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quinta-feira, 24 de setembro de 2026

A oliveira e a arte de resistir à seca

Pode visualizar o cartaz, com mais detalhe aqui

Sempre me fascinou a sobrevivência das espécies em condições extremas, em particular a das árvores quando a água escasseia. Presas ao lugar onde nasceram, atravessam décadas (por vezes séculos) expostas ao sol, ao vento e à incerteza da chuva. Não podem procurar sombra nem seguir a água. Ainda assim, têm de a transportar das raízes até às folhas, mantendo em funcionamento essa extraordinária maquinaria que transforma luz em vida.

Poucas árvores encarnam tão bem esta capacidade como a oliveira. O tronco retorcido e o brilho prateado das folhas parecem guardar a memória de muitos verões. Quando o calor seca os campos, a oliveira resiste. Algumas vivem séculos e persistem mesmo em condições de grande aridez. Em Portugal, as oliveiras antigas são também arquivos vivos da paisagem e da relação entre as comunidades humanas e o território.

Como é possível tamanha resistência? Não existe um único segredo, mas uma combinação de soluções afinadas pela evolução. Quando a água falta, a oliveira fecha os estomas, pequenos poros das folhas responsáveis pelas trocas gasosas. Ao fazê-lo, reduz a transpiração e conserva água. Os estomas concentram-se na face inferior da folha, protegidos por uma densa camada de tricomas prateados, que ajuda a limitar a perda de água sem impedir as trocas gasosas. As folhas estreitas, espessas e coriáceas revelam uma anatomia moldada para enfrentar a secura. A superfície foliar reflete parte da radiação e a orientação das folhas pode também alterar-se, reduzindo a exposição nos períodos de maior intensidade luminosa. A oliveira parece imóvel, mas está permanentemente a ajustar o seu funcionamento ao ambiente.

Uma parte decisiva desta história acontece debaixo do solo. O sistema radicular é plástico: adapta a sua arquitetura à distribuição da água e explora diferentes volumes de solo à medida que as condições se alteram. É como se procurasse, em profundidade e em extensão, as reservas de uma paisagem que começa a secar.

Mas a seca traz outro perigo. À medida que o solo perde água, aumenta a tensão nas colunas de água que percorrem o xilema. Se essa tensão se tornar excessiva, podem formar-se bolhas de ar capazes de interromper o transporte entre raízes e folhas. Também aqui a anatomia conta. A arquitetura hidráulica da oliveira, assente numa rede de numerosos vasos condutores, muitos deles relativamente estreitos, ajuda a limitar a propagação destas falhas e a manter o transporte de água mesmo quando algumas vias deixam de funcionar. Nada disto é um milagre. É biologia e evolução: uma engenharia de sobrevivência construída lentamente sob o sol e a seca do Mediterrâneo.

Oliveira mais antiga de Portugal fica na Herdade do Peso, tem 3.712 anos [toda a história aqui]

Ao longo de milhares de anos, a oliveira evoluiu num ambiente marcado pela irregularidade da água, mas o clima mediterrânico está a mudar. As temperaturas aumentam, a precipitação torna-se mais incerta, as ondas de calor intensificam-se e as secas podem tornar-se mais longas e severas. É tentador olhar para uma espécie tão resistente e imaginar que resistirá sempre, mas tal não significa invulnerabilidade. Todas as adaptações têm limites.

A oliveira mostra-nos a extraordinária capacidade da vida para se adaptar e o perigo de imaginarmos que essa capacidade é infinita. Talvez essa seja uma das grandes lições das plantas: não sobrevivem porque dominam o ambiente, mas porque a evolução lhes permitiu responder às suas variações e viver dentro dos limites que ele impõe.

Num clima em mudança, talvez também nós tenhamos de aprender essa lição: compreender melhor os limites, respeitar os ritmos da natureza e perguntar menos que espécies poderão substituir as atuais, e mais que condições teremos de preservar para que as nossas paisagens continuem vivas.

Helena Freitas - Diário de Coimbra, 22.09.2026

Saber mais:

quarta-feira, 18 de março de 2026

Ecoparolice - Maior árvore eólica do país instalada no concelho de Pampilhosa da Serra

A instalação de uma árvore eólica, parte integrante da empreitada de arranjo urbanístico da entrada oeste da vila de Pampilhosa da Serra, encontra-se em fase de testes e será responsável por alimentar a quase totalidade das necessidades energéticas do espaço assim que a obra estiver finalizada.
A energia produzida por esta energia permitirá “assegurar o funcionamento de vários sistemas do novo arranjo urbanístico, desde a iluminação pública ao sistema de tratamento e recirculação da água, garantindo que estas infraestruturas funcionem com um custo de energia praticamente nulo”, explica a autarquia em nota enviada à comunicação. Trata-se de uma solução inovadora em meios urbanos, que reforça o compromisso com a eficiência energética e a sustentabilidade ambiental.
Inspirada na natureza, a chamada “WindTree” funciona como um sistema complementar de produção de energia elétrica. A estrutura é composta por 36 microturbinas eólicas, com uma potência total de 10.800 W, num sistema eletrónico inteligente que regula continuamente o funcionamento das turbinas, ajustando a produção às condições do vento e garantido o máximo aproveitamento energético.
Integrada no projeto de requalificação da entrada oeste da vila, esta árvore eólica assume-se como “um elemento simbólico de inovação, sustentabilidade e valorização do espaço público, contribuindo para um futuro energeticamente mais eficiente em Pampilhosa da Serra”, salienta ainda na mesma nota.
De relembrar que em Portugal existe apenas outra árvore eólica de menor potência com características semelhantes (CascaiShopping), sendo esta a de maior dimensão.
Ora esta região é densamente povoada por eucaliptais e monoculturas intensivas. O concelho de Pampilhosa da Serra é, de facto, caracterizado por uma forte presença de eucaliptais (frequentemente em regime de monocultura) e pinheiro bravo, o que tem gerado debates sobre sustentabilidade, biodiversidade e risco de incêndio. Após os grandes incêndios de 2017 e 2025, a Montis tem sido uma voz crítica e ativa no terreno, defendendo que a reconstrução da Pampilhosa não pode ser "mais do mesmo". Eles focam-se na regeneração natural assistida, ajudando a floresta a recuperar-se sozinha mas com uma composição mais variada e segura. Outra associação ambientalista, MilVoz sofreu um revés pesado nos incêndios recentes. Em agosto de 2025, a sua Bio-Reserva mais importante (localizada no Vale da Aveleira, na Lousã, vizinha da Pampilhosa) foi severamente fustigada pelas chamas. Manuel Malva classificou o evento como uma "calamidade ecológica", sublinhando a dificuldade de proteger estas "ilhas de biodiversidade" quando a paisagem em redor é altamente inflamável.

Aqui estão os pontos principais sobre a situação florestal nesta área:
Elevada densidade de eucalipto: o eucalipto (Eucalyptus globulus) é predominante na paisagem, muitas vezes explorado intensivamente para a produção de pasta de papel.
Riscos associados: a elevada presença destas espécies, que são altamente combustíveis, tem contribuído para a facilitação da propagação de grandes incêndios na região.
Ações de conservação: existem iniciativas, como a da organização Montis, que actuam na região para reconverter eucaliptais em matas mais biodiversas e resilientes, nomeadamente através do corte de eucaliptos em áreas específicas.
Contexto de despovoamento: a monocultura intensiva está também ligada ao despovoamento do interior, onde estas plantações ocupam terras que antes tinham outros usos.
Artigo científico (2021)

segunda-feira, 16 de março de 2026

Eastgate Center: uma história de bioinspiração não muito verdadeira


No campo da biomimética, existem certas críticas sobre projetos baseados em visões superficiais da natureza e numa economia pretensamente verde, como aqui já foi referido.

Um desses projetos é um dos exemplos arquitetónicos mais famosos da biomimética: o edifício Eastgate Centre, localizado em Harare, Zimbabué, inaugurado em 1996.

O arquiteto Mick Pearce e a empresa Arup ter-se-ão inspirado parcialmente na estrutura das termiteiras locais para construir um edifício adequado a um clima tropical. Na África tropical, as térmitas da subfamília Macrotermitinae constroem ninhos enormes (até 9 metros) onde cultivam fungos em câmaras dentro do ninho.

No entanto, o projeto do edifício não se baseou totalmente no funcionamento real das termiteiras, como veremos adiante.

Modelos de regulação térmica das termiteiras
Na época em que Pearce projetou o edifício, existiam dois modelos propostos e aceitos para explicar a regulação térmica dentro das termiteiras: o modelo de fluxo termossifão e o modelo de fluxo induzido.

Fluxo termossifão: A ventilação é acionada pelo calor; o ar quente gerado pelo ninho sobe até ao topo da térmiteira onde, ao arrefecer, fica mais denso e é forçado para a região abaixo do ninho, repetindo o ciclo.

Fluxo induzido: Aplica-se às termiteiras que têm uma chaminé no topo, exposta a velocidades de vento mais elevadas do que as entradas ao nível do solo. Assim, o fluxo unidirecional atrai ar fresco junto ao solo para o ninho, passando pela chaminé e saindo para o exterior.

Projeto do edifício Eastgate Centre
Os arquitetos que projetaram o Eastgate Centre tentaram incorporar os princípios destes dois modelos. O edifício possui um extenso sistema de condutas dentro das paredes e pisos que movem o ar através da estrutura.

O calor gerado dentro do edifício, juntamente com o calor armazenado na estrutura, cria um efeito de termossifão que atrai o ar para cima. No telhado, localizam-se grandes chaminés, essenciais para criar o fluxo induzido.

No entanto, as histórias populares sobre o Eastgate Centre ignoram um detalhe importante: o edifício utiliza ventiladores de baixa capacidade durante o dia e de alta capacidade durante a noite para evitar a estagnação do ar. Assim, o ar quente acumulado durante o dia é substituído pelo ar fresco da noite. Isto funciona bem e evita o uso de ar condicionado caro, mas, escusado será dizer, nenhuma termiteira utiliza ventiladores.

Críticas ao projeto
O sistema de refrigeração permitiu uma poupança de 10% nos custos iniciais (ao não comprar sistemas de ar condicionado) e uma redução de 20% no preço dos alugueres em comparação com edifícios vizinhos.

Embora o objetivo prático tenha sido atingido, em termos de biomimética o projeto falhou, pois as térmiteiras não ventilam da forma que Mick Pearce pensava. Como escreveu a entomologista Marianne Alleyne:

“Se a biomimética e a bioinspiração desejam ser reconhecidas como áreas de estudo legítimas, é essencial que a ciência em que o campo se baseia seja sólida.”

Como as termiteiras realmente funcionam
Desde 1996, as suposições de Pearce foram refutadas pelos investigadores J. Scott Turner e Rupert C. Soar. Eles verificaram que, embora a temperatura interna varie menos que a externa, ela segue de perto a temperatura do solo circundante ao longo do ano.

O solo tem uma grande capacidade térmica, atuando como um "amortecedor" contra as variações diárias. A arquitetura e a ventilação têm pouco a ver com a temperatura interna, mas sim com a troca de gases. Ao fazerem moldes de gesso dos túneis, os investigadores descobriram que há pouca mistura entre o ar da superfície e o do ninho subterrâneo, propondo que a termiteira é, na verdade, um análogo funcional de um pulmão.

Metamateriais inspirados nas térmitas
Em 2023, David Andréen e Rupert Soar demonstraram que a geometria dos túneis pode otimizar o fluxo de ar e o controlo de humidade. Com base em digitalizações e experiências, criaram estruturas que podem ser integradas nas paredes de futuros edifícios, permitindo: circulação de ar otimizada por sensores; controlo térmico sem componentes mecânicos e consumo mínimo de energia.

Conclusão
As térmitas constroem paredes que interagem com o ambiente, trocando gases e energia em vez de criarem barreiras impenetráveis. Estas descobertas abrem caminho para edifícios com paredes porosas e sistemas de revestimento vivos, que farão parte da nossa "fisiologia estendida", tal como o ninho faz parte da colónia.

Referências:
  1. Termite-inspired metamaterials for flow-active building envelopes.
  2. Beyond biomimicry: What termites can tell us about realizing the living building.
  3. The termite mound: A not-quite-true popular bioinspiration story.
  4. How is the Eastgate Building NOT like a Termite Mound?

Além do erro biológico o Eastgate Centre levanta problemas de transição justa
O Eastgate Centre, em Harare, no  Zimbabwe, apontado como ícone arquitectónico de "inspiração na natureza" serviu apenas como um verniz ecológico para um edifício construído com materiais de elevado impacto ambiental, como o betão e o aço, e destinado a escritórios de luxo e comércio de elite. Enquanto o marketing celebrava a "sabedoria das térmitas", o projeto ignorou a justiça social: a energia que o edifício ainda consome provém de centrais a carvão poluentes e a tecnologia biomimética não é aplicada para melhorar a vida das populações mais pobres na periferia de Harare. Assim, o Eastgate torna-se um caso de estudo sobre como a biomimética pode ser cooptada para validar modelos de negócio tradicionais, focando-se na eficiência técnica para o capital em vez de numa regeneração ecológica e social profunda.

domingo, 15 de março de 2026

Biomimética - uma ciência amiga da sustentabilidade?



O pensamento base da biomimética é o Ecologically Sustainable Design (ESD)

"Does it run on sunlight? 
Does it use only the energy it needs? 
Does it fit form to function? 
Does it recycle everything? 
Does it reward cooperation? 
Does it bank on diversity? 
Does it utilize local expertise? 
Does it curb excess from within? 
Does it tap the power of limits? 
Is it beautiful?" 
(Benyus 1997:291)

Porém, com os avanços e progressos obtidos pela biomimética, ela ainda apresenta problemas em termos de economia circular e casos de lavagem verde.


O risco de Greenwashing ou Lavagem Verde
Muitas vezes, empresas utilizam a biomimética apenas para melhorar a performance (vender mais ou ser mais rápido) sem olhar para o impacto ambiental do ciclo de vida do produto. Se o objetivo for apenas lucro e extração, a biomimética torna-se apenas uma ferramenta de engenharia avançada ("genialidade da natureza") como uma estratégia de marketing para esconder um ciclo de produção poluente, extrativista ou socialmente injusto.

Exemplos:
1. A Pintura "Sharklet" da Airbus
A Airbus desenvolveu extremidades de asas (winglets) inspiradas na forma das barbatanas de tubarão para reduzir o arrasto e poupar combustível. Chamaram-lhes, apropriadamente, "Sharklets".
O marketing: a empresa promoveu estes dispositivos como uma "revolução verde" na aviação, destacando a redução de 4% nas emissões de CO2
O greenwashing: embora a melhoria técnica seja real, usar a imagem do tubarão e da natureza para vender aviões é contraditório. O setor da aviação continua a ser um dos maiores emissores globais e o crescimento do número de voos anula completamente o ganho de 4%. 

2. A Sapatilha "Biosteel" da Adidas
Em 2016, a Adidas apresentou o protótipo Futurecraft Biofabric, uma sapatilha feita de Biosteel, uma fibra que imita a seda da aranha, desenvolvida pela empresa AMSilk.
O marketing: foi vendida como "100% biodegradável" e um exemplo de como a biotecnologia biomimética iria acabar com os resíduos têxteis.
O greenwashing: a sapatilha nunca chegou a ser produzida em massa de forma acessível. Funcionou como um objeto de relações públicas para posicionar a Adidas como líder em sustentabilidade, enquanto a marca continuava a inundar o mercado com milhões de toneladas de plástico virgem e sapatilhas de difícil reciclagem produzidas em cadeias de montagem globais com pegadas de carbono gigantescas.

3. O Edifício "The Gherkin" em Londres (Foster + Partners)
Este icónico arranha-céus foi desenhado com um sistema de ventilação inspirado na estrutura das esponjas-do-mar e das anémonas, que filtram a água para se alimentar e respirar.
O marketing: foi apresentado como o "primeiro arranha-céus ecológico de Londres", prometendo poupanças de energia de até 50% através da ventilação natural inspirada na biologia.
O greenwashing: na prática, o sistema de ventilação natural raramente é usado devido a restrições de segurança e conforto dos escritórios de luxo (os inquilinos preferem o ar condicionado controlado). Além disso, a construção de um gigante de vidro e aço no centro financeiro de Londres tem uma energia incorporada (custo de fabrico dos materiais) imensa. Usar a biologia marinha como metáfora para um centro do capitalismo financeiro é visto como um uso puramente estético e ideológico da natureza.

Outros casos e reflexões 

Conclusão
A biomimética é um caminho para a sustentabilidade porque nos ensina a produzir "como a vida produz". Mas, para ser sustentável na prática, a tecnologia inspirada na natureza tem de ser acompanhada por uma mudança no modelo económico: passar da extração para a regeneração. Isto é, todo o ciclo de produção integrado nos princípios da economia circular. 

Referências bibliográficas

Jiddu Krishnamurti - a reforma que vale é a reforma do indivíduo


Quando os modelos estão experimentados e falham gradualmente na criação multilateral e igual de abundância e prosperidade, uma sociedade informada, sensata e consciente, deve começar a procurar novos sistemas e modelos, para que prevaleça e prospere .Ou neste caso concreto, ir buscar os exemplos onde está a sabedoria maior , na Natureza, que em muitos bilhões de anos já fez todas as experiências difíceis e criou modelos tão complexos e eficientes, que com toda a nossa tecnologia e estudo empírico, ainda só afloramos superficialmente.
A sabedoria da Natureza está em tudo o que acompanha o nosso quotidiano. Não inventamos nada, só vamos conseguindo ler e reproduzir , com o engenho e criatividade.
Este processo, seja na escala de consciência individual ou colectivo, transversalmente a tudo, deveria ser a base da nossa conduta, aceitando humildemente aquilo que não sabemos e aceitar a sabedoria da natureza, reproduzindo então com estas nossas capacidades que são o que de melhor temos.

Não somos sábios, mas a criatividade e engenho são dos nossos melhores atributos, como espécie .
Estes mesmos atributos trouxeram a um ponto que podemos construir ou destruir a escalas globais. Resida aqui a tal encruzilhada de escolhas .
Não querendo ser pessimista, porque não o sou, mas se não conseguirmos interiorizar isto primeiro e depois aplicar, temo que possa ser cheio de incertezas e perigos, o nosso futuro enquanto espécie neste maravilhoso e fascinante planeta e cosmos .
E que cada um vá dando o seu contributo, na sua escala e realidade, pode ser muito mais significativo do que se pensa .

Seguindo uma frase que diz que o pior erro é não fazer nada por acharmos que é pequeno ou os outros o farão.
Parece-me claro que estamos cada vez mais próximo de uma encruzilhada determinante .
E parece também que ao invés de aprendermos, só reproduzimos os mesmos erros e cada vez com mais consequências drásticas. É exponencial a capacidade que temos de destruir ou construir .
É uma escolha feita de muitas escolhas.

E-Livros de Jiddu Krishnamurti

Todos os livros traduzidos aqui

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Louva-a-deus - auxiliares da agricultura biológica


O louva-a-deus é um inseto que fascina os humanos há séculos. Os registos mostram que os antigos egípcios, assírios e gregos, acreditavam que o louva-a-deus tinha poderes proféticos e sobrenaturais. Eram capazes de identificar a localização de objetos, animais ou pessoas perdidas. Na França antiga, acreditavam que um louva-a-deus era capaz de levar uma criança perdida para casa.

Nos nossos dias, o louva-a-deus ainda é considerado especial. Em algumas partes de África, acreditam que traz boa sorte se um louva-a-deus pousar num humano. Na China e no Japão, o louva-a-deus é reverenciado por seus movimentos graciosos e formas contemplativas. Inclusive, os seus movimentos inspiraram dois estilos conhecidos de antigas artes marciais chinesas. São muitas vezes vitos como um símbolo de equilíbrio e paciência. Antes de atacar, eles observam atentamente os seus alvos e são conhecidos por fazerem poses estratégicas.

Os louva-a-deus são insetos pertencentes à Ordem Mantodea (do grego mantis - profeta; eidos - aparência). É, por isso, fácil perceber a origem do nome louva-a-deus.  Deve-se ao modo como seguram a frente de seus corpos e posicionam suas enormes patas dianteiras quando estão em repouso, parece que eles estão a orar ou a meditar. 

Atualmente, são conhecidas mais de 2.000 espécies de louva-a-deus e podem ser encontrados em todos os continentes, exceto na Antártida. A maioria das espécies habita ambientes tropicais e subtropicais. O tamanho varia muito consoante a espécie. Podem ir dos 3 aos 8 cm, embora algumas espécies tropicais podem crescer até aos 20 cm ou mais.

Em Portugal, são conhecidas nove espécies. A mais abundante é o louva-a-deus-comum (Mantis religiosa). É uma das espécies que atinge maiores dimensões com as fêmeas a atingirem oito centímetros de comprimento.

São especialistas em camuflagem e mimetismo. Muitas vezes, estão ao nosso lado e nem os vemos. A cor mais comum é o verde ou o castanho. Contudo, muitas espécies assumem a cor do seu habitat que as rodeia. Eles podem imitar folhas, galhos, flores e até outros insetos. Algumas espécies tropicais conseguem assemelhar-se tanto com flores que alguns polinizadores chegam a pousar neles em busca de néctar.

A sua estrutura também é fantástica. Têm pescoço longo e flexível que se dobra facilmente, permitindo que girem a cabeça 180° de um lado para o outro, dando-lhes um campo de visão de 300°. Na cabeça, têm uma armadura bucal trituradora, antenas longas e delgadas, grandes olhos capazes de focar o mesmo local ao mesmo tempo e 3 ocelos (órgãos sensoriais que detetam a intensidade e direção da luz, mas não são capazes de formar imagens) entre as antenas. Tórax longo. As patas anteriores são preênseis, com espinhos que ajudam a reter a presa. A rapidez destas é tal que podem caçar moscas em voo.

São animais solitários. As fêmeas são maiores do que os machos. Embora possuam asas, são fracos voadores (as fêmeas voam pior do que os machos). O acasalamento do louva-a-deus ocorre entre agosto e outubro. É frequente a fêmea comer o macho durante ou após a cópula, começando pela cabeça, pois os gânglios nervosos que controlam os movimentos de cópula são controlados nos abdominais que são devorados no fim.

A postura dos ovos ocorre no outono. Os ovos são depositados juntamente com uma espuma que endurece, constituindo uma ooteca (involucro) que pode conter entre 200 a 300 ovos. As larvas emergem na primavera (maio/junho) já com o inseto plenamente desenvolvido.

Utilidade do Louva-a-deus na horta
A sua utilidade na horta é reconhecida há muito tempo. É um dos insetos auxiliares mais uteis. Têm um apetite voraz e comem tudo que lhes passe pela frente, moscas, mosquitos, formigas, traças, grilos, afídios ou gafanhotos e por vezes, podem até alimentar-se de presas três vezes maiores do que eles. Também comem insetos benéficos na horta, mas a sua preferência é pelos insetos que coincidentemente causam os maiores danos às culturas da horta.

Quase sempre atacam de emboscada aproveitando as suas capacidades de camuflagem. Com muita paciência, esperam que as suas presas estejam suficientemente perto, e de seguida, num décimo de segundo, desferem um golpe certeiro com as patas anteriores que são como garras e ajudam a segurar a presa enquanto é consumida.

As crias são caçadoras vorazes logo desde o início. À medida que vão crescendo, o tamanho das suas presas vai aumentando de modo correspondente.

Contrariamente ao que alguns dizem, o louva-a-deus não é venenoso.

São uma ajuda importante no controlo de pragas na horta.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Poema da Terra Inteira

"Aprendi com as ervas que nada tem pressa.
Nasce-se porque sim,
como a luz que se desprende da manhã
sem pedir licença ao dia.
Caminho pelos campos sem querer compreendê-los.
A compreensão é um peso dos homens.
A relva sabe estar,
o rio sabe seguir,
a pedra sabe durar.
E ninguém lhes ensinou nada.
Abraço um carvalho antigo
e ouço, no silêncio da casca,
a memória de tudo o que já passou por ele:
vento, pássaros, neve, populações antigas
a marca de um raio,
o calor de muitos verões.
E percebo que não sou dono de nada,
apenas hóspede de passagem.
A Natureza não precisa de mim,
mas eu preciso dela
como quem precisa de respirar fundo
para lembrar o próprio nome.
Porque viver é simples:
respirar com a paisagem,
escutar o que cresce,
e reconhecer — num gesto sereno —
que somos apenas uma voz
no grande coro da Terra."

Reflexão ecológica: transição filosófica do Antropoceno para o Ecoceno
Toda a ética ambiental começa num reconhecimento simples: a Terra não é um cenário, é uma comunidade viva da qual fazemos parte. A verdadeira sabedoria ecológica nasce quando deixamos de olhar para o mundo apenas como recurso e passamos a vê-lo como relação.
Cada forma de vida — da mais discreta à mais imponente — participa num equilíbrio que não é aconselhável controlar, pois dele dependemos profundamente.
Não há superioridade, apenas interdependência.

Cuidar do planeta não é um gesto moral isolado; é um novo paradigma.
Não desejamos mais extinção mas sim um futuro partilhado de todas as espécies, permitindo que as futuras gerações usufruam plenamente do Ecoceno.

E talvez o maior ensinamento seja este:
proteger a Terra não é salvar algo externo a nós — é preservar a continuidade da própria vida
de que somos expressão.
Joao Soares 04.12.2025

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Superpoder das algas marinhas e novas possibilidades de armazenamento


As ervas marinhas têm um superpoder oculto. Por mais insignificante que a planta possa parecer, tem diversas propriedades positivas. Assim, contribui significativamente para a biodiversidade e oferece um habitat protegido para animais como peixes, moluscos e camarões. Com os seus caules e raízes, as ervas marinhas também consolidam a areia e os sedimentos, protegendo assim as costas contra a erosão. Além disso, as ervas marinhas absorvem CO2 do mar e armazenam o seu carbono, o que contribui para a proteção climática.
“Queremos que as ervas marinhas voltem a espalhar-se de forma permanente, sem a nossa ajuda”, afirma Maike Paul, da Universidade de Hanôver, coordenadora do projeto SeaStore. No sul do Mar Báltico, ela e a sua equipa trabalham nas bases científicas para uma renaturalização em grande escala. Em três locais, já reintroduziram as ervas marinhas e analisaram o seu crescimento para garantir o sucesso a longo prazo. Ao mesmo tempo, a equipa de investigação sensibiliza a população costeira e os turistas para a proteção destas plantas. Além disso, vários voluntários apoiam os investigadores, mergulhando também no Mar Báltico e ajudando a plantar novas ervas marinhas.

Desviar chuvas fortes e torná-las utilizáveis
Da proteção contra cheias à prevenção de secas: o projeto de investigação Smart-SWS, iniciado pela Universidade Técnica de Munique e no qual também participa a Universidade Técnica de Deggendorf, no Danúbio, aborda uma gama notável de temas. Em 2013, após dias de chuvas intensas, o rio transbordou, causando grandes danos com as massas de água. A Smart-SWS pretende evitar tais eventos e, ao mesmo tempo, melhorar o abastecimento de águas subterrâneas.
No final de 2024, uma instalação-piloto entrou em funcionamento na localidade de Hüll, na Alta Baviera: esta recolhe a água da chuva forte da superfície, trata-a e disponibiliza-a para o abastecimento de águas subterrâneas. Com o novo sistema, a água acumulada pode escoar muito mais rapidamente do que em circunstâncias normais e ser armazenada por mais tempo no local. Lea Augustin, colaboradora da Smart-SWS, explicou: “Uma grande vantagem é que o sistema pode ser usado em muitos locais e regiões da Alemanha com base nos resultados das nossas análises de adequação.” E provavelmente também mais além: recentemente, a equipa apresentou a instalação-piloto num simpósio em Stellenbosch, na África do Sul.

quarta-feira, 25 de junho de 2025

Qual pode ser o caminho?


Por Luísa Ferreira Nunes
O crescente afastamento dos seres humanos em relação à natureza não representa um avanço civilizacional, mas antes uma forma de regressão ecológica e cognitiva. Perdemos a consciência de que somos parte integrante dos sistemas naturais, e que estes incorporam mecanismos adaptativos e inteligência evolutiva desenvolvidos ao longo de milhões de anos.
Ao negligenciar esta interdependência, desenvolvemos uma ilusão de autonomia tecnológica e cultural que nos levou a subestimar os limites biofísicos do planeta. Esta ignorância ecológica tem custos elevados: colapso dos ecossistemas, erosão da biodiversidade, disfunções metabólicas colectivas (como o aumento da ansiedade, da alienação social e da perda de propósito) e uma crescente sensação de vazio existencial.
Do ponto de vista ecológico, o colapso de um sistema ocorre quando a pressão externa ou interna ultrapassa a sua capacidade de resiliência. Neste ponto crítico, a adaptação incremental deixa de ser viável, e ocorre uma falência sistémica, obrigando a uma reorganização estrutural. Este fenómeno é bem documentado na ecologia de sistemas e segue padrões identificáveis, como os observados actualmente nas sociedades humanas: conflitos armados, polarização ideológica, crises humanitárias e colapsos climáticos.
A natureza demonstra que a regeneração só é possível após a desagregação da estrutura anterior. E o novo sistema que emerge não é uma réplica do anterior, é um sistema reorganizado, frequentemente mais simples ou adaptado a novas condições. A ideia de “nunca mais” não é um juízo moral, mas uma inevitabilidade biológica: quando um sistema se torna insustentável, o retorno ao estado anterior não é possível.
A transição para formas mais sustentáveis de organização exige reconhecer este princípio e reestabelecer o vínculo cognitivo e funcional com os sistemas naturais. A verdadeira evolução cultural e ecológica começa quando compreendemos, de forma plena, de onde vimos, e para onde não podemos voltar.

sexta-feira, 6 de junho de 2025

A Nação das Plantas

Existe uma nação sem hierarquias ou fronteiras onde é proibido o uso de recursos naturais não renováveis. É a “Nação das Plantas”, cuja Constituição foi escrita pelo botânico italiano Stefano Mancuso.

Ver as coisas do ponto de vista das plantas é revolucionário. Somos quase o oposto delas. Nós consumimos energia e recursos. Elas produzem. Nosso organismo é concentrado e hierárquico. O delas é difuso, em rede. Fizemos o mundo à nossa imagem: todas as organizações são hierárquicas, há sempre uma “cabeça” no topo que toma todas as decisões. Isso é muito ineficiente. As plantas não têm nada que se compare ao nosso cérebro. Funcionam em rede, como a internet. Todas as decisões são tomadas localmente.

“A Nação das Plantas” imagina uma Constituição vegetal.
A Constituição das plantas tem oito artigos. O primeiro afirma que a nação das plantas reconhece a Terra como o lar comum de toda a vida e que todo ser vivo é soberano. A nação das plantas não reconhece nenhuma hierarquia ou fronteiras e proíbe o consumo de quaisquer recursos que não sejam renováveis para as próximas gerações.

Sobre o Autor
Stefano Mancuso nasceu em 1965, em Catanzaro, na Itália. É formado pela Università degli Studi di Firenze (UniFI). Em 2005, fundou o LINV – International Laboratory of Plant Neurobiology, um laboratório dedicado à neurobiologia vegetal, que explora a sinalização e a comunicação entre plantas em todos os seus níveis de organização biológica. Em 2012, participou do projeto Plantoid e projetou um robô para que agisse e crescesse como uma planta. Em 2014, ele abriu, na UniFI, uma start-up dedicada à biomimética vegetal, ramo que envolve artefatos tecnológicos imitando determinadas capacidades das plantas, e desenvolveu um modelo de estufa flutuante chamado “Jellyfish Barge”. É considerado um dos expoentes da neurobiologia vegetal. Publicou, entre outros, os livros, "Revolução das plantas", "A incrível viagem das plantas" e "Planta do mundo"

terça-feira, 9 de julho de 2024

A biomimética é infinita – do velcro ao edifício Gherkin

O desenho da Torre Gherkin, em Londres, foi inspirado na esponja de cristal Euplectella aspergillum . Esta esponja especial possui um exoesqueleto em forma de treliça. 

O dicionário Priberam define a biomimética (de bio, “vivo” + mimético, “capaz de imitar”) como uma “área interdisciplinar que pretende utilizar na ciência os conhecimentos da estrutura biológica dos seres vivos”, acrescentando também que “biomimético” é aquele “que imita alguma coisa da natureza ou algum processo natural”. Por outras palavras, a biomimética consiste na aplicação do conhecimento sobre o mundo natural, principalmente ao nível da engenharia ou do design, para solucionar problemas ou suprir necessidades humanas. O termo, que substituiu outros mais antigos, foi cunhado por Otto Herbert Schmitt em 1957, na sua tese de doutoramento que apresentava um aparelho cujo funcionamento era baseado no funcionamento de um nervo de lula.

Desde quando existe a biomimética?
Podemos dizer que a biomimética sempre deve ter existido, pois o homem sempre se inspirou no que via na natureza para resolver problemas práticos. No entanto, a primeira figura que é descrita como tirando inspiração directa da natureza para desenvolver objectos é a figura semi-mitológica chinesa de Lu Ban, do fim da dinastia Zhou, por volta de 500 a.c., a quem é atribuído um sem número de invenções, incluindo a daserra, cuja inspiração seria proveniente de uma planta em que Lu Ban teria cortado acidentalmente a mão na borda em serrilha, percebendo então que poderia usar aquele padrão serrilhado para construir uma ferramenta que mais facilmente lhe permitisse cortar vários materiais.

Mais tarde, durante o Renascimento, Leonardo da Vinci cita explicitamente o voo das aves como inspiração directa para as suas máquinas voadoras, que nunca chegaram a ser construídas, fonte de inspiração essa que dizem ter sido comum também aos irmãos Wright que, no início do século XX, inventaram o primeiro avião controlado por um piloto.

Em 1851, Joseph Paxton cita as folhas dos nenúfares como inspiração para o padrão de vigas de metal cruzadas que suportam a estrutura do Palácio de Cristal construído para a Grande Exibição que ocorre nesse ano.

Quais são alguns exemplos relevantes da biomimética?
Muitos objectos que utilizamos no dia-a-dia tiveram inspiração directa da natureza. Uma das mais famosas é o velcro, uma invenção registada em 1955 pelo suíço Georges de Mestral que consiste em fitas de aspereza distinta que aderem uma à outra quando em contacto. O nome do invento entretanto tornado produto provém do francês velours (veludo) e de crochet (gancho) e teve como origem uma caçada em que o cão do futuro inventor ficou coberto de “ouriços”, pequenas sementes que aderem ao pelo dos animais a fim de se espalharem com mais eficiência. Mestral teve visão e decidiu, com sucesso, imitar o que observou na natureza.

Da mesma forma, um dos edifícios mais conhecidos de Londres, o Gherkin, teve como inspiração directa a esponja Euplectella aspergillum e o seu exoesqueleto silicioso (ver imagem no topo do artigo). Curiosamente, gherkin significa pepininho e a arquitectura do edifício da torre é apodada de neo-futurista, pós-moderna ou hi-tech.

Talvez se lembre também do sucesso da equipa olímpica de natação dos EUA nos Jogos Olímpicos de 2008, que conquistou 98% das medalhas possíveis, devida em grande parte aos seus fatos desenvolvidos com o apoio da NASA: estes tinham inspiração directa na pele dos tubarões, cujas escamas especializadas criam zonas de baixa pressão que aumentam a sua velocidade na água. Este material apresenta também propriedades físicas que fazem com que seja muito difícil a fixação de bactérias na sua superfície, o que o torna apetecível para, por exemplo, uso em hospitais.

No Zimbabwe, cientistas inspiraram-se nos sistemas de refrigeração naturais das termiteiras para construir edifícios que se autoarrefecem, poupando assim grandes quantidades de energia na refrigeração e, por isso, com efeitos ambientais positivos.

Em 2015, o microbiólogo holandês Henrik Jonkers desenvolveu uma solução inspirada no corpo humano para cimento auto-reparador, recorrendo à adição à massa de bactérias produtoras de calcário, que se tornam activas quando em contacto com água.

Que futuro para a biomimética?
Embora muitas invenções sejam fruto de processos biomiméticos, podemos dizer que ainda estamos no início de uma verdadeira revolução. As aplicações de replicação de processos ou soluções naturais aos problemas humanos são infinitas, e apenas limitadas pelo nosso conhecimento da natureza. No entanto, isto também reforça a importância da preservação da biodiversidade e do seu estudo: quantas soluções para os nossos problemas estarão já presentes na natureza, e quantas já terão desaparecido da face da Terra antes que sequer soubéssemos da sua existência?

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Permaculture showed us how to farm the land more gently. Can we do the same as we farm the sea?



As wild fish and other marine species get scarcer from overfishing and demand for ‘blue foods’ grows around the world, farming of the ocean is growing rapidly. Fish, kelp, prawns, oysters and more are now widely farmed. The world now eats more farmed seafood than wild-caught.

These farms are springing up along coasts and in offshore waters worldwide. Australians will be familiar with Tasmania’s salmon industry, New South Wales’ oyster farms, and seaweed farms along the southern coastline. Aquaculture is already larger than fishing in Australia. Farming the sea is hailed as a vital source of food and biomass essential to reduce the damage we do to our oceans and help feed a growing population.

But the booming “blue economy” is no panacea. Fish farms can pollute the water. Mangroves are often felled to make way for prawn farms. The solutions of today could turn out to be problems of the future. We cannot simply shift from one form of environmental exploitation to another.

There is an alternative: permaculture. This approach has proven itself on land as a way to blend farming with healthy ecosystems. What if it could do the same on water?

Making aquaculture better
Many of today’s most pressing problems – from climate change to biodiversity loss to pollution – are linked to the way we produce food on land. To make new farmland often involves removing habitat, destroying trees and adding synthetic fertilisers and pesticides.

Since humans began farming about 12,000 years ago, we have expanded to the point where we now actively control about 70% of Earth’s ice-free land to make food, build cities, and many other uses.

On land, we are farmers, tending domesticated species. But at sea, we’ve been hunters, seeking wild populations. Now, the seas are to be farmed. We should farm in ways which do not damage these ecosystems.

We cannot afford to use the same intensive methods of farming in the oceans as we have been on land. Given how sick many of the world’s ocean systems are already from overfishing, algal blooms from nutrient overload, and habitat loss, there’s not much room for error.

What is marine permaculture?
Permaculture as we know it was developed in the 1960s by Australians Bill Mollison and David Holmgren. The latter is a co-author of the research forming the basis of this article.

The goal was simple: create ways of farming which give back to the soil and ecosystems, using tools like no-till farming, companion planting and food forests. Over the last 50 years, it has been adopted by farmers around the world.

Permaculture is framed around three ethics – care of Earth, care of people, and a fair share – aimed at producing benefits and distributing costs equitably between different people and nature.

So what would permaculture of the seas look like? While it hasn’t been fully articulated, many recent developments in ocean production and governance have strong parallels with the work permaculture practitioners have been doing for decades.

Aquaculture systems can, many now believe, not only be low-impact but work to restore lost or damaged ecosystems. Picture oyster farms slowly bringing back the natural oyster reefs which once carpeted shallow coastal waters, or prawn farms surrounded by regrowing mangroves to protect the coast from erosion.

There are strong parallels between the closed-loop approach taken by permaculture on land and an emerging sea farming approach called integrated multi-trophic aquaculture. Here, species with different ecological roles are grown together, producing more food from your farm – and strengthening natural ecosystem services.

In these systems, food waste from consumers is recycled by seaweeds and shellfish, which in turn provide food and habitat to farmed fish species. If well-designed, these benefits flow out from the farm.

Permaculture’s influence is also evident in nature-inspired design and biomimicry, using natural shapes to give nature a boost. Australian work here includes efforts to restore rocky reefs by creating structures with the nooks and crannies small sea creatures need.

From the grassroots
At present, a handful of corporations have disproportionately high levels of control over fisheries and aquaculture. In part, that’s because supertrawlers, motherships, and large blue-water fish farms are expensive.

If we instead took a marine permaculture approach to the blue economy, we would seek to return power back to the people who live and work at the water’s edge – a permaculture equivalent to artisanal fishing.

A localised approach to aquaculture has real benefit. Individuals and communities could develop their own versions of marine permaculture which work in their area, by adopting design solutions used elsewhere or just by tinkering and trialing.

If something isn’t working or it’s creating flow-on consequences, people can see what’s happening and respond quickly.

Small-scale sea farms are less likely to do damage, and should also boost resilience by investing in local social and environmental benefits.

How do we make this a reality?
For their part, governments can help by creating policy frameworks encouraging small-scale producers – especially those able to demonstrate positive social and ecological outcomes.

Governments have an essential role in creating comprehensive spatial plans to guide aquaculture in an area or region. This is important, as it removes uncertainty and avoids conflict between different uses.

Researchers can help by developing measures of success and testing new techniques to help guide the new communities which will form to farm the sea.

Over the past half-century, permaculture on land has grown into a diverse movement challenging conventional wisdom about how to produce food.

We’ll need that same intense creative energy to make marine permaculture a reality. It’s entirely possible to design food-producing seascapes which give back to the sea as well as take from it – while making it possible for smaller sea farmers to flourish.

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quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Zaha Hadid: o nome mais procurado de arquitetura no Google


O arquiteto mais procurado do mundo é uma mulher árabe: Zaha Hadid. A arquiteta iraquiana naturalizada britânica apareceu em primeiro lugar nas pesquisas do Google de 84 países, 61% dos 130 países monitorados pela Money (GB). O levantamento feito pela consultoria britânica traz uma oportunidade para falar sobre o trabalho da primeira mulher a receber o Prémio Pritzer, o “Nobel da Arquitetura”. 
A arquitetura não é mais um mundo só de homens. Essa ideia de que mulheres não podem pensar em três dimensões é ridícula”, disse Zaha em um discurso ao aceitar um prêmio de liderança feminina em 2013. A frase ganhou fama por si só ao mostrar que, mesmo no século 21, a construção ainda é um meio dominado pelos homens. Tanto que Zaha só venceu o Pritzer, a maior honraria da arquitetura internacional, em 2004. Até então, nenhuma mulher havia sido premiada.  Na época, a artista tinha 56 anos. Em 2012, ela foi nomeada dama pelos seus serviços em arquitetura. E, em 2016, um mês antes de sua morte, ela se tornou a primeira mulher a receber a medalha de ouro do Royal Institute of British Architects. 

Zaha Hadid: rainha das linhas curvas
Entre os seus trabalhos mais reconhecidos estão o Centro Aquático de Londres, para as Olimpíadas de 2012; a casa de Ópera de Guanzhou, na China; e o Centro Heydar Aliyev, em Baku, no Azerbaijão. Suas obras são marcadas por um estilo contemporâneo e pós-moderno, com muitas linhas curvas e formas surpreendentes.  Sua regra principal era: “não pode ter ângulos de 90 graus. No início, tudo era diagonal”. 

A escolha por formas pouco convencionais deu a ela o apelido de “rainha da curva”. Formada em matemática no Líbano, Zaha entrou no mundo da arquitetura quando tinha 22 anos e foi estudar na prestigiada Architectural Association School of Architecture. A arquiteta inovou na forma de criar suas obras: no lugar do desenho técnico, ela pintava quadros e papéis de seus projetos. Mesmo depois dos computadores, com seus softwares de criação técnica, ela permaneceu com este hábito.

Fortemente inspirada pela arte “geométrica” dos suprematistas russos, como Malevich, e pelas vanguardas soviéticas dos anos 1920, Zaha buscou no abstrato e no design uma visão de fora para suas construções. Apesar de não seguir uma única categoria, suas obras são vistas como parte do desconstrutivismo, movimento que reinterpretou o modernismo nos anos 1980 e 1990. Alguns, no entanto, a descrevem como neo-futurista.


“Não fazemos prédios bonitos. As pessoas pensam que o prédio mais apropriado é um retângulo, porque normalmente é a melhor maneira de usar o espaço. Mas isso quer dizer que a paisagem é um desperdício do espaço? O mundo não é um retângulo. Você não vai a um parque e diz: ‘Meu Deus, não temos cantos retos aqui”, disse Zaha em entrevista ao The Guardian, em 2012.  

Ela insistia que todos os seus prédios são inteiramente práticos, construídos em torno de diferentes padrões organizacionais. “É como dizer que todo mundo tem que escrever exatamente da mesma maneira. E simplesmente não é o caso.”

Arquitetura com função 
“Eu não acho que a arquitetura é apenas para criar abrigos, não é apenas sobre criar espaços. A arquitetura deveria ser capaz de te animar, de te acalmar, de te fazer pensar”,  afirmou Zaha para a revista Newsweek, em 2011. 

A carreira de Zaha foi marcada por desenhos e obras de prédios públicos, voltados para grandes grupos de pessoas, como bibliotecas, teatros e museus.

Durante a  sua trajetória, o seu nome também esteve envolto em polémica, por trabalhar para países como a China. Em entrevista ao The Guardian, dada em 2013, ela falou sobre o caso: “Independentemente do regime, é importante construir uma instalação cívica para a população. Se alguém me pedir para fazer uma biblioteca, eu não diria que não quero fazer isso por conta de onde está. É importante se envolver com esses países porque os conecta ao resto do mundo. Se eu disser que não vou construir em certos lugares, há muitos outros lugares que eu também não iria. Eu não estaria fazendo nada em nenhum lugar. Eu simplesmente não construiria”.

Mesmo assim, Zaha viu limites para o que faria ou não: “ mas se alguém me pedir para construir uma prisão, eu não faria. Não construiria uma prisão, independentemente de onde esteja, mesmo que fosse muito luxuosa”. A arquitetura, no final das contas, tem um propósito no mundo. 

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quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Ecocapitalismo e arquitetura: materiais e tecnologias a favor do meio ambiente


Houve um tempo em que os edifícios queriam ser montanhas, os telhados queriam ser florestas, os pilares queriam ser árvores. Enquanto o mundo começava a entrar em estado de alerta com os derretimentos das geleiras e o consequente aumento da temperatura terrestre, a arquitetura – desde uma perspectiva geral – estava preocupada em imitar a forma da natureza. Uma aproximação de “ecossistemas” feitos pelo homem vista por muitos como figurativa e decorativa, estando a serviço de imagens comercializáveis de um “desenvolvimento sustentável”.

Essas iniciativas surgiram em um momento no qual a negação total da ciência climática tornou-se insustentável como estratégia do setor privado. Com o reconhecimento das mudanças climáticas criou-se, portanto, uma oportunidade de branding como método muito mais inteligente do que negá-las ou ignorá-las completamente.

Desde então, a preocupação ambiental aplicada à arquitetura – impulsionada ou não pelo marketing – tem evoluindo significativamente, indo muito além das réplicas do ambiente natural e é nessa linha tênue que o ecocapitalismo (ou capitalismo verde) tem influenciando a forma como construímos nossos edifícios. Em linhas gerais, o ecocapitalismo encoraja a exploração dos recursos naturais com auxilio da tecnologia como forma de preservá-los também. O conceito, que se tornou popular nos anos 90 ao ser difundido pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, baseia-se em uma economia de livre mercado na qual os recursos naturais são considerados capital. Como os lucros dependem parcialmente da proteção ambiental, a natureza é tratada como uma mercadoria que precisa ser restaurada depois de explorada para o crescimento econômico, isso resulta em um ciclo contábil de verificações e contrapesos.

Seus defensores argumentam que os recursos naturais são limitados e, por isso, a economia inevitavelmente enfrentará a escassez. Nesse sentido, Heather Rogers explica que à medida que os recursos se tornam mais escassos e, portanto, mais caros, todas as empresas terão de descobrir como fazer mais com menos. O lado positivo, diz o capitalismo verde, é que usar menos recursos – energia, matérias-primas, água – é bom não apenas para o planeta, mas também para os lucros. Quanto menos uma empresa gastar em insumos e quanto mais eficiente for sua operação, maiores serão suas margens. Além do mais, aqueles que mudaram para métodos ecologicamente corretos estarão prontos para derrotar seus concorrentes menos verdes quando atingirmos a situação de calamidade.

Nesse contexto, a arquitetura pautada no ecocapitalismo tem sido materializada por meio de estratégias ambientalmente preocupadas como a utilização de matérias-primas locais aliada muitas vezes ao retorno e à valorização das técnicas vernaculares. Assim como citado neste texto, os elementos naturais têm alcançado um novo patamar no qual a conscientização da vulnerabilidade dos recursos naturais e da eminência de crises climáticas irreversíveis se tornou também um posicionamento de luxo. Dessa forma, elementos como palha, taipa e bambu estão sendo incorporados em projetos de diferentes escalas e padrões. Além dos materiais naturais e de origem local, outra forma de materialização desse termo pode ser vista nas arquiteturas que representam o conceito cradle to cradle. Nessas construções, fomenta-se um ciclo de vida circular, com a possibilidade de modificação e aplicação que também preza pelo uso dos elementos reciclados e recuperados visando, principalmente, diminuir o carbono incorporado nos materiais.

Além das duas vertentes apresentadas acima, outra questão abordada no meio arquitetônico é a biomimética, ou seja, uma atuação projetual tecnologicamente orientada que busca soluções na natureza para além de uma mera replicação das suas formas, estabelecendo-se por meio de uma compreensão mais aprofundada das normas que a regem. Um exemplo disso é o Pavilhão Elytra Filament que foi construído com fibra de carbono tecida por um braço robótico e inspirado em princípios de construção leve encontrados na natureza, precisamente, "as estruturas fibrosas das conchas das asas dos besouros voadores conhecidos como elytra".

No contexto atual existem, claro, inúmeras outras estratégias que alinham tecnologia e preocupação ambiental, indo além de uma mera imitação da natureza que fornece acesso tecnologicamente mediado ao ar fresco, luz solar e jardins. Nesse sentido, modelos fomentados pelas premissas das certificações de sustentabilidade ambiental e eficiência energética se tornaram bastante populares. São, também, bastante criticados hoje em dia, pois, já se entende que, mais do que medir índices e atingir certas taxas, é fundamental que seja considerado o processo pelo qual as edificações foram construídas e o contexto socioeconômico onde se inserem. 

Nesse sentindo, o ecocapitalismo aplicado à arquitetura tem ganhado território, visto que, cada vez mais as pessoas querem entender os processos e saber de onde os materiais vêm e como são fabricados. Além disso, esse modelo não desafia o sistema político e econômico em voga, sua natureza não é ameaçadora, o que o torna mais palatável para líderes políticos e empresariais. Ou seja, ele nos mostra que não precisamos ter uma economia de crescimento lento ou sem crescimento para salvar o planeta.

Entretanto, ainda há muitos desafios e controvérsias que precisam ser ajustadas para que esse modelo seja, de fato, efetivo. Adrienne Buller, diretora de pesquisa do think tank britânico Common Wealth, em seu livro recentemente lançado The Value of a Whale: On the Illusions of Green Capitalism, afirma que o ecocapitalismo parte da premissa de que uma mudança climática é uma “falha de mercado” e precisa ser tratada como tal, internalizando o custo das emissões ou danos ambientais no próprio mercado. Para fazer isso, é preciso chegar a um “preço” – o preço do carbono, por exemplo. O livro começa, inclusive, com uma discussão de como se colocaria um valor monetário em uma baleia para contribuir para sua conservação. Ou seja, quando se faz uma análise de custo-benefício, coisas com valor intrínseco social ou espiritual não são necessariamente levadas em consideração, o que defasa esse tipo de argumentação.

Seguindo essa linha, muitos teóricos afirmam que o ecocapitalismo é apenas uma nova roupagem do capitalismo e suas práticas estão mais próximas de um greenwashing do que de um desenvolvimento verdadeiramente sustentável, isto é, servem apenas de "fachada" para continuar explorando os recursos naturais. Até porque essa abordagem verde, apesar dos seus preceitos, ainda não propõe limite algum ao crescimento econômico e, por isso, sua impossibilidade de ser sustentável.

De qualquer forma, independente da efetividade, é importante estarmos atentos ao que se vende como arquitetura verde e aquela que realmente se preocupa com toda a cadeia de produção, incluindo também a mão-de-obra. Muita evolução ainda precisa ser vista no ramo da construção civil, mas iniciativas importantes, sejam por meio da tecnologia de ponta ou pelo retorno ao vernacular, como as citadas anteriormente, estão mostrando – ainda que timidamente – que podem existir modelos de arquitetura que coloquem as pessoas e o planeta à frente do lucro.

Fonte e imagens aqui

Tese de Mestrado: 

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Citação da Semana- Jiddu Krishnamurti

"We never look deeply into the quality of a tree; we never really touch it, feel its solidity, its rough bark, and hear the sound that is part of the tree. Not the sound of wind through the leaves, not the breeze of a morning that flutters the leaves, but its own sound, the sound of the trunk and the silent sound of the roots."



sexta-feira, 5 de março de 2021

Smart Flower - o futuro da energia solar


SmartFlower is an intelligent "sunflower" that will "bloom" to produce clean solar energy. By tracking the sun from east to west, it aims to be more efficient than regular solar panels. 

See more info on SmartFlower here: http://smartflowersolar.com/​

domingo, 8 de novembro de 2020

Dia Mundial do Urbanismo

A bandeira do Urbanismo, que representa o Sol (em amarelo), a vegetação (em verde) e o ar (em azul)

O Dia Mundial do Urbanismo, comemorado anualmente a 8 de novembro, é uma data de reflexão global sobre a importância do ordenamento do território e do planeamento urbano na construção de cidades mais sustentáveis, humanas e funcionais. A iniciativa foi criada em 1949 pelo professor Carlos María Della Paolera, da Universidade de Buenos Aires, com o intuito de mobilizar a atenção pública e profissional para o impacto das decisões urbanísticas na qualidade de vida das populações. Hoje em dia, esta efeméride é celebrada em mais de 30 países, espalhados por quatro continentes, envolvendo autarquias, universidades, ordens profissionais e organizações internacionais como a ISOCARP (International Society of City and Regional Planners).

Em Portugal, a data ganha especial relevância no debate sobre a coesão territorial, a transição energética e o acesso a habitação digna, sendo frequentemente assinalada por entidades como a Direção-Geral do Território e a Ordem dos Arquitectos através de conferências e seminários. O urbanismo contemporâneo enfrenta o desafio de redefinir as áreas urbanas à luz das alterações climáticas e das novas dinâmicas sociais, promovendo modelos como a "cidade dos 15 minutos", a expansão de infraestruturas verdes, a mobilidade suave e a redução das assimetrias socioterritoriais, alinhando-se com as diretrizes da ONU-Habitat para o desenvolvimento urbano sustentável.

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