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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A próxima crise financeira global? O alerta do FMI sobre a dívida e as lições de 2008

Vamos deixar isto escrito agora, porque depois da próxima crise não faltarão especialistas a explicar, com a segurança que só o passado permite, por que razão ninguém poderia tê-la previsto: há sinais cada vez mais sérios de que a próxima grande crise financeira está a formar-se. Não sabemos quando chega, nem onde começa, e quem apresentar uma data está provavelmente a vender previsões ao quilo. Mas há uma diferença entre adivinhar e olhar para aquilo que está diante de nós. E aquilo que está diante de nós começa a ficar pouco recomendável.

A dívida pública mundial chegou a quase 94% do PIB em 2025 e o FMI prevê no Fiscal Monitor que atinja 100% já em 2029. O problema, porém, não é apenas haver muita dívida. Os Estados vivem há décadas a refinanciá-la: quando uma obrigação vence, emitem outra e seguem caminho. Durante os anos de juros próximos de zero, este mecanismo era extraordinariamente confortável. Agora deixou de ser. Em 2026, grande parte do dinheiro que os governos da OCDE vão buscar aos mercados destina-se simplesmente a refinanciar dívida já existente, como detalha a OCDE no seu Sovereign Borrowing Outlook. E estão a fazê-lo a taxas muito superiores às que pagavam quando boa parte dessa dívida foi emitida. É aqui que a brincadeira muda de natureza.

Nos Estados Unidos, a taxa das obrigações a 10 anos ultrapassou recentemente os 4,75% e a de 30 anos chegou aos 5,327%, o nível mais elevado desde 2007, segundo dados de mercado recolhidos pela U.S. Department of the Treasury. No Reino Unido, a dívida a dez anos chegou este ano aos 5,13%, máximo desde 2008. No Japão, onde durante uma geração praticamente se esqueceu que a dívida pública pagava juros, a taxa a dez anos ultrapassou os 3% pela primeira vez desde 1996, conforme registado pelo
Bank of Japan. Alemanha e França também estão a assistir a fortes subidas das taxas de longo prazo. Não estamos a falar da Grécia em 2011 ou de um qualquer país periférico a quem os mercados resolveram fechar a torneira. Estamos a falar dos mercados de dívida das maiores economias do mundo.

E isto interessa muito mais do que parece. Se um Estado tinha 100 mil milhões de euros de dívida financiada a 1% e passa progressivamente a refinanciá-la a 4% ou 5%, não precisa de pedir mais dinheiro para começar a ter um problema. Basta substituir dívida barata por dívida cara. A factura dos juros cresce, ocupa uma parcela maior das receitas e começa a disputar dinheiro com tudo o resto: saúde, educação, pensões, investimento público. É nesta altura que regressam palavras como “consolidação”, “ajustamento” e “responsabilidade”, geralmente pronunciadas por pessoas que nunca são objecto de nenhuma das três.

E há uma parte essencial desta equação que torna tudo isto bastante menos confortável: estas montanhas de dívida não estão a ser suportadas por economias a crescer 4% ou 5% ao ano. Estão a ser carregadas por algumas das maiores economias do mundo com crescimentos débeis ou praticamente estagnadas. O
Banco Mundial prevê no Global Economic Prospects apenas 2,5% de crescimento mundial em 2026. Na zona euro, o FMI aponta no World Economic Outlook para apenas 0,9%. Isto não é um pormenor: uma economia que cresce depressa consegue suportar uma dívida elevada com muito mais facilidade porque as receitas, os rendimentos e a própria base económica que sustenta essa dívida também crescem. Quando a economia quase não cresce e o Estado começa simultaneamente a refinanciar dívida a 4% ou 5%, o custo da dívida pode crescer muito mais depressa do que a economia que terá de a pagar. A partir daí, as soluções começam a ser aquelas velhas conhecidas que costumam aparecer com nomes tecnicamente tranquilizadores: mais impostos, menos despesa, inflação ou mais dívida.

E o mercado não está a pedir apenas dinheiro aos Estados. Governos e empresas deverão emitir este ano o equivalente a cerca de 25 biliões de euros em dívida. Ao mesmo tempo, a corrida à inteligência artificial está a exigir quantidades colossais de capital e algumas das maiores empresas tecnológicas começaram a financiar parte desse investimento através da emissão de obrigações. Há, portanto, cada vez mais dívida a disputar o mesmo dinheiro, justamente numa altura em que os investidores começaram a exigir melhor remuneração para o emprestar. A OCDE calcula que a dívida soberana em obrigações dos seus membros já atingiu o equivalente a cerca de 53 biliões de euros e que o peso da dívida dos governos centrais deverá chegar este ano a 85% do PIB, 39 pontos percentuais acima do nível de 2007.

Do outro lado temos mercados financeiros extraordinariamente valorizados. O estudo Global Balance Sheet, do McKinsey Global Institute, mostra que a riqueza das famílias aumentou o equivalente a cerca de 35 biliões de euros em 2025, atingindo aproximadamente 492 biliões de euros, mas apenas cerca de 20% desse aumento resultou de novo investimento líquido em activos reais. A maior parte veio da valorização dos activos e de outros ganhos financeiros. Não quer dizer que a riqueza seja imaginária. Quer dizer que uma parte enorme dela depende de casas, acções e outros activos continuarem a valer aquilo que os mercados decidiram que valem.

Mas há uma diferença importante em relação a 2008. Depois daquela crise, os bancos foram obrigados a reforçar capital, liquidez e financiamento mais estável. O risco, porém, não desapareceu por delicadeza. Uma parte considerável mudou simplesmente de sítio. Fundos de investimento, hedge funds, crédito privado e outros intermediários financeiros não bancários representam hoje o equivalente a cerca de 222 biliões de euros, 51% de todos os activos financeiros mundiais, e este sector cresceu ao dobro do ritmo da banca tradicional. O próprio Financial Stability Board (FSB) reconhece no seu Global Monitoring Report limitações sérias nos dados disponíveis sobre áreas como o crédito privado. E isto não significa que bancos e restante sistema financeiro vivam agora em apartamentos separados e tenham deixado de se falar. Pelo contrário. Os bancos financiam estes fundos, concedem-lhes linhas de crédito, fazem operações de repo, negoceiam derivados, fornecem alavancagem e serviços de margem e recebem deles financiamento. O Banco Central Europeu (BCE) no Financial Stability Review e o Comité de Basileia têm vindo precisamente a alertar para estas ligações e para a possibilidade de um choque nos mercados obrigar fundos alavancados a desfazer posições rapidamente, provocando vendas forçadas e transmitindo novamente as perdas à banca. O próprio BCE admite que existem falhas de informação que limitam a capacidade de perceber todas estas exposições.

É esta combinação que merece atenção: Estados muito mais endividados do que estavam antes de 2008, dívida antiga a ser refinanciada a juros bastante mais altos, necessidades recorde de financiamento, mercados financeiros muito valorizados e um sistema financeiro não bancário gigantesco, alavancado, profundamente ligado à banca e em partes importantes bastante menos transparente.

Separadamente, nenhuma destas coisas provoca necessariamente uma crise. O problema começa quando acontecem ao mesmo tempo e aparece um choque que obriga alguém a vender. Foi assim que funcionaram muitas das anteriores. Primeiro existe liquidez, crédito e valorização. Depois os preços sobem durante tempo suficiente para que a subida passe a ser considerada normal. A seguir vem a alavancagem, porque ganhar dinheiro com dinheiro emprestado parece uma ideia extraordinária enquanto os activos sobem. Finalmente aparece qualquer coisa que ninguém tinha colocado no modelo, os preços caem, alguém precisa de liquidez, começam as vendas forçadas e descobre-se que o sistema era muito mais interligado do que parecia.

Há ainda uma razão adicional para levar a próxima crise particularmente a sério. Em 2008, quando o sistema financeiro começou a cair, foram os Estados que apareceram para o segurar. Garantiram bancos, injectaram capital, aumentaram despesa, assumiram riscos privados e deixaram os bancos centrais baixar os juros para níveis próximos de zero. Na próxima grande crise, muitos desses Estados entrarão em campo já carregados com dívidas muito superiores às de 2008 e a pagar bastante mais para as financiar. A capacidade de salvar novamente o sistema sem apresentar depois a factura à economia real será, por isso, bastante menos confortável. O Banco de Pagamentos Internacionais (BIS) analisa no seu Annual Economic Report precisamente este paradoxo: os bancos estão hoje mais capitalizados e líquidos do que antes da grande crise financeira, mas as ligações entretanto criadas com o sector não bancário abriram novos canais indirectos através dos quais o risco soberano e financeiro pode regressar aos bancos. Em algumas economias, as exposições dos bancos à própria dívida soberana continuam também enormes relativamente ao seu capital.

É por isso que há razões para recear que a próxima grande crise possa ser mais difícil de conter do que a de 2008. Não apenas porque existe mais dívida, mas porque o sistema que terá de absorver o choque é maior, mais interligado e tem uma parcela muito superior dos seus activos fora da banca tradicional. Os fundos de investimento, por exemplo, passaram do equivalente a cerca de 18 biliões de euros em activos em 2008 para aproximadamente 45 biliões de euros em 2023. Mudámos algumas regras depois da última crise, reforçámos os bancos e deslocámos uma quantidade considerável de risco para outros lugares. O risco teve a gentileza de acompanhar a mudança.

Há anos que vamos escrevendo sobre isto. Não porque saibamos prever o futuro, mas porque ainda nos lembramos do passado. E se há uma coisa que a História financeira ensina é que as crises nunca parecem iminentes enquanto os mercados estão a subir. Quando finalmente parecem óbvias, já começaram.

Países europeus têm retirado ouro dos Estados Unidos. A Alemanha, que detém a segunda maior reserva de ouro do mundo, concluiu uma grande repatriação parcial em 2017 (tendo trazido ouro de Nova Iorque e Paris para Frankfurt), mas ainda mantém cerca de 37% (mais de 1.200 toneladas) nos cofres da Reserva Federal em Nova Iorque.  Embora existam debates políticos e apelos de economistas para retirar o restante devido a tensões transatlânticas e imprevisibilidade política, o governo alemão não avançou com uma retirada total recente.

A França concluiu a repatriação total das suas reservas que ainda estavam guardadas no estrangeiro. O banco central francês (Banque de France) finalizou a substituição e transferência das últimas 129 toneladas de ouro que mantinha nos cofres da Reserva Federal de Nova Iorque. Com este movimento estratégico de arbitragem e conformidade regulatória, a totalidade das cerca de 2437 toneladas de ouro que compõem o tesouro soberano francês encontra-se agora centralizada a cem metros de profundidade, no cofre subterrâneo conhecido como La Souterraine, localizado na sede do banco em Paris. A evolução histórica detalhada e os contornos políticos destas movimentações podem ser consultados no artigo sobre a Repatriação de Ouro na Wikipédia

Por sua vez, a Itália adota um modelo de custódia mista e mantém o seu stock intocável há décadas, resistindo a pressões de venda mesmo em períodos de crise. O país possui a terceira maior reserva mundial, com cerca de 2452 toneladas de ouro. Deste total, aproximadamente metade (cerca de 1100 toneladas) está guardada localmente nos cofres fortificados do Palazzo Koch, a sede institucional do Banca d'Italia em Roma. A outra metade da reserva italiana permanece dispersa no estrangeiro por razões logísticas e de liquidez de mercado, dividida maioritariamente entre a Reserva Federal de Nova Iorque, o Banco de Inglaterra em Londres e o próprio Bundesbank em Frankfurt. Mais pormenores sobre o enquadramento económico destas reservas estão disponíveis nas estatísticas atualizadas de mercado da Trading Economics

Finalmente, Portugal destaca-se internacionalmente pela elevada proporção de ouro face ao total das suas reservas financeiras globais. O país detém 383 toneladas de ouro e posiciona-se no topo dos países com maior quantidade de metal precioso por habitante. A gestão da custódia do ouro português pelo Banco de Portugal assenta historicamente numa forte componente externa para facilitar operações financeiras internacionais, embora uma parte relevante continue salvaguardada em território nacional, dividida entre os cofres da sede em Lisboa e o cofre-forte do Complexo do Carregado.

No dia 2 deste mês os Países Baixos transferiram 86 toneladas de ouro dos EUA e Canadá para o Reino Unido

Por isso deixamos o aviso agora. As dívidas são maiores, os custos de financiamento estão a aumentar, os mercados estão extraordinariamente valorizados e uma parte crescente do risco financeiro encontra-se em estruturas sobre as quais os próprios reguladores reconhecem não possuir toda a informação necessária. Não sabemos qual será o detonador nem quando alguém acenderá o fósforo. Mas já existe combustível suficiente para que não seja particularmente sensato discutir se há perigo de incêndio.

Mas não se preocupem demasiado. Enquanto isto se passa, haverá certamente um dérbi, uma polémica nas redes sociais, a final de um reality show ou qualquer assunto suficientemente importante para ocupar três dias de televisão.

Quando chegar a factura, então falamos de economia. Considerem-se avisados.
Baseado no texto de Rise Up Portugal, com alguns ajustes.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Brad Kunkle

Brad Kunkle -"Apotheosis" (2023)

Nascido em 1978 na Pensilvânia, Estados Unidos, Brad Kunkle é um dos nomes mais singulares da pintura contemporânea atual. Formado em Belas Artes pela Kutztown University em 2001, o artista consolidou uma carreira que equilibra o rigor técnico da tradição clássica com uma estética mística e surrealista, fortemente marcada pela fusão entre a figura humana e elementos da natureza.

Kunkle é profundamente influenciado pelos Pré-Rafaelitas e pelo artista Maxfield Parrish, além da estética das fotografias antigas (daguerreótipos).

O grande diferencial da sua obra reside na técnica magistral de aplicação de folhas de ouro e prata. Kunkle utiliza esses metais preciosos não apenas como ornamento, mas como um elemento dinâmico: as superfícies metálicas reagem à luz do ambiente e à posição do espectador, conferindo à pintura uma vida própria que se transforma conforme a iluminação. Esta abordagem foi inspirada tanto pelo seu passado como pintor decorativo quanto pela observação de ícones religiosos e obras clássicas no Museu do Louvre.

Estilisticamente, o seu trabalho é frequentemente associado ao Simbolismo, apresentando mulheres em estados de transe ou profunda conexão com o mundo natural — muitas vezes rodeadas por folhas secas, pássaros ou névoas densas. Para contrastar com o brilho opulento do ouro, Kunkle utiliza frequentemente a técnica de grisaille, pintando a pele e as vestes em tons de cinza ou paletas muito limitadas e suaves. O resultado é uma atmosfera onírica e atemporal, que convida o público a uma reflexão sobre a intuição e a beleza do invisível.

Curiosidade
O impacto da sua obra é tal que o seu trabalho foi incluído no Lunar Codex, uma cápsula do tempo digital enviada à Lua em parceria com a NASA, garantindo que a sua arte perdure para além da Terra.

sábado, 14 de dezembro de 2024

África

África. É bom lembrar como era a realidade ainda não há muito tempo. Hoje por outros meios, o processo de esbulho das suas riquezas e populações procura perpetuar a mesma realidade.
Em 1913, a 20 de outubro, a Inglaterra fez um acordo com a Alemanha para eles ficarem com Angola e Moçambique. Se os alemães não tivessem cheios de vontade de começar uma guerra com a Rússia antes de esta se tornar demasiado forte para eles, esse mapa seria muito diferente.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Robert Pereira Hind


Robert Pereira Hind é um artista visual e fotógrafo britânico, nascido em 1965 na cidade de Bolton, Inglaterra. Com uma sólida formação acadêmica, obteve seu bacharelado e mestrado em Fotografia pelo prestigiado London College of Communication nos anos 90. Após uma carreira de mais de duas décadas consolidada no setor comercial e editorial — onde trabalhou como fotógrafo de cena para grandes produções de cinema e televisão — ele redirecionou seu foco criativo para as belas-artes, estabelecendo seu estúdio em Edimburgo, na Escócia.

Sua obra é definida por uma fusão técnica e estética entre a fotografia contemporânea e métodos ancestrais de douração. O tema central de seu trabalho é a elevação de elementos da natureza, especialmente árvores e espécimes botânicos, ao status de ícones sagrados. Inspirado pela iconografia bizantina, pelo barroco italiano e por figuras religiosas douradas do Oriente, Hind isola silhuetas naturais de seu contexto original e as sobrepõe a fundos de folha de ouro de 24 quilates ou folhas de metal tratadas.

Este processo resulta em peças que transcendem a fotografia convencional, tornando-se objetos tridimensionais que interagem dinamicamente com a luz do ambiente. Um ponto fundamental de sua filosofia artística é a aceitação da imperfeição e da passagem do tempo; ao finalizar as suas obras com vernizes orgânicos como o shellac, ele permite que o metal oxide e mude de tonalidade ao longo das décadas. Assim, a obra de Robert Pereira Hind não é estática, mas um organismo visual que envelhece e ganha pátina, celebrando a beleza da natureza sob uma perspectiva atemporal e quase mística.

terça-feira, 22 de agosto de 2023

Hoje escolhi cores mais metalizadas


O planeta terra vive ainda muito do garimpo ilegal de cobalto, ouro, diamantes, lítio, terras raras e uma economia necro-fóssil. Em vez de uma vontade real dos lobistas em descarbonizar a sua indústria, incentivam a lavagem verde de neutralidade carbónica. Assim estamos. 

quinta-feira, 17 de agosto de 2023

Em 2022, intensificação da violência contra povos indígenas refletiu ciclo de violações sistemáticas e ataques a direitos


Relatório anual do Cimi retrata violência contra povos indígenas e apresenta balanço do governo Bolsonaro, marcado por violações e desmonte dos órgãos de proteção e assistência

O ano de 2022 representou o fim de um ciclo governamental marcado por violações e pela intensificação da violência contra os povos indígenas no Brasil. Como nos três anos anteriores, os conflitos e a grande quantidade de invasões e danos aos territórios indígenas avançaram lado a lado com o desmonte das políticas públicas voltadas aos povos originários, como a assistência em saúde e educação, e com o desmantelamento dos órgãos responsáveis pela fiscalização e pela proteção destes territórios. Esta é a realidade retratada pelo relatório Violência Contra os Povos Indígenas do Brasil – dados de 2022, publicação anual do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

Este cenário desolador ficou evidenciado por eventos que causaram grande comoção e tiveram repercussão nacional e internacional, como os assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips, mortos em junho na região da Terra Indígena (TI) Vale do Javari, no Amazonas, por pessoas vinculadas à rede criminosa que articula as invasões ao território; e as invasões garimpeiras ao território Yanomami, que, sob o olhar conivente do Estado, geraram enormes danos ambientais e uma crise sanitária sem precedentes.

O brutal contexto, revelado por meio de relatos e imagens impactantes divulgadas ao longo do ano, reflete-se nas informações reunidas neste relatório e nos alarmantes dados referentes à desassistência na área de saúde, à mortalidade na infância, aos assassinatos e às violências ligadas ao patrimônio indígena. Em todas estas categorias, Roraima e Amazonas, onde se localiza a TI Yanomami, estiveram entre os estados com maior número de registros.

O ano de 2022 também encerrou um ciclo de quatro anos no qual nenhuma terra indígena foi demarcada pelo governo federal. Sob Bolsonaro, o Poder Executivo não apenas ignorou a obrigação constitucional de demarcar e proteger as terras tradicionalmente ocupadas pelos povos originários como também atuou, na prática, para flexibilizar este direito, por meio de Projetos de Lei (PLs) e de medidas administrativas voltadas a liberar a exploração de terras indígenas.

A intensidade e a gravidade desses casos não podem ser compreendidas fora do contexto de desmonte da política indigenista e dos órgãos de proteção ambiental durante os quatro anos sob o governo de Jair Bolsonaro

Além dos discursos do próprio presidente da República, essa postura também ficou registrada no posicionamento recorrente de órgãos como a Advocacia-Geral da União (AGU) e a própria Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). A atuação desses órgãos em processos judiciais e administrativos foi quase sempre contrária aos direitos dos povos originários e favorável, especialmente, aos interesses econômicos do agronegócio e da mineração.

Em 2022, essa postura se refletiu no alto número de casos registrados nas categorias conflitos por direitos territoriais, com 158 registros, e invasões possessórias, exploração ilegal de recursos e danos ao patrimônio, com 309 casos que atingiram pelo menos 218 terras indígenas em 25 estados do país.

Em muitos estados, como Mato Grosso do Sul, Maranhão e Bahia, os conflitos e a total falta de proteção aos povos indígenas resultaram em assassinatos de indígenas, inclusive com o envolvimento de forças e agentes policiais atuando como “segurança privada” para fazendeiros. Na TI Comexatibá, no extremo sul da Bahia, Gustavo Silva da Conceição, garoto Pataxó de apenas 14 anos, foi brutalmente assassinado durante um dos vários ataques a tiros efetuados por grupos que os indígenas definem como “milicianos”.

No Mato Grosso do Sul, o assassinato de Alex Recarte Lopes, jovem Guarani Kaiowá de 18 anos, na Reserva Indígena Taquaperi, no município de Coronel Sapucaia, motivou uma série de retomadas de terra pelos indígenas, que foram duramente atacadas por fazendeiros e por operações policiais realizadas sem mandado judicial.

Uma dessas operações, ocorrida no Tekoha Guapoy, em Amambai (MS), resultou no assassinato do Guarani Kaiowá Vitor Fernandes, de 42 anos, e deixou várias pessoas feridas. Devido à brutalidade do ataque, os Kaiowá e Guarani passaram a se referir ao caso como “massacre de Guapoy”.

A intensidade e a gravidade desses casos não podem ser compreendidas fora do contexto de desmonte da política indigenista e dos órgãos de proteção ambiental a que o Estado esteve submetido durante os quatro anos sob o governo de Jair Bolsonaro. Por este motivo, a presente edição do relatório apresenta, também, um balanço das violências registradas ao longo deste período e uma atualização dos principais dados que ajudam a vislumbrar esta realidade.

O relatório com dados de 2022, assim, sistematizou também dados atualizados sobre assassinatos, suicídios e mortalidade na infância referentes a esse período de quatro anos. As informações foram obtidas junto a fontes públicas como a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), o Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) e secretarias estaduais de saúde.

A postura declarada e intencionalmente omissa do governo em relação à demarcação de terras indígenas redundou no aprofundamento de conflitos, em muitos casos com ameaças, ataques armados e assassinatos de lideranças indígenas


Devastação causada pelo garimpo na TI Yanomami. Registro feito em dezembro de 2022, durante sobrevoo realizado pelo Greenpeace. Foto: Valentina Ricardo

Violência contra o Patrimônio
As “Violências contra o Patrimônio” dos povos indígenas, apresentadas no primeiro capítulo do relatório, são divididas em três categorias: omissão e morosidade na regularização de terras, na qual foram registrados 867 casos; conflitos relativos a direitos territoriais, com 158 registros; e invasões possessórias, exploração ilegal de recursos naturais e danos diversos ao patrimônio, categoria que teve o sétimo aumento sucessivo no número de casos, com 309 registros.

Somados, estes registros totalizam 1.334 casos de violência contra o patrimônio dos povos indígenas em 2022. Entre os principais tipos de danos ao patrimônio indígena registrados no referido ano, destacam-se os casos de extração de recursos naturais como madeira, garimpo, caça e pesca ilegais e invasões possessórias ligadas à grilagem de terras.

A maioria das 1.391 terras e demandas territoriais indígenas existentes no Brasil (62%) possui alguma pendência administrativa para sua regularização, como aponta o levantamento do Cimi, atualizado anualmente. Dentre as 867 terras indígenas com pendências, pelo menos 588 não tiveram nenhuma providência do Estado para sua demarcação e ainda aguardam a constituição de Grupos Técnicos (GTs) pela Funai, responsável por proceder com a identificação e delimitação destas áreas.

Os poucos GTs abertos ou recriados em 2022 só foram constituídos por determinação judicial em ações movidas pelo Ministério Público Federal (MPF) – e nenhum deles concluiu seus trabalhos.

A postura declarada e intencionalmente omissa do governo Bolsonaro em relação à demarcação de terras indígenas redundou no aprofundamento de conflitos por direitos territoriais, em muitos casos com situações de ameaças, ataques armados e assassinatos de lideranças indígenas.

Três estados concentraram quase dois terços (65%) dos 795 homicídios de indígenas registrados entre 2019 e 2022: foram 208 em Roraima, 163 no Amazonas e 146 no Mato Grosso do Sul.


Enterro do Guarani Kaiowá Vitor Fernandes, morto no “massacre do Guapoy”. Foto: povo Guarani e Kaiowá

Violência contra a Pessoa
O segundo capítulo do relatório reúne os casos de “Violência contra a Pessoa”. Nesta seção, foram registrados os seguintes dados: abuso de poder (29); ameaça de morte (27); ameaças várias (60); assassinatos (180); homicídio culposo (17); lesões corporais dolosas (17); racismo e discriminação étnico-cultural (38); tentativa de assassinato (28); e violência sexual (20).

Os registros totalizam 416 casos de violência contra pessoas indígenas em 2022. Tomados em conjunto, os quatro anos sob o governo de Jair Bolsonaro apresentaram uma média de 373,8 casos de Violência contra a Pessoa por ano – nos quatro anos anteriores, sob os governos de Michel Temer e Dilma Rousseff, a média foi de 242,5 casos anuais.

Em 2022, assim como nos três anos anteriores, os estados que registraram o maior número de assassinatos de indígenas foram Roraima (41), Mato Grosso do Sul (38) e Amazonas (30), segundo dados da Sesai, do SIM e de secretarias estaduais de saúde. Esses três estados concentraram quase dois terços (65%) dos 795 homicídios de indígenas registrados entre 2019 e 2022: foram 208 em Roraima, 163 no Amazonas e 146 no Mato Grosso do Sul.

Dentre estes casos, destacam-se os assassinatos de lideranças Guarani e Kaiowá como Marcio Moreira e Vitorino Sanches, nos meses seguintes ao caso conhecido como “massacre do Guapoy”, que vitimou o Kaiowá Vitor Fernandes; e o assassinato de três Guajajara da TI Arariboia – Janildo Oliveira, Jael Carlos Miranda e Antônio Cafeteiro – mortos em setembro de 2022, no espaço de tempo de apenas duas semanas.

Também foi registrada uma grande quantidade de casos de ameaças e tentativas de assassinatos contra indígenas. Elas foram praticadas, em geral, por fazendeiros, garimpeiros, madeireiros, pescadores e caçadores.

O elevado número de casos de abuso de poder também foi uma constante durante os quatro anos do governo Bolsonaro: foram 89 casos no total, uma média de 22,2 casos por ano – mais de duas vezes maior do que a dos quatro anos anteriores, sob os governos de Dilma e Temer, quando foram registrados, em média, 8,7 casos por ano. Estas categorias refletem o ambiente de degradação institucional e desmonte dos mecanismos de proteção aos povos originários no período.

O fato de que parte da estrutura de saúde da TI Yanomami foi apropriada por garimpeiros, em regiões isoladas e de difícil acesso, indica que a realidade certamente é ainda mais grave do que os dados oficiais reconhecem.


Acampamento Terra Livre 2022. Foto: Hellen Loures/Cimi

Violência por Omissão do Poder Público
Os casos de “Violência por Omissão do Poder Público” são sistematizados no terceiro capítulo do relatório, organizado em sete categorias. Com base na Lei de Acesso à Informação (LAI), o Cimi obteve da Sesai informações parciais sobre as mortes de crianças indígenas de 0 a 4 anos de idade. Os dados fornecidos pela Secretaria revelam a ocorrência de 835 mortes de crianças indígenas desta faixa etária em 2022. A maioria das mortes foi registrada no Amazonas (233), em Roraima (128) e em Mato Grosso (133).

Em todo o Brasil, a Sesai registrou um total de 3.552 óbitos nesta faixa etária entre 2019 e 2022. Considerado o período de quatro anos, os mesmos três estados concentraram a maioria dos óbitos: foram, no total, 1.014 mortes de crianças menores de cinco anos no Amazonas, 607 em Roraima e 487 em Mato Grosso, segundo dados atualizados obtidos junto à Sesai.

O DSEI Yanomami e Ye’kwana (DSEI-YY), que cobre a TI Yanomami e estende-se entre os estados de Roraima e Amazonas, registrou 621 mortes de crianças de 0 a 4 anos entre 2019 e 2022, concentrando 17,5% de todas as mortes de crianças indígenas nesta faixa etária. Segundo o DSEI-YY, a população na TI Yanomami é estimada em aproximadamente 30,5 mil pessoas – o que corresponde a apenas 4% do total de indígenas atendidos pela Sesai, como indicam as informações públicas da Secretaria. O fato de que parte da estrutura de saúde da TI foi apropriada por garimpeiros, em regiões isoladas e de difícil acesso, indica que a realidade certamente é ainda mais grave do que os dados oficiais reconhecem.

Informações de fontes públicas, obtidas junto ao SIM e a secretarias estaduais de saúde, indicaram a ocorrência de 115 suicídios de indígenas em 2022, a maioria nos estados do Amazonas (44), Mato Grosso do Sul (28) e Roraima (15). Mais de um terço das mortes por suicídio (39, equivalentes a 35%) ocorreu entre indígenas de até 19 anos de idade.

Entre 2019 e 2022, dados atualizados destas mesmas fontes totalizam 535 mortes de indígenas por suicídio. Neste período, os mesmos três estados registraram o maior número de casos: Amazonas (208), Mato Grosso do Sul (131) e Roraima (57) concentraram, juntos, 74% dos suicídios indígenas ao longo destes quatro anos.

Ainda neste capítulo, foram registrados os seguintes dados referentes ao ano de 2022: desassistência geral (72 casos); desassistência na área de educação (39); desassistência na área de saúde (87); disseminação de bebida alcóolica e outras drogas (5); e morte por desassistência à saúde (40), totalizando 243 casos.

Mesmo nos casos em que são reconhecidos pela Funai, muitos povos isolados passaram o ano de 2022 totalmente desprotegidos.


Manifestação de indígenas da TI Vale do Javari em Atalaia do Norte (AM), em junho, cobrando proteção contra as invasões ao território que possui a maior concentração de povos isolados do mundo. Foto: Antonio Scarpinetti/SEC/Unicamp

Povos isolados
Os povos indígenas em isolamento voluntário estão entre os grupos mais afetados pela política deliberada de omissão e desproteção adotada pelo governo Bolsonaro, que assumiu contornos ainda mais graves e evidentes no ano de 2022. Essa situação é abordada no quarto capítulo do relatório.

No ano, foram constatados casos de invasões e danos ao patrimônio em pelo menos 36 TIs onde existem 60 registros de povos indígenas isolados, de acordo com os dados da Equipe de Apoio aos Povos Livres (Eapil/Cimi).

A realidade é agravada pelo fato de que, dos 117 grupos de indígenas em isolamento voluntário registrados pelo Cimi, 86 não são reconhecidos pela Funai. Isso significa que esses povos são invisíveis para o Estado, assim como as possíveis situações de violência a que estão expostos, inclusive com o risco de que sejam vítimas de genocídio.

Mesmo nos casos em que são reconhecidos pela Funai, muitos povos isolados passaram o ano de 2022 totalmente desprotegidos. Foi o caso dos isolados do Mamoriá Grande – cuja presença no município de Lábrea (AM) foi confirmada pela Funai, mas não gerou nenhuma medida de proteção por parte do órgão indigenista – e dos isolados da TI Jacareúba/Katawixi, também no Amazonas, que passou o ano inteiro de 2022 sem nenhuma proteção, devido à decisão da Funai, sob gestão de Marcelo Xavier, de não renovar sua Portaria de Restrição de Uso.

Essas portarias são medidas voltadas especificamente à proteção dos territórios de povos em isolamento voluntário que ainda não tiveram seus processos de demarcação finalizados, para impedir que sejam invadidos. O governo Bolsonaro manteve, em 2022, a política de não renovar as portarias, ou de renová-las por períodos exíguos, de apenas seis meses. Esta prática funcionou como sinalização a invasores e grileiros de que aqueles territórios estariam disponíveis, em breve, para a exploração e apropriação privada. As amplas invasões às TIs Piripkura, em Mato Grosso, e Ituna/Itatá, no Pará, são exemplos deste contexto.

Essa política foi acompanhada pelo enfraquecimento contínuo das Bases de Proteção Etnoambiental da Funai (BAPEs), responsáveis pela fiscalização das terras habitadas por povos isolados, deixadas sem a capacidade operacional mínima para desempenhar o seu papel, como ficou evidente no caso das TIs Vale do Javari e Yanomami.


Manifestação em frente ao Ministério da Justiça, em setembro de 2022, cobrando justiça após uma série de assassinatos de indígenas naquele mês. Foto: Tiago Miotto/Cimi

Memória
O quinto capítulo do relatório, dedicado à reflexão sobre o tema da Memória e Justiça, traz uma das últimas produções do pesquisador Marcelo Zelic (1963-2023), falecido neste ano. Zelic dedicou a sua vida à preservação da memória, através do trabalho de documentação, e à luta pela criação de mecanismos de não repetição das violações de direitos humanos contra os povos indígenas.

Nos últimos anos, ele lutou pela criação de uma Comissão Nacional Indígena da Verdade (CNIV) para a apuração e reparação destas violações. Em seu texto inédito, que o Cimi publica como forma de homenagem, Zelic defende a proposta e delineia suas ideias acerca das atribuições, do funcionamento e da organização da Comissão.

Artigos
A presente edição do relatório também traz artigos que buscam aprofundar a reflexão acerca de alguns dos temas abordados na publicação. Um dos artigos propõe uma análise da grave situação no território Yanomami sob a ótica do genocídio, traçando um histórico das recentes omissões do Estado em relação às invasões garimpeiras e estabelecendo relação entre as graves violências e violações a que este povo foi submetido no presente e o massacre de Haximu, ocorrido em 1993, primeiro caso julgado como crime de genocídio no Brasil.

Outros dois textos abordam, ainda, a situação dos indígenas encarcerados no Brasil e a negação de seus direitos pelo Poder Judiciário; e o desmonte da política indigenista do governo Bolsonaro, analisada sob a perspectiva da execução orçamentária.


A plataforma Caci, mapa digital que reúne as informações sobre os assassinatos de indígenas no Brasil, foi atualizada com os dados do Relatório Violência contra os Povos Indígenas no Brasil – dados de 2022. Caci, sigla para Cartografia de Ataques Contra Indígenas, também significa “dor” em Guarani. Com a inclusão dos dados de 2022, a plataforma agora passa a abranger informações georreferenciadas sobre 1.382 assassinatos de indígenas, reunindo dados compilados desde 1985.

sexta-feira, 11 de agosto de 2023

O mercúrio dos garimpos está a matar os povos indígenas na Amazónia


Os garimpos ilegais de ouro na Amazónia contaminaram solos, rios e lençóis freáticos com mercúrio. O metal não radioativo, mas extremamente tóxico, está a matar lentamente os povos indígenas e a destruir ecossistemas. Nados-mortos, a proliferação de cancros e outras doenças em comunidades inteiras são os sinais mais claros da contaminação.

Foi nas margens do Rio Tapajós, na Amazónia brasileira, que a indígena Maria Munduruku completou, em maio, nove anos. Na aldeia, crianças como ela jogam bola, sobem em árvores, brincam com animais e correm pela floresta, mas Maria não: ela não anda, não fala e não consegue ganhar peso. Com malformações congénitas e problemas neurológicos, ela não consegue sequer frequentar a escola.

Maria é uma das dezenas de crianças Munduruku com malformações e atrasos no desenvolvimento, além de adultos que relatam tremores, fraqueza e perda de visão. Há vários anos que médicos e lideranças indígenas tentam explicar o problema que faz com que as aldeias habitadas pelo povo Munduruku, no estado do Pará, sejam as que mais solicitam cadeiras de rodas ao Ministério da Saúde do Brasil.

Maria e o seu pai vivem na bacia do Rio Tapajós, de ocupação tradicional do povo Munduruku. Esta é a região do Brasil que mais concentra garimpos ilegais de ouro e onde estão os municípios de Itaituba, Trairão e Jacareacanga, os campeões de garimpagem, de acordo com um relatório da MapBiomas, organização que mapeia ações humanas nos biomas brasileiros.

Apesar de o problema ser conhecido entre indígenas e autoridades públicas, não há na região programas de combate ao garimpo ilegal ou sequer de testagens para verificar a possível contaminação de pessoas por mercúrio. Um dos poucos estudos sobre o tema foi feito em 2020, pela organização não governamental WWF e pela Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz), ligada ao Ministério da Saúde do Brasil.

Os resultados foram aterradores: todos os 200 indígenas Munduruku testados, entre adultos e crianças, possuíam mercúrio no organismo - em média 60% deles com níveis acima do considerado seguro pela Organização Mundial da Saúde (OMS), de 10μg/L. Entre as 57 crianças testadas, nove apresentaram problemas nos testes de neurodesenvolvimento.

Cadeia de Contaminação
Pesquisas confirmaram que parte dos sedimentos vieram de garimpos de ouro ilegais e que viajaram centenas de quilómetros até alcançarem a vila, contaminando peixes, crustáceos, algas e todo o complexo ecossistema da Amazónia. Até as andorinhas azuis, espécie migratória na região, já apresentam mercúrio nas penas, segundo um estudo do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP).

E o problema não se restringe apenas às áreas onde ocorre a atividade garimpeira: o movimento dos enormes rios amazónicos espalha a substância por quilómetros, expondo à contaminação a população urbana da região.

Um estudo recente do Laboratório de Epidemiologia Molecular (LEpiMol), da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), testou a quantidade de mercúrio em 462 pessoas de comunidades ribeirinhas do Rio Tapajós, Rio Amazonas e da área urbana de Santarém. Ao todo, 75,6% estavam com níveis de mercúrio acima do limite considerado seguro.

Aumento da Violência
Pelo seu trabalho de combate ao garimpo e de defesa dos direitos indígenas, Alessandra Munduruku já teve a sua casa invadida e saqueada duas vezes. Em ambas foram roubados cartões de memória e documentos que comprovavam a extração de ouro na região. Hoje, ela só circula pelas cidades da região com segurança particular – afinal, os garimpos ilegais também deixam marcas brutais de violência.

Eles foram responsáveis por 90% das mortes por conflitos no campo brasileiro em 2021, de acordo com um Relatório de Conflitos no Campo de 2021, publicado pela Comissão Pastoral da Terra.

“As pessoas vivem em um ambiente de extrema tensão e sofrem com a presença de armas, drogas, com prostituição e de violência sexual contra mulheres e crianças das comunidades. Essa violência toda também impacta na saúde, nas relações sociais e no desenvolvimento das comunidades”, diz o médico Paulo Basta, da Fiocruz.

Política de combate? Zero
O ouro extraído ilegalmente da Amazónia brasileira é matéria-prima para equipamentos médicos, eletrónicos e jóias, que serão comercializados e até exportados para a Europa e Estados Unidos. Uma investigação do portal jornalístico Repórter Brasil comprovou que computadores e smartphones da Apple e da Microsoft, além de servidores do Google e da Amazon, eram compostos por filamentos de ouro extraídos, em parte, de garimpos ilegais da Amazônia.

E quem acompanha o problema reforça: a situação piorou durante o governo do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro (PL), que esteve no poder entre 2018 e 2022: em 2021 a área garimpada em Terras Indígenas demarcadas aumentou 625% em comparação com 2020, segundo a organização MapBiomas.

Além disso, Bolsonaro articulou uma política de avanço do garimpo e assinou oito decretos que facilitaram a atividade ilegal. O ex-presidente chegou a enviar ao Congresso Nacional o Projeto de Lei 191 de 2020, que previa legalizar a mineração em terras indígenas. A pauta foi suspensa pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no seu primeiro dia de mandato, mas cabe ao Congresso aboli-la em definitivo.

“No governo Bolsonaro, os donos de garimpos não tinham medo. Eles se articulavam com deputados, senadores, vereadores, e acabavam ganhando muita força. Nós víamos helicópteros chegando e grandes quantidades de combustível sendo transportadas, em plena luz do dia”, conta Alessandra Munduruku. “Com a mudança de governo, eles estão mais discretos, mas continuam explorando ouro em nossas terras.”

Saber mais:
Mercúrio contamina a natureza por tempo indeterminado" – DW – 16/02/2023

sexta-feira, 30 de junho de 2023

Oligarca russo na Suíça atingido por sanções dos EUA


Viktor Vekselberg (na foto), acionista maioritário da UC Rusal, a maior empresa de alumínio do país, perdeu mais de 60% de seus ativos desde o início da guerra, segundo o Visual Capitalist. Estima-se que o magnata teria deixado pelo caminho cerca de 11,3 biliões de dólares (em escala americana), desde o início da guerra na Ucrânia, que, curiosamente, é o território onde nasceu.

O iate chamado "Tango" de propriedade do bilionário russo Viktor Vekselberg, que foi sancionado pelos EUA em 11 de março de 2022, é visto no Palma de Mallorca Yacht Club, Mallorca, Espanha

Saber mais:

domingo, 7 de maio de 2023

Indígenas querem desculpas de Carlos III pelo genocídio e escravização


Organizações e líderes indígenas de 12 países da Commonwealth pediram ao rei Carlos III que peça desculpas pelo impacto da colonização britânica sobre os povos indígenas, que denunciam como genocídio, escravização e pilhagem.
"Apelamos ao monarca britânico, o rei Carlos III, no dia da sua coroação, 6 de maio de 2023, para que reconheça o terrível impacto e o legado do genocídio e da colonização dos povos indígenas e dos povos escravizados", afirmou, na rede social Facebook, o promotor da iniciativa, Nova Peris, antigo senador e copresidente do Movimento Republicano Australiano.

A petição insta o monarca a apresentar um pedido de desculpas formal, a reconhecer os atos de genocídio britânicos contra os povos indígenas e a repatriar os artefactos sagrados e os restos mortais dos povos indígenas que se encontram nos museus e instituições britânicos.

A carta, intitulada "Desculpas, reparações e repatriamento de artefactos e restos mortais", também recorda ao Rei Carlos III do Reino Unido as suas palavras numa reunião de chefes de governo da Commonwealth, em junho de 2022, no Ruanda, onde afirmou que era "tempo" de reconhecer os erros do passado.
Representantes de Antígua e Barbuda, Austrália, Bahamas, Belize, Canadá, Granada, Jamaica, Nova Zelândia, Papua Nova Guiné, São Cristóvão e Neves, Santa Lúcia e São Vicente e Granadinas - que têm Carlos III como chefe de Estado - assinam esta carta em que instam a Coroa a "redistribuir a riqueza" retirada aos povos originários.
Na carta pede-se a Carlos III que inicie "imediatamente" um diálogo sobre o "impacto duradouro da escravatura" dos povos indígenas durante a colonização britânica, bem como sobre outras questões como a reparação dos "povos oprimidos" cujos "recursos foram pilhados e a sua cultura denegrida".
Outra exigência é que o monarca renuncie à chamada "Doutrina dos Descobrimentos", como fez o Vaticano em março.
Esta doutrina, juntamente com o princípio da "Terra nullius" (terra de ninguém), gerou um conceito jurídico que protegia a colonização baseada no direito de requisitar as terras das populações indígenas.
Os signatários da carta a Carlos III consideram que o repúdio desta doutrina permitiria iniciar o processo de consulta e reparação entre os povos originários que foram vítimas de um genocídio em nome de Deus.
"Esperamos que esta petição dê início a um processo de justiça", sublinhou Nova Peris.

domingo, 9 de abril de 2023

Dinamite Pura: relatório traz análise do legado explosivo da política mineral do governo Bolsonaro


O Observatório da Mineração e o monitor socioambiental Sinal de Fumaça lançaram, no último dia 27de Março, o relatório “Dinamite pura: como a política mineral do governo Bolsonaro armou uma bomba climática e anti-indígena“, material que traz uma linha do tempo do setor mineral e detalha o desmanche de órgãos regulatórios, violações de direitos, acordos escandalosos e outras medidas adotadas pelo ex-governo para satisfazer o lobby do mercado de minérios no país e no mundo. A publicação resulta do trabalho das duas instituições que atuam no monitoramento da pauta mineral e da crise socioambiental brasileira.

“Nos últimos quatro anos, a cobertura dos veículos de comunicação apresentou as faces de um governo autoritário e ineficaz. Nossa análise, porém, mostra que a gestão Bolsonaro foi muito eficiente em facilitar o acesso a terras e minérios. A “boiada” também passou no setor mineral, ligada ao enfraquecimento do licenciamento socioambiental e ao descontrole no uso da terra, provocando a tragédia humanitária em curso nos territórios indígenas”, declara Rebeca Lerer, coordenadora do Sinal de Fumaça.

Num trabalho minucioso e investigativo, o Observatório da Mineração acompanhou de perto as articulações adotadas pelo governo Bolsonaro no âmbito nacional e internacional. A cúpula do governo bolsonarista promoveu mudanças legais e infralegais que beneficiaram grandes mineradoras, fizeram explodir as redes criminosas do garimpo ilegal e colocaram instituições como o Ministério de Minas e Energia e a Agência Nacional de Mineração totalmente subservientes a interesses escusos, como investigações mostraram.

Para Maurício Angelo, diretor do Observatório da Mineração e pesquisador do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília, pontos como as mudanças bruscas na legislação, a forte incidência do lobby de mineradoras e grupos empresariais do garimpo e a explosão de invasões em territórios indígenas sob a vista grossa do governo são alguns dos destaques do relatório.

A partir da cobertura feita pelo Observatório, o Dinamite Pura rememora fatos que ajudam a explicar como o país chegou a situações gravíssimas de influência corporativa, degradação ambiental e violações de direitos, e pontua como essa bomba climática e antiambiental não pode ser colocada somente na conta de Jair Bolsonaro. O ex-presidente engrossou e deu escala a medidas iniciadas na gestão de Michel Temer e as metas de aumento da participação do setor mineral no Produto Interno Bruto (PIB) dos atuais 3% para até 10%, como foi o objetivo expresso de Bolsonaro e Arthur Lira em articulação com parlamentares e órgãos da administração federal.

“O primeiro escalão do governo Bolsonaro estendeu um tapete vermelho para o lobby mineral em Brasília desde o início da gestão. As consequências para as populações atingidas direta e indiretamente e para o meio ambiente foram trágicas”, explica Maurício Angelo.

Nem o crime da Vale em Brumadinho, ocorrido em janeiro de 2019, provocando a morte de 270 trabalhadores e vítimas, foi suficiente para barrar o que já estava engatilhado, resultando em impunidade para os responsáveis e na abertura do país para o lobby e troca de interesses.

De 2018 a 2022, o governo Bolsonaro ainda estreitou alianças com o garimpo ilegal em um movimento inédito na política brasileira, engajando governadores e parlamentares e aceitando apoio — financeiro, até — de empresários do garimpo.

O Monitor Socioambiental Sinal de Fumaça, que registrou fatos e movimentos relacionados às políticas socioambientais brasileiras durante os últimos quatro anos, se juntou ao Observatório da Mineração e contribuiu com a edição e organização cronológica dos acontecimentos.

Além de expor as articulações sofisticadas feitas entre o lobby do mercado de mineração, empresas internacionais e o governo federal a portas fechadas no Congresso Nacional, a publicação traz ainda um resumo das primeiras medidas adotadas pelo governo Lula e uma listagem com 20 sugestões iniciais para a retomada da governança pública e a redução dos impactos da mineração no país.


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sábado, 11 de março de 2023

SVB: do vale para o abismo


Na sexta-feira, o banco californiano Silicon Valley Bank (SVB) tornou-se o maior banco a falir desde a crise financeira de 2008. Num súbito colapso que chocou os mercados financeiros, deixou encalhados milhares de milhões de dólares pertencentes a empresas e investidores.

O SVB recebeu depósitos e fez empréstimos a empresas no coração do sector tecnológico da América. A US Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC) está agora a atuar como consignatário. O FDIC é uma agência governamental independente que assegura os depósitos bancários e supervisiona as instituições financeiras, o que significa que liquidará os ativos do banco para reembolsar os seus clientes, incluindo depositantes e credores.

O que aconteceu ao SVB? E será isto um acontecimento isolado ou um sinal de que há mais desabamentos financeiros para vir? O desenvolvimento imediato foi o anúncio pelo SVB de que havia vendido com prejuízo um monte de títulos em que investira e que teria de vender US$2,25 mil milhões em novas ações para tentar reforçar o seu balanço. Isto disparou o pânico entre as principais empresas tecnológicas da Califórnia que mantinham o seu cash no SVB. Houve uma corrida clássica ao banco. Com uma velocidade relâmpago, o banco teve de impedir os depositantes de retirarem dinheiro. O preço das ações da empresa entrou em colapso, arrastando outros bancos para baixo com ele. A negociação de ações do SVB foi interrompida e a seguir o SVB abandonou esforços para angariar capital ou encontrar um comprador, o que levou o FDIC a assumir o controlo.

Apesar de pouco conhecido fora do Vale do Silício, o SVB estava entre os 20 maiores bancos comerciais americanos (o 16º maior), com 209 mil milhões de dólares em ativos totais no final do ano passado, de acordo com o FDIC. É o maior credor a falhar desde que o Washington Mutual entrou em colapso em 2008 durante o crash financeiro global. Assim, ao contrário de alguns relatos, o SVB não é um peixinho. Ele oferecia serviços a quase metade de todas as empresas de tecnologia e cuidados de saúde apoiadas por capital de risco nos EUA. O SVB detinha dinheiro para estes "capitalistas de risco" (aqueles que investem em novas empresas "em fase de arranque").

Mas também fez investimentos com os depósitos em dinheiro que obteve, concedendo por vezes empréstimos de risco pessoais a criadores de tecnologia, bem como às suas empresas. Mas os seus investimentos começaram a dar origem a perdas. A SVB apostara na compra de títulos do governo americano aparentemente seguros. Contudo, quando a Reserva Federal iniciou o seu ciclo de subida das taxas de juro para "controlar a inflação", o valor destes títulos do governo caiu drasticamente e o balanço do SVB começou a tomar água. Quando informou o mundo financeiro que estava a vender estes títulos com prejuízo para fazer face a retiradas de dinheiro por parte de clientes, a corrida ao banco ganhou proporções de inundação. Ao não conseguir obter financiamento adicional através da venda de ações, o SVB teve de declarar bancarrota e entrar em processo de concordata (receivership) junto ao FDIC.

Há quem tente afastar a ideia de que o colapso do SVB é um sinal do que está para vir. "O SVB era pequeno, com uma base de depósitos muito concentrada", disse o responsável da investigação europeia sobre ações da Amundi, Ciaran Callaghan. Não estava "preparado para saídas de depósitos, não tinha a liquidez disponível para cobrir resgates de depósitos e, consequentemente, foi um vendedor forçado de obrigações que impulsionava um aumento de capital e criou o contágio. Este é um caso muito isolado e idiossincrático".

Portanto, é um caso isolado. Mas será? O colapso da SVB deve-se a um acontecimento mais amplo, nomeadamente a subida agressiva das taxas de juro da Reserva Federal ao longo do ano passado. Quando as taxas de juro estavam perto de zero, bancos como o SVB carregaram-se com títulos do Tesouro a longo prazo, aparentemente de baixo risco. Mas como a Reserva Federal elevava as taxas de juro para "combater a inflação", o valor desses ativos caiu, deixando muitos bancos sentados sobre perdas não realizadas.

As taxas mais elevadas também atingiram o sector tecnológico de forma especialmente dura, subcotando o valor das ações tecnológicas e tornando difícil a angariação de fundos. Assim, empresas de tecnologia começaram a levantar os seus depósitos em dinheiro no SVB para satisfazerem as suas contas. Ed Moya, analista de mercado sénior da Oanda, comentou: "Toda a gente na Wall Street sabia que a campanha do Fed para a cobrança de taxas acabaria por quebrar algo e neste momento isso está a derrubar os bancos pequenos". O outro racha na parede bancária está nas criptodivisas. O cripto banco prestamista Silvergate também foi forçado a liquidar após o colapso do bitcoin e de preços de outras criptodivisas.

"Os desafios institucionais do SVB refletem uma questão sistémica maior e mais generalizada: a indústria bancária está sentada sobre uma tonelada de ativos de baixo rendimento que, graças a aumentos de taxas do ano passado, estão agora muito debaixo de água – e a afundarem", disse Konrad Alt, co-fundador do Grupo Klaros. Alt estimou que os aumentos das taxas "eliminaram efetivamente cerca de 28% de todo o capital da indústria bancária a partir do final de 2022".

O fracasso do SVB pode ser pontual, mas os crashes financeiros começam sempre com os mais fracos ou os mais imprudentes. Este é um banco que estava a ser esmagado pelas tesouras de uma queda iminente: queda dos lucros no sector tecnológico e queda dos preços dos ativos causada pela subida das taxas de juro. O SVB havia crescido para cerca de US$209 mil milhões em ativos com uma base de clientes concentrada entre empresas tecnológicas em fase de arranque, pelo que se revelou particularmente vulnerável ao impacto do rápido aumento das taxas de juro. Mas as perdas do SVB na venda de obrigações estão a repetir-se entre muitos outros bancos. O FDIC informou recentemente que os bancos norte-americanos estão sentados sobre US$620 mil milhões de perdas combinadas não realizadas nas suas carteiras de títulos.

Entretanto, após os últimos números relativos ao emprego terem continuado a mostrar um mercado de trabalho "apertado", a Reserva Federal parece estar determinada a continuar a aumentar as taxas de juro ainda mais depressa e mais alto do que os investidores financeiros esperavam. Dando testemunho ao Congresso dos EUA na semana passada, o presidente da Reserva Federal, Jay Powell, deixou claro que: "O emprego, os gastos dos consumidores, a produção manufatureira e a inflação inverteram parcialmente as tendências de abrandamento que tínhamos visto nos dados há apenas um mês atrás". E como Larry Summers, o guru keynesiano e ex-Secretário do Tesouro, afirmou: "Temos de estar preparados para continuar a fazer o que é necessário para conter a inflação". Possivelmente ao ponto de deitar abaixo partes do sector bancário e corporativo.

11/Março/2023

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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Maior fundo de hedge Bear lança frenesim épico de venda a descoberto, compra milhões em dezenas de memes e ações criptográficas

Jim Chanos

Em novembro de 2021 - literalmente no topo da bolha pós-cobiça - quando o bitcoin e o Russell atingiram máximas históricas e quando a euforia da injeção recorde de liquidez do banco central estava absolutamente em toda parte, o maior urso de fundos de hedge do mundo que estava vendido na última década e de alguma forma ganhou dinheiro, enquanto apostava constantemente contra a valorização contínua do risco, Russell Clark - anteriormente da Horseman Capital Management antes de mudar o nome de seu veículo de investimento para Russell Clark Capital, fechou seu fundo de hedge. O que se seguiu, naturalmente, foi um dos mercados de baixa mais brutais Numa geração que esmagou touros e recompensou ursos... ficou vago.

Até hoje, porque uma rápida olhada no último 13F de um dos permabears originais do mercado, Jim Chanos - que fez sua reputação vendendo a Enron e se envolvendo em vários nomes de bolhas de crédito antes de sofrer um período brutal de uma década de mercados em ascensão sem fim que drenou seu AUM, revelou que o gerente de fundos de hedge está fazendo um esforço sólido para recuperar a coroa do maior urso do mundo de fundos de hedge.

Por quê? Apresentando o Anexo A: as principais participações de Chanos em 31 de dezembro.
A tabela abaixo mostra que, das 60 posições, Chanos estava comprado em 11 nomes (ele não precisa divulgar seus shorts em dinheiro, e podemos apenas supor que são substancialmente mais do que seus longs), mas é notável que entre suas opções posições baseadas, cerca de 49 delas - ou a grande maioria de sua exposição publicamente revelada - foram colocadas, com apenas 5 ligações. Sim, Chanos estava vendido em praticamente tudo o que havia subido acentuadamente nos últimos dois anos... e com muita alavancagem. Também digno de nota: o fundo expandiu agressivamente suas apostas de baixa, depois de divulgar apenas 19 posições, incluindo um monte de ETFs, no trimestre de 30 de setembro de 2022.



Fonte: SEC
Aqui estão alguns destaques: Jim Chanos, conhecido por sua rivalidade de longa data contra a Tesla, aumentou sua aposta contra a fabricante de EV e, depois de manter opções de venda equivalentes a apenas 5.900 ações da Tesla no final de setembro, desde então aumentou para 131.000 ações equivalentes a 31 de dezembro, uma negociação que certamente foi lucrativa, já que a Tesla despencou em meio à perda de impostos no final do ano. A questão é se Chanos sacou suas opções de venda ou se manteve e viu seu valor evaporar quando o TSLA dobrou apenas no mês passado.

Chanos também fez grandes apostas contra uma série de ações de memes, empresas de criptografia, incluindo o nome mais vendido no mercado hoje, Silvergate (perfil ontem e que subiu 27% hoje) e nomes de alta tecnologia beta.

Entre os alvos mais recentes de Chanos estão a AMC Entertainment, um dos criadores de memes originais, e a Digital World Acquisition Company, a SPAC ligada à empresa de mídia social de Donald Trump, Truth Social. Chanos também mirou em cripto players, incluindo Block, Coinbase, Microstrategy, Silvergate e iniciantes em tecnologia, como DoorDash, Zoom, Wayfair e Lemonade.

A posição de baixa de Chanos não é novidade para ninguém: ele repetidamente atacou os níveis perigosos de hype em torno de muitas ações populares e criptomoedas que, nos últimos dois anos, explodiram mais alto, esmagando incontáveis ursos no processo. Num podcast recente da Bloomberg, ele descreveu o cenário do mercado como a "era pontocom com esteróides" e descartou a mania das criptomoedas como pura especulação e uma tentativa de ganhar dinheiro para as empresas envolvidas.

Se Chanos ainda é agressivamente baixo, esses nomes não estão claros, no entanto, lembramos aos leitores que em janeiro de 2021, foi o 13F de um certo Melvin Capital que levou milhões de redditors a organizar um short squeeze visando os maiores shorts de Gabe Plotkin, no processo dando nascimento do fenómeno meme stonk, incluindo nomes icónicos como GME e AMC. Isso também levou à liquidação prematura da Melvin, que teve que fechar depois de obter um resgate de ícones de fundos de hedge como Steve Cohen e Ken Griffin. O 13F ultra baixista de Chanos servirá como o gatilho do reddit deste ciclo, provocando outro aperto histórico, já que a mente coletiva dos macacos tem como alvo as opções de venda listadas acima? Esperamos descobrir em breve, apenas para avaliar quanto excesso de liquidez ainda está a circular no mercado.
Fonte: Zero Hedge

quinta-feira, 28 de julho de 2022

Investigação: a floresta de sangue dos mercenários de Putin

Uma empresa ligada ao Wagner Group começou a explorar uma floresta tropical na República Centro-Africana, em troca de apoio militar dado ao governo no combate aos rebeldes. Na Europa, incluindo em Portugal, as autoridades não têm como impedir a importação desta madeira exótica. Uma investigação do Expresso com o consórcio EIC e com a equipa All Eyes on Wagner do coletivo OpenFacto.
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Os diamantes costumavam ser os melhores amigos dos mercenários internacionais em África. São muito pequenos e fáceis de esconder. Podem passar despercebidos em voos de regresso à Europa. Em Angola era assim que russos e israelitas eram pagos pela ajuda dada ao governo de José Eduardo dos Santos para eliminar as forças rebeldes de Jonas Savimbi. Mas os tempos mudaram. Para o Wagner Group, um exército privado de Vladimir Putin que tem sido uma das organizações paramilitares mais prolíficas dos últimos anos no Médio Oriente e no continente africano, a flexibilidade, o pragmatismo e uma grande dose de despreocupação abriram caminho a outras formas de pagamento.

Para ler este artigo na íntegra clique aqui

Read about how the Central African Republic gave away its forest to the private military group Wagner. Because of the inefficiency of the timber controls in Europe, Wagner conflict timber cannot be stopped from reaching European clients, despite existing sanctions.

Timber for Mercenaries was conducted in collaboration with All Eyes on Wagner, a project by the French NGO OpenFacto. Read also about the methodology of doing such an investigation here.

domingo, 3 de julho de 2022

Nenhuma guerra tem a honestidade de confessar: eu mato para roubar.


As guerras sempre invocam motivos nobres, matam em nome da paz, em nome de Deus, em nome da civilização, em nome do progresso, em nome da democracia e se por via das dúvidas, se não bastassem tantas mentiras , existem os grandes meios de comunicação de massa dispostos a inventar inimigos imaginários para justificar a conversão do mundo em um grande hospício e um enorme matadouro.
Em Rei Lear, Shakespeare escreveu que neste mundo os loucos guiam os cegos e quatro séculos depois, os donos do mundo são loucos apaixonados pela morte que fizeram do mundo um lugar onde a cada minuto morrem de fome ou de doença curável 10 crianças e cada minuto são gastos 3 milhões de dólares, três milhões de dólares por minuto na indústria militar, que é uma fábrica de morte.
Armas requerem guerras e guerras requerem armas e os cinco países que administram as Nações Unidas, aqueles que têm direito de veto nas Nações Unidas também são os cinco principais produtores de armas.
Alguém se pergunta quanto tempo? Por quanto tempo a paz mundial estará nas mãos daqueles que se ocupam da guerra?
Por quanto tempo continuaremos acreditando que nascemos para o extermínio mútuo e que o extermínio mútuo é nosso destino?
Até quando?"

(Marcha pela paz e não-violência - outubro de 2009)

Ver site: Costs of War