Carvalho
Uma definição de litoral deu-a Luís de Camões que, para além do grande poeta, foi homem de muitos saberes, com destaque para a geografia. No Canto III, de “Os Lusíadas”, pode ler-se:
“Onde a terra se acaba e o mar começa”.
O termo litoral, trazido para os léxicos geográfico e geológico, começou por ser palavra do vocabulário vulgar. Como substantivo, refere a faixa de terreno junta ao mar ou à beira-mar, como também se diz. Como adjectivo qualifica tudo o que se relacione com esta mesma faixa. Substantivo ou adjetivo, contrapõe-se à palavra “interior”, também ela substantiva e adjectiva.
Não confundir litoral com costa ou orla costeira. Esta deve ser entendida como a linha que, no litoral, separa o mar da terra ou, por outras palavras, que marca a fronteira entre o continente emerso e o oceano, tal como é desenhada nos mapas, respeitando o alcance da preia-mar.
Em linguagem político-administrativa, litoral designa a faixa de terra junto à costa, abrangendo uma largura à volta de 50 km para o interior, variável de país para país.

Em biologia, litoral refere o conjunto de ecossistemas localizados na fronteira terra/mar sujeitos à influência das marés, sendo que neste bioma podemos distinguir três unidades:
1 – zona supralitoral, supramareal ou supratidal (um anglicismo vindo do inglês “tide”, maré) - acima da linha da maior preia-mar;
2 – zona mesolitoral, intermareal ou intertidal - entre a baixa mar e a preia-mar;
3 – zona infralitoral, inframareal ou infratidal - imediatamente abaixo da baixa-mar.

Para o largo, com a profundidade a aumentar progressiva e suavemente, segue-se a zona circalitoral, adjacente ao litoral, já na plataforma continental (ou zona nerítica, de “Nerita”, um gastrópode identificado por Lineu, em 1758) que não sofre a influência das marés, penetrada pela luz solar e, daí, também, a designação de zona fótica.

Para o geólogo ou o geógrafo, numa visão muito próxima da do biólogo, litoral é, não só,
1 - a faixa emersa da linha de costa limitada superiormente (do lado de terra) por um acidente fisiográfico (uma arriba ou uma simples rotura de declive) ou pela ocupação permanente de vegetação não tolerante ao sal, mas também
2 - a faixa imersa, limitada inferiormente por uma linha abaixo da qual o fundo marinho não é significativamente perturbado pela ondulação habitual na região.
Na nossa costa ocidental, este limite inferior ronda a profundidade de 10 m, sendo de 6 m, em média, na costa sul (algarvia).

A adulteração da paisagem física, em nome do desenvolvimento, seja no interior, seja no litoral, é um facto que está a atingir proporções preocupantes.
No que respeita o litoral, os reflexos da intervenção do homem são hoje bem visíveis e as soluções encontradas, para os minimizar ou eliminar, nem sempre são as melhores. A conclusão a tirar desta realidade é:
“não se pode continuar a planear o litoral de costas viradas para os conhecimentos que a ciência já está apta a fornecer”.

Há, pois, que saber conviver com o mar e respeitar os seus códigos que já conhecemos com razoável pormenor. Sabemos hoje que a geometria e as características dinâmicas desta franja “onde a terra se acaba e o mar começa” resultam de oscilações naturais do nível do mar, demasiado lentas, só referenciáveis à escala geológica, que podem ser:
1 - eustáticas – subida ou descida do nível das águas;
2 - epirogénicas - deformações da crosta, quer epirogénicas quer orogénicas.

Deixando de parte um conjunto de factores e condicionantes próprios da civilização que, por terem lugar à escala temporal do homem e da sociedade e/ou por serem mais visíveis, não é despiciendo conhecer melhor, interferem na configuração do litoral:
1 - a natureza e a estrutura das rochas (e a sua maior ou menor vulnerabilidade à alteração e à erosão);
2 - o clima, em especial no que diz respeito à pluviosidade, à temperatura, aos ventos e ao gelo;
3 - as vagas (intensidade e orientação),
4 - as marés e as correntes marinhas.
5 - as decorrentes da alteração química e/ou da dissolução que a água do mar exerce sobre as rochas do litoral, com efeitos variáveis em função das respectivas naturezas.
Em conclusão, pode dizer-se que o litoral se define pelas leis naturais, ou seja, pelas leis da física e da química, sempre subjacentes aos processos geológicos e biológicos.

E os responsáveis pela “coisa pública” ou os técnicos ao seu serviço não podem desconhecê-las.
No sentido de minimizar os inconvenientes causados pelas referidas intervenções, tem-se recorrido a ensaios realizados em tanques especiais, onde, em modelos reduzidos, se procuram simular as condições naturais e as alterações a introduzir, a fim de estudar os seus efeitos. Modernamente, com o desenvolvimento dos meios informáticos, estão a utilizar-se modelos matemáticos com idênticos propósitos.

Sabemos hoje que a retenção, nas grandes albufeiras das barragens hidroeléctricas, da maior parte dos inertes em trânsito nos rios, é uma das causas dos recuos verificados em certas linhas de costa, nomeadamente, nas praias. Outra causa reside na extracção industrial de inertes (areia e cascalho) das praias, das dunas e dos rios, incluindo os estuários, na ordem de muitos e muitos milhões de toneladas por ano,. O desassoreamento de portos e barras constitui uma outra causa dos referidos recuos. A construção de enrocamentos, como sejam os molhes e os esporões, com o fim de proteger determinados sectores da costa, acabam sempre por transferir o mesmo tipo de problemas para jusante e, geralmente, de forma agravada.

As vagas, desencadeadas por acção do vento, transmitem até ao litoral a energia que dele recebem e têm a sua acção erosiva grandemente potenciada pelo efeito abrasivo dos materiais (areias, seixos, blocos) que põe em movimento. Em resultado desta acção formam-se os litorais de erosão, ou catamórficos, caracterizados por arribas, ou falésias alcantiladas, que recuam à medida que aumenta a plataforma litoral ou de abrasão marinha. A plataforma continental é a continuação desta mesma superfície, arrasada num passado geológico recente (Quaternário) e hoje submersa na sequência da subida do nível do mar nos cerca de 20 000 anos que se seguiram à última glaciação (Würm, na Europa, Wisconsin, na América do Norte) referida por transgressão flandriana (descrita na Flandres, no norte da Bélgica).
Temos exemplos de litorais catamórficos na Costa Vicentina e na que se estende para norte da foz do Douro. Deste recuo restam, como testemunhos, pontas rochosas, como são os cabos ou promontórios, muitas vezes prolongados mar adentro por pontuações igualmente rochosas (ilhéus, baixios, escolhos, abrolhos, calhaus, pedras, etc., nos diversos modos de dizer locais), com destaque para os cabos de S. Vicente, Sagres, Espichel, Roca e Carvoeiro, com a conhecida e elegante Nau dos Corvos.

Quando é o mar que recua, o litoral diz-se anamórfico ou de acumulação. Têm aqui lugar a praia, em geral arenosa (mas às vezes cascalhenta), e as dunas. Na sequência desta regressão do mar, a arriba fica liberta da erosão das vagas, passando a evoluir em ambiente subaéreo, até adquirir um perfil de equilíbrio ditado pela sua natureza e pelas condições climáticas ambientais. Facilmente reconhecíveis na paisagem litoral, estes testemunhos de antigos litorais são considerados arribas fósseis.
A praia é, na maior parte dos casos, uma acumulação instável de areia e algumas vezes de cascalho, seixos ou calhaus (três modos de referir os clastos mais grosseiros), no geral arredondados pela abrasão. Representa um ambiente onde o binómio morfologia-sedimentação se caracteriza por grande instabilidade. Qualquer modificação natural ou artificial introduzida na morfologia da praia ou no seu conteúdo sedimentar (areias e, eventualmente, cascalho) tem reflexos no balanço erosão-sedimentação.
São exemplos de litorais anamórficos todas as nossas praias, de norte a sul, de oeste a leste (no Algarve)
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NOTAS:
Eustáticas – Diz-se das variações lentas do nível do mar causadas por modificação do volume das águas (gelo e degelo glaciário) ou por deformações do fundo marinho.
Epirogénicas – Refere movimentos ascensionais ou descensionais, lentos, da crosta continental, responsáveis, por regressões (descida do nível do mar) e transgressões (subida do nível do mar).
Orogénicas - Diz-se de um conjunto de processos geodinâmicos internos geradores de cadeias de montanhas ou orógenos.
Inertes – Termo técnico, entre os engenheiros, para referir os sedimentos terrígenos, em especial, areia e cascalho.
Jusante - Do francês “jusante”, a partir do antigo advérbio “jus” (em baixo). Este termo, inicialmente empregue em relação com os escoamentos fluviais e afins, em que o sentido do movimento é, naturalmente, o de cima para baixo, (de montante para jusante), acabou por entrar na linguagem corrente com o significado de “para onde” (jusante) em oposição a “de onde” (montante). Na costa ocidental portuguesa, onde o transporte das areias se faz de norte para sul, montante fica para norte e jusante para sul.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Porcelanas



Por Professor Galopim de Carvalho
(Um simples apontamento)

Em termos muito gerais podemos dizer que a porcelana é um produto cerâmico branco, translúcido, totalmente vidrado, impermeável, ou seja, isento de porosidade.
Não podemos falar de porcelana sem uma referência muito especial à China, o berço da “arte cerâmica”, iniciada no terceiro milénio a.C., mas foi só a partir da dinastia Han (206 a.C.-220 d.C.) que surgiu a produção de cerâmica cozida e vitrificada, ou seja, de porcelana. De notada beleza e fruto de grande qualidade técnica, a porcelana chinesa exerceu grande influência na Ásia e na Europa.

Foi Marco Polo (c. 1254-1324) que a deu a conhecer na Europa, através do material que trouxe de lá, por ocasião da sua viagem ao Oriente. Mas foram os navegadores portugueses do século XVI que, no seu retorno, introduziram a porcelana nos mercados europeus, e foi o eborense Gaspar da Cruz (1520 –1570), um frade da Ordem dos Pregadores que, no seu “Tratado das cousas da China”, descreveu os processos pelos quais se obtinha ali esse tipo de cerâmica.

Quando as primeiras porcelanas chegaram à Europa, foram os italianos que, pela brancura e pelo brilho desta cerâmica, iguais aos da parte da concha envolvente da abertura do búzio "porcellana" (nome vulgar de um gastrópode do género "Cypraea"), lhe deram esse mesmo nome. Abertura que então lhes lembrou a vulva da porca, "porcella" em italiano.

A partir da sua chegada a Portugal e conhecido o modo de fabrico, foram descobertas e seleccionadas importantes jazidas de caulino e aperfeiçoadas as técnicas de produção. Portugal, Espanha, Inglaterra, França e Alemanha progrediram no fabrico de porcelana, chegando, no século XVIII, a atingir o nível de qualidade então reconhecido na China, permitindo uma hábil imitação dos modelos antigos.

Atualmente, a matéria-prima destinada a esta indústria é constituída por caulino, feldspato, quartzo (via de regra, uma areia) e uma pequena porção de argila gorda. Na respectiva pasta cerâmica, o feldspato actua como fundente de alta temperatura, o quartzo forma o esqueleto do produto final e a argila gorda (uma esmectite) confere a plasticidade necessária à citada pasta.

Um parêntese para lembrar que caulino, cujo nome provém de Kao Ling, uma localidade na província de Jiangxi, na China, é uma argila muito branca, praticamente destituída de óxido e hidróxido de ferro, pelo que permanece branca após cozedura. Os ingleses chamam-lhe “China clay”, numa alusão nítida à importância desta matéria-prima no país do Sol Nascente.

As peças de porcelana distinguem-se das dos demais produtos cerâmicos pela sua dureza, brancura, brilho vítreo, impermeabilidade, elevada resistência mecânica e translucidez, características que lhe advêm do facto de serem cozidas e vitrificadas a temperaturas na ordem dos 1300 a 1500 ºC, em ambiente redutor. Por ser um material isento de porosidade, com características semelhantes às do vidro, torna-se bastante higiénico e ideal como loiça de serviço à mesa.

A primeira produção de porcelana na Europa, mais precisamente em Meissen (Mísnia, em português), cidade da Saxónia, teve lugar num tempo em que a alquimia começava a dar lugar à química. Deve-se ao trabalho do químico alemão Johann Friedrich Böttge (1682-1719) que, para tal, utilizou caulino puro. Em 1710 surgiu nesta cidade o embrião da Staatliche Porzellan-Manufaktur, uma das fábricas de porcelana mais prestigiadas. Apesar das tentativas de manter em segredo a respectiva tecnologia, ela acabou por se estender a outras congéneres alemãs e, depois, a toda a Europa, onde ficou conhecida por “porcelana alemã” ou “porcelana de Saxe”.

O fabrico da porcelana em França, em começos do século XVIII, teve início em Sèvres, nos arredores de Paris, em 1756, ganhando nome como “Real Fábrica de Porcelana”, após a tomada de posse por Luís XVI, em 1760, que procedeu à melhoria dos equipamentos. Igualando a qualidade da porcelana alemã, e sob a direcção do químico e mineralogista francês, Alexandre Brongniart (1770-1847), Sèvres tornou-se o maior centro distribuidor deste produto na Europa. Interrompida aquando da Revolução Francesa, ressurgiu como empresa nacional, ao tempo de Napoleão. A “Manufacture National de Sèvres” e o “Musée National de la Céramique” estão, desde 2010, reunidos num único estabelecimento público.

Após a dita Revolução, surgiram em Limoges várias fábricas que, no século XIX, devido à alta qualidade dos seus produtos, fizeram desta outra cidade francesa o mais famoso centro da indústria e arte cerâmicas, produzindo a que mereceu o nome de “porcelana fina” ou “porcelana de Limoges”.
Baixelas de mesa, bacias e jarros de lavatório e peças decorativas, geralmente, monogramadas ou brasonadas, inicialmente pintadas à mão por artistas profissionais contratados, muitas delas, com filetes de ouro, entraram nas casas reais, da nobreza e da burguesia mais abastada de França e dos países com os quais havia trocas comerciais.
Nos anos 30 do século XX, sem perda de qualidade no fabrico, a decoração da porcelana de Limoges passou a ser feita com decalques.

No que se refere a Portugal, só em 1824 surgiu a Fábrica de Porcelana, de Vista Alegre, em Ílhavo. Com elevado pendor artístico, esta que é a mais antiga da Península Ibérica, representa um empreendimento continuado por uma panóplia de unidades industriais com capacidade para produzir e exportar milhões de peças por ano, entre decorativas e baixelas de mesa que podem ser admiradas no respectivo Museu. Uma outra referência nesta indústria/arte é a SPAL Porcelanas, fundada em 1965, em Alcobaça. Com duas unidades fabris e algumas centenas de trabalhadores, exporta cerca de 70% da sua produção, em especial para os Estados Unidos da América, França, Espanha, Itália, Canadá, México e Alemanha.

História da Cerâmica em Portugal

Por Professor Galopim de Carvalho


FAIANÇAS
(Um simples apontamento)

Tipo bastante comum de cerâmica branca ou de cor marfim, a faiança é menos rica em caulino do que a porcelana. Na sua composição, além do caulino, incorpora geralmente uma argila esmectítica, mais gorda (plástica), que lhe dá a moldabilidade pretendida, areia e um descolorante. Sendo um corpo poroso, com uma capacidade de absorção de água geralmente superior a 3%, necessita de ser vidrado, o que é feito posteriormente à cozedura, a temperaturas variando entre 900 e 1250°C, mais baixas, portanto, do que as usadas na indústria do caulino. O termo que deu nome a este tipo de cerâmica radica em Faenza, nome da cidade italiana, da província da Ravena, que foi um importante centro cerâmico do Renascimento.
Pelo facto de ser produzida com exigências técnicas superiores às do barro vermelho e de se caracterizar por relativa brancura, a faiança foi, desde sempre, considerada um material mais nobre de que o dito barro vermelho. Produto tradicional português, a sua variedade é imensa, quer como baixelas de mesa (serviços de jantar, de chá e de café), pratos, travessas e outras peças decorativas, quer como azulejos, usados desde o século XVI, no revestimento de paredes interiores e exteriores.
Segundo se julga saber, este tipo de cerâmica, remonta ao século IX a.C., sendo já então conhecida no Egipto e na Mesopotâmia. Foi a partir destas civilizações da Antiguidade, que chegou ao sul da Península, trazido pelos árabes. Foram os artesãos andaluzes que, em começos do século XVI, o introduziram em Portugal, com uma loiça mais marfim do que branca, vidrada, adjectivada de malagueira, do nome de Málaga, a cidade do sul de Espanha.
Com muito escassa ou nenhuma decoração, esta faiança, ainda muito fruste e, como tal, relativamente barata e de uso corrente, manteve-se em produção até começos do século XIX.
Com a vinda para Lisboa de oleiros flamengos, a meados do século XVI, registou-se notável desenvolvimento nesta outra arte cerâmica, alastrando, depois, para Coimbra e Vila Nova de Gaia. Na primeira metade do século XVII, a faiança portuguesa, ainda uma manufactura, experimenta um melhoramento na qualidade da produção, focando, sobretudo, motivos ornamentais do Oriente, expressos em pintura em tons de azul cobalto. Entre o século XVII e começos do século XIX, foram criadas em Portugal dezenas de fábricas de faiança, dispersas por Lisboa, Porto, Coimbra, Aveiro, Viana do Castelo, Caldas da Rainha e Estremoz.
Vidrada e pintada manualmente com motivos tradicionais e outros, a faiança portuguesa atingiu elevada qualidade bem demonstrada pela volumosa produção, em resposta a exigente procura.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Geopoema, por António Galopim de Carvalho

A new subduction zone forming off the coast of Portugal heralds the beginning of a cycle that will see the Atlantic Ocean close as continental Europe moves closer to America.
Fonte Geology In


Esta notícia refere-se a um artigo publicado online pela revista Geology, em Junho de 2013, Nela se dá conta da descoberta, ao largo da costa de Portugal, de uma possível zona de subducção nas suas primeiríssimas fases de formação. Tal significa que daqui a uns 200 milhões de anos, o Oceano Atlântico poderá vir a desaparecer e que as massas continentais da Eurásia e da Laurência se voltarão a juntar num novo supercontinente. Neste trabalho, assinado por João Duarte, geólogo português a trabalhar na Universidade de Monash, na Austrália, e a sua equipa, juntamente com António Ribeiro e Filipe Rosas, da Universidade de Lisboa, Pedro Terrinha, do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, e, ainda, Marc-André Gutcher, da Universidade de Brest (França), são revelados os primeiros indícios de transformação da margem sudoeste ibérica (uma margem passiva, do tipo atlântico) numa margem activa, do tipo pacífico.
Há mais de três décadas, em 1979, no 1º Encontro de Geociências, reunido em Lisboa, António Ribeiro, surpreendeu os presentes, ao apresentar a comunicação a que deu o nome de ”Geopoema”. Numa antevisão notável, este geólogo que, já então, se distinguia entre os seus pares pela excelência do trabalho que produzia, anunciava que o Atlântico iria começar a fechar, que, daqui a uns milhões de anos, engoliríamos os Açores e, que, passados mais um ror deles, a Eurásia cavalgaria a América do Norte, imaginando, em jeito de brincadeira, “a estátua do Marquês do Pombal sobre a estátua da Liberdade”.
Na imagem: Distribuição dos epicentros dos sismos históricos e instrumentais na envolvente da Península Ibérica (in J. Cabral 1993)


Para conhecer mais:

domingo, 21 de junho de 2015

Minerais e fósseis, “uma e a mesma coisa”



“Mina”, com o significado de escavação na terra, é um termo que se julga radicar na cultura céltica, trazido para a Europa ocidental por um povo portador da metalurgia do ferro, a partir do segundo milénio a.C. É uma palavra do nosso vocabulário ligada a duas realidades sociais:
(1) a popular e rudimentar mina de água e
(2) a mina no sentido de local onde, desde há muito, artesanal ou industrialmente, o homem procura extrair matérias-primas, tradicionalmente referidas por minérios.
Na imensa maioria, minerais, mas também algumas rochas como o gesso e o sal-gema, e raros fósseis, como é o caso da lenhite, da hulha e da antracite.
Minerar é, pois, escavar e mineral e minério são produtos que da terra se retiram por escavação.

Se tivermos em conta que escavar é fossar e que fosso ou fossa é uma escavação, compreendemos por que razão, no passado, até ao século XVIII, se chamava fóssil a todo o material não orgânico que se desenterrava ou extraía de dentro da terra (do latim fossile, desenterrado), o que abrangia os minerais, os “petrificados”, ou seja, os fósseis, no sentido que hoje lhe damos (o de antigos seres transformados em pedra), as rochas e os achados pré-históricos e arqueológicos.
António Galopim de Carvalho

sábado, 24 de março de 2007

Biografias - Galopim de Carvalho

Galopim de Carvalho [Ciência Hoje]
O Cientista António Marcos Galopim de Carvalho nasceu em 1931 no Alentejo, na cidade de Évora. Licenciou-se em Ciências Geológicas e doutorou-se em Geologia na Universidade de Lisboa. Em 1992 foi nomeado Director do Museu Nacional de História Natural onde desenvolveu esforços pela divulgação, salvaguarda e valorização do património geológico nacional.
No seu percurso teve vários “Momentos de Glória” dos quais se destacam a organização da exposição “Dinossáurios Regressam”, a defesa de pegadas de dinossauros e a conversão de geomonumentos associados a estruturas museológicas, como o exomuseu de Santa Luzia (Viseu).É Grande Oficial da Ordem de Santiago da Espada. Recebeu o Prémio "Bordalo" para a Ciência, em 1994.
Ainda desenvolve trabalho na área das Ciências da Terra e é um defensor do património cultural e científico.
Para além de cientista, Galopim de Carvalho é também escritor. Publicou livros científicos na área da das Ciências da Terra - “Morfogénese e Sedimentógénese” (1996), “Petrogénese e Orogénese” (1997)- e tem obtido grandes êxitos na área da literatura de ficção, nomeadamente O Cheiro da Madeira (1994), o Preço da Borrega (1995) e Os Homens não Tapam as orelhas (1997).

Blogues da sua autoria
Sopas de Pedra
em co-autoria
Sorumbático

quinta-feira, 18 de maio de 2006

O milagre da vida, com ou sem Deus, uma inevitabilidade da matéria, por António Galopim de Carvalho


Na evolução da matéria, segundo o padre francês Teilhard de Chardin (1881-1955), o grau de complexidade que esta assumiu foi crescente desde o início do tempo deste nosso Universo, isto é, nos treze mil e setecentos milhões (13 700 000 000 de anos) da sua existência. Das partículas subatómicas primordiais passou-se aos átomos e, ...só depois, às moléculas, cada vez mais complexas. A partir destas, a evolução caminhou no sentido das células mais primitivas que fizeram a sua aparição na Terra há mais de três mil e oitocentos milhões de anos, pensa-se que através de uma cadeia abiótica de estádios progressivamente mais elaborados, onde o ensaio e erro e o sucesso ou insucesso das soluções encontradas, isto é, os produtos sucessivamente sintetizados, tiveram a seu favor tal imensidade de tempo.