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quinta-feira, 23 de julho de 2026

Dinheiro, gastos e benesses do Estado. Os segredos da vida financeira de Salazar


Há mitos que sobrevivem porque são confortáveis. O de D. Sebastião sobrevive porque alimenta a esperança. O de Robin dos Bosques porque consola os desfavorecidos. E o de António de Oliveira Salazar porque oferece aos seus admiradores uma espécie de superioridade moral retrospetiva: sim, foi ditador, dizem alguns, mas ao menos não roubou; sim, governou durante décadas sem eleições livres, mas morreu pobre; sim, concentrou um poder sem paralelo na história portuguesa contemporânea, mas nunca se aproveitou dele para enriquecer.

O problema dos mitos é a sua irritante tendência para se chocarem com os factos.

Um extenso trabalho de investigação do jornalista Marco Alves publicado na revista Sábado (n.º 1160, de 22 a 28 de julho de 2026) veio reunir um conjunto impressionante de informações sobre a situação patrimonial do antigo presidente do Conselho. E aquilo que emerge não é a figura de um milionário extravagante nem a de um cleptocrata à escala de outros ditadores europeus. Mas também não é a imagem do professor pobre, vestido de modéstia franciscana, que alguns continuam a apresentar.

Marco Alves já tinha, em 2023, publicado o livro Salazar Confidencial. Durante quatro décadas, António de Oliveira Salazar recebeu milhares de cartas de amigos, familiares, ministros, padres e figuras ilustres da elite do Estado Novo. Mendigavam ao presidente do Conselho favores, ajudas e cunhas para obterem um cargo, uma promoção, uma casa em Lisboa ou uma palavra de Salazar para intervir em todo o tipo de problemas, incluindo em processos judiciais e em casos de crime, violência e adultério envolvendo figuras notáveis da sociedade.

Importa recordar que essa imagem não foi construída apenas pelos admiradores que lhe sobreviveram. Foi também alimentada pelo próprio. Salazar ajudou a moldar cuidadosamente a perceção pública de uma vida austera e quase desapegada dos bens materiais. Ficou célebre a frase segundo a qual devia “à Providência a graça de ser pobre”. Décadas depois, essa frase permanece viva na memória coletiva e continua a funcionar como uma espécie de certificado moral póstumo.

A verdade, porém, como tantas vezes acontece, é mais incómoda.

Salazar cultivou durante toda a vida uma imagem de austeridade. Essa imagem tinha fundamento. Gostava pouco de ostentação, não se deixou seduzir pelo luxo exuberante e manteve hábitos relativamente sóbrios. Contudo, austeridade não é sinónimo de pobreza. Uma pessoa pode ser frugal sem ser pobre. E uma pessoa pode viver de forma simples sem deixar de acumular património.

Quando morreu, em 1970, Salazar possuía contas bancárias, propriedades rurais, terrenos, casas, objetos de prata, ouro, livros, manuscritos, coleções e diversos bens cujo valor, atualizado para os dias de hoje, atingiria montantes muito significativos. Só os depósitos bancários conhecidos correspondiam a cerca de 113 mil euros em valores atuais. A isso somavam-se casas, quintas, vinhas, olivais, pinhais e terrenos cujo valor acumulado, nos preços do mercado contemporâneo, atingiria facilmente valores de vários milhões de euros.

Nada disto faz dele um magnata. Mas também não permite continuar a repetir, sem qualificação, que "morreu pobre".

Aliás, a reportagem desmonta um dos aspetos mais curiosos da narrativa salazarista. O homem que passava a vida a falar de contenção financeira era simultaneamente proprietário de um património rural bastante respeitável. Herdou parte dele, adquiriu outra parte e valorizou alguns desses bens ao longo do tempo. Isso não constitui qualquer crime. O problema surge quando essa realidade desaparece da história e é substituída por uma imagem quase monástica.

Há ainda outro equívoco recorrente.

Os admiradores de Salazar costumam estabelecer uma comparação implícita entre o chefe do Estado Novo e alguns governantes contemporâneos. A mensagem é simples: os políticos de hoje entram pobres e saem ricos; Salazar entrou pobre e saiu pobre.

A primeira parte da frase pode ser objeto de discussão. A segunda torna-se mais difícil de sustentar.

Segundo os elementos revelados pela investigação, o antigo governante acumulou poupanças ao longo da vida, possuía património imobiliário e conservava um espólio de valor considerável. Não estamos perante alguém dependente da caridade alheia ou reduzido à indigência. Estamos perante um homem que viveu confortavelmente durante décadas e que morreu com uma situação financeira sólida.

Há ainda um dado curioso que raramente aparece nestas discussões. Atualizado para valores de hoje, o salário de Salazar como presidente do Conselho rondaria os 8.450 euros brutos mensais, valor que não difere dramaticamente daquele que aufere um primeiro-ministro contemporâneo. À primeira vista, isto parece reforçar a narrativa da modéstia. Mas só à primeira vista. É que Salazar passou cerca de 31 anos instalado no Palacete de São Bento sem suportar uma despesa que pesa fortemente no orçamento de qualquer cidadão comum: a habitação. A comparação só é justa quando se compara o pacote completo.

A questão torna-se ainda mais interessante quando se observa a fronteira entre o dinheiro privado e os recursos públicos.

Não surgem provas de enriquecimento ilícito no sentido clássico do termo. Mas aparecem numerosos exemplos de uma realidade típica dos regimes longos: a progressiva confusão entre o Estado e o governante.

Funcionários públicos trataram de assuntos privados relacionados com propriedades suas. Membros do Governo ocuparam-se de questões pessoais. Houve intervenções administrativas relativas a casas, terrenos, obras, jardins, abastecimento de água e diversos problemas da sua esfera particular. Tudo isto era frequentemente encarado com naturalidade.

E porquê?

Porque as ditaduras tendem a produzir esse efeito. Ao fim de décadas, deixa de ser evidente onde acaba o poder do Estado e onde começa a vida privada de quem governa. O aparelho público passa gradualmente a funcionar como extensão do governante.

Nem sequer é necessário existir corrupção para que essa promiscuidade aconteça.

O mesmo se verifica nos últimos anos da sua vida. Após a queda da cadeira que o afastou do poder, o Estado suportou despesas significativas relacionadas com os seus cuidados médicos e com a sua situação pessoal. Segundo os elementos reunidos pela investigação, os encargos associados ao tratamento prolongado de Salazar ascenderiam, a valores atuais, a cerca de 1,9 milhões de euros. Além disso, foi-lhe atribuído um vencimento vitalício após deixar o exercício efetivo das funções governativas.

terça-feira, 30 de junho de 2026

Greenpeace alerta para falhas na prevenção dos incêndios em Portugal

Segundo o estudo, os grandes incêndios são um problema estrutural e não uma fatalidade associada apenas ao Verão. A investigação conclui que o risco começa a construir-se muito antes da época crítica, impulsionado pela pressão das alterações climáticas, pela acumulação de combustível vegetal, pela gestão insuficiente da paisagem, pelo abandono rural, pela expansão da interface urbano-florestal e pela falta de integração do risco de incêndio no ordenamento do território.

A Greenpeace Portugal apresentou hoje  o relatório “Incêndios florestais em Portugal: mais de 80 anos mostram que o país tem de mudar”, um estudo inédito que analisa a evolução dos incêndios florestais em Portugal desde 1943 e conclui que o país continua demasiado dependente das condições meteorológicas e da resposta à emergência, falhando na prevenção estrutural do risco.

O relatório foi desenvolvido pelo Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais (CEIF), da ADAI/Universidade de Coimbra, sob coordenação científica do professor Domingos Xavier Viegas, e reúne mais de oito décadas de dados sobre incêndios em território nacional.

Segundo o estudo, os grandes incêndios são um problema estrutural e não uma fatalidade associada apenas ao Verão. A investigação conclui que o risco começa a construir-se muito antes da época crítica, impulsionado pela pressão das alterações climáticas, pela acumulação de combustível vegetal, pela gestão insuficiente da paisagem, pelo abandono rural, pela expansão da interface urbano-florestal e pela falta de integração do risco de incêndio no ordenamento do território.

Apesar da redução significativa do número de ignições nas últimas duas décadas, o relatório alerta que Portugal continua altamente vulnerável quando se conjugam fenómenos de calor extremo, seca e vento forte com uma paisagem pouco gerida.

Entre os anos analisados, 2003, 2005, 2017 e 2025 destacam-se pela dimensão da área ardida e pelo número de vítimas mortais, evidenciando um padrão de risco que, segundo os autores, permanece sem resposta estrutural. O estudo refere ainda que a maioria das ignições continua a ter origem humana, reforçando a necessidade de investir na investigação das causas, na sensibilização da população e em medidas preventivas.

Para o professor Domingos Xavier Viegas, a evolução dos incêndios resulta da conjugação de vários fatores, entre eles a crescente florestação do território, a redução da atividade agrícola, o despovoamento do interior e o agravamento das alterações climáticas.

“O conhecimento científico que hoje temos não nos permite continuar a fazer mais do mesmo”, afirma o coordenador do relatório, defendendo uma transformação profunda da gestão florestal e da paisagem. O investigador sublinha que, embora a capacidade de deteção e combate aos incêndios tenha melhorado significativamente nas últimas décadas, essa evolução não tem sido suficiente para evitar grandes incêndios em anos de condições meteorológicas extremas.

O diretor do CEIF destaca ainda que 2025 voltou a demonstrar a vulnerabilidade do país, com uma época marcada por temperaturas elevadas, seca meteorológica em grande parte do território e um aumento expressivo da área ardida durante o mês de agosto.

Para a Greenpeace Portugal, o relatório pretende contribuir para que o debate sobre os incêndios deixe de depender apenas da memória de cada verão e passe a assentar numa base científica sólida. O diretor da organização, Toni Melajoki Roseiro, considera que o documento deve servir como instrumento de escrutínio das políticas públicas e apoiar decisões sobre prioridades orçamentais e estratégias de prevenção.

Já Ana Farias Fonseca, coordenadora de Campanhas e Mobilização da Greenpeace Portugal, alerta que o país precisa de atuar sobre as causas estruturais dos incêndios, defendendo que a prevenção deve decorrer durante todo o ano. “Sem prevenção estrutural, o combate chegará sempre tarde demais”, afirma.

Na sequência das conclusões do estudo, a Greenpeace apresenta um conjunto de exigências dirigidas ao poder político, entre as quais uma ação climática mais ambiciosa, uma gestão estratégica da paisagem, maior envolvimento do setor privado, reforço da prevenção social das ignições, maior transparência na aplicação dos recursos públicos, revitalização económica do mundo rural e a criação de um pacto ibérico para aumentar a resiliência aos incêndios florestais.

Segundo a organização ambiental, o conhecimento acumulado ao longo de mais de 80 anos demonstra que Portugal dispõe hoje da informação necessária para alterar o paradigma da prevenção e reduzir o impacto dos grandes incêndios nas populações, na economia e nos ecossistemas.

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segunda-feira, 29 de junho de 2026

Europa: milhões com quartos a mais agravam crise da habitação


A Europa enfrenta ao mesmo tempo um problema de espaços vazios e uma grave crise da habitação.

Apesar da falta de habitação a preços acessíveis em todo o bloco, uma em cada três pessoas na UE vive em casas com quartos a mais, segundo o Eurostat. Os números evidenciam o desfasamento entre a oferta de alojamento e as necessidades dos agregados familiares, bem como diferenças marcadas nos padrões de habitação na Europa.

Subocupação designa habitações maiores do que aquilo de que os moradores necessitam, geralmente por terem mais quartos do que o necessário. É o oposto de sobrelotação e está muitas vezes associada a pessoas mais velhas que continuam a viver na casa de família depois de os filhos saírem de casa.

Embora as condições habitacionais inadequadas continuem a ser um desafio em quase todos os países da UE, a dimensão da crise e as suas causas profundas variam de forma significativa, de acordo com o Conselho Europeu.

Quais são, então, os países com taxas mais elevadas de subocupação? 
No conjunto da UE, 33,4 % das pessoas vivem em habitações subocupadas, mas a percentagem varia entre 8,1 % na Roménia e 69,4 % em Chipre.

Europa de Leste regista as taxas mais baixas de subocupação
A subocupação é, em geral, muito menos comum na Europa de Leste e do Sudeste do que no resto do continente.

Após a Roménia (8,1 %), a proporção de pessoas que vivem em casas subocupadas mantém-se abaixo dos 15 % na Sérvia (8,2 %), Turquia (10,3 %), Letónia (10,5 %), Grécia (12,5 %) e Croácia (14,7 %).

A percentagem de pessoas que vivem em casas subocupadas é também relativamente baixa na Bulgária (15,8 %), Eslováquia (15,9 %), Macedónia do Norte (17 %), Polónia (17,9 %), Lituânia (18 %) e Itália (18,2 %).

Em conjunto, estes países formam o grupo com valores mais baixos na Europa, seguido da Estónia, Chéquia e Hungria, onde as taxas rondam os 27 %.

Onde a subocupação é mais frequente
Chipre regista a taxa de subocupação mais elevada da Europa, com 69,4 %, seguido da Irlanda (66 %) e de Malta (63,2 %). Importa notar que os três são países insulares.

A proporção de pessoas que vivem em casas com quartos a mais também supera 50 % nos Países Baixos (58,5 %), Bélgica (57 %), Espanha (54,3 %), Luxemburgo (52,2 %) e Noruega (51 %).

Entre os países nórdicos, a Finlândia (46,6 %) e a Dinamarca (42,4 %) situam-se igualmente muito acima da média da UE.

O quadro diverge claramente entre as quatro maiores economias da UE.
A Espanha tem uma das taxas de subocupação mais elevadas, de 54,3 %, contra apenas 18,2 % em Itália. A França situa-se nos 40,4 %, enquanto a Alemanha está praticamente em linha com a média da UE, com 33,3 %.

Sul da Europa mostra duas realidades habitacionais distintas
Embora a taxa seja bastante mais baixa em grande parte do sudeste e do leste da Europa, o próprio sul da Europa está dividido. Chipre, Malta e Espanha apresentam valores elevados, enquanto Itália, Grécia, Turquia e grande parte dos Balcãs registam taxas reduzidas. Isto sugere que a tendência não se explica por uma simples clivagem norte-sul.

Podem as políticas públicas reduzir a subocupação?
A Federação Europeia de Organizações Nacionais que Trabalham com Sem-abrigo (FEANTSA) sublinha que a questão essencial é saber se o parque habitacional, e em especial a nova oferta, responde à crescente procura de casas mais pequenas.

"Essas casas mais pequenas existem de facto e são acessíveis?", disse um porta-voz da FEANTSA à Euronews Business.

Ao referir-se à "bedroom tax", introduzida no Reino Unido em 2013, a organização afirmou que a medida foi ineficaz, porque muitas vezes não existiam casas com a dimensão adequada, o que levou a perdas de rendimento para agregados que pouco mais podiam fazer senão ficar onde estavam.

A organização defendeu que recuperar habitações devolutas para arrendamento acessível e habitação social poderá ser mais eficaz do que focar a subocupação.

"Penalizar a subocupação sem abordar as causas mais estruturais que conduzem à habitação inacessível, como o subinvestimento em verdadeira habitação social e a financeirização e especulação imobiliária, representa um erro de diagnóstico", afirmou o porta-voz.

O efeito da propriedade da habitação
Segundo o Eurostat, a proporção de pessoas que vivem em habitações subocupadas é de 14,2 % entre inquilinos, contra 40,5 % entre proprietários.

O professor Sebastian Kohl, da Universidade Livre de Berlim, afirmou que as diferenças entre países são fortemente condicionadas pelos enquadramentos institucionais, sobretudo pelas taxas de propriedade de habitação e pela composição demográfica.

"Estruturas institucionais como o regime de ocupação têm um papel decisivo. Nos nossos modelos, a propriedade da habitação é o fator isolado que melhor prevê a subocupação objetiva", disse à Euronews Business.

Quem tem maior probabilidade de viver numa casa subocupada?
Um estudo de Jonas Lage e colegas concluiu  que o tipo de agregado familiar está intimamente ligado à subocupação.

A maioria dos quartos subocupados encontra-se em agregados de uma ou duas pessoas. As taxas são também, em geral, mais elevadas nos agregados sem crianças.

Na UE, 41 % das habitações subocupadas situam-se em cidades, com cerca de 30 % em zonas rurais e outros 30 % em vilas e pequenas cidades.

Na maioria dos países, e em média na UE, os agregados com rendimentos mais elevados têm maior probabilidade de viver em casas subocupadas e representam uma fatia maior dos quartos subocupados.

O que conta como divisão depende do país
Kohl destaca também a dificuldade de harmonizar as medições, decorrente das diferentes definições nacionais do que é uma divisão.

Sublinha que Espanha, Irlanda e Finlândia contam explicitamente as cozinhas como divisões nos respetivos inquéritos.

Chama ainda a atenção para o forte desfasamento entre os indicadores objetivos e a perceção subjetiva das pessoas. Os investigadores verificaram que apenas duas em cada cinco pessoas consideravam a sua casa demasiado grande, embora fosse classificada como subocupada segundo os critérios oficiais.

terça-feira, 23 de junho de 2026

Domingos Xavier Viegas: "Ainda vemos muitas pessoas a enfrentar o fogo de calções e chinelos"

Licenciou-se em engenharia mecânica com especialidade na engenharia do vento, mas foi o fogo que chamou a sua atenção. Aos 76 anos, o diretor do Centro de Estudos de Incêndios Florestais, da Universidade de Coimbra, dedica-se a investigar a forma como o fogo se comporta em vários tipos de território e de condições climáticas numa tentativa de prevenir grandes incêndios e proteger as populações

Estudam há anos a resiliência dos solos quanto à humidade?
Começámos em 1986 a recolher amostras de combustíveis finos - plantas que podem arder como as folhas secas do pinheiro e do eucalipto -, que são recolhidas próximo do aeródromo. No verão, todos os dias é feita uma colheita a meio do dia, a hora de maior calor, e durante o resto do ano, uma vez a duas por semana. A humidade das folhas secas vai variando e sabemos que se quando a humidade é baixa pode representar condições de perigo elevado de incêndio. Trabalhamos com o Instituto Portugês do Mar e da Atmosfera e podemos prever antecipadamente qual vai ser a humidade combustível nos próximos dias em face das condições meteorológicas e difundimos esses dados às autoridades, para estarem informados.

Que descobertas realizaram no laboratório?
Fomos os primeiros no mundo a estudar o comportamento do fogo em estruturas com a forma de desfiladeiros. Percebemos que mesmo que seja um pequeno foco de incêndio, se começar num desfiladeiro, ele cria o seu próprio vento e este faz acelerar a velocidade de propagação. Foi o que aconteceu em Armamar. Aquilo que as pessoas muitas vezes diziam ter-se tratado de uma mudança do vento, conseguimos mostrar que não é nada disso, é o próprio fogo que cria o vento e faz alterar o seu comportamento.

É esse o fogo a que se chama de sexta geração?
Não. O fogo de sexta geração refere-se a intensidade de propagação do fogo, ou seja, quando o fogo tem uma intensidade de propagação que é superior a 60 megawatt (MW). Mas um fogo de primeira geração, que gera uma intensidade de propagação superior a 10 MW, que corresponde a chamas superiores a 10, 15 metros de altura, liberta uma potência calorífica que já não se consegue combater. Já é considerado extremo. Quando o fogo tem uma propagação de 20, 30, 40, até 60 megawatts, são chamados de 2ª, 3ª, 4ª, 5ª, até 6ª geração. Só nos últimos anos é que se tem vindo a observar incêndios com estas intensidades de propagação.

O incêndio de Pedrógão Grande, em 2017, foi de sexta geração?
Correto, foi um dos incêndios mais intensos que nós tivemos. De acordo com os nossos dados, ainda é um incêndio que teve a maior velocidade de propagação que temos registo. Estamos a falar é da convecção que é criada pelo incêndio e faz essa aceleração. Isso pode acontecer até num pequeno incêndio, como o de Armamar, em que a extensão de área ardida não foi grande, mas que levou à morte de 14 bombeiros.

O que aconteceu em Pedrógão Grande para atingir aquelas proporções?
Dois focos de incêndio encontraram-se e interagiram. Esse é outro dos nossos contributos. Verificámos, ao estudar casos reais na natureza e depois em laboratório, que quando dois incêndios que estão perto um do outro e se juntam geram velocidades de propagação muito grandes, das mais altas que se têm registado. Foi o que aconteceu em Pedrógão Grande. Houve dois focos de incêndio que começaram debaixo de uma linha elétrica, em dois pontos diferentes, mas que, a certa altura, com a proximidade da tempestade, eles ficaram deitados no terreno e a propagar-se, mais ou menos, paralelamente na mesma direção. E ao interagirem, deram origem a esse incêndio de grandes proporções, que atingiu uma velocidade de 14 km por hora, é das velocidades mais altas registadas em Portugal.

Quando é que o combate ao fogo se torna impossível?
Quando a intensidade de propagação ultrapassa 10 MW por metro torna-se impossível de combater de forma diretamente, mesmo com aviões pesados, não se consegue suprimir uma frente de chamas que está a propagar-se com uma altura de chamas de mais de 10 metros.

A quantidade de árvores caídas provocadas pela tempestade Kristin aumenta o risco de um incêndio destas proporções?
Existem dois fatores: um é a quantidade de combustível e o outro é a velocidade de propagação. Se tivermos maior quantidade de combustível, maior é a intensidade de propagação, maior é a energia libertada. Na zona de Leiria, onde foram derrubadas muitas árvores e em que a carga de combustível duplicou em algumas zonas do terreno, podemos ter grandes intensidades de propagação mesmo que o fogo se propague a baixa velocidade.

O que é que influencia a velocidade de propagação?
Em primeiro lugar é o teor da humidade do combustível no terreno, depois são as condições de topografia e as condições do vento. Se tivermos um declive maior, a velocidade de propagação é maior, se tivermos um vento mais forte, a velocidade da propagação é mais elevada. Mas quando existe muita carga combustível, como em Leiria, não é preciso haver tanto vento, nem declive para termos uma velocidade e uma intensidade de propagação que pode dar origem a incêndios que não são combatíveis.

O eucalipto permanece o vilão dos fogos?
Nós temos três espécies dominantes: o sobreiro, o eucalipto e o pinheiro. Realmente, se só tivéssemos o sobreiro e floresta como existe, por exemplo, no Alentejo, em que as árvores estão espaçadas e há pouco combustível no solo, muito provavelmente não teríamos grandes incêndios. O problema é que nós temos na grande parte do país, todo o centro e norte, dominado pelo pinheiro e eucalipto e com um clima cada vez mais agravado. São áreas que não estão geridas, ou seja, onde não há capacidade para retirar a biomassa que existe. E, muitas vezes, são áreas com grande densidade de pinhal e eucaliptal: em vez de terem poucos pés por hectare e espaçados uns dos outros, são como que florestas de árvores muito finas, muito densas e que se o fogo entra nelas é difícil dar-lhe combate. porque não há condições de defesa. Nesse sentido, estas duas espécies são realmente perigosas.

Mas o eucalipto causa maior risco?
O eucalipto traz condições agravantes porque a mesma quantidade de folhas liberta muito mais calor do que as do pinheiro. Por outro lado, também liberta focos secundários, sobretudo pedaços de casca que podem ser transportados pelo vento a arder a distâncias grandes. Em Portugal, temos registo de focos secundários a distâncias de 10 quilómetros ou mais.

E é mais usado?
Sim. Aponta-se como vilão porque é uma espécie de investimento rápido. Num período de 10, 15 anos, as árvores estão crescidas e é possível ter algum retorno do investimento feito. O pinheiro precisa de mais tempo, 20 a 30 anos, e por isso, o risco de arder é maior. Nesse sentido, o eucalipto tem-se difundido muito e infelizmente em terrenos que não são apropriados e não são geridos. Por exemplo, as empresas de celulose gerem algumas plantações de eucalipto e, de modo geral, são bem cuidadas e não são tão afetadas pelo fogo.

O abandono do interior do país é um dos fatores para o aumento dos incêndios?
Não é apenas o abandono, porque há muitos proprietários que têm os seus terrenos e que são bem geridos. Mas quando essas propriedades são muito pequenas - a nossa propriedade está muito dividida, devido às heranças - torna-se muito difícil tirar qualquer rendimento dessas propriedades e caem no abandono, ficam cobertas de mato e, nas condições climáticas que estamos a ter, vão sendo cada vez mais sujeitas aos incêndios.

O Estado deveria intervir aí com sapadores florestais?
É muito difícil gerir toda a floresta, mas algumas partes do território deveriam ser geridas no sentido de reduzir a biomassa. E isso pode ser feito de diferentes maneiras, quer por meios manuais, mecânicos, quer pelo uso de fogo, quer pelo uso de pastoreio. Pelo menos, aquelas faixas de descontinuidade dos combustíveis, que existem nos altos das serras, que criam intervalos e permitem ajudar a parar o fogo.

Como?
Quando o fogo tem uma intensidade de propagação muito alta e não se pode atacar diretamente, pode-se fazer um contra-fogo que vai ao encontro da frente principal e parar um incêndio dessa maneira. Mas, para tal, precisamos ter essas faixas de descontinuidade na paisagem e na vegetação.

Na Catalunha, Espanha, está a investir-se em vinha para travar o fogo. É uma solução viável?
É a paisagem em mosaicos de que se fala muito hoje em dia. Uma paisagem feita de cobertos florestais diferentes, que não seja só a mesma espécie e que não tenha toda a mesma idade. A ideia é criar zonas agrícolas sem continuidade porque havendo essa continuidade o fogo propaga-se de um modo mais violento.

Isso implica um regresso ao interior.
Haver empreendimentos agroflorestais, onde se fomente a agricultura com a floresta e com a pecuária ajudava a gerir a biomassa e trazia mais pessoas para o interior que ajudam a vigiar e a intervir em casos de incêndio. Nos anos 40 do século passado, quando havia mais gente a viver no campo, as pessoas acorriam prontamente quando ocorria uma ignição e havia poucas dezenas de incêndios e algumas centenas de hectares ardidos.

Faltam bombeiros e recursos para combater estes grandes incêndios?
Quando há grandes incêndios, todos os recursos são poucos. O nosso país tem uma estrutura de prevenção e combate muito razoável. E mesmo em relação ao número de bombeiros, penso que estamos bem em comparação com outros países. Mas mais importante que o número é a preparação e a formação dos bombeiros: temos de dar uma formação ainda melhor aos bombeiros. Agora, quando temos grandes incêndios, muito alargados pelo país, na verdade, todas as pessoas são poucas e até os próprios cidadãos podem ajudar.

Os habitantes devem ajudar no combate?
No ano passado, em agosto, tivemos uma boa parte do centro do país a arder. Não tivemos muita destruição de casas e tivemos, relativamente, poucas vítimas mortais face à intensidade de propagação dos incêndios. Uma das razões é porque havia muita gente presente no território por ser agosto. Havia pessoas que tinham ido visitar as aldeias, os imigrantes que vieram de estrangeiro e, ao estarem lá, contribuíram no combate.

É importante dar formação de combate à população?
Sem dúvida. Existe o mito que o interior é povoado apenas por pessoas de idade, já sem capacidade, mas não é bem assim. Parte da população está envelhecida, mas também há muitas pessoas válidas que conhecem o fogo, sabem lidar com os incêndios, mas não têm os meios para o fazer. Desde logo, por exemplo, não têm roupa adequada e vemos pessoas a enfrentá-lo de calções, t-shirts e chinelos. E recorrem a baldes e alguidares quando deveriam ter realmente recursos necessários para proteger as suas casas e as suas aldeias. E, se possível, dar apoio aos bombeiros no combate, porque isso já foi uma realidade.

Quando?
No incêndio de Águeda de 1986, fez 40 anos no dia 14 de junho. O incêndio começou na Serra do Caramulo e os bombeiros demoraram mais de uma hora a chegar ao local do início do fogo. As pessoas que viviam nas aldeias da serra deram-se conta de que se tivessem meios poderiam ter até atacado o fogo e evitar a morte de 16 pessoas [13 bombeiros e três civis]. Mais tarde essas pessoas criaram unidades locais de proteção civil: através de subscrições e ofertas, adquiriram veículos de combate iguais aos dos bombeiros e tiveram treino fornecido pelos bombeiros. No verão estavam preparados e se havia incêndios naquela zona eles em 5 ou 10 minutos estavam em cima do incêndio.

Ainda existem hoje?
Sim, estas unidades locais foram replicadas em vários outros pontos do país e devem existir cerca de uma centena em todo o país. É o que se faz também noutros países do mundo.

O centro de estudos colaborou na construção de abrigos coletivos. O que são?
Os abrigos resultam do estudo e da análise de vários incêndios em que as pessoas se encontraram ameaçadas por um incêndio sem possibilidade de se retirarem em segurança. Podem ser refúgios em espaços abertos, como um campo de futebol ou uma piscina. Ou abrigos, espaços fechados que tenham resistência ao fogo, em geral são as igrejas, ou então, construções feitas para esse fim. Colaborámos em alguns desses projetos. Um deles na aldeia de Ferrarias de São João, em Penela.

Quais são as características do abrigo?
É uma área de betão completamente coberta, fechada, com espaços no interior onde as pessoas possam permanecer durante horas, preservadas de fumos e de gases quentes, até mesmo pessoas com necessidades respiratórias. Em outros casos, estamos a aproveitar construções que já existam e que são adaptadas, por exemplo, um salão de festas ou uma cave. O que é desaconselhado em absoluto é que as pessoas fujam à última hora, que se metam nos carros para o meio do incêndio, é assim que têm acontecido as maiores tragédias.

O que aprendemos com Pedrógão Grande?
Pelo menos nos primeiros anos, notámos uma sensibilidade grande relativamente à limpeza da vegetação em torno das casas. Também as autoridades têm sido mais atentas, a fiscalizar essa medida legal, que já havia de antes, só que não era respeitada. A diferença é que antes de Pedrógão, a maior parte das vítimas eram bombeiros, depois a maioria das vítimas foi entre cidadãos comuns. Qualquer pessoa em quase qualquer ponto do território pode ser atingida por um incêndio.

A inteligência artificial é usada no combate aos incêndios?
É usada num projeto nacional que se chama Gémeo Digital da Floresta em que estamos a criar um sistema informático que utiliza bases de dados sobre a floresta, desde o coberto vegetal, o terreno, a história dos incêndios passados, áreas ardidas e meteorologia. Quando lidamos com um número muito grande de bases de dados, a inteligência artificial identifica a relação entre parâmetros e facilita a tomada da melhor decisão na prevenção e no combate.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Documentário - If a Tree Falls: A Story of the Earth Liberation Front (2011)


If a Tree Falls
O caso de Daniel McGowan e a subsequente desarticulação da Earth Liberation Front (ELF) através da "Operation Backfire" do FBI alteraram profundamente o panorama do ativismo ambiental nos Estados Unidos, inaugurando um período que a comunidade ativista apelidou de "Green Scare" (O Susto Verde). Até ao início dos anos 2000, o movimento de ação direta operava sob a premissa de que a destruição de maquinaria ou o incêndio de edifícios vazios constituíam sabotagem económica legítima, e não terrorismo, desde que a integridade física de seres humanos fosse rigorosamente salvaguardada. Contudo, a resposta judicial ao caso de McGowan demonstrou que o Estado norte-americano, fortemente influenciado pelo clima político pós-11 de Setembro, deixara de tolerar essa distinção. Ao aplicar agravantes por terrorismo a crimes exclusivamente materiais, as autoridades elevaram o custo da militância clandestina a um nível insustentável, o que neutralizou quase por completo as táticas de sabotagem em larga escala devido ao medo generalizado de penas de prisão perpétua.

Em 2006, McGowan declarou-se culpado de conspiração e incêndio posto em duas instalações no Oregon (uma empresa madeireira e uma exploração agrícola de árvores híbridas).

Em 2007, ele foi condenado a 7 anos (84 meses) de prisão numa prisão federal.O juiz aplicou uma "reclassificação por terrorismo" (terrorism enhancement), o que significou que, embora a pena tenha sido de 7 anos, ele a cumpriu em unidades de gestão de comunicação ultra-restritas (CMUs), destinadas a reclusos de alta segurança.

Ele foi libertado para uma casa de transição em 2012 e concluiu a sua liberdade condicional mais tarde.

Além de paralisar as ações na floresta, a estratégia de acusação do governo gerou uma crise de desconfiança sem precedentes no seio do movimento. Como a ELF se organizava em células autónomas e anónimas, a sobrevivência do grupo dependia da solidariedade mútua; no entanto, a pressão de enfrentar décadas na prisão levou vários ativistas históricos a cooperarem com o FBI e a testemunharem contra os seus próprios companheiros. Esta onda de delações destruiu o tecido de confiança da comunidade e fragmentou o movimento. Paralelamente, o lóbi corporativo e o governo aproveitaram o estigma do "ecoterrorismo" para aprovar legislação penal mais severa, como o Animal Enterprise Terrorism Act, o que acabou por gerar um efeito dissuasor mesmo no ativismo pacífico e legal, uma vez que a fronteira entre o protesto legítimo e a ameaça à segurança nacional se tornou perigosamente ambígua.

Como consequência direta deste sufoco legal e policial, o ativismo ambiental norte-americano foi obrigado a reinventar-se e a abandonar o modelo de guerrilha clandestina. Nas décadas seguintes, o foco mudou drasticamente para a desobediência civil em massa e assumida publicamente - como se viu anos mais tarde nos grandes protestos de Standing Rock contra os oleodutos -, onde os ativistas procuravam deliberadamente a detenção em frente às câmaras para expor a sua causa à opinião pública. O movimento profissionalizou-se, canalizando os seus esforços para batalhas jurídicas nos tribunais, campanhas de pressão financeira e desinvestimento em combustíveis fósseis, além de migrar parcialmente para o ciberativismo. O desfecho do caso de Daniel McGowan simbolizou, assim, o fim de uma era de romantismo ingénuo na ação direta, provando que o sistema judicial estava preparado para aplicar todo o arsenal antiterrorista aos seus cidadãos sempre que a propriedade privada fosse ameaçada, independentemente da nobreza das suas intenções ecológicas.

Uma excelente análise do processo pela Democracy Now (parte 1 e parte 2)