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segunda-feira, 29 de junho de 2026

The New Division & Podsongs - Idols

Melhor som aqui

Letra
[verso1]
Prayers to fill the silence of the void
Notions of control have been destroyed
When enveloped and caressed
Doubt collapses under its duress

[Chorus 1]
It goes on and on and on and on, we go,
We start and stop, we speed and slow
Now we know we're all we ever had
We all worship idols good and bad 

[verso 2]
Preaching to the prophets in the crowd
Heretics and loyals all allowed
Every leader's worshipped like a God
Hanging on the words they offer us

[Chorus 2]
We go on and on and on and on, we go,
We offer up, we cast below
Do we know we're all we ever had?
When we worship our idols good and bad 

O conceito de "Idols" nasceu de uma forma muito curiosa. O Podsongs é um podcast gerido por Jack Stafford onde músicos entrevistam personalidades inspiradoras (filósofos, cientistas, ativistas) e criam uma música inédita baseada nessa conversa.

Para esta faixa, John Kunkel entrevistou o filósofo e teólogo norte-irlandês Peter Rollins. O debate girou em torno da ideologia moderna, do vazio existencial, das contradições humanas e do que Rollins chama de "a tirania da felicidade" (a cobrança social implícita para estarmos sempre bem).

O tema central aborda as contradições humanas, o vazio existencial e aquilo que Rollins designa como a "tirania da felicidade", questionando a tendência da nossa sociedade para transformar líderes, figuras públicas ou conceitos em ídolos, como se fossem divindades capazes de nos oferecer respostas definitivas. Através de uma letra que explora a futilidade da nossa procura por controlo e a constatação de que, no fundo, somos tudo o que temos, a música acaba por ser um manifesto filosófico disfarçado de tema para a pista de dança.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

LADANIVA - Here's to you Ararat


Amor por Arménia, símbolo de resistência e de um país, povo e cultura que sofreu imenso e dele tenho imensa admiração!
O vídeo é uma homenagem à montanha, um símbolo poderoso para o povo arménio. A letra (cantada em arménio) expressa um profundo amor e admiração pelo Ararat, chamando-lhe "Rei dos Arménios" e "alicerce das nossas almas".
Neste vídeo, destaco os melismas de Jaklin Baghdasaryan. São, aliás, a grande "assinatura" vocal dela e o que torna o som dos LADANIVA tão autêntico.

Aqui estão alguns pontos sobre a técnica dela:
  • Ornamentação arménia: Jaklin utiliza muitos elementos do canto tradicional arménio e do Médio Oriente. Esses melismas não são apenas "enfeites"; eles carregam a carga emocional da música. Ela consegue passar por várias notas numa única sílaba com uma precisão cirúrgica.
  • Agilidade e fluidez: o que impressiona na voz dela é a rapidez. Ela faz as transições entre notas (os chamados runs) de forma muito fluida, quase como se fosse um instrumento de sopro (como o duduk ou a flauta).
  • Controlo de sopro: para fazer melismas tão longos e detalhados sem perder a afinação, é preciso um controlo de diafragma muito forte, algo que ela claramente refinou durante a sua formação académica no jazz e na música do mundo.
  • Microtonalidade: em "Here's to you Ararat" nota-se que Jaklin  brinca com intervalos que nem sempre existem na escala ocidental padrão, o que dá aquele toque exótico e hipnotizante.
LADANIVA é um grupo franco-arménio sediado em Lille, França.
O nome da banda, "Ladaniva", é uma referência ao famoso carro todo-o-terreno russo Lada Niva, que os pais de ambos os músicos possuíam.
Jaklin Baghdasaryan: nasceu na Arménia (Yeghegnadzor) e cresceu na Bielorrússia antes de se mudar para França em 2014. Ela estudou no Conservatório de Lille, o que explica o seu excelente controlo técnico
Louis Thomas: o seu parceiro musical é francês.
Louis Thomas toca guitarra [00:46].
Os outros músicos são mostrados a tocar clarinete [00:27], um davul (tambor tradicional) [00:38] e um saz (instrumento de corda) [00:49].
Eu sabia que o Monte Ararat é visível da Arménia, mas agora faz parte da Turquia, e imagino como o povo arménio se deve sentir ao ver a sua montanha histórica apenas de longe.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Nikolai Gogol - sobre a corrupção de uma classe decadente que domina o povo ignorante e escravo do Estado


“Há momentos em que é impossível encaminhar a sociedade, ou mesmo uma geração inteira, para o belo sem revelar toda a profundidade da sua verdadeira abominação.”

Esta frase de Nikolai Gogol carrega o peso do realismo fantástico e da sátira social que definiram a sua obra. Gogol não era apenas um contador de histórias; era um observador clínico das falhas humanas. Para compreender o que ele pretende dizer, precisamos de olhar para a ideia de choque de realidade.

Em primeiro lugar, surge a necessidade do espelho cruel. Gogol sugere que a sociedade vive frequentemente num estado de negação ou hipocrisia e, para ele, falar sobre beleza, virtude ou progresso moral é inútil se os alicerces da sociedade estiverem podres. O conceito é simples: não se pode curar uma doença se o paciente se recusa a admitir que está doente. Assim, a acção da arte ou da história deve ser a de actuar como um espelho que não embeleza, revelando a abominação — as injustiças, a corrupção e a mediocridade — para que o horror da própria imagem force a mudança.

Esta abordagem liga-se à catarse pelo grotesco, estilo pelo qual Gogol é famoso. Em obras como O Inspector Geral ou Almas Mortas, o autor retrata burocratas corruptos e proprietários de terras absurdos, não apenas para fazer rir, mas para causar um desconforto profundo. Ele acredita que a beleza não pode florescer em solo contaminado por mentiras não reveladas e que a sociedade só se sentirá motivada a procurar a beleza e a ordem moral quando o peso do seu próprio vazio se tornar insuportável. É a ideia de que é preciso chegar ao fundo do poço para, finalmente, olhar para cima.

Desta forma, o papel do artista é o de um revelador. Para Gogol, o escritor não deve apenas entreter, mas sim realizar uma espécie de exorcismo social. Ele afirma que é impossível conduzir uma geração pela lógica ou pelo incentivo gentil porque as pessoas estão anestesiadas. O choque provocado pela revelação da profundidade da verdadeira abominação é o que possui a energia cinética necessária para retirar uma sociedade da sua inércia moral.

Em resumo, Gogol defende que a regeneração moral exige honestidade brutal. Ele acredita que a luz só será valorizada e procurada quando todos compreenderem plenamente a extensão das trevas em que estão mergulhados. É uma visão pessimista no diagnóstico, mas esperançosa no objectivo final: a transformação através da verdade.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

David Attenborough faz 100 anos: O maior aliado da Natureza ainda tem fé no Homem


Sir David Attenborough celebra esta sext-feira o 100.º aniversário e dispensa apresentações. A paixão e o entusiasmo com que deu a conhecer, ao longo das últimas sete décadas, o complexo e mágico mundo selvagem educou, entreteve e inspirou milhões de pessoas em todo o Mundo. Antes de alertar para questões ecológicas, ele ensinou-nos a amar cada espécie, mesmo as mais estranhas e perigosas.

David Frederick Attenborough nasceu a 8 de maio de 1926 em Isleworth, Londres, mas passou a infância em Leicester. Fascinado por fósseis, estudou Geologia e Zoologia. Em 1952 tornou-se estagiário na BBC e dois anos depois apresentava ‘Zoo Quest’ - apesar de acharem que os seus dentes eram “demasiado grandes” -, que combinava cenas de estúdio com imagens reais da vida selvagem, algo inédito até então. Imerso nos ambientes que visita, foi pioneiro em técnicas de filmagem e nunca hesitou em ultrapassar os limites para captar a essência dos 94 países que explorou, o que lhe permitiu viver experiências marcantes com alguns dos animais mais raros do planeta, como os gorilas da montanha no Ruanda. Na sua vida, apenas se arrepende de não ter sido um pai mais presente para Susan e Robert, frutos da sua relação com Jane Oriel, com quem casou em 1950. Esta viria a morrer em 1997, quando o britânico estava a filmar ‘The Life of Birds’, na Nova Zelândia. “Em momentos de luto - luto profundo - o único consolo que podemos encontrar é no mundo natural.”

Atualmente, Attenborough reduziu o ritmo das viagens, mas continua a trabalhar em estúdio: “No dia em que deixar de conseguir subir e descer as escadas é o dia em que paro.” O seu foco é agora na conservação do mundo natural: “É a maior fonte de tanta coisa na vida que a torna digna de ser vivida. Talvez um dia possa ser visto como alguém que documentou o início de uma nova relação entre a humanidade e a natureza.”

O centenário do naturalista é hoje assinalado com um evento no Royal Albert Hall, em Londres, e com o lançamento do documentário ‘Life on Earth: Attenborough’s Greatest Adventure’, da BBC.

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segunda-feira, 6 de abril de 2026

Cocteau Twins - Orange Appled, Ella Megalast Burls Forever and Snub

Every song is so unique and its own. I really want to cry to this song everytime I listen to "Orange Apple".Thank you CT for such beautiful music

 

Ao vivo, Michigan, 1990- Great Artists made great live performance & this is a Hi quality Sound recording. This Live version is more dynamic energetic & faster whit a smart complexity produced by the Voice & the Guitar

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Armando Alves (1935-2026), um dos criadores do design moderno em Portugal


Armando Alves, um dos integrantes do famoso Grupo Os Quatro Vintes, a partir do qual se dedicou a renovar e a modernizar o design gráfico português, morreu esta terça-feira no Porto, cidade onde fez praticamente toda a sua carreira, deixando um notável legado como docente e praticante das artes gráficas. A notícia foi avançada por Miguel Carvalhais, director da Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto (FBAUP), instituição onde Armando Alves se formou e onde leccionou durante anos.

Nascido em Estremoz, em 1935, Armando José Ruivo Alves iniciou a sua formação artística na Escola de Artes Decorativas António Arroio e prosseguiu estudos de Pintura na Escola Superior de Belas Artes do Porto (ESBAP), onde concluiu o curso em 1962 com a classificação máxima de vinte valores.

Após a licenciatura, integrou o corpo docente da ESBAP como Professor Assistente, sendo pioneiro na introdução do ensino das Artes Gráficas. Em 1963, foi um dos fundadores da Cooperativa Árvore, estrutura fundamental na promoção das artes plásticas em Portugal.

Bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, viajou por vários países europeus nos anos 60, iniciando então a sua atividade expositiva individual. Em 1968, juntamente com Ângelo de Sousa, José Rodrigues e Jorge Pinheiro, fundou o grupo Os Quatro Vintes, que expôs em cidades como Porto, Lisboa e Paris até ao final da década de 1970.

A partir de 1973, dedicou-se integralmente às Artes Gráficas, área em que se afirmou como pioneiro e referência nacional. No seu atelier, situado na Rua Brito Capelo, desenvolveu uma vasta produção que incluiu direção gráfica de obras literárias, cartazes culturais e publicitários, bem como materiais para eventos diversos.

Armando Alves esteve também ligado ao Lugar do Desenho - Fundação Júlio Resende, desde a sua criação em 1993, participando em exposições internacionais entre 1997 e 1999, nomeadamente no Brasil, Chile, Cabo Verde e Moçambique.

Enquanto ilustrador, artista gráfico, desenhador e pintor - com uma evolução do neorrealismo para o abstracionismo - desempenhou ainda funções como consultor artístico e curador. A sua obra integra coleções de várias instituições, como a Câmara Municipal de Matosinhos e o Museu Nacional Soares dos Reis.

Ao longo da sua carreira, foi distinguido com diversos prémios e reconhecimentos, destacando-se a condecoração com o grau de Grande Oficial da Ordem do Mérito, atribuída pelo então Presidente da República Aníbal Cavaco Silva, nas comemorações do 10 de Junho de 2006, realizadas na Alfândega do Porto.

segunda-feira, 30 de março de 2026

A infinita tristeza de Jason Molina

Melhor som aqui

Ainda há almas perdidas no vale da morte a aguardar por uma autópsia completa à psique. Com 39 anos, Jason Molina partiu demasiado tarde para encaixar no clube dos 27, cedo demais para ter vida além da decadência como Johnny Cash, e demasiado discreto para ter direito às placas Bowie, Cohen, Prince, Lou Reed ou Brian Wilson,. Operava sobre a mesma precariedade de meios e desarranjo emocional de Daniel Johnston, mas a catarse era revertida em maremotos intestinais, tímidos em excentricidade e teatralização. Faltava-lhe quase tudo, a começar pelo timbre angelical, para ser um ícone como Jeff Buckley, mas a biografia desgraçada e a morte afónica extraem analogias com o irmão de outra mãe Elliott Smith.

As antenas emitiam sinais interiores de nudez emocional e confidência, solenizados em cançōes estáticas, quase inertes, mas fulminantes no poder translúcido de narrar a história sem a justificar. Molina cedeu perante a dor para a poder sublimar. Custou-lhe a vida mas a partida sagrou-lhe a perenidade, e os borrōes autofágicos voltam como clarōes de uma América dessincronizada da incivilização mas não da legião de trovadores eléctricos, de MJ Lenderman a Kevin Morby, Waxahatchee, My Morning Jacket e Jim James a solo. I Will Swim to You: A Tribute to Jason Molina, um tributo organizado pela editora Run For Cover e assumido por contemporâneos como Lenderman, Trace Mountains, Sun June e Hand Habits, chega em setembro.

Entretanto, o há muito descatalogado Impala, assinado como Songs: Ohia, acaba de ser reeditado em vinil com a inédita Tess a extrapolar a (re)descoberta e a transmitir-lhe frescura de mar. As cançōes de Molina imitavam-lhe a vida. Eram perseguidas por fantasmas - reais ou metafóricos -, robustecidos pela insegurança e pavor grupal. Boa parte dos primeiros discos, assinados com o heterónimo geográfico, expōe a relação com o Ohio, onde cresceu na cidade industrial de Lorain a 25 milhas de Cleveland.

O ciclo de Songs: Ohia é de uma fertilidade irrefreada. O segundo álbum, agora com 27 anos de duração, reflecte o esplendor débil do lo-fi. Artesanal na manufactura, primário no instinto e brutalmente honesto - a verdade sempre se sobrepôs aos factores técnicos apesar de Molina se ter posteriormente aninhado num som mais compacto e burilado, já com largura de banda em Magnolia Electric Co.

O início de An Ace Unable To Change é sepulcral, como o obséquio para uma cerimónia fúnebre. Sete estáticos minutos condensadores de cataclismos fulminantes materializados em frases reditas como facas, e um final ruínoso. “Tonight i am damned to my soul”. Molina não contemplava o desprazer apenas pelo espelho. Soubera pelos pais a luta física e mental, em que acabaria por se encharcar, da classe operária. Uma questão de integridade em nome da luta pela sobrevivência digna. Morrer como as árvores.

A voz e guitarra de Molina iluminam o calvário com capacete de mineiro. Vinga a singeleza de fazer com pouco sobre a prosperidade da abundância. Quase tudo é dito na soberba Till Morning Reputations, gravura existencial de dois minutos sangrada pelo mesmo sangue de Mark Kozelek. Os 87 orgásmicos segundos da electrificada One Of Those Uncertain Hands são o turbo punk do álbum. A flexão de um homem e o seu vagar no ermo autodestrutivo da solidão.

Como tudo nele, Impala passa-se a dez mil metros de profundidade. E nem o ensaio hesitante de Separations tem o poder de o retirar com vida da caverna. “What a fine day to believe. What if I don't believe?”

John Horsewell

John Horsewell é um conceituado pintor contemporâneo de nacionalidade britânica, nascido em Inglaterra  entre os anos de 1952. A sua trajetória artística é marcada por uma forte componente hereditária, uma vez que cresceu num ambiente profundamente criativo, tendo sido instruído no seio familiar pelo seu pai e pelo seu avô, ambos pintores profissionais.

Ao contrário de muitos dos seus contemporâneos, Horsewell não seguiu uma formação académica formal em faculdades de Belas Artes. A sua educação foi técnica e prática, moldada diretamente no ateliê da família e consolidada através da experiência no mundo do design de interiores e de galerias de arte após concluir o ensino secundário. Esta base autodidata e artesanal permitiu-lhe desenvolver um estilo muito próprio, que se situa entre o realismo e o impressionismo moderno.

O seu estilo  é definido como um impressionismo contemporâneo profundamente focado na captura da luz e na criação de atmosferas de serenidade absoluta. A sua estética afasta-se do detalhe fotográfico rígido para se concentrar na sensação de um momento, utilizando o que o próprio artista descreve como uma filosofia de "menos é mais". As suas composições são frequentemente minimalistas, apresentando horizontes baixos que dão protagonismo a céus vastos e dramáticos, evocando um sentimento de isolamento pacífico e de evasão da azáfama quotidiana.

O artista é particularmente célebre pelas suas paisagens costeiras, praias banhadas pelo sol e cenas rurais, frequentemente inspiradas pelas suas viagens pela Europa — com especial foco no sul de França e Itália — e pela Florida, nos Estados Unidos. 

A grande marca registada do seu trabalho é a mestria na utilização da espátula (palette knife), que combina habilmente com o uso do pincel. Enquanto as grandes áreas de céu e mar são trabalhadas com pinceladas suaves e fluidas para criar profundidade, os elementos centrais — como os barcos, as rochas ou a vegetação — são esculpidos com camadas espessas de tinta a óleo (técnica de impasto). Esta abordagem confere às telas uma qualidade tridimensional e uma textura rica, permitindo que a luz ambiente da sala interaja fisicamente com o relevo da pintura.

Quanto à paleta de cores, Horsewell utiliza tons que variam entre os azuis profundos e cerúleos dos oceanos e os tons quentes e pastéis das areias e campos europeus. O seu objetivo primordial é sempre o otimismo visual, transformando cada tela numa "janela" para um paraíso idealizado, onde o contraste entre as sombras suaves e os pontos de luz intensa convida o espectador a um estado de contemplação e calma interior.

Um exemplo perfeito desta estética é a obra "Calm Waters" (também conhecida como "Moored Boats"), pintada provavelmente entre 2010 e 2020. Nesta tela, Horsewell utiliza um horizonte baixo e uma paleta de azuis profundos em contraste com tons areia para evocar uma sensação de paz absoluta. Através de pinceladas suaves no céu e relevos texturizados nos barcos e no primeiro plano, o pintor convida o espectador a entrar num cenário de tranquilidade e isolamento regenerador.

sexta-feira, 20 de março de 2026

Cat Power - Cherokee


"Cherokee" é uma das músicas mais conhecidas de Cat Power, lançada como single do álbum Sun (2012). Embora seja norte-americana, ela possui ascendência Cherokee (por parte do seu avô materno), o que explica o título da canção e sua forte conexão com a cultura e a história dos povos nativos dos EUA.

Cherokee
Cat Power

It's my way
It's my way down...

I never knew love like this
The wind, the moon, the earth, the sky (sky so high)
I never knew pain like this
When everything dies (...thing dies)
I never knew love like this
The sun, sea you and I (you and I)
I never knew pain, I never knew shame
And now I know why

Bury me, marry me to the sky (x4)

If I die before my time
Bury me upside down
Cherokee kissing me
When I’m on my way down (x2)

I never knew love like this
The wind, the moon, the earth, the sky (sky so high)
I never knew pain like this
When everything dies
I never knew love like this
The sun, sea you and I (you and I)
I never knew pain, I never knew shame
And now I know why

Bury me, marry me to the sky (x4)

If I die before my time
Bury me upside down
Cherokee kissing me
When I’m on my way down(x3)

It's my way down...

Em "Cherokee", Cat Power explora temas de transcendência e libertação face à mortalidade. O verso repetido “Bury me, marry me to the sky” (“Enterre-me, case-me com o céu”) expressa o desejo de ir além da morte física, procurando uma ligação espiritual com o universo. Elementos naturais como “the wind, the moon, the earth, the sky” (“o vento, a lua, a terra, o céu”) reforçam esta procura por algo maior, sugerindo que as emoções vividas são tão intensas como as forças da natureza.

O videoclipe, que mostra Cat Power como uma caçadora de zombies num cenário pós-apocalíptico, intensifica o sentimento de luta pela sobrevivência e o confronto com a morte. Isto transforma a música numa reflexão sobre a resiliência e a possibilidade de renascimento mesmo no meio da destruição. A frase “Cherokee kissing me when I’m on my way down” (“Cherokee beijando-me quando estou a cair”) pode ser vista como uma referência à cultura indígena norte-americana, evocando rituais de passagem e respeito pela terra, ou como um gesto de conforto em momentos de queda emocional. O pedido para ser enterrada de cabeça para baixo sugere uma inversão das tradições sobre a morte, talvez como protesto ou procura de uma nova perspectiva. A sonoridade eletrónica e atmosférica da faixa, marcada por uma mudança de estilo da artista, reforça o tom introspetivo e amplia o impacto emocional da canção.

Recepção e críticas do álbum Sun (2012)

domingo, 15 de março de 2026

Of The Wand And The Moon - Your Love Can't Hold This Wreath Of Sorrow


Canção do álbum Your Love Can't Hold This Wreath Of Sorrow (2021)

Original (Inglês)
Your love can't hold this wreath of sorrow
Your love can't hold this wreath of sorrow

The stars are falling from the sky
And I am just a passerby

Your love can't hold this wreath of sorrow
Your love can't hold this wreath of sorrow

The sun is setting in the West
And I am just a ghost at best

Tradução 
O teu amor não consegue segurar esta coroa de mágoa
O teu amor não consegue segurar esta coroa de mágoa

As estrelas estão a cair do céu
E eu sou apenas um transeunte

O teu amor não consegue segurar esta coroa de mágoa
O teu amor não consegue segurar esta coroa de mágoa

O sol põe-se no Ocidente
E eu sou, no máximo, um fantasma

A canção de Kim Larsen sob o projeto Of The Wand & The Moon é uma meditação sombria sobre a inevitabilidade da perda e a profunda insuficiência do amor humano perante o destino ou uma dor existencial avassaladora. O centro emocional da obra reside na metáfora da "Coroa de Mágoa" (Wreath of Sorrow), um termo que evoca imediatamente a imagem das coroas de flores funerárias, simbolizando um fardo emocional ou o luto por algo que morreu irremediavelmente. A letra sugere que, por mais genuíno ou forte que seja o afeto de outrem, ele é incapaz de sustentar ou curar a tristeza inerente à própria existência do narrador, que parece carregar um peso que não pode ser partilhado.

Essa atmosfera é reforçada por um sentimento de transitoriedade e niilismo, onde o eu lírico se posiciona como um mero "transeunte" ou, no limite, um "fantasma". Estas imagens revelam um desapego amargo do mundo material e das relações interpessoais, aceitando com passividade que as estruturas do universo estão a desmoronar — como "estrelas a cair do céu" — e que o indivíduo é impotente perante a passagem do tempo.

Inserida numa estética noir e num pessimismo romântico, a música não se manifesta como um grito de desespero, mas sim como uma aceitação sussurrada. É o reconhecimento melancólico de que o amor tem limites intransponíveis e que certas mágoas são de tal forma densas que nem o sentimento mais puro consegue oferecer redenção ou suporte, restando apenas o silêncio e a observação do fim.

quinta-feira, 5 de março de 2026

The Cure - Push


This melody means a lot to me. Released on August 30, 1985, I was 19 years old. The moment I heard it, it clung to my soul and never let go. It’s been woven into the fabric of my life for forty years.

The song begins not with words, but with an instrumental preamble that feels like a sunrise over a desolate moor - a long, glittering hallway of sound where Gallup’s bass acts as a steady, subterranean pulse. The guitars, layered in chorus and reverb, spin like silver webs catching the light, suspending the listener for two minutes in the musical equivalent of holding one’s breath until the lungs burn. We wait for the push, or perhaps the fall, until Robert Smith’s voice finally breaks through. It isn’t a whisper; it’s a desperate, melodic cry painting a portrait of fractured intimacy.

"Push" lingers as a quintessential anthem because it finds beauty in the breaking—it is the electric, terrifying thrill of the moment just before the end, the sound of a heart beating too fast in a room that’s far too quiet.

It's not just about romantic relationships. Everyone interprets it in their own way. 

For me, it healed the loss of my first love. Also, when someone (a friend) is no longer with me, or the death of a friendship, or the physical separation from an animal, or when I did everything in my power to prevent the senseless slaughter of our native woods or our urban trees, I return to this hymn because it eases my pain.


Go go go!
Push him away
No no no!
Don't let him stay...

He gets inside to stare at her
The seeping mouth
The mouth that knows
The secret you
Always you
A smile to hide the fear away
Oh! smear this man across the walls
Like strawberries and cream
It's the only way to be

Exactly the same clean room
Exactly the same clean bed
But I've stayed away too long this time
And I've got too big to fit this time.

Conflito emocional e afastamento em "Push" de The Cure
Em "Push", do The Cure, a letra explora o conflito entre o desejo de proximidade e a necessidade de afastamento. A imagem marcante de "smear this man across the walls / Like strawberries and cream" (espalhar esse homem pelas paredes / como morangos com creme) revela um impulso quase obsessivo de apagar a presença de alguém, misturando sentimentos de repulsa e fascínio. Essa metáfora sugere não só o afastamento físico, mas também a tentativa de eliminar qualquer lembrança ou influência emocional da pessoa, reforçando o tema do distanciamento.

O desconforto do narrador se intensifica quando ele admite: "But I've stayed away too long this time / And I've got too big to fit this time" (mas fiquei longe por tempo demais desta vez / e fiquei grande demais para caber desta vez). Esses versos deixam claro o sentimento de não pertencimento e a percepção de que mudanças internas o afastaram de um espaço ou relação que antes era familiar. O contexto da música, frequentemente discutido por fãs e críticos, aponta para a luta em controlar a influência do outro e a necessidade de criar barreiras emocionais. Assim, "Push" se destaca como um retrato direto e honesto do embate entre o desejo de conexão e a autopreservação, traduzindo em palavras e sons a experiência do distanciamento emocional.

quarta-feira, 3 de abril de 2024

Música do BioTerra: Zanias - Burial


[Refrão]
I’m crumbling inside
and I’m feeling disconnected from it all.
It’s like I never even tried and I
watch my body fall.
Can’t seem to do this anymore.
Can’t seem to do this anymore.

Save the tears...
Will they remember me?
I’m not even sorry I disappeared,
took a break...
Runaway...
Runaway, runaway...

[Refrão]

On the hottest day of spring I...
I... dug a hole and buried him, buried him. 
I... buried him, buried him.
With a final touch
of the softest grey
I... took it in, took it in.

Life of praise:
got it made, got it made.
Now step away, step away.
I just can’t take
another day,
another day.

[Refrão]

Créditos
lançado em 4 de abril de 2023
Written and produced by Alison Lewis
Mixed by Ewan Kay
Mastered by Alain Paul

sábado, 26 de novembro de 2022

A Etiópia, onde o Ocidente mantem os olhos


Lindíssimo este tema. Zazou adaptou esta canção tradicional etíope, em memória de Arthur Rimbaud. Sublime e sedutora.
Aqui com a participação do cantor e nómada etíope Ketema Mekonnen . conhecido pelos seus temas no estilo tradicional e moderno, incluindo faixas populares como "Fano", "Bati", "Tizita" e "Shemonmuana". Com uma carreira que abrange vários sucessos, lançou recentemente o álbum Arada em 2025, com músicas como "Arada", "Ney Ney" e "Birtukane".
A Etiópia, onde o Ocidente mantem os olhos. Uma civilização muito antiga. Apaixonante.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Citação da Semana- Jiddu Krishnamurti

"We never look deeply into the quality of a tree; we never really touch it, feel its solidity, its rough bark, and hear the sound that is part of the tree. Not the sound of wind through the leaves, not the breeze of a morning that flutters the leaves, but its own sound, the sound of the trunk and the silent sound of the roots."



quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Amália Rodrigues- do início de carreira ao estrelato internacional



A rainha do Fado Amália da Piedade Rodrigues nasceu em Lisboa, a 23 de julho de 1920 e não descendia da realeza: o pai era sapateiro e a mãe vendedora de fruta, ela própria iniciara como bordadeira, trabalhadora numa confeitaria e empregada de balcão numa loja. 

Mas já desde a escola primária cantava em público e numa festa de beneficência, Amália Rodrigues canta pela primeira vez em público acompanhada à guitarra, pelo tio João Rebordão. Em 1938, Concorre ao Concurso da Rainha do Fado dos Bairros, no qual não chega a participar pois as outras concorrentes ameaçam desistir se ela concorrer, e Amália acaba por desistir da participação.

Em 1939 estreou-se como fadista profissional no “Retiro Severa” e no ano seguinte apresentou-se numa peça de teatro como actriz no palco do Teatro Maria Vitória, como atração convidada, na revista Ora Vai Tu!, seguindo-se, nos anos seguintes, muitas outras participações. 

O êxito no Retiro da Severa como artista espalha-se por toda a Lisboa pela boca do público e imediatamente passa a cabeça de cartaz. Canta também no Solar da Alegria, Café Mondego como artista exclusiva e já com reportório próprio.

Multifacetada estreia-se o filme Capas Negras, um dos maiores êxitos de sempre no cinema português, 22 semanas consecutivas em cartaz, realizado em 1946 por Armando de Miranda, e que viria a ser a rampa de lançamento de Amália na sétima arte. Outros filmes se seguiriam como Fado – História de Uma Cantadeira, 1947; Sol e Toiros, 1949; Os Amantes do Tejo, 1954; Sangue Toureiro, 1958; As Ilhas Encantadas, 1964; e Fado Corrido, 1964.

Carreira internacional 
Feminina, brilhante, controversa, levou desde o inicio da sua carreira a portugalidade por esse mundo fora alargando as fronteiras da música portuguesa. Idolatrada pela crítica e o público Amália Rodrigues alcançou uma consagração sem precedentes.

O mais admirável talvez foi a sua capacidade de cantar em outras línguas e outros cancioneiros abrindo assim as portas a uma carreira internacional incrível cantando como ela própria costumava dizer aquilo que “lhe sabe a Fado”. Após a sua apresentação na embaixada portuguesa de Madrid ao público espanhol em 1943, iniciou uma nova fase e começou a interpretar canções espanholas, experimentando o flamenco, as sevilhanas estendendo-se depois aos boleros e aos corridos latinoamericanos. 

Em plena Guerra Mundial Amália já tinha feito duas digressões no estrangeiro e estreou-se no Brasil em 1944, alcançando um enorme sucesso no Casino de Copacabana. Foi aí que começou a sua paixão pelo Samba e o Baião brasileiro, e o seu  sucesso no Brasil foi tão grande que tornou-se num pistop obrigatório nas turnés seguintes e onde gravou alguns dos seus discos.

Nas décadas seguintes começou a interpretar canções francesas como “Ay, mourir pour toi”  de Charles Aznavour e italianas como “Una canzone per te” de Sergio Endrigo ou em dialecto napoletano o siciliano grandes clássicos como “Vitti na’ crozza”, “Ciuri Ciuri”, “La tarantella”  ou “O mia bela madunina”  levando as plateias ao êxtase. 

O pós-guerra e as décadas de 1950 e de 60 são um período de enorme curiosidade por músicas fora do cânone anglo-americano.  Em 1950 Amália fez alguns espetáculos inseridos no Plano Marshall em Berlim, Roma, Trieste, Dublin, Berna e Paris, como única intérprete ligeira no meio de um elenco predominantemente clássico.

Em 1952 dá um salto qualitativo decisivo, com a estreia em Nova Iorque, na discoteca “La Vie en Rose”. O Time Magazine testemunha que “a multidão fica extasiada” e o New Yorker considera-a “a cantora estrangeira mais arrebatadora que os nossos clubes nocturnos apresentaram desde há muitos anos. […] trata-se de qualquer coisa de muito especial”. 

São para recordar alguns grandes marcos da sua carreira: 
  • Em 1966 no Lincoln Center de Nova Iorque, com a New York Philharmonic e no Hollywood Bowl de Los Angeles, com a Los Angeles Philharmonic, regida ambas por André Kostelanetz.
  • Em 1967 apresentou-se com êxito esmagador em Cannes e recebe das mãos do actor Anthony Quinn, o prémio MIDEM 1965/66, destinado a premiar o artista que mais discos vende no seu país, proeza só alcançada pelos Beatles
  • Em 1968 e 1969 em dois concertos muito famosos: na Roménia e o espetáculo que apresentou na União Soviética, onde actua pela primeira vez apesar de todos os obstáculos diplomáticos inerentes à passagem da Cortina de Ferro por uma artista portuguesa.
  • Em 1970 na Feira de Osaka e o Sankei Hall de Tóquio, que foi gravado para edição em disco. Existem alguns vídeos que foram registados no Japão com o público a cantar “Coimbra” e podem ser vistos no youtube.
  • Em 1971 no teatro Lírico de Milão e o Palladium de Londres
  • Em 1972 um show dirigido por Ivon Curi no Canecão do Rio de Janeiro 
Saber mais:

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Guy Finds A Stray Kitten, Bikes Around The World With Her For Two Years


Um ciclista encontra um gatinho abandonado à beira da estrada. Decide levar o gatinho na sua viagem à volta do mundo, e os dois rapidamente criam um laço. O ciclista partilha as suas experiências de viajar com um gato, incluindo os desafios e as alegrias desta aventura singular.

The "guy" in the video is Dean Nicholson, a Scottish traveler who became famous for his journey cycling around the world with a stray cat he rescued named Nala.

Here are some key details about him and his story from the video:

  • The Rescue: Dean was cycling through Bosnia when he heard a kitten meowing behind him. He couldn't find her a home nearby and didn't want to leave her alone, so he cleared space on his bike and took her with him [00:00]. He got her a passport, and a microchip.

  • The Bond: He originally intended to cycle across the world quickly, but his perspective changed after finding Nala. He now prioritizes her comfort and enjoyment over the speed of his journey.  [02:10].

  • Traveling Together: Nala often rides on Dean's shoulder while he cycles [00:36]. Together, they have traveled through numerous countries, including Montenegro, Germany, Belgium, and France [03:10].

  • Going Home: The video captures a touching moment when Dean returns home to Scotland to introduce Nala to his family [03:58].

Dean Nicholson tem 33 anos. Saiu de casa em Dunbar, na Escócia, em setembro de 2018 para viajar pelo mundo em bicicleta. No início de 2019 publicou um vídeo no Instagram do momento em que encontrou Nala, a gata que resgatou na Bósnia. O vídeo chamou a atenção dos meios de comunicação de todo o mundo e já tem mais de 130 milhões de visualizações. O seu canal no YouTube teve mais de cinco milhões de visualizações.
Dean e Nala continuam a viajar juntos pelo mundo e partilham as suas aventuras na conta Instagram 1bike 1world, que tem mais de 750 mil seguidores.

domingo, 19 de setembro de 2021

George Steiner e António Lobo Antunes, à conversa


George Steiner foi, acima de tudo, um filósofo da linguagem e um guardião da memória europeia, cuja obra é atravessada por uma angústia central: o fracasso da alta cultura em humanizar o homem. Para Steiner, a linguagem é o milagre que nos permite conceber o futuro e a esperança, mas é também a ferramenta que pode ser pervertida para a mentira e a barbárie. Ele dedicou grande parte de sua vida a investigar como o século XX, o século de maior avanço técnico e literário, pôde produzir o Holocausto. Ele notava com amargura que o humanismo clássico não serviu de barreira contra o mal; pelo contrário, percebia que um indivíduo podia ser profundamente tocado pela música de Bach ou pela poesia de Rilke e, ainda assim, exercer a crueldade absoluta.

Essa desilusão o levou a explorar o conceito do silêncio. Steiner sugeria que, diante do horror indescritível, a linguagem pode "morrer" ou tornar-se insuficiente, restando apenas o silêncio como forma de respeito ou como reconhecimento do limite humano. Por outro lado, em sua defesa das "Presenças Reais", ele argumentava que a grande arte nunca é meramente estética; ela carrega uma dimensão transcendente. Para ele, ler um grande livro ou observar uma obra-prima é um ato de "hospitalidade" onde o leitor se torna um hóspede da verdade do autor, um encontro que pressupõe a existência de algo maior que o puro materialismo.

Como poliglota e cosmopolita, Steiner também revolucionou a teoria da tradução em obras como Depois de Babel. Ele via no multilinguismo a maior riqueza da espécie humana, pois cada língua ofereceria uma janela única para o mundo. Para ele, "compreender é traduzir": toda comunicação humana, mesmo dentro de um mesmo idioma, é um esforço de interpretação do "outro". Ele rejeitava o nacionalismo e as raízes fixas, preferindo a condição do intelectual como um nómada cultural, alguém cuja pátria não é um território, mas a própria palavra e a tradição literária que sobrevive ao tempo. Um verdadeiro meteco

domingo, 11 de outubro de 2020

Adrift: How the World Lost Its Way by Amin Maalouf – review

Fonte: aqui

The Lebanese-French historian plots a course through the political upheavals and turning points of the postwar era in this personal, insightful analysis

By unhappy coincidence, Amin Maalouf’s thought-provoking analysis of what is wrong with our lives was published in English shortly after the massively destructive explosion in his birthplace, Beirut, in August. That horrific event served as a bleak reminder of the dysfunctionality not only of Lebanon but of the Middle East as a whole – and, indeed, the wider world – in the early decades of the 21st century.

Maalouf is an acclaimed journalist, novelist and historian who has lived for decades in Paris and writes in French rather than Arabic. He is a member of the Académie Française and a winner of the Prix Goncourt. But his early years, with lasting links to Lebanon and Egypt (where his mother came from and where he spent time as a child), have proved deeply influential.
Beyond the Middle East, Maalouf memorably defines 1979 as 'a bookmark in the great ledger of time'

Adrift begins with a potted but intensely personal history of what the author calls the Levant – a term that originated in a Europe that viewed the region as the “cradle of civilisation” in its own backyard and which began to influence it from the Crusades, through 400 years of Ottoman imperial rule to the first world war and beyond. “It is from my native land that the shadows spread and engulfed the world,” he writes.

Gamal Abdel Nasser’s charismatic rule in Cairo, the Suez crisis in 1956, Israel’s victory in the war of 1967 (when “Arab despair was born”) and the Iranian revolution of 1979 are all turning points for Middle Eastern geopolitics. Maalouf’s USP is interpreting the events of his lifetime to ponder the links between identity, religion, culture and power – and providing trenchant conclusions in impressively clear prose.

Shortly before Maalouf’s birth in 1949, the founder of the Muslim Brotherhood, Hassan al-Banna, was assassinated in Cairo, heralding a struggle between Islamists and autocrats that continues to this day. Maalouf feels nostalgic for a world that has been lost: the celebrated diva Umm Kulthum, the Alexandria-born Greek poet Constantine Cavafy and the renowned Cairo patisserie Groppi are all reminders of a liberal, cosmopolitan paradise called Egypt.

Maalouf left Lebanon at the start of the civil war in 1975. “It is almost as though we have all suffered a powerful mental earthquake, whose epicentre lies somewhere near the place I was born,” he reflects. “And it is precisely because I was born and grew up on this ‘fault line’ that I am trying to understand how the quake occurred, and why the aftershocks have spread around the world, with the calamitous consequences now familiar to us all.”

Beyond the Middle East, Maalouf defines 1979 as “a bookmark in the great ledger of time”. That was the year Margaret Thatcher was elected in Britain and influenced Ronald Reagan in the US. On both sides of the Atlantic the combined effect was to reduce government intervention, promote free-market economics and increase social inequality. The previous year, Deng Xiaoping had taken over the Chinese Communist party and Pope John Paul II became head of the Catholic church.

The Soviet invasion of Afghanistan was another landmark, exploited by the US to provide Moscow’s equivalent of its own Vietnam war, which fed into the collapse of the USSR – and the rise of jihadi extremism personified by a young Saudi called Osama bin Laden.

Personal experience combines with Maalouf’s privileged professional life: as a young man, he worked for the Lebanese daily An-Nahar and later became editor of Jeune Afrique magazine. He interviewed Indira Gandhi, witnessed the 1974 Marxist coup in Ethiopia, covered the fall of Saigon in 1975 and was on assignment in Tehran when Ayatollah Khomeini arrived home to replace the Shah.



Reflecting on recent decades, Maalouf addresses global warming and technological changes including the digital revolution and robotics that are likely to cause hundreds of millions of jobs to disappear – mind-boggling social and economic challenges. He links the rise of fragmented identity politics to Brexit – embodying populism and the failure of the European project (referencing separatism in Scotland and Catalonia). He is disturbed by the loss of America’s moral credibility, which has accelerated during the disruptive term of Donald Trump. Global government, embodied by UN institutions, has also suffered.

Inevitably for this English-language edition, an afterword is dedicated to responses to the Covid pandemic, which he defines, with characteristic elegance, as a “stress test for every country on earth” and, more specifically, “a cataclysm that has gravely compromised the moral legitimacy of economic liberalism” – because of the impact of budget cuts on increasingly privatised national health systems.

Maalouf returns repeatedly to the depressingly familiar fault lines of “his” Levant, but thankfully draws universal conclusions: “None of the passengers aboard the ship that is mankind can now ignore the fact that there are icebergs in our path, and that we must avoid them at all costs,” he concludes. Adrift is an insightful and profoundly disturbing interpretation of recent world history – and our uncertain future.

• Adrift: How Our World Lost Its Way by Amin Maalouf (translated by Frank Wynne) is published by World Editions (£12.99)

sábado, 21 de março de 2020

O Poder da Empatia nas Relações


Em “O Poder da Empatia”, uma das principais referências bibliográficas atuais sobre o tema – e muito importante para  o filósofo e historiador Roman Krznaric, clarifica o conceito da empatia, diferenciando-a de simpatia ou caridade, que ainda são um pouco confusos quando o tema é abordado. Ainda traz diversos casos reais e fictícios, argumentados com visões da filosofia, psicologia, neurociência, das artes, CNV (Comunicação Não Violenta) e do marketing contemporâneo.

A empatia, que o autor define como “a arte de se colocar no lugar do outro por meio da imaginação, compreendendo seus sentimentos e perspectivas e usando essa compreensão para guiar as próprias ações” (p.10), vem sendo muito citada nos nossos dias, mas parece contraditória nesta era de tecnologias e falta de tempo, que tende a nos deixar cada vez mais egoístas e autocentrados.

Mas em sua argumentação, o autor revela que o cérebro humano é equipado para a conexão social, e descreve os 6 hábitos de pessoas altamente empáticas, que podem nos ajudar a sermos mais empáticos, numa mudança que acontece de dentro para fora e pode transformar positivamente nossas atitudes com os outros. E quais são esses 6 hábitos? 

Vamos deixar aqui uma breve lista, mas vale conferir os detalhes no livro de Roman:
1) Acione seu cérebro empático: reconhecer e colocar a empatia como centro da sua vida e expandi-la sempre que possível;
2) Dê o salto imaginativo: fazer um esforço para colocar-se no lugar do outro, seja ele um desconhecido ou até mesmo o seu inimigo;
3) Busque aventuras experienciais: experimentar realidades diferentes das suas, através de viagens, cooperação social ou imersão direta;
4) Pratique a arte da conversação: retirar as nossas máscaras sociais para escutar o outro, principalmente aqueles que não conhecemos;
5) Viaje em sua poltrona: utilizar as artes, as redes sociais e todas as ferramentas possíveis para nos transportar para a mente de outras pessoas;
6) Inspire uma revolução: gerar empatia numa escala de massa para alcançar mudanças significativas.

Ao longo do texto, vemos histórias de figuras como Jesus, Gandhi, Mandela e Che Guevara, entre outras personagens reais, que viveram em ambientes diferentes dos seus, viveram experiências antes não imaginadas e conheceram pessoas que não conheceriam caso permanecessem estáticos. Com isso, conseguiram mudar suas vidas radicalmente, dedicando-se a uma causa maior, focados no objetivo de impactar positivamente aqueles ao seu redor.

Nesta reflexão bastante atual, Roman nos dá a oportunidade de enxergar o mundo sob uma visão mais ampla e menos individual, colocando-nos no lugar do outro, não através de métodos ou técnicas, mas da CONEXÃO. Não a conexão da internet, mas sim dessa necessidade de nós humanos, que, quando acontece, beneficia todas as pessoas envolvidas com uma gratificante experiência, além de transformar relacionamentos, abandonar preconceitos, julgamentos e que pode até mesmo mudar o mundo em que vivemos.

Sobre o autor
Roman Krznaric é historiador, com PhD em sociologia política, e fundador da The School of Life. Conselheiro de diversas entidades, como a Oxfam e as Nações Unidas, teve seu nome listado pelo The Observer como um dos mais influentes pensadores da Grã-Bretanha dedicado ao tema dos estilos de vida. Com livros publicados em mais de vinte idiomas, Krznaric dá palestras e workshops em todo o mundo.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Anne Teresa De Keersmaeker - The Six Brandenburg Concertos


Durante a sua estadia em Nova Iorque, em 1980, na qual ensaiou pela primeira vez a sua célebre Fase do Violino com a música de Steve Reich, a única outra gravação a tocar no estúdio de Anne Teresa De Keersmaeker foram os Concertos Brandeburgueses de J.S. Bach. Trinta e cinco anos depois, De Keersmaeker continua o seu trabalho com a obra. “Como nenhuma outra, a música de Bach transporta em si movimento e dança, conseguindo combinar a maior abstração com uma dimensão concreta, física e, consequentemente, até transcendental.”

Os Concertos Brandeburgueses consistem em seis concertos grossos, nos quais Bach utiliza os instrumentos da orquestra barroca em diferentes e, muitas vezes, audaciosas formações. Neste contexto, De Keersmaeker contracena com dezasseis bailarinos de diferentes gerações da família Rosas. Após a estreia de Mitten wir im Leben sind/Bach6Cellosuiten, De Keersmaeker aborda, tal como em Vortex Temporum (2013), a música de Bach como se fosse uma partitura pronta para uma peça de dança, incorporando o domínio polifónico de Bach.