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segunda-feira, 31 de julho de 2023

Já estamos em ebulição global


A partir desta quinta-feira, 27 de julho, o aquecimento global chegou oficialmente ao fim e começou uma nova era: “A ebulição global”. As palavras fortes são de António Guterres, secretário-geral da Organização das Nações Unidas, numa conferência de imprensa em que revelou o que julho de 2023 pode muito bem tornar-se no mês mais quente de sempre na história registada.

“As alterações climáticas estão aqui. É assustador e isto é apenas o início”, disse Guterres. “Ainda é possível limitar o aumento da temperatura global para 1,5 graus e evitar o pior. Mas isto apenas funcionará com ações drásticas e imediatas.”

A informação dada pelo secretário-geral surge após cientistas terem confirmado também nesta quinta-feira que as últimas três semanas foram as mais quentes algumas vez registadas. Karsten Haustein, da Universidade de Leipzig, garante que o mundo está 1,5 graus mais quente este mês do que em qualquer outro julho antes da industrialização.

Em causa estão fatores como a poluição humana. “A humanidade está em risco. Para uma vasta parte da América do Norte, Ásia, África e Europa, está a ser um verão cruel. Para o resto do planeta, é um desastre. E para os cientistas, não há dúvidas: a culpa é das pessoas.”

Vários avisos já tinham sido dados pela comunidade científica ao longo dos últimos nos, por isso esta situação não é propriamente um choque. O que surpreende os especialistas é mesmo a forma acelerada como as temperaturas estão a mudar.

Guterres pediu ainda que os políticos não ficassem estáticos e que tomassem medidas rapidamente. “Este ar não é respirável, o calor não se aguenta, e o nível de inação é inaceitável. Líderes devem liderar. Chega de hesitação e desculpa. já não há tempo para isso”.

Petteri Taalas, secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial, também deixa um aviso: “A necessidade de reduzir o efeito estufa é mais urgente do que nunca. A ação climática não é um luxo, mas uma necessidade.”

Não esquecer que entre 65% e 80% do CO2 libertado no ar por acção do homem dissolve-se no oceano num período entre 20 a 200 anos. O restante é removido por processos mais lentos que levam centenas de milhares de anos, incluindo a meteorização química e formação de rochas. Isso significa que, uma vez na atmosfera, o dióxido de carbono pode continuar a afectar o clima por milhares de anos [artigo científico]

quinta-feira, 9 de junho de 2022

Alerta da Organização Meteorológica Mundial: ondas de calor serão mais frequentes e intensas pelo menos até 2060


Ondas de calor como a que afeta a Europa ocidental, e que atingiu Portugal na semana passada, serão cada vez mais frequentes e intensas pelo menos até 2060, advertiu esta terça-feira a Organização Meteorológica Mundial (OMM).

Em conferência de imprensa, o secretário-geral da OMM, Petteri Taalas, disse que este tipo de ondas de calor "serão normais e, inclusive, mais fortes".

De acordo com Taalas, "a maior frequência destas tendências negativas continuará pelo menos até 2060, independentemente do sucesso ou não na mitigação das alterações climáticas".

A atual onda de calor na Europa ocidental refletiu-se em vários países, nomeadamente no Reino Unido, onde a temperatura máxima superou hoje os 40ºC, um valor nunca antes alcançado desde que há registos sistematizados, e em França, que bateu vários recordes de temperatura. Em Espanha e em Itália, o calor extremo levou à propagação de incêndios florestais.

Em Portugal, que viveu na semana passada a segunda onda de calor do ano, depois da de maio, os termómetros registaram na quarta-feira 46,3ºC na Lousã, o sítio mais quente do país nesse dia.

Na quarta-feira, o dia mais quente de 2022, em que deflagraram vários incêndios florestais, mais de 50 estações meteorológicas assinalaram temperaturas máximas entre os 40ºC e os 45ºC.

Em declarações à Lusa, o investigador Pedro Matos Soares, especialista em física da atmosfera, disse, com base em modelizações, que Portugal poderá vir a ter, no cenário mais grave, oito a dez ondas de calor anuais nos últimos 30 anos do século XXI.

Hoje, a Direção-Geral da Saúde atribuiu às temperaturas extremas verificadas no continente o excesso de mortalidade entre 07 e 18 de julho, o correspondente a 1.063 óbitos.

Segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, os primeiros 17 dias de julho foram os mais quentes deste século, com uma temperatura média do ar de 25,7ºC, sendo que, neste período, o valor mais elevado da temperatura máxima do ar, 47°C, ocorreu na estação meteorológica do Pinhão e é um novo extremo em Portugal continental para o mês de julho.

quarta-feira, 18 de maio de 2022

O mundo está "a aproximar-se cada vez mais da catástrofe climática". O novo alerta de Guterres



Quatro marcadores-chave das alterações climáticas bateram novos recordes em 2021, revelou esta quarta-feira a Organização das Nações Unidas (ONU), avisando que o sistema global de energia está a conduzir a humanidade para a catástrofe.

As concentrações de gases com efeito de estufa, o aumento do nível do mar, a temperatura e a acidificação dos oceanos atingiram novos recordes no ano passado, segundo refere a Organização Meteorológica Mundial (OMM) no relatório "Estado do Clima Global em 2021".

Este documento é "uma ladainha lamentável do fracasso da humanidade em combater as mudanças climáticas", considerou secretário-geral da ONU, António Guterres.

“O sistema global de energia está quebrado e aproxima-nos cada vez mais da catástrofe climática”, alertou Guterres, pedindo para se “acabar com a poluição por combustíveis fósseis e acelerar a transição para energia renovável”, antes de se incinerar o planeta.

A OMM refere que a atividade humana está a provocar mudanças à escala planetária: na terra, no oceano e na atmosfera, com ramificações prejudiciais e duradouras para os ecossistemas.

O relatório desta organização confirmou que os últimos sete anos foram os sete anos mais quentes alguma vez registados.

Os fenómenos climáticos relacionados com o La Nina no início e no final de 2021 tiveram um efeito assustador nas temperaturas globais no ano passado. Mas, apesar disso, 2021 continua a ser um dos anos mais quentes já registados, com a temperatura média global a rondar os 1,11 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais.

O Acordo Climático de Paris de 2015 visava limitar o aquecimento global a +1,5°C em comparação com a era pré-industrial.

“O nosso clima está a mudar diante de nossos olhos”, disse o chefe da OMM, Petteri Taalas, sublinhando: "O calor retido pelos gases com efeito de estufa produzidos pelo homem aquecerá o planeta por muitas gerações”.

“O aumento do nível do mar, o calor e a acidificação dos oceanos continuarão por centenas de anos. A menos que sejam inventadas maneiras de remover o carbono da atmosfera", acrescentou.

Os quatro indicadores-chave da mudança climática "constroem uma imagem coerente de um mundo em aquecimento que afeta todas as partes do planeta", diz o relatório da OMM

As concentrações de gases com efeito estufa atingiram uma nova alta global em 2020, quando a concentração de dióxido de carbono (CO2) atingiu 413,2 partes por milhão (ppm) em todo o mundo, ou 149% dos níveis pré-industriais.

Os dados indicam que estes gases continuaram a aumentar em 2021 e no início de 2022, com a concentração média mensal de CO2 em Mona Loa, no Havai, atingindo 416,45 ppm em abril de 2020, 419,05 ppm em abril de 2021 e 420,23 ppm em abril de 2022, de acordo com o relatório.

O nível médio global do mar também atingiu um novo recorde em 2021, depois de subir uma média de 4,5 milímetros por ano de 2013 a 2021, informa o documento.

O aumento médio entre 1993 e 2002 tinha sido de 2,1 mm por ano, sendo o aumento entre os dois períodos "principalmente devido à perda acelerada de massa de gelo das calotas polares", acrescenta.

A temperatura do oceano também atingiu um recorde no ano passado, superando o valor de 2020, de acordo com o relatório. Espera-se que os primeiros 2.000 metros de profundidade do oceano continuem a aquecer no futuro - "uma mudança irreversível em escalas de tempo de séculos a milénios" - segundo a OMM, que sublinha que o calor penetrou cada vez mais fundo.

O oceano absorve cerca de 23% das emissões anuais de CO2 produzidas pelo homem na atmosfera. Embora retarde o aumento das concentrações atmosféricas de CO2, este último reage com a água do mar e leva à acidificação dos oceanos.

Enquanto isso, o relatório aponta que o buraco na camada de ozono da Antártida é "invulgarmente profundo e extenso" com 24,8 milhões de quilómetros quadrados em 2021, impulsionado por um vórtice polar forte e estável.

António Guterres propôs cinco ações para iniciar a transição para as energias renováveis “antes que seja tarde”: acabar com os subsídios aos combustíveis fósseis, triplicar o investimento em energias renováveis, reduzir a burocracia, garantir o fornecimento de matérias-primas para tecnologias de energias renováveis e tornar essas tecnologias - como o armazenamento de baterias - bens públicos globais disponíveis gratuitamente.

"Se agirmos juntos, a transformação das energias renováveis pode ser o projeto de paz do século 21", disse Guterres.

Saber mais:

terça-feira, 10 de maio de 2022

Temperatura média global pode subir mais 1,5 graus centígrados nos próximos cinco anos


A temperatura média anual global pode ficar temporariamente 1,5 graus centígrados acima dos valores pré-industriais em pelo menos um dos próximos cinco anos, alerta a ONU, que aponta para uma probabilidade de quase 50%.

A ultrapassagem temporária deste limite, ao longo de um ano, não é, contudo, sinónimo de uma ultrapassagem duradoura, segundo a definição concretizada pelo acordo climático de Paris.

Este acordo visa conter o aumento da temperatura média global bem abaixo dos dois graus centígrados, em relação aos níveis pré-industriais e, se possível, abaixo dos 1,5 graus.

Segundo um novo boletim climático, publicado esta terça-feira pela Organização Meteorológica Mundial das Nações Unidas (OMM), a probabilidade de uma ultrapassagem temporária do limite de 1,5 graus centígrados aumentou de forma constante desde 2015, ano em que esse risco foi próximo de zero.

Entre 2017 e 2021, a probabilidade de superação foi de 10% e aumentou para quase 50% para o período entre 2022-2026, alerta a OMM.

No entanto, há apenas uma pequena probabilidade (10%) de que a média de cinco anos exceda o limite de mais 1,5 graus centígrados.

Aquecimento acentuado vai continuar

“Este estudo mostra, com grande confiabilidade científica, que estamos a aproximar-nos significativamente do momento em que atingiremos temporariamente o limite inferior do Acordo de Paris. O valor de 1,5°C não é uma estatística escolhida aleatoriamente. Indica o ponto a partir do qual os efeitos do clima serão cada vez mais prejudiciais para as pessoas e para todo o planeta”, frisou o secretário-geral da OMM, Petteri Taalas.

“Enquanto continuarmos a emitir gases de efeito estufa, as temperaturas continuarão a subir. Ao mesmo tempo, os nossos oceanos continuarão a aquecer e acidificar, o gelo marinho e as calotas polares continuarão a derreter, o nível do mar continuará a subir e o clima extremo continuará a intensificar-se”, acrescentou.

Petteri Taalas referiu ainda que o aquecimento do Ártico é "particularmente acentuado" e as condições nesta região têm repercussões para todo o planeta.

Segundo o boletim de previsões climáticas anuais e para a década à escala global, elaborado pelo United Kingdom Met Office (Met Office), que é o principal centro da OMM para este tipo de previsões, é muito provável (93%) que pelo menos um dos anos entre 2022 e 2026 se torne o mais quente já registado.

Este recorde é atualmente mantido pelo ano de 2016, que foi marcado por um poderoso episódio de El Niño, um fenómeno oceânico natural que leva ao aumento das temperaturas.

Também é 93% provável que a temperatura média para o período 2022-2026 seja superior à dos últimos cinco anos (2017-2021).

Leon Hermanson, um dos editores do boletim, do Met Office, acredita que estas previsões mostram "que o aumento da temperatura global vai continuar".

Mas, lembrou, "um único ano de superação do limite de 1,5°C não significa que esteja ultrapassado o emblemático limite do Acordo de Paris".

"É, no entanto, um sinal de que estamos a aproximar-nos de um cenário em que os 1,5°C limite pode ser excedido por um período prolongado", referiu.

Em 2021, a temperatura média do planeta foi 1,11 graus centígrados mais alta do que a era pré-industrial de referência, de acordo com um relatório recente da OMM sobre o estado do clima global. A versão final do documento será publicada em 18 de maio.