Mostrar mensagens com a etiqueta CIBIO. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta CIBIO. Mostrar todas as mensagens
quarta-feira, 3 de junho de 2026
Cerca de 290 lobos em Portugal e quase 400 prejuízos comunicados este ano
Labels:
Agropecuária,
Caça,
CIBIO,
Convenção Berna,
Estatística,
Furtivismo,
Genética,
ICNF,
Lobo-ibérico,
Monitorização,
ONGA,
Parlamento,
PNRN,
Política Ecológica,
PREPAC,
SEPNA
sábado, 23 de maio de 2026
Dia Mundial da Biodiversidade: "É a teia viva que sustenta a humanidade"
Esta sexta-feira, assinalou-se mais um Dia Mundial da Biodiversidade, data oficializada pelas Nações Unidas para comemorar a adoção o texto da Convenção da Diversidade Biológica (CBD), neste mesmo dia em 1992.
A primeira cimeira mundial da biodiversidade aconteceu dois anos depois, nas Bahamas, e, desde então, contam-se já 16, com a número 17 já programada para o próximo mês de outubro, na capital arménia de Yerevan. Ao longo desses 34 anos, a comunidade internacional construiu uma arquitetura de governação global da biodiversidade tendo a CBD como coluna-mestra, estabelecendo várias estratégias, objetivos e metas com os quais os signatários se foram comprometendo.
Contudo, tal como em muitas outras convenções e agendas internacionais, a realidade acaba, no final de contas, por ficar sempre aquém da ambição. Por exemplo, nenhuma das metas de biodiversidade de Aichi para 2020 (algumas com o horizonte mais curto de 2015), que a CBD tinha estabelecido uma década antes, foi alcançada. E isso naquela que deveria ter sido a Década das Nações Unidas para a Biodiversidade.
Agora, estamos, até 2030, na Década das Nações Unidas para a Recuperação dos Ecossistemas, assim declarada pela Assembleia Geral dessa organização internacional. Apesar de décadas de negociações, de promessas, e de alguns avanços significativos, como o Quadro Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, que entre os principais objetivos tem proteger 30% dos habitats e restaurar 30% dos ecossistemas degradados até 2030 e travar as extinções causadas pelos humanos, a diversidade da vida na Terra está cada vez mais ameaçada.
“A biodiversidade é a teia viva que sustenta a humanidade”, disse António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, a propósito do Dia Mundial da Biodiversidade. Contudo, deixa claro o estado atual em que nos encontramos: “o caos climático, a poluição e a incansável exploração da terra, do oceano e da água doce estão a empurrar o mundo natural para o colapso, com consequências devastadoras para pessoas, modos de subsistência e desenvolvimento sustentável”.
Biodiversidade em perigo
Apesar de décadas de cimeiras mundiais sobre esse tema, e de discursos enfáticos de líderes globais, responsáveis regionais e políticos nacionais sobre como é indispensável para a sustentabilidade e, em última análise, sobrevivência da espécie humana na Terra, a biodiversidade continua em perigo e a sua perda mantém-se como uma das três grandes crises planetárias, a par das alterações climáticas e da poluição.
A Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, criada e mantida pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), é um barómetro do estado de saúde da biodiversidade a nível global, classificando as várias espécies não-humanas consoante o grau de ameaça que enfrentam. Estima-se que, a nível global, sejam conhecidas cerca de 2,5 milhões de espécies atualmente, embora tal possa ser uma mera porção da biodiversidade real da Terra, onde alguns calculam que existam mais de oito milhões.
De ano para ano, o número de espécies na categoria “Criticamente ameaçada”, somente uma abaixo de “Extinta”, tem vindo a aumentar continuamente de ano para ano. Os cientistas dizem que esses números não devem ser interpretados como tendências do estado da biodiversidade, pois o aumento do número de espécies nessa categoria reflete mais o fortalecimento dos esforços de avaliação da UICN e entidades parceiras do que reais mudanças no número de espécies ameaçadas que existem no mundo.
No entanto, o facto de todos os anos, sem exceção, se descobrir que mais e mais espécies entram nessa categoria que marca o precipício da extinção certamente que não é uma boa notícia para a biodiversidade.
O mesmo se passa nas categorias “Em Perigo” e “Vulnerável”, que, conjuntamente com a de “Criticamente em perigo”, formam a tríade de categorias que integram as espécies que se consideram ameaçadas.
Em 2025, 26% das espécies de mamíferos estavam ameaçadas, 11% das aves, 21% dos répteis e 41% dos anfíbios. Para os restantes grupos, não há ainda dados suficientemente amplos que permitam calcular percentagens, dizem os cientistas. A falta de conhecimento sobre o verdadeiro estado de conservação das espécies – por falta de recursos humanos, técnicos e financeiros ou por falta de priorização política e social – é uma das grandes ameaças ao futuro de muitas espécies, que não são tão conhecidas do público ou que não são por ele tão admiradas quanto outras. É muito difícil, senão mesmo impossível, proteger o que não se conhece, e mesmo o que não se conhece ou o que se acaba de descobrir pode enfrentar já em risco de desaparecer.
Os fatores humanos
Um estudo publicado na ‘Nature’, em março de 2025, com o título “O impacto humano global sobre a biodiversidade” (tradução literal para português), determinou que a forma como a nossa espécie tem lidado com o planeta está claramente a reduzir a diversidade de formas de vida que nele habitam.
Através da compilação de dados de 2.133 estudos sobre os impactos humanos na biodiversidade terrestre, marinha e de água doce dos quatro cantos da Terra, e abrangendo todos os grupos de organismos – dos microrganismos aos mamíferos, passando pelos fungos, plantas, invertebrados, peixes e aves –, esta equipa liderada pela Universidade de Zurique criou “uma das maiores sínteses dos impactos humanos sobre a biodiversidade alguma vez realizada a nível mundial”, como explica Florian Altermatt, principal coautor.
De forma resumida, o estudo olhou para os cinco grandes fatores de pressão humanos sobre a biodiversidade – alteração de habitats, exploração direta (como caça e pesca), alterações climáticas, poluição e espécies invasoras – e concluiu que todos eles têm impactos significativos à escala global, em todos os grupos de organismos e em todos os ecossistemas.
Estimam os investigadores, com base nos dados analisados, que em média o número de espécies em locais impactados era quase 20% inferior ao de locais não afetados por fatores de pressão humanos. Perdas “particularmente graves” de espécies, salientam, foram encontradas nos répteis, anfíbios e mamíferos, pois as suas populações tendem a ser mais pequenas do que as dos invertebrados, o que aumenta a probabilidade de extinção.
Além disso, os investigadores dizem que os impactos humanos estão não só a reduzir o número de espécies, mas também a alterar a composição das comunidades, o que pode ter efeitos negativos e perigosos no funcionamento dos ecossistemas. A poluição e as alterações nos habitats são dos impactos humanos que mais afetam a diversidade e a composição das comunidades de vida não-humana.
Também em 2025, um outro estudo dizia que ao longo do último século o ritmo de extinção de espécies de plantas, artrópodes e vertebrados terrestres tem vindo a desacelerar, especialmente devido a esforços de conservação. Num artigo publicado na revista ‘Proceedings of the Royal Society B’, cientistas analisaram os ritmos e padrões de extinção de 912 espécies de plantas e animais que desapareceram nos últimos 500 anos. Além de apontarem para essa desaceleração no ritmo atual de extinção, uma afirmação que poderá gerar alguma controvérsia, apontam também as causas humanas como os principais fatores que estão a fazer desaparecer as espécies não-humanas.
Uma “teia viva” a desfiar-se
Em outubro de 2025, uma atualização da Lista Vermelha anunciou o agravamento do estatuto de ameaça de três focas do Ártico, que 61% de todas as espécies de aves a nível mundial estão em declínio e 11,5% ameaçadas por causa da desflorestação, e que o maçarico-de-bico-fino está oficialmente extinto, tornando-se a primeira ave da Europa continental declarada como extinta em 500 anos.
Na atualização mais recente, do passado mês de abril, o pinguim-imperador, com um declínio de 10% da sua população entre 2009 e 2018, e o lobo-marinho-antártico, com uma redução populacional de mais de 50% entre 1999 e 2025, viram os seus estatutos agravar-se para “Em perigo”.
Algumas estimativas apontam para que, dos cerca de oito milhões de espécies que existem na Terra, pelo menos 15 mil estejam ameaçadas de extinção. Desde 1500 que 881 espécies desapareceram para sempre, um número que, admitem os próprios cientistas, pode ser muito inferior à realidade. Dessas, 322 eram vertebrados terrestres e 37 anfíbios, embora, no que toca a esses animais amantes de água, os especialistas acreditem que mais de 100 outras terão desaparecido nas últimas décadas, ainda que não o consigam comprovar com certeza.
Numa entrevista dada recentemente à Green Savers, Nuno Ferrand, diretor do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO), dizia, a respeito da a biodiversidade em Portugal, que “estamos muito longe de uma situação ideal” e que “falta visão aos nossos decisores e aos nossos políticos”.
Disse-nos o catedrático que para proteger a biodiversidade não basta desenhar linhas num mapa e chamar-lhes “áreas protegidas” sem os meios necessários para a sua efetiva proteção e conservação.
“Para mim, é absolutamente incompreensível que todos os governos, desde há muito tempo, tratem assim a gestão e a conservação da biodiversidade num dos países da Europa que mais biodiversidade tem e que mais responsabilidade tem nessa área”, declarou.
Seja qual for o ritmo a que a biodiversidade está a desaparecer, o simples facto de isso estar a acontecer deve ser motivo de alarme para toda a humanidade. Não se trata de proteger uma Natureza distante, que é bonita e interessante, mas sim de zelar pelo nosso próprio habitat e pelos ecossistemas que nos fornecem serviços indispensáveis, e de assegurar, das profundezas mais escuras dos oceanos, aos topos das montanhas mais altas, passando pelas mais luxuriantes florestas tropicais húmidas, pelos desertos ilusoriamente desprovidos de vida e pelos jardins das nossas casas e cidades, que as maravilhas do mundo natural não se desvanecem para sempre, roubando à Terra parte da sua força vital que a torna tão única.
Labels:
Acordo Kunming-Montreal,
Bahamas,
Biorregionalismo,
CBD,
CIBIO,
Cimeira,
COP,
Declínio de Espécies,
Desflorestação,
Dia Mundial,
Geoengenharia,
Japão,
Meta-análise,
Política Ecológica,
Serviços Ecossistémicos,
UICN,
UNCBD
quinta-feira, 25 de dezembro de 2025
O ano em revista: as espécies que deram sinais de esperança em 2025
Fique a conhecer os animais e plantas eleitos neste ano que está a terminar, por investigadores e conservacionistas que trabalham com a biodiversidade em Portugal.
1. Abutre-preto (Aegypius monachus)

Com uma envergadura de asa que pode chegar aos três metros, este que é o maior abutre da Europa deu este ano sinais de expansão e de consolidação das colónias existentes em Portugal, refere Samuel Infante, membro da Plataforma de Defesa do Tejo Internacional. De facto, nas contas do projeto LIFE Aegypius Return, que trabalha para a conservação desta espécie, em 2025 contaram-se 119 a 126 casais em território português, um forte contraste com os 40 pares contabilizados em 2022.
Hoje conhecem-se cinco núcleos reprodutores: no Tejo Internacional, “que continua a ser a área de maior concentração da população da espécie”, no Baixo Alentejo (Herdade da Contenda), na Reserva Natural da Malcata, no Douro Internacional e ainda na Vidigueira/Portel (Alentejo). A descoberta desta última colónia, em julho de 2024, “veio dar esperança de que a espécie possa recuperar em pleno”, acrescenta Samuel Infante. Ainda assim, o futuro é ainda frágil: apenas metade dos casais com ovos no ninho conseguiram assegurar descendência, este ano, afetados entre outras ameaças pelos fogos do último verão.
2. Cagarra (Calonectris borealis)

Apesar das pressões que se fazem sentir sobre estas e outras aves marinhas, como é o caso das capturas acidentais em artes de pesca, a maior colónia mundial de cagarras, na Selvagem Grande, arquipélago da Madeira, continua a crescer, nota Joana Andrade. A coordenadora de conservação marinha da SPEA – Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves chama a atenção para um estudo científico publicado em janeiro passado, que analisou os resultados de contagens feitas entre 2009 e 2023 naquela ilha, e concluiu que ali nidificam atualmente cerca de 38.830 casais – um número que surpreendeu a equipa de investigadores.
Para o crescimento desta colónia contribuem várias medidas, como a aplicação de um regime de proteção estrita na Reserva Natural das Ilhas Selvagens (que inclui ainda a Selvagem Pequena, o Ilhéu de Fora e outros ilhéus adjacentes) e a erradicação total de coelhos e murganhos na Selvagem Grande.
3. Gaivota-de-audouin (Ichthyaetus audouinii)

A gaivota-de-audouin (Ichthyaetus audouinii) é outra das espécies que transmitiu um sinal de esperança ao longo de 2025, notam Joana Andrade, da SPEA, e Gonçalo Elias, ornitólogo e coordenador do portal Aves de Portugal. Esta ave marinha começou a nidificar em território nacional apenas no início do século XXI mas teve um crescimento surpreendente, empurrada por alterações que afetaram estas gaivotas junto ao Mediterrâneo.
Hoje, conta com uma população reprodutora de cerca de 7000 casais no Algarve, incluindo a maior colónia mundial da espécie, na ilha da Barreta, e uma colónia mais recente na ilha da Culatra, ambas na Ria Formosa. Gonçalo Elias considera que o projecto LIFE Ilhas Barreira (2019-2024) deu “um importante contributo para melhorar as condições de reprodução da gaivota-de-audouin no nosso país”. “Embora esteja classificada como Vulnerável a nível mundial, o recente aumento populacional permite ter esperança de que possa deixar de ser considerada ameaçada num futuro próximo”, conclui.
4. Insectos polinizadores

“O ano de 2025 foi um ano muito especial para o futuro da conservação dos insetos polinizadores em Portugal e deu-me um grande entusiasmo pelo que virá nos próximos anos”, afirma Hugo Gaspar, que se dedica à investigação nesta área. Em causa está um grupo grande com mais de 1000 espécies em Portugal, a maioria das quais abelhas selvagens, moscas-das-flores e borboletas diurnas, descreve. O investigador no FLOWer lab, grupo de investigação ligado à Universidade de Coimbra, lembra que se deram “passos importantes” neste último ano “para que possamos ter mais certezas e resultados” no que respeita à conservação destes insetos.
Em primeiro lugar, a publicação do Plano de Ação para a Conservação e Sustentabilidade dos Polinizadores, com um conjunto de medidas para melhorar o estado de conservação deste grupo em Portugal. Em segundo, foi também em 2025 que a União Europeia formalizou o compromisso de implementação do esquema de monitorização dos polinizadores, em linha com o Plano de Ação. Por fim, concluiu-se o projeto ARCADE, que melhorou o conhecimento e o estado das coleções de referência para o estudo dos polinizadores em Portugal. “Em conjunto, estas e outras ações trouxeram este ano muita esperança para este grupo de organismos, e os próximos anos assim o vão confirmar”, acredita Hugo Gaspar.
5. Lince-ibérico (Lynx pardinus)

O lince-ibérico, que nos últimos anos tem sido alvo de vários projetos de conservação que juntam Portugal e Espanha, é outra espécie que deu provas de esperança no ano que termina agora, apontam Samuel Infante, da Plataforma de Defesa do Tejo Internacional, e Francisco Álvares, cientista do CIBIO (Universidade do Porto), especializado em mamíferos.
O esforço de conservação desta espécie outrora à beira da extinção conseguiu o número de linces na Península Ibérica aumentasse para 2401 animais, foi anunciado em maio. Em novembro, foi anunciado um recorde de nascimentos nos centros de reprodução de Portugal e Espanha.
“É uma espécie icónica que foi considerada extinta em Portugal há pouco mais de duas décadas e actualmente apresenta uma população de mais de 300 indivíduos”, nota Francisco Álvares, lembrando que todavia este felino enfrenta ainda várias “ameaças sérias”. Desde logo, exemplifica, uma reduzida diversidade genética (com consequências na resistência a patologias), limitada disponibilidade de alimento (face à raridade do coelho-bravo) e mortalidade por causas humanas (por exemplo, atropelamentos e perseguição directa).
O investigador do CIBIO refere ainda outras espécies que também recuperaram em Portugal, “de forma extraordinária”, as suas populações nestes últimos anos. Exemplos? O corço, a cabra-montês, a águia-imperial e o abutre-preto. “Mas também estas espécies, enfrentam várias ameaças, muitas delas semelhantes às do lince-ibérico, por isso estes ‘sinais de esperança’ poderão ser atenuados se não houver esforços para a sua conservação efectiva”, alerta.
6. Saramugo (Anaecypris hispanica)

Este pequeno peixe de rios portugueses, em risco de extinção, surpreendeu recentemente os investigadores, lembra Filipe Ribeiro, cientista do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente e da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Em 2025, um novo estudo conseguiu obter um conhecimento mais exato sobre a distribuição do saramugo. “Durante quase duas décadas, pensou-se que em cinco das 10 populações existentes em Portugal a espécie estaria localmente extinta, uma vez que ao longo deste tempo nunca foram capturados exemplares de saramugo”, explica Filipe Ribeiro. “Porém, através de um estudo baseado em DNA ambiental, realizado em 2023 e publicado em 2025, conseguimos detectar este peixe em todas as 10 populações portuguesas.”
Ainda assim, esses resultados não querem dizer que a situação do saramugo esteja melhor, ressalva o investigador, mas sim que “poderemos alocar esforços de monitorização, que entretanto tinha sido abandonada, e medidas de conservação, às populações que anteriormente tinham sido consideradas como perdidas”.
Para já, explica, são necessárias novas medidas para garantir um futuro ao saramugo, a longo prazo. “Deu-nos algum alento saber que a espécie ainda está nestes locais, porém é necessária uma monitorização dedicada e mais intensiva nestas populações, bem como medidas de melhoria de habitat e remoção de invasoras para a preservação desta espécie endémica da Península Ibérica.”
7. Tartaranhão-caçador (Circus pygargus)

“O aumento registado este ano no sucesso reprodutor do tartaranhão-caçador é bastante positivo, tendo em conta que, segundo os dados do primeiro censo da espécie realizado em Portugal em 2022-2023, esta ave se encontrava no limiar da extinção e, em Espanha, a situação também é bastante crítica”, refere Joaquim Teodósio, da organização não governamental de ambiente Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural e coordenador do projeto LIFE SOS Pygargus. Este ano, dos 251 ninhos desta espécie migradora que foram alvo de medidas de proteção, na Península Ibérica, 77% conseguiram assegurar pelo menos um juvenil voador. Ao mesmo tempo, atingiram-se 1,98 juvenis por casal nidificante, acima do limiar de viabilidade desta espécie.
8. Planta carnívora Utricularia subulata

A redescoberta da Utricularia subulata, uma planta carnívora que não era observada em Portugal desde 1967, é uma notícia esperançosa deste ano que passou, sublinha Sergio Chozas, ligado à Sociedade Portuguesa de Botânica. “De facto esta notícia dá nos esperanças de que algumas das espécies que foram dadas como extintas podem, de facto, andar ainda por aí, e também nos fazem lembrar da importância de continuarmos a fazer estudos e levantamentos da nossa flora”, sublinha este botânico, que é também investigador na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
Labels:
Abelhas,
Academia,
Aves de Rapina,
Balanço,
Borboletas,
Botânica,
CIBIO,
Eco-Natal,
eDNA,
Endemismo,
Investigação,
Lince-ibérico,
MARE,
Mediterrâneo,
Polinizadores,
Portugal,
Projetos,
Psicofilia
terça-feira, 9 de dezembro de 2025
Estudo confirma pelo menos 10 castores em afluentes espanhóis do Douro, junto à fronteira portuguesa
Mais vídeos e fotos aqui
José Jambas e Francisco Álvares, que participaram num estudo luso-espanhol sobre a nova população de castores, explicaram à Wilder o que a equipa encontrou e quais são as expetativas para o futuro.
Um novo estudo, publicado na revista científica Galemys, confirma que há castores a reproduzirem-se nas margens do rio Tormes, onde foram encontrados os primeiros vestígios na bacia hidrográfica do Douro, mas agora também no Uces, outro rio próximo da fronteira portuguesa. A nova população foi estudada em observações diretas destes mamíferos, registados também por câmaras de foto-armadilhagem e por inúmeros vestígios – como troncos cortados, ramos com marcas de dentes e construção de abrigos – e ainda por um estudo genético.Castor no Tormes. Vídeo: José Jambas
“Confirmamos a presença de pelo menos 10 castores em dois afluentes do Douro, incluindo dois grupos familiares com reprodução em 2023 e um possível terceiro [grupo com reprodução]”, escreve a equipa de sete investigadores responsáveis pelo estudo recentemente publicado, liderada por Teresa Calderón, da Universidade de Saragoça.
A investigadora espanhola já tinha estado à frente do estudo anterior, que em 2023 anunciou a presença da espécie no rio Tormes e concluiu que esta terá resultado de uma libertação não autorizada de castores. Isto porque está demasiado distante a outra população mais próxima desta espécie, em Espanha, onde a espécie regressou em 2003 em resultado de outra libertação ilegal.
No entanto, os cientistas suspeitam agora de que a nova população recém-descoberta na bacia do Douro resulta de pelo menos duas libertações realizadas separadamente, uma no rio Tormes e a outra no rio Uces. Isto, como explicam, devido à “distância relativamente grande” entre estes dois rios e à existência de barreiras que dificultam a passagem de um curso de água para o outro, incluindo “grandes cascatas”.
Por outro lado, para além de confirmarem a presença de dois grupos familiares reprodutores, um no Tormes e outro no Uces, a equipa admite também a hipótese de haver um segundo casal com crias no primeiro rio, com base em observações diretas e vestígios encontrados.
Esta possibilidade, embora ainda sem certezas, é apoiada pela descoberta de vários montes de cheiro nas margens do Tormes. Trata-se de pequenas pilhas formadas por lama e vegetação misturadas com castóreo, uma substância oleosa glandular que estes mamíferos utilizam para marcar território e impermeabilizar o pelo.
Os vestígios de castores encontrados junto a este rio estendem-se por 15 quilómetros, desde a barragem espanhola de Almendra até ao estuário onde o Tormes se une ao Douro, “apenas a uns poucos metros de distância da fronteira portuguesa”, descrevem no estudo.
Muito menor é a área onde a equipa identificou sinais de castores no Uces, “ao longo de dois quilómetros do rio, a maior parte concentrados num charco durante o verão, tal como nalguns pontos isolados das margens”.
O que se passa em Portugal?
Embora o trabalho de campo cujos resultados foram agora conhecidos se tenha realizado essencialmente em 2023, desde então mantiveram-se os trabalhos de monitorização nesta zona que pertence ao Parque Natural Arribes del Duero. Esta área protegida espanhola está colada ao Parque Natural do Douro Internacional, do lado português da fronteira, onde a equipa tem estado igualmente atenta a sinais no terreno – até porque em julho passado foram divulgadas imagens de pelo menos um castor no estuário do Tormes, “apanhado” em território português por câmaras de foto-armadilhagem.
terça-feira, 30 de setembro de 2025
A árvore mais rara de Portugal continental
Por Luís Alves
Houve um tempo em que as florestas de carvalho escreviam o mapa inteiro de Portugal, todo um reino de Quercus sp., com suas coroas de folhas que se erguiam sobre serras, vales e ribeiras, guardando água e vida.
De Norte a Sul, das margens húmidas do Minho às encostas ásperas do Alentejo, dos vales oceânicos às serras interiores, os carvalhos erguiam a sua arquitetura imponente e majestosa. Hoje sobrevivem em refúgios escondidos, como se procurassem abrigo do esquecimento, fragmentos de um continente desaparecido.
De todas, o carvalho-alvarinho ou carvalho-roble (Quercus robur), o mais nobre dos autóctones, erguendo-se como um monumento vivo, é aquele que mais me comove, como um velho patriarca que guarda histórias que mais ninguém sabe. É também um dos mais desvalorizados pela população, que nele vê pouco mais do que lenha para a fogueira de inverno.
Encontra no Noroeste e nas bacias atlânticas o seu território clássico. Precisa de solos profundos, frescos e arejados, onde a água se demora e a neblina se deita nas manhãs compridas. É árvore de copa cheia e tronco habituado ao tempo.
Mais a Oriente, ou quando o relevo sobe e a rocha endurece, encontramos o carvalho-negral (Quercus pyrenaica), que tem na serra de São Mamede, nas encostas beirãs e em alguns planaltos do Alto Alentejo o seu reduto resistente. Prefere substratos ácidos e climas menos severos no estio, mas suporta o frio com uma dignidade firme e conserva as folhas secas no inverno, que o protege dos gelos tardios.
No coração calcário do país, o carvalho-cerquinho ou carvalho-português (Quercus faginea) estende-se por encostas e dolinas, visita os maciços da Estremadura, desce pelas serras da Arrábida e penetra no Alentejo onde o solo e a geologia o permitem.
É espécie que concilia invernos suaves e verões longos, buscando fissuras rochosas com frescura escondida. No litoral ocidental aparece a carvalhiça (Quercus lusitanica), discreta e arbustiva, fiel às areias e cascalheiras, calcífuga como quem escolhe o que não lhe fere as raízes.
Em terrenos mediterrânicos mais secos e pedregosos resiste o carrasco (Quercus coccifera), de folha dura e sempre-verde, alargando manchas nos matagais calcários onde o calor impera.
Mais a sul, a diversidade torna-se mais rara mas persiste. O carvalho-cerquinho acompanha encostas do barrocal algarvio e encontra refúgios em vales húmidos. O carvalho-negral mantém núcleos no Alto Alentejo e em manchas residuais no interior sul. A carvalhiça continua a segurar dunas e areais na faixa costeira do centro-sul.
Nos refúgios húmidos das serras de Monchique e do Caldeirão surge o carvalho-de-Monchique (Quercus canariensis), o mais raro de todos, convivendo com sobreiros (Quercus suber) e azinheiras (Quercus rotundifolia), medronheiros, loureiros e outras espécies de monte mediterrânico.
O território que esta espécie habitava foi sendo perturbado por décadas de cortes seletivos, incêndios recorrentes e conversões para usos mais intensivos, perdendo os mosaicos florestais que outrora formavam corredores de continuidade. O grande fogo de 2018 em Monchique foi um golpe particularmente severo, destruindo muitos dos últimos núcleos e agravando ainda mais a fragmentação.
Com a paisagem aberta e empobrecida, instalaram-se espécies oportunistas e exóticas, a regeneração natural rareou e as árvores jovens sucumbiram ao pastoreio e ao calor excessivo. Durante anos, a própria espécie foi confundida com formas híbridas, o que atrasou o conhecimento preciso da sua distribuição. Hoje sabemos que a população nacional é diminuta, com menos de 250 indivíduos maduros, e que a tendência histórica foi de regressão continuada. É considerada a árvore mais rara de Portugal continental.
Entre estas espécies, algumas são marcescentes, guardando as folhas secas nos ramos durante o inverno. O carvalho-negral e o carvalho-cerquinho são exemplos perfeitos desta estratégia, que protege os gomos das geadas e adia a queda da matéria orgânica para a primavera, quando o solo está pronto a recebê-la. Outras, como o sobreiro, a azinheira e o carrasco, são sempre-verdes e mantêm copa ativa todo o ano, assegurando abrigo e alimento contínuo para a fauna e estabilidade para o solo.
Nos últimos anos, a ciência tem mostrado que o retrato dos carvalhos portugueses é mais complexo do que se imaginava. Uma nova lista anotada elevou de oito para onze as espécies autóctones reconhecidas em Portugal, incluindo Quercus orocantabrica, Quercus estremadurensis, Quercus pseudococcifera e Quercus airensis.
Q. orocantabrica distingue-se geneticamente do carvalho-alvarinho clássico, enquanto Q. estremadurensis é um pedunculado de características próprias, com presença no ocidente ibérico e raízes biogeográficas que tocam o Norte de África.
Q. pseudococcifera e Q. airensis clarificam o intrincado grupo dos carrascos mediterrânicos, revelando adaptações a solos calcários e climas áridos. Estas distinções mostram que o património genético dos carvalhos nacionais revela uma diversidade biogeográfica mais fina do que supúnhamos, e que proteger os bosques remanescentes é também proteger esta nova leitura da sua identidade.
A história destes carvalhais é também a de uma surpreendente plasticidade genética. A ciência recente tem revelado um verdadeiro mosaico de híbridos naturais, resultado de encontros entre espécies vizinhas ao longo de séculos.
Foram descritos formalmente cinco novos híbridos para a ciência, como Quercus × eborense (azinheira com carrasco), Quercus × capeloana (carrasco com sobreiro), Quercus × almeidae (falso-carrasco com azinheira), Quercus × alvesii (carvalhiça com azinheira) e Quercus × sampaioana (carvalho-português com Q. estremadurensis), somando-se aos já conhecidos.
Labels:
Academia,
Autóctone,
Blogosfera,
Carvalhos,
CIBIO,
Ecologia,
ENCNB,
Floresta,
Genética,
GEOTA,
História,
Ordenamento do Território,
Rede Natura 2000,
Reflorestação
quinta-feira, 15 de agosto de 2024
Como um gene de cão pode ter ajudado o lobo-ibérico a sobreviver: uma história com 3.000 anos
Ao contrário de várias populações de lobo que se extinguiram na Europa, o lobo-ibérico tem resistido e apresenta uma característica muito singular. Esta história começou há mais de 3000 anos e há um gene de cão “perdido” que ajuda a contar o que aconteceu.
“Quando estamos sozinhos na montanha e sentimos um arrepio repentino na nuca é porque o lobo está perto.” Imaginem ouvir isto numa aldeia cheia de gente, onde as crianças brincam na rua, os mais velhos fazem da agricultura o seu sustento, e o som da Natureza se sobrepõe a todos os outros... Assim era a aldeia minhota de Aboim da Nóbrega nos anos 90, onde cresci.
Nos nossos serões em família, os meus avós contavam muitas histórias do passado na aldeia, e o lobo assumia o papel de personagem principal em muitas delas — e não era o de herói. Diziam-me que durante a sua juventude era frequente os lobos descerem da montanha para se alimentarem dos rebanhos: as pessoas assustavam-se e os homens juntavam-se para caçar estes impiedosos predadores. Conseguia perceber nas suas vozes e olhares o medo e o ódio que estas criaturas esquivas e misteriosas despertavam. E eu, ainda com seis anos, dava por mim a temer o lobo e a não o querer por perto.
A verdade é que a situação tinha mudado e o frequente avistamento de lobos tornara-se algo quase fantasioso. Nunca vi um lobo na aldeia, nem indícios da sua presença…
Pode parecer um sentimento inofensivo, mas este medo generalizado na população é fruto de uma história antiga de perseguição ao lobo que quase levou à sua extinção na década de 70. O declínio da população foi muito acentuado: nos anos 50, o lobo existia em praticamente toda a Península Ibérica; vinte anos mais tarde, ficou reduzido a poucas centenas na região Norte.
Há marcos históricos desta perseguição ainda visíveis nas nossas paisagens, como é o caso dos impactantes fojos do lobo – muros em pedra, em forma de “V”, com uma extensão que pode chegar aos dois quilómetros. Os lobos eram atraídos para dentro destas muralhas e perseguidos até uma armadilha: um fosso, onde ficavam aprisionados.
Ao longo dos anos, fui percebendo que o lobo é mais vítima do que vilão — e é importante desmistificar que muito deste medo é infundado.
E, apesar de toda a perseguição, a que se juntava a destruição de habitat, o lobo-ibérico foi capaz de sobreviver e recuperar, contrariando a extinção de várias populações de lobo na Europa. Mas como é que se tornou capaz de sobreviver nestes ambientes tão hostis?
A Diana Lobo que estuda lobos – uma coincidência quase predestinada
Quando era pequena, e ouvia as histórias assustadoras sobre lobos, não imaginava que um dia viria a estudá-los. O receio foi-se transformando em fascínio e essa foi uma das razões, assim como o meu interesse pela evolução das espécies, que me levaram a fazer o mestrado no Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto (Cibio- Ecogen).
Durante as aulas, a investigadora Raquel Godinho, que liderava projectos de investigação do lobo, e que mais tarde viria a ser minha orientadora de doutoramento, explicava como utilizava ferramentas genéticas – que explicarei mais em detalhe nos parágrafos seguintes – para estudar o lobo-ibérico (Canis lupus signatus). Mas foi uma das muitas conversas que se seguiram no laboratório com a Raquel que aguçou a minha curiosidade: “O nosso lobo não se mexe muito!”, dizia-me ela, enquanto mostrava mapas da Península Ibérica com trajectórias dos lobos, obtidas por colares GPS.
Isto era sem dúvida algo único: estava habituada a ouvir casos de lobos que percorrem centenas de quilómetros, não o oposto.
Começámos a questionar-nos se este comportamento poderia estar associado à capacidade de o lobo-ibérico sobreviver; e, se sim, qual seria a razão para o terem desenvolvido? Foram estas questões que deram origem à minha tese de doutoramento e é neste momento que os cães entram na história! Mas para tudo fazer sentido, vamos fazer uma (longa) viagem ao passado…
A domesticação dos nossos melhores amigos
Vamos viajar no tempo e andar uns 40.000 a 20.000 anos para trás, algures entre o continente Europeu e Asiático. Foi aqui que os nossos antepassados fizeram algo que mudaria para sempre a forma como vivemos – domesticaram uma população de lobos, que viria a dar origem aos cães.
Provavelmente, estão a pensar que os vossos cães não podiam ser mais diferentes de um lobo, sobretudo se tiverem um pequeno caniche, como eu. Mas o processo de domesticação (e consequente evolução) não foi instantâneo. Muita coisa mudou…
Os cães desenvolveram uma série de comportamentos, em resposta a uma forte selecção artificial imposta pelos humanos, como a docilidade e a capacidade de se manterem por perto, que os tornou muito díspares dos lobos, mas perfeitamente adaptados a viver com as pessoas. Do ponto de vista evolutivo, 40.000 anos é muito pouco tempo, o que faz com que lobos e cães partilhem cerca de 99% do seu ADN (incluindo os cães mais pequenos).
Esta proximidade genética permite que lobos e cães se possam reproduzir e que os híbridos resultantes deste cruzamento sejam férteis. Em Portugal e Espanha, estes casos de hibridação são eventos raros, mas sabemos que acontecem e, muito provavelmente, sempre aconteceram.
Quando os híbridos se reproduzem novamente com os lobos, há porções de ADN dos cães – os bocadinhos a que chamamos genes – que passam para o ADN dos lobos. Pensem nos genes como uma receita no livro de culinária da vida. Os genes contêm as instruções que dizem ao nosso corpo como fazer proteínas, que são os “ingredientes” necessários para manter o nosso corpo a funcionar, desde os músculos até ao cabelo.
Se genes dos nossos cães passam para o ADN dos lobos, será que alguns comportamentos típicos de cão também podem passar? Esta questão fez-me acreditar que talvez a adaptabilidade do lobo-ibérico e o seu comportamento peculiar de não se dispersar por longas distâncias estivessem associados a genes de cão adquiridos através de hibridação.
À procura do gene perdido
Como fazemos para encontrar genes de cão no ADN dos lobos? É uma tarefa difícil, diria mesmo que é como procurar uma agulha num palheiro de agulhas, porque o ADN de ambos é quase idêntico. Mas, através de técnicas recentes, é possível analisar todo o ADN – o genoma – de vários organismos de forma relativamente rápida.
Foram várias as horas que passei no laboratório, e tantas outras em frente ao computador, para conseguir analisar centenas de amostras de lobo-ibérico. Estas amostras, que normalmente são tecidos extraídos da pele ou do músculo, chegam-nos, sobretudo, de animais encontrados mortos.
No caso dos lobos que vivem nos dias de hoje, obter amostras é relativamente fácil. Mas como podemos estudar os lobos que viveram no passado e analisar o seu genoma? Infelizmente não é possível viajar no tempo, mas há algo muito próximo disso: as colecções de história natural.
Visitei vários museus em Portugal e Espanha onde encontrei colecções muito ricas de grandes carnívoros, que outrora viveram em abundância nas nossas paisagens. E uma quantidade de peles de lobo impressionante!
Foi impossível não ficar fascinada com tudo o que vi e imaginar o que aqueles animais viveram no passado... Tive acesso a amostras de lobos que viveram ainda noutro século e em regiões do país onde seria actualmente inimaginável, como Setúbal e Alentejo.
Seguiu-se um trabalho intensivo no laboratório, e finalmente, a análise dos genomas e a procura de genes de cão no genoma do lobo-ibérico...
Alerta de “spoiler”: encontrámos!
Os resultados dos testes estatísticos eram convincentes e apontavam na mesma direcção: um gene de cão tinha passado para o genoma do lobo-ibérico! A primeira coisa que me ocorreu foi: “Mas, então, qual será a função deste gene?”.
Como muitos genes são idênticos e partilhados entre mamíferos, fui investigar este gene no catálogo genómico dos humanos, visto que somos o organismo mais bem estudado de todos. Descobri que está associado a mecanismos cognitivos e de desenvolvimento, o que me fez pensar que pode ter afectado o comportamento do lobo-ibérico, tornando-o mais juvenil. Ou seja, o lobo-ibérico retém na idade adulta características típicas da sua forma mais jovem, como o facto de não se dispersar por longas distâncias. Este processo é típico de animais domésticos, como o cão.
A longo prazo, este comportamento poderá ter levado a que o lobo se mantivesse mais próximo das alcateias de origem – o que acaba por aumentar as chances de sobrevivência, uma vez que diminui os encontros indesejados com os humanos. Et voilà, tudo parecia fazer sentido!
Ainda assim, faltava responder a uma pergunta: quando é que este evento de hibridação aconteceu?
A próxima parte da história tem mais de 3000 anos
Se tivessem de viver em terras muito áridas, onde a água escasseia e as temperaturas são altas, para onde iriam? Este foi o cenário que os povos da Península Ibérica enfrentaram há cerca de 4000 anos, quando um evento climático extremo atingiu a bacia do Mediterrâneo. Estas condições levaram a que as pessoas (e os seus cães) migrassem para a costa, e regressassem para o interior apenas centenas de anos mais tarde, quando as condições climatéricas normalizaram. Acreditamos que o mesmo tenha acontecido com o lobo.
Sabemos que a hibridação com o cão é mais frequente em locais para onde o lobo se está a expandir, uma vez que são tipicamente indivíduos solitários e não têm par reprodutor. Por isso, o momento de regresso para terras do interior reunia as condições perfeitas para a hibridação acontecer. Através de ferramentas bioinformáticas – programas e algoritmos que usamos para analisar dados biológicos e moleculares –, consegui estimar uma data para este evento de hibridação que pode ter mudado para sempre o comportamento do lobo-ibérico: 3000 anos!
De repente, tudo fez sentido. Esta data coincidia com a expansão após o período de aridez, e as peças do puzzle encaixaram na perfeição. Para mim, este foi o verdadeiro momento “eureka” deste trabalho – o que é um privilégio enquanto cientista, porque nem sempre chegamos a momentos de conclusões evidentes. Ainda temos um longo trabalho pela frente para perceber melhor este fascinante animal, mas essas futuras descobertas ficam para uma próxima história. A verdade é que o lobo tem um papel fundamental no ecossistema e é nosso dever assegurar a protecção de todas as espécies do nosso planeta.
Comecei esta história a dizer que nunca tinha visto nem um lobo na aldeia, nem indícios da sua presença... Pois bem, quero dizer-vos que isso mudou com um belo uivo longínquo que ouvi numa aldeia, perto de Aboim da Nóbrega, numa noite de Verão do ano passado.
Para mim, não foi só um uivo: trazia consigo a mudança dos tempos e a certeza de que os lobos estão de volta. E, desta vez, espero que seja para ficar.
Labels:
Academia,
Biologia,
CIBIO,
Coevolução,
Crónica,
Ecologia,
Edição Genética,
Furtivismo,
Genética,
GPS,
Investigação,
Lobo-ibérico,
Mamíferos,
Pastorícia,
Península Ibérica
quinta-feira, 28 de dezembro de 2023
Mina de lítio em Montalegre poderá pôr em causa sobrevivência do lobo na região
A mina de lítio do Romano, em Montalegre, está prevista para locais que o lobo-ibérico escolhe, há 30 anos, para se reproduzir por terem condições únicas. A exploração pode mesmo fazer desaparecer toda uma alcateia já a sofrer de furtivismo, destruição de habitat e com sucesso reprodutor muito baixo, alertam os conservacionistas.
O lobo-ibérico (Canis lupus signatus) é uma espécie protegida e o único membro que resta da família dos grandes predadores de Portugal. Estará reduzido a entre 50 a 60 alcateias.
Até aos anos 30 do século XX, o lobo-ibérico distribuía-se por todo o país, até ao Algarve. Com o passar dos anos, foi sendo empurrado para norte, concentrando-se hoje em núcleos no Alto Minho, Trás-os-Montes e numa região a Sul do Douro.
Este carnívoro sempre enfrentou dificuldades para a sua sobrevivência, mas nos últimos anos essa fasquia tem vindo a subir. Mais recentemente, as notícias da luz verde dada pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA) à Mina de Lítio do Romano, em Montalegre, trouxeram um problema extra a juntar ao furtivismo e à perda dos seus territórios.
Em 21 de Dezembro, a plataforma Lobo-Ibérico, recentemente criada por quatro conservacionistas – incluindo três biólogos que têm dedicado a sua vida ao estudo e à conservação do lobo-ibérico – alertou que esta mina poderá ditar o fim de toda uma alcateia: a alcateia do Leiranco. Esta alcateia, sublinham, é “um dos grupos reprodutores de lobo com maior estabilidade que existe fora de áreas protegidas na região central de Trás-os-Montes”, com um território de cerca de 150 quilómetros quadrados.
Os conservacionistas alertam que a área de concessão da mina com 30 hectares – incluindo as zonas de exploração a céu aberto e a refinaria – poderá afectar cerca de 20% do espaço vital necessário para a sobrevivência deste grupo reprodutor. A isso junta-se a perturbação humana, sonora e visual “numa envolvente considerável”.
Segundo a plataforma, a área de exploração mineira localiza-se numa das principais zonas de actividade e refúgio daquela alcateia, “uma vez que se sobrepõe, na sua íntegra, com locais utilizados pelo lobo para se reproduzir ao longo das últimas três décadas, onde a presença de crias tem vindo a ser detectada entre 1995 e 2021”. A área prevista para a mina tem, então, “condições para refúgio e reprodução do lobo que são únicas e sem paralelo” na região, “face à reduzida disponibilidade de locais alternativos adequados”.
Os conservacionistas alertam que o projecto terá “um impacte negativo de elevada magnitude sobre o lobo-ibérico, levando à destruição do actual local de cria, à expectável redução no sucesso reprodutor e a alterações no uso do espaço que, no seu conjunto, poderão impossibilitar a sobrevivência deste grupo reprodutor de lobos”.
A plataforma recorda ainda que estes lobos poderão ser afectados por outros projectos de exploração mineira na região, como a Mina do Barroso, no concelho de Boticas, a menos de 15 quilómetros de distância, e por parques eólicos, centrais solares, albufeiras, aproveitamentos hidroeléctricos e rede viária.
“Os locais de reprodução do lobo-ibérico, espécie protegida por Lei, têm de ser áreas de conservação importantíssimas para salvaguardar”, comentou esta sexta-feira Francisco Álvares, contactado pela Wilder. Este biólogo estuda a espécie desde 1994, actualmente no BIOPOLIS-CIBIO, e é um dos membros da plataforma Lobo-Ibérico.
Além do mais, o Plano de Acção para a Conservação do Lobo-ibérico em Portugal, aprovado em 2017, define como objectivo geral assegurar as condições necessárias de integridade e tranquilidade das áreas de reprodução do lobo, prevendo vários objectivos operacionais e acções prioritárias. No entanto, adverte a plataforma, “até à data ainda nada foi implementado”.
Francisco Álvares acrescenta que, segundo a monitorização que tem sido feita aos lobos da região, “este ano poucas alcateias se reproduziram e a mortalidade foi enorme por causa do furtivismo”. “Os lobos têm cada vez menos sucesso reprodutor”, alerta. Além disso, “tem havido muita perturbação por causa da abertura da rede primária de acessos”, no âmbito dos trabalhos para combater os incêndios florestais, “feita em plena época de reprodução do lobo, com crias”.
Na sua opinião, além da conservação dos locais de reprodução do lobo, já identificados, importa trabalhar a médio e longo prazo, nomeadamente “melhorando as florestas nativas para poderem albergar uma comunidade diversa e abundante de presas silvestres”.
O lobo-ibérico tem em Portugal, desde 1990, o estatuto de ameaça Em Perigo. É a única espécie da fauna portuguesa que tem uma legislação específica, pela qual é protegida. É uma espécie Em Perigo de extinção, segundo o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal Continental, com cerca de 300 indivíduos, menos de metade dos quais são animais reprodutores capazes de contribuir para a continuidade da população.
Saber mais:
E-Livro
Legislação
Labels:
Academia,
APA,
Baterias de Lítio,
CIBIO,
Conservação da Natureza,
Convenção Berna,
Convenção Bona,
DIA,
E-livro,
EIA,
Floresta,
Furtivismo,
Lobo-ibérico,
Mineração,
Minerais Raros,
UICN,
Venenos
sábado, 28 de outubro de 2023
Perseguição do lobo ibérico no século XX reduziu diversidade genética da espécie
Os genes criados ao longo de milhões de anos de evolução não são recuperáveis quando desaparecem.
Este o drama irrevogável das espécies cujos efetivos diminuem drasticamente.
Investigadores do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (BIOPOLIS-CIBIO) da Universidade do Porto concluíram que a perseguição do lobo ibérico, em meados do século XX, originou uma "redução significativa da sua diversidade genética", foi hoje revelado.
Em comunicado, o centro de investigação da Universidade do Porto adianta que o estudo, publicado na revista científica ‘Molecular Ecology’, “revela que o declínio da população de lobo ibérico em meados do século XX levou a uma redução significativa da sua diversidade genética”.
“Após décadas de intensa perseguição pelo homem, as populações de lobo ibérico registaram um grande declínio na década de 1970, reduzindo consideravelmente a sua área de distribuição e levando à extinção desta espécie em grande parte da região centro e sul da Península Ibérica”, observa.
Para a realização do estudo, os investigadores recolheram amostras de espécimes de lobo ibérico provenientes de coleções de história natural de museus em Portugal e Espanha, entre 1910 e 1990.
As amostras foram comparadas com amostras contemporâneas de lobo ibérico.
Recorrendo a marcadores moleculares, os investigadores analisaram o genoma do lobo ibérico antes e depois do declínio populacional, tendo observado “uma diminuição significativa na diversidade genética da população atual”.
Esta diminuição da diversidade genética evidencia “o impacto que a perseguição humana pode ter na composição genómica desta espécie”.
O estudo desvendou ainda que os eventos de hibridação entre o lobo ibérico e o cão “não aumentaram nos anos 1970, não estando, portanto, associados com a extinção local das populações no centro e sul da Península Ibérica”, acrescentam os investigadores.
A investigação revela também que a hibridação com o cão é mais frequente em áreas onde a população de lobo está a expandir, embora a baixa frequência destes eventos sugira que “a integridade genética do lobo ibérico não está ameaçada”.
Os resultados do estudo destacam a importância de “uma adequada gestão e conservação de espécies selvagens”.
“As conclusões deste estudo são particularmente relevantes no contexto do regresso e expansão do lobo em várias regiões da Europa onde anteriormente tinha sido extinto, abrindo futuras direções no estudo dessas populações”, referem, citadas no comunicado, as investigadoras Raquel Godinho e Diana Lobo, do BIOPOLIS-CIBIO.
A investigação contou com a colaboração do investigador José Vicente Lopez-Bao, da Universidade de Oviedo, em Espanha.
Labels:
Academia,
Artigo Científico,
Biologia,
Caça,
CIBIO,
Ecologia,
Evolução,
Genética,
Mamíferos,
Minha Reflexão,
Museus,
Parques Naturais,
Península Ibérica,
População,
Rede Natura 2000,
REN
quinta-feira, 11 de maio de 2023
Centeios mais antigos da Península Ibérica descobertos no Norte de Portugal e Galiza
Uma equipa internacional liderada por investigadores portugueses divulgou hoje um estudo que permite conhecer o centeio mais antigo da Península Ibérica e discute a cronologia e o contexto histórico em que esta espécie foi introduzida e cultivada nesta região.
De acordo com os investigadores, os grãos e restos de espigas de centeio mais antigas da Península Ibérica datam da Idade do Ferro, nomeadamente de um período entre o século III a.C. e a primeira metade do século I a.C., foram recolhidos nos sítios arqueológicos do Freixo/Tongobriga (Marco de Canaveses), Crastoeiro (Mondim de Basto) e Castro de São Domingos (Lousada) no Norte de Portugal, bem como no Castelo Pequeno de Santigoso (A Mezquita) na Galiza.
A cronologia foi confirmada através de uma série de datações de radiocarbono e da aplicação de análises estatísticas, numa investigação que decorreu no BIOPOLIS/CIBIO-InBIO (Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, Universidade do Porto), no âmbito do doutoramento de Luís Seabra e no contexto de uma ampla colaboração entre investigadores de instituições como a School of Archaeology da University of Oxford, Universidad de Cantabria, Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto, Centro de Estudos Interdisciplinares da Universidade de Coimbra, Wessex Archaeology e o Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa.
A busca pelo centeio mais antigo do território peninsular, e um dos mais antigos da Europa ocidental, iniciou-se há oito anos quando Luís Seabra estudava, no âmbito do seu mestrado, um conjunto de frutos e sementes provenientes do sítio do Crastoeiro, localizado no sopé do mítico Monte Farinha, mais conhecido por Alto da Senhora da Graça.
Na altura, uma datação de radiocarbono permitiu compreender a antiguidade do centeio aí encontrado, mas, tratando-se de um caso isolado, era difícil entender a sua integração na agricultura da Idade do Ferro da região.
Ao avançar para doutoramento, Luís Seabra estudou “inúmeros” conjuntos arqueológicos e arqueobotânicos em busca de mais centeio e encontrou o que procurava.
“Compreendemos que o centeio surge com mais recorrência do que antes pensávamos, em sítios da Idade do Ferro, mais precisamente, com cronologias estimadas entre os séculos III e I a.C., no Norte de Portugal e sul da Galiza”, refere Luís Seabra.
Contudo, sublinha, “os dados obtidos não permitem esclarecer por completo se estes primeiros vestígios decorrem do efetivo cultivo desta espécie ou se o centeio que aqui se encontrava era uma mera infestante de outros cereais, como o trigo espelta, amplamente cultivado na região durante este período”.
Para tentar esclarecer esta questão, a equipa avaliou os contextos arqueológicos em que foram recolhidos os vestígios de centeio e realizou um estudo biométrico de modo a compreender se houve modificações nos grãos deste cereal ao longo do tempo, medindo e comparando estes conjuntos arqueobotânicos mais antigos com cereais de diferentes sítios arqueológicos de cronologia Romana e Medieval da mesma região, explica João Tereso, investigador do BIOPOLIS/CIBIO-InBIO e coordenador do estudo.
“Os resultados não foram conclusivos a este respeito, mas demonstraram que os grãos de centeio só aumentam significativamente de dimensão a partir da Idade Média”, afirma o coordenador do estudo hoje publicado na revista PLoS ONE
Ainda assim, a investigação sugere que “o centeio terá sido introduzido inadvertidamente como infestante durante a Idade do Ferro, tendo o seu cultivo efetivo iniciado num momento avançado da Época Romana, provavelmente entre o final do século II e o século IV da nossa Era. Esta hipótese sustenta-se, principalmente, no facto do centeio ser esporádico e secundário face a outros cereais na cronologia mais antiga e estar posteriormente ausente durante cerca de dois séculos, até ressurgir no final do século II ou início de III”.
“No futuro será necessário, porém, reforçar a amostragem sobre contextos da Idade do Ferro e de Época Romana, de modo a testar as hipóteses que colocamos agora. Como qualquer investigação em Arqueologia, é sempre possível que o próximo achado, nosso, ou de outra equipa, nos contradiga, mas essa é uma das partes mais fascinantes da ciência”, considera João Tereso.
sábado, 12 de novembro de 2022
Instituições portuguesas num projecto para ligar as áreas protegidas da Europa
Lançado esta quinta, o NaturaConnect pretende ajudar os governos da União Europeia a desenvolver uma rede natural “resiliente e bem interligada”, que contribua para a conservação da biodiversidade.

A associação Biopolis, em conjunto com o pólo da Universidade do Porto (UP) do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (Cibio), e a Universidade de Évora integram um projecto que visa identificar áreas a proteger na Europa, para, assim, contribuir para uma maior preservação da biodiversidade.
Em comunicado, o Cibio esclarece que o projecto, lançado esta quinta-feira e intitulado Natura Connect, pretende apoiar os governos da União Europeia (UE) e outras instituições públicas e privadas na “concepção de uma rede natural transeuropeia coerente, resiliente e bem interligada”.
Para ajudar os Estados-membros a concretizarem a estratégia prevista para as áreas protegidas, o projecto, financiado pelo programa Horizonte Europa, junta 22 instituições e parceiros que trabalharão com gestores de áreas protegidas e organizações de conservação da natureza para identificar as “melhores áreas a proteger na Europa e, assim, contribuir para uma maior preservação da biodiversidade a adaptação às alterações climáticas.
Os grupos austríaco, húngaro e romeno da WWF, a Rewilding Europe, que tem um braço português a tentar reconstituir um corredor natural na bacia hidrográfica do rio Côa, e a Birdlife International, organização voltada para a protecção das aves e dos seus habitats, são algumas das instituições ligadas ao projecto. Há também diversas universidades, de países como Finlândia, Itália, os Países Baixos e a Polónia.
Em tempos recentes, várias nações assumiram o compromisso de converter pelo menos 30% das suas áreas terrestres e marítimas em áreas protegidas. Foi no final de Junho deste ano, na Conferência dos Oceanos da Organização das Nações Unidas (que aconteceu no Parque das Nações, em Lisboa), que António Costa anunciou que Portugal pretende proteger 30% das suas áreas marinhas até 2030.
Para os parceiros do NaturaConnect, atingir 30% de protecção passa pelo desenvolvimento de “uma Rede Transeuropeia de Natureza que funcione como um sistema interligado, formado por corredores ecológicos entre áreas naturais e seminaturais”. Se for “gerida adequadamente”, esta rede “pode proporcionar uma ampla gama de benefícios para a biodiversidade e para as pessoas”, argumenta o Cibio em comunicado.
O projecto, pode ler-se no seu site, pretende colaborar com os decisores políticos, fornecendo a estes últimos “os melhores dados disponíveis para avaliar a biodiversidade e os benefícios para as pessoas”. Pretende também “antecipar desenvolvimentos futuros”, tanto ao nível das condições climáticas como ao do uso da terra, que possam “limitar ou permitir o desenvolvimento” da tal rede transeuropeia.
Outros objectivos incluem identificar instrumentos financeiros que permitam implementar a rede e encontrar também “formas de mitigar barreiras”, através, por exemplo, da capacitação de meios técnicos e de um diálogo regular com autoridades e outros protagonistas relevantes.
Labels:
Alterações Climáticas,
Bacias Hidrográficas,
Biodiversidade,
CBD,
CIBIO,
Conferência,
EEAGrants,
EEB,
Oceanos,
PEE,
Podcast,
Renaturalização,
Resiliência,
RNAP,
UE,
UNCLOS
terça-feira, 14 de dezembro de 2021
Investigadores da U.Porto alertam para extinção "silenciosa" do gato-bravo
Existem fortes indícios que as populações de gato-bravo no sul da Península Ibérica estejam em declínio e necessitem de medidas de conservação. Esta preocupação foi o que levou os investigadores do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO-InBIO/BIOPOLIS), Paulo Célio Alves – também docente da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP) – e Pedro Monterroso – alumnus da FCUP – a convidar investigadores europeus a visitar a região de Mértola, em Portugal, para o 4º Encontro do consórcio Europeu sobre gato-bravo (Eurowildcat Meeting), que decorreu entre os dias 24 e 26 de novembro.
“Temos feito um enorme esforço na reintrodução do lince-ibérico, mas também é importante alertar para a conservação do gato-bravo”, explica Paulo Célio Alves, que desenvolve a investigação sobre esta espécie na Península Ibérica.
E é precisamente o Alentejo, uma das regiões portuguesas em que a situação populacional levanta maior preocupação, a par do Algarve, Beira Interior, Ribatejo e Beira Litoral. Os principais responsáveis pelo declínio da população desta espécie são a falta de habitat para o gato-bravo, a falta de presas — coelhos e pequenos mamíferos — e também a hibridação com o gato doméstico.
“O facto de existirem cada vez menos gatos-bravos aumenta a probabilidade da hibridação com os gatos domésticos, e consequentemente a uma perda das características genéticas das populações endémicas do gato-bravo da Península Ibérica”, salienta o professor do Departamento de Biologia da FCUP. Como o gato doméstico descende do gato-africano e não do gato-bravo, ao haver cruzamento entre estas duas espécies, há uma alteração das suas características genéticas. Em Portugal, concretiza Paulo Célio Alves, “a taxa de hibridação já vai em 21%”.
Na verdade, a extinção do gato-bravo é “silenciosa” porque cada vez mais o gato doméstico se confunde com o gato-bravo. “Temos gatos domésticos (e híbridos) em áreas supostamente de gato-bravo e por estes apresentarem características externas parecidas às de gato-bravo, o que nos «ilude» com um cenário de conservação aparentemente favorável. Por outro lado, a extinção também é silenciosa por ninguém falar dela. Mas isso é transversal a muitas outras espécies da nossa fauna, que não têm visibilidade pública”, explica, por sua vez, Pedro Monterroso, que, desde 2017, integra o grupo de especialistas em felinos (Cat Specialist Group) da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
Atualmente, as populações mais saudáveis de gato-bravo da Península Ibérica vivem no Norte de Espanha. Nos últimos anos, têm sido conduzidos estudos populacionais através da captura e marcação de exemplares, bem como através de métodos de amostragem não invasivos como a armadilhagem fotográfica, a procura e análise molecular de excrementos ou de pelos (os últimos recolhidos através de “armadilhas” especificamente desenhadas para o efeito).
O “B.I” do gato-bravo
Como distinguimos o gato doméstico do gato-bravo (Felis silvestris)? “Distinguem-se pelo seu tamanho, pelos padrões de pelagem e pela sua cauda mais grossa com três a cinco anéis negros e uma ponta escura e arredondada”, descreve Paulo Célio Alves.
O docente da FCUP, que trabalha há praticamente 20 anos no estudo desta espécie, e que tem vindo a orientar várias teses de doutoramento e mestrado focadas no gato-bravo, alerta para a importância de se tomarem medidas de conservação. O que podemos fazer, no imediato, para ajudar a preservar esta espécie? “Além de se recuperar os habitats e as presas, é importante sensibilizar as populações para esterilizarem os gatos domésticos, sobretudo se andarem no exterior das habitações, para prevenir cruzamentos com o gato bravo”, alerta.
O 4.º Encontro Europeu do consórcio Eurowildcat contou também com a organização integrada no projeto da Estação Biológica de Mértola, que conta com a participação do CIBIO-InBIO e da FCUP.
segunda-feira, 25 de outubro de 2021
É da U.Porto a melhor tese de doutoramento do ano em Ecologia
A investigadora Vanessa Mata, do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto (CIBIO-InBIO), e antiga estudante da Faculdade de Ciências da U.Porto (FCUP), é a vencedora da edição 2021 do Prémio de Doutoramento em Ecologia – Fundação Amadeu Dias, atribuído anualmente pela Sociedade Portuguesa de Ecologia (SPECO) ao autor da melhor tese de doutoramento naquela área, apresentada em Portugal durante o ano anterior.
Desenvolvido no âmbito do doutoramento em Biodiversidade, Genética e Evolução da FCUP, o trabalho agora premiado – com 3 mil euros – consistiu no desenvolvimento de uma ferramenta de metabarcoding aplicável no estudo das interações entre espécies.
“O metabarcoding funciona como um código de barras de DNA (ou RNA) que permite a identificação simultânea de muitas espécies dentro da mesma amostra. A vantagem de usar uma ferramenta do tipo metabarcoding é usar DNA (ou RNA) de vários organismos diferentes provenientes de uma amostra global”, destaca a SPECO em comunicado.
Com a utilização desta ferramenta molecular, a aluna e investigadora da U.Porto conseguiu detetar variações subtis, intra- e inter-específicas, na dieta de morcegos, o que lhe “permitiu a descrição da primeira rede de interações predador-presa entre morcegos e pragas agroflorestais”.
A utilização desta ferramenta científica tem elevada relevância do ponto de vista aplicado ao permitir “identificar espécies de morcegos cuja presença pode ser favorecida para intensificar o controlo de pragas”. Já do ponto de vista da biodiversidade, “chama a atenção para a importância de conservar comunidades diversas de vertebrados em paisagens multifuncionais”, nota a SPECO.
Para além de Vanessa Mata, a edição deste ano do Prémio de Doutoramento em Ecologia – Fundação Amadeu Dias distinguiu ainda os trabalhos dos investigadores Miguel Baptista do Centro de Ciências Marinhas e Ambientais (MARE) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e Tiago Morais, do Centro de Investigação Marinha, Ambiente e Tecnologia (MARETEC) do Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa, segundo e terceiros classificados, respetivamente.
Os três investigadores vão receber os respetivos prémios durante o 20.º Encontro Nacional de Ecologia (2 a 4 de dezembro, na Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Viana do Castelo), ocasião em que terão a oportunidade de apresentar os respetivos trabalhos.
Ao todo, a edição deste ano Prémio de Doutoramento em Ecologia – Fundação Amadeu Dias recebeu 20 candidaturas elegíveis, de doutorados com teses defendidas nas Universidades de Aveiro, Coimbra, Évora, Lisboa, Nova de Lisboa, Porto e Trás-os Montes e Alto Douro.
Fonte: UP
terça-feira, 20 de julho de 2021
Aves migradoras podem não conseguir ajudar as plantas a fugir das alterações climáticas
As aves migradoras dispersam sementes principalmente na direção contrária ao que seria necessário para ajudar as plantas a escapar às alterações climáticas, concluiu um estudo de 23 de Junho publicado na revista Nature.
As aves migradoras podem ajudar as plantas a adaptarem-se às alterações climáticas (comendo os seus frutos e dispersando as suas sementes para locais mais favoráveis), mas, de acordo com a Universidade de Coimbra (UC), “este novo estudo mostra que a grande maioria das espécies de sementes de florestas europeias é dispersada por aves durante a sua migração em direção a latitudes mais quentes, no sul”.
Apenas uma minoria daquelas sementes são encaminhadas para latitudes mais frias, a norte – “ao contrário do que as plantas precisariam para se adaptarem ao aquecimento global”, segundo a mesma investigação, desenvolvida por 13 instituições europeias, entre as quais a UC e a Universidade do Porto (UP).
“Sabemos que o clima está e vai continuar a aquecer e, em resultado disso, muitas espécies na Europa estão a deslocar-se de áreas que se estão a tornar demasiado áridas e quentes – a sul – e a expandir-se para novas áreas onde as condições se estão a tornar mais favoráveis – a norte”, afirma, Ruben Heleno, investigador do Centro de Ecologia Funcional (CFE) da UC, coautor do estudo.
“Para os animais, incluindo para nós, este movimento é mais fácil, mas muitas plantas precisam da ajuda dos animais, que ao consumirem os seus frutos acabam depois por depositar as sementes em novos locais onde as plantas podem crescer. As aves migradoras, muitas delas deslocando-se centenas de quilómetros em poucas horas, têm um papel muito importante na prestação deste serviço de boleias gratuitas à escala global”, explica, citado pela UC, Ruben Heleno.
A investigação baseou-se no estudo das interações entre plantas e aves frugívoras em 13 florestas de seis países europeus, incluindo uma floresta em Souselas, Coimbra. No total, adianta a UC, o estudo envolveu 949 interações entre 46 espécies de aves e 81 espécies de plantas com fruto.
O estudo mostra que apenas 35% das espécies de plantas são dispersadas por aves quando estas estão a migrar em direção ao norte, enquanto 86%, a maioria das espécies, são dispersadas quando as aves que consomem os seus frutos estão a voar em direção a latitudes mais quentes a sul, revela a UC, numa nota enviada hoje à agência Lusa.
“As aves migradoras são o veículo perfeito para levar plantas que produzam bagas para novos sítios e podem ajudá-las a mudar a sua distribuição face às atuais alterações climáticas. Contudo, demonstrámos que somente um terço das plantas pode contar com as aves migradoras para se expandir para norte, de forma a conseguirem manter os seus nichos ecológicos atuais”, salienta Luís da Silva, investigador do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO-InBIO) da UP, coautor do estudo.
A investigação também mostra que as aves que passam o inverno no sul da Europa e no norte de África são especialmente importantes para ajudar as plantas a deslocarem-se para latitudes tendencialmente mais favoráveis a norte.
Este importante serviço é providenciado por poucas espécies, entre as quais o Pisco-de-peito-ruivo, a Toutinegra-de-barrete-preto e várias espécies de tordos, todas elas ainda relativamente comuns na Europa. No entanto, algumas delas são caçadas de forma legal e ilegal em vários países da bacia do Mediterrâneo, apesar do seu importante papel ecológico.
Os autores do estudo sugerem que esta dificuldade em encontrar dispersores adequados pode condicionar a composição específica das florestas europeias no futuro, uma vez que muitas plantas podem ficar para trás. As espécies de plantas que não conseguirem acompanhar a deslocação das suas condições preferenciais de sobrevivência terão que enfrentar climas mais áridos, secos e quentes no sul.
Subscrever:
Mensagens (Atom)











