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sábado, 25 de julho de 2026

A Odisseia é ficção. Mas os seus monstros e magia podem ter bases científicas

Pellegrino Tibaldi (1550–1551) - Ulisses acceca Polifemo (em português: Ulisses cega Polifemo)

A Odisseia é um mito. É duvidoso que um homem tivesse demorado, literalmente, uma década a viajar desde Tróia, uma cidade situada na costa da Turquia, até à ilha grega de Ítaca após a guerra de Tróia, tivesse sido amaldiçoado para fazer amor com bruxas, viajado até ao Hades e lutado com um ciclope. Ou, se tivesse mesmo demorado assim tanto tempo, a sua maldição deveria incluir não pedir indicações.

No entanto, o relato da viagem extraordinariamente longa de Ulisses alude a coisas que as pessoas poderão ter encontrado no mundo antigo, desde um ciclope de carne e osso a remoinhos assassinos e plantas alucinogénicas. Seguem-se algumas das realidades científicas por trás das suas lendárias aventuras.

O ciclope
Na história, o ciclope Polifemo - um gigante que aprecia carne humana e, como é óbvio, tem apenas um olho no meio da cabeça - prende a tripulação de Ulisses e come alguns dos seus homens ao almoço. Ulisses cega Polifemo com uma lança aquecida e depois eles conseguem fugir, amarrados às barrigas das ovelhas de Polifemo.

Uma das hipóteses para a origem deste gigante mítico com um só olho encontra-se nos fósseis do Deinotherium giganteum, um parente do elefante que deambulou pela Europa, a Ásia e África há entre 23 e 8 milhões de anos. Paleontólogos desenterraram os seus ossos na ilha de Creta, onde os antigos gregos também os podem ter encontrado. Os crânios de elefante têm cavidades oculares relativamente pequenas, com um orifício enorme no centro. Esse orifício aloja a tromba. Contudo, uma vez que os elefantes alcançavam 4,6 metros à altura do ombro, o enorme crânio poderá ter sido confundido com a cabeça de uma pessoa gigante com um só olho.

No entanto, os gregos também poderiam estar familiarizados com a ciclopia, um defeito congénito raro e mortal, em que as órbitas oculares e o cérebro não se dividem da forma correcta durante o desenvolvimento do embrião humano. Em vez de um nariz, o feto desenvolve um apêndice tubular que aparece geralmente acima de um único olho. A ciclopia só ocorre uma vez em cada 100.000 nascimentos humanos. Infelizmente, 39 por cento são nados-mortos e os que resistem ao nascimento não sobrevivem mais do que 13 horas.

Embora seja uma condição muito rara, os cientistas estimaram que na época d’ A Odisseia, poderiam nascer cerca de 53 casos de ciclopia humana por ano em todo o mundo. Além disso, outras espécies também podem padecer de ciclopia, incluindo ovelhas, vacas e cabras - sobretudo se as progenitoras ingerirem plantas como heléboro.

O monstro e o remoinho
Ulisses escapou a Polifemo de forma inteligente, mas uma vez encurralado entre o monstro marinho Cila, com as suas seis cabeças, e o poderoso remoinho Caríbdis, já não teve tanta sorte. Perdeu a sua tripulação numa tempestade intensa. Na manhã seguinte, Ulisses encontra-se entre os dois. Esta perigosa passagem baseia-se num sítio real – o Estreito de Messina, um canal estreito entre a Calábria, na península itálica, e a ilha da Sicília.

No estreito, o Mar Jónico encontra-se com o Mar Tirreno e os dois corpos de água têm marés opostas – a maré alta no Jónico é maré baixa no Tirreno e vice-versa, diz Sergio Longhitano, sedimentologista da Universidade de Basilicata, em Itália, que publicou um artigo sobre as águas traiçoeiras do estreito em 2018. Por isso, “no meio do Estreito de Messina, existe um ponto conhecido na oceanografia como ponto anfidrómico”, diz Longhitano, onde a altura da água nunca muda.

A altura pode nunca mudar, mas as correntes mudam, acelerando até uns estimados 5 metros por segundo quando há ventos fortes ou tempestades, diz Longhitano. As correntes rápidas e em constante mudança e as marés contrastantes formam padrões estranhos na água. “Por vezes, vêm-se as correntes divergentes”, diz Longhitano. As correntes mais fortes fluem em sentidos opostos, enquanto as mais pequenas puxam para dentro. Quando as correntes que puxam para dentro fluem na mesma direcção “ou quando as duas correntes convergem, pode haver remoinhos”, diz ele. As marés desta região mudam a cada seis horas, o que significa podem surgir remoinhos no estreito várias vezes por dia. Caríbdis está sempre à espera.

Quanto a Cila, o monstro de seis cabeças, existe “uma enorme falésia que pode ser vista à distância, sobretudo ao pôr do Sol. Conseguimos ver uma forma muito escura estendendo-se em direcção ao norte do Estreito de Messina”, explica Longhitano. Embora seja impossível conhecer a inspiração exacta de Homero, este pode ser um bom sítio para um monstro.

Os comedores de lótus
Alguns encontros d’ A Odisseia acarretam menos perigos, assemelhando-se mais a festas com drogas à disposição. Ao chegar a uma ilha, Ulisses envia batedores para conhecer os habitantes, mas eles são “comedores de lótus”, que partilham deliciosos frutos de “lótus”, pondo os tripulantes num transe que os leva a abandonar as suas tarefas.

Muitas pessoas pensam imediatamente em drogas viciantes como o ópio, mas os antigos gregos conheciam as papoilas e o ópio e não lhe chamavam lótus. Além disso, o ópio é mencionado especificamente na Odisseia, como “nepente”, uma droga que Helena de Tróia mistura com vinho para ajudar os gregos a esquecerem as suas adversidades.

O que era então o lótus? Numa análise efectuada em 2020, cientistas conseguiram identificar sete géneros diferentes de plantas às quais os antigos gregos chamavam “lótus”.

Algumas são os nenúfares que podemos descrever actualmente como flores de lótus, do género Nymphaea. Mas Homero diz que o “lótus dos Lotófagos” era uma árvore e autores posteriores como Heródoto, Teofrasto e Plínio situam os comedores de lótus no norte de África, na região da cidade de Trípoli, na Líbia.

“Não conheço nenhum ‘lótus’ que cause perda de memória, diz Joe Schwarcz, químico da Universidade McGill, em Montreal, no Canadá. “Alguns historiadores supuseram que os gregos se referissem à jujubeira (ou tamareira-chinesa) como ‘lótus’.” Plantas arbustivas como a jujubeira pertencem ao género Ziziphus. As plantas deste género produzem um tipo jujuba que existe no norte de África. Este fruto não tem propriedades psicoactivas, mas pode ser fermentado e um golo de álcool é sempre bom para esquecer.

A bruxa que transformou homens em porcos
Noutra ilha, a bruxa Circe faz uma emboscada a Ulisses à a sua tripulação, causando-lhes mais problemas de memória. Fá-los beber uma poção com “drogas potentes que os fazem esquecer completamente o seu lar”. Ao beberem, os homens transformam-se em porcos. Ulisses vai libertá-los, auxiliado pelo deus Hermes, que colhe uma planta chamada moli, com raízes negras e flores brancas. Armado com a planta, Ulisses resiste à magia de Circe e salva os seus homens.

Seria necessária magia de verdade para transformar homens em porcos. Mas fazer homens acreditar que são porcos é muito mais fácil, diz Schwarcz. “Os antigos gregos conheciam certamente as plantas que tinham capacidades psicoactivas.” Plantas como a datura (Datura stromonium), frequentemente chamada figueira-do-inferno, e a beladona (Atropa belladonna) contêm compostos como atropina e escopolamina que bloqueiam os receptores de um mensageiro químico do cérebro chamado acetilcolina. “No cérebro, [este químico] participa na criação de memórias e o bloqueio da sua actividade causa alucinações e, possivelmente, delírios”, diz Schwarcz.

Quanto à “moli” que manteve Ulisses em segurança, “o antídoto para o envenenamento com atropina é a fisostigmina, que está presente no feijão-de-Calabar (Physostigma venenosum)”, diz Schwarcz. Num artigo publicado em 2022, Schwarcz também sugere que a flor branca de Ulisses pudesse ser Galanthus nivalis, que produz galantamina. Ambos os químicos bloqueiam a enzima que decompõe a acetilcolina, o que poderia aumentar os níveis do mensageiro químico. (Patologias como a doença de Alzheimer estão associadas a uma actividade reduzida da acetilcolina no cérebro e a galantamina e a fisostigmina foram ambas estudadas como tratamento.)

A Odisseia torna bem claro que as plantas podem ser remédios, mas também podem ser venenos. “A ideia mais enganadora talvez seja que “o natural é seguro” e “a natureza sabe o que faz”, diz Schwarcz.

E embora alguns dos encontros do poema épico possam ter uma base científica, um pouco de magia nunca fez mal a ninguém. É possível inventar monstros, os homens podem contar histórias sobre o submundo e as bruxas podem fazer venenos. “É apenas uma história. E numa história vale tudo”, diz Schwarcz. “As plantas podem transformar homens em porcos, embora algumas pessoas possam dizer que não são necessárias [plantas] para essa transformação.”


sexta-feira, 19 de junho de 2026

A fascinante obra de Dru Blair

Dru Blair é amplamente considerado um dos maiores mestres contemporâneos do aerógrafo (airbrush) e da pintura hiper-realista a nível mundial. Nascido a 7 de setembro de 1959 em Newbern, na Carolina do Norte, o artista norte-americano planeava inicialmente seguir uma carreira na área da medicina, mas acabou por descobrir a sua verdadeira vocação nas artes visuais. Licenciou-se em Belas-Artes pela Furman University em 1981 e, mais tarde, em 1984, concluiu o seu mestrado (MFA) na University of South Carolina, consolidando as bases técnicas que definiriam o seu percurso.

O seu estilo artístico insere-se perfeitamente no Hiper-realismo (ou Fotorrealismo). Utilizando o aerógrafo como ferramenta principal, Blair desenvolveu um controlo de pigmentação e sobreposição de camadas tão meticuloso que as suas obras são frequentemente confundidas com fotografias de alta resolução. A sua técnica foca-se na replicação exata de texturas complexas, desde os poros e nuances da pele humana até aos reflexos em superfícies metálicas e aos efeitos atmosféricos, como a neblina ou os raios de luz volumétricos, eliminando qualquer vestígio visível de pinceladas.

No que diz respeito aos temas, a sua obra transita com facilidade entre a arte comercial, a ficção científica e a vertente militar. Dru Blair tornou-se mundialmente famoso pela sua arte de aviação, retratando caças, bombardeiros e helicópteros em pleno voo com uma precisão geométrica e mecânica impressionante. Além disso, deixou uma marca indelével na cultura pop ao ilustrar capas icónicas de livros da franquia Star Trek (com especial destaque para Star Trek: Voyager) e ao criar campanhas publicitárias de grande escala, como os célebres sapos da marca de cerveja Budweiser nos anos 90. O seu portfólio inclui ainda retratos detalhados e paisagens naturais que desafiam a perceção do espetador.

O impacto e o legado da obra de Dru Blair são visíveis tanto no mercado artístico como na vertente pedagógica. A sua pintura de 1989, intitulada "Power" - que retrata um bombardeiro B-1B Lancer a voar a baixa altitude sobre a água -, tornou-se a gravura de aviação mais vendida da história, redefinindo os padrões de realismo do género e garantindo-lhe o título de Membro Honorário da Força Aérea dos Estados Unidos. Contudo, o seu maior contributo para a comunidade artística reside na fundação da Blair School of Realism. Através desta escola, Blair transformou-se num mentor global, desenvolvendo métodos científicos aplicados à pintura, como a Teoria do Color Buffer (um sistema prático para identificar e misturar qualquer cor com exatidão), que continua a formar e a inspirar gerações de ilustradores e aerografistas em todo o mundo.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Encontros Improváveis: John Melhuish Strudwick e Fortunato Chelleri (1690-1757)


La navicella
Che scorge il lido,
La rondinella
Che trova il nido
Non han più l’odio
Di quel destino
Che le turbò.

Ma questo core
Costante e fido
Al dio d’amore,
Tiranno infido,
Al suo dolore
Chiedendo pace,
Non la trovò.

TRANSLATION (by John Thornley):
The little ship
Sighting the shore,
The swallow
Finding its nest,
Both forget their hatred
Of the malign fate
That threatened them.

But my heart
Constant and faithful
To the god of love,
That faithless tyrant,
Pleads for its pain
To give way to peace,
Yet none do I find.


É profundamente entusiasmante testemunhar a nova vaga de talentos que está a surgir no panorama musical contemporâneo. Ao ouvirmos interpretações desta qualidade, torna-se evidente que o futuro da música antiga está em mãos absolutamente excecionais. Esta nova geração de artistas alia uma técnica irrepreensível, que desarma qualquer complexidade das partituras barrocas, a uma sensibilidade e expressividade vibrantes. Longe de uma abordagem puramente académica ou rígida, estes jovens músicos tecnicamente estelares conseguem injetar uma frescura e uma energia contagiantes em obras com séculos de história, elevando a música barroca a níveis verdadeiramente estratosféricos. É um privilégio ver o passado ser redefinido com tanta vitalidade, transcendência e mestria.

Significado da ária
A ária "La navicella" (que se traduz como "A pequena embarcação") funciona como uma clássica ária de metáfora, ou aria di paragone, um dos recursos poéticos e dramáticos mais apreciados na ópera barroca. Através deste dispositivo, o libreto utiliza a imagem de um pequeno barco à deriva num mar revolto, fustigado por ventos violentos e ondas ameaçadoras, para espelhar visual e emocionalmente o estado de espírito da personagem. A tempestade e as águas tumultuosas representam as grandes adversidades da vida, os dilemas morais ou os conflitos amorosos e políticos que a sufocam, enquanto o barquinho frágil simboliza a própria personagem, indefesa e à mercê de forças que a transcendem na sua busca desesperada por um porto seguro. Na partitura de Fortunato Chelleri, esta agonia ganha vida através de ritmos agitados e cordas velozes que imitam o turbulento balanço do mar, exigindo da interpretação vocal um virtuosismo técnico brilhante para traduzir o pânico e a paixão humana, transformando uma simples imagem marítima num momento de pura transcendência dramática.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Melancolia foi um movimento cultural Europeu atingindo sobretudo a elite Inglesa dos séc. XVI e VII: John Eccles - The Mad Lover


Melancolia (do grego antigo: μελαγχολία, romanizado: melancholía; de μέλαινα χολή, mélaina cholḗ, 'bile negra') é um conceito encontrado ao longo da medicina antiga, medieval e pré-moderna na Europa que descreve uma condição caracterizada por um humor marcadamente deprimido, queixas físicas e, por vezes, alucinações e delírios. Além de uma condição patológica, a melancolia também se podia referir a um estado de espírito ou temperamento e, por vezes, era até usada como uma descrição da condição humana em geral.

A melancolia (ou mais precisamente a 'bile negra', da qual a melancolia deriva o seu nome) era considerada um dos quatro temperamentos que correspondiam aos quatro humores. Até ao século XVIII, os médicos e outros estudiosos classificavam as condições melancólicas como tal devido à sua causa comum percebida – um excesso de um fluido nocional conhecido como "bile negra", que estava comummente ligado ao baço. Hipócrates e outros médicos antigos descreveram a melancolia como uma doença distinta com sintomas mentais e físicos, incluindo medos e desalentos persistentes, falta de apetite, abulia, insónia, irritabilidade e agitação. Mais tarde, os delírios fixos foram adicionados à lista de sintomas por Galeno e outros médicos. Na Idade Média, a compreensão da melancolia mudou para uma perspetiva religiosa, com a tristeza a ser vista como um vício e a possessão demoníaca, em vez de causas somáticas, como uma potencial causa da doença.

Durante o final do século XVI e o início do século XVII, surgiu em Inglaterra um culto cultural e literário da melancolia, associado à transformação da melancolia, por parte do neoplatonista e humanista Marsilio Ficino, de um sinal de vício numa marca de génio. Esta melancolia da moda tornou-se um tema proeminente na literatura, na arte e na música da época.

Movimento cultural inglês

Durante o final do século XVI e o início do século XVII, surgiu em Inglaterra um curioso culto cultural e literário da melancolia. Num influente ensaio de 1964 na revista Apollo, o historiador de arte Roy Strong traçou as origens desta melancolia da moda até ao pensamento do popular neoplatonista e humanista Marsilio Ficino (1433–1499), que substituiu a noção medieval de melancolia por algo novo:

"Ficino transformou o que até então tinha sido considerado o mais calamitoso de todos os humores na marca do génio. Não admira que, eventualmente, as atitudes de melancolia se tenham tornado logo um complemento indispensável para todos aqueles com pretensões artísticas ou intelectuais."


The Anatomy of Melancholy (A Anatomia da Melancolia, ou na sua versão completa: O Que Ela É: Com Todos os Seus Tipos, Causas, Sintomas, Prognósticos e Várias Curas... Filosoficamente, Medicinalmente, Historicamente, Aberta e Dissecada) de Robert Burton, foi publicada pela primeira vez em 1621 e continua a ser um monumento literário definidor dessa moda. Outro grande autor inglês que se expressou extensamente sobre o facto de ter uma disposição melancólica foi Sir Thomas Browne na sua obra Religio Medici (1643).

Night-Thoughts (Queixume: ou, Pensamentos Noturnos sobre a Vida, a Morte e a Imortalidade), um longo poema em verso livre de Edward Young, foi publicado em nove partes (ou "noites") entre 1742 e 1745, tornando-se enormemente popular em várias línguas. Teve uma influência considerável nos primeiros românticos em Inglaterra, França e Alemanha. William Blake foi mais tarde contratado para ilustrar uma edição posterior.

Nas artes visuais, esta melancolia intelectual da moda surge frequentemente na retratística da época, com os modelos posados sob a forma de "o amante, com os braços cruzados e o chapéu desabado sobre os olhos, e o erudito, sentado com a cabeça apoiada na mão" – descrições retiradas do frontispício da edição de 1638 da Anatomia de Burton, que mostra exatamente essas personagens que, por essa altura, já se tinham tornado clichés. Estes retratos eram frequentemente ambientados ao ar livre, onde a Natureza oferecia "o cenário mais adequado para a contemplação espiritual", ou num interior sombrio.

Na música, o culto pós-elisabetano da melancolia está associado a John Dowland, cujo mote era Semper Dowland, semper dolens ("Sempre Dowland, sempre em pranto"). O homem melancólico, conhecido pelos contemporâneos como um "malcontente", é personificado pelo Príncipe Hamlet de Shakespeare, o "Melancólico Dinamarquês".

Um fenómeno semelhante, embora não sob o mesmo nome, ocorreu durante o movimento alemão Sturm und Drang, com obras como As Dores do Jovem Werther de Goethe, ou no Romantismo com obras como Ode sobre a Melancolia de John Keats, ou ainda no Simbolismo com obras como A Ilha dos Mortos de Arnold Böcklin. No século XX, grande parte da contracultura do modernismo foi alimentada por uma alienação comparável e por um sentimento de falta de propósito chamado "anomia"; a preocupação artística anterior com a morte passou a ser designada sob a rubrica de memento mori. A condição medieval de acedia (acédia em português) e o Weltschmerz romântico eram conceitos semelhantes, com maior probabilidade de afetar o intelectual.

Mais detalhado aqui

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Encontros Improváveis: Paul Éluard e Steven Mcloughlin


O perfume do espelho verde

A terra acorda vestida de azul,
Uma nudez de pétalas onde o vento se perde.
Não há caminhos entre as árvores,
Há apenas o olhar que se dissolve no infinito.

Eu toco na luz que atravessa as folhas,
Como quem toca nos teus cabelos ao amanhecer.
O bosque não esconde os seus segredos,
Exibe-os nesta tapeçaria de silêncio e cor.

Aqui, o tempo é um rio estagnado de flores,
Onde o rosa e o azul disputam a primazia da sombra.
Viver é este deslumbramento:
Ser árvore, ser haste, ser a claridade que nos salva.

O mundo é belo como um rosto reencontrado
No fundo de uma floresta que nunca termina.

Meu poema, baseado na leitura do livro Capitale de la douleur (1926), de Paul Éluard

Steven McLoughlin é um reputado artista britânico, nascido em 1970 em Derbyshire, Inglaterra, que se tem vindo a destacar no panorama da arte contemporânea pelo seu olhar único sobre as paisagens do Reino Unido. Maioritariamente autodidata, McLoughlin trabalhou durante vários anos no setor da arte comercial, um percurso que lhe permitiu consolidar uma extraordinária destreza técnica antes de se dedicar por inteiro à pintura de estúdio e de ar livre.

O seu estilo artístico insere-se num Impressionismo Atmosférico Contemporâneo. Mais do que uma reprodução literal ou fotográfica da realidade, o pintor procura captar o "estado de espírito" (mood) e a carga emocional de um lugar, deixando-se guiar pelas constantes mutações do clima e das estações do ano. As suas telas evocam uma profunda sensação de tranquilidade e nostalgia, convidando quem as observa a entrar na narrativa visual da obra, seja através de um caminho sugerido ou de uma clareira de luz.

No que toca à técnica, a luminosidade quase etérea que se observa em obras como Bluebell Forest é alcançada através de um processo minucioso. McLoughlin combina óleos e meios mistos, recorrendo frequentemente à técnica de vitrificação (glazing). Este método consiste na aplicação sobreposta de múltiplas camadas de tinta extremamente finas e translúcidas. Como resultado, a luz consegue penetrar estas películas e refletir-se a partir das camadas inferiores, conferindo ao tapete de jacintos-azuis e à folhagem das árvores um brilho vibrante, profundo e tridimensional que parece emanar do interior da própria tela.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Viva o 1º de Maio

Giuseppe Pellizza da Volpedo - "O Quarto Estado" (1901)

Giuseppe Pellizza dá este nome à sua obra porque os trabalhadores sentiam que não eram representados pelo sistema político da época, o chamado parlamentarismo burguês. Eles constituíam um "novo grupo" social que passava a exigir voz própria e participação ativa nas decisões da sociedade. Historicamente, essa nomenclatura marca uma evolução clara: se o Terceiro Estado, liderado pela burguesia, foi o responsável por derrubar o absolutismo do Clero e da Nobreza, o Quarto Estado surgia agora como o proletariado organizado para reivindicar direitos diante da exploração exercida por essa mesma burguesia.

Na representação visual da tela, nota-se que a multidão não está armada; pelo contrário, os trabalhadores avançam de forma pacífica, mas com uma determinação inabalável. Trata-se de uma marcha em direção à "luz" do progresso e da justiça social, um recurso artístico que indica que o futuro pertenceria a esse novo estrato social. Em resumo, o Quarto Estado retratado por Pellizza era a classe operária consciente de si mesma e do seu papel histórico, marchando para ocupar o seu lugar de direito ao lado — ou mesmo à frente - dos três grupos que tradicionalmente detinham o poder.

Saber mais:
  1. Primeiro de Maio de 2026: a remuneração dos CEO mais elevados aumentou 20 vezes mais rapidamente do que a remuneração dos trabalhadores em 2025, acusa a Confederação Sindical Internacional, num relatório devastador.
  2. Em 2024, a Oxfam apresentou uma queixa formal contra a Amazon e a Walmart às Nações Unidas. Leia mais sobre a vigilância e o sofrimento nos armazéns da Amazon e da Walmart.
  3. A 7ª edição do Inquérito Mundial de Valores revelou que metade das pessoas acredita que “os ricos compram frequentemente eleições” nos seus países.
  4. A Oxfam estima que os multimilionários têm 4.000 vezes mais probabilidades de ocupar cargos políticos do que as pessoas comuns.
  5. Descarregue o relatório da CSI “Corporações que Minam a Democracia 2025”.
  6. Mais de 840 mil mortes por ano ligadas a riscos psicossociais no trabalho, diz novo relatório da OIT 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Morreu Desmond Morris, o zoólogo que confiou o seu conhecimento à Universidade do Porto

The Trap, 2020

Ficou conhecido pelos seus estudos inovadores sobre o comportamento humano e animal, mas foi também um destacado comunicador, autor de dezenas de livros e ainda pintor surrealista. Era, sobretudo, um “fascinado pelo mundo”, movido pela “alegria de observar o que nos rodeia”. A mesma “missão” que, em 2014, confiou à Universidade do Porto quando doou ao Museu de História Natural e da Ciência (MHNC-UP) o seu vasto arquivo científico. Desmond Morris morreu, no passado dia 19 de abril, aos 98 anos.

Natural do Wiltshire, onde nasceu em 1928, Desmond Morris desde cedo adotou os animais e a arte como as suas grandes paixões. O estudo dos animais levou-o a formar-se na Universidade de Birmingham, em 1951, e a prosseguir um doutoramento (e pós-doutoramento) em Oxford. Em 1956, aceitou o cargo de diretor da unidade televisiva e de filmagens do Jardim Zoológico de Londres e, em 1959, assumiu o lugar de curador de mamíferos.


Em 1967, deixou o Zoo para se tornar diretor do Institute of Contemporary Arts. Nesse mesmo ano, publica The Naked Ape (O Macaco Nu), obra precursora da etologia humana (na qual propôs uma leitura inovadora do ser humano à luz da biologia evolutiva) e com o qual viria a ganhar notoriedade internacional.

Em 1968, mudou-se para Malta, onde nasceu o filho Jason. Regressou a Oxford em 1974 e aí permaneceu até 2019, altura em que, na sequência da morte da mulher, Ramona, se mudou para a Irlanda, para ficar junto da família e dedicar-se ativamente à escrita e à pintura.

Autor de dezenas de artigos científicos, Morris escreveu 80 livros e foi traduzido para 43 línguas ao longo de seis décadas de uma carreira multifacetada, que cruzou ciência, comunicação e artes visuais. Entre 1956 e 1998, apresentou mais de 700 programas televisivos. Pintou também mais de 3.400 quadros e apresentou mais de 60 exposições individuais.

“Compete-nos continuar a cuidar deste tesouro”
Em 2014, Desmond Morris surpreendeu o mundo quando decidiu doar ao Museu de História Natural e da Ciência da U.Porto (MHNC-UP) o seu arquivo científico, composto por todos os seus livros publicados, respetivas traduções, registos e notas de investigação, correspondência, coleções de revistas científicas, artigos científicos, coleções de fotografias e negativos, gravações vídeo e áudio e artefactos vários. Em troca, uma promessa feita meses antes pelo então Diretor do MHNC-UP, Nuno Ferrand de Almeida: “Se nos deixarem ficar com o seu arquivo, não vamos apenas guardá-lo, vamos utilizá-lo, analisá-lo. Teremos investigadores a trabalhar nele”.

Aquando da doação, ficou também estabelecida a preferência para que a sua editora em Portugal fosse a Arte e Ciência, título do primeiro projeto editorial do MHNC-UP, lançado em 2018. Desde essa data, foram publicados os livros A Tribo do Futebol (com prefácio de José Mourinho) e a reedição de O Macaco Nu , com uma nova tradução de Carla Morais Pires e prefácio de Jorge Rocha, e, com a mesma tradutora, O Macaco Criativo e Observar.

terça-feira, 7 de abril de 2026

Os porcos são muito mais inteligentes, limpos e empáticos que a trupe MAGA e brutalistas destes tempos cinzentos

Porky (2021) por Andrea Lavery
Sobre a Pintora e o quadro
Andrea Lavery é uma conceituada artista que cresceu no ambiente rural de Newtown, Connecticut, EUA residindo e trabalha atualmente na zona costeira do mesmo estado. A sua trajetória artística é marcada por uma evolução orgânica e apaixonada; embora os seus registos biográficos privilegiem a experiência prática, a sua técnica revela um domínio consolidado dos meios tradicionais, fruto da sua formação académica com um Bacharelato em Belas Artes (BFA) pelo Paier College of Art, concluído em 1985.

O seu trabalho é amplamente classificado como Impressionismo Contemporâneo, um estilo que a própria define como "Happy Colorful Art". A temática da sua obra é profundamente inspirada pela natureza e pela vida selvagem, destacando-se as suas representações vibrantes de pássaros, abelhas, coelhos e flores. Através de pinceladas fluidas e expressivas, Lavery cria texturas ricas que privilegiam uma interpretação emocional e luminosa do objeto em detrimento de um realismo rígido.

Do ponto de vista técnico, a artista utiliza predominantemente óleos solúveis em água, recorrendo ao óleo de linhaça com a mesma propriedade para conferir transparência e fluidez às composições. Andrea Lavery é particularmente reconhecida por trabalhar em painéis de pequeno formato, nos quais consegue concentrar uma enorme densidade de cor e energia. O sucesso do seu estilo reflete-se não só em galerias, mas também no mercado de licenciamento, com as suas criações a serem aplicadas em tecidos (notavelmente para a QT Fabrics), impressões artísticas e diversos objetos de decoração.

Os porcos são muito mais inteligentes, limpos e empáticos que a trupe MAGA e brutalistas destes tempos cinzentos

O que diz a Ciência 
Apesar dos estereótipos de serem animais simplórios e desleixados, os porcos/suínos são animais extremamente inteligentes, limpos, emotivos e sociais.

A investigação contemporânea no domínio da etologia e da neurociência cognitiva tem demonstrado que os suínos (Sus scrofa domesticus) possuem uma complexidade neurocognitiva que rivaliza com a de primatas não humanos e cetáceos, destacando-se como uma das espécies mais inteligentes do reino animal. No estudo fundamental "Thinking Pigs: A Comparative Review of Cognition, Emotion, and Personality in Sus scrofa domesticus" (Marino & Colvin, 2015), os investigadores compilam evidências de que os porcos exibem uma memória a longo prazo notável e uma capacidade avançada de resolução de problemas. Um dos marcos desta inteligência é a compreensão da perspetiva espacial, demonstrada no estudo "Pigs learn what a mirror image represents and use it to obtain information" (Broom et al., 2009), onde os animais conseguiram utilizar espelhos para localizar alimento escondido, um indicador de processamento visual sofisticado.

Para além da inteligência lógica, os porcos manifestam uma vida social e emocional extremamente rica. A existência de empatia e contágio emocional foi documentada em "Indicators of positive and negative emotions and emotional contagion in pigs" (Reimert et al., 2013), revelando que estes animais não só sentem emoções complexas, como estas são influenciadas pelo estado de ânimo dos seus pares. Esta sensibilidade estende-se à interação com humanos e à capacidade de aprendizagem tecnológica, como comprovado pela recente investigação "Investigation of Video Game Play in Pigs" (Croney & Boysen, 2021), onde os suínos demonstraram competência na manipulação de joysticks para atingir objetivos num ecrã.

Contrariamente ao estigma popular, o porco é um animal instintivamente limpo; quando dispõem de espaço adequado, estabelecem áreas rigorosas para alimentação e repouso, mantendo-as afastadas das zonas de excreção. O comportamento de se refrescarem na lama é, na verdade, uma solução biológica engenhosa para a termorregulação e proteção dérmica, uma vez que a sua anatomia possui um número reduzido de glândulas sudoríparas. Em suma, a ciência moderna reitera que os porcos são seres sencientes, dotados de consciência social, capacidades cognitivas superiores e uma higiene comportamental que desafia preconceitos históricos.

Saber mais:

1. Pig Intelligence

2. From snout to tail, there’s more to pigs than meets the eye

3. No, Pigs Aren't Dirty

4. Eight Things You Probably Didn’t Know About Pigs

domingo, 5 de abril de 2026

Feliz Páscoa


Josh Clare é um prestigiado pintor contemporâneo norte-americano, nascido em 1982 no estado do Utah. Criado no seio das paisagens imponentes das Montanhas Rochosas, consolidou a sua base técnica na Brigham Young University-Idaho, onde se licenciou em 2007 em Belas Artes (BFA) com especialização em Ilustração. Foi durante o seu percurso académico que descobriu uma ligação profunda com a pintura de paisagem, sob a mentoria de professores que o incentivaram a observar a natureza de forma direta e rigorosa.

O seu estilo artístico fundamenta-se no impressionismo clássico e na tradição do realismo americano, com um foco quase devocional na prática en plein air (pintura ao ar livre). O trabalho de Clare é reconhecido pela habilidade magistral em captar os efeitos efémeros da luz natural, utilizando pinceladas confiantes e uma paleta de cores harmoniosa para traduzir a atmosfera de cenários rurais e montanhosos. Para o artista, a pintura transcende a mera representação visual; trata-se de uma busca por captar a essência e a "verdade" da criação, transformando elementos simples do quotidiano campestre em composições repletas de poesia e profundidade emocional. Atualmente, é considerado uma das figuras mais influentes do movimento de pintura de paisagem nos Estados Unidos, acumulando prémios de prestígio e expondo em importantes galerias nacionais.

Da Mitologia à Tradição: A Origem Pagã do Coelho e do Ovo da Páscoa

A génese desta tradição recua aos cultos pré-cristãos do Norte da Europa, onde a chegada da primavera era celebrada sob o signo da deusa Eostre, ou Ostara, a divindade teutónica da aurora e do renascimento. Para os povos antigos, a transição do inverno para o florescimento da terra exigia símbolos que traduzissem visualmente a ideia de fertilidade e vida latente. Surge aqui a lebre — a antecessora do nosso coelho doméstico — que, pela sua extraordinária capacidade reprodutiva e pelo facto de ser um dos primeiros animais a reaparecer nos campos após o degelo, se tornou o emblema vivo da abundância da deusa.

A ligação específica entre a lebre e o ovo encontra a sua raiz numa narrativa mitológica persistente, segundo a qual Eostre teria transformado um pássaro ferido num animal terrestre para o salvar do frio. Apesar da metamorfose, a criatura conservou a faculdade de pôr ovos, que decorava com cores vibrantes e oferecia à divindade em sinal de gratidão. Este mito serviu para explicar a união de dois símbolos de regeneração: enquanto o ovo representa o microcosmo e o mistério da vida protegida por uma casca que parece inerte, o coelho personifica a força ativa e a rapidez com que essa mesma vida se propaga na superfície da terra. Com a expansão do cristianismo, estas práticas não foram eliminadas, mas sim integradas através de um processo de inculturação, onde o renascimento da natureza foi reinterpretado como a ressurreição de Cristo.

A partir do século XVI, na Alemanha, esta herança consolidou-se na figura do "Osterhase", a lebre da Páscoa que avaliava o comportamento das crianças e escondia ovos decorados nos jardins. A prática foi reforçada pela proibição do consumo de ovos durante a Quaresma; como as galinhas não interrompiam a postura, os ovos eram cozidos e guardados, sendo depois oferecidos e consumidos com festividade no Domingo de Páscoa. Foi apenas no século XIX que a indústria de confeitaria, aproveitando a iconografia já profundamente enraizada no imaginário popular, começou a produzir estes símbolos em chocolate, transformando um antigo rito agrário no fenómeno global que conhecemos hoje.

Para fundamentar esta investigação, podem consultar-se obras como "Deutsche Mythologie" de Jacob Grimm (1835) , que explora as ligações linguísticas e rituais de Ostara, ou o clássico "An Egg at Easter: A Folklore Study" de Venetia Newall (1971) , que detalha a simbologia do ovo através das eras. Outras fontes essenciais incluem "The Stations of the Sun" de Ronald Hutton (1996) , sobre a evolução do calendário ritual britânico, "The Easter Hare" de Charles J. Billson , publicado na revista Folklore (1882), e o texto medieval "De Temporum Ratione" de Beda, o Venerável (775), que constitui o primeiro registo histórico da deusa que deu nome à celebração.  

Quem desejar fazer uma investigação mais profunda, sugerem-se as seguintes referências:
  1. Gimbutas, Marija (1982). The Goddesses and Gods of Old Europe. (essencial para compreender os símbolos de fertilidade, como o ovo, na pré-história e na antiguidade).
  2. Hutchinson, Sharon Elswit (2012). The East Easter Egg: A History of Symbols. (explora a transição dos ovos naturais para os ovos artísticos e a sua simbologia religiosa).
  3. Sermon, Richard (2008). From Easter to Ostara: the Reinvention of a Pagan Goddess?. In: Time and Mind. (uma análise crítica e moderna sobre como a figura de Ostara foi interpretada pelos estudiosos do século XIX, como os Irmãos Grimm).

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Armando Alves (1935-2026), um dos criadores do design moderno em Portugal


Armando Alves, um dos integrantes do famoso Grupo Os Quatro Vintes, a partir do qual se dedicou a renovar e a modernizar o design gráfico português, morreu esta terça-feira no Porto, cidade onde fez praticamente toda a sua carreira, deixando um notável legado como docente e praticante das artes gráficas. A notícia foi avançada por Miguel Carvalhais, director da Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto (FBAUP), instituição onde Armando Alves se formou e onde leccionou durante anos.

Nascido em Estremoz, em 1935, Armando José Ruivo Alves iniciou a sua formação artística na Escola de Artes Decorativas António Arroio e prosseguiu estudos de Pintura na Escola Superior de Belas Artes do Porto (ESBAP), onde concluiu o curso em 1962 com a classificação máxima de vinte valores.

Após a licenciatura, integrou o corpo docente da ESBAP como Professor Assistente, sendo pioneiro na introdução do ensino das Artes Gráficas. Em 1963, foi um dos fundadores da Cooperativa Árvore, estrutura fundamental na promoção das artes plásticas em Portugal.

Bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, viajou por vários países europeus nos anos 60, iniciando então a sua atividade expositiva individual. Em 1968, juntamente com Ângelo de Sousa, José Rodrigues e Jorge Pinheiro, fundou o grupo Os Quatro Vintes, que expôs em cidades como Porto, Lisboa e Paris até ao final da década de 1970.

A partir de 1973, dedicou-se integralmente às Artes Gráficas, área em que se afirmou como pioneiro e referência nacional. No seu atelier, situado na Rua Brito Capelo, desenvolveu uma vasta produção que incluiu direção gráfica de obras literárias, cartazes culturais e publicitários, bem como materiais para eventos diversos.

Armando Alves esteve também ligado ao Lugar do Desenho - Fundação Júlio Resende, desde a sua criação em 1993, participando em exposições internacionais entre 1997 e 1999, nomeadamente no Brasil, Chile, Cabo Verde e Moçambique.

Enquanto ilustrador, artista gráfico, desenhador e pintor - com uma evolução do neorrealismo para o abstracionismo - desempenhou ainda funções como consultor artístico e curador. A sua obra integra coleções de várias instituições, como a Câmara Municipal de Matosinhos e o Museu Nacional Soares dos Reis.

Ao longo da sua carreira, foi distinguido com diversos prémios e reconhecimentos, destacando-se a condecoração com o grau de Grande Oficial da Ordem do Mérito, atribuída pelo então Presidente da República Aníbal Cavaco Silva, nas comemorações do 10 de Junho de 2006, realizadas na Alfândega do Porto.

terça-feira, 31 de março de 2026

Forrest Dickison


Forrest Dickison é um conceituado ilustrador e pintor norte-americano, nascido em 1989 em Moscow, Idaho, onde reside e mantém o seu atelier até hoje. A sua formação é marcada por uma sólida base técnica no storytelling visual e na pintura tradicional a óleo, o que lhe permitiu transitar com naturalidade entre as Belas Artes e o mercado editorial. Academicamente, Dickison consolidou o seu conhecimento em artes narrativas, atuando hoje também como professor no Camperdown Writers' Kiln.

O seu estilo artístico é dual: na ilustração, apresenta um traço lúdico e dinâmico que remete à estética clássica da animação, com cores vibrantes e personagens expressivos; já na pintura de paisagem (fine art), adota uma abordagem impressionista e atmosférica, focada na técnica en plein air. Os seus temas principais dividem-se entre a captura da luz dramática e das vastas formações de nuvens das colinas de Palouse e das montanhas de Montana, e a criação de mundos de fantasia para a literatura infantil.

Embora muitas vezes associado a comunidades religiosas pelo seu local de residência, Dickison não é mórmon. Ele é um artista de confissão cristã evangélica reformada, mantendo uma colaboração estreita com a editora Canon Press e com o autor N.D. Wilson, com quem desenvolveu projetos de grande sucesso, incluindo a série Hello Ninja (adaptada para a Netflix) e diversas obras de narrativa épica e histórica.

segunda-feira, 30 de março de 2026

John Horsewell

John Horsewell é um conceituado pintor contemporâneo de nacionalidade britânica, nascido em Inglaterra  entre os anos de 1952. A sua trajetória artística é marcada por uma forte componente hereditária, uma vez que cresceu num ambiente profundamente criativo, tendo sido instruído no seio familiar pelo seu pai e pelo seu avô, ambos pintores profissionais.

Ao contrário de muitos dos seus contemporâneos, Horsewell não seguiu uma formação académica formal em faculdades de Belas Artes. A sua educação foi técnica e prática, moldada diretamente no ateliê da família e consolidada através da experiência no mundo do design de interiores e de galerias de arte após concluir o ensino secundário. Esta base autodidata e artesanal permitiu-lhe desenvolver um estilo muito próprio, que se situa entre o realismo e o impressionismo moderno.

O seu estilo  é definido como um impressionismo contemporâneo profundamente focado na captura da luz e na criação de atmosferas de serenidade absoluta. A sua estética afasta-se do detalhe fotográfico rígido para se concentrar na sensação de um momento, utilizando o que o próprio artista descreve como uma filosofia de "menos é mais". As suas composições são frequentemente minimalistas, apresentando horizontes baixos que dão protagonismo a céus vastos e dramáticos, evocando um sentimento de isolamento pacífico e de evasão da azáfama quotidiana.

O artista é particularmente célebre pelas suas paisagens costeiras, praias banhadas pelo sol e cenas rurais, frequentemente inspiradas pelas suas viagens pela Europa — com especial foco no sul de França e Itália — e pela Florida, nos Estados Unidos. 

A grande marca registada do seu trabalho é a mestria na utilização da espátula (palette knife), que combina habilmente com o uso do pincel. Enquanto as grandes áreas de céu e mar são trabalhadas com pinceladas suaves e fluidas para criar profundidade, os elementos centrais — como os barcos, as rochas ou a vegetação — são esculpidos com camadas espessas de tinta a óleo (técnica de impasto). Esta abordagem confere às telas uma qualidade tridimensional e uma textura rica, permitindo que a luz ambiente da sala interaja fisicamente com o relevo da pintura.

Quanto à paleta de cores, Horsewell utiliza tons que variam entre os azuis profundos e cerúleos dos oceanos e os tons quentes e pastéis das areias e campos europeus. O seu objetivo primordial é sempre o otimismo visual, transformando cada tela numa "janela" para um paraíso idealizado, onde o contraste entre as sombras suaves e os pontos de luz intensa convida o espectador a um estado de contemplação e calma interior.

Um exemplo perfeito desta estética é a obra "Calm Waters" (também conhecida como "Moored Boats"), pintada provavelmente entre 2010 e 2020. Nesta tela, Horsewell utiliza um horizonte baixo e uma paleta de azuis profundos em contraste com tons areia para evocar uma sensação de paz absoluta. Através de pinceladas suaves no céu e relevos texturizados nos barcos e no primeiro plano, o pintor convida o espectador a entrar num cenário de tranquilidade e isolamento regenerador.

domingo, 29 de março de 2026

Beata Belanszky-Demkó

O Brilho, 2023

Beata Belanszky-Demkó é uma artista plástica contemporânea de nacionalidade húngara, cuja trajetória de vida e formação académica refletem uma profunda dedicação às artes visuais. Nascida em 1976 na cidade de Satu Mare, na Roménia, no seio da comunidade húngara da Transilvânia, mudou-se para a Hungria em 1990. Foi neste país que consolidou o seu percurso escolar e artístico, tendo frequentado a Escola Secundária de Artes Visuais e Aplicadas de Budapeste, uma instituição de referência onde aprofundou as bases do desenho e da composição.

A sua formação académica prosseguiu a nível superior na Universidade de Óbuda, em Budapeste, onde se licenciou em Design Industrial. Esta base técnica e estruturada confere à sua obra uma compreensão singular da forma e do espaço, que mais tarde fundiu com a liberdade da pintura. Embora tenha formação em design, Beata optou por dedicar-se inteiramente às belas-artes, desenvolvendo um estilo que oscila entre o impressionismo moderno e a abstração lírica.

Atualmente a residir em Sóskut, a artista utiliza predominantemente a técnica da espátula e tintas a óleo para criar paisagens e figuras humanas que primam pela harmonia cromática e pela exploração da luz. O seu currículo inclui inúmeras exposições individuais e coletivas, sendo membro ativo de diversas associações de artistas, o que reforça o seu papel no panorama artístico húngaro contemporâneo.

sábado, 28 de março de 2026

François Fressinier

A obra "The Blue Anemone" (2005), de François Fressinier, é um exemplo fascinante de como o artista equilibra a herança do Renascimento com uma sensibilidade moderna e vibrante. Através de um grande plano focado no olhar penetrante da figura feminina, Fressinier convida o espectador a entrar num mundo de introspeção e força silenciosa. A paleta de cores, marcada pelo contraste dramático entre o vermelho intenso dos lábios, o azul elétrico da maquilhagem e a suavidade da flor branca, cria uma composição que é simultaneamente etérea e assertiva. As linhas verticais e as gotas de tinta que escorrem pela tela conferem à pintura uma textura contemporânea, quase urbana, que quebra a perfeição clássica do rosto, sugerindo que a beleza e a resiliência feminina são forjadas através do tempo e da experiência. É nesta fusão de delicadeza floral e olhar inabalável que reside a sua abordagem única ao empoderamento, transformando o retrato numa celebração da consciência e da autonomia da mulher.

François Fressinier (pintor Francês, nascido em 1968)
A sua obra é marcada por uma mistura de influências dos Mestres Antigos com elementos modernos, focando quase sempre na figura feminina e em atmosferas serenas e simbólicas. Ele estudou na prestigiada École Brassart, em Tours, e as suas obras são amplamente exibidas e colecionadas, especialmente nos Estados Unidos.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Encontros Improváveis: Thomas Nashe e Vanessa Bowman



✍ "Spring, the sweet spring, is the year’s pleasant king,
Then blooms each thing, then maids dance in a ring,
Cold doth not sting, the pretty birds do sing:
Cuckoo, jug-jug, pu-we, to-witta-woo!..."
Thomas Nashe (1567 - 1601), Spring, the sweet spring

🎨 Vanessa Bowman é uma artista Britânica contemporânea de estilo naif que nasceu em 1970

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Reiniciar

Ekaterina Ermilkina - "The Beginning" (O Início) foi pintada em 2023

Nem de propósito. Reiniciar. O início deste mês colocou à prova toda a minha resistência. Perder um amigo, uma tia e uma irmã num espaço de apenas sete dias é uma dor que não se explica. Decidi que a melhor forma de os honrar não é ficar estagnado no luto, mas sim viver com a intensidade que eles gostariam de ver em mim. Um obrigado sincero a todos pelo carinho que recebi.

Ekaterina Ermilkina é uma artista contemporânea cuja trajetória reflete uma fusão entre o rigor técnico europeu e a energia urbana americana. Nascida em 1975 em Saratov, na Rússia, iniciou o seu percurso sob a influência cultural da sua terra natal. A sua base académica é sólida, tendo-se licenciado na Academia Estatal de Arte e Indústria de São Petersburgo, uma instituição de prestígio onde dominou a forma e a perspetiva clássica. Esta formação foi fundamental para a sua evolução posterior rumo a uma linguagem mais expressiva.

Em 2005, a artista mudou-se para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Nova Jersey, onde vive e mantém o seu atelier atualmente. Esta mudança foi decisiva, pois a proximidade com a arquitetura de Manhattan serviu como o principal catalisador para a maturidade do seu trabalho. O seu estilo é frequentemente descrito como uma intersecção entre o Impressionismo Moderno e o Expressionismo Abstrato.

A temática central da sua obra foca-se na metrópole, capturando o ritmo e a densidade das grandes cidades, especialmente os arranha-céus de Nova Iorque, através de interpretações emocionais da luz e do movimento. Visualmente, as suas composições possuem uma "pulsação" característica, onde as janelas e luzes urbanas se transformam em mosaicos vibrantes.

Tecnicamente, Ermilkina distingue-se pelo uso exclusivo da espátula em detrimento dos pincéis, aplicando a técnica de impasto com camadas generosas de tinta a óleo para criar superfícies tridimensionais. Ela utiliza a ponta da espátula para criar um efeito de pontilhismo, decompondo a luz em blocos de cor que formam um mosaico visual. Esta técnica, aliada a uma paleta vibrante e audaz, permite-lhe simular com mestria os reflexos solares e o brilho artificial das luzes citadinas.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Aiko Sakamoto

Rapariga com borboletas, da série Nocturnos (2022)

Aiko Sakamoto é uma artista plástica nascida em 1977 na província de Tóquio, no Japão, onde reside e trabalha actualmente. A sua formação académica foi realizada na Universidade de Arte Tama (Tama Art University), onde se graduou no Departamento de Pintura Japonesa e, posteriormente, concluiu o mestrado na mesma especialidade.
O seu estilo é profundamente enraizado no Nihonga (pintura tradicional japonesa), mas apresenta uma abordagem contemporânea e lírica que explora a relação entre o visível e o invisível. Utiliza técnicas que misturam pigmentos minerais, pó de ouro e prata sobre papel japonês (washi), destacando-se pela criação de borboletas tridimensionais feitas de papel e folha metálica que são aplicadas sobre a tela plana. Esta técnica permite que a luz seja refletida de diferentes ângulos, conferindo uma sensação de vitalidade e movimento às obras.

Os seus temas centram-se em fenómenos naturais efémeros e conceitos abstratos, como o vento, o som, as ondas e as flutuações da luz e da água. Através de uma paleta onde predominam o azul profundo e o preto denso, Sakamoto procura expressar a essência da existência humana e a circulação da vida em ciclos infinitos, fundindo figuras biomórficas com o cosmos e o silêncio.


A sua obra encerra um simbolismo contemporâneo que nos convoca ao desvelar de uma liberdade ancestral, sintonizando o ser com a génese de Gaia e o repouso absoluto de uma harmonia que transcende o visível.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Brad Kunkle

Brad Kunkle -"Apotheosis" (2023)

Nascido em 1978 na Pensilvânia, Estados Unidos, Brad Kunkle é um dos nomes mais singulares da pintura contemporânea atual. Formado em Belas Artes pela Kutztown University em 2001, o artista consolidou uma carreira que equilibra o rigor técnico da tradição clássica com uma estética mística e surrealista, fortemente marcada pela fusão entre a figura humana e elementos da natureza.

Kunkle é profundamente influenciado pelos Pré-Rafaelitas e pelo artista Maxfield Parrish, além da estética das fotografias antigas (daguerreótipos).

O grande diferencial da sua obra reside na técnica magistral de aplicação de folhas de ouro e prata. Kunkle utiliza esses metais preciosos não apenas como ornamento, mas como um elemento dinâmico: as superfícies metálicas reagem à luz do ambiente e à posição do espectador, conferindo à pintura uma vida própria que se transforma conforme a iluminação. Esta abordagem foi inspirada tanto pelo seu passado como pintor decorativo quanto pela observação de ícones religiosos e obras clássicas no Museu do Louvre.

Estilisticamente, o seu trabalho é frequentemente associado ao Simbolismo, apresentando mulheres em estados de transe ou profunda conexão com o mundo natural — muitas vezes rodeadas por folhas secas, pássaros ou névoas densas. Para contrastar com o brilho opulento do ouro, Kunkle utiliza frequentemente a técnica de grisaille, pintando a pele e as vestes em tons de cinza ou paletas muito limitadas e suaves. O resultado é uma atmosfera onírica e atemporal, que convida o público a uma reflexão sobre a intuição e a beleza do invisível.

Curiosidade
O impacto da sua obra é tal que o seu trabalho foi incluído no Lunar Codex, uma cápsula do tempo digital enviada à Lua em parceria com a NASA, garantindo que a sua arte perdure para além da Terra.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Pia Erlandsson - uma pintora singular

Under Trädet - Debaixo da Árvore (2013)

Pia Erlandsson (pintora Sueca, nascida em 1961)

Estilo e Temas
O trabalho de Erlandsson é frequentemente descrito como etéreo e focado na figura humana.

Temas:  as suas obras retratam principalmente pessoas, buscando transmitir emoções universais e diferentes estados da mente humana.

Estilo: ela explora a tensão e a harmonia entre cores, formas, luz e sombra. Os seus fundos são muitas vezes abstratos, permitindo que o espectador crie seu próprio espaço interpretativo. Para a artista, a pintura é uma narrativa onde cores e formas funcionam como "palavras". 

A indefinição dos rostos é a "assinatura" emocional de Pia Erlandsson. Essa técnica confere um aspecto onírico (parecido com um sonho) às obras. Em nossos sonhos e memórias, raramente lembramos de rostos com nitidez fotográfica; lembramos da "sensação" da presença da pessoa. A figura deixa de ser "uma pessoa específica" e passa a ser um "sentimento humano". Ou seja, com o rosto esfumado ou inacabado, o foco muda para a postura, a luz e a cor, que comunicam o estado emocional — como a introspecção, a alegria, conexão humana, conexão ecológica, a dúvida ou a solidão. 

Técnicas:
Pia Erlandsson é amplamente reconhecida pelo seu trabalho com aquarela, mas diversificou sua produção nos últimos anos:
Aquarela: é sua técnica principal, onde ela aproveita a imprevisibilidade do pigmento e da água no papel.
Acrílica e óleo: começou a trabalhar com estas técnicas mais recentemente, aplicando-as em telas (muitas vezes de grandes dimensões).


Esta obra de Pia Erlandsson é intitulada "Beslut"- 2014 (que em sueco significa "Decisão").

O que a obra transmite?
Pia Erlandsson é mestre em capturar o que ela chama de "estados da mente", e "Beslut" é um exemplo perfeito disso:

Dilema interno: a presença de múltiplas figuras (ou versões da mesma figura) sugere o processo mental de uma tomada de decisão. As diferentes direções dos olhares e as inclinações das cabeças representam a dúvida, a hesitação e a ponderação.
Melancolia e introspecção: o uso de contornos difusos e cores que "sangram" umas nas outras cria uma atmosfera onírica, quase fantasmagórica, sugerindo que estamos vendo um sentimento em vez de uma cena física real.
Conflito silencioso: Há um contraste entre a leveza da aquarela e o peso emocional nos rostos. A figura à direita, olhando para fora do grupo, parece representar o momento em que se escolhe um caminho diferente dos outros.
Fraturnidade ou solidão coletiva: As figuras estão próximas, mas não interagem entre si, transmitindo uma sensação de isolamento, mesmo quando acompanhadas.
É uma pintura que ressoa com quem já se sentiu "dividido" diante de uma escolha importante.

"Tre kvinnor" (Três Mulheres) 2016

Ao contrário das aquarelas anteriores, esta peça demonstra a transição da artista para o uso de acrílico sobre tela, o que resulta em texturas mais marcadas e cores mais saturadas.

O que a obra transmite?
Esta pintura explora a dinâmica das relações interpessoais e a individualidade dentro de um grupo:

Comunicação silenciosa: as três figuras femininas estão próximas, mas não há um contato visual direto óbvio entre todas. Isso evoca uma sensação de conversa interna ou de uma conexão que não precisa de palavras.
Contraste de personalidades: O uso das cores nas vestimentas (o vermelho vibrante, o branco puro e os tons mais escuros) pode ser interpretado como diferentes facetas de uma mesma psique ou temperamentos distintos que coexistem num mesmo espaço.
Presença e ausência: enquanto as figuras centrais e da esquerda parecem mais integradas, a figura à direita possui uma postura mais altiva e um olhar direcionado para cima, sugerindo aspiração, distanciamento ou uma busca por algo além do círculo imediato.
Luz e sombra: a iluminação dramática, vinda da esquerda, cria um jogo de sombras que dá profundidade e um ar de mistério à cena, característica marcante do trabalho de Erlandsson em óleo e acrílica.
É uma obra que transmite força feminina e uma certa solenidade, típica da forma como Pia retrata a figura humana como algo sagrado e introspectivo.