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segunda-feira, 27 de julho de 2026

"Bem-vindo a 2030": por que razão não terá nada (e não será feliz)


“Bem-vindo a 2030. Eu sou dono de nada, não tenho privacidade e a vida nunca foi melhor”. Esta frase aparentemente contraditória é o título de um artigo publicado pelo Fórum Económico Mundial em 2016, da autoria de Ida Auken, uma parlamentar da Dinamarca.
A ideia dela nunca foi fazer uma profecia, mas sim especular sobre um futuro dominado pela economia circular - e ali descreve uma realidade em que ficou tão fácil, rápido e barato simplesmente alugar e usar imediatamente qualquer coisa, que já nem faz sentido ser proprietário de algo. Na teoria detalhada no texto, este verdadeiro ecossistema de acesso contínuo permitiria a todos ter o que quisessem quando desejassem, tudo isso com energia limpa, zero desperdício e muito mais tempo livre.
Ainda faltam alguns anos para chegarmos a 2030, mas na prática o que este caminho tem vindo a gerar é uma dependência crescente e escassez artificial.

Nos últimos 10 anos, pode dizer-se que a imaginação de Ida Auken conseguiu antecipar uma dinâmica real, mas errou redondamente no diagnóstico humano e económico. A nossa realidade está a caminhar na direção de não sermos donos de coisa nenhuma e não termos privacidade, mas tanto as causas como as consequências desta situação não têm o mesmo tom cor-de-rosa de otimismo da previsão.

O ciclo da "Merdificação": do encanto da Netflix à morte dos suportes físicos
Um bom exemplo de como e por que razão as coisas descarrilaram é o mercado do entretenimento, especificamente o de filmes e séries. A plataforma de streaming da Netflix mostrava em 2016 quão bom poderia ser abdicar de querer ser dono das coisas. Em vez de gastar rios de dinheiro a construir coleções de DVDs e a subscrever canais e mais canais de TV por cabo, bastava pagar uma mensalidade mais barata do que uma pizza e tinha-se acesso imediato e irrestrito a um catálogo de filmes e séries que continha praticamente tudo o que se poderia querer ver.

Não é por acaso que a Netflix fez o sucesso que fez e cresceu ao ponto de, durante muitos anos, ter impacto até na pirataria. O problema é que a forma como o mercado internacional funciona impede que algo assim continue por muito tempo, uma vez que a situação da Netflix em 2016 só era possível por uma combinação de subsídio vindo de capital de risco, o que era viabilizado apenas por políticas de juros baixos, e por licenças baratas que só existiam porque os estúdios tradicionais ainda não sabiam fixar o preço da distribuição digital de conteúdos. Era uma questão de tempo até que alguns fatores mudassem a situação.

Por um lado, outras empresas percebem o potencial do novo mercado e passam a competir por um espaço próprio nele; como algumas dessas empresas são as produtoras dos conteúdos que estavam disponíveis na Netflix, faz-lhes mais sentido retirar as suas produções de lá e colocá-las nos seus próprios serviços, pulverizando o acesso. Por outro lado, a própria Netflix, até então inquestionavelmente dominante no espaço do streaming, passa a ter de investir cada vez mais na caríssima produção de conteúdos próprios enquanto, simultaneamente, vê o crescimento do número de utilizadores desacelerar com a chegada de concorrentes de peso.

Para os acionistas, não existe a opção de aceitar que o valor das suas ações não vá aumentar o máximo possível para manter a qualidade e a relação custo-benefício da plataforma para o público. Assim, com a aquisição de novos utilizadores em queda, a solução é espremer lucros daqueles que já existem. Por isso, os preços aumentam, surgem planos com anúncios e os novos conteúdos de qualidade são substituídos cada vez mais por produções pasteurizadas, com fórmulas repetitivas e uso de IA no que for possível para tornar o processo mais ágil e barato.

Este processo, popularmente conhecido como “enshittification” (ou “merdificação”, em tradução livre), não é exclusivo da Netflix e já foi observado numa quantidade enorme de mercados, plataformas e produtos.

Ilusão da licença digital
Um exemplo mais recente foi o anúncio da Sony sobre o seu plano para encerrar de vez a fabricação de suportes físicos para os seus jogos. Com o fim dos discos, agora vai ser tudo digital através da loja oficial da PlayStation – esqueça a possibilidade de revender jogos que já terminou ou emprestar jogos facilmente aos seus amigos. Se por algum motivo algum título que comprou for retirado da loja e não o tiver descarregado, adeus, sem hipótese de o recuperar.

Caso a sua conta seja pirateada e a Sony decida que não quer ajudar a recuperá-la por iniciativa própria, terá de ser você a lutar na Justiça para tentar forçar a gigante corporativa a fazer o mínimo. E antes que alguém me acuse de terrorismo psicológico, aconteceu exatamente isso a um utilizador brasileiro identificado pela gamertag Ordo_Liberal: a conta Xbox dele foi invadida mesmo com a autenticação de dois fatores ativada e a Microsoft recusou-se a recuperá-la, argumentando que, como ele apenas tinha acesso a uma licença dos jogos, teria de comprar tudo novamente numa conta nova. O jogador teve de derrotar uma verdadeira equipa de advogados da empresa para conseguir forçar a recuperação da conta original com a biblioteca completa.

Caberiam mais uma série de exemplos aqui, desde a Uber e Lyft até ao motor de busca do Google, às recomendações (e fabrico) de produtos da Amazon e até aos smartglasses da Meta, mas cada um destes casos tem contextos socioeconómicos ligeiramente diferentes por trás da merdificação. Ainda assim, já dá para ter uma ideia de quão universal é a presença desta regra informal quando falamos de produtos e serviços, não é?

Hoje, esta dinâmica de subscrição forçada já avança sobre os eletrónicos físicos: desde smartphones de última geração alugados até construtoras automóveis que exigem mensalidades para libertar funções de hardware que já estão instaladas no seu próprio carro. E isto vale também para setores de produtos fora da área que costumamos associar mais à tecnologia.

Crise das memórias: IA devora o hardware do consumidor
Ao mesmo tempo que esta triste realidade do mundo corporativo já nos empurrava para o modelo de subscrições infinitas, a chegada da IA generativa e dos robôs não só acelerou este comboio para a velocidade máxima, como também cortou todos os travões da locomotiva. Estes sistemas ameaçam de forma não muito velada o trabalho de absolutamente toda a gente, eliminando a fonte de rendimento de grande parte da população mundial e concentrando ainda mais a riqueza nas mãos de poucos.

A IA não está a libertar o ser humano do trabalho braçal para que este produza mais arte, cultura e entretenimento enquanto aproveita melhor a vida. Está a precarizar o trabalho intelectual, a roubar trabalho autoral sem permissão nem distribuição de receita, e a usar mão de obra sub-remunerada em países mais pobres para treinar os robôs que vão ocupar os seus postos de trabalho no futuro.

A falta de regulamentação e o comportamento das Big Techs de “agir primeiro, pedir desculpa depois” já se transformou em vários processos de direitos de autor movidos por consórcios de artistas e órgãos de comunicação social contra as gigantes da IA. Nos escritórios, a transição é imposta à força: profissionais de criação e programadores enfrentam metas de produtividade absurdas sob a justificativa de que a IA deve acelerar o processo - ignorando a perda de qualidade e o aumento de erros no produto final.

Ao mesmo tempo, os centros de dados que vão permitir que as capacidades das IAs aumentem cada vez mais exigem expansão e atualização constantes. Isto deu origem a uma competição desequilibrada por semicondutores, especialmente no que diz respeito à memória RAM, e os três grandes fornecedores de memória que basicamente dominam quase toda a produção global escolheram, logicamente, vender às Big Techs dispostas a pagar o preço que for preciso, em vez de venderem a quem produz dispositivos para o consumidor final. O ritmo é tão intenso que mais de 70% da produção de memória de alta velocidade é consumida hoje justamente pelo mercado da inteligência artificial, deixando o mercado de eletrónicos de consumo a disputar as migalhas a preços inflacionados.

Os componentes tornaram-se tão escassos que até gigantes dos dispositivos de consumo direto, como a Apple e a Samsung, estão a ter de aumentar os preços dos seus produtos para manter parte das suas margens de lucro.

Com margens ainda menores, fabricantes de escala global, mas um pouco mais pequenas, sofrem agravamentos mais significativos – isto quando não são forçadas a adiar lançamentos e a revelar novidades com preços que há dois anos seriam considerados delirantes, como a nova Steam Machine a partir de 1050 $. As consolas de jogos, que tradicionalmente deveriam ir ficando mais baratas com o tempo, passam por aumentos grandes e consecutivos mesmo 6 anos após o lançamento.

Quando é que a crise acaba?
A pior parte é que não dá para dizer que esta seja uma crise passageira. As empresas de memória estão a lucrar como nunca. Segundo analistas, a receita operacional da Micron só em 2026 deverá ficar entre os 90 e os 100 mil milhões de dólares, o que é mais do que a soma de todo o lucro acumulado pela empresa nos 35 anos anteriores.

A situação é muito parecida na Samsung e na SK Hynix, que compõem o resto do trio que domina 90% do mercado de DRAM e também a totalidade da produção de memórias HBM, as mais rápidas e desejadas. Por isso, é óbvio que não têm qualquer motivação para mudar a situação, ainda para mais considerando que, antes da explosão da IA, estas mesmas fabricantes sofriam para fechar o balanço financeiro no verde, já que tinham de ceder às pressões das grandes empresas de eletrónicos e vender a sua produção com descontos agressivos.

Ao ritmo atual, a previsão é que a parte mais dolorosa desta crise dure no mínimo até 2028, com escassez e subida de preços a continuarem pelo menos até meados de 2030; mesmo depois disso, é improvável que os preços voltem ao “normal” de antigamente – deverão apenas parar de aumentar tanto e tão rapidamente. E mesmo isto pode ser otimismo, com o CEO da SK Hynix, uma das três grandes fabricantes de memória, a avisar que 2027 vai ser o pior ano de todos nesta crise e que a procura deverá continuar maior do que a oferta mesmo depois de 2030.

Também não adianta torcer pelo “rebentamento da bolha da IA”, uma vez que o nível de investimento associado às gigantes do setor é hoje tão grande que isso provavelmente afundaria o mundo numa depressão económica de níveis catastróficos.

A escolha forçada: por que razão não terá nada?
Com a combinação desta provável concentração de rendimento acelerada pela IA e pelos robôs, somada aos aumentos de preços de todo o tipo de produtos devido à crise das memórias, um futuro em que não seremos donos de nada parece-me cada vez mais inevitável. Não por causa de uma realidade utópica em que os produtos como serviço são melhores e mais baratos – a merdificação encarregar-se-á de eliminar o que surgir nesse sentido –, mas sim porque, em breve, a maioria de nós já não terá o poder de compra necessário para possuir algo próprio.

E aí, o que resta para todos nós, os 99% de não-milionários, é escolher entre três opções bastante difíceis: ou aceitamos a crescente realidade em que tudo é um serviço por subscrição e nos submetemos aos caprichos das Big Techs, ou desistimos de tudo e acabamos cada vez mais marginalizados e desatualizados, ou então apertamos os cintos para resistir por conta própria enquanto exigimos a políticos e entidades reguladoras legislações que, para ser sincero, provavelmente virão tarde demais.

Se, como eu, acha a terceira opção mais interessante, então a forma de resistir é estudar. Como utilizar sistemas abertos como as diferentes distribuições de Linux? Como fazer jailbreak em dispositivos como smartphones para estender o seu suporte de hardware por mais tempo? Como montar um servidor próprio (NAS) usando o que tiver de máquinas velhas em casa para armazenar os seus ficheiros e centralizar os seus conteúdos multimédia sem depender de nuvens pagas? Como reaproveitar tablets e portáteis antigos para dar uma nova vida a equipamentos que iriam para o lixo? Estes conhecimentos não vão mudar o contexto macroeconómico que nos trouxe até aqui, mas são o único escudo real para o ajudar a continuar no controlo da sua própria vida digital, na medida do possível.

Ler mais:
  1. Sophia Harris (2015) - Netflix helps reform hard-core movie pirates, but at a cost
  2. Mauritaz Wagner (2020) - The effect of Netflix on movie piracy and its impact on the movie industry
  3. Sarah Frick, et al (2023) - Pirate and chill: The effect of netflix on illegal streaming
  4. "Ilegal por Conceção" e Tóxica para o Planeta: A Amnistia Internacional Desmascara a IA

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Mais de 35% das novas páginas da web já são criadas por inteligência artificial

Relatórios e estudos indicam que a inteligência artificial (IA) está a transformar a internet. Mais de 35% das novas páginas da web já são produzidas por IA, enquanto mais da metade do tráfego online é gerada por robôs e sistemas automatizados, cenário que levanta dúvidas sobre a sustentabilidade do modelo económico da web aberta.

Segundo uma reportagem do portal Gizmodo, a adoção crescente de ferramentas de IA generativa coincide com mudanças na Pesquisa do Google. Hoje, respostas produzidas por IA aparecem no topo dos resultados para diversas consultas, reduzindo a necessidade de os utilizadores acederem a páginas da web. Um estudo da Growth Memo aponta que 75% dos utilizadores que utilizam o Modo IA permanecem a conversar com o chatbot em vez de clicar em hiperligações de sites. A tendência preocupa empresas de comunicação social e produtores de conteúdo porque o modelo tradicional da internet depende do tráfego gerado pelos motores de pesquisa. Ao aceder a páginas da web, os utilizadores visualizam anúncios que financiam jornalistas, criadores e outros profissionais responsáveis pela produção de conteúdo original. Com menos visitantes humanos e mais respostas entregues diretamente por IA, esse modelo passa a enfrentar novos desafios.

IA produz, IA consome: a internet está morta?
Outro levantamento mostra que mais de 50% do tráfego da internet atualmente não é gerado por pessoas, mas sim por sistemas automatizados. O dado foi divulgado num relatório da Cloudflare publicado este mês e reforça que os robôs já representam uma parcela significativa da atividade online.

O Google, no entanto, contesta parte das interpretações sobre os impactos dos seus recursos de IA. Em nota enviada ao Gizmodo, um porta-voz da empresa afirmou que o estudo segundo o qual 75% dos utilizadores permanecem no Modo IA "não era representativo", argumentando que os participantes receberam "tarefas forçadas e não naturais que provavelmente influenciaram o seu comportamento". Segundo a companhia, a pesquisa não refletia consultas nem hábitos reais dos utilizadores. A empresa também defendeu a precisão dos seus recursos baseados em IA. Em comunicado ao portal, o Google afirmou: "Testámos rigorosamente a qualidade destes recursos usando amostras estatisticamente significativas de consultas representativas de utilizadores. As respostas são precisas na grande maioria das vezes e, quando erramos, usamos esses exemplos para aprimorar continuamente os nossos sistemas”.

Apesar da defesa da companhia, o Gizmodo relata que as respostas produzidas pelo Modo IA ainda apresentam erros factuais. Num teste feito pelo jornalista Mike Pearl, a ferramenta afirmou, de forma incorreta, que o presidente de Madagáscar seria conhecido pela alcunha "Andy" e inventou um suposto ex-chefe de governo de Montserrat. Após ser questionada, a própria IA reconheceu o erro e respondeu: "Está absolutamente correto, e peço desculpa por ter fornecido informações completamente incorretas na minha última resposta”. Para o Gizmodo, a evolução destas ferramentas também está a alterar o comportamento dos utilizadores. Em vez de procurar páginas publicadas por pessoas, cresce o hábito de fazer perguntas diretamente aos chatbots, que sintetizam a informação disponível na web. A mudança pode reduzir ainda mais o acesso aos sites originais e colocar pressão sobre um modelo que, durante décadas, sustentou financeiramente a produção de conteúdo na internet.

Ler mais:
  1. Cloudflare lança o Precursor para conter o tráfego automatizado através da análise contínua das sessões
  2. Cloudflare Introduces Precursor; One-Click Behavioral Defense Against Modern Bots

sábado, 20 de setembro de 2025

Como o Google ganha milhares de milhões consigo e como cancelar a subscrição


Não consegue aceder à internet sem interagir com o Google de alguma forma. E embora quase todos saibamos que o gigante tecnológico ganha dinheiro com a publicidade, talvez não saiba a dimensão desta receita (cerca de 264 mil milhões de dólares em 2024, 75% do total anual). O que torna a publicidade segmentada do Google tão valiosa? Adivinhou: os seus dados. Então, alguém consegue escapar ao alcance do gigante da recolha de dados da Google? Analisámos a fundo como o Google gera uma receita astronómica seguindo-o — e como cancelar o recebimento.

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Catfishing de homens: o que é e o que pode fazer?


O catfishing ocorre quando alguém cria uma identidade falsa na internet ou em ambientes digitais para enganar outras pessoas, geralmente em contextos de relacionamentos ou amizades online. As motivações variam: algumas pessoas recorrem a esta prática para cometer fraude financeira, outras por “brincadeira”, desejo de vingança (mesmo que infundado), manipulação emocional, entre outros.

Em português, não existe uma tradução amplamente reconhecida para catfishing, mas algumas expressões usadas incluem burla romântica, fraude de identidade online, golpe sentimental ou, como referimos na Quebrar o Silêncio, fraude emocional ou romântica.

Sinais de Catfishing
Perfis demasiado perfeitos ou misteriosos
Fotos excessivamente atraentes, poucas imagens disponíveis ou ausência de presença noutras redes sociais. Contas recentes com poucos conteúdos ou sem atualizações, ou ainda com poucas interações que pareçam reais (ie: ter poucas amizades ou poucos seguidores).
Relutância em fazer videochamadas ou em encontros presenciais
Um ou uma catfish arranja desculpas para evitar interações que possam expor a sua verdadeira identidade. É comum alegarem que estão ocupados, que é uma má altura ou simplesmente que o telemóvel não tem câmara ou está avariado, para evitar fazer videochamadas.
Histórias inconsistentes ou demasiado dramáticas
Muitas vezes, inventam histórias de vida trágicas (mortes de familiares, doenças graves, perda de filhos) e alteram a narrativa conforme necessitam, apresentando factos contraditórios, para gerar empatia da vítima.
Rapidez em demonstrar emoções intensas
Expressões de amor ou amizade profunda demasiado cedo, sem um verdadeiro conhecimento mútuo. É comum tentarem passar de amizade para algo mais íntimo referindo que nunca se sentiram tão próximos como se sentem da vítima. Recorrem ao bombardeamento de elogios, procurando levar a outra pessoa a sentir-se única e especial.
Pedidos de dinheiro ou favores
Muitas vezes, um ou uma catfish tenta obter dinheiro com pretextos como emergências médicas, problemas financeiros ou custos de viagem para encontros que nunca acontecem. Motivos que aliados a histórias dramáticas (para apelar à simpatia da vítima), como por exemplo comprar comida para bebé, funcionam como um meio de extorquir dinheiro mesmo que seja quantias de baixo valor . 
Evitam partilhar informações pessoais verificáveis
Recusam-se a fornecer dados concretos como morada, trabalho, família ou número de telemóvel. Por vezes, cedem informações que são vagas (como a localidade onde vivem) ou contraditórias (idade, profissão).

Consequências para as vítimas
Danos emocionais e psicológicos
O engano pode levar a sentimentos de vergonha, humilhação, ansiedade ou depressão.
Perda de confiança nas relações
Muitas vítimas tornam-se desconfiadas e evitam novos relacionamentos por medo de serem enganadas novamente.
Danos financeiros
Se a vítima enviou dinheiro, pode perder quantias significativas sem possibilidade de reembolso.
Manipulação emocional e abuso
Alguns catfish exploram a vítima emocionalmente, levando-a a acreditar em mentiras e a tomar decisões que a prejudicam.
Exposição e chantagem
Em certos casos, pode haver ameaças para expor informações ou imagens íntimas da vítima, podendo haver uma sobreposição com extorsão sexual.

Se suspeitar que está a ser vítima, saiba o que pode fazer
Verificar a identidade da pessoa
Pesquisar imagens de perfil no Google, procurar a pessoa noutras redes sociais e verificar a coerência das suas histórias.
Recusar pedidos de dinheiro
Não enviar dinheiro a alguém, especialmente quando não tem a certeza de quem é a pessoa com quem fala.
Exigir interações reais
Insistir em videochamadas ou encontros presenciais (em locais públicos e com acompanhamento de uma pessoa amiga) para confirmar a identidade. E mesmo que consiga, desconfie sempre, se algo não lhe parecer bem.
Não partilhe dados pessoais e sensíveis
Não forneça os seus dados pessoais e informações sensíveis como números de cartões, morada, número de identificação fiscal, etc.
Confiar nos instintos
Se algo parece suspeito, confie no seu instinto. Questione e afaste-se.

Catfishing e extorsão sexual
O catfishing e a extorsão sexual (sextortion) podem sobrepor-se quando alguém cria uma identidade falsa para enganar vítimas e depois as chantageia. Um catfish pode dedicar meses ou até anos a construir uma relação falsa para extorquir dinheiro ou obter favores. É comum haver uma manipulação emocional que desempenha um papel central, levando a vítima a baixar a guarda.
Nos casos de extorsão sexual, a abordagem pode ser ainda mais rápida, com a transição do engano para a chantagem a ocorrer num único dia ou até em escassos minutos. As duas podem ter um impacto danoso e grave nas vítimas. Jovens e adultos vulneráveis são os principais alvos, mas qualquer pessoa pode ser apanhada neste tipo de esquema.

Homens e rapazes vitimados
O catfishing pode ter um impacto grave nos homens e rapazes, mas estes casos são frequentemente ignorados ou minimizados. Muitos homens, que são enganados por perfis falsos, enfrentam não só a dor emocional da traição, mas também sentimentos de vergonha, auto culpabilização e humilhação, exacerbados por normas sociais que os pressionam a serem emocionalmente resilientes. Esta vergonha pode impedi-los de procurar apoio ou denunciar o crime, deixando-os vulneráveis a abusos prolongados.

Os rapazes, especialmente os adolescentes, podem ser alvos fáceis para predadores que recorrem ao catfishing como ferramenta para manipulação e abuso. A falta de educação sobre segurança digital e a crença de que os homens estão menos expostos a este tipo de fraude contribuem para um risco acrescido.

Os rapazes gay, bissexuais ou trans (GBT) podem ser particularmente vulneráveis devido ao medo do preconceito, do outing (exposição forçada da sua orientação sexual e/ou identidade de género) e da falta de espaços seguros para explorar a sua identidade. Muitos recorrem a plataformas online para conhecer pessoas e construir ligações, ligações estas que podem ser exploradas por predadores. Alguns catfish manipulam vítimas GBT, ameaçando expô-las a familiares ou comunidades hostis, usando a vergonha e o medo como estratégias de controlo. Além disso, os rapazes GBT podem sentir-se encurralados, sem saber a quem recorrer, intensificando o isolamento social.

quinta-feira, 10 de julho de 2025

Suécia abandona educação digital: retorno aos livros impressos na escola


Gesto e política louvável: a Suécia, único país que, desde a década de 1990, buscou implementar a educação 100% digital nas escolas, voltou atrás e decidiu investir, ao longo de 2023, 45 milhões de euros na distribuição de livros didáticos impressos.

A leitura e os livros trazem uma série de vantagens para o desenvolvimento pessoal, intelectual e emocional. Aqui estão as principais:

1. Expansão do conhecimento
Livros são fontes ricas de informação e sabedoria.
Permitem aprender sobre qualquer tema: ciência, história, arte, psicologia, entre outros.

2. Estimulação mental
Ler exercita o cérebro, melhora a memória e previne o declínio cognitivo.
A leitura regular está associada a maior agilidade mental.

3. Redução do stress
Ler um bom livro pode funcionar como uma forma de escapismo saudável.
A imersão numa história ajuda a relaxar e a desligar-se das preocupações do dia a dia.

4. Melhoria do vocabulário e da comunicação
Quanto mais se lê, mais palavras se aprende.
A leitura melhora a capacidade de expressão oral e escrita.

5. Desenvolvimento do foco e da concentração
Ler exige atenção contínua, o que treina a capacidade de concentração num mundo cheio de distrações.

6. Abertura para novas perspectivas
Os livros permitem viver outras vidas, conhecer culturas e realidades diferentes.
Aumentam a empatia e a compreensão do mundo.

7. Estímulo à criatividade e imaginação
Especialmente em crianças, a leitura desenvolve a imaginação e incentiva a criação de novas ideias.

8. Uso produtivo do tempo
Em vez de gastar tempo com conteúdos superficiais, a leitura oferece crescimento pessoal e intelectual.

terça-feira, 25 de junho de 2024

Microsoft charged with EU antitrust violations for bundling Teams



EU regulators have charged Microsoft with illegally bundling its Teams chat app with its Office 365 and Microsoft 365 subscriptions. It’s the first time Microsoft has been charged with antitrust violations in the EU for 15 years, following two big cases related to Windows Media Player and Internet Explorer bundling.

“The European Commission has informed Microsoft of its preliminary view that Microsoft has breached EU antitrust rules by tying its communication and collaboration product Teams to its popular productivity applications included in its suites for businesses Office 365 and Microsoft 365,” says the European Commission in a statement today.

Microsoft has now been handed a statement of objections, a list of the EU’s concerns over its Teams bundling. The software giant unbundled Teams from Office in Europe last year in an attempt to address regulator concerns, and then spun off Teams from Office 365 as its own separate app globally. The unbundling hasn’t been enough to prevent charges, though.

“We are concerned that Microsoft may be giving its own communication product Teams an undue advantage over competitors, by tying it to its popular productivity suites for businesses,” says Margrethe Vestager, the head of competition policy in Europe. “If confirmed, Microsoft’s conduct would be illegal under our competition rules. Microsoft now has the opportunity to reply to our concerns.”

Microsoft says it is working with the EU to find solutions. “Having unbundled Teams and taken initial interoperability steps, we appreciate the additional clarity provided today and will work to find solutions to address the Commission’s remaining concerns,” says Microsoft president Brad Smith in a statement to the Financial Times.

EU lawmakers first opened a Microsoft antitrust investigation into Teams bundling last year, following an anti-competitive complaint filed by Slack in July 2020. Slack’s original complaint alleged that Microsoft had “illegally tied” its Microsoft Teams product to Office and is “force installing it for millions, blocking its removal, and hiding the true cost to enterprise customers.”

“The Statement of Objections issued today by the European Commission is a win for customer choice and an affirmation that Microsoft’s practices with Teams have harmed competition,” Sabastian Niles, president and chief legal officer of Salesforce, Slack’s parent company, says in a statement. “We appreciate the Commission’s thorough investigation of Slack’s complaint and urge the Commission to move towards a swift, binding, and effective remedy that restores free and fair choice and promotes competition, interoperability, and innovation in the digital ecosystem.”

If Microsoft is found guilty of antitrust violations, the firm could face a fine of up to 10 percent of the company’s annual worldwide turnover. The European Commission could also impose remedies to force Microsoft to change its software products, much like it has in the past.

In 2004 the European Commission ordered Microsoft to offer a version of Windows without Media Player bundled, which resulted in a Windows XP N version available only in EU markets. In 2009 Microsoft was also forced to implement a browser ballot box in its Windows operating system to ensure users were presented with a choice of web browsers, after years of Microsoft bunding Internet Explorer with Windows. Microsoft was then fined $730 million in 2013 for failing to include the browser ballot in Windows 7 SP1.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Long Lines Building - O mistério escondido num arranha-céu sem janelas de Nova York


Arquitectura brutalista
Projetado em 1974, pelo arquiteto John Carl Warneke, o Long Lines Building (Prédio de longas linhas, em tradução livre) fica bem no centro de Manhattan. A sua construção, contudo, não é nada usual e parece um pouco deslocada no mar de edifícios da região. Construído a partir de lajes de betão e painéis de granito, tem uma aparência cinza e funcional.

Fachadas sem aberturas não só impedem a entrada de elementos externos no edifício, mas também ajudam a manter uma temperatura constante, segundo o NYV Urbanism.

No total, o prédio conta com 170 metros de altura, divididos por 29 andares - sendo que o famoso Empire State Building mede 381 m. Só que, no caso do Long Lines, além da visível falta de janelas, cada um dos andares também conta com um pé direito altíssimo.

Ainda mais impressionante, de acordo com o site Atlas Obscura, a construção foi projetada para suportar uma quantidade absurda de peso por metro quadrado. Tudo isso com o objetivo de servir como uma grande central de telecomunicações.

Comunicação é a chave
Acontece que, desde sua criação, até hoje, o prédio na 33 Thomas Street pertence à AT&T, uma gigante da comunicação nos Estados Unidos. Quase tão resistente quanto uma fortaleza, então, o prédio servia como base para os computadores da empresa.

Os equipamentos antigos, contudo, não eram tão fáceis de transportar e de manter como os dos dias atuais. Por isso, os andares deveriam ser mais altos, devido ao tamanho das caixas de metal, e o prédio deveria ser mais resistente, pensando no peso.

Naquela época, a sede da AT&T também guardava equipamentos telefônicos de longa distância. Atualmente, além dos aparelhos, o prédio ainda serve como central de armazenamento de uma parte de dados importantes detidos pela empresa.

Planta suspeita
Projetado para guardar uma grande quantidade de informações bastante valiosas, o edifício tem uma segurança quase impenetrável. Isso sem contar as paredes resistentes, que podem resistir a uma explosão nuclear, permitindo que os sistemas continuem em pleno funcionamento por duas semanas, mesmo sem contato com uma rede fixa.

O problema é que, segundo o The Intercept, as potentes estruturas do Long Lines estão sendo usadas para um segundo propósito, que não o comercial da AT&T. Em matéria publicada em novembro de 2016, o veículo afirmou que o edifício também serve como um centro de espionagem da NSA (Agência de Segurança Nacional).

De acordo com a denúncia, o arranha-céu teria o codinome de ‘Titanpointe’ e, entre as suas paredes sem janelas, guardaria escutas telefónicas e equipamentos utilizados para coletar dados governamentais. Por isso, inclusive, poucos teriam acesso ao seu interior.

O edifício também conta, segundo a reportagem, com três subsolos, abastecidos com comida o suficiente para que 1,5 mil pessoas se alimentem por duas semanas em caso de catástrofe. 
Segundo o The Sun é uma das construções mais seguras dos Estados Unidos, capaz, inclusive de resistir a uma explosão nuclear!

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

A Grande Divisão do Carbono - 1% mais rico é responsável por mais emissões de carbono do que 66% mais pobres


O 1% mais rico da humanidade é responsável por mais emissões de carbono do que os 66% mais pobres , com consequências terríveis para as comunidades vulneráveis ​​e para os esforços globais para enfrentar a emergência climática, de acordo com o estudo mais abrangente sobre a desigualdade climática global alguma vez realizado.

Nos últimos seis meses, o Guardian trabalhou com a Oxfam, o Instituto Ambiental de Estocolmo e outros especialistas numa base exclusiva para produzir uma investigação especial, A Grande Divisão do Carbono. Explora as causas e consequências da desigualdade de carbono e o impacto desproporcional dos indivíduos super-ricos, que foram denominados “a elite poluidora”.

O relatório da Oxfam mostra que este grupo de elite, composto por 77 milhões de pessoas, incluindo multimilionários, milionários e aqueles que pagam mais de 140.000 dólares por ano, foi responsável por 16% de todas as emissões de CO 2 em 2019 – o suficiente para causar mais de um milhão de mortes em excesso devido ao calor, de acordo com o relatório.

O relatório mostra que, embora os 1% mais ricos tendam a viver vidas climaticamente isoladas e com ar condicionado, as suas emissões – 5,9 mil milhões de toneladas de CO 2 em 2019 – são responsáveis ​​por imenso sofrimento. A justiça climática estará no topo da agenda da cimeira climática Cop28 da ONU deste mês nos Emirados Árabes Unidos.

As emissões climáticas de doze bilionários poluem mais que 2,1 milhões de casas. Quem são eles? Os magnatas incluem o chefe da Amazon, Jeff Bezos, o oligarca russo Roman Abramovich, os bilionários da tecnologia Bill Gates, Larry Page e Michael Dell, o inventor e proprietário de uma empresa de media social Elon Musk e o magnata mexicano Carlos Slim.

Qual é a grande divisão de carbono? Não somos igualmente culpados pelo aumento das temperaturas e reconhecer isso é um passo importante na identificação de possíveis soluções. Jonathan Watts explica .

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

Dois Cérebros Emocionais


"Nas décadas de 70 e 80, a sociedade exagerou um pouco na reação a estes estudos sobre o cérebro dividido, surgindo uma panóplia de iniciativas que enfatizavam o «lado esquerdo do cérebro» e o «lado direito do cérebro». Várias escolas alinharam na ideia e criaram programas curriculares que ajudavam a estimular ora um, ora outro, ora ambos os hemisférios cerebrais. O estereótipo da pessoa que usa mais um dos lados do cérebro disseminou-se, com aquelas que tinham o lado esquerdo mais preponderante a mostrarem-se mais organizadas, pontuais e atentas aos pormenores, ao passo que as que tinham o lado direito mais preponderante a saírem-se bem nas áreas da criatividade, da inovação e do desporto. Infelizmente, em reação a essa moda do lado esquerdo/lado direito, a estratégia que muitos pais adotaram para ajudarem os seus filhos a ganharem uma vantagem competitiva foi expô-los a iniciativas que se ajustavam aos seus talentos naturais. Isto fazia sentido, claro, pois queriam que os seus filhos fossem recompensados por aquilo em que revelavam um bom desempenho. Mas se o seu objetivo era gerar crianças mais completas e multifacetadas, então teria sido preferível inscrevê-las em atividades em que não eram boas. Por exemplo, poderiam ter encorajado os jovens com as faculdades científicas e matemáticas mais desenvolvidas a participar em iniciativas ao ar livre, em que pudessem explorar e recolher dados científicos numa floresta. E poderiam ter incitado os jovens com mais propensão para o desporto e para as artes a criarem um qualquer projeto científico ligado aos seus interesses. No entanto, como os pais fizeram o que fizeram, ao longo dos últimos 40 anos as nossas tendências naturais penderam para os dois extremos. Têm surgido alguns textos e cursos especificamente pensados para ajudar a desenvolver o nosso lado menos preponderante, incluindo o livro Drawing on the Right Side of the Brain, um clássico que ainda é muito usado hoje em dia. Além disso, facilmente reconhecemos como os publicitários aperfeiçoaram as suas estratégias de marketing para apelar às preferências do nosso hemisfério esquerdo ou direito. Até os sistemas informáticos que usamos seguem esta lógica: os produtos Apple são vistos como sendo para criativos que usam mais o lado direito, ao passo que tudo o que seja Windows é para pessoas analíticas que usam mais o lado esquerdo .Lembram-se dos telemóveis Blackberry? Davam com o meu hemisfério direito em doido.

Como Funcionam os Dois Hemisférios
Além destes esforços da ciência popular, concebidos para tirar partido das diferenças estereotipadas entre os nossos dois hemisférios, há uma pilha de conhecimentos científicos com base em evidências que nos oferece uma noção bastante clara das diferenças anatómicas e funcionais das duas metades do cérebro. Quem estiver interessado tanto no panorama geral como nos pormenores do que se descobriu acerca destas diferenças ao longo do último século, o livro The Master and His Emissary, da autoria do psiquiatra inglês Dr. lain McGilchrist, é uma leitura fascinante e atualizada. Caso esteja interessado no modo como um psiquiatra de Harvard trabalha com as personagens dos hemisférios esquerdo e direito numa tentativa de ajudar os seus pacientes a/superarem questões relacionadas com doenças mentais, o livro Of Two Minds, escrito pelo Dr. Fredric Schiffer, é muitíssimo esclarecedor. Aborda inclusivamente o facto de as personagens dos dois hemisférios serem tão diferentes que cada uma delas pode manifestar dores e queixas individuais, que o outro não verifica nem exibe. Adicionalmente, se procura uma ferramenta alternativa sobre como gerir questões relacionadas com doenças mentais, o modelo dos Sistemas da Família Interior [Podia ter sido mais corretamente traduzido como Terapia Familiar dos Sistemas Internos, do inglês Internal Family Systems], desenvolvido pelo Dr. Richard Schwartz, é uma estratégia interessante que reconhece e trabalha com as diferentes partes da personalidade de uma pessoa, para que possam colaborar e encontrar uma solução saudável. Cada um destes livros e instrumentos são fascinantes caso queira descobrir mais sobre o cérebro. Os nossos dois hemisférios contribuem constantemente para o todo de um dado momento da nossa experiência, pelo que não estou a sugerir que o lado esquerdo e o lado direito do cérebro funcionam em separado. A tecnologia moderna mostra claramente que, a todo o instante, ambos os hemisférios contribuem para a entrada de informação, para a experiência e para as reações do sistema nervoso. Porém, como disse atrás, as células cerebrais dominam e inibem as suas contrapartes regularmente, pelo que o cérebro não está todo ativo ou todo inativo em nenhuma circunstância, à exceção da morte. Ao pensarmos no funcionamento do cérebro, é natural que nos interroguemos: «Como é possível que um grupo de células cerebrais se coordene para criar uma personalidade sequer?» Não sou a primeira pessoa a fazer esta pergunta, nem sou a primeira a sofrer uma lesão cerebral a manifestar uma alteração na personalidade e, depois, a recuperar as células traumatizadas, regenerar os antigos circuitos, readquirir as antigas aptidões e os velhos traços de personalidade. No entanto, talvez seja a primeira neuroanatomista a fazer esta viagem às profundezas do funcionamento neuronal e psicológico do próprio cérebro e, depois, chegar a estas conclusões únicas acerca das Quatro Facetas. As células cerebrais são criaturas ínfimas e muito belas que se apresentam com diferentes formas e tamanhos, e a sua configuração dita a sua capacidade de realizar as suas funções específicas. Por exemplo, os neurónios sensoriais localizados no córtex auditivo primário de cada um dos nossos hemisférios têm um formato só seu, que lhes permite processar a informação sonora. Outros neurónios cuja função é interligar diferentes regiões no cérebro têm o formato adequado a essa ação, tal como as células relativas ao sistema motor. É importante referir que os nossos neurónios e o modo como eles se coordenam uns com os outros são, essencialmente, comuns a todas as pessoas. Em termos estruturais, os sulcos e os altos e baixos do córtex cerebral externo de todos os seres humanos são praticamente idênticos. Tanto assim que danos causados a uma área específica no seu cérebro destruiria as mesmas funções que destruiria no meu, caso sofrêssemos a mesma lesão. Usando o córtex motor como exemplo, se nós os dois danificássemos esse grupo de células especifico, seria quase certo que ambos ficaríamos com as mesmas zonas do corpo paralisadas. Por detrás das diferenças funcionais entre os nossos dois hemisférios estão neurónios que processam informação de forma própria. Para dar um exemplo: os neurónios do hemisfério esquerdo funcionam de modo linear - pegam numa ideia, comparam essa ideia à ideia seguinte, e depois comparam o resultado dessas ideias."
Jill Bolte Taylor PhD, in O Cérebro a 100% [Whole Brain Living: The Anatomy of Choice and the Four Characters That Drive Our Life] (Páginas 38-41)

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Um décimo das espécies animais do Brasil estão em risco de extinção


Um décimo das espécies animais do Brasil está em risco de extinção em algum grau, segundo uma plataforma lançada na quarta-feira pelo Governo brasileiro que inclui dados sobre 14.785 espécies.

Avaliar populações de animais nos mais diversos biomas brasileiros e conhecer as possíveis ameaças: queimadas, desmatamentos, destruição de habitat, caças e matanças deliberadas. Nesta quarta-feira (2), o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) divulgou a evolução de estudos e a publicação de uma plataforma na internet que apresenta a situação de quase 15 mil espécies no país. Trata-se do Sistema de Avaliação do Risco de Extinção da Biodiversidade, conhecido como Salve.  

De acordo com a Plataforma de Avaliação do Risco de Extinção da Fauna (Salve), uma plataforma virtual lançada hoje na sede do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) em Brasília, 10,8% das espécies do país estão criticamente ameaçadas, em perigo, vulneráveis ou quase ameaçadas.

A plataforma descreve 364 espécies, 2,5% do total, como criticamente em perigo; outras 428 como em perigo (2,9%), 469 como vulneráveis (3,2%) e 320 como quase ameaçadas (2,2%).

Das espécies listadas, seis já estão extintas, uma está extinta na natureza (restam exemplares em cativeiro) e três estão extintas nas suas regiões de habitat.

De acordo com a plataforma, a grande maioria das espécies brasileiras (11.767 ou 79,6%) está numa situação "menos preocupante" em termos de ameaças de extinção, e para outras 1.207 (8,2%) não há dados suficientes para indicar o grau de ameaça que enfrentam.

Qualquer pessoa pode fazer pesquisa na plataforma, pelo nome popular ou científico do animal. Para o coordenador da Coordenação de Avaliação do Risco de Extinção das Espécies da Fauna (Cofau) e analista ambiental do ICMBio, Rodrigo Jorge, a iniciativa vai contribuir para a conservação das espécies ameaçadas. 

“Precisamos avançar na realização de análises para estimar a tendência da biodiversidade no Brasil”, afirma. Ele explica que houve um aumento do número de espécies ameaçadas, mas o universo de espécies avaliadas também cresceu. 

Políticas públicas
O pesquisador Rodrigo Jorge acredita que, a partir das avaliações feitas pelos cientistas, a perda e a degradação de habitat da fauna são algumas das principais ameaças. Segundo ele, há uma relação direta com o aumento do desmatamento nos últimos anos. 

“Fica evidente a necessidade urgente de reverter essa tendência. Por isso, a postura da atual gestão de priorizar o combate ao desmatamento traz boas perspectivas para a conservação da biodiversidade”, opina.

As pesquisas do ICMBio contaram com apoio do Projeto Pró-Espécies: Todos contra a Extinção, e com a participação de especialistas da comunidade científica.

Como aponta a entidade, a iniciativa tem o objetivo de facilitar a gestão do processo de avaliação do risco de extinção e tornar essas informações mais acessíveis para a geração de conhecimento e implementação de políticas públicas voltadas à conservação da biodiversidade. 

Catalogação
Dentro das quase 15 mil espécies avaliadas, já estão publicadas e disponíveis as fichas completas de 5.513 espécies. Segundo o ICMBio, a expectativa é que - até o final deste ano - sejam concluídos os trabalhos para a publicação de nova atualização da lista de espécies ameaçadas da fauna brasileira e disponibilização das fichas das espécies. 

“O Brasil é reconhecido mundialmente por abrigar a maior biodiversidade do planeta, e a partir da atualização e disponibilização desses dados será possível reforçar a implementação de ações que promovam a conservação da nossa fauna”, diz Rodrigo. 

O ICMBio exemplifica que as informações disponíveis na plataforma podem ser utilizadas para processos de licenciamento ambiental. Acentua que “análises realizadas a partir dos registros de ocorrência de espécies disponibilizados no Salve permitirão verificar áreas de concentração de espécies ameaçadas”.

Segundo o instituto, o desenvolvimento da plataforma teve início em 2016. Esse processo de avaliação do risco de extinção das espécies da fauna brasileira foi conduzido pelos 13 centros nacionais de pesquisa e conservação (CNPC) do órgão.

Mais de 1,5 mil profissionais participam das avaliações. Os trabalhos seguiram o método de categorias e critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e os resultados são publicados somente após a validação das informações. 

segunda-feira, 26 de junho de 2023

Black Rock - Os Donos Disto Tudo


Fonte: Zero Hedge
Uma semana depois que um funcionário da maior empresa de gerenciamento de ativos do mundo, a Black Rock, descreveu como a empresa tenta ficar fora dos holofotes da media enquanto compra políticos e lucra com a guerra (de acordo com imagens secretas obtidas pelo O'Keefe Media Group) , achamos que vale a pena dar uma olhada em quais empresas a empresa de 34 anos tem mais controle.

Como lembrete, em imagens gravadas secretamente por jornalistas disfarçados em Nova York, um recrutador da BlackRock chamado Serge Varlay explica como a empresa de investimentos é capaz de “governar o mundo”.

“Eles [BlackRock] não querem ser notícia. Eles não querem que as pessoas falem sobre eles. Eles não querem estar em nenhum lugar no radar”, disse Varlay.

Varlay disse a um jornalista da OMG na filmagem que a BlackRock administra US$ 20 triliões em todo o mundo (na verdade, cerca de US$ 9 triliões). “São números incompreensíveis”, disse.

“ Você pode pegar essa p*** de dinheiro e comprar pessoas, eu trabalho para uma empresa chamada Black Rock… Não é quem é o presidente, é quem está controlando a carteira do presidente.

Você poderia comprar os seus candidatos. Primeiro, há os senadores que esses caras são baratos p****. Tem 10 mil, você pode comprar um senador. Vou-te dar 500k agora. Não importa quem ganha, eles estão no meu bolso.”

Dado esse status, o portfólio de ações da BlackRock pode fornecer informações úteis aos investidores. Para saber mais, Marcus Lu e Rosey Eason, da Visual Capitalist, visualizaram as 25 principais participações acionárias da empresa no  primeiro trimestre de 2023 . Naquela época, essas 25 posições valiam mais de US$ 1 trilhão e representavam cerca de 30% do portfólio de ações da BlackRock.

Eles criaram um infográfico que podem consultar aqui

quarta-feira, 17 de maio de 2023

Uma moda com pouco impacto e destinada a uma morte catastrófica - As previsões falhadas sobre a Internet


Entrámos na máquina do tempo e viajámos até aos “primórdios” da World Wide Web e da Internet como a conhecemos para recordar algumas das previsões tecnológicas que acabaram por não se cumprir.
O nascimento da World Wide Web fez correr muita tinta, entre manifestações efusivas acerca do potencial da tecnologia, visões mais moderadas e críticas, mas também muitas previsões acerca do seu futuro.

É verdade que ainda não existem bolas de cristal ou outros artifícios mágicos que permitam prever o futuro com exatidão, mas algumas previsões acabaram mesmo por não vingar. Aliás, como relembrou recentemente Tim Berners-Lee, quando a World Wide Web surgiu, muitos acreditavam que seria apenas uma moda.

Na data em que se assinala o Dia das Telecomunicações e da Sociedade da Informação, aproveitamos para fazer uma viagem no tempo e recordar algumas das previsões falhadas sobre a Internet.

Em fevereiro de 1995, um artigo de opinião publicado na revista norte-americana Newsweek, assinado pelo astrónomo, autor e professor Clifford Stoll, chamou a atenção com o cabeçalho “A Internet? Bah!” (numa tradução para português), frisando os motivos pelos quais considerava que nunca seria possível atingir um estado de “nirvana” através do ciberespaço.

Apesar da sua experiência com a tecnologia que esteve na base da Internet, Clifford Stoll admitia sentir desconforto em relação ao futuro que os visionários da época preconizavam: do trabalho remoto às bibliotecas interativas e salas de aula multimédia, passando pelas comunidades virtuais, negócios e comércio online e até pela possibilidade de a liberdade das redes digitais tornar os governos mais democráticos. Para o autor, tudo não passava de “tretas”.
“a verdade é que nenhuma base de dados online vai substituir os jornais diários, nenhum cd-rom vai tomar o lugar de um professor competente e nenhuma rede de computadores vai mudar a forma como o governo funciona”.
Muitos anos mais tarde após a sua publicação, a peça passou a constar de múltiplas listas online de previsões falhadas sobre a Internet. Em 2017, a propósito do 28º aniversário da World Wide Web, a Newsweek publicou uma versão “corrigida” do artigo.

No entanto há ainda quem defenda que uma leitura mais aprofundada permite ver que alguns das questões mencionadas por Clifford Stoll acabaram por se tornar desafios com os quais lidamos atualmente, sobretudo, no que toca à desinformação, ou até no impacto da Internet na forma como nos relacionamos socialmente.

Uma “morte” catastrófica?
Também em 1995, num artigo de opinião publicado na revista InfoWorld, Robert Metcalfe, co-inventor da Ethernet, deu a conhecer que acreditava que a Internet iria explodir tal como uma supernova e depois colapsar de forma catastrófica em 1996, deixando para trás um rasto de websites “fantasma”.

Curiosamente, Robert Metcalfe prometeu comer as suas palavras caso a sua previsão não se concretizasse, numa promessa feita nesse mesmo ano, na quarta edição da World Wide Web Conference.

O que é certo é que em abril de 1997, durante uma edição da World Wide Web Conference, o autor cumpriu à letra o que prometeu, não sem antes passar uma cópia impressa do seu artigo por uma liquidificadora, como reconta um artigo da InfoWorld.


Mas Robert Metcalfe não foi o único a dar um prazo de validade curto ao mundo online. Em 1998, o economista Paul Krugman, que foi laureado com o prémio Nobel da Economia em 2008, previa num artigo na revista Red Herring que o crescimento da Internet iria desacelerar drasticamente.

O motivo? Tal aconteceria “à medida que a falha na Lei de Metcalfe, que indica que o número de potenciais ligações numa rede é proporcional ao quadrado do número de participantes, se torna aparente: a maioria das pessoas não tem nada para dizer às outras”.
“por volta de 2005 ficará claro que o impacto da internet na economia não terá sido maior do que o da máquina de fax”.
Em janeiro de 1997, numa edição da revista Popular Mechanics, Brian C.Fenton, editor da secção de eletrónica, alertava para a possibilidade da Internet sucumbir ao “peso” do seu sucesso, ficando tão lenta que acabaria por se tornar inútil.

Nas palavras do autor, recordadas num artigo mais recente, onde a revista aponta várias das suas previsões tecnológicas que não se concretizaram, tendo em conta a procura, com um número de utilizadores que estava a crescer a um ritmo anual de 200%, o facto de a Internet não ter colapsado era “impressionante”.
Nem a Microsoft se "escapou"

No final dos anos 90, até mesmo Bill Gates, que co-fundou e durante anos dirigiu a Microsoft, mostrava algumas incertezas quanto à Internet. Num artigo de 1997, o jornal The New York Times, apontava o responsável da gigante tecnológica como um dos “céticos” da época.

Segundo o artigo, no livro “The Road Ahead”, publicado em 1995, Bill Gates detalhava que a tecnologia para as “killer apps”, isto é, aplicações não era a mais adequada para atrair os consumidores para a Internet. Mais tarde, a obra foi revista, passando a incluir um capítulo sobre a Internet.

Já em 2020, por ocasião do 25º aniversário do lançamento do livro, Bill Gates aproveitou para rever as suas previsões com novos olhos. “Fui muito otimista em relação a algumas coisas, mas outras aconteceram mais depressa ou mais dramaticamente do que eu imaginava”, admitiu numa publicação no seu blog.

Esta não foi a única previsão falhada do antigo responsável da Microsoft. Alegadamente, Bill Gates terá dito, num evento da feira de tecnologia Comdex em 1994, que não via grande potencial para a Internet para os próximos 10 anos. Já em 2004, durante a edição desse ano do Fórum Económico Mundial em Davos, onde garantiu que o problema do spam seria resolvido em dois anos.

A verdade é que, hoje, o spam continua a ser um problema, tendo assumido contornos ainda mais preocupantes, com o crescimento do phishing e outros esquemas fraudulentos, indo muito além das caixas de correio eletrónico.

O sucesso do motor de busca da Google foi um dos aspectos subvalorizados pelo responsável durante o seu discurso em Davos. Mas Bill Gates não seria o único responsável da Microsoft a partilhar uma opinião semelhante sobre a empresa que, mais tarde, se tornaria numa gigante tecnológica.

Quatro anos depois, numa entrevista ao Financial Times, Steve Ballmer, antigo presidente executivo da Microsoft, não previa o melhor futuro para a Google. “Eles têm apenas um produto”, afirmou, referindo-se ao motor de busca da tecnológica. “Eles têm o Gmail agora, mas têm um produto que lhes traz todo o dinheiro e ele não mudou em cinco anos”.

Voltando aos anos 90, se alguma vez teve curiosidade em descobrir que previsões de futuro marcavam o panorama das comunicações e dos "primórdios" da Internet no início da década, a Universidade de Elon tem uma "cápsula do tempo" com mais de 4.200 citações de mais de 1.000 personalidades da época.

sexta-feira, 5 de maio de 2023

Google está a lucrar com desinformação climática no YouTube, segundo relatório


Descobriu-se que o Google está monetizando vídeos que promovem desinformação sobre a crise climática no YouTube ainda este mês, de acordo com um novo relatório.

O novo relatório publicado pela coalizão Climate Action Against Disinformation (CAAD) na terça-feira destaca 100 vídeos nos quais o Google veiculou anúncios, apresentando mentiras descaradas sobre a crise climática.

Os vídeos negam que a crise climática seja causada pelas emissões de gases de efeito estufa liberadas na atmosfera pela queima de combustíveis fósseis , apesar da esmagadora evidência científica e do consenso de que esse é o caso.

Além disso, o relatório também encontrou 100 outros vídeos com conteúdo enganoso sobre como lidar com as mudanças climáticas.

O conteúdo incluía desinformação, como argumentos falsos de que nada pode ser feito sobre a crise climática ou a promoção de supostas soluções que na verdade são ineficazes e desviam o foco da redução das emissões de gases de efeito estufa por grandes empresas.

O Google atualizou suas políticas em outubro de 2021, afirmando que proibiria anúncios e monetização de conteúdo que contradiz o consenso científico bem estabelecido sobre a crise climática.

No entanto, o relatório encontrou exemplos de vídeos que violaram essa política, mas ainda veiculados com publicidade precedente para uma lâmpada de mosquito.

Os 200 vídeos do YouTube analisados ​​no relatório obtiveram 73,8 milhões de visualizações em 17 de abril de 2023 e apresentaram anúncios de marcas como Costco, Tommy Hilfiger, Nike e Hyundai.

Os autores do relatório conduziram a pesquisa pesquisando no YouTube termos-chave como “fraude climática” e “golpe climático”. Então, pelo menos dois pesquisadores diferentes avaliaram os vídeos em relação às definições do Google e do CAAD sobre desinformação climática.

O Google afirma ter revisto a lista de vídeos no conjunto de dados e removido os anúncios daqueles que violam sua política contra a negação das mudanças climáticas.

Embora o Google afirme que aplica sua política rigorosamente, numa declaração ao The Verge reconhece que sua aplicação nem sempre é perfeita, acrescentando que a empresa está “trabalhando constantemente para melhorar nossos sistemas para detectar e remover melhor o conteúdo que viola a política”.

O relatório do CAAD pede uma definição mais ampla de desinformação para incluir conteúdo que recomenda soluções ineficazes para o aquecimento global, pois pode atrasar ações climáticas legítimas.

“O Google está apoiando a desinformação climática que eles dizem querer parar... a desinformação persiste porque é lucrativa, e a Big Tech precisa remover esse incentivo”, disse Erika Seiber, porta-voz da desinformação climática da organização sem fins lucrativos Friends of the Earth.

terça-feira, 11 de abril de 2023

Barroso, Sem Minas!


A 20 de Março de 2023, a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) colocou em consulta pública o Estudo de Impacte Ambiental (EIA) para a proposta de conceder uma licença de prospecção de Lítio nas serras do Barroso. São cerca de 1.729 documentos, em que 253 ficheiros são do tipo pdf compostos por 4.490 de páginas. [participa aqui]

O prazo dado às populações (locais e solidárias) para as comentar foi de 10 dias, este prazo terminaria em 4 de Abril. Perante a enorme vaga de contestação, o prazo foi estendido durante mais 10. 

Desenvolvemos uma ferramenta alternativa: um motor de busca para o dito Estudo de Impacte Ambiental (EIA). Aqui, podes procurar temas, nomes, datas, etc que auxiliam a aceder a informação e a compor comentários que ajudem a escrever a tua participação na consulta pública .

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Zaha Hadid: o nome mais procurado de arquitetura no Google


O arquiteto mais procurado do mundo é uma mulher árabe: Zaha Hadid. A arquiteta iraquiana naturalizada britânica apareceu em primeiro lugar nas pesquisas do Google de 84 países, 61% dos 130 países monitorados pela Money (GB). O levantamento feito pela consultoria britânica traz uma oportunidade para falar sobre o trabalho da primeira mulher a receber o Prémio Pritzer, o “Nobel da Arquitetura”. 
A arquitetura não é mais um mundo só de homens. Essa ideia de que mulheres não podem pensar em três dimensões é ridícula”, disse Zaha em um discurso ao aceitar um prêmio de liderança feminina em 2013. A frase ganhou fama por si só ao mostrar que, mesmo no século 21, a construção ainda é um meio dominado pelos homens. Tanto que Zaha só venceu o Pritzer, a maior honraria da arquitetura internacional, em 2004. Até então, nenhuma mulher havia sido premiada.  Na época, a artista tinha 56 anos. Em 2012, ela foi nomeada dama pelos seus serviços em arquitetura. E, em 2016, um mês antes de sua morte, ela se tornou a primeira mulher a receber a medalha de ouro do Royal Institute of British Architects. 

Zaha Hadid: rainha das linhas curvas
Entre os seus trabalhos mais reconhecidos estão o Centro Aquático de Londres, para as Olimpíadas de 2012; a casa de Ópera de Guanzhou, na China; e o Centro Heydar Aliyev, em Baku, no Azerbaijão. Suas obras são marcadas por um estilo contemporâneo e pós-moderno, com muitas linhas curvas e formas surpreendentes.  Sua regra principal era: “não pode ter ângulos de 90 graus. No início, tudo era diagonal”. 

A escolha por formas pouco convencionais deu a ela o apelido de “rainha da curva”. Formada em matemática no Líbano, Zaha entrou no mundo da arquitetura quando tinha 22 anos e foi estudar na prestigiada Architectural Association School of Architecture. A arquiteta inovou na forma de criar suas obras: no lugar do desenho técnico, ela pintava quadros e papéis de seus projetos. Mesmo depois dos computadores, com seus softwares de criação técnica, ela permaneceu com este hábito.

Fortemente inspirada pela arte “geométrica” dos suprematistas russos, como Malevich, e pelas vanguardas soviéticas dos anos 1920, Zaha buscou no abstrato e no design uma visão de fora para suas construções. Apesar de não seguir uma única categoria, suas obras são vistas como parte do desconstrutivismo, movimento que reinterpretou o modernismo nos anos 1980 e 1990. Alguns, no entanto, a descrevem como neo-futurista.


“Não fazemos prédios bonitos. As pessoas pensam que o prédio mais apropriado é um retângulo, porque normalmente é a melhor maneira de usar o espaço. Mas isso quer dizer que a paisagem é um desperdício do espaço? O mundo não é um retângulo. Você não vai a um parque e diz: ‘Meu Deus, não temos cantos retos aqui”, disse Zaha em entrevista ao The Guardian, em 2012.  

Ela insistia que todos os seus prédios são inteiramente práticos, construídos em torno de diferentes padrões organizacionais. “É como dizer que todo mundo tem que escrever exatamente da mesma maneira. E simplesmente não é o caso.”

Arquitetura com função 
“Eu não acho que a arquitetura é apenas para criar abrigos, não é apenas sobre criar espaços. A arquitetura deveria ser capaz de te animar, de te acalmar, de te fazer pensar”,  afirmou Zaha para a revista Newsweek, em 2011. 

A carreira de Zaha foi marcada por desenhos e obras de prédios públicos, voltados para grandes grupos de pessoas, como bibliotecas, teatros e museus.

Durante a  sua trajetória, o seu nome também esteve envolto em polémica, por trabalhar para países como a China. Em entrevista ao The Guardian, dada em 2013, ela falou sobre o caso: “Independentemente do regime, é importante construir uma instalação cívica para a população. Se alguém me pedir para fazer uma biblioteca, eu não diria que não quero fazer isso por conta de onde está. É importante se envolver com esses países porque os conecta ao resto do mundo. Se eu disser que não vou construir em certos lugares, há muitos outros lugares que eu também não iria. Eu não estaria fazendo nada em nenhum lugar. Eu simplesmente não construiria”.

Mesmo assim, Zaha viu limites para o que faria ou não: “ mas se alguém me pedir para construir uma prisão, eu não faria. Não construiria uma prisão, independentemente de onde esteja, mesmo que fosse muito luxuosa”. A arquitetura, no final das contas, tem um propósito no mundo. 

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