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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

A abertura na copa das árvores

Céu Tecido
Um campo de ondulações de espuma cinzenta e suave
estende-se amplamente pela atmosfera,
onde o ar e a humidade tecem um lar temporário,
mantendo perto a luz e a sombra.

Correntes invisíveis curvam-se e erguem-se,
arrefecendo o vapor em formas silenciosas,
um presente subtil, flutuante e vivo
antes da chegada das tempestades.

Nenhuma parte está separada do chão,
nenhuma gota existe fora do todo;
em cada sopro flutuante encontra-se
o ritmo de uma única alma.

João Soares, 28.08.2026

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Alterações climáticas e ignorância, ou pior, agnotologia

Índice de Risco Climático,2025 [fonte]

Estamos a atravessar uma onda de calor. O tema das alterações climáticas está na ordem do dia. Por bons motivos? Depende. Como a ignorância é muita, tropeço a cada passo por esses murais fora numa notícia antiga (1930) em como a temperatura em Lisboa subiu a 38° e numa outra de 1944 também indicava Lisboa com 39º C à sombra. Os "doutores" das redes sociais já decidiram: é tudo uma aldrabice, "verão sempre houve", estão a ver como sempre ocorreram temperaturas altas? E a felicidade desta ignorância "moderna" logo se apoia nas mensagens políticas dos novos arautos da negação científica, das teorias da conspiração e do populismo que se alimenta de desinformação como pão para a boca.

Isso são notícias de Agosto, habitualmente mais quente no Verão e relacionadas com o anticiclone dos Açores. Ora  o Anticiclone dos Açores tem sofrido alterações profundas no seu comportamento e na sua "morada" habitual devido ao aquecimento global. Historicamente, a sua dinâmica sempre oscilou entre as estações: no verão, expande-se e move-se para nordeste, fixando-se mais perto da Península Ibérica e do Golfo da Biscaia, onde funciona como um "escudo" que afasta as tempestades atlânticas para norte e garante dias secos e frentes quentes em Portugal. Já no inverno, contrai-se e recua para sul ou sudoeste, mais perto das latitudes subtropicais e das Caraíbas, abrindo a "porta" para que as frentes chuvosas cheguem à costa ibérica.

No entanto, estudos climatológicos recentes demonstram que, devido às alterações climáticas, este sistema de altas pressões está a expandir-se substancialmente e a cobrir uma área muito maior no Atlântico Norte. Esta expansão faz com que o "escudo" de alta pressão empurre a precipitação de inverno cada vez mais para norte, em direção ao Reino Unido e à Escandinávia, tornando os outonos e invernos na Península Ibérica anormalmente secos e prolongando as dinâmicas de seca crónica. Por outro lado, em períodos específicos de desregulação climática recente, o anticiclone tem sofrido desvios anómalos para sul ou sudoeste, mesmo em épocas em que deveria estar robusto a norte, deixando a Península Ibérica vulnerável a frentes muito cavadas e a rios atmosféricos severos.

Resumindo, embora geograficamente continue a ter o seu centro de ação no Atlântico Norte subtropical - na região que se estende dos Açores até às Bermudas -, a sua área de influência cresceu significativamente. O resultado prático desta transformação é a persistência de secas mais severas e a ocorrência de verões mais propensos a bloqueios atmosféricos, que arrastam o ar quente do Norte de África diretamente para Portugal. 

Relembro também que agora as ondas de calor são cada mais cedo, mais prolongadas, ano atrás de ano. O climatologista e professor Carlos da Câmara tem sido uma das vozes mais contundentes ao analisar a gravidade das recentes ondas de calor de junho, alertando repetidamente que a situação atual é muito pior e muitíssimo mais complicada do que os registos históricos sugeriam para esta época do ano. O especialista enfatiza que o grande perigo destes episódios precoces já não reside apenas nas temperaturas máximas extremas atingidas durante o dia, mas sim no fenómeno das noites tropicais consecutivas, onde os termómetros teimam em não baixar dos trinta graus em algumas regiões. Esta ausência de arrefecimento noturno impede que o corpo humano recupere do esforço térmico diário, gerando um impacto direto e severo na saúde pública e no aumento da mortalidade. Para explicar a frequência destes extremos, Carlos da Câmara recorre frequentemente à metáfora estatística da curva de distribuição do clima, demonstrando que um pequeno desvio na temperatura média global provocado pelas alterações climáticas é suficiente para multiplicar drasticamente a probabilidade de ocorrência de fenómenos que antes eram considerados virtualmente impossíveis. O investigador deixa claro que olhar para estes eventos como mero calor normal de verão é um erro perigoso, sublinhando a urgência de encarar estas dinâmicas como um problema estrutural profundo que exige uma adaptação imediata da sociedade.

O aquecimento é global, existe e a tendência é para uma real crise climática, não apenas em Portugal, mas em todo o mundo. . A recente agitação política, em meados de Maio, que causou satisfação em setores alinhados com Donald Trump e com a indústria dos combustíveis fósseis deveu-se, na verdade, às intensas batalhas diplomáticas na aprovação do calendário e do âmbito do futuro Sétimo Relatório de Avaliação (AR7). Nestas reuniões, países produtores de petróleo e alas políticas conservadoras pressionam frequentemente para atrasar os prazos de entrega dos estudos ou para suavizar a linguagem nos resumos executivos destinados aos decisores políticos, tentando evitar metas explícitas de eliminação de energias fósseis. Contudo, os cientistas do IPCC sublinham que estas negociações políticas em nada alteram os factos físicos já demonstrados no AR6. Os dados empíricos recolhidos continuam a provar que a temperatura global está a subir de forma acelerada, e as projeções mais severas continuam válidas, independentemente das tentativas de desaceleração diplomática que ocorrem nos bastidores das Nações Unidas. 

Além disso, o consenso científico de que a Terra está a aquecer e que essa mudança é principalmente causada por actividades humanas é esmagador. Este consenso é apoiado por vários estudos de milhares de cientistas em todo o mundo e por declarações de posicionamento de organizações científicas, muitas das quais explicitamente concordam com os relatórios de síntese do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

Quase todos os cientistas de clima com obra publicada (97–98%) apoiam o consenso sobre mudança climática antropogénica e os 3% restantes de estudos contrários ou não podem ser replicados ou contêm erros. Um estudo de novembro de 2019 mostrou que o consenso entre cientistas de investigação cresceu para 100%, baseado numa revisão de 11.602 artigos revistos por pares publicados nos primeiros sete meses de 2019! Cf. Powell, James (20.11.2019). «Scientists Reach 100% Consensus on Anthropogenic Global Warming». Bulletin of Science, Technology & Society.
A medida das alterações climáticas não é a olhómetro. São décadas de estudo, observações, medições. E uma onda de calor anual é diferente de duas, três, quatro, cinco, etc. E é diferente um pico máximo de temperatura a cada três ou cinco anos, ou uma frequência mais curta. É a intensidade, frequência e duração dos fenómenos meteorológicos que contam para avaliar as mudanças climáticas. A meteorologia é outra coisa.

A meteorologia é a ciência que estuda o estado da atmosfera e os seus fenómenos no curto prazo (o tempo que está a fazer agora ou que fará nos próximos dias). O clima representa o padrão e a condição média da atmosfera observados ao longo de longos períodos, geralmente entre 10 e 30 anos. Enquanto pessoas comuns falam de meteorologia, cientistas falam de clima.

E convém ter presente! Apesar da forte evidência, o negacionismo climático persiste frequentemente através da desinformação alimentada por grupos com interesses económicos focados em atrasar transições energéticas e políticas de mitigação. Ou seja, há muitos palermas que, inocentemente, vão na conversa para papalvos. À custa disso, outros vão ganhando milhões e batem palmas. Também é sabido que agentes políticos e influenciadores são pagos ao serviço desses interesses económico- financeiros para espalhar desinformação.
Ouçamos a ciência! Não os vendedores de banha da cobra

Saber mais:

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Trump cuts to weather data could make forecasts less reliable, warn experts



As the US prepares for hurricane season and a summer of record-breaking heat, experts fear the Trump administration’s cuts to climate and weather data programming could make the federal government’s weather forecasts less reliable when they are needed most.

The National Oceanic and Atmospheric Administration (Noaa) late last year launched a suite of artificial intelligence-powered global weather forecast models which it said would improve “speed, efficiency, and accuracy”. In March, an agency official said those models were being trained with centuries of weather data.

Artificial intelligence is a valuable tool for weather prediction, but only when it is well-trained with ample data, said Monica Medina, who served as Noaa’s principal deputy undersecretary of commerce for oceans and atmosphere from 2009 to 2012.

Under Trump, climate and weather data collection has declined, said Medina. This year, the Trump administration proposed a modest budget increase for the National Weather Service, but a 40% cut to Noaa overall.

“We absolutely need AI to help us crunch the data faster and to make sense of more and more data that we can collect,” said Medina, who under Joe Biden also served as assistant secretary of state for oceans. “But right now, what we’re doing is cutting back the data collection … we’re going in the wrong direction.”

In an emailed comment, Erica Grow Cei, a National Weather Service spokesperson said: “Despite the misinformation circulating about missing weather and climate data, there is, in fact, a wealth of weather data collected each day, from satellites in space, to a network of weather balloons, to buoys in the ocean, and land-based sensors.”

But widespread reports show staffing cuts have forced Noaa’s National Weather Service to scale back satellites and balloon launches, key parts of the country’s data collection system. And shrunken climate programs threaten ocean buoy networks and other observation systems, experts say. Research into effects of the climate crisis on Earth’s systems is also being slashed, along with funding for researchers who analyze data and identify new sources.

“Weather times time equals climate,” said Craig McLean, Noaa’s former acting chief scientist and head of Noaa Research. “Cutting climate research impacts the skill of our weather forecast, and it arrests our advancement of weather forecasts.”

Those impediments are coming as the US is preparing for more extreme weather. A “super El Niño” is expected to spike temperatures, smash heat records nationwide and may boost hurricane activity in some regions.

Noaa will issue its outlook for the 2026 Atlantic hurricane season on Thursday.

‘A climate that no longer exists’
For decades, scientists used traditional physics-based models to predict future weather conditions, using complex mathematical equations to simulate the dynamics at work in the atmosphere. New AI-based models instead identify patterns in decades of historical data to forecast weather outcomes.

That new technology uses less computing power than traditional models – which must run thousands of mathematical equations to work – and has been found to outperform traditional models for some aspects of weather forecasting. But it also seems to have major shortcomings, experts have found.

Crucially, when it comes to predicting extreme weather events, new models still “underperform”, according to an April study published in Science Advances. Because their forecasts are based on past weather events, the authors found, they seem to have trouble simulating the record-breaking weather events that are becoming increasingly common amid the climate crisis, instead tending to predict weather more similar to historical events.

Traditional physics-based models don’t have this problem, because they assess and predict the weather outcomes that certain physical conditions yield.

“They don’t really care if there’s a different situation than we’ve seen before, because they can understand based on a rules-based [analysis] what will happen tomorrow,” said Sebastian Engelke, a professor at the University of Geneva who co-authored the study.

Chris Gloninger, a forensic meteorologist who in 2023 received death threats after speaking about the climate crisis on television, likened the problems with AI-powered models to the ways other kinds of infrastructure struggles to manage a world experiencing global warming.

“You have infrastructure systems in this country that are built on having a steady or static climate, and we know that that’s not the case as extremes are increasing,” he said.

Like stormwater systems that were not designed to keep up with climate-fueled heavy rainfall events or roads that were not designed to withstand climate-fueled extreme heat, “the AI weather models were trained on a climate that no longer exists”, Gloninger said.

This problem already has real-world implications, said Gloninger, noting that conventional models outperformed AI-based ones when forecasting a historic February 2026 blizzard in the north-eastern US.

If the government scales up its reliance on AI-powered models while reducing the amount of data that powers them, that problem could compromise federal forecasts, said Gloninger.

“It’s kind of a snowball effect,” he said. “You need accurate data for inputs for our forecast models, but we’re running on less data currently with this current administration.”

Long before Trump re-entered office, the National Weather Service had faced decades of understaffing. Recent cuts have exacerbated the problem, Gloninger said.

Noaa has not wholesale switched to AI forecasting. Instead, it says it is employing more artificial intelligence in its ensemble models, which blend multiple techniques to produce a range of probable outcomes. Cei said Noaa’s new AI-powered model suite is “an addition to our stable of weather models, not a replacement”, adding that it was “built on data” from the agency’s flagship physics-based Global Forecast System model.

But Gloninger said he was still concerned that rolling any AI technology into federal models could raise problems, particularly amid cuts to weather data collection and climate research.

“There could still very much be issues when you have a component of artificial intelligence that isn’t really trained when it comes to extreme weather and climate,” he said.

Neil Jacobs, current Noaa administrator, is “probably one of the pre-eminent modeling scientists”, said John Sokich, a former director of congressional affairs for the National Weather Service.

“I don’t believe he would rush implement something that has not been tested,” said Sokich.

But though Jacobs is “committed to advancing weather forecasting”, Jacobs is also “a Trump appointee who must back the Trump budget or leave his job”, said McLean. The administrator defended Trump’s Noaa cuts at a House environment subcommittee hearing in April, McLean noted.

“I don’t think Dr Jacobs would be in a rush to be replacing capacity with AI that’s not ready yet,” he said. “But at the same time, the man has demonstrated his willingness to be obedient to the president who appointed him [and who is] destroying the National Oceanic and Atmospheric Administration.”

Weather forecasts serve “indispensable” practical functions, powering early disaster warnings, enabling safe aviation and shipping, and helping officials optimize sectors of the economy from energy production to agriculture, said Medina. Less accurate forecasting could pose dangers to Americans, she said.

“Weather forecasts are vital to our economy, to our health, and to public safety,” she said.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Slowdive - Crazy For You


O single "Crazy for You" (1990) é uma das suas faixas mais icónicas do shoegaze, caracterizada por guitarras etéreas, vocais suaves e camadas sonoras densas.

A letra, composta por uma única frase repetida várias vezes, 'Crazy for lovin' you', transmite uma sensação de obsessão e fixação emocional. A repetição incessante da frase sugere um estado mental onde o amor se torna uma força avassaladora, quase sufocante, que domina todos os pensamentos e sentimentos do eu lírico.

A simplicidade da letra contrasta com a complexidade da música, destacando a profundidade do sentimento de amor obsessivo.

A escolha de repetir a mesma frase inúmeras vezes pode ser vista como uma metáfora para a natureza cíclica e inescapável do amor obsessivo. O eu lírico está preso em um loop emocional, incapaz de pensar em qualquer outra coisa além do objeto de seu afeto. Essa abordagem minimalista e repetitiva é eficaz em transmitir a intensidade e a singularidade do sentimento, fazendo com que o ouvinte sinta a mesma fixação e intensidade emocional que o eu lírico experimenta.
Filmagens de A Swedish Love Story 1970, por Roy Anderson

Adoro passear com pessoas que me dizem "olha aquela nuvem"!

Ulrich Schnauss rework

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Floco de neve visto ao microscópio electrónico


O cientista Nathan Myhrvold conseguiu registar as mais belas e detalhadas fotografias de flocos de neve já feitas! Isto graças a um trabalho árduo e a uma tecnologia de ponta, criada especialmente para registar estes pequenos cristais gelados.

A neve é um dos fenómenos meteorológicos mais fascinantes, responsável por criar cenários incríveis e encantadores quando precipita das nuvens e se acumula na superfície. Mas a sua beleza não se limita apenas às paisagens, existe uma beleza que não podemos vislumbrar a olho nu: os flocos de neve!

Nathan Myhrvold, ex CTO da Microsoft, afirma ter captado as imagens de flocos de neve de maior resolução do mundo.

Esta beleza difícil de ser vista foi o que inspirou Nathan Myhrvold a aventurar-se em mais um grande desafio: fotografar flocos de neve em alta resolução! Myhrvold foi diretor de tecnologia na Microsoft por muitos anos, mas deixou o seu cargo em 1999. À procura de novos desafios, passou a dedicar-se às suas paixões: cozinha e fotografia. Inclusive, ele é coautor do livro de receitas Modernist Cuisine, um livro de 5 volumes sobre a arte e a ciência de cozinhar.

Myhrvold disse à Accuweather que o seu desejo de fotografar flocos de neve começou quando decidiu que gostaria de fotografar coisas comuns que as pessoas vivenciam todos os dias. Mas ele queria que os temas das suas fotos fossem objetos que não podem ser vistos a olho nu, colocando-os em foco.

Entretanto, os desafios de fotografar flocos de neve são bem óbvios, sendo extremamente frágeis e minúsculos, medindo apenas alguns milímetros de diâmetro, um floco de neve pode derreter em segundos. Por isso, Myhrvold teve que pensar muito e arquitetar uma configuração tecnológica perfeita para superar todos estes desafios.

A tecnologia e a ciência por detrás das fotografias
Após 18 meses de trabalho duro, Myhrvold projetou e criou uma câmara de alta resolução personalizada combinada com um microscópio que funciona em climas frios. Para tal, ele teve que fazer uma série de adaptações, como, por exemplo, colocar fibra de carbono na moldura do seu microscópio, já que o metal se expande e contrai com a temperatura.

Para certificar-se de que os flocos não derretiam na lâmina do microscópio antes que os pudesse fotografar, Myhrvold decidiu usar safira artificial em vez de vidro, pois o vidro transmite bem o calor. Essa safira artificial era arrefecida para garantir que os flocos de neve ficassem intactos durante o maior tempo possível.

Até mesmo o esquema de iluminação por flash teve que ser adaptado. Myhrvold optou por luzes de LED que piscavam por apenas um milionésimo de segundo, que elimina tanto a transferência de calor quanto as vibrações, que poderiam destruir o espécime ou borrar a fotografia.

Assim que o equipamento estava pronto, havia outro desafio à sua espera: encontrar o local certo e capturar os flocos! Para isso, instalou-se em varandas em Fairbanks, Alasca e Yellowknife, Territórios do Noroeste, Canadá, sob temperaturas de até -20ºC! Com um pedaço de papelão coberto de veludo, Myhrvold capturou milhares de flocos de neve, mas nem todos estavam em perfeitas condições para serem fotografados.

Então, Myhrvold analisava cada floco com uma lupa, selecionava os melhores, capturava-os com um pequeno pincel e colocava-os na sua câmara microscópica, gerando as mais belas imagens de flocos de neve!

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Poema da Terra Inteira

"Aprendi com as ervas que nada tem pressa.
Nasce-se porque sim,
como a luz que se desprende da manhã
sem pedir licença ao dia.
Caminho pelos campos sem querer compreendê-los.
A compreensão é um peso dos homens.
A relva sabe estar,
o rio sabe seguir,
a pedra sabe durar.
E ninguém lhes ensinou nada.
Abraço um carvalho antigo
e ouço, no silêncio da casca,
a memória de tudo o que já passou por ele:
vento, pássaros, neve, populações antigas
a marca de um raio,
o calor de muitos verões.
E percebo que não sou dono de nada,
apenas hóspede de passagem.
A Natureza não precisa de mim,
mas eu preciso dela
como quem precisa de respirar fundo
para lembrar o próprio nome.
Porque viver é simples:
respirar com a paisagem,
escutar o que cresce,
e reconhecer — num gesto sereno —
que somos apenas uma voz
no grande coro da Terra."

Reflexão ecológica: transição filosófica do Antropoceno para o Ecoceno
Toda a ética ambiental começa num reconhecimento simples: a Terra não é um cenário, é uma comunidade viva da qual fazemos parte. A verdadeira sabedoria ecológica nasce quando deixamos de olhar para o mundo apenas como recurso e passamos a vê-lo como relação.
Cada forma de vida — da mais discreta à mais imponente — participa num equilíbrio que não é aconselhável controlar, pois dele dependemos profundamente.
Não há superioridade, apenas interdependência.

Cuidar do planeta não é um gesto moral isolado; é um novo paradigma.
Não desejamos mais extinção mas sim um futuro partilhado de todas as espécies, permitindo que as futuras gerações usufruam plenamente do Ecoceno.

E talvez o maior ensinamento seja este:
proteger a Terra não é salvar algo externo a nós — é preservar a continuidade da própria vida
de que somos expressão.
Joao Soares 04.12.2025

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

As aranhas em Portugal


As aranhas, apesar da sua má reputação, são aliadas indispensáveis nos ecossistemas portugueses. Estão presentes em quase todos os ambientes, desde as dunas litorais e montados até aos campos agrícolas e jardins urbanos. O seu papel é essencial na regulação natural das populações de insetos, funcionando como verdadeiros controladores biológicos. Ao alimentarem-se de mosquitos, moscas, pulgões e muitas outras pragas, ajudam a manter o equilíbrio ecológico e a reduzir a necessidade de pesticidas, contribuindo assim para uma agricultura mais sustentável e amiga do ambiente.

Além disso, as aranhas ocupam uma posição importante nas cadeias alimentares: alimentam-se de insetos e, por sua vez, servem de alimento a aves, répteis, anfíbios e pequenos mamíferos. Desta forma, participam ativamente no fluxo de energia e na estabilidade dos ecossistemas. A diversidade e abundância de aranhas são também indicadores da qualidade ambiental de um habitat — em locais poluídos ou degradados, muitas espécies desaparecem, tornando-se assim bioindicadores valiosos para avaliar o estado de conservação dos ecossistemas portugueses.

Mesmo nos ambientes urbanos, as aranhas desempenham um papel útil. Vivem discretamente em casas, jardins e parques, onde ajudam a controlar insetos domésticos, como mosquitos e baratas. Longe de representarem perigo, são inofensivas e benéficas para a saúde pública.

Por fim, as aranhas possuem um valor científico e biotecnológico notável. A sua seda, uma das substâncias naturais mais resistentes e elásticas conhecidas, tem inspirado investigações em áreas como a medicina, a engenharia e o design de materiais sustentáveis.

Em suma, as aranhas são guardiãs silenciosas da biodiversidade portuguesa. Discretas e eficazes, desempenham um papel insubstituível na manutenção da saúde e do equilíbrio dos nossos ecossistemas.

terça-feira, 30 de julho de 2024

Alterações Climáticas estão a tornar os voos no Hemisfério Norte mais acidentados


Um tipo de turbulência atmosférica invisível e difícil de prever deverá ocorrer com maior frequência no Hemisfério Norte à medida que o clima aquece, revela uma nova investigação.
Segundo a mesma fonte, conhecido como turbulência de ar claro, o fenómeno também aumentou no Hemisfério Norte entre 1980 e 2021.

A investigação dá seguimento a trabalhos recentes que preveem o aumento da turbulência moderada a grave do ar limpo, analisando conjuntos de dados extensos e efetuando simulações de modelos abrangentes.

O estudo foi publicado no Journal of Geophysical Research: Atmospheres, uma revista da AGU de acesso livre que publica investigação destinada a promover a compreensão da atmosfera terrestre e a sua interação com outros componentes do sistema terrestre.

Os resultados sugerem que a turbulência no ar claro aumentará na maioria das regiões afetadas pela corrente de jato, especialmente no Norte de África, Ásia Oriental e Médio Oriente, e que a probabilidade de turbulência no ar claro aumentará com cada grau de aquecimento.

Enquanto a maioria das pessoas espera turbulência quando voa num avião através de uma trovoada ou sobre uma cadeia de montanhas, a turbulência de ar puro atinge as aeronaves de forma inesperada. E, ao contrário de outros tipos de turbulência mais óbvios, não existe uma forma fácil de detetar e evitar a turbulência de ar puro.

“Sabemos que a turbulência em ar limpo é a principal causa da turbulência na aviação, que está na origem de cerca de 70% de todos os acidentes relacionados com o clima nos Estados Unidos”, afirmou Mohamed Foudad, cientista atmosférico da Universidade de Reading e principal autor do estudo. Recentemente, encontros bem publicitados com turbulência no ar causaram ferimentos em voos da Singapore Airlines e da Air Europa.

Foudad acrescentou que os engenheiros aeronáuticos devem ter em conta o aumento da turbulência quando projetarem aviões no futuro.

“Temos agora grande confiança de que as alterações climáticas estão a aumentar a turbulência no ar em algumas regiões”, sublinhou.

Analisando o ar
A maior parte da turbulência de ar puro ocorre perto de correntes de jato: correntes de ar rápidas de oeste para leste na troposfera superior, onde os aviões comerciais voam, cerca de 10-12 quilómetros (aproximadamente 32.000-39.000 pés) acima da superfície da Terra.

Por vezes, os aviões que voam através das correntes de jato deparam-se com picos de ar volátil e ascendente, designados por cisalhamento vertical do vento, criando o fenómeno da turbulência do ar puro.

À medida que o clima aquece, a quantidade de energia na atmosfera aumenta, aumentando tanto a velocidade das correntes de jato como o número de cisalhamentos verticais do vento. Estes aumentos significam que a turbulência de ar limpo, que os aviões encontram atualmente cerca de 1% do tempo no Hemisfério Norte, deverá tornar-se mais comum no futuro.

Atualmente, a turbulência de ar limpo é mais frequente na Ásia Oriental, onde a corrente de jato subtropical é mais forte e onde os aviões podem esperar encontrar turbulência de ar limpo moderada a grave aproximadamente 7,5% do tempo.

Foudad e os seus colegas utilizaram 11 modelos climáticos para determinar as alterações passadas e futuras da turbulência no ar. Para encontrar tendências futuras, os investigadores efetuaram 20 simulações em computador com potenciais aumentos de aquecimento futuro de 1 grau Celsius (correspondente ao aquecimento atual) a 4 graus Celsius.

Na maioria das regiões do Hemisfério Norte afetadas pela corrente de jato, a turbulência do ar irá aumentar. Nas regiões em que a turbulência do ar claro aumentará mais, os modelos do estudo foram os que mais concordaram, o que, segundo Foudad, indica uma elevada confiança nos resultados. Estudos anteriores previram um aumento da turbulência no ar sobre o Atlântico Norte no futuro, mas o novo estudo foi inconclusivo para a região.

Ao reanalisar os dados atmosféricos de 1980 a 2021, os investigadores descobriram que a turbulência moderada a grave no ar claro aumentou entre cerca de 60% e 155% no Norte de África, na Ásia Oriental, no Médio Oriente, no Atlântico Norte e no Pacífico Norte durante o intervalo de 41 anos.

Embora os aumentos registados no passado no Norte de África, na Ásia Oriental e no Médio Oriente possam ser atribuídos às alterações climáticas, os investigadores não puderam atribuir os aumentos no Atlântico Norte e no Pacífico Norte ao aquecimento provocado pelo homem. Em vez disso, a variabilidade climática nessas regiões poderia estar a esconder os sinais dos efeitos das alterações climáticas.

Impactos perigosos da turbulência invisível
A turbulência no ar é difícil e dispendiosa de prever, e um aumento da turbulência pode constituir um problema para a segurança dos aviões.

Os investigadores referem que novas análises poderão determinar se os futuros voos poderão ser mais seguros a altitudes mais elevadas ou mais baixas do que a norma atual. Mas, embora os passageiros das companhias aéreas possam ter viagens mais turbulentas no futuro, os aviões modernos são construídos para resistir a fortes turbulências.

“Vamos assistir a mais acidentes deste tipo, mas as pessoas também devem estar conscientes de que os aviões foram concebidos para resistir à pior turbulência que possa acontecer”, afirmou Foudad.

sexta-feira, 28 de junho de 2024

Supremo dos EUA inflige revés a luta contra poluição atmosférica


Washington, 27 jun 2024 (Lusa) - O Supremo Tribunal dos Estados Unidos da América (EUA), de maioria conservadora, infligiu hoje um revés à Agência de Proteção do Ambiente (EPA) ao suspender a aplicação de um plano de combate à poluição atmosférica.

Os juízes da mais alta instância judicial dos Estados Unidos decidiram, por cinco votos a favor e quatro contra, suspender a aplicação de um chamado plano de “boa vizinhança”, que pretende combater a poluição atmosférica que passa de um Estado para outro, enquanto não estiver resolvido um litígio num tribunal de apelação.

“A aplicação do plano da EPA aos queixosos deve ser suspensa até que os seus pedidos de revisão sejam decididos” por um tribunal de recurso em Washington, declarou o Supremo Tribunal no seu parecer.
A decisão foi tomada por uma maioria de cinco juízes conservadores contra os três progressistas, aos quais se juntou a juíza conservadora Amy Coney Barrett.

Segundo a EPA, o plano deve permitir reduzir o ‘smog’ (poluição atmosférica), que é prejudicial à saúde, mas pode também ter “vantagens económicas”.

Mas a regulamentação foi contestada em tribunal por três estados governados por Republicanos - Ohio, Virgínia Ocidental e Indiana -, apoiados pelas indústrias metalúrgica e do carvão.

De acordo com uma lei norte-americana sobre a poluição atmosférica, os estados federados são responsáveis por regulamentar a poluição pelo ozono a baixa altitude, mas a Agência de Proteção do Ambiente pode rejeitar ou obrigá-los a alterar os seus planos e definir normas comuns.

“A decisão de hoje é prejudicial não só para as comunidades que respiram ar poluído, mas para a própria democracia”, reagiu Holly Bender, do grupo de defesa ambiental Sierra Club, condenando o facto de o Supremo Tribunal “ter ficado do lado dos poluidores e da indústria”.

O Governo do Presidente Joe Biden tentou, nos últimos anos, repor legislação sobre a poluição atmosférica abolida pelo seu antecessor na Casa Branca, Donald Trump (2017-2021).

quarta-feira, 19 de junho de 2024

Calor de até 40 graus coloca mais de 73 milhões de pessoas em alerta nos EUA


Várias cidades do nordeste dos Estados Unidos foram colocadas esta quarta-feira em alerta devido à onda de calor que, segundo as previsões oficiais, será longa, com temperaturas perto dos 40 graus e afetando mais de 73 milhões de pessoas.

Na sua última atualização, citada pela agência espanhola de notícias, a Efe, o Serviço Nacional de Meteorologia (NWS) afirmou que "são prováveis recordes diários generalizados de calor durante o dia, com a possibilidade de alguns recordes mensais".

O NWS advertiu também que "a chegada antecipada do calor, a sua persistência durante vários dias e os ventos fracos aumentarão o perigo para além do que os valores exatos das temperatura sugerem", e acrescentou que as temperaturas máximas deverão situar-se entre os 37,8 e os 40,5 graus Celsius.

As regiões mais afetadas pela onda de calor a partir de hoje e durante os próximos dias serão os Grandes Lagos, o vale do rio Ohio e a Nova Inglaterra.

A cidade de Chicago está no nível 4 de risco, o mais elevado, e considerado extremo, segundo o NWS.

Outras cidades na mesma categoria são Cincinnati ou Toledo, em Ohio; Grand Rapids, em Michigan; Louisville, em Kentucky; ou Cedar Rapids, em Iowa.

Nos próximos dias, outras grandes cidades como Washington, Detroit (Michigan), Cleveland ou Columbus (Ohio), Pittsburgh (Pensilvânia), Indianapolis (Indiana) ou Nashville (Tennessee) também atingirão esse nível.

A governadora de Nova Iorque, Kathy Hochul, aconselhou as pessoas a "manterem-se hidratadas, evitarem atividades físicas excessivas ao ar livre e, se necessário, visitarem um abrigo meteorológico próximo".
Prevê-se que a vaga de calor tenha efeitos não só na saúde pública, mas também na produção industrial e até nas infraestruturas.

O NWS advertiu que "este nível de calor extremo invulgar e/ou prolongado, com pouco ou nenhum alívio durante a noite, afeta qualquer pessoa sem arrefecimento eficaz e/ou hidratação adequada".

domingo, 2 de junho de 2024

Florestas marinhas transportam cerca de 56 milhões de toneladas de carbono para sumidouros no oceano profundo


Um estudo realizado por uma equipa internacional de investigadores, que integrou investigadores do Centro de Investigação Marinha e Ambiental, Laboratório Associado (CIMAR-LA), revelou que as florestas marinhas de algas transportam cerca de 56 milhões de toneladas de carbono para sumidouros no oceano profundo, contribuindo significativamente para regular a quantidade de CO2 na atmosfera e, consequentemente, o clima na Terra.

Segundo a mesma fonte, esta descoberta, agora publicada na prestigiada revista Nature Geoscience, “abre novas oportunidades para a mitigação das mudanças climáticas através da preservação e restauração das florestas marinhas de algas”.

As florestas de algas, compostas principalmente por algas castanhas gigantes como as famosas kelp, são o ecossistema costeiro vegetado “mais extenso e produtivo do planeta”. Estas florestas podem crescer tão rapidamente quanto as florestas terrestres, sendo, portanto, “altamente eficientes na captura e armazenamento de carbono”.

O estudo internacional “Carbon export from seaweed forests to deep ocean sinks” que foi liderado por Karen Filbee-Dexter do Instituto Norueguês de Investigação Marinha e da Universidade da Austrália Ocidental, revela que, todos os anos, as florestas marinhas exportam cerca de 15% do seu carbono para as águas profundas do oceano, onde este pode permanecer retido durante centenas ou milhares de anos. Estas estimativas foram efetuadas com base em modelos oceânicos globais de última geração, que permitiram rastrear o destino do carbono das algas marinhas desde a costa até ao oceano profundo.

As florestas marinhas e o carbono azul
Historicamente, as florestas de algas marinhas foram excluídas do “carbono azul”, dado a incertezas sobre a sua capacidade de remover efetivamente carbono a longo prazo. Este estudo “fecha esta lacuna de conhecimento e abre novas oportunidades para a mitigação das alterações climáticas em zonas polares e temperadas, onde as opções de remoção de carbono por ecossistemas costeiros são atualmente limitadas”.

Jorge Assis e Isabel Sousa Pinto, investigadores do CIMAR – LA e co-autores deste estudo de caracter internacional, indicam que estes resultados “são de grande importância para a conservação marinha, uma vez que a perda ou a degradação destas populações de florestas marinhas leva à interrupção da absorção e transporte de carbono atmosférico para o mar profundo, onde fica potencialmente retido durante séculos ou mesmo milénios”.

O estudo sublinha a necessidade urgente de proteger, gerir e restaurar as florestas marinhas de algas, que estão atualmente a ser perdidas em muitas regiões do mundo devido a uma variedade de pressões, que incluem as alterações climáticas, tipicamente traduzidas em ondas de calor extremo, mas também a poluição e a pesca.

Isabel Sousa Pinto, investigadora do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental da Universidade do Porto (CIIMAR-UP) e do CIMAR-LA, reforça a importância da conservação e restauro das florestas de algas, “não só pelo seu papel na remoção de carbono, mas especialmente pelo papel que têm de berçário e refúgio para muitas espécies de animais, muitas delas importantes para a pesca”. Jorge Assis investigador do Centro de Ciências do Mar do Algarve (CCMAR) e do CIMAR-LA, acrescenta que “as florestas marinhas são um recurso para combater as mudanças climáticas e para preservar a biodiversidade nos nossos oceanos, devendo ser uma prioridade para o nosso país”.

quarta-feira, 29 de maio de 2024

Árvores e líquenes


Líquenes são associações mutualistas entre fungos e algas.
Os líquenes são bons indicadores da poluição atmosférica. Neste caso, líquenes verde claro e radiculares ou  foliares, são indicadores que o ar é pouco poluído.

quarta-feira, 22 de maio de 2024

David Inshaw


Música do BioTerra: Death In Rome - Stalingrad


From the bottomless pit 
Stalingrad of the soul
 
I call out to thee 
I call out to thee 
My third army is stuck in the deepest mud
 
I call out to thee 
I call out to thee
rousing from my sleep not knowing where I am
And everything is connected with everything 
is connected with everything

And I call out to thee
it’s my deepest prayer my devoted request 
To guide me on my way 
To escape the cauldron
 
I want a love that strikes me like a lightning bolt 
I want a love that sets my heart on fire fire [3X]

sábado, 18 de maio de 2024

Como surge a chuva ácida?


A chuva ácida  é consequência da poluição atmosférica. A queima de combustíveis fósseis –principalmente por motores movidos a diesel e centrais térmicas– liberta muito dióxido de azoto, NO2, para a atmosfera. Algumas atividades industriais – principalmente produção de aço, de alumínio, baterias, borracha e fertilizantes– libertam uma quantidade absurda de dióxido de enxofre, SO2, para a atmosfera.

Já em forma de gases, esses elementos formam moléculas polares com alta solubilidade em água. Assim, reagem rapidamente com a água em vapor na atmosfera e formam dois ácidos corrosivos e tóxicos: o ácido sulfúrico, H2SO4, e o ácido nítrico, HNO3.
SO3 + H2O → H2SO4
NO2 + H2O → HNO3

Essas substâncias voltam para a terra em forma de chuva ácida com desastrosas consequências ambientais:
– alteram o PH do solo, geralmente abaixo do valor 5,6 e essa acidificação mata a microbiota;
– alteram o PH de córregos, rios, lagos e mananciais, acidificando a água, desequilibrando o ambiente e causando a morte de peixes e outros seres aquáticos;
– causam patologias em vegetais e animais;
– destroem extensas áreas florestais e lavouras;
– danos à saúde humano, com agravamento de problemas respiratórios e oculares;
– corroem metais, pedras, rochas calcárias, madeira (ação desidratante);
– desgastam construções.

A chuva ácida é um dentro de tantos outros problemas causados pela emissão excessiva e descontrolada de gases do efeito estufa, como o aquecimento global, as secas prolongadas, as enchentes violentas cada vez mais frequentes e tantos eventos climáticos extremos.

Saiba mais:
Chuva ácida - Prepara ENEM
Aulão ENEM 2020 - Professor Paulo Jubilut

quarta-feira, 10 de abril de 2024

Poema - Saga

Saga
"No vasto palco do céu,
Uma saga de nuvens se desenrola,
Como actores dançantes num teatro celestial.
Cada nuvem, um poema em movimento,
Sussurrando segredos aos ventos,
Carregando consigo o aroma da terra molhada.
O terreno abaixo, um tapete a esperar,
A limpeza purificadora do ar,
Onde cada partícula de pó é abraçada pela chuva.
Gotas de cristal, como mensageiras do céu,
Caindo num ritmo suave e constante,
Desenhando linhas de vida nos campos sedentos.
E o céu, muitas vezes de chumbo,
Um aviso solene da tempestade iminente,
Mas também um convite para a contemplação serena.
Nas margens dos rios e mares,
Onde a água se mistura com o horizonte,
A poesia encontra sua morada eterna.
Assim é a dança cósmica da natureza,
Uma sinfonia de elementos entrelaçados,
Que inspira os poetas a tecerem as suas palavras."
Poema e foto de João Soares - 09.04.2024

terça-feira, 19 de março de 2024

Nuno Júdice - Fragmentos


Fôssemos assim, inundados desta sabedoria.

1
Aceita o transitório; nada do que
é definitivo, dura, te pode atingir
2
Algo de visível perpassa
nos limites do ser.
3
De noite, o vento partiu
um dos vidros das traseiras.
4
Só o ruído da noite sobrevive
à luz e ao furor matinais.
5
(Se aquelas nuvens, no horizonte,
chegassem até mim…)
6
O fragmento, porém, exprime
o estilhaçar da intensidade.
7
No último fragmento, fixa
o efémero e repousa.

In Meditação sobre Ruínas

sexta-feira, 17 de novembro de 2023

Microplásticos detetados em nuvens suspensas no topo de duas montanhas japonesas


Os microplásticos estão presentes em todo o lado. Medem menos de 5mm de comprimento e são encontrados nos locais aparentemente mais inesperados, nas profundezas dos oceanos, em corpos de pinguins na Antártida e no gelo do Ártico. Representam um sério perigo para a vida selvagem e humana.

Agora uma nova investigação detetou-os num novo local alarmante, em nuvens suspensas no topo de duas montanhas japonesas, o Monte Fuji e o Monte Oyama. O artigo foi publicado na Environmental Chemistry Letters e os autores acreditam que é o primeiro a verificar a presença de microplásticos nas nuvens.

Mais de 10 milhões de toneladas de plástico entram anualmente no oceano vindos da terra e os organismos marinhos ingerem-nos inadvertidamente, podendo potencialmente obstruir o trato digestivo e acumular materiais perigosos nos seus tecidos internos.

Microplásticos: baleias ingerem milhões de partículas por dia
São também são encontrados em ecossistemas terrestres, com 79% dos resíduos plásticos globais depositados em aterros, devido à sua natureza persistente, que pode durar centenas de anos. A sua acumulação no solo pode reduzir as taxas de germinação de sementes e altura dos rebentos, bem como desencadear mudanças na capacidade de retenção de água e na própria estrutura do solo.

No entanto, são limitadas as análises quanto à presença de microplásticos transportados pelo ar e às suas consequências.

Uma realidade desconcertante
Os microplásticos são altamente móveis e podem viajar longas distâncias no ar e no meio ambiente. A troposfera é uma via importante para o transporte de longo alcance de poluentes atmosféricos devido à forte velocidade do vento. Já foi anteriormente observado que os microplásticos transportados pelo ar também são transportados na troposfera e contribuem para a poluição global.

A maioria dos microplásticos transportados pelo ar são maiores do que as partículas com diâmetro inferior às partículas finas em suspensão, como o PM 2,5, altamente prejudiciais à saúde. As suas fontes potenciais são diversas, como a poluição rodoviária, aterros sanitários, desgaste de pneus e travões, práticas agrícolas e vestuário.

Partículas microplásticas foram descobertas em pedras de granizo
O oceano também pode transferir microplásticos transportados pelo ar para a atmosfera através da espuma marinha, ou aerossóis, que são libertados quando as ondas rebentam ou as bolhas no oceano explodem. Os autores, aliás, concluem, através da análise da trajetória retroativa no cume do Monte Fuji, que estes tinham, precisamente, origem no oceano.

Como consequência, os investigadores sugerem que os microplásticos transportados pelo ar podem atuar como núcleos de condensação de nuvens e como partículas de núcleos de gelo durante o transporte na troposfera e na camada limite atmosférica, promovendo assim, potencialmente, a formação de nuvens.

Isto é, eventualmente, um problema, uma vez que os microplásticos se degradam muito mais rapidamente quando expostos à luz ultravioleta na alta atmosfera e emitem gases com efeito de estufa. Uma elevada concentração destes microplásticos nas nuvens em regiões polares sensíveis poderia prejudicar o equilíbrio ecológico, escrevem os autores.

“Se a poluição do ar pelo plástico não for atacada de forma proativa, as alterações climáticas e os riscos associados podem tornar-se numa realidade, causando danos sérios e irreversíveis no futuro”.

Os investigadores descobriram níveis preocupantes de microplásticos nas nuvens que circundam as duas montanhas japonesas. As amostras foram recolhidas a uma altitude entre os 1300 e 3776 metros, e revelaram nove tipos de polímeros aos investigadores de Waseda.

Foram detetados vários tipos de plásticos, cerca de 6,7 a 13,9 pedaços por litro, e entre eles um grande volume de pedaços de plástico “amantes da água”, o que sugere que a poluição “desempenha um papel fundamental na rápida formação de nuvens, o que pode eventualmente afetar o clima geral”.

domingo, 12 de novembro de 2023

Atlântico


XII. Prece

Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem - ou desgraça ou ânsia -
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistaremos a Distância -
Do mar ou outra, mas que seja nossa!

Fernando Pessoa - Mar Português - Segunda de Três Partes da obra

sexta-feira, 18 de agosto de 2023

Ano de seca. Colheita de cereais para outono e inverno é "a pior de sempre"


A campanha de colheita de cereais para grão de outono e inverno, já concluída, é “a pior de sempre para todas as espécies cerealíferas”, indicou esta quinta-feira o Instituto Nacional de Estatística. O ano agrícola volta a sofrer os efeitos da situação de seca, quadro que abrange 96,9 por cento do território continental do país.“

A colheita dos cereais para grão de outono/inverno está concluída, confirmando a atual campanha como a pior de sempre para todas as espécies cerealíferas, resultado dos decréscimos de área de produtividade”, adianta o INE nas previsões agrícolas agora divulgadas.

Os cereais semeados tardiamente, por causa das chuvas de dezembro do ano passado e janeiro deste ano, foram “muito penalizados”. Por outro lado, a falta de precipitação na primavera e as altas temperaturas penalizaram igualmente o desenvolvimento de cereais praganosos, o que deu azo a um espigamento precoce.A seca abrange 96,9 por cento do território do continente, dos quais 34,4 por cento, a sul do Tejo, estão sob seca severa ou extrema.

Já a instalação de culturas de primavera e verão “decorreu com normalidade”, dado que o regadio está assegurado em 60 albufeiras. Cinco albufeiras hidrográficas mantêm-se, desde 2022, debaixo de restrições de rega.

O volume de água armazenada nas principais albufeiras com aproveitamento hidroagrícola, em Portugal continental, encontrava-se em julho a 66 por cento da capacidade total, aquém dos 71 por cento do mês anterior, mas acima do período homólogo, quando estava a 61 por cento.

Ainda segundo o Instituto Nacional de Estatística, a “escassa produção de matéria verde para o pastoreio” obrigou à antecipação da suplementação da pecuária em regime extensivo, com base em alimentos conservados.

No Alentejo, as quebras de produtividade da matéria verde foram de 20 a 80 por cento, com a maior redução a ter lugar nos concelhos de Castro Verde, Ourique, Mértola e Almodôvar. A norte do Tejo, todavia, a situação “não assume a mesma gravidade, estando a suplementação com alimentos grosseiros armazenados e/ou alimentos concentrados mais próxima dos parâmetros normais”.

Outras culturas
“De um modo geral”, escreve o INE”, as culturas de primavera e verão “apresentam um regular desenvolvimento, embora no caso do tomate para indústria se antevejam produtividades inferiores ao normal”.

Os pomares de pereiras e macieiras devem sofrer reduções de produtividade de, dez e 15 por cento, respetivamente, ao passo que a produção de cereja registou uma queda de 55 por cento, relativamente à anterior campanha.

Já a área de milho de regadio deverá igualar o valor do ano anterior – esta cultura, em fase de enchimento do grão, mostra “um bom desenvolvimento vegetativo e sem problemas fitossanitários relevantes”.Nas vinhas, o INE não anota acidentes sanitários relevantes e as vindimas devem ser antecipadas. Estima-se que a produtividade aumente em todas as regiões, com a exceção do Dão. O rendimento unitário global deve atingir os 42 hectolitros por hectare, mais oito por cento em comparação com 2022.

A maioria dos arrozais estava, no final de julho, na denominada fase de encanamento. Esta cultura mostra um “bom desenvolvimento vegetativo, embora com a presença de infestantes”, desde logo nas zonas litorais do Baixo Mondego e Vouga.

No norte e no centro, o desenvolvimento da batata de regadio beneficiou das condições meteorológicas. “Na Península de Setúbal, a produtividade da batata de consumo foi idêntica à da campanha anterior, sendo que na batata para indústria foi superior, estimando-se um acréscimo global na ordem de cinco por cento”, lê-se no documento do INE.

Mesmo com um quadro meteorológico desfavorável, os pomares de pessegueiros estão com produtividades de cerca de dez toneladas por hectare, volume próximo do habitual. No que diz respeito à amêndoa, a produtividade global deve crescer 15 por cento.