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terça-feira, 4 de agosto de 2026

Como as cidades estão a transformar os seus rios poluídos em paraísos para banhos

No dia 5 de Julho de 2026, durante uma onda de calor opressiva, parisienses e turistas nadaram no Sena, um de muitos rios que foram limpos e estão a receber novamente banhistas urbanos.

Durante a maior parte da vida de Pauline Janbon, a ideia de tomar banho no rio Sena, em Paris, era inimaginável.

“Quando éramos crianças diziam-nos que havia cadáveres a flutuar na água”, disse Janbon, uma estudante de 20 anos da Universidade da Sorbonne, em Paris. “Tinha a reputação de ser extremamente sujo.”

Em Junho deste ano, porém, quando uma onda de calor inédita assolou o país, Janbon e milhares de parisienses mergulharam nas águas outrora temidas da cidade para se refrescarem. No dia em que a conheci, ela estava junto à margem do Canal Saint-Martin, rodeada por hordas de banhistas, que saltavam, nadavam e boiavam na água.

“Até hoje, nunca tinha dado um mergulho na minha própria cidade”, disse Janbon, enquanto espremia água do cabelo. “Parece que estou de férias.”

Paris é apenas uma de muitas cidades europeias que se têm esforçado para tornar as suas vias aquáticas novamente seguras para banhos. Copenhaga, Basileia, Zurique, Berna e Oslo passaram anos a melhorar os seus sistemas de gestão de águas residuais, criando uma infra-estrutura de águas pluviais e implementando políticas para controlar melhor a poluição aquática. Os seus esforços têm sido maioritariamente bem-sucedidos, com os residentes das cidades da Europa a regressarem às suas águas. E à medida que as alterações climáticas criam ondas de calor mais intensas e frequentes, os urbanistas e residentes também estão a virar-se para estas águas para lidar com os dias mais quentes.

“Estamos a ver pessoas a renegociar os seus contratos sociais com a água nestas cidades”, disse Matthew Sykes, co-fundador e director do programa Swimmable Cities, uma aliança de organizações que promove o direito ao usufruto das vias aquáticas urbanas. “As pessoas começam a perceber que é melhor ter uma cidade onde se possa nadar.”

Um regresso histórico às águas
Até ao início do século XX, tomar banho nos rios urbanos era uma actividade comum na Europa ocidental e em algumas zonas da América do Norte. Eram construídas casas de banhos directamente em cima dos rios e havia sítios que as pessoas visitavam a lazer, bem como para se lavarem. A falta de canalizações em casas particulares significava que estas casas de banho – populares em cidades como Nova Iorque, Londres, Boston, Filadélfia e Paris – eram frequentemente o único sítio onde as pessoas podiam lavar-se.

À medida que a industrialização foi avançando e as populações subiram a pique nas cidades, os rios urbanos da Europa tornaram-se inimaginavelmente sujos. Em Paris, águas residuais, partes do corpo de animais e escoamentos de lavandarias eram despejados directamente no Sena. Por esta razão, a cidade proibiu os banhos em 1923, declarando a água insegura para a saúde humana.

As autoridades municipais começaram a discutir a limpeza do rio em 1988, mas só em 2016 é que a presidente da câmara de Paris, Anne Hidalgo, renovou o empenho da cidade em limpar o Sena, transformando o rio num pilar essencial da candidatura de Paris aos Jogos Olímpicos de Verão de 2024.

“Paris fez muito do trabalho pesado pelas outras cidades”, disse Sykes, comentando que o gabinete do presidente da câmara sofreu muitas críticas da parte da imprensa e dos eleitores. “Tiveram de provar que uma iniciativa como esta, que já tinha sido testada em cidades mais pequenas, era possível em grandes metrópoles urbanas.”

Em Julho de 2025, quando o Sena abriu oficialmente ao público, mais de 100.000 pessoas nadaram nas áreas de banho designadas, levando a cidade a prolongar a época balnear até ao início de Setembro. Agora, com o rio a entrar na sua segunda temporada de banhos, Paris está a provar que limpar os rios não só é possível, como é essencial na época das alterações climáticas.

Em Junho, Paris sofreu a sua onda de calor mais grave de que há registo. França tem poucos equipamentos de ar-condicionado: apenas um quarto das casas e menos de 7 por cento das escolas estão equipadas com sistemas de refrigeração. Em Paris, os edifícios haussamannianos que dão à cidade o seu visual emblemático, são notoriamente mal isolados contra o calor, deixando os parisienses com poucas opções para se refrescarem. Quando as temperaturas aumentaram no final de Junho, os parisienses suados procuraram refúgio nos corredores refrigerados dos supermercados e aguardaram em longas filas para entrar nas piscinas municipais da cidade. No entanto, as opções mais populares para muitos foram os rios e canais recentemente limpos de Paris, aos quais hordas de pessoas desceram para dar o seu primeiro mergulho na cidade.

Cientificamente falando, os parisienses têm poucas razões para se preocuparem com a higiene da sua água. Todos os dias, a cidade monitoriza o Sena em busca de E. Coli e enterococci, que podem causar febre, infecções do tracto urinário e diarreia. Estes testes têm concluído de forma consistente que a água é segura para banhos, de acordo com os regulamentos da União Europeia.

Mesmo assim, um bloqueio mental impede muitos parisienses de nadar no Sena. Em 2021, quando a agência de sondagens IFOP pediu a mil pessoas francesas a sua opinião sobre o Sena, 70 por cento dos inquiridos descreveram-no como sujo, poluído e malcheiroso. Poucos disseram que seriam capazes de mergulhar no rio. E embora essa perspectiva tenha começado a mudar, a longa reputação do Sena como um rio sujo é difícil de limpar.

“Estou feliz por os meus filhos poderem desfrutar da água, mas eu não meto os pés lá dentro”, disse Soizic Prado, de 52 anos, sentada num banco, toda vestida, a ver os filhos brincar. “Tenho a certeza que é segura, mas passei a minha vida inteira a ouvir dizer que a água é suja”, explicou. “Ça donne pas envie” [“Não dá vontade”].

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Diplomata do Mundo: O Papel de Ted Turner no Degelo da Guerra Fria

A influência de Ted Turner no fim da Guerra Fria é um exemplo notável de como o "soft power" e a convicção pessoal podem contornar os canais governamentais tradicionais para alterar o curso da história. Enquanto os diplomatas se mantinham bloqueados em batalhas ideológicas rígidas, Turner atuou como um "diplomata cidadão", alavancando o seu império mediático e a sua fortuna pessoal para perfurar a Cortina de Ferro e humanizar o "inimigo".
Uma das suas contribuições mais significativas foi a criação dos Goodwill Games (Jogos da Boa Vontade) em 1986. Após os boicotes sucessivos aos Jogos Olímpicos de Moscovo, em 1980, e de Los Angeles, em 1984, o intercâmbio atlético e cultural entre as superpotências tinha estagnado completamente. Turner financiou pessoalmente os jogos em Moscovo para reunir atletas americanos e soviéticos, perdendo milhões de dólares no processo, mas alcançando o seu objetivo de provar que a interação pacífica era possível.
Simultaneamente, Turner transformou a comunicação global através da CNN. Ao criar o primeiro ciclo de notícias globais de 24 horas, estabeleceu, de forma não intencional, uma ponte para a diplomacia em tempo real. Os líderes na Casa Branca e no Kremlin podiam subitamente ver os acontecimentos desenrolarem-se no país do outro sem o atraso dos relatórios de inteligência, e Turner utilizou a sua plataforma para transmitir entrevistas com oficiais soviéticos que desafiavam a narrativa simplista do "Império do Mal" frequentemente vista nos meios de comunicação ocidentais.
Esta era testemunhou também o desenvolvimento de uma amizade genuína entre Turner e Mikhail Gorbachev. Turner tornou-se um apoiante assumido das reformas de Gorbachev, a Glasnost e a Perestroika, ajudando a enquadrar estas mudanças como uma oportunidade para a paz e não como um engano tático. A relação entre ambos foi tão profunda que, mais tarde, associaram-se para formar a Green Cross International, unindo as causas da paz e do ambientalismo.
Em última análise, o ativismo de Turner foi movido por um medo visceral da aniquilação nuclear.
Turner defendeu incansavelmente a redução dos arsenais nucleares, argumentando que a verdadeira segurança não vinha da "Destruição Mútua Assegurada", mas da cooperação. Este ativismo culminou mais tarde na criação da Ele defendeu incansavelmente a redução dos arsenais nucleares, argumentando que a verdadeira segurança não vinha da "Destruição Mútua Assegurada", mas da cooperação. Este ativismo culminou mais tarde na criação da Nuclear Threat Initiative (NTI), que trabalha para reduzir os riscos de armas de destruição maciça.
Ele encarava a Guerra Fria não apenas como uma luta política, mas como uma ameaça existencial para o planeta. Ao defender o desarmamento nuclear e ao fomentar a compreensão mútua através do desporto e dos media, ajudou a criar a atmosfera psicológica necessária para que o conflito terminasse sem que um único tiro fosse disparado entre as duas superpotências. O seu legado permanece como um testemunho da ideia de que a segurança global é melhor alcançada através do diálogo e da humanidade partilhada.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Adiado o Doutoramento Honoris Causa de Rosa Mota


A cerimónia de atribuição do Doutoramento Honoris Causa da Universidade do Porto a Rosa Mota, que estava agendada para dia 19 de fevereiro, foi adiada para “data a anunciar oportunamente” por decisão da homenageada, na sequência do “difícil e doloroso contexto que o nosso País atravessa na sequência das recentes tempestades”.

“Vivemos um momento que exige a mobilização plena de todas as instituições públicas e privadas, bem como dos seus representantes, num esforço de todos no auxílio às populações afetadas. (…) Não me sentiria bem, que uma iniciativa que me envolve, por muito honrosa e simbólica que seja, pudesse de alguma forma desfocar ou desviar atenções daquilo que é hoje verdadeiramente urgente”, lê-se no comunicado assinado pela atleta.

Na mesma nota, Rota Mota agradece “profundamente à Universidade do Porto, e em particular à Faculdade de Desporto, a compreensão, a sensibilidade e a solidariedade demonstradas, bem como a enorme honra que me foi concedida”.

O comunicado termina referindo que “a cerimónia será realizada em data a anunciar oportunamente, quando o País reunir condições para, com serenidade, podermos celebrar tão importante momento”.

Recorde-se que a atribuição do Doutoramento Honoris Causa à primeira campeã olímpica portuguesa estava prevista para as 11h00 da próxima quinta-feira, dia 19 de fevereiro. A decorrer na Faculdade de Desporto da U.Porto (FADEUP), a cerimónia contaria com a participação do Presidente da República de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, e do Presidente da República de Timor-Leste, José Ramos-Horta, na qualidade de padrinho de Rosa Mota.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Crise climática faz com que estâncias de esqui tenham de repensar modelo de negócio

Uma das pistas que acolherá os Jogos Olímpicos de inverno em Cortina d'Ampezzo 

A poucas semanas da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de inverno em Milão-Cortina, prevista para 6 de fevereiro, as pistas da "pérola das Dolomitas" estão cobertas de neve. No entanto, o manto branco típico dos invernos de montanha nem sempre acompanha os turistas e os esquiadores.

Actualmente, é habitual contentarmo-nos com a presença de neve limitada às encostas. E, cada vez mais frequentemente, mesmo nas pistas, é garantida pela produção artificial de neve, o que impõe um aumento dos custos económicos e ambientais, com repercussões também nos preços dos passes de esqui. Assim, o esqui está a tornar-se um desporto reservado apenas àqueles que podem pagar preços incomportáveis para a maioria dos europeus.

A maior parte das estâncias que acolheram os Jogos Olímpicos de inverno deixarão de o poder fazer
Mesmo na famosa estância de esqui da província de Belluno, as alterações climáticas estão a tornar a queda de neve mais rara e as temperaturas mais elevadas. Um problema que afeta todo o arco alpino. O próprio COI, o Comité Olímpico Internacional, reconheceu o impacto do aquecimento global, causado principalmente pela queima de carvão, petróleo e gás.

Inevitavelmente, a própria geografia dos Jogos Olímpicos será afectada. Desde 1924, vinte e um locais acolheram os Jogos de inverno. Um estudo publicado na revista científica Taylor & Francis - realizado por investigadores da Universidade de Waterloo, no Canadá - explica que, se não forem tomadas medidas rápidas e drásticas para combater as alterações climáticas, apenas quatro desses locais continuarão a ser adequados em meados do século.

São elas Lake Placid (Estados Unidos), Lillehammer e Oslo (Noruega) e Sapporo (Japão). Para todos os outros, entre o calor e a falta de neve, será simplesmente impossível voltar a acolher os cinco anéis olímpicos, se a temperatura média global aumentar 4 graus Celsius em relação aos níveis pré-industriais. E, em 2080, apenas a estância de esqui japonesa o poderá fazer.

E não é só isso: mesmo que o Acordo de Paris seja respeitado, ou seja, limitando o aquecimento global a um máximo de 2 graus Celsius, apenas nove locais "olímpicos" poderiam voltar a acolher o evento desportivo em 2050 (apenas oito em 2080).

Itália, França, Suíça, Áustria: quanto vale a economia dos desportos de inverno na região alpina
No entanto, os Jogos só se realizam de quatro em quatro anos e durante apenas algumas semanas. No entanto, para quem vive da economia do esqui, os problemas são uma realidade quotidiana.

Os Alpes são o centro nevrálgico do turismo de inverno europeu. Segundo o Plano de Ação da UE para a região alpina, nela vivem 80 milhões de pessoas (cerca de 15% da população total da UE). E abrange 48 regiões em cinco Estados-Membros (Alemanha, França, Itália, Áustria e Eslovénia), bem como dois países terceiros (Liechtenstein e Suíça). A região alberga também um dos recursos hídricos mais importantes da Europa e uma biodiversidade inestimável.

O Instituto de Investigação Demoskopica prevê um total de cerca de 30 milhões de chegadas do estrangeiro e mais de 93 milhões de presenças nas estâncias de esqui em Itália para a época de 2025-2026, de acordo com a associação profissional Assosport.

A mesma análise indica uma despesa turística direta de quase 15 mil milhões de euros.

Em França, os números são semelhantes, com cerca de 10 mil milhões de euros de volume de negócios, que incluem os teleféricos, o alojamento, a restauração e o aluguer de equipamentos. O setor assegura igualmente (direta e indiretamente) mais de 120 mil postos de trabalho.

Também em solo transalpino, nas estâncias de esqui, uma média de 75% do volume de negócios dos hoteleiros está ligada aos desportos de inverno. Esta percentagem aumenta para 85% no caso das lojas de desporto e para 95% no caso dos teleféricos.

Da mesma forma, na Áustria, estima-se que o turismo de inverno gere um volume de negócios de 12,6 mil milhões de euros, empregando 250 mil pessoas, ou seja, 7,6% do emprego total a nível nacional. Também na Suíça, estima-se que o setor represente uma parte não negligenciável da economia do desporto, que na confederação suíça representa um valor total de cerca de 17 mil milhões de francos suíços (18,3 mil milhões de euros).

Quais são os países europeus com mais estâncias de esqui e mais esquiadores?
No que respeita às estâncias de esqui, de acordo com os dados publicados pelo portal Statista, a Alemanha é o país europeu que acolhe mais estâncias de esqui. São 498, contra 349 em Itália e 317 em França. Completam o top 10 a Áustria (253 áreas de esqui), a Suécia (228), a Noruega (213), a Suíça (181), a Finlândia (76), a Eslovénia (44) e a Espanha (32).

Em termos de quilómetros de pistas para o esqui alpino, é Sestriere, na província de Turim, que detém o recorde, com um total de 400 quilómetros. Em segundo lugar estão duas estâncias suíças: Zermatt, com 360 quilómetros, e St. Moritz, com 350 quilómetros.

Alemanha tem o maior número de esquiadores, seguida da França e da Itália
A Alemanha detém outro recorde: o do número de pessoas a esquiar. De acordo com os dados atualizados para a época de inverno de 2020/2021, trata-se de uns impressionantes 14,6 milhões de pessoas. Este número é significativamente superior aos 8,5 milhões da França, aos 7,2 milhões da Itália e aos 6,3 milhões do Reino Unido.

No entanto, os números mudam significativamente se olharmos para os números em função da população: é o Liechtenstein que tem a percentagem mais elevada, com 36%, seguido da Suíça, com 35%. Em terceiro lugar está a Áustria, com 34%, à frente de alguns países escandinavos. Seguem-se França (13%), Itália (12%), Bélgica (11%), Reino Unido (10%), Espanha (5%) e Portugal (apenas 2%).

Áustria é o maior exportador de equipamento desportivo
Outro dado que dá uma ideia clara do peso da indústria do turismo de inverno é a exportação de equipamento desportivo. Os últimos dados disponíveis são relativos a 2019 e mostram que a Áustria é claramente o país que mais exporta, com 334 milhões de euros. França situa-se nos 100 milhões, Alemanha nos 91 milhões e a Itália nos 54 milhões.

É por isso que os impactos das alterações climáticas serão particularmente pesados para a economia. Um estudo publicado em 2023 na revista científica Nature Climate Change explica que, de um total de 2 234 estâncias de esqui existentes na Europa, 53% não poderão contar com neve suficiente, mesmo com um aquecimento climático de apenas 2 graus Celsius. Em particular, um terço das estâncias de esqui dos Alpes franceses estará condenado, enquanto nos Pirinéus essa percentagem atingirá os 89%.

Se a temperatura média global aumentar 4 graus em relação aos níveis pré-industriais, quase todas as estâncias europeias não poderão contar com uma quantidade suficiente de neve: 98%.

Alterações climáticas afectarão os ecossistemas e as economias das montanhas
"Há uma variabilidade de região para região, mas podemos identificar três grandes categorias de maciços montanhosos na Europa ", diz François Hugues, investigador do Inrae (Instituto Nacional Francês para a Agricultura, Alimentação e Ambiente), à Euronews. "Um grupo que tem altitudes e condições bastante favoráveis, estamos a falar, por exemplo, dos Alpes interiores, principalmente em França, Suíça e Áustria".

"Um segundo grupo", continua o especialista, "inclui situações intermédias, que são muito mais vulneráveis às condições climáticas, como é o caso dos Alpes eslovenos ou dos Pirinéus. Por fim, há territórios que a crise climática já levou ao limite: as montanhas da Península Ibérica ou os Apeninos em Itália. Se o segundo grupo ainda tem alguma margem de manobra, para o segundo, sujeito a escolhas locais destinadas a apoiar certas zonas, é difícil prever retornos económicos positivos continuando a apostar nos desportos de inverno."

Em muitas estâncias, já estão a ser feitas tentativas para atenuar o problema com neve artificial. No entanto, já em 2007, um estudo da OCDE tinha salientado a chamada "regra dos cem dias", ou seja, a ideia de que uma zona deve poder contar com cem dias por ano de abertura, com pelo menos 30 centímetros de neve natural. Caso contrário, é difícil obter a rentabilidade esperada.
Neve artificial, apenas uma solução parcial e não isenta de custos económicos e ambientais

A neve disparada por canhões pode, portanto, ser um apoio, mas não um substituto e o preço deve ser tido em conta: "Para fazer neve numa encosta com um quilómetro de comprimento, cerca de 50 metros de largura e 40 centímetros de espessura, o custo varia entre 30 e 40 mil euros", explica a agência Agi.

Segundo a qual, "o custo de produção da neve artificial varia de 2 a 3,8 euros por metro cúbico, dependendo da temperatura e da humidade do ar. Com estes valores, a produção é de 2,5 metros de neve por metro cúbico de água. O custo da neve por hectare é de 15 mil euros".

"Os custos associados à produção de neve (artificial ) propriamente dita são, de qualquer modo, relativamente marginais em relação aos custos globais de exploração de uma estância de esqui", salienta Hugues. "Mas há também um fator ambiental a ter em conta, que está ligado aos recursos hídricos e à sua disponibilidade. De facto, é muitas vezes necessário criar lagos artificiais para poder dispor da água necessária, e estas obras representam um custo não negligenciável. Em geral, portanto, mesmo para as estâncias menos afetadas pelas alterações climáticas, é necessário repensar os modelos de negócio e adaptá-los às consequências do aquecimento global".

Neve artificial - uma enorme pegada hídrica 
A World Wide Fund for Nature (WWF) sublinhou precisamente o impacto em termos de recursos hídricos da neve disparada por canhões: "para a produção básica de neve (cerca de 30 centímetros de neve, muitas vezes mais) de uma pista de um hectare, são necessários pelo menos um milhão de litros de água, ou seja, mil metros cúbicos. Enquanto a produção de neve subsequente exige, consoante as situações, um consumo de água consideravelmente superior, que corresponde aproximadamente ao consumo anual de uma cidade de 1,5 milhões de habitantes."

É por esta razão quea União Europeia, na revisão do seu plano de ação para a região alpina, contido numa comunicação de 11 de dezembro de 2025, sublinhou que, face à pressão da crise climática, "a gestão comum e bem coordenada dos cursos de água transfronteiriços é essencial para assegurar a proteção integrada, a melhoria e a recuperação dos recursos hídricos e dos seus ecossistemas, e é fundamental para a resiliência e a segurança da água na Europa."

A eletricidade é necessária para fazer funcionar os canhões e as lanças, o que leva a um aumento do consumo e consequentes emissões de gases com efeito de estufa. Contribuindo assim para o círculo vicioso que alimenta a crise climática. De facto, calculou-se no passado que, para nevar artificialmente todo o arco alpino, seriam necessários cerca de 600 GWh, o que equivale ao consumo anual de 130 mil agregados familiares de quatro pessoas.

Custos dos passes de esqui estão a aumentar na Europa: +34,8% em dez anos
As despesas de esqui na Europa aumentaram em média 34,8%, muito acima da inflação, desde 2015, com os maiores aumentos na Suíça, Áustria e Itália. De tal forma que muitas das principais estâncias tornaram-se inacessíveis para a maioria dos turistas.

"O esqui vai tornar-se um desporto para os ricos ", explica Christophe Clivaz, professor da Universidade de Lausanne, ao Valori.it. Na verdade, "já o é, mas vai sê-lo cada vez mais, porque os custos de manutenção das pistas vão aumentar. Sem contar que para esquiar é preciso comprar ou alugar esquis e botas. E depois casacos, calças, luvas, óculos de proteção. Já hoje, num país como a Suíça, uma grande parte da população não tem meios para esquiar, sobretudo as famílias numerosas."

Segundo a associação de defesa do consumidor Assoutenti, um passe diário de esqui para o "Dolomiti Superski", que garante o acesso às doze estâncias das Dolomitas, custa atualmente 86 euros por dia, contra 67 euros em 2021.

Em Roccaraso, Abruzzo, em Itália, o preço de um bilhete semelhante atinge os 60 euros. O mesmo bilhete em 2021 custava 47 euros e no ano passado 58 euros. Em Livigno, na fronteira com a Suíça, registou-se o maior aumento: de 52 euros em 2021 para 72 euros em 2025 (mais 38%).

Os operadores das estâncias de esqui alpinas onde continuará a ser possível esquiar, conclui Hugues, "atrairão turistas ricos de mais longe, clientes provenientes, por exemplo, do Reino Unido, mas também de Espanha ou da Grécia, países onde será cada vez mais difícil esquiar. Isto pode ser positivo do ponto de vista económico, mas vai complicar as coisas do ponto de vista ambiental e climático, uma vez que irá aumentar as emissões de gases com efeito de estufa associadas às viagens turísticas, alimentando ainda mais as alterações climáticas."

Para visualizar os gráficos da Statista aqui

sábado, 3 de agosto de 2024

Jogos Olímpicos Paris 2024– mapa de destruição ecológica e social


A expulsão de pessoas consideradas indesejáveis, a betonização de zonas naturais, o aumento da poluição rodoviária e atmosférica: os Jogos Olímpicos estão a virar a paisagem ecológica e social de pernas para o ar. Por trás do conto de fadas desportivo, os Jogos Olímpicos são sinónimo de destruição social e ecológica. Do lado da limpeza social, os "indesejáveis" - sem-abrigo, migrantes, habitantes de bairros populares – mais de 12.000 foram desalojados para construir novos bairros.

Os Jogos são também um desastre ecológico: 1,58 milhões de toneladas de CO2 serão libertadas para a atmosfera pelos viajantes de todo o mundo. Os organizadores tinham inicialmente prometido uma competição com uma ‘contribuição positiva para o clima’, antes de anunciarem um objetivo mais realista de reduzir para metade as emissões de gases com efeito de estufa geradas pelo evento, em comparação com a média de Londres 2012 e Rio 2016.

1 - DESTRUIÇÃO DE ÁREAS NATURAIS
Loteamentos de Aubervilliers (Seine-Saint-Denis) - Quase 4.000 m2 de parcelas de Aubervilliers foram destruídos para construir o solário da futura piscina olímpica da cidade. No entanto, alguns dias mais tarde, o tribunal anulou o plano urbanístico, tornando a obra ilegal.
O centro aquático de Taverny - Uma nova piscina olímpica 37% mais do que o orçamento inicial.
Centro náutico de Vaires-sur-Marne (Seine-et-Marne) foi escolhido para acolher as provas de canoagem, caiaque e remo. Para o efeito, os organizadores instalaram um carril de 2000 m de comprimento na margem norte. O objetivo: permitir que as câmaras móveis sigam os barcos. Os trabalhos destruíram as canas que cresciam ao longo da margem.
No Taiti, foram destruídos corais para o evento de surf.

2 - ÁREAS TRANSFORMADAS PARA OS JOGOS OLÍMPICOS
O nó da autoestrada Carrefour Pleyel em Saint Denis - As crianças da escola Anatole France não ouvem o canto dos pássaros à hora do recreio, mas ouvem os automóveis. Foi construído um nó rodoviário mesmo ao lado da sua escola. Objetivo: melhorar as ligações entre a aldeia olímpica e os diferentes locais de competição.
Estádio de râguebi Pablo Neruda, Saint-Ouen - Crianças privadas de um recinto desportivo. O seu estádio Pablo Neruda, na rue Marcel Cachin, em Saint-Ouen, foi requisitado para ser utilizado como parque de estacionamento. Este parque permitirá estacionar os automóveis dos parceiros do Comité Organizador Paris 2024.
A aldeia dos media em Dugny - Antigamente, era um parque onde se realizava anualmente a Fête de l'Humanité. Atualmente, a zona de Vents, em Dugny, está ocupada por edifícios que albergam a aldeia dos media.
A aldeia dos atletas - Abrange uma área de 52 hectares, o equivalente a 70 campos de futebol, em três municípios: Saint-Denis, Saint-Ouen e l'Île-Saint-Denis. Para a sua construção, foram destruídas três escolas, dezanove empresas, um hotel e duas casas.

3 - DESTRUIÇÃO SOCIAL
Exploração de trabalhadores sem documentos - Os trabalhadores da construção civil trabalharam incansavelmente em condições difíceis. Registaram-se 87 acidentes de trabalho em estaleiros relacionados com os JO, sendo 40% das vítimas trabalhadores temporários.
Em Marselha, o mar é privatizado - Mais de 50 milhões de euros foi o orçamento atribuído pela cidade de Marselha para renovar o centro náutico Roucas-Blanc. A segunda maior cidade de França, onde quase uma em cada duas crianças não sabe nadar, tem uma grave carência de piscinas municipais. Além disso, durante as competições, o acesso do público a certas praias será limitado, nomeadamente as praias do Prado e de Roucas.
Vigilância vídeo algorítmica - Pela primeira vez, um sistema algorítmico de videovigilância é utilizado durante eventos desportivos. Esta tecnologia identifica as situações consideradas ‘anómalas’. La Quadrature du Net considera que se trata de ‘uma verdadeira mudança na dimensão da vigilância e da industrialização do tratamento das imagens para aumentar o número de notificações e interrogatórios, guiados por esta inteligência artificial’.
Expulsões em massa - Durante 2023-2024, o Observatório dos Despejos de Locais de Vida Informais registou 138 despejos de locais de vida informais, incluindo 64 bairros de lata, 34 cidades de tendas (exclusivamente em Paris e Aubervilliers), 33 ocupas e 7 locais para viajantes. Em abril de 2023, a antiga fábrica Unibéton foi evacuada pela polícia, expulsando cerca de 400 exilados. O albergue Adef para trabalhadores estrangeiros em Saint-Ouen também foi evacuado em março de 2021, para dar lugar aos novos edifícios da Aldeia Olímpica. No bairro de Marcel-Paul, em Île-Saint-Denis, cerca de 300 famílias foram obrigadas a sair o mais rapidamente possível sendo-lhes oferecidos apartamentos que não respeitavam as regras de realojamento. Muitos dos cerca de 56.000 sem-abrigo alojados em hotéis privados foram deixados ao abandono. Na véspera dos Jogos, muitos estabelecimentos decidiram rasgar os seus contratos com o Estado, preferindo alojar turistas.

Fonte: Reporterre.

No seu livro Paris 2024 - Une ville face à la violence olympique (publicado pela editora Divergences, 2024), Jade Lindgaard (jornalista do Mediapart que vive em Seine-Saint-Denis) dá voz aos chamados "indesejáveis" que foram desalojados para construir as infra-estruturas de acolhimento dos desportistas. Relata a desapropriação sofrida pelos habitantes de um dos departamentos mais pobres de França, em benefício de promotores imobiliários.

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Tokyo Olympics Medals Were Made With Tons of Recycled Smartphones, Laptops Donated by the Public

                                    

As the athletes take the podium and, with a slight bow, have their medals placed around their necks, they will be happy to have landed in the top three. For the people behind the Tokyo Medal Project, they'll be happy that those Olympic medals are there in the first place.

The project recycled old electronic gadgets such as smartphones and laptops to produce the Olympic Medals that are being awarded at the Tokyo Games.

For the people of Japan, the project offered a unique opportunity to be a part of the Games.

"The campaign called on the public to donate obsolete electronic devices for the project," Toyko 2020 spokesperson Hitomi Kamizawa told DW. "We are grateful for everyone's cooperation."

The project capitalized on the fact that billions worth of precious metals such as gold and silver, which are used in electronic devices, get discarded each year globally thanks to people simply dumping or burning their gadgets instead of ensuring they are properly collected and recycled.
A Recycling Supply Chain

There was a two-year national effort in Japan to collect enough recycled material to produce about 5,000 bronze, silver, and gold medals for the 2020 Tokyo Olympics. Up to 90% of Japanese cities, towns, and villages participated by setting up donation pick-up sites where hundreds of thousands of Japanese citizens donated their old electronic devices.

The recycling campaign produced 70 pounds (32 kilograms) of gold, 7,700 pounds of silver and 4,850 pounds of bronze. All from nearly 80 tons of small electrical devices such as old phones and laptops, said Kamizawa.

Although recycling efforts like these often seem straightforward, the medal project had to engage the national government, thousands of municipalities, companies, schools and other local communities.

One of the primary companies involved was Renet Japan Group whose business philosophy revolves around sustainability.

"We developed a waste management movement for the medal project with the cooperation of many stakeholders, from the Japanese government to local communities," Toshio Kamakura, director of Renet Japan Group, told DW.

When the project was launched in April 2017, there were just about 600 municipalities on board. By the end of the project in March 2019, that figure had risen to more than 1,600. There was a major public relations campaign, and collection points were set up to make it easier for the people to contribute, Kamakura said.

Collecting the used devices was just the first step. Following a process of dismantling, extracting and refining by contractors, the recycled material was then molded into Junichi Kawnishi's design concept — a design that beat out 400 other entries in a competition held by Tokyo 2020.

The Bigger Picture

While the Japanese will be the first to have all of the Olympic medals made out of recycled material, the concept is not new. In the Rio 2016 Olympic Games, 30% of the sterling silver to make the gold and silver medals were obtained from recycled materials such as car parts and mirror surfaces.

Looking ahead to the Paris Games in 2024, where social change and enhancing the environment are among the main themes, there are hopes that the Tokyo 2020 Medal Project will set a precedent.

When it comes to the environmental aspect Kamakura thinks it is necessary to continue in order to build a more sustainable material society.

A record 53.6 million tons (Mt), or 7.3 kilograms per person of electronic waste — equivalent to 350 cruise ships the size of the Queen Mary 2 — was produced globally in 2019, making it the world's fastest-growing domestic waste stream, according to the United Nations. E-waste has surged by more than a fifth in the past five years amid growing demand for electronic gadgets, mostly with short life cycles and few options for repair.

Less than a fifth of the scrap ends up being properly collected and recycled, posing serious environmental and health risks.

Reposted with permission from DW.

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quinta-feira, 24 de julho de 2008

Não assista aos Jogos Olímpicos de Pequim

Compre o CD a favor da libertação do povo Tibetano e associe-se à campanha mundial: Candle4Tibet
Entre 8 a 24 de Agosto. Sei que é pedir muito. Tibete e os Tibetanos lembram outros povos que não têm Paz e onde a Paz não flui a sua energia positiva e fraterna: China, Birmânia, Angola, Sudão, Nigéria, Irão, Afeganistão, África do Sul, etc...
Somos uma grande família global. Demos as Nossas Mãos pela Paz!
TEXTOS e RELATÓRIOS

1. Por uma China mais verde (relatório da Greenpeace Julho 2008 pdf)
2. RTP vai transmitir 500 horas de Jogos Olímpicos
Diário Económico,05 de Maio de 2008

3. Sitaraman, Srini, Explaining China's Continued Resistance Towards Human Rights Norms: A Historical Legal Analysis,Program in Arms Control, Disarmament, and International Security, University of Illinois, Junho de 2008.
4.
China jails rights activist outspoken on Tibet
5. Racial Discrimination in Tibet (2000) Tibetan Centre for Human Rights and Democracy
6.
Olympic Watch: Human Rights in China and Beijing 2008


quarta-feira, 18 de junho de 2008

Abaixo o futebol competitivo


Partilho o mesmo pensamento e visão do meu amigo Viriato. Abaixo o Euro 2008 e a paranóia do futebol competitivo é um manifesto e também é um acto de cidadania por um Portugal mais ecossolidário. Certamente também há portugueses fartos....por mais lavagem verde que recentemente as fábricas de futebol façam...
E quanto a um esforço por mostrar penalizações dos futebolistas e clubes entre pares....ainda estamos muito longe da justiça social....
Por Portugal?
Só penalizam a função pública, penalizam os juízes, penalizam os ambientalistas, penalizam os polícias....ah...mas quando toca a penalizar a máquina do futebol...atenção...mil cuidados....
Por Portugal?
oh sobreiros e carvalhos de Portugal, oh lobos do Gerês, oh gravuras do Foz Côa, oh litoral de Portugal...porque não sois respeitados, amados e compreendidos???
Pela Europa?
Pelo Mundo?
Pelo Desporto e ao ar livre? Desporto para todos e com todos?
Pela Paz?????
O desporto ( mais a sua indústria) ensina-nos a ser competitivos!
A educação dos jogos cooperativos habitua-nos, ao invés, a ser solidários e fraternos.
Por Viriato, Pimenta Negra, 15 de Junho de 2008

A ideologia desportiva pretende vender-nos, à socapa, e à custa de uma falsa ideia de neutralidade da actividade desportiva, os valores caros às sociedades capitalistas: uma concorrência feroz entre as equipas e os jogadores, o elitismo dos melhores, o nacionalismo, o culto da perfomance, a passividade do espectador-cidadão e as perversões alienantes da sociedade do espectáculo, etc.

Acresce a isso, nos últimos anos, a subtil montagem e manipulação das emoções das pessoas, a que já nos vamos habituando a assistir periodicamente, quando aquelas são convidadas ( e autorizadas, bem entendido) a berrar, buzinar, e a cometerem os desvarios do costume, enfim, a emocionar-se por motivos, que são, no geral, muito bem programados, e que, de imediato, são vendidos às massas com objectivos inconfessáveis, mas onde o lucro está sempre presente, regra geral, associado alarvemente a operações de manipulação, com a vantagem suplementar de, ao contrário dos carnavais de outros tempos, não existirem em tais excessos as habituais críticas ao poder estabelecido.

Com os espectáculos desportivos como o que nos entram pelos olhos (e cérebros) dentro, o que se pretende é então alimentar a ilusão de um mundo em que cada equipa (de cada nação, ou de cada cidade) tem as mesmas oportunidades de ganhar (de vitória) como as demais, quando se sabe perfeitamente que assim não é, até porque as melhores equipas se constroem com investimentos milionários, só possíveis a quem for titular do real poder do capital.

Uma operação mental deste calibre permite alimentar junto dos mais desprevenidos a ideia ilusória de que, por exemplo, as nações colonizadas podem vencer as equipas das super-potências colonizadoras, ou de que - o que vai dar ao mesmo - os pobres só podem subir na escala social se tiverem talento suficiente para alcançarem o nível social dos ricos, por mais estúpidos e broncos que estes sejam.

A nossa bolsa de valores é o oposto a tudo isso. Queremos um mundo em que não haja necessidade de derrotar, e muito menos, de esmagar, quem quer que seja, para nos sentirmos bem. Queremos um mundo onde o gosto de jogar derive do prazer da partilha e do «estar em comum» e jamais da vitória ( e esmagamento ou massacre) sobre o outro.

Também rejeitamos a identificação às bandeiras de um qualquer Estado nacional, do mesmo modo que julgamos desprezíveis as manifestações ruidosas de rua dos adeptos fanatizados em glória aos vencedores.

Os campeonatos do mundo e da Europa do futebol, junto aos Jogos Olímpicos, são bem exemplos ilustrativos de todos esses valores que sub-repticiamente nos querem impingir, com a falsa ideia da neutralidade do desporto, devidamente embrulhada numa não menos falsa ética aplicada à competição feroz entre os jogadores-adversários em contenda.

A ideologia desportiva é, com efeito, tanto mais forte e insidiosa quanto mais invisível e discreta ela se mostrar…

Sejamos solidários uns com os outros.

Não alinhemos com a ideologia dominante da concorrência e da competição social (mesmo, dentro do desporto) das sociedades capitalistas.

Não à manipulação e à lavagem cerebral que nos transformam em agentes (…, isto é, em agenciados pelo poder) inconscientes da competição concorrencial do mercado

Por uma educação cooperativa e solidária entre todos os seres vivos.