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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Crise Climática: Por Que Ter Esperança É Racional

Há muitos motivos para desesperar: a nossa terra verdejante e aprazível está seca e acastanhada, as albufeiras estão depletadas e os incêndios florestais estão a fustigar o Reino Unido, a Europa, Canadá e os EUA. Mas há muitos mais motivos para não desesperar: o desespero alimenta-se a si próprio; o desespero desarmar-nos-á; o desespero é aquilo que os sacanas querem que sintas. Mas, acima de tudo, o desespero é irracional. Deixa-me explicar porquê.

Por mais sofisticadas que sejam as nossas ferramentas de previsão, simplesmente não temos forma de saber o que vem a seguir. Tal como o clima, tal como qualquer ecossistema, a sociedade é um sistema complexo. As suas propriedades e respostas adaptativas não podem ser previstas estudando os seus componentes de forma isolada, independentemente do brilhantismo dos cientistas sociais e dos futurólogos. Acontecem coisas — coisas inesperadas —, por vezes a uma velocidade espantosa. Dito de outro modo, a sociedade tem pontos de rutura: pode passar rapidamente de um estado de equilíbrio para outro.

Veja-se a Irlanda, para dar apenas um exemplo. Até há poucas décadas, a República da Irlanda era uma teocracia católica. Tinha sido assim desde os anos 1920. Aliás, durante a maior parte do século XX, a Igreja Católica parecia estreitar cada vez mais o seu controlo. Quebrar esse controlo era algo quase inimaginável. Mas depois uma série de acontecimentos combinou-se de formas inesperadas. Uma sucessão de escândalos terríveis veio à tona: violência sexual sistemática, o rapto de mulheres e crianças, trabalho escravo e mortalidade em massa em instituições da Igreja. As viagens e os meios de comunicação social permitiram ao povo irlandês ver como era a libertação social e sexual noutros países. A comunicação social e os fóruns internacionais permitiram que ativistas corajosos, cujas vozes tinham sido suprimidas durante muito tempo, fossem ouvidos de forma mais ampla. As muralhas caíram mais depressa do que alguém poderia ter adivinhado. Em pouco tempo, tanto o casamento igualitário como o direito ao aborto foram legalmente sancionados: uma mudança que tinha sido quase inimaginável.

O mesmo se pode dizer do colapso do comunismo de Estado e do fim de quase todos os impérios e monarquias que outrora pareciam inabaláveis. O império dos combustíveis fósseis não é exceção.

O sistema complexo a que chamamos sociedade tem dois estados de equilíbrio: o impossível e o inevitável. A mudança que queremos parece sempre impossível. Voto para as mulheres? Perdeu o juízo. Independência para a Índia? A Grã-Bretanha nunca a vai largar. Direitos civis? Ridículo! Mas com pressão sustentada, um pouco de sorte e uma mudança de circunstâncias, pumba!, o impossível acontece. Depois toda a gente diz: “Pois, era inevitável, não era?”

Acho que podemos estar a aproximar-nos de um ponto de rutura no colapso climático. Durante anos disseram-nos: “Estão a pedir a Lua. Os combustíveis fósseis vieram para ficar.” Uma parte de mim acreditou nisso. Mas agora, como a reportagem do Guardian demonstrou, subitamente os combustíveis fósseis são muito mais caros do que as energias renováveis. Subitamente, são as tecnologias verdes que estão a gerar imenso emprego e rendimento. Subitamente, barreiras tecnológicas que pareciam insuperáveis ruíram. Subitamente, os políticos financiados pelos combustíveis fósseis parecem ultrapassados, ridículos, corruptos. Subitamente, estamos a acordar para a necessidade de uma ação urgente, à medida que os choques de calor reforçam a mensagem.

O problema de um ponto de rutura, seja ele positivo ou negativo, é que nunca se sabe de antemão onde ele possa estar. Só se consegue ver em retrospetiva. Se já causámos tanto aquecimento global ao ponto de o sistema de correntes do Atlântico estar destinado a colapsar, ou de um fracasso em cascata da floresta amazónica estar assegurado, ainda não sabemos. Mas, da mesma forma, se as condições necessárias para uma grande mudança social já estiverem alinhadas, não o saberemos até o sistema mudar.

Este tipo de mudança rápida exige um público informado por fontes de comunicação independentes, jornalistas comprometidos com os factos e não com interesses corporativos. O modelo aberto e financiado pelos leitores do Guardian é um antídoto claro para outros meios de comunicação — tanto a imprensa dos bilionários como os radiodifusores de serviço público — que estão ativamente a esquivar-se a este desafio, reduzindo a sua cobertura sobre o clima numa altura em que ela nunca foi tão crítica.

Por isso, no Guardian e não só, continuamos a pressionar, continuamos a expor, continuamos a demonstrar como a mudança pode acontecer. E, por razões inteiramente racionais, continuamos a ter esperança. Por favor, considera apoiar o nosso jornalismo hoje mesmo.

A maior questão com que nos confrontamos, possivelmente a maior questão que a humanidade já enfrentou, é saber se conseguimos atingir os pontos de rutura sociais antes de atingirmos os pontos de rutura ambientais.

Fonte

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Sobreturismo nas montanhas: o impacto ambiental que ninguém quer ver


A pressão humana sobre as montanhas está a atingir um ponto de rutura irreversível. Um mega-estudo que analisou quase 50 anos de investigação científica global sobre o turismo de montanha  ("Environmental and Economic Impacts of Mountain Tourism: A Critical Review") revela que, a partir de 2019, o alerta disparou: a urgência climática e o fenómeno do overtourism (sobreturismo) estão a sufocar os ecossistemas de altitude.

Para percebermos a gravidade real deste cenário, a ciência aponta para quatro grandes problemas silenciosos que estão a acontecer agora mesmo

1. Microplásticos no topo do mundo: o estudo do Everest
No que toca à poluição por plásticos, o estudo mais emblemático e surpreendente é o "Mount Everest's microplastics", publicado em 2020 na prestigiada revista One Earth pela investigadora Imogen Napper e a sua equipa. Os cientistas analisaram amostras de neve e de água de ribeiros recolhidas em vários pontos da montanha, incluindo no "Balcony" a 8.440 metros de altitude - praticamente no topo do monte Everest.
Os resultados foram alarmantes: encontraram microplásticos em absolutamente todas as amostras de neve analisadas. A análise laboratorial revelou que a esmagadora maioria destas partículas eram fibras de poliéster, acrílico, nylon e polipropileno. A conclusão dos investigadores é direta: a fonte desta poluição não é o lixo trazido pelo vento de cidades distantes, mas sim o próprio vestuário técnico de alta performance, as cordas e as tendas utilizadas pelos montanhistas de elite durante a sua subida.

2. O colapso da gestão de resíduos no Himalaia
Para compreender o impacto sistémico do lixo físico e da falta de infraestruturas em áreas remotas, o artigo de referência é o "Contemporary environmental issues in Sagarmatha (Everest) National Park", publicado pelo geógrafo Alton C. Byers na revista Mountain Research and Development.
Este estudo clássico mapeou no terreno como o crescimento descontrolado do turismo de aventura nas últimas décadas colapsou por completo a capacidade de carga da região. Byers documentou a proliferação de lixeiras informais a céu aberto ao longo dos trilhos de aproximação, onde toneladas de plástico, metal e dejetos humanos são depositados sem qualquer tratamento, contaminando diretamente os lençóis freáticos e os ribeiros que abastecem as populações locais que vivem no sopé das montanhas.

3. O impacto silencioso sobre a fauna selvagem
No que diz respeito à perturbação da vida selvagem, destaca-se uma enorme meta-análise publicada na revista PLOS ONE por Courtney L. Larson e os seus colaboradores, intitulada "Effects of recreation on animals in protected areas". Os investigadores analisaram sistematicamente 274 estudos científicos independentes para perceber como as atividades de lazer afetam os animais.
A grande conclusão é que mesmo atividades consideradas de "baixo impacto", como uma simples caminhada (hiking) ou corrida em trilhos de montanha, desencadeiam respostas fisiológicas de stress muito fortes na fauna local. A presença humana constante força os animais a abandonar áreas ricas em alimento, altera os seus padrões de sono e de caça e reduz significativamente as suas taxas de sucesso reprodutivo, empurrando espécies já ameaçadas para altitudes ainda mais extremas e inóspitas.

4. A destruição invisível do solo e da flora alpina
Por fim, para entender a degradação física dos trilhos, os investigadores Jeff Marion e Yu-Fai Leung publicaram o artigo "Trail environments and visitor impacts" no Journal of Environmental Management. Os autores explicam a mecânica por trás do pisoteio turístico.
As plantas que crescem em ambientes alpinos enfrentam condições meteorológicas extremas e, por isso, têm um crescimento incrivelmente lento - algumas demoram décadas a crescer escassos centímetros. O estudo demonstra que bastam algumas dezenas de passagens de caminhantes fora dos trilhos oficiais para compactar o solo de forma irreversível. Esta compactação impede que as sementes germinem, bloqueia a infiltração da água da chuva e destrói a microflora do solo. Sem vegetação para segurar a terra, a chuva e o vento iniciam um processo rápido de erosão que rasga a montanha e pode provocar derrocadas de terra severas.

Conclusão
Anda-se a querer matar aquilo que pode ser realmente a galinha dos ovos de ouro do futuro, apenas porque pensam unicamente no imediato, do que acham que agrada o povo, sobretudo o povo eleitor, que acreditando que este tipo de turismo vai dar dinheiro aos montes e toda a vida, apoiam iniciativas e ideias que lhes são vendidas como garantia de futuro.
Também é possível trazer mais valias para o território sem estragar e comprometer o futuro, tem é que se fazer como deve ser feito, com sustentabilidade, com visão e não da maneira mais fácil porque, assim, acabarão por matar a galinha. Muitos países já estão a pagar muito caro e nós continuamos a não aprender com os erros dos outros.
Na Tailândia fecharam das praias mais conhecidas, na Islândia reduziram o número de turistas e proibiram o acesso a uma série de locais, em alguns países, como aqui ao lado em Espanha, em algumas zonas naturais e protegidas, as visitas são condicionadas apenas em determinados dias da semana e quando entrara o número de pessoas autorizado fecham o acesso nesse dia
Na Costa Rica visitas em áreas protegidas só com guias autorizados e com limite diário, nos Estados Unidos, Nova Zelândia e Austrália, nos principais Parques Naturais é necessária reserva antecipada para visitas e têm que ser acompanhadas por guias. E há muitos mais exemplos, mas muitos mais.
E em todas estas áreas protegidas vive gente. Gente que precisa dos turistas e vivem do turismo, o que demonstra que não é preciso estragar e destruir para se ganhar com o turismo de natureza.
Por cá, neste país, quer-se viver um ano inteiro do que se trabalha em 4 ou 5 meses. No turismo de natureza sustentável tem que se trabalhar todo ano.
Mas esses estrangeiros devem ser burros, não percebem nada disto. Nós é que somos as sumidades, nós é que somos o exemplo.
Aqui cada vez se abre mais, cada vez se quer mais confusão, mais lixo, cada vez se levantam mais restrições. Vende-se ao povo a ideia que viver numa área protegida é uma desgraça que só é minimizada se massificarmos. Mesmo sabendo que estão a mentir ao povo. O imediato, o agora, é que conta para quem convence o povo desta forma.

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sexta-feira, 22 de maio de 2026

Climate Extremes - Agriculture (Extremos Climáticos - Agricultura)


De onde vem a sua alimentação?
Como é que os alimentos de todo o mundo chegam à sua mesa?
Como são os sistemas alimentares globais afectados pelas alterações climáticas?
Aprenda sobre o sistema alimentar global e as suas complexas relações com as alterações climáticas com cientistas de renome e executivos do agronegócio!

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Legendas disponíveis em: inglês, francês, italiano, alemão, espanhol, turco, português, português do Brasil, chinês e russo.

Porque é que a produtividade agrícola está a diminuir com o aquecimento global?
O sistema alimentar global é a maior fonte de emissão de gases com efeito de estufa. Por isso, fazer alterações no sistema alimentar pode ser a nossa principal ferramenta para combater as alterações climáticas.
Ao mesmo tempo, a agricultura global é uma das áreas mais vulneráveis ​​às alterações climáticas. A perda de produtividade agrícola significa menos disponibilidade de alimentos para a humanidade.
O futuro do nosso planeta depende da forma como lidamos com estes desafios agrícolas.

"Extremos Climáticos: Agricultura" explora estas questões, apresentando perspetivas de especialistas, investigação científica recente e desenvolvimentos tecnológicos.

O filme conta com informações de cientistas e especialistas pioneiros, incluindo Johan Rockstrom, Daniel Swain, Shely Aronov, Paul Behrens, Matthias Berninger, Benjamin Bodirsky, Sir Charles Godfray, Monika Zurek e Jamie Basillie, de instituições como o Instituto Potsdam para a Investigação do Impacto Climático, a Escola Oxford Martin da Universidade de Oxford, a Bayer AG, a Universidade da Califórnia (Agricultura e Recursos Naturais), a InnerPlant e a Hedgehog Foods.

O documentário intitulado "Climate Extremes: Agriculture" aborda a profunda e complexa relação entre as alterações climáticas e o sistema alimentar global, explorando como o aumento das temperaturas e os eventos climáticos extremos, como secas e cheias, estão a prejudicar a produtividade agrícola mundial e a ameaçar a segurança alimentar. No que diz respeito aos principais temas abordados, a obra divide-se na análise dos impactos, das vulnerabilidades e do mosaico de soluções necessárias para o futuro.

No âmbito do impacto da agricultura no planeta, o documentário evidencia que o sistema alimentar atual é responsável por cerca de um terço das emissões globais de gases com efeito de estufa, sendo o principal motor por trás do desrespeito pelas fronteiras planetárias, como a perda de biodiversidade e o consumo excessivo de água potável. Adicionalmente, analisa-se a vulnerabilidade das monoculturas, demonstrando que a falta de diversidade genética nas colheitas modernas torna o sistema frágil perante pragas e doenças, que se propagam mais rapidamente com o aquecimento global. Outro ponto crítico discutido é o risco de falhas simultâneas nos celeiros do mundo, alertando para o perigo real de secas ou ondas de calor atingirem simultaneamente várias das regiões produtoras de alimentos mais importantes do planeta, como os Estados Unidos e o Brasil, o que inviabilizaria o comércio internacional para compensar a escassez.

Como resposta a estes desafios, o documentário apresenta um mosaico de soluções que combina práticas ancestrais e alta tecnologia. Entre elas, destaca-se a agricultura de conservação, que propõe abandonar o arado tradicional e adotar o plantio direto para manter o carbono e a humidade no solo. Sugere-se também uma mudança na dieta através do flexitarianismo, reduzindo o consumo de carne industrializada e de derivados de ruminantes para libertar vastas áreas de terra para a conservação e diminuir as emissões de metano. A bio-revolução e a inteligência artificial surgem como ferramentas essenciais para compreender proteínas, acelerar o melhoramento genético de sementes mais resilientes e criar plantas que emitem sinais óticos quando atacadas por fungos. Por fim, apontam-se as fontes alternativas de proteína, com foco no cultivo de fungos e cogumelos em grande escala, utilizando resíduos agrícolas e quase sem gastar água ou solo.

Relativamente aos painelistas e especialistas presentes, embora o documentário não apresente letreiros com os nomes completos ao longo de todo o vídeo, as intervenções dividem-se de forma clara entre grandes cientistas do sistema terrestre, decisores do setor agrícola corporativo e inovadores tecnológicos. Os cientistas do clima e sistemas terrestres, como Johan Rockström e outros investigadores seniores, lideram a explicação sobre as fronteiras planetárias e os pontos de não retorno (tipping points), como o risco de savanização da Amazónia e a urgência de manter o aquecimento global abaixo dos 1,5 °C. Por sua vez, os representantes da indústria agrícola, nomeadamente da Bayer, discutem o papel do investimento em Investigação e Desenvolvimento (I&D) privado no melhoramento de sementes, a estagnação recente da produtividade devido ao clima e a criação de ferramentas digitais ou seguros para apoiar os pequenos agricultores no Sul Global. A encerrar o painel, os inovadores e empreendedores de biotecnologia, como a equipa da Hedgehog, explicam o desenvolvimento de novas tecnologias agroalimentares, com particular destaque para o cultivo vertical e otimizado de micélio e fungos, capaz de criar proteínas altamente eficientes sem exercer pressão adicional sobre a terra.

A substituição da proteína animal por fungos é apresentada como uma solução essencial para os sistemas alimentares sob pressão climática, focando-se na eficiência biológica deste reino. De acordo com os especialistas do filme, enquanto a pecuária tradicional exige grandes extensões de terra, gera emissões elevadas e é altamente vulnerável a secas e quebras de colheita de ração, os fungos podem ser cultivados em ambientes fechados e controlados, totalmente protegidos de eventos meteorológicos extremos. A grande vantagem está na capacidade do micélio (a estrutura fibrosa dos fungos) de realizar uma bioconversão eficiente, transformando resíduos e subprodutos agrícolas de baixo valor biológico numa proteína altamente nutritiva e rica em fibras, com uma fração minúscula do uso de água e solo exigido pelos animais. Além disso, o documentário detalha que o uso de automação, robótica e inteligência artificial permite otimizar as condições atmosféricas e de substrato para acelerar o crescimento dos fungos, reduzindo drasticamente os custos de produção e tornando esta alternativa economicamente viável para o consumo em massa.

Em relação à autoria e liderança destas iniciativas no documentário, vale a pena notar que o principal porta-voz e especialista responsável por apresentar esta tecnologia específica de quintas robóticas de cogumelos é um investigador e trata-se de Jamie Balsillie, CEO e cofundador da startup de tecnologia climática Hedgehog. É ele o especialista encarregado de explicar como transformar os fungos numa fonte de proteína acessível e de baixo impacto ambiental a partir do reaproveitamento de resíduos. Se estiver a pensar na liderança feminina principal presente no segmento de inovação agrícola desse mesmo documentário, o filme destaca a investigadora e empreendedora Shely Aronov, que é CEO e cofundadora da InnerPlant, uma startup focada em engenharia de sementes que faz com que as plantas emitam sinais óticos detetáveis por satélite quando sofrem de stresse climático.

terça-feira, 7 de abril de 2026

US is ‘using Mexico as a garbage sink’ leading to ‘toxic crisis’, UN expert says


Mexico is facing a “toxic crisis” and has become a “garbage sink” for the US, exposing Mexican communities to dangerous pollution, a UN expert has warned.

In an interview with the Guardian and Quinto Elemento Lab, an investigative outlet, Marcos Orellana, an environmental specialist, said pollutants ranging from imported waste to dangerous pesticides were affecting people’s right to live healthy lives.

Orellana, whose title is UN special rapporteur on toxics and human rights, conducted an 11-day investigative mission in Mexico last month to learn about toxic threats facing its population. He said he found lax environmental standards and a lack of oversight, which have allowed pollution to accumulate over the years.

“Where standards are weak, what you get is legalized pollution,” he said, adding that imports of hazardous and plastic waste from the United States were worsening the situation.

“US overconsumption and economic activity are using Mexico as a garbage sink.”

The rapporteur said there were more than 1,000 contaminated locations officially recorded in Mexico’s National Inventory of Contaminated Sites, many of which he said had become “sacrifice zones”, where diseases such as cancer, and medical events such as miscarriages, were normalized.

In a preliminary report summarizing his visit, he cited factories spewing hazardous waste into the Atoyac River in Puebla, huge industrial pig farms contaminating drinking water on the Yucatan peninsula and a decade-old mining chemical spill that continued to affect health in communities around the Sonora River.

He said many of these situations left residents struggling with dire health effects.

A resident collects water outside their home in the Arizpe community, Sonora state, Mexico, in 2014, when a copper mine leaked 40,000 cubic meters of sulfuric acid into the Sonora River, seriously polluting the water way. Photograph: Héctor Guerrero/AFP/Getty Images

“As I heard during one meeting: living in a sacrifice zone means losing the right to die of old age,” he wrote.

He cited one place he visited, the industrial corridor of Tula in the central Mexican state of Hidalgo, where steel plants, cement factories and petrochemical facilities operate near a river polluted by industrial waste and untreated sewage from Mexico City. He said proposals to bring in additional waste for recycling would only add to an already devastating environmental burden on communities there.

Meanwhile, companies are not held responsible for preventing, mitigating and repairing the damage, he said.

The result, he said, was the “legalized poisoning of people”.

The rapporteur highlighted the influx of plastic waste from the United States. He said once this waste crosses the border, there is often little clarity about its final destinations. In addition, he said he was concerned that microscopic plastic particles had been detected in rivers such as the Tecate in Baja California, the Atoyac in Puebla and the Jamapa in Veracruz.

This view shows a section of the Pemex thermoelectric plant and refinery in Tula de Allende, Hidalgo state, Mexico, in August 2024. 

Government records show the US ships hundreds of thousands of tons of hazardous waste to Mexico each year, including lead-acid car batteries, as well as common scrap such as plastic, paper and metal for recycling. Environmental groups have questioned whether the country is equipped to handle all this without it leading to pollution.

Residents in Monterrey, which serves as a US manufacturing hub and suffers some of the worst air pollution in North America, welcomed the rapporteur’s calls for more attention to the health of Mexico’s people.

María Enríquez, a mother and activist in Monterrey, who co-founded the environmental group Comité Ecológico Integral, warned that poor air quality has become part of daily life in the city, and residents suffer from rhinitis, eye irritation and asthma attacks.

“We have learned to live sick, especially with respiratory illnesses,” she said.

Guadalupe Rodríguez, director of a network of childcare centers in Monterrey, agreed, saying children in her nursery program were also affected.

“Families consider it normal for children to have constant coughing,” said Rodríguez. She called on the government to do more to enforce Mexico’s constitutional guarantee of a healthy living environment, especially for the most vulnerable. “If they are not protected, the right to health is not being guaranteed.”
People take part in a protest demanding the closure of the Pemex refinery, blaming it for polluting the air, in Monterrey, Mexico, in January 2024.

The rapporteur’s visit, at the invitation of the Mexican government, comes at a time when toxic and hazardous waste are coming under increasing scrutiny in the country.

In Monterrey, residents have been demanding government action to reduce heavy metal pollution, much of it emitted in the air by factories that are manufacturing goods for the US or recycling hazardous US waste.

Already, officials in President Claudia Sheinbaum’s administration have acknowledged that regulatory standards, such as rules for how much pollution factories can emit, are out of date, and have announced plans to strengthen them.

In an interview, Mariana Boy Tamborrell, Mexico’s federal attorney for environmental protection, said her agency had reached a regulatory “turning point”, and would start requiring industries to remediate environmental damage they caused. Her agency is rolling out a new air monitoring system to detect emissions coming from specific facilities, starting in an industrial corridor of Monterrey.

“Then there will be no room for ‘it wasn’t me,’” she said. “We will be able to clearly identify the source.”

The rapporteur said Mexico could adopt restrictions on the import of hazardous waste as a measure to address part of the crisis. He noted that some countries had chosen to ban such imports to avoid becoming destinations for international waste, without undermining their participation in global trade.

Waldo Fernández, a Mexican senator, has already introduced legislation to more strictly regulate imports of waste into Mexico for recycling. The law would prohibit importing waste if it has greater environmental impacts in Mexico than allowed in its country of origin.

Mexico “must not become a dumping ground for toxic waste or a recipient of pollution under commercial pressures”, said Fernández.

The rapporteur also said the upcoming review of the free trade agreement between Mexico, the US and Canada represented an opportunity to strengthen environmental standards and their enforcement.

If they did not, “economic pressure will worsen the toxic crisis”, he said.

segunda-feira, 30 de março de 2026

Earth's Population Has Surpassed The Planet's Capacity



The Earth has already exceeded its ability to support the global population sustainably, with new research warning of increasing pressure on food security, climate stability, and human wellbeing. However, slowing population growth and raising global awareness could still offer humanity some hope.

Published in Environmental Research Letters, the study shows that humans have pushed well beyond the planet’s long-term capacity and that continued growth under current patterns of consumption will intensify environmental and social challenges for communities worldwide.

The research examined more than two centuries of global population data and uncovered a major shift in human population dynamics that began in the mid-twentieth century.

Lead author, Matthew Flinders Professor of Global Ecology Corey Bradshaw, from Flinders University says the trend reveals a clear biological signal that humanity is living far beyond what the Earth can support.

“Earth cannot keep up with the way in which we are using resources. It cannot support even today’s demand without major changes, with our findings showing that we are pushing the planet harder than it can possibly cope,” says Professor Bradshaw from the Global Ecology Laboratory in the College of Science and Engineering.

The researchers, including distinguished Professor Paul Ehrlich who recently passed away, analysed more than two hundred years of global population records and used ecological growth models to track how population size and growth rates have changed over time.

They tested the direction of these trends and compared results across world regions. They also measured how population size has historically aligned with changes in climate, emissions, and the ecological footprint to understand how human numbers cause environmental stress.

The study found that before the 1950s, global population growth actually sped up as human abundance increased. More people meant more innovation, more energy use, and more rapid technological development that supported further expansion.

However, this pattern broke down in the early 1960s when the global growth rate began to fall even as the population continued to rise.

“This shift marked the beginning of what we call ‘a negative demographic phase,” says Professor Bradshaw.

“It means that adding more people no longer translates into faster growth. When we examined this phase, we found the global population is likely to peak somewhere between 11.7 and 12.4 billion people by the late 2060s or 2070s if current trends hold.”

Professor Bradshaw says this upper limit is dangerous and has only been possible to date because human societies have relied on fossil fuels and drained natural resources faster than nature can replace them.

“The truly sustainable population is much lower and closer to what the world supported in the mid-twentieth century. Our calculations show a sustainable global population closer to about 2.5 billion people if everyone were to live within ecological limits and comfortable, economically secure living standards,” he says.

The researchers say the enormous gap between that sustainable number and today’s population of now 8.3 billion highlights the scale of global overconsumption. They argue that this overshoot has been hidden for decades by heavy reliance on fossil fuels, which boosted food production, energy supply, and industry, but also accelerated climate change and pollution.

The study shows a strong link between increasing population size and rising global temperatures, larger ecological footprints, and higher carbon emissions during the negative phase. Total population size explained more variation in these environmental indicators than per-capita consumption.

Professor Bradshaw says this highlights how both human numbers and consumption patterns jointly intensify environmental stress. “Humanity’s current path will push societies into deeper crises unless we make major changes,” he says.

“The planet’s life support systems are already under strain and without rapid shifts in how we use energy, land, and food, billions of people will face increasing instability. Our study shows these limits are not theoretical but unfolding right now.”

The researchers stress that the study does not predict sudden collapse, but instead offers a realistic assessment of the long-term pressures shaping humanity’s future. The consequences of overshooting Earth’s ‘biocapacity’ include stronger climate impacts, declining biodiversity, reduced food and water security, and widening inequality.

Professor Bradshaw says society must rethink how it uses land, water, energy, and materials if future generations are to live safe and stable lives.

“Smaller populations with lower consumption create better outcomes for both people and the planet,” he says. “The window to act is narrowing, but meaningful change is still achievable if nations work together.”

The team hopes the findings encourage governments, organisations, and communities to plan for the long term, recognise Earth’s environmental limits, and focus on strategies that reduce consumption, stabilise population, and protect natural systems.

“The choices we make over the coming decades will determine the wellbeing of future generations and the resilience of the natural world that supports all life,” concludes Professor Bradshaw.

Acknowledgements:

The Kids Research Institute Australia and Population Matters supported various aspects of the project.

The paper, ‘‘Global human population has surpassed Earth’s sustainable carrying capacity’ by Corey J.A. Bradshaw, Melinda A. Judge (University of Western Australia), Daniel T. Blumstein (University of California, USA), Paul R. Ehrlich (Stanford University, USA), Aisha N. Dasgupta (University of Cambridge, UK), Mathis Wackernagel (University of California, USA), Lewis J.Z. Weeda (University of Western Australia) and Peter N. Le Souëf (University of Western Australia) was published in Environmental Research Letters. DOI: 10.1088/1748-9326/ae51aa

sábado, 21 de março de 2026

Dia Mundial dos Glaciares: Por que o Destino dos Glaciares é o Nosso Próprio Destino


No calendário global, o dia 21 de março costuma ser associado ao início da primavera no hemisfério norte, um símbolo de renovação. No entanto, desde que a Assembleia Geral da ONU proclamou esta data como o Dia Mundial da Preservação dos Glaciares, o foco mudou para a conservação crítica do que já temos — e do que estamos prestes a perder. Os glaciares não são apenas blocos estáticos de gelo; são "sentinelas" que moldam a geologia, regulam a temperatura e sustentam a vida humana.

A ciência por trás da sua importância é fascinante e, ao mesmo tempo, alarmante. Estas massas de gelo funcionam como o sistema de refrigeração da Terra através do efeito albedo. Quando a radiação solar atinge a superfície branca e brilhante de um glaciar, a maior parte dessa energia é refletida de volta para o espaço. À medida que o gelo derrete e expõe a rocha escura ou o oceano abaixo, a taxa de absorção de calor aumenta. É um equilíbrio delicado que pode ser resumido pela relação física onde a variação da temperatura  é inversamente proporcional à capacidade de reflexão da superfície (efeito albedo). Pode imaginar o efeito albedo como o sistema de 'espelhos' da Terra. Os glaciares brancos refletem até 90% da luz solar de volta para o espaço, mantendo o planeta fresco. No entanto, quando o gelo derrete e expõe a rocha escura ou o oceano, a superfície passa a absorver a energia solar. Em termos físicos, a redução da refletividade (albedo) resulta num aumento catastrófico da absorção de calor. O infográfico abaixo ilustra claramente este ciclo de aquecimento.




O Ponto de Inflexão
De acordo com o Relatório AR6 do IPCC, a influência humana é 'inequívoca' no recuo global dos glaciares desde a década de 199. Os dados revelam que estamos a perder cerca de 220 mil milhões de toneladas de gelo anualmente, um ritmo que coloca ecossistemas inteiros num ponto de inflexão. Isto significa que certas perdas glaciares tornaram-se irreversíveis, independentemente dos nossos esforços imediatos. O recuo nestas áreas aumenta o risco de inundações catastróficas e, a longo prazo, de secas severas. O impacto não é apenas visual; é uma ameaça direta à segurança hídrica de mil milhões de pessoas que dependem destas fontes de água doce. 

No entanto, o Dia Mundial dos Glaciares não serve apenas para lamentar perdas. É um convite à ação. Do majestoso Perito Moreno na Argentina às cavernas de gelo azul do Vatnajökull na Islândia, estas estruturas guardam a história do nosso clima. Cada bolha de ar presa no gelo profundo é um registo atmosférico de milhares de anos — uma biblioteca congelada que projetos como o Ice Memory tentam salvaguardar em "santuários de gelo" na Antártida.

Porém a rapidez com que o restante gelo desaparece ainda depende das nossas ações hoje. Estima-se que mais de mil milhões de pessoas dependam do degelo sazonal para obter água potável, irrigação e energia. Regiões como os Andes e os Himalaias (o "Terceiro Polo") estão na linha da frente.  

Em 2026, a mensagem da ONU é clara: os glaciares são os "Guardiões do Futuro da Terra". Preservá-los é indissociável das metas de emissões zero. Reduzir a nossa pegada de carbono não é apenas um conceito abstrato; é o esforço direto para manter estes gigantes vivos. Ao celebrarmos este dia, devemos olhar para o gelo não como algo distante, mas como o espelho do nosso próprio destino. Se o gelo respira, nós respiramos.

Para saber mais:
World Glacier Monitoring Service (WGMS) - Global Glacier Change Bulletin

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Rutura climática pode reduzir capacidade de terras para pastagem em 50% até 2100


Entre um terço e 50% das terras que têm hoje condições favoráveis para pastagens vão perder essa capacidade até 2100, devido ao aumento da temperatura, concluiu um estudo do Instituto de investigação de Potsdam sobre as alterações climáticas (PIK).

Esta atividade consiste em criar animais, como vacas, cabras e ovelhas, em espaços naturais, pradarias, na sua maioria, que cobrem cerca de um terço da superfície terrestre.

Até agora, estes sistemas agrícolas têm prosperado dentro de intervalos de temperatura (entre 3ºC negativos e 29°C), de precipitação (entre 50 e 2627 milímetros por ano), de humidade (de 39% a 67%) e velocidade do vento (entre um metro e seis metros por segundo).

É o que o estudo, publicado hoje na revista PNAS, chama “um espaço climático seguro”.

Mas, com a rutura climática global, estes parâmetros podem mudar e inutilizar um espaço de pastagem.

“As alterações climáticas vão reduzir os espaços onde a pastagem pode prosperar, comprometendo práticas agrícolas que existem desde há séculos”, disse Maximilian Kotz, co-autor do estudo e investigador do PIK e do Barcelona Supercomputing Center.

Segundo o cenário analisado, o estudo estima que entre 100 milhões a 400 milhões de pastores e criadores de gado podem ser afetados, bem como até 1,6 milhões de animais. O estudo estima que entre 51% e 81% das populações residem em países com fraco rendimento.

“É importante sublinhar que numerosas mudanças vão ser sentidas em países que já sofrem fome, instabilidade económica e política e níveis muito elevados de desigualdade de género”, realçou o autor principal, Chaohui Li, investigador do PIK na altura da realização do estudo e hoje no Barcelona Supercomputing Center.

A África é particularmente vulnerável e pode perder de 16% a 65% das suas pradarias, segundo a gravidade do cenário considerado.

As temperaturas no continente africano já se situam no limite do “espaço climático seguro”.

Estas conclusões, que em certos casos preveem o desaparecimento puro e simples de algumas pastagens, colocam em questão “a eficácia das estratégias de adaptação (…), como as mudanças de espécies ou a migração de rebanhos”, disse Prajal Pradhan, investigador do PIK e professor na Universidade de Groningue.

“Reduzir as emissões, através do afastamento rápido os combustíveis fósseis é a melhor estratégia de que dispomos para minimizar estes estragos potencialmente existenciais para a criação de gado”, concluiu Chaohui Li.

Segundo a agência da ONU para a alimentação e a agricultura, 26% da superfície terrestre e 70% da superfície agrícola estão cobertos de pradarias, que contribuem para a subsistência de mais de 800 milhões de pessoas

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Crise climática leva a colapso? Não podemos resgatar a Terra como fizemos com os bancos


Os Estados e as instituições financeiras utilizam modelos que ignoram choques de eventos climáticos extremos. Diagnóstico de um relatório da Universidade de Exeter e do centro de reflexão Carbon Tracker Initiative. Modelos económicos com falhas significam que o impacto acelerado da crise climática pode levar a um colapso financeiro global, alertam os especialistas. A recuperação seria muito mais difícil do que após a crise financeira de 2008, afirmam, pois “não podemos resgatar a Terra como fizemos com os bancos”. À medida que o mundo se aproxima de um aquecimento global de 2°C, os riscos de desastres climáticos extremos e de pontos de inflexão climáticos estão a aumentar rapidamente.

Mas os atuais modelos económicos utilizados pelos governos e pelas instituições financeiras ignoram completamente estes choques, revelaram os investigadores, prevendo, em vez disso, que o crescimento económico estável será abrandado apenas pelo aumento gradual das temperaturas médias.

Isto porque os modelos assumem que o futuro se comportará como o passado, apesar da queima de combustíveis fósseis estar a conduzir o sistema climático para um território desconhecido.

Pontos de viragem, como o colapso de correntes atlânticas críticas ou da camada de gelo da Gronelândia, teriam consequências globais para a sociedade. Alguns países estão nos seus pontos de viragem, ou muito próximos deles, mas o momento exato é difícil de prever.

Os desastres climáticos extremos combinados podem dizimar as economias nacionais, advertem investigadores da Universidade de Exeter e do think tank financeiro Carbon Tracker Initiative.

O relatório, intitulado “Recalibrar o Risco Climático”, conclui que os governos, os reguladores e os gestores financeiros devem prestar muito mais atenção a estes riscos de alto impacto, mas de baixa probabilidade, porque evitar consequências irreversíveis reduzindo as emissões de carbono é muito mais barato do que tentar lidar com elas.

“Não estamos a lidar com ajustes económicos controláveis”, afirmou ao jornal britânico The Guardian Jesse Abrams, da Universidade de Exeter.

“Os cientistas climáticos que entrevistámos foram inequívocos: os modelos económicos atuais não conseguem captar o que mais importa – as falhas em cascata e os choques cumulativos que definem o risco climático num mundo mais quente – e podem minar os próprios fundamentos do crescimento económico”, acrescentou.

Segundo Jesse Abrams, “para as instituições financeiras e decisores políticos, trata-se de uma leitura fundamentalmente errada dos riscos que enfrentamos”.

“Estamos a pensar em algo como a crise de 2008, mas da qual não conseguiremos recuperar. Uma vez que tenhamos um colapso do ecossistema ou um colapso climático, não poderemos resgatar a Terra como fizemos com os bancos”.

Para Mark Campanale, CEO da Carbon Tracker, “o resultado líquido de um aconselhamento económico com falhas é a complacência generalizada entre investidores e decisores políticos. Há uma tendência em certos departamentos governamentais para trivializar os impactos do clima na economia para evitar tomar decisões difíceis hoje em dia. Este é um grande problema – as consequências do atraso são catastróficas”.

Já Hetal Patel, do Phoenix Group, que gere cerca de 300 mil milhões de libras (cerca de 346 mil milhões de euros) em investimentos a longo prazo para os seus clientes, considera que, “subestimar o risco físico não só distorce as decisões de investimento, como também minimiza as consequências no mundo real que, em última análise, afetarão a sociedade como um todo”. Os especialistas previram em 2025 que a economia global poderia enfrentar uma perda de 50 por cento do PIB entre 2070 e 2090 devido a choques climáticos catastróficos, um valor muito superior às estimativas anteriores.

O novo relatório baseou-se em pareceres de 68 cientistas climáticos de instituições de investigação e agências governamentais do Reino Unido, Estados Unidos, China e outros nove países.

Uma das principais conclusões foi que, embora a modelação económica associe tradicionalmente os danos climáticos às alterações das temperaturas médias, as sociedades e os mercados sofrem mais com eventos extremos, como ondas de calor, inundações e secas.

Outra conclusão foi a de que o PIB pode mascarar o custo total dos danos climáticos, ao não contabilizar as mortes e doenças, as perturbações sociais e a degradação dos ecossistemas. O Produto Interno Bruto (PIB) pode, inclusive, aumentar após desastres devido aos gastos com a recuperação, acrescentaram os investigadores.

Os especialistas afirmaram que, em vez de se esperar por modelos de risco perfeitos, deve ser dada maior ênfase aos eventos extremos, e não apenas às estimativas centrais, e à vulnerabilidade de todo o sistema financeiro. Os investidores devem também acelerar a transição para longe dos combustíveis fósseis como uma obrigação fiduciária para evitar grandes perdas futuras, acrescentou Mark Campanale.

Os modelos económicos atuais podem fornecer estimativas de perdas que parecem precisas, mas que os cientistas consideram extremamente otimistas. "Há quem diga que teremos uma perda de 10 por cento do PIB com um aquecimento global entre os 3°C e os 4°C, mas os cientistas climáticos afirmam que a economia e a sociedade deixarão de funcionar como as conhecemos. Há uma grande discrepância", explicou Jesse Abrams.

Segundo Laurie Laybourn, da Strategic Climate Risks Initiative, “estamos a experienciar uma mudança paradigmática na velocidade, escala e gravidade dos riscos impulsionados pela crise climática e ambiental. No entanto, muitas regulamentações e ações governamentais estão perigosamente desligadas da realidade".

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domingo, 30 de novembro de 2025

A silent catastrophe: 600 dead while the world looks away


Did you know that more than 4 million people have been affected by catastrophic floods in Southeast Asia this week and more than 600 have already died?

While much of the Western world went about its normal routines, a climate-charged humanitarian disaster was unfolding across Indonesia, Thailand and Malaysia. According to a recent report from Reuters, over 4 million people have now been directly impacted. Entire communities vanished under water. Families were swept away in the night. Roads crumbled. Landslides buried homes with people still inside. Survivors clung to rooftops as rivers exploded out of their banks and swallowed everything in their path. More than 600 lives lost in a few days and yet Western media attention remains fleeting.

“Research published in 2025 found that global media coverage of natural disasters is heavily skewed toward events in countries with close social or genetic ties to the reporting country meaning that catastrophes in many climate-vulnerable regions are largely ignored.”

A week of unimaginable human suffering
In the hardest-hit areas of Indonesia, the death toll climbed to at least 303. Rescue agencies report many missing, entire villages unreachable because roads and communications infrastructure washed away. In southern Thailand, flooding and landslides pushed fatalities into the high hundreds; in some provinces morgues became overwhelmed. Across the region, tens of thousands have been displaced, homes destroyed beyond repair, farmland submerged or swept away, and local economies devastated. Villages remain cut off inside debris-filled flood zones even as relief efforts struggle to reach them.
Behind every statistic there is a human reality:
⚠️ Children wading through waist-deep muddy water after schools collapsed.
⚠️ Parents carrying their children on their backs through flooded roads, uncertain if home still stands.
⚠️ Families living on damp floors or makeshift shelters, hungry, cold, and terrified as rain continues to fall.
⚠️ Farmers staring at drowned fields, their harvests ruined, livelihoods destroyed, futures uncertain.

This is not a disaster. It is collective trauma. This is not “just monsoon season” — this is climate disruption in real time The scale, intensity, and unpredictability of the flooding are not random. Scientists have long warned that a warming world brings heavier rainfall, more volatile storm systems, and increased risk of extreme floods. Warmer air can hold more moisture; warmer seas feed storms; the result is more frequent and more intense rainfall events. Many experts say that what Southeast Asia is enduring now; unusual, catastrophic floods across multiple countries at once is precisely the kind of climate-driven extreme weather that belongs to the future. Today it is the present. This horrific upheaval should not be dismissed as “just bad luck.” It must be seen as a warning, evidence of a planet growing increasingly unstable under human-induced climate change.

Why the world’s silence is so dangerous
When more than 4 million people are affected and 600+ die in a few days — and yet global attention remains shallow — something fundamental is broken. If tragedies in the Global South are treated as distant background noise. If the suffering of millions remains largely invisible to the world’s richest and most powerful countries.If disasters fueled by climate disruption are not met with sustained global solidarity — then we are not just failing in empathy. We are failing in foresight.

Selective attention kills urgency
And without urgency, we will never mount the global response such a crisis demands. And while Asia drowned, something else happened in London This same week, the UK hosted the first-ever National Emergency Briefing at Westminster Central Hall — gathering more than a thousand politicians, business leaders, media figures, faith and community voices, all briefed by a panel of top scientists, health-, food- and security-experts.

The message delivered behind closed doors was unambiguous: the climate and nature crisis is already a national security threat. The same forces tearing apart lives in Southeast Asia — extreme rainfall, destabilized weather patterns, overwhelmed infrastructure — can strike any country.

What climate-driven disasters trigger there, they can trigger here. The flooding in Asia is not a distant regional catastrophe. It is a front-line preview of what could happen anywhere including countries in the Global North. This is not a regional crisis. This is a national emergency everywhere. The floods decimating lives across Southeast Asia are not “somebody else’s problem.” They are a warning — raw, unfiltered, urgent. If we cannot look at the suffering of 4 million people today.If we cannot grant their lives the dignity of our attention.

Then how will we protect our own tomorrow?
Because geography will not protect us from climate collapse. Borders will not stop rising waters. Storms will not ask permission. The question is not if it will happen here — But when. If we stay asleep, the water will open our eyes but that will be too late. One powerful way to wake up the people in charge is to do what a group of courageous scientists and civil-society leaders just did in the UK: host a National Emergency Briefing and put political leaders directly in front of the facts. Bringing politicians into the same room as independent experts without spin, without filters, without delay, is one of the most effective tools we have to cut through denial and inertia. We Don’t Have Time is proud to be the official media partner for this groundbreaking initiative. On this page, you can rewatch the full briefing, hear from the scientists themselves, and learn how the model works:




terça-feira, 18 de novembro de 2025

Aquecimento acelera, enquanto resiliência do sistema terrestre diminui, indica relatório lançado na COP30



Os cientistas do clima estão mais preocupados do que nunca, afirma Johan Rockström, diretor do Instituto Potsdam para Pesquisa sobre Impacto Climático, da Alemanha. O cientista sueco, que propôs o conceito de limites planetários para definir as margens seguras para a pressão humana sobre processos ambientais essenciais para a estabilidade do planeta, tem chamado a atenção, com diversos outros pesquisadores, para novas evidências científicas que indicam que o aquecimento global está acelerando, enquanto a resiliência do sistema terrestre diminui.

“Estamos em apuros. O planeta está mostrando os primeiros sinais de redução da capacidade de amortecer e resfriar o estresse que estamos causando por meio de nossas emissões de gases de efeito estufa. Estamos nos aproximando rapidamente do ponto de inflexão e precisamos agir mais rápido do que temos feito até agora”, disse Rockström em palestra de inauguração do Pavilhão da Ciência Planetária, no primeiro dia da COP30.

Um relatório coordenado pelo pesquisador, lançado em setembro, indicou que sete de nove limites da segurança planetária já foram ultrapassados. Entre eles, as mudanças climáticas, a integridade da biosfera, o uso do solo, o uso de água doce, os ciclos biogeoquímicos (nitrogénio e fósforo) e a introdução de novas entidades (como produtos químicos e plásticos).

Agora, um novo relatório elaborado por 70 renomados cientistas de 21 países – entre eles do Brasil –, que foi lançado oficialmente durante a COP30, aponta que os sumidouros naturais de carbono do planeta – entre eles as florestas tropicais – estão atingindo limites críticos, absorvendo menos emissões que as esperadas, enquanto décadas de mudança climática têm debilitado sua capacidade.

Até o oceano, outro sumidouro vital de carbono e calor, está absorvendo menos dióxido de carbono (CO2), enquanto intensas ondas de calor marinhas devastam os ecossistemas e os meios de subsistência costeiros.

“O planeta inteiro está apresentando sinais de diminuição na capacidade de absorção de carbono”, disse Rockström, que é membro do conselho editorial do relatório. “A maior preocupação, com base nos dados atuais, reside nas regiões temperada e boreal e na zona do permafrost [solo congelado em regiões muito frias que retém gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono]”, disse Rockström.

De acordo com dados compilados para o relatório, os ecossistemas do hemisfério Norte começaram a indicar, a partir de 2016, uma redução na capacidade de absorção de carbono.

“Isso está a ficar muito preocupante porque sabemos que muitas áreas da parte brasileira da floresta amazônica já deixaram de ser sumidouros e se tornaram fontes de carbono, mas a mesma coisa está acontecendo com as florestas temperadas e boreais”, ponderou.

Remoção de dióxido de carbono
A ampliação da remoção de dióxido de carbono (CDR, na sigla em inglês) é necessária para complementar – e não substituir – cortes rápidos nas emissões, ponderam os autores do relatório.

O desenvolvimento de diretrizes internacionais robustas e o apoio à pesquisa e à inovação são essenciais para preencher a lacuna de CDR e apoiar tanto as metas de curto prazo quanto a estabilidade climática de longo prazo, garantindo, ao mesmo tempo, salvaguardas ambientais e sociais, apontam.

“As políticas climáticas mais ambiciosas discutidas hoje visam reduzir as emissões em 45% até 2030 e ter uma economia mundial com emissões líquidas zero até 2050, mas ninguém está cumprindo essa meta. Se não ampliarmos a CDR, teremos que descarbonizar a economia global até 2040”, apontou Rockström.

Segundo o cientista, mesmo com as melhores atualizações das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, na sigla em inglês) pelos países, será possível conseguir reduzir as emissões globais em 5% até 2035. Mas as evidências científicas mostram que esse ritmo não será suficiente, ponderou.

“Na verdade, precisamos reduzir as emissões em 5% por ano, e não por década. É isso que a ciência nos diz para, no mínimo, desviar do perigo”, sublinhou.

Subsídio para as negociações
O relatório é fruto de uma iniciativa da Future Earth, da Earth League e do Programa Mundial de Pesquisa Climática, que todos os anos reúnem alguns dos principais cientistas do clima de todo o mundo para analisar as descobertas mais urgentes na pesquisa sobre mudanças climáticas. Os resultados são apresentados num artigo acadêmico revisado por pares e um relatório de ciência e política para oferecer uma síntese aos formuladores de políticas e à sociedade em geral para subsidiar as negociações das COPs.

“Espero que as conclusões do relatório estimulem o senso de urgência nos formuladores de políticas para que comecem a agir com base nas descobertas científicas”, disse Deliang Chen, professor da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, e um dos autores da síntese.

O relatório é complementar aos publicados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), mas com algumas diferenças, comparam os autores.

“Analisamos, todos os anos, os dados científicos do ano anterior que mostram evidências relacionadas às mudanças climáticas e sintetizamos isso em uma mensagem muito clara e direta. Esperamos que isso funcione de forma muito mais eficiente para a formulação de políticas e, de fato, subsidie as ações que serão tomadas e as negociações”, disse Regina Rodrigues, pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e uma das autoras da publicação.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

“Nova realidade”: Relatório revela que o mundo atingiu o primeiro ponto de não retorno climático



O mundo ultrapassou o primeiro de vários “pontos de não retorno”, avisam especialistas, com consequências potencialmente catastróficas para a humanidade e para a natureza, caso não haja uma ação urgente.

O alerta é feito no segundo Relatório Global Tipping Points (Pontos de Não Retorno), que será lançado na próxima semana pela WWF Internacional, em parceria com a Universidade de Exeter e outros parceiros científicos internacionais, antecedendo a Cimeira COP30, no Brasil.

Este novo relatório, diz a organização ambientalista, revela que os recifes de coral de águas quentes – dos quais dependem quase mil milhões de pessoas e cerca de um quarto da vida marinha – estão já a sofrer uma mortalidade generalizada, sinal de que o primeiro ponto de não retorno climático foi atingido. Mesmo que o aquecimento global seja estabilizado nos 1,5°C, é praticamente certo que os recifes ultrapassem o seu limite térmico, levando à perda de recifes em larga escala, a menos que a temperatura global regresse para cerca de 1°C.

“Pequenas áreas de recifes poderão sobreviver e devem ser protegidas com medidas de conservação urgentes”, defende a WWF.

O relatório alerta ainda para a iminência de outros pontos de não retorno: o colapso da Floresta Amazónica, onde irá realizar-se a COP30, o degelo irreversível das calotas polares e a desestabilização da Circulação Meridional de Reviravolta do Atlântico (AMOC), uma corrente oceânica vital para o clima global.

Explica a WWF que o colapso da AMOC poderá ocorrer com menos de 2°C de aquecimento e terá como consequências invernos mais rigorosos no noroeste da Europa, perturbações na época de monções da África Ocidental e da Índia, e quebras significativas nos rendimentos agrícolas em várias regiões do mundo, colocando em risco a segurança alimentar global.

A publicação deste relatório surge num momento crítico, com os ministros reunidos nas vésperas da Cimeira da COP30, no Brasil, salienta a organização. O documento, elaborado por 160 cientistas de 87 instituições em 23 países, defende que os países devem agir imediatamente para minimizar a ultrapassagem do limite de 1,5°C, uma vez que cada fração de grau e cada ano passado acima desse valor aumentam significativamente o risco de atravessar pontos de não retorno nos sistemas naturais.

Para contrariar este cenário, os autores do relatório defendem a necessidade de desencadear “pontos de viragem positivos” – como a rápida adoção de tecnologias limpas e soluções baseadas na natureza.

Estes processos já estão em curso em áreas como as energias solar e eólica, a adoção de veículos elétricos, o armazenamento em baterias e o uso de bombas de calor, especialmente em mercados-chave. Mudanças no consumo e na produção podem também desencadear pontos de viragem positivos em setores como a alimentação, contribuindo para travar a desflorestação e restaurar ecossistemas.

“A preocupação com as alterações climáticas está a crescer globalmente – e mesmo um número reduzido de pessoas pode levar a maioria a mudar”, declara a WWF.

“Governos, empresas, sociedade civil e indivíduos têm todos um papel a desempenhar. As pessoas compreendem a necessidade de mudança e apoiam a transição para um mundo mais limpo e saudável, desde que essa transição seja justa.”

Alice Fonseca, Climate & Policy Officer da WWF Portugal, avança que “o que este relatório nos diz é que já começámos a ultrapassar os pontos de não retorno da natureza e do clima”.

“O tempo para agir está realmente a esgotar-se, mas ainda podemos conter os danos. Para isso, é necessária uma ação imediata e decisiva por parte dos líderes mundiais na COP30 – para proteger os direitos das pessoas em todo o mundo, já que as metas atuais e contributos de cada país não são suficientes. Mas também é preciso alavancar pontos de viragem positivos. Restaurar a natureza é uma das formas mais poderosas de o fazer, sendo essencial para criar resiliência, remover carbono da atmosfera e apoiar a subsistência das comunidades. Precisamos de acelerar esta e outras transformações com ações coordenadas entre governos, empresas e sociedade civil”, aponta a especialista.

O relatório destaca ainda que os pontos de não retorno representam uma ameaça distinta das restantes crises ambientais, exigindo uma resposta mais ágil e inovadora por parte das instituições. Diz a WWF que as políticas atuais não estão preparadas para lidar com fenómenos abruptos e irreversíveis, pelo que é necessário agir com urgência, apoiando a transformação social e desencadeando “pontos de viragem positivos”, como a adoção em massa de tecnologias verdes.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Curta-Metragem de Steve Cutts - The Turning Point


A natureza não precisa de nós.
Nós é que precisamos da natureza.

E este brilhante vídeo de Steve Cutts traz isso para casa mais do que nunca.
Pergunta, e se os animais nos tratassem. A forma como os tratamos.
E é assustador.
A verdade?
Isto é realmente um reflexo da nossa realidade.
Está a acontecer.

Desde 1970:
→ Declínio de 83% das populações de vertebrados de água doce
→ 1 milhão de espécies em risco de extinção
→ Declínio de 69% nas populações de vida selvagem

Isto significa:
- Propagação de doenças
- Perda de meios de subsistência
- Menor segurança alimentar
- Diminuição da água potável
- Perda de espaços trazendo paz e conexão à Terra
- 44 biliões de dólares do PIB global (mais de metade do total mundial) em risco

Fontes: WWF, IPBES e Fórum Económico Mundial

sábado, 9 de dezembro de 2023

“Numa trajetória desastrosa”: Cientistas alertam para risco de cinco pontos de inflexão da Terra


O aquecimento médio do planeta continua a progredir, impulsionado pelas emissões de gases com efeito de estufa geradas pelas atividades humanas e pela degradação e destruição da Natureza. Em 2015, em Paris, os governos do mundo acordaram que era preciso agir para impedir que a Terra aqueça mais do que 1,5 graus até ao final do século.

De ano para ano, surgem alertas de novos recordes de temperaturas máximas, de secas intensas, de incêndios devastadores e de tempestades sem precedentes, e, com isso, multiplicam-se o alertas de que é preciso fazer mais, melhor e mais rapidamente.

Apesar de ainda se considerar que nem tudo está para já perdido e que há tempo, mesmo que pouco, e conhecimento suficiente para alcançar esse objetivo, a janela de oportunidade está a fechar-se rapidamente e as ações climáticas tardam em chegar.

De acordo com os mais de 200 investigadores do projeto internacional Global Tipping Points, se nada for feito para contrariar essa tendência, a Terra poderá ultrapassar, pelo menos, cinco limiares naturais, pontos de inflexão em que pequenas alterações podem resultar em transformações rápidas e profundas, e além dos quais consequências negativas para a humanidade e para a Natureza podem ser irreversíveis. E três deles podem ser cruzados já na próxima década.

Num comunicado divulgado pela Universidade de Exeter, que coordenou o trabalho, os cientistas dizem que esta é “a avaliação dos pontos de inflexão mais abrangente alguma vez feita” e explicam que “a humanidade está atualmente numa trajetória desastrosa”.

Entre os limiares que poderão ser ultrapassados nos próximos anos, os cientistas destacam o colapso de grandes mantos de gelo na Gronelândia e na Antártida ocidental, o derretimento do pergelissolo (ou permafrost), a mortalidade generalizada de recifes de corais de água quente e o colapso da circulação atmosférica no Atlântico Norte.

Para Tim Lenton, um dos investigadores, “os pontos de inflexão no sistema da Terra representam ameaças de uma magnitude nunca antes enfrentada pela humanidade” e “podem provocar efeitos em dominó devastadores, incluindo a perda de ecossistemas inteiros e a capacidade para fazer uma agricultura estável, com impactos sociais que incluem deslocações em massa, instabilidade política e colapso financeiro”.

A investigação analisou 26 “pontos de inflexão negativos do sistema da Terra” e concluiu que “a atual governança global não é adequada à escala do desafio”, e que a manutenção do estado de coisas “já não é possível”, visto que “rápidas alterações na natureza e nas sociedades estão já a acontecer, e mais estão para vir”.

“Sem ação urgente para travar as crises climática e ecológica, as sociedades serão assoberbadas, enquanto o mundo natural se degrada”, avisam.

Apesar do tom alarmista do relatório, os cientistas acreditam que é possível promover “pontos de inflexão positivos”, que permitam contrair os negativos e manter o planeta numa rota de sustentabilidade.

“Uma cascata de pontos de inflexão positivos salvaria milhões de vidas”, pouparia biliões de dólares em prejuízos provocados por eventos climáticos extremos e permitira “começar a restaurar o mundo natural do qual todos nós dependemos”.

Lenton afirma que ações positivas estão já a ser realizadas, como o fortalecimento da aposta nas energias renováveis, a expansão da mobilidade elétrica e a transição para dietas menos intensas em produtos de origem animal.

Manjana Milkoreit, da Universidade de Oslo e que esteve também envolvida no projeto, considera que ações concretas para evitar os piores cenários “deverá ser o principal objetivo da COP28”.

E os investigadores deixam algumas sugestões para os líderes mundiais: acabar com as emissões dos combustíveis fósseis até 2050, reforçar a adaptação e os mecanismos de financiamento de perdas e danos, coordenar esforços globais para promover pontos de inflexão positivos, criar “uma cimeira global urgente sobre pontos de inflexão” e aprofundar o conhecimento sobre esses fenómenos.

“Resolver as crises climática e da natureza exigirá grandes transições em muitos setores – de mudanças nas dietas ao restauro de florestas”, passando pelo “abandono progressivo do motor de combustão interna”, avisa Kelly Levin, do Bezos Earth Fund, instituição parceira do projeto.