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sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

A era das relações tóxicas


“Todos estamos em perigo”, disse Pasolini em sua última entrevista, poucas horas antes de ser assassinado. Esta frase me vem à mente ao ler o último livro da psicanalista Clotilde Leguil, A Era do Tóxico – Ensaio sobre o novo mal-estar na civilização [sem tradução para no Brasil]. Todos estamos em perigo não apenas pela ameaça externa de poderes destrutivos para a vida, mas também pela possibilidade de que o veneno da destrutividade atue e se espalhe a partir do nosso próprio interior. Nós somos parte do perigo.

É isso que Leguil se propõe a pensar, escutando o que diz uma palavra-sintoma que circula hoje por toda parte: o “tóxico”. Com o auxílio da literatura, do cinema e da psicanálise, Leguil interpreta o tóxico como um novo imperativo de gozo, a compulsão por uma satisfação bruta e imediata, uma voracidade que não pode ser saciada de forma alguma. O mal do ilimitado. O regime do hiper (hiperatividade, hiperestimulação, hipersexualização).

O filósofo Félix Guattari propôs, há vinte e cinco anos, pensar interligados três “ecossistemas”: o íntimo, o relacional e o planetário. O ensaio de Leguil reflete sobre o “veneno” que hoje ameaça desertificar os três, esgotando o corpo individual, social e terrestre. E propõe uma ética do desejo, da responsabilidade perante o nosso desejo, como resistência e limite.

O mal-estar do ilimitado
Apesar de Heidegger, que afirmava que a fala corrente é uma fala “inautêntica”, repleta de clichês, a senhora decide escutar o mal-estar na linguagem ordinária e fixa-se numa palavra de uso corrente hoje: o tóxico. Um exercício de escuta analítico, poderíamos dizer, de um sintoma de época. Quais possibilidades e riscos tem este exercício de escuta? A senhora teme ter contribuído para legitimar uma palavra que provém do âmbito da autoajuda, do coaching, da educação sentimental das redes sociais?
Interessei-me por este significante do “tóxico” a partir do seu novo uso, que me fez levantar questões. Apostei em levar a sério esta extensão do termo, própria da nossa época. Hoje em dia, o tóxico já não designa apenas as substâncias em si, mas uma modalidade de relação com o outro, que se assemelharia a um veneno. Partindo desta constatação, tentei interpretar esta nova metáfora do nosso mal-estar, uma nova metáfora que capturei primeiro através da linguagem, do discurso concreto, da forma como os sujeitos falam do seu mal-estar. Não se trata apenas de usar esta palavra para legitimá-la, mas de interpretá-la e tentar ver o que ela abrange, de que é sintoma.

O tóxico, diz a senhora, fala-nos de um novo mal-estar, do mal-estar específico da nossa época. Já não estamos na época em que o mal-estar tinha a ver com a proibição e a lei, com um esmagamento do desejo através da repressão, mas houve uma mudança. Do que se trata?
Efetivamente, interpretei esta influência do tóxico nas relações humanas a partir da psicanálise. Na minha opinião, ela testemunha uma nova figura do Supereu, aquela que Lacan definiu em seu escrito Kant com Sade em 1963. Estaríamos nos encontrando perante uma inversão do Supereu da proibição, do Supereu freudiano. E esta inversão revelaria também a verdadeira função do Supereu, que é sempre da ordem da forçatura, do forçamento. Este novo Supereu é aquele que força a gozar cada vez mais. Produz o que Lacan chamou a busca de um plus de gozo, que se impõe a cada um. O termo “tóxico” poderia dar testemunho dos efeitos deste “excesso” de gozo, não no sentido de “excesso” de prazer, mas no sentido de “excesso” de forçamento do prazer, de exigências pulsionais que aniquilam o desejo.

O tóxico, no uso corrente do termo, faz-nos pensar sempre que é um problema do outro. O outro é a pessoa tóxica da qual convém afastar-se, o tóxico vem de fora, etc. No entanto, a senhora complexifica o termo para nos dar a entender que o tóxico está em nós mesmos. O “fora”, o que vem de fora, articula-se ou ativa algo “dentro”, no nosso próprio interior. Como é essa dialética dentro-fora?
Sim, a experiência tóxica, tal como a interpreto, é da ordem de uma nova dialética entre o exterior e o interior. Algo do outro vem tocar o nosso corpo, como uma flecha envenenada que nos fere, mas, antes disso, também nos embriaga. É o lado anfibológico do tóxico: por um lado, a experiência tóxica faz experimentar uma forma de prazer estranho e novo; por outro lado, conduz a derivar para um gozo mau e destrutivo.

A marca do excesso no nosso interior, diz a senhora, é a “pulsão”. O mandato de época impele à satisfação pulsional total. Mas, o que é a pulsão? É biológica, é cultural? É ontológica, é histórica? Um cruzamento de ambas?
A pulsão, tal como a define Freud, é uma força libidinal que se situa entre o somático e o psíquico. Direi com Lacan que a pulsão é também o que responde no corpo a uma angústia perante o desejo do outro. É a forma como o vínculo com o outro pode suscitar uma espécie de exigência pulsional, à qual o sujeito não consegue dizer “não”. A dimensão da hýbris, do excesso, poderia ser a que evoca o termo “tóxico”. Há algo que é “demasiado” e que provoca angústia.

No gozo, no tóxico, o outro, o diferente, desaparecem. Desaparece o vínculo, desaparece o tempo como duração, desaparece o mundo compartilhado. Evaporam-se como simples instrumentos ou ocasiões de gozo. Isso tem efeitos terríveis sobre o que Félix Guattari chamava de “as três ecologias”: o ecossistema pessoal, o ecossistema social e o ecossistema terrestre. Em todos os três casos, um tipo de forçamento ameaça chegar até o colapso e o esgotamento (da energia, da atenção, dos vínculos).
Sim, no meu ensaio interessei-me por estes três campos: o campo íntimo, o campo ecológico e o campo político. Porque o interesse deste termo “tóxico” é que se situa na encruzilhada dos três. Em cada um deles, o que se denomina “tóxico” é o que põe em perigo a vida, o que obriga os seres vivos a suportar uma estimulação que vai além do suportável.

O tóxico articula-se com a linguagem. Há uma palavra que envenena. Como entender isto?
Situo a experiência tóxica no nível de uma modalidade do discurso que exige uma forma de forçamento pulsional que coloca o sujeito em perigo: uma frase tóxica seria uma frase que envenena o sujeito, injetando em seu corpo uma forma de crença, mas também transgredindo uma fronteira. Penso nos discursos tóxicos como aqueles que te fazem abandonar toda ética.

Poderíamos entender assim o discurso das novas ultradireitas? Um discurso que induz e justifica a rejeição ao diferente (as mulheres, os migrantes), a cegueira em relação aos limites (as desigualdades, o entorno natural), etc. Judith Butler fala do “sadismo desavergonhado” de Trump como novo tipo de poder, uma nova retórica de poder, uma nova exibição do poder.
Podemos falar de toxicidade do poder, pensando na dimensão predatória de certa modalidade de exercício do poder. O que há então de tóxico nestes discursos é a abolição de toda relação com a verdade, a história e a ética. É também o que se denomina pós-verdade, que permite reescrever a História. O apagamento da verdade histórica é sempre um mau augúrio. Lembremos 1984, de George Orwell. O regime do Grande Irmão, mediante uma propaganda contínua, tenta envenenar a psique dos indivíduos até fazê-los renunciar a toda singularidade. O poder tóxico é aquele que conduz à renúncia de toda ética. Portanto, continua a ser necessário perguntar-se sempre: “A que obedecemos? Em que acreditamos? A que consentimos?”.

A resistência do desejo
Não é fácil limitar o gozo. Não se trata de uma questão racional, de informação, de melhores argumentos ou novas pedagogias, mas sim de algo do corpo. O mal, o perigo, estão no corpo. O que cura, o que salva, portanto, também deve provir do corpo. Aqui encontro um limite ao racionalismo progressista da esquerda, tão confiante sempre no discurso, na política da explicação, mas tão ignorante por vezes do corpo, da realidade pulsional.

A busca de um limite é o resultado de uma forma de angústia perante esta desmedida, perante esta deriva. Mas este limite não dependerá de nenhuma pedagogia. Porque, com a experiência tóxica, trata-se daquilo que o sujeito não compreende, não sabe, não vê. Portanto, trata-se também do inconsciente. E de um inconsciente que se acopla ao corpo, como diz Lacan em Televisão. Por isso, a palavra na psicanálise não é da mesma ordem que uma racionalização ou uma introspecção. Trata-se de poder dizer o que nos supera, o que nos transborda, o que nos confronta também com um enigma na relação com o desejo e o gozo.

Os limites clássicos evaporam-se: o Saber, o Pai, a Lei mostram hoje uma face obscura, muito inquietante para o pensamento ilustrado. Retomando a análise de Lacan, a senhora faz uma crítica das insuficiências de Kant e do seu imperativo categórico. Em que consiste essa crítica?
Lacan mostrou em Kant com Sade – escrito que a princípio era um prefácio para A Filosofia no Boudoir do Marquês de Sade – uma proximidade entre o dever moral kantiano e o imperativo do gozo sádico. Um seria a outra face do outro. Tanto no imperativo categórico kantiano quanto no imperativo do gozo sadiano, trata-se de sacrificar algo do próprio desejo e da relação com o objeto do desejo. Em Kant, este sacrifício faz-se em nome da relação com o universal; em Sade, este sacrifício faz-se em nome da necessidade de obedecer à natureza, que segundo ele quer o crime, ou seja, o prazer sem limites. Portanto, deve existir uma terceira via, que abra caminho ao desejo.

A palavra é toxikon e phármakon. Pode envenenar o corpo, como dissemos antes, mas também pode acalmá-lo, aliviá-lo, curá-lo. Que tipo de palavra é essa que cura, ou pode curar, diferente, pelo que entendo, do mero Logos-Lei (deves/não deves)?
Se algumas palavras podem ser tóxicas, ou seja, empurrar para a pulsão de morte, outras palavras podem ser remédios. A cura pela palavra que é a psicanálise faz da experiência de “dizer” um phármakon. Tentar “dizer” o que nos envenenou também nos leva a desfazermo-nos disso, a desprender-nos disso, a separar-nos disso. Através da palavra como phármakon, o sujeito volta a conectar com o seu desejo, ou seja, com o seu poder de agir. Porque, ao interpretar os conflitos e tormentos da sua existência, também pode perceber o ponto em que tem certa responsabilidade na forma como responde aos acontecimentos da sua existência.

O que pode limitar o gozo é o desejo. É a proposta forte do livro, desenvolvida na sua última parte. Qual é a diferença entre gozo e desejo? Por que “só o desejo pode desintoxicar-me”?
Sim, esta distinção lacaniana entre desejo e gozo é fundamental, já que proporciona uma orientação ética. Permite ver com maior clareza a questão: “Mas o que é o bom?” Ou também: “Como saber o que devo fazer?”, “Como saber se devo dar rédea solta a uma forma de gozo ou se devo virar noutra direção?”. A fórmula de Lacan no seu seminário sobre A Ética da Psicanálise, “não ceder no desejo”, permite valorizar o desejo como um antídoto contra a pulsão de morte.

Essa última parte, aviso, está escrita em primeira pessoa. Pensando o tempo todo que o seu livro aborda o problema do gozo nos seus aspetos sociais, coletivos, políticos (emergência climática, management, poder tóxico), pergunto-me: há uma dimensão ou declinação coletiva, política, partilhada do desejo? Podemos conceber “políticas do desejo”, antídotos coletivos?
A relação com o desejo não é alheia à civilização e trata-se precisamente de abrir um caminho ao desejo para que a civilização seja em si mesma desejável. Neste sentido, há uma dimensão política na ética do desejo.

Em cada um dos meus livros, direi que há um elogio da singularidade do sujeito, do valor do desejo, mas também da necessidade do encontro. Porque o desejo sempre supõe também o encontro com o “desejo do outro”. Como escreveu Alexandre Kojève, o grande introdutor de Hegel em França, a nossa história é sempre a dos “desejos desejados”. Este é, a propósito, o tema do meu novo ensaio: O Desprendimento – Ensaio sobre as molas íntimas da desobediência, que acaba de ser publicado.

sábado, 12 de julho de 2025

Marci Shore saiu dos EUA e agora deixa o aviso: "A Europa não deve absolutamente confiar em nós"



A grande questão neste momento, defende Marci Shore, "é saber quem vai forçar quem" na "situação sem precedentes" em que os Estados Unidos se encontram. "Trump e Vance não são omnipotentes nem imortais, são habilitados por muitas outras pessoas, incluindo quase todos os republicanos".

Isso é notório, por exemplo, na recente aprovação da "lei grande e bela" que vai enriquecer os mais ricos e empobrecer os mais pobres, num país que está a resvalar para o autoritarismo. "O terror atomiza-nos, e os regimes tirânicos alimentam-se dessa atomização – e o único antídoto é a solidariedade ", ressalta a historiadora especializada em fascismo.

Aos que dizem que a América será salva pelos "pesos e contrapesos" que sempre orientaram a política norte-americana, Shore deixa um aviso. "As estruturas e instituições não são proteções mágicas e sobrenaturais, são criadas e geridas por pessoas" – e se a História nos mostra algo, é a facilidade com que coisas impensáveis são normalizadas. "Os seres humanos têm uma capacidade extraordinária de normalizar o anormal; o que parecia inconcebível num dado momento pode tornar-se o novo normal alguns meses mais tarde, e mal nos apercebemos de como as fronteiras recuaram."

Com uma carreira de décadas dedicada à cultura eslava e à Europa Central e de Leste, Shore trocou a Universidade de Yale, nos EUA, pela Universidade de Toronto, no Canadá, uma decisão que, garante, foi tomada após muita ponderação em família. Se dependesse do marido, o historiador e escritor Timothy Snyder, é possível que a mudança nunca tivesse acontecido. "O meu marido não é uma pessoa ansiosa por natureza. Se estivesse sozinho, teria regressado a New Haven, não apesar, mas precisamente por causa da vitória de Trump, para lutar pela democracia dos Estados Unidos."

Ao ver o vídeo que o NYT fez consigo e com outros dois especialistas em Fascismo da Universidade de Yale, Jason Stanley e o seu marido, Timothy Snyder, achei muito marcante a analogia que faz com o Titanic, em relação a esta ideia do ‘excecionalismo americano’. Continua a haver muita gente, dentro e fora dos Estados Unidos, a acreditar que os pesos e contrapesos vão impedir o navio de se afundar, apesar de a realidade apontar na direção oposta. Vislumbra alguma forma de esses pesos e contrapesos prevalecerem, por exemplo, por via das eleições intercalares no próximo ano ou do ramo judiciário? Ou estamos destinados a ver o navio afundar-se?
Não existe nada “destinado”. Os “pesos e contrapesos” referem-se a estruturas e instituições – não são proteções mágicas e sobrenaturais, são criadas e geridas por pessoas. Há certamente juízes que estão a recuar e a dizer ‘não’ – e a administração Trump está, muitas vezes, a recusar-se a honrar essas decisões judiciais. Torna-se então uma questão de saber quem vai forçar quem. Esta é, de certa forma, uma situação sem precedentes nos Estados Unidos.

E como se sai dessa situação?
Tudo depende das pessoas. Trump não é omnipotente nem imortal – e JD Vance também não. Eles são habilitados por muitas outras pessoas – incluindo quase todos os membros republicanos do Congresso, que fizeram barganhas faustianas. Esta “Lei Grande e Bela”, que priva milhões de americanos de cuidados de saúde e milhões de crianças de comida, não teria sido aprovada se o Partido Republicano não tivesse alinhado com Trump. Eles podiam dizer ‘não’.

A votação no Senado estava a 50-50 antes de JD Vance ter dado o voto de desempate na sua qualidade de vice-presidente. Juntamente com todos os democratas, três senadores republicanos votaram contra. Se mais um senador republicano tivesse votado contra, o projeto de lei não teria sido aprovado.

Logo após o voto, o meu irmão, que é compositor de ópera, publicou este vídeo [uma música chamada “Na noite passada sonhei que vi Jesus”, que termina com o verso “E ele disse-me que eu podia ir para o inferno” e com a adenda: “Mantenham-se seguros, amigos – e não fiquem doentes”. Desde a eleição de Trump, Dan Shore tem usado os seus dotes musicais para compor sátiras políticas de protesto contra as políticas da administração.]

Em tempos como estes, as pessoas tentam encontrar esperança onde quer que seja e muitas estão algo esperançosas perante notícias recentes como a libertação de Mahmoud Khalil, ativista da Universidade de Columbia, e a vitória de Zohran Mamdani nas primárias democratas à Câmara Municipal de Nova Iorque. O que podem estes eventos indiciar no contexto da busca por um caminho alternativo para os EUA?
Os Estados Unidos são um país profundamente dividido, é por isso que todas as eleições presidenciais são uma competição por um grupo demográfico relativamente mínimo, os chamados “swing voters”, ou eleitores indecisos. Há uma verdadeira resistência, há momentos de esperança, e é importante estar ciente e reconhecer esses momentos.

Estou a participar numa iniciativa do Seminário de Democracia da New School para documentar “pequenos atos de resistência democrática”. Este site pretende ser uma plataforma de solidariedade, reconhecimento e apoio moral, mas também um recurso para jornalistas, especialmente jornalistas fora dos Estados Unidos.

Recentemente, deu uma palestra na Universidade Metropolitana de Toronto onde avisou os canadianos – numa mensagem também dirigida, presumo, aos europeus e a outras sociedades – que “não podem confiar” no atual governo americano e que, por conseguinte, não podem confiar nos Estados Unidos. A verdade, porém, é que a arquitetura da relação transatlântica assenta nesta dependência europeia dos EUA, por exemplo, em matéria de defesa e segurança. Quão exequível seria “sair” desta relação? Ou existe outra forma de negociar (e fazer acordos) com os EUA, reduzindo essa dependência?

Eu nem sequer o descreveria como uma mudança de paradigma, mas sim como um salto para o niilismo. Para Trump, não existe a verdade versus a mentira ou o bem versus o mal; existe apenas o que é vantajoso ou desvantajoso para si próprio num dado momento. Todas as relações são puramente transacionais. Não existem valores ou princípios.

Estamos a olhar para um abismo. Pode acontecer, claro, que algo que Trump entenda como sendo do seu interesse num determinado momento tenha, por acaso, efeitos positivos – mas isso não deve ser mal interpretado como uma política coerente ou um paradigma que reflita qualquer tipo de valores consistentes.

A Europa não deve absolutamente confiar em nós. É isto mesmo: o fim do namoro.

Num artigo que escreveu em maio, afirmava que se deve “evitar fetichizar” conceitos como autocracia, fascismo, autoritarismo, etc., porque “nenhuma situação histórica é exatamente igual a outra”. Ainda assim, impõe-se a pergunta: que lições é que o passado pode ensinar-nos no que toca a lutar contra este sentimento de paralisia da sociedade?
Conceitos como o fascismo são muito úteis, só não devem ser fetichizados. Quanto às lições: os seres humanos têm uma capacidade extraordinária de normalizar o anormal. O que parecia inconcebível num dado momento pode tornar-se o novo normal alguns meses mais tarde, e mal nos apercebemos de como as fronteiras recuaram. Habituamo-nos a uma nova realidade e depois não conseguimos ver verdadeiramente o que está a acontecer à nossa volta.

Após as eleições de novembro de 2016, o comediante John Oliver disse ao seu público televisivo: "Vai ser demasiado fácil as coisas começarem a parecer normais – especialmente se se for alguém que não é diretamente afetado pelas ações [da administração Trump]. Por isso, lembrem-se: isto não é normal. Escreva-o num post-it e cole-o no seu frigorífico." O contexto era um programa de comédia política, mas isto não era uma piada, e o conselho de John Oliver foi absolutamente correto.

Há aqui dois desafios: abanar a sociedade, para que reconheça as implicações aterradoras da livre expressão da violência e da crueldade, e encontrar métodos para fundamentar o nosso discurso na verdade empírica"

É essencial não normalizar o anormal. É também essencial insistir na verdade – procurando-a, dizendo-a em voz alta. O terror atomiza-nos, e os regimes tirânicos alimentam-se dessa atomização. O único antídoto para isso é a solidariedade. Conhecemos a famosa citação de Martin Niemöller, o simpatizante da direita alemã que se tornou prisioneiro político dos nazis: "Primeiro vieram atrás dos socialistas, e eu não me pronunciei – porque não era socialista. Depois vieram atrás dos sindicalistas, e eu não falei – porque não era sindicalista. Depois vieram buscar os judeus, e eu não falei – porque não era judeu. Depois vieram atrás de mim – e já não havia ninguém para falar por mim".

Líderes como Donald Trump são regularmente aplaudidos pela sua “honestidade”, mas essa honestidade não corresponde à ideia de falar verdade no sentido do que se pode empiricamente provar como verdadeiro – corresponde, antes, a falar sem qualquer filtro, mesmo quando o que se está a dizer é o oposto do que é verdadeiro. Isto coloca um desafio aos cidadãos em geral, e aos jornalistas em particular, tornando ainda mais difícil navegar a realidade e reportá-la nos dias que correm. Desde que Trump anunciou a sua primeira candidatura à presidência, há uma década, os jornalistas têm tentado combater a desinformação com factos, mas isso não parece ser suficiente, nem nos EUA, nem na Europa. Qual é o caminho?
O que os apoiantes de Trump entendem como “honestidade” é o tipo de libertação da repressão que Freud descreveu em “A Civilização e os seus Descontentamentos: a livre expressão de Eros e Thanatos”. Hoje, se virmos uma mulher a andar na rua e desejarmos violá-la, é perfeitamente admissível expressá-lo em voz alta. Freud dir-nos-ia que a civilização se baseia na repressão. A libertação dessa repressão é a verdadeira libertação – pela qual pagamos o pequeno preço da destruição da civilização. E estamos a pagar esse preço.

As possibilidades tecnológicas de disseminação e consumo de informação – e desinformação – não têm precedentes. É um alvo em movimento: a tecnologia acelera mais rapidamente do que conseguimos compreender o problema e formular soluções. Em 2016, os jornalistas americanos ficaram sem saber o que fazer. Estavam habituados a verificar factos individuais – não estavam habituados a um completo afastamento da realidade empírica. E ninguém conseguia verificar os factos tão rapidamente quanto Trump conseguia mentir.

Portanto, há aqui dois desafios. Um é abanar a sociedade, para que reconheça as implicações aterradoras da livre expressão da violência e da crueldade. O outro é encontrar métodos para fundamentar o nosso discurso na verdade empírica.

Diz que “a grande lição de 1933 é que se deve sair mais cedo do que tarde”, num paralelismo entre o que aconteceu na Alemanha, com a ascensão de Adolf Hitler ao poder, e o que está a acontecer agora nos EUA. Porque é que decidiu abandonar o seu país-natal?
Receio que a mudança da minha família para Toronto tenha sido um pouco dramatizada de forma absurda. Na verdade, não é assim tão dramática. Foi uma decisão familiar muito gradual e complexa, que começou muito antes das eleições. Por um lado, Yale é uma instituição excecional; adorei ensinar em Yale, tenho lá amigos e colegas de quem sentirei muitas saudades. Por outro lado, nunca pensei ficar tanto tempo na mesma cidade ou na mesma instituição; parecia que estava na altura de mudar a meio da carreira.

Há muito que queria criar os meus filhos num lugar onde não houvesse tanta violência armada – mesmo em tempos muito melhores politicamente, a quantidade de violência armada nos Estados Unidos é horrível. New Haven [a cidade do Connecticut que alberga a Universidade de Yale] fica a menos de uma hora de Sandy Hook, onde uma turma inteira de alunos do primeiro ano foi assassinada por um atirador numa escola primária há pouco mais de 12 anos. Na altura, um dos meus alunos de licenciatura trabalhava como paramédico a tempo parcial e foi um dos primeiros a responder. Chegou ao local e não havia nada a fazer – estavam todos mortos.

A posse de armas per capita é mais elevada nos Estados Unidos do que em qualquer outra parte do mundo. Sou eslava e sabe o que Anton Chekhov disse sobre as armas? "Quando a arma está em cena, tem de disparar até ao fim do último ato." Receio que isso seja verdade tanto na vida quanto no teatro. Em qualquer sábado à noite em New Haven, as urgências estão cheias de vítimas de ferimentos provocados por armas de fogo.

Foi por isso que decidiu ir dar aulas na Universidade de Toronto?
A Munk School for Global Affairs começou a recrutar-me a mim e ao meu marido, Tim Snyder, há cerca de três anos. E há muitas razões pelas quais não só Toronto em geral, mas também a Munk School da Universidade de Toronto em particular, eram especialmente atrativas. Estudei na Universidade de Toronto nos anos 90 e adorei tanto a cidade como a universidade. A Munk foi concebida para promover e apoiar a interdisciplinaridade, o envolvimento, tanto académico como público. Há lá um grupo fantástico de académicos, liderado pela extraordinária cientista política Janice Stein, muito inspiradora para mim.

O Tim e eu viemos para Toronto em agosto de 2024 com os nossos filhos, num ano sabático de Yale. Por isso, já estávamos a viver aqui durante as eleições de novembro. E é muito provável que tivéssemos ficado em Toronto e aceitado as ofertas da Munk mesmo que Kamala Harris tivesse vencido. O meu marido não é uma pessoa ansiosa por natureza; se estivesse sozinho, teria regressado a New Haven, não apesar, mas precisamente por causa da vitória de Trump, para lutar pela democracia dos Estados Unidos.

Mas aceitou mudar-se pela família?
Sim, concordou em ficar em Toronto por mim e pelos nossos filhos. Estou muito disposta a assumir a minha própria ansiedade, mas encolho-me quando vejo a imprensa infligir-lhe a minha ansiedade e cobardia. “Fugir” é o tipo de palavra que quer Jason Stanley quer eu, enquanto judeus neuróticos, usaríamos – mas o Tim não foge.

A minha posição é influenciada pelo facto de, apesar de ser americana, não ser uma americanista – ou seja, o meu trabalho intelectual sempre se centrou na Europa Central e de Leste. Há muito que estou mais empenhada na Ucrânia do que nos Estados Unidos, e muito do que faço é desempenhar o papel de mediadora cultural, ajudando os americanos a compreender a Europa de Leste.

A minha vida intelectual nunca esteve centrada no meu próprio país, o que talvez contribua para o meu sentimento geral de que é possível trabalhar em prol do bem a partir de onde quer que seja – ainda que de formas diferentes. Além disso, tendo saído dos Estados Unidos, sinto-me ainda mais obrigada a falar sobre o que se está a passar lá, em nome dos meus amigos e colegas que se encontram em posições mais vulneráveis.

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

A identidade de género é um resultado das sociedades patriarcais


A desigualdade de género refere-se às diferenças injustas no tratamento, oportunidades e direitos entre pessoas com base no género. Já o patriarcado é um sistema social e cultural em que o poder e a autoridade estão historicamente concentrados nos homens, o que cria e mantém essas desigualdades.

Fontes sobre Patriarcado
A United Nations Economic and Social Commission for Western Asia define patriarcado como «uma forma tradicional de organizar a sociedade que muitas vezes está na raiz da desigualdade de género… onde os homens, ou o que é considerado masculino, têm mais importância do que as mulheres, ou o que é considerado feminino». 

Um artigo teórico afirma que o patriarcado é «o principal obstáculo ao avanço e desenvolvimento das mulheres… as instituições e relações sociais patriarcais são responsáveis pelo estatuto inferior ou secundário das mulheres». 

Outro estudo explora como normas patriarcais (e atitudes de género inequitativas) funcionam como motoras de violência contra as mulheres, mostrando como a estrutura patriarcal se traduz em desigualdades práticas e de poder. 

Uma publicação académica define “patriarchy” como “sistemas de poder sociais, políticos e económicos estruturados à volta da desigualdade de género. As relações de poder no patriarcado fundamentam-se na primazia dos homens, ou da masculinidade, face aos não-homens”. 

Sobre desigualdade de género: um estudo na região de Nepal mostra que «as hierarquias baseadas no poder fazem com que as mulheres enfrentem subordinação e violência», sendo a desigualdade de género “resultado” dessas relações de género desiguais. 

“O que é patriarcado?” — artigo no site do Instituto Claro. Explica que «o patriarcado representa um sistema social e cultural em que o poder … privilegia homens». 

“Patriarcado: o que é, como funciona, hoje” — no site Mundo Educação. Define patriarcado como “um sistema de organização social e cultural baseado na dominação masculina” e explica consequências como desigualdade salarial, exclusão política das mulheres, etc. 

Patriarcado - GEDES” — página do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES). Explora o patriarcado, as relações de gênero e como ele se articula com outras opressões como raça, classe e sexualidade. 

Manual/relatório: “Patriarcado e Mulher: Análise da Violência na Ordem Patriarcal de Género à Mulher Idosa” (autor Cássius Chai et al.) — discute como a ordem patriarcal de género condiciona a violência. 

Capacitação Maria Penha/MS” — define patriarcado como «uma hierarquia entre homens e mulheres, com primazia masculina». 

Fontes sobre Desigualdade de Género
Dossier “Desigualdade de Género” do Centro de Estudos Sociais (CES) (Portugal) — aborda «as desigualdades decorrentes da identidade de género e/ou sexualidade, e o modo como se cruzam com variáveis como classe social, etnicidade, nacionalidade…» 

Artigo “Desigualdade de Gênero no Brasil: Desafiando o Patriarcado e Avançando rumo à Igualdade” — demonstra a ligação entre patriarcado e desigualdade de género. 

domingo, 22 de outubro de 2023

Os eco-eventos e o plástico


Os ecoeventos estão na moda, mas será que são efetivamente eventos sustentáveis?!
No caso desta fotografia que foi partilhada nas redes sociais, vemos dezenas de copos que supostamente deveriam ser entregues e devolvida a sua taxa de uso.
Mas isso não aconteceu, foram descartados sem qualquer triagem! Um resíduo que se transformaria num novo recurso foi desperdiçado e deixado à deriva.
É nestes momentos que me pergunto, porquê? Porque é que o ser humano não entende a importância de um simples gesto

terça-feira, 4 de abril de 2023

Petição - SIM! O Aeroporto de Beja é parte da Solução!

Portugal tem direito, tal como Espanha, a 80% a fundo perdido de Fundo de Coesão para construir as suas linhas de alta velocidade [ferroviária]. Portugal não está interessado em receber esses fundos de Bruxelas. É uma opção política não avançar, porque Portugal tem direito a esses fundos comunitários. [Manuel Tão, Legislativas 2019]


O Aeroporto de Beja já está construído e só precisa de acessibilidades para ter área de influência e poder ser complementar aos de Lisboa e Faro, ambos com muitas limitações, defendeu hoje um especialista.

A infraestrutura aeroportuária alentejana, afirmou à agência Lusa o investigador da Universidade do Algarve Manuel Tão, «é uma solução na medida em que, estando construída, carece apenas de acessibilidades para ter área de influência».

«Necessitamos que as distâncias que tem Beja a mercados como a Área Metropolitana de Lisboa ou o Algarve sejam substancialmente reduzidas», o que «só é possível com um investimento na recuperação integral da Linha do Alentejo», realçou.

O também docente universitário falava à margem de um seminário organizado pela Plataforma Sim ao Aeroporto Internacional de Beja na sede da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Alentejo, em Évora, no qual participou como orador.

Manuel Tão, especialista em sistemas de transportes, salientou que a Linha do Alentejo «tem um traçado bom» e que, se esta ferrovia fosse reabilitada, os comboios poderiam atingir velocidades de 200 quilómetros ou mais por hora.

Isso permitiria «encolher distâncias», sublinhou, assinalando que os comboios que partiriam do Aeroporto de Beja levariam 40 minutos até ao Pinhal Novo (Palmela, Setúbal) e pouco mais de uma hora até Sete Rios (Lisboa) e Albufeira (Algarve).

Alertando que «a capacidade aeroportuária do país tem muitas limitações», o investigador da Universidade do Algarve vincou que o problema não afeta apenas o Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, mas também o do Algarve.

O professor universitário deu como exemplo a utilização prevista do Aeroporto de Beja, no próximo verão, para a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), considerando que «isso já é uma antevisão daquilo que o país tem pela frente».

«Necessitamos de injetar capacidade aeroportuária num sistema que está esgotado e isso só se consegue com algo que já está construído”, pois “as necessidades são tão prementes que não há tempo para construir», acrescentou.

Segundo este especialista, a construção de um novo aeroporto pode levar «uma década ou eventualmente mais» desde que o Governo toma a decisão de o construir até a infraestrutura entrar em operação.

«Nessa década, nem o turismo vai parar nem a pressão sobre os aeroportos existentes vai diminuir», acrescentou.

Já o presidente da CCDR do Alentejo, António Ceia da Silva, que também esteve presente no seminário, defendeu que os argumentos da Plataforma Sim ao Aeroporto Internacional de Beja merecem «chegar ao Governo e ter sua aquiescência».

«O Aeroporto de Beja está construído e outros não estão», destacou.

A Plataforma Sim ao Aeroporto Internacional de Beja já entregou na Assembleia da República uma petição em defesa do Aeroporto de Beja e da criação de acessibilidades à infraestrutura, com mais de 3.000 assinaturas.

A recolha de assinaturas prossegue “até 30 dias” após a petição dar entrada na comissão parlamentar.

sábado, 18 de março de 2023

Livro - Terra Queimada (Scortched Earth)


A infraestrutura ambiental que sustenta as sociedades humanas tem sido alvo e instrumento de guerra há séculos, resultando em fome e doenças, populações deslocadas e a devastação dos meios de subsistência e modos de vida das pessoas. Scorched Earth traça a história da terra arrasada, inundações militares e exércitos vivendo da terra do século XVI ao século XX, argumentando que a destruição deliberada do meio ambiente resultante - "environcídio" - constitui guerra total e é um crime contra a humanidade e natureza.

Nesta arrebatadora história global, Emmanuel Kreike mostra como a guerra religiosa na Europa transformou a Holanda num pântano desolado onde reinava a fome e a peste negra. Ele descreve como os conquistadores espanhóis exploraram as obras de irrigação e os extensos terraços agrícolas dos astecas e incas, desencadeando uma crise humanitária de proporções catastróficas. Kreike demonstra como a guerra ambiental continuou inabalável na era moderna. Sua narrativa panorâmica leva os leitores da Guerra dos Trinta Anos às guerras do Rei Sol da França e das guerras coloniais holandesas na América do Norte e na Indonésia até a conquista colonial do sudoeste da África no início do século XX.

Lançando luz sobre as origens pré-modernas e as consequências duradouras da guerra total, Scorched Earth explica por que o ecocídio e o genocídio não são fenómenos separados e por que o direito internacional deve reconhecer a guerra ambiental como uma violação dos direitos humanos.

Resenha muito boa.

Author information

Emmanuel Kreike is professor of history at Princeton University. His books include Environmental Infrastructure in African History: Examining the Myth of Natural Resource Management in Namibia and Re-Creating Eden: Land Use, Environment, and Society in Southern Angola and Northern Namibia. He lives in Princeton, New Jersey.

Reviews

"Scorched Earth is an impressive, thought-provoking, and richly detailed book. Kreike offers a new analytical lens through which to study the consequences of total war on both the environment and human societies."—Geoffrey B. Robinson, author of The Killing Season: A History of the Indonesian Massacres, 1965–66

"Kreike's analysis is novel, compelling, and provocative. Scorched Earth is a significant and important book that offers a major reframing of conventional assumptions about the nature of war and even nature itself."—Mark Levene, author of The Crisis of Genocide

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

The Russian Empire Must Die

A better future requires Putin’s defeat—and the end to imperial aspirations.


During the quarter century of its formal existence, the Moscow School of Civic Education did not have a campus, a syllabus, or professors. The school instead ran seminars for politicians and journalists, led by other politicians and journalists, from Russia and around the world. It operated out of the Moscow apartment of its founders, Lena Nemirovskaya and Yuri Senokosov. They had met in the 1970s while working on a Soviet philosophy journal, and shared a hatred of the violent, arbitrary politics that had shaped most of their lives. Nemirovskaya’s father was a Gulag prisoner. Senokosov once told me he could not eat Russian black bread, because the taste reminded him of the poverty and tragedy of his Soviet childhood.

Both also believed that Russia could change. Maybe not change very much, maybe not very dramatically, but change nevertheless. Nemirovskaya once told me that her great ambition was just to make Russia “a little bit more civilized” through the exposure of people to new ideas. Their school, an extension of conversations held in their kitchen, was designed to achieve that single, nonrevolutionary goal.

For a long time it flourished. From 1992 to 2021, Nemirovskaya reckons, more than 30,000 people—parliamentarians, city-council members, businesspeople, journalists—attended their seminars around the country on law, elections, and media. British editors, Polish ministers, and American governors came to speak; they got financial support from an equally wide range of European, American, and Russian foundations and philanthropists. I attended perhaps a dozen seminars, mostly to speak about journalism.

But the school remained a Russian organization, built by Russians, for Russians. The topics were chosen because they interested Russians and later because they interested the Georgians, Belarusians, and Ukrainians who attended some seminars too. I remember a particularly boring (to me) seminar on federalism in Scandinavia that the participants found fascinating because they hadn’t ever pondered, in their highly centralized societies, the various relationships between regional and national governments that could theoretically exist.

At the time, this project did not feel naive, idealistic, or radical, let alone seditious. Even during the first decade of Vladimir Putin’s presidency, democratic politics were restricted but legal in Russia; opposition views were tolerated, as long as they didn’t attract too much popular support; and there were many endeavors to organize discussions, training sessions, and lectures on democracy and the rule of law. Nemirovskaya told me that it never occurred to her that she was creating a “dissident” organization. On the contrary, her efforts were meant to support exactly the kind of transformation that people in power in Russia in the ’90s said they wanted. But slowly, those people were pushed out, or changed their mind. Officers of the FSB, the Russian secret police, began showing up at the seminars and asking questions. Negative articles about the school appeared in the Russian press. Finally, the state designated the school as a “foreign agent” and decreed that it had to advertise itself as such.

In 2021, the school was closed. Nemirovskaya and Senokosov sold their apartment and moved to Riga, Latvia, where they still run seminars, only now for exiles. Many of their friends, colleagues, and former students trickled out of the country too. In the spring of 2022, following the invasion of Ukraine, that trickle became a wave. Tens of thousands of Russian journalists, activists, lawyers, and artists left the country, bringing with them whatever remained of independent media, publishing, culture, and the arts. Among them were many people who might have once attended a seminar on local government at the Moscow School of Civic Education.

That moment felt, to many inside and outside Russia, like the end of the story. But it wasn’t—because stories like this one never end.

Ideas move across time and space, sometimes in unexpected ways. The notion that a country should be different—differently ruled, differently organized—can come from old books, from foreign travel, or just from its citizens’ imaginations. At the height of the Russian empire, in the 19th century, under the rule of some of the most ponderous autocrats of their time, a plethora of reform movements flowered: social democrats, peasant reformers, advocates of constitutions and parliaments. Even some of the people born into the Russian imperial elite came to think differently from others in their social class. Leo Tolstoy evolved into a world-famous advocate of pacifism. The father of the writer Vladimir Nabokov made fiery public speeches in the years leading up to the Russian Revolution, edited a liberal newspaper, and spent time in prison. His son later remembered how, on the evenings when his father was holding his political meetings, “the hall would house an accumulation of greatcoats and overshoes,” and guests would talk well into the night.

The state pushed back against people who thought differently, even then. Mikhail Zygar, a Russian author and the founding editor of an independent television station called TV Rain, has written a book, The Empire Must Die, that, among other things, tells the story of the independent thinkers forced out of Russia at the beginning of the 20th century, some of whom came back to reshape it during the revolution. This was a moment when “the number of Russian political émigrés becomes so great that there is talk of the emergence of an alternative Russian civil society,” he writes. “The Russian diaspora is no longer a branch of Russia; it is no longer clear which is the branch and which the trunk.”

Most suffered from one major blind spot: Neither then nor later did most Russian liberals understand that the imperial project itself was the source of Russian autocracy. The White Russian armies lost to the Bolsheviks in part because they would not join forces in 1918–20 with newly independent Poland or would-be independent Ukraine. Democratic ideas did not triumph in either the branch or the trunk in the years that followed the Russian Revolution, partly because the state needed to use so much violence to keep Ukraine, Georgia, and the other republics inside the Soviet Union.

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Rachel Carson Pesticide Action Month


We're at Peak Pesticide and Silent spring is almost here...

Rachel Carson gave the world an important warning in 1962 with the publication of her famous book ‘Silent Spring’. It led to the very necessary ban of DDT and other highly toxic chemicals. But the system didn’t change. We didn't go 'the other way' she describes in the last chapter of her book. We let the pesticide industry define the rules. Other pesticides were introduced, toxic business went on as usual and the use went up. Pesticide reduction is a myth so far, the sales are higher than ever. We’re at Peak Pesticide and Silent Spring is almost here. We know it and many reports and recent publications show it. We urgently need a paradigm change away from pesticides to avert a total biodiversity crisis and create real foodsecurity. We have to strongly reduce pesticide use and start right now. We also expose the myth that we are doing well in the EU. Europe has not reduced pesticide use since 1990. The world has seen an 80% rise in pesticide use since 1990. And Europe is one of the world's leading pesticide exporters.

During the month, many pesticide related events will take place. Organised live and online, by the Pesticide Action Network and partner organisations. PAN Europe presented the report "Pesticide Paradise, how industry and officials protected the most toxic pesticides from a policy push for sustainable farming". This report stresses the urgence to free ourselves from the shackles imposed on us by the chemical industry. They have far too much control over regulations, rules and definition of criteria and indicators. The result we can see in the huge increase in pesticide use worldwide, as shown in the Pesticide Atlas 2022 and in various new report on biodiverity decline. We can only move towards a toxic-free world and give a future to the generations to come if we free ourselves from the suffocating influence of the pesticide industry.

1 Million EU Citizens vote for biodiversity and an end to synthetic pesticides

A great tribute to Rachel Carson came on October 10, when the EU Commission formally approved the Save Bees and Farmers citizens initiative. One million official votes by registred EU citizens for restoration of nature and biodiversity, an end to synthetic pesticides and support for farmers to work with nature. This marks the end of an era where the chemical industry called the shots. This time for real!

Quotes

“Can anyone believe it is possible to lay down such a barrage of poisons on the surface of the earth without making it unfit for all life? They should not be called “insecticides’, but “biocides’.”

Rachel Carson, Silent Spring P 7-8

“Future historians may well be amazed by our distorted sense of proportion. How could intelligent beings seek to control a few unwanted species by a method that contaminated the entire environment and brought the threat of disease and death even to their own kind? Yet this is precisely what we have done.”

Rachel Carson, Silent Spring, P 8-9

“Global biodiversity is in crisis, with extinction rates running at more than 1,000 times natural levels and likely to accelerate. Insects in particular are undergoing catastrophic declines, yet these small creatures are vital to the functioning of ecosystems and to our own survival. A major cause of their decline are the plethora of pesticides applied to farmland, and in our streets and gardens. Rachel Carson would weep is she were alive to see how much worse this has become since she published Silent Spring. We urgently need to move towards truly sustainable farming systems, and bring an end to all uses of pesticides in gardens and towns.”

Dave Goulson, Professor of Biology, University of Sussex

“We have lost 55% of farmland birds and 39% of grassland butterflies in Europe since 1990 alone. While we see a 300% increase in the volume of pollinator-dependent crops since 1961, we are also seeing a rapid loss of pollination services, especially by wild pollinators. These numbers seem staggering, but scientists estimate the speed of losses to be under-estimated. We know almost nothing about most invertebrates, and we know particularly little about soil organisms. We do know that we are emptying vast tracts of land from life. Through monocultures, urban infrastructure, transport systems, light pollution and pesticides (to name just a few), we generate landscapes that are devoid of life. We combat pests to maximise production, but with them we remove many more organisms that are trying to survive in the lands we have taken over. Even on cow-dung we see no flies or beetles, as deworming agents and antibiotics clean up animals’ stomachs - later on penetrating into the soil and the water we drink. Silent Spring is expanding to a silent life on Earth. Our pesticides, among other means to combat nature, are poisoning us too. Not only the food we eat, but also the land and water, the insects we depend on, and the soil that nourishes our crops. We are risking our future on Earth: we cannot produce on a dead land.”

Guy Pe'er, PhD, conservation biologist, butterfly expert, expert on the EU’s Common Agricultural Policy (German Centre for Integrative Biodiversity Research (iDiv) and UFZ - Helmholtz Centre for Environmental Research)

Our health in danger

"Parkinson's disease is currently the fastest-growing brain disease in the world. There is growing evidence that this serious neurological disease is largely caused by factors present in our environment. These include air pollution and repeated traumatic brain injuries, but also exposure to toxic substances in our environment, such as trichloroethylene and pesticides used in agriculture. The evidence for the relationship between Parkinson's and various pesticides is compelling: in a number of countries, farmers have been shown to have a significantly increased risk of developing the disease, and the same is true for those living near agricultural plots. Moreover, exposure of laboratory animals to various pesticides produces damage in brain regions relevant to Parkinson's, and leads to outwardly observable signs of parkinsonism in these laboratory animals. Fortunately, some of the most suspected pesticides have now been banned. However, the question is whether the currently used pesticides are completely safe; in this respect, there are increasing concerns that the currently used authorisation procedures do not provide sufficient insight into whether or not a specific pesticide increases the risk of Parkinsonism. Moreover, the risk of exposure to so-called cocktails of pesticides has hardly been considered to date, even though this is the reality in our daily lives. Farmers cannot be blamed in this regard, they are complying nicely with existing laws and regulations, and they themselves are the biggest victims as they seem to have the highest risk of Parkinson's. In order to curb the rapid global growth of Parkinson's, urgent steps are needed, including better protection of farmers and others exposed to pesticides, improving authorisation procedures at European level, and looking for alternatives to pesticides."

Prof. dr. Bas Boem, neurologist, Parkinsons specialist at Radboud University Medical Centre

Main issues and sources
Video


terça-feira, 12 de abril de 2022

Seminário: Aporofobia- um termo que não tem fronteiras

No passado dia 7 de abril, durante a semana da interculturalidade, foi realizado um seminário pela EAPN Portugal sobre a Aporofobia. O seminário contou com presença do presidente da EAPN Portugal, EAPN Espanha entre outros oradores.

O Seminário teve como objetivo informar sobre este termo e promover o trabalho em rede de forma a fomentar respeito pela diversidade e interculturalidade.

O que é a Aporofobia?
Criado e desenvolvido pela escritora e filósofa Adela Cortina, aporofobia define o ódio aos indigentes e a aversão aos desfavorecidos. Proveniente de duas palavras gregas: “áporos”, o pobre, o desamparado, e “fobéo”, que significa temer, odiar, rejeitar, aporofobia é um termo notado no discurso publico.

De acordo com o presidente da EAPN Portugal, Jardim Moreira “A aporofobia não tem fronteiras às pessoas refugiadas, incapacitáveis, imigrantes (..) o seu discurso de ódio afeta todos.”

Porque é que a Aporofobia deve ser um tema a abordar?
No seminário, Elizabeth Santos do Observatório Nacional de Luta Contra a Pobreza mencionou a importância de medidas contra a aporofobia através de uma infografia com dados relacionados com este tema, tais como:
  1. Em 2019, 67% da população portuguesa considera que a discriminação com base na origem étnica é comum ou muito comum no seu país;
  2. Em 2019, 17% da população portuguesa ficaria desconfortável se tivesse contacto diário com colegas de trabalho de etnia cigana;
  3. Em 2020, cerca de 655 queixas foram recebidas pela Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial.
Entre outros…

Através desta infografia, Elizabeth Santos concluiu que existe uma “Tendência para representações sociais negativas sobre as causas da pobreza, predominando explicações de cariz individual em detrimento do social. (…) reproduz estereótipos: não quer trabalhar; vive à custa de subsídios, é manipuladora etc… “e umas das suas recomendações foi a “Promoção de espaços de reflexão interna, em equipa, entre todos os colaboradores e instituições”.

Analisando os dados da infografia, que pode aceder aqui, poderá ver mais informações relevantes sobre este tema.

Algumas campanhas contra a Aporofobia
Foram apresentadas várias campanhas contra a aporofobia:

“O DISCURSO DE ÓDIO NÃO É ARGUMENTO. #DARAVOLTAAOTEXTO #EAPN”

– Em 2021, a EAPN Portugal lançou, no âmbito da Semana da Interculturalidade, uma campanha nacional, contra o discurso do ódio, sob o lema “O Discurso de Ódio não é Argumento. #Daravoltaao texto #EAPN”.

Saiba mais sobre a campanha aqui.

#ContraAporofobia da EAPN Espanha

Lançada em Espanha em 2019, a campanha pretendeu incentivar os cidadãos a assumirem um compromisso social, no combate à pobreza e à exclusão social, através de entidades sociais que servem grupos que se encontram em situação de exclusão.

Pode ficar a conhecer mais sobre esta campanha aqui.

O seminário concluiu com um apelo aos técnicos para refletirem em formas de combater este tema e respeitar as várias comunidades que vivem no país.

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Theory in Crisis Seminar - Achille Mbembe, 'Notes on Brutalism'


Qual é o papel da teoria crítica hoje e a quem se destina? Que tipo de mapas pode a teoria fornecer no contexto de uma crise capitalista enraizada? Estas são algumas das questões levantadas por esta série de seminários.

Na sequência de várias mutações da "teoria crítica" do século XX (Escola de Frankfurt, "Teoria Francesa", etc.), os proponentes da "pós-crítica" defenderam que a teoria crítica "perdeu força". Em vez disso, esta série de seminários parte da premissa de que a crise do século XXI também gerou novas formas dinâmicas de reconsiderar estas questões. Uma teoria crítica do presente é necessariamente uma teoria da crise.

Neste seminário, Achille Mbembe irá discutir o seu novo livro, Brutalisme (La Découverte, 2020). Uma análise perspicaz e abrangente da destruição capitalista global, Brutalisme oferece uma importante teorização do nosso momento político contemporâneo e defende uma nova política baseada na reparação e na consciência planetária.

Palestrante
Achille Mbembe é professor investigador de História e Política no Instituto Wits de Investigação Social e Económica (Universidade de Witwatersrand), em Joanesburgo, África do Sul. É autor de vários livros, entre os quais "On the Postcolony" (2001), "Critique of Black Reason" (2016), "Necropolitics" (2019), "Out of the Dark Night. Essays on Decolonization" (2020) e "Brutalisme" (2020). Os seus livros foram traduzidos para quinze línguas. Recebeu o Prémio Ernst Bloch (2018) e o Prémio Gerda Henkel (2018).

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Seminário: Integrative design for radical energy efficiency por Amory Lovins and Holmes Hummel


A entrega dos serviços de energia do mundo em 2005 usou ~9x a energia mínima teoricamente necessária; Analistas da Universidade de Cambridge acham que ~85% da procura mundial de energia “poderia ser praticamente evitada usando o conhecimento atual e as tecnologias disponíveis”. Muitos modeladores económicos supõem que mesmo o potencial de eficiência energética muito menor de seus modelos deve incorrer em custos cada vez maiores. No entanto, a realidade empírica emergente é o oposto. O projeto integrativo – otimizando edifícios, veículos, fábricas e equipamentos como sistemas completos, não como componentes isolados – torna os ganhos práticos de eficiência energética várias vezes maiores e mais baratos do que a maioria dos especialistas supõe agora. Escolher, combinar, cronometrar e sequenciar adequadamente menos técnicas de eficiência e mais simples podem até gerar retornos crescentes (menor custo com maior volume), semelhantes aos que impulsionam a atual revolução da eletricidade renovável. Na maioria dos usos de energia e em todos os setores, a engenharia de todo o sistema oferece oportunidades surpreendentes para uma eficiência energética mais profunda e mais barata e proteção climática lucrativa.

Biografia dos palestrantes
Amory Lovins é um autor prolífico de centenas de publicações influentes sobre energia e tópicos relacionados, incluindo livros inovadores como Soft Energy Paths, Natural Capitalism e Winning the Oil Endgame.

O Dr. Holmes Hummel, fundador da Clean Energy Works, dedicou uma década a trabalhar na interseção da equidade e inclusão com a implementação de políticas e tecnologia. Em particular, o Dr. Hummel concentrou-se em mecanismos financeiros para acelerar o investimento em soluções de energia distribuída sem levar em conta a renda do cliente, pontuação de crédito ou status do locatário. Essas buscas levaram a quatro prémios internacionais por soluções climáticas inovadoras, incluindo o trabalho endossado pelo Global Innovation Lab for Climate Finance.

domingo, 22 de janeiro de 2012

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Biodiversidade nas Cidades


Biodiversidade é a diversidade da vida na Terra, incluindo os ecossistemas, espécies e genes. Nós somos parte da biodiversidade e nossas vidas dependem dela. E essa biodiversidade, suporte de vida de nossas cidades, está desaparecendo a um ritmo alarmante. Hoje é o pardal, mas amanhã pode ser nós.

sábado, 25 de novembro de 2006

Cimeira * Cúpula Rio+ 10

Entenda a Rio + 10
A Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável aconteceu de 26 de agosto a 4 de setembro de 2002 em Joanesburgo, África do Sul. Para compreender sua importância e suas conseqüências, é preciso remontar à história das grandes conferências sobre meio ambiente, à situação política e econômica do mundo em 2002 e ao processo preparatório para a Cúpula.


SeminárioEm junho de 2002, o Grupo de Trabalho Rio + 10 Brasil reuniu no Rio de Janeiro três chefes de estado e especialistas de vários países ligados ao desenvolvimento sustentável. O evento teve grande importância na conclusão do processo preparatório para a Rio + 10.

LinksVeja os sítios oficiais e os extra-oficiais que ajudaram a disseminar o conhecimento sobre a Cúpula de Joanesburgo.
Entrevistas
Perguntas e respostas revelam quais eram as expectativas em relação à Cúpula de Joanesburgo e o que se pode fazer a partir de seus resultados.
Artigos
O que os especialistas disseram a respeito da Rio + 10 e sobre a implementação da Agenda 21 no Brasil e no mundo.

Quem Somos O Grupo de Trabalho Rio + 10 Brasil foi formado para articular um amplo debate entre setores do governo e da sociedade civil em preparação para a Conferência de Joanesburgo
Documentos

Conheça na íntegra – e em português – os documentos que precederam e os que resultaram da Rio + 10, e veja ainda os principais acordos internacionais sobre o meio ambiente.

Na Prática
Diversas experiências de sucesso Brasil afora mostram que a implementação da Agenda 21 é possível. Leia alguns exemplos e aprenda como ajudar a tornar o desenvolvimento sustentável uma realidade.
Arquivo da imprensa
Jornais e revistas de todo o país acompanharam passo a passo as questões relacionadas ao desenvolvimento sustentável. Leia o que foi publicado entre junho e outubro de 2002.

terça-feira, 19 de julho de 2005

Um País Insustentável



Aproximam-se as campanhas para as autárquicas...já se sentem os motores a roncar por parte dos partidos mas é preciso muita exigência e maior participação de todos os munícipes e cidadãos, ao fim e ao cabo. Quando li este artigo do Prof. Carlos Cupeto neste sábado no Público (que reproduzo na íntegra), encontrei muitas afinidades daquilo que penso sobre as causas da insustentabilidade e o desnorte em que nos encontramos.

Depois de muita insistência por parte de ONG e de conclusões retiradas em Seminários, Congressos e Colóquios promovidos por várias entidades universitárias para que os Governos apostassem na formação de clusters e Comissões de estudo de problemas socioambientais, lá se formaram a muito custo as primeiras Comissões e Plano Nacionais Estratégicos. Contudo, tem-se assistido, ao longo destes últimos 10-15 anos, a um hábito insustentável: formam-se várias Comissões/Planos sempre que há um novo governo ou cor partidária. Voltam-se a investir em novos pareceres técnicos, investem-se em reuniões de trabalho, papeladas e até publicações e depois com a passagem para nova cor partidária os Planos/ Comissões de Estudo do Governo anterior ficam metidos na gaveta. PARA NO FIM FICAR TUDO EM NADA.

Esta situação de não continuidade, de caminhos curva-contra-curva e sem impacto positivo na correcção de comportamentos mais sustentáveis por parte de todos os cidadãos, é extremamente desesperante e realmente INSUSTENTÁVEL, derrubando qualquer premissa e boas intenções que estão na base das ideias originais e reais da maioria das pessoas que estão à frente das ONG e da Investigação e Ciência em Portugal.

Houvesse um tratamento mais sério do ordenamento do território, com mais apoios, contratação de técnicos licenciados e formação de pessoas e AUTARCAS para aderirem (abraçarem) a estas ideias como:


e a estes projectos/princípios


Que nestas campanhas rejeitássemos novas demagogias, em que os candidatos já estão piscar os olhos aos amantes e vigilantes da Natureza ( veja-se o PS a falar do Parque Oriental, veja-se o Rui Rio a falar das ciclovias,...) e a nível nacional outra vez o TGV,o choque tecnológico, os parques eólicos, blah, blah blah

Houvesse maior compreensão, compaixão e mais cuidado pelo Vivo e por mais respeito para com os cidadãos excluídos.
Neste aspecto quero registar um excelente texto do Pimenta Negra 

PORQUE RAIO TEMOS QUE SUPORTAR UMA ESCRAVIDÃO DO CONSUMISMO, ESPECULAÇÃO IMOBILIARIA E DA PETROLEODEPENDENCIA???

PORQUE TEIMAMOS EM PADECER??

ARTIGO ORIGINAL
(in: Público, 16 de Julho de 2005)

Portugal Insustentável

Por Carlos Alberto Cupeto, Professor na Universidade de Évora

Director da Tterra - auditoria, projecto e técnicas ambientais, lda.

O tema é recorrente e todos se habituaram a usa-lo.

Provavelmente estamos só a viver o início de uma profunda realidade
insustentável.

Todos, nos mais variados contextos, usam e abusam da expressão "desenvolvimento sustentável". Pelo menos desde a Conferência do Rio, em 1992, já lá vão treze anos, que o assunto merece atenção séria e, em Portugal, continua-se a muito falar e a pouco ou nada fazer. Depois de vários momentos de legitimas expectativas estamos novamente no ponto de partida (Resolução do Concelho de Ministros nº 112 de 30 de Junho de 2005), vamos configurar a Estratégia Nacional de Desenvolvimento Sustentável. Esta é uma prática comum em Portugal e o próprio Ministro do Ambiente, Nunes Correia, em 1996 viu o seu Plano Nacional do Ambiente metido na gaveta pelo governo socialista. Cerca de dez anos depois a prática continua a fazer escola. Sócrates seguiu o mesmo modelo -"vamos recomeçar e agora é que vai ser". Quanto custa ao país este faz de conta?

Agora, em 2005, vamos ter uma nova equipa de trabalho, certamente com uma cor mais rosa, e reavaliar tudo. Fazer uma Estratégia Nacional de Desenvolvimento Sustentável é o primeiro e grande objectivo. Tudo o que o antecedeu é papel.

Papel no lixo, papel muito caro ao país. Quanto mais se fala em economia de recursos mais meios se desperdiçam. Em matéria de "sustentabilidade" provavelmente, tudo, ou quase, pode e deve ser questionado e permanentemente monitorizado mas pior de tudo é nada fazer. Assim é em Portugal. Da água à energia, passando pela floresta ou pela paisagem Portugal constitui, cada vez mais, um exemplo de insustentabilidade.

O actual tema da energia, leia-se petróleo, é excelente para demonstrar a insustentabilidade de Portugal. Portugal vive o pesadelo da falta de fontes de energia próprias. Neste contexto a margem de manobra de Portugal é cada vez menor e é no sector da energia que mais se sente o carácter periférico do país.

É assumido que a causa dos principais problemas de sustentabilidade (despovoamento do interior, impactes económicos, sociais e ambientais negativos, etc.), a diferentes escalas, está directamente relacionada com a produção, distribuição e utilização da energia. A não sustentabilidade do consumo da energia - cerca de dois terços da energia produzida é desperdiçada nos processos de transformação - a bem da nossa qualidade de vida, deve, a curto prazo, estar condenada. O Governo apontou, com, pelo menos, dez anos de atraso, as energias renováveis, designadamente a eólica, como uma forte aposta estratégica. Depois de casa arrombada trancas na porta, apetece dizer. Por outro lado alguns especialistas começam a questionar, credivelmente, esta opção como verdadeiramente alternativa. Basta pensar que toda esta indústria assenta no, incontornável?, petróleo.

A história da ascensão e declínio das grandes civilizações da humanidade, assentes inicialmente no consumo de madeira, depois de carvão, tem sempre a mesma causa e conduz sempre ao mesmo resultado. Porque razão vai ser diferente com o petróleo?

Entramos então numa conjuntura que aponta inequivocamente para a necessária utilização racional da energia. Mas o que fazemos para isso? Nada. Ou melhor, escrevemos Estratégias Nacionais de Desenvolvimento Sustentável.

Quando se consome mais do que se produz e, ainda por cima, se consome mal o resultado não é bom. Provavelmente estamos só a viver o início de uma profunda realidade insustentável.

O modelo da nossa economia baseia-se na linearidade que carece da injecção contínua de quantidades crescentes de energia não renovável, gerando quantidades crescentes de resíduos. Em oposição a alternativa configura-se em modelos circulares onde o consumo de energia e matérias primas é racional e, em grande escala, os produtos residuais são reciclados e reutilizados. Esta, a diferentes escalas, em todos os sectores, deverá ser a opção de Portugal. Não há alternativa.

O grande desafio da sustentabilidade tem de ser planificar e gerir um pais de baixa energia. Entretanto, enquanto for possível, vamos continuar a assistir ao duplamente caro exercício de escrever estratégias de sustentabilidade.

Portugal é de facto um país insustentável. Falta só saber até quando?