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terça-feira, 15 de setembro de 2026

No Dia Internacional da Democracia - Do Clique à Fratura Social: Como o Slacktivism, a Perda de Empatia e a Polarização Estão a Redefinir a Democracia Digital

A alvorada da internet alimentou a utopia de uma praça pública global onde a informação descentralizada fortaleceria o debate democrático e a cidadania ativa. Três décadas após os primeiros passos da web comercial, o cenário contemporâneo revela uma realidade antagónica. A mediação do quotidiano pelas redes sociais transformou a participação cívica num bem de consumo efémero. No centro desta metamorfose está o fenómeno do slacktivism - uma fusão entre slacker (preguiçoso) e activism (ativismo) -, onde o compromisso político é progressivamente substituído por microações digitais de baixo custo pessoal e nulo impacto estrutural.

A génese conceptual do termo remonta a meados dos anos 90, descrita por intelectuais como Dwight Ozaki e Fred Clark como uma estratégia de baixo limiar para envolver cidadãos em causas comunitárias. No entanto, foi o ensaísta Evgeny Morozov em The Net Delusion que redefiniu o conceito na era das plataformas digitais, denunciando a ilusão de que partilhar uma hashtag ou assinar uma petição online equivale a uma mobilização política efetiva. Ao gerar um efeito psicológico de "saciedade moral", o clique inicial oferece ao utilizador a sensação do dever cumprido, inibindo frequentemente o seu envolvimento em ações no mundo físico, como o voluntariado, a filiação partidária ou a participação sindical.

2. A Espetacularização do Sofrimento e a Anestesia Empática
A ascensão dos formatos de vídeo vertical (como o TikTok, os Reels e os Shorts) acelerou a conversão de crises sociais complexas em tendências efémeras de entretenimento. Este ecossistema impõe uma lógica de aceleração informacional que atua diretamente sobre a capacidade afetiva do utilizador, conduzindo a uma forma de anestesia ou "fadiga de compaixão".

Neste ambiente, a manifestação de apoio a uma causa converte-se em virtue signalling (sinalização de virtude) - um ato performativo direcionado para a validação pelos pares na própria bolha digital. Estudos no campo da neurobiologia social e da comunicação, como as investigações da Stanford Social Neuroscience Lab, demonstram que a empatia humana requer tempo de processamento reflexivo. A sobrecarga de estímulos visuais curtos e a transição rápida entre tragédias humanas e conteúdos humorísticos no mesmo feed fragmentam o foco cognitivo, neutralizando a capacidade de escuta profunda e reduzindo a empatia a um bem descartável.

3. A Arquitetura da Indignação e o Circuito da Polarização
O slacktivism não subsiste no vácuo; ele é amplificado pela própria arquitetura económica das plataformas. Como demonstram as investigações de Shoshana Zuboff sobre o Capitalismo de Vigilância, o modelo de negócio das redes assenta na retenção da atenção através da otimização algorítmica. Conteúdos que suscitam indignação, moralismo e maniqueísmo geram taxas de conversão e engagement significativamente mais elevadas do que análises ponderadas.

Dimensão SociológicaMecanismo DigitalConsequência Democrática
Identidade de TriboAlgoritmos de recomendação baseados em afinidade (filter bubbles)Homogeneização ideológica e isolamento em bolhas informacionais
Reatividade EmocionalRecompensa imediata por métricas de reação (likes, partilhas)Substituição do argumento racional pelo ataque ad hominem
Perseguidismo DigitalDinâmicas de recompensa por vigilância moral mútuaCultura do cancelamento e recusa do diálogo transversal

A investigação conduzida pelo Pew Research Center sobre Polarização Política documenta como a exposição continuada a ambientes digitais segregados intensifica a antipatia partidária. Quando o debate público é filtrado por algoritmos que premeiam o conflito, o "outro" deixa de ser um interlocutor legítimo e passa a ser percetionado como uma ameaça moral. O slacktivism, que começa como uma forma passiva de apoio, converte-se facilmente em agressividade punitiva digital quando a tribo exige demonstrações públicas de repúdio a quem diverge da norma do grupo.

3. A Erosão Institucional e os Desafios à Participação Cívica
O resultado articulado entre slacktivism, perda de empatia e polarização é a aceleração da atomização social. A participação nas instituições democráticas tradicionais - autarquias, associações de moradores, movimentos de cidadania territorial - exige negociação, compromisso e aceitação da lentidão burocrática. Em contraste, a cultura digital oferece a promessa de um impacto instantâneo que, embora gratificante no plano individual, carece de eficácia transformadora a longo prazo.

Superar este quadro implica transcender a mera literacia digital e avançar para uma reflexão crítica sobre o design das tecnologias que medeiam a vida pública. Tal como já defendi aqui o resgate da soberania democrática exige recuperar a capacidade de estar presente no espaço físico, reabilitar a empatia enquanto competência cívica e recusar a simplificação das causas humanas a meros fluxos de dados num ecrã.

Referências e Leituras Académicas Complementares

Pew Research Center. Research Topics: Political Polarization & Media Habits. 
DataReportal / We Are Social & Meltwater (2026). Digital 2026: Global Overview 

domingo, 16 de agosto de 2026

Greepeace alerta: um quarto da costa continental portuguesa está em recuo e décadas de pressão e construção urbanística agravam o risco no litoral

Assina a petição aqui e divulga

Novo relatório “Destruição a Toda a Costa – Retrato de um litoral português em risco” mostra como os impactos das alterações climáticas se cruzam com décadas de ocupação e pressão urbanística e alerta para fragilidades na aplicação das regras que deveriam proteger o litoral.
• Cerca de 25% da costa continental portuguesa encontra-se em recuo e mais de 100 mil pessoas vivem em zonas costeiras de elevado risco.
• A vulnerabilidade do litoral não resulta apenas das alterações climáticas: décadas de ocupação, construção e pressão urbanística em zonas sensíveis aumentaram a exposição de pessoas, infraestruturas e ecossistemas e reduziram a capacidade natural de proteção do território.
• Portugal dispõe de legislação e instrumentos de ordenamento destinados a proteger a orla costeira, mas persistem fragilidades na aplicação, fiscalização, coordenação e atualização das regras face à evolução dos riscos.
• Um mapa interativo lançado com o relatório e que reúne fotografias e informação sobre cerca de 350 pontos mais vulneráveis do território costeiro português, no continente, Madeira e Açores.

Cerca de 25% da costa continental portuguesa está em recuo, mais de 100 mil pessoas vivem em zonas costeiras de elevado risco e a pressão sobre o litoral continua a aumentar.

A Greenpeace Portugal lançou no dia 23 de julho  um novo relatório nacional “Destruição a Toda a Costa – Retrato de um litoral português em risco”, que revela como os impactos crescentes das alterações climáticas se cruzam com décadas de ocupação, construção e pressão urbanística sobre algumas das zonas mais vulneráveis do país.

O retrato é claro: a costa portuguesa está presa entre o avanço do mar e o avanço da construção.

A subida do nível do mar, a erosão costeira e os fenómenos extremos estão a intensificar-se num território onde, ao mesmo tempo, se continua a exercer uma forte pressão urbanística e turística, a ocupar áreas vulneráveis e a degradar ecossistemas naturais que funcionam como primeira linha de proteção.

O problema, não é apenas a falta de adaptação à crise climática. É também o resultado de escolhas feitas ao longo de décadas sobre onde, como e quanto se constrói, e da distância que continua a existir entre as regras criadas para proteger o litoral e a sua aplicação efetiva no território.

“Portugal conhece há muito os riscos que ameaçam a sua costa. Temos conhecimento científico, legislação e instrumentos de ordenamento. Não podemos continuar a esperar que uma praia desapareça, uma arriba colapse ou uma infraestrutura fique em risco, para agir. O desafio agora é transformar aquilo que sabemos em decisões políticas coerentes e numa estratégia de longo prazo capaz de proteger as pessoas, a natureza e um território que pertence a todos”, afirma Toni Melajoki Roseiro, diretor da Greenpeace Portugal.

Entre o avanço do mar e o avanço da construção
Ao longo dos cerca de 2.500 quilómetros de costa portuguesa, entre o continente, Madeira e Açores, os riscos assumem diferentes formas.

Cerca de 25% da costa continental portuguesa encontra-se em recuo.

Mas olhar apenas para a erosão ou para o avanço do mar não permite compreender toda a dimensão do problema.

A vulnerabilidade atual resulta também da forma como o território foi ocupado ao longo de décadas. A expansão urbana e turística, a construção em áreas sensíveis e a artificialização da orla costeira aumentaram a exposição ao risco e, em muitos casos, reduziram a capacidade de adaptação dos sistemas naturais.

Para a Greenpeace Portugal, continuar a permitir novas ocupações em zonas que já são conhecidas como vulneráveis, significa criar hoje os problemas que o país terá de resolver amanhã, muitas vezes com custos públicos elevados e com consequências que poderão tornar-se irreversíveis.

Ana Farias Fonseca alerta que “Com mais de 25% do litoral continental em recuo e cerca de 100 mil pessoas a viver em zonas de elevado risco, não podemos continuar a permitir que a pressão urbanística e o desrespeito pelas regras de ordenamento e proteção ambiental ignorem os avisos da ciência. Para a Coordenadora de Campanhas e Mobilização da Greenpeace Portugal “A boa notícia é que estamos a tempo de salvar as praias portuguesas e, para isso, é imperativo travar novas ocupações em áreas vulneráveis e apostar na prevenção e no restauro de ecossistemas, garantindo que as decisões de hoje não se tornam em problemas irreversíveis e os custos públicos elevados de amanhã.”

Proteger a natureza é também proteger as pessoas
Dunas, sapais, zonas húmidas e outros ecossistemas costeiros desempenham um papel essencial na proteção do território.

Estes sistemas ajudam a absorver a energia das tempestades, reduzem os impactos da erosão e das inundações e aumentam a capacidade de adaptação da faixa costeira.

Quando são destruídos, degradados ou fragmentados, perde-se não apenas património natural, mas também uma parte das defesas que protegem pessoas e infraestruturas.

O relatório defende, por isso, que a resposta aos riscos costeiros não pode assentar apenas em intervenções realizadas depois dos danos. A recuperação dos ecossistemas e as soluções baseadas na natureza têm de fazer parte de uma estratégia preventiva de adaptação.

A lei existe. Falta fazê-la valer no território
O relatório conclui que Portugal não parte do zero. O país dispõe de legislação, planos de ordenamento da orla costeira, instrumentos de gestão territorial e conhecimento científico sobre grande parte dos riscos que afetam o litoral – um primeiro passo na direção certa. O problema está, em muitos casos, na implementação.

A Greenpeace Portugal identifica fragilidades na aplicação e fiscalização das regras, na articulação entre diferentes entidades e níveis de decisão e na capacidade de atualizar os instrumentos existentes à velocidade a que os riscos estão a evoluir.

O resultado é um território onde continuam a existir tensões entre a necessidade de proteger a costa e a pressão para ocupar e construir em áreas cada vez mais vulneráveis.

Para a Greenpeace Portugal, a proteção do litoral exige também maior transparência nos processos de decisão e licenciamento e a salvaguarda do caráter público e do acesso de todos à costa e às praias.

Não se trata, sublinhamos, de impedir qualquer desenvolvimento económico ou atividade turística no litoral. Trata-se de garantir que as decisões tomadas hoje não aumentam os riscos de amanhã e que o interesse público e a proteção do território prevalecem sobre opções de curto prazo.

Um mapa para mostrar o risco no terreno
O relatório é acompanhado por um mapa interativo que reúne fotografias e informação sobre cerca de 350 pontos mais vulneráveis da costa portuguesa. Da Costa da Caparica a Espinho, da Costa Nova à Figueira da Foz, de Tróia, Comporta, Carvalhal e Melides ao litoral alentejano, do Algarve à Madeira e aos Açores, o mapa permite visualizar diferentes faces de um mesmo problema: erosão e recuo da linha de costa, pressão urbanística, ocupação de zonas vulneráveis, degradação de ecossistemas e dificuldades de adaptação às alterações climáticas.

O objetivo não é criar um ranking das zonas mais graves, mas mostrar que o risco assume diferentes formas ao longo de todo o território e que nenhuma região pode ser analisada isoladamente da forma como Portugal decide ocupar, proteger e adaptar a sua costa.

Menos reação, mais prevenção
Para a Greenpeace Portugal, responder à erosão e à subida do nível do mar apenas com obras de emergência, alimentação artificial de praias ou estruturas rígidas de defesa não será suficiente para enfrentar a dimensão do problema.

A resposta exige uma política nacional que antecipe o risco e coloque a prevenção no centro das decisões.

A Greenpeace Portugal exige:
• O cumprimento efetivo da legislação e dos instrumentos de ordenamento e proteção do litoral, acompanhado de fiscalização adequada;
• A suspensão de novas ocupações e construções incompatíveis com zonas identificadas como vulneráveis ou de risco;
• A proteção, recuperação e renaturalização dos ecossistemas costeiros, incluindo dunas, sapais, zonas húmidas e outros sistemas naturais essenciais para a proteção do território;
• Maior transparência nos processos de decisão e licenciamento e a salvaguarda do caráter público e do acesso de todos ao litoral;
• Uma estratégia de adaptação que antecipe os riscos, proteja as populações mais vulneráveis e integre critérios de justiça climática e social;
• A redução rápida das emissões de gases com efeito de estufa e da dependência dos combustíveis fósseis, enfrentando a causa da crise climática que está a acelerar os riscos sobre a costa.

Com “Destruição a Toda a Costa – Retrato de um litoral português em risco”, a Greenpeace Portugal pretende colocar uma escolha no centro do debate público e político: continuar a reagir depois dos danos ou começar, finalmente, a evitar que o risco continue a aumentar.
Para uma melhor experiência de leitura, recomendamos a visualização em “Duas páginas”, com a opção “Mostrar a página de rosto em separado” ativada.

Material para os OCS: 
  1. Relatório completo Português: aqui
  2. Relatório completo Inglês: aqui 
  3. Resumo Executivo: aqui
  4. Mapa interativo: aqui
  5. Fotos e vídeos do relatório: aqui
  6. Petição: aqui

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Ataque informático expõe dados da Navigator na "darkweb"



A The Navigator Company foi alvo de um ataque informático, em março, que resultou na exposição de documentação sensível na "darkweb", escreve o jornal Expresso, esta quinta-feira. Em causa está um ataque de "ransomware" reivindicado pelo grupo Safepay, que terá acedido e divulgado dados de trabalhadores, atas de reuniões, informação sobre contraordenações ambientais, resultados de auditorias ou registos de custos operacionais.

Questionada, a empresa confirmou ter identificado "um incidente de cibersegurança", tendo ativado de imediato mecanismos de resposta e articulado o caso com as autoridades competentes, mas não revelou se houve pagamento de resgate ou quais os impactos financeiros, invocando razões de segurança e de proteção da investigação.

Segundo o Expresso, o ataque insere-se num contexto de aumento dos casos de "ransomware" na indústria transformadora, um sector particularmente exposto devido à dependência de operações contínuas e à interligação entre sistemas tecnológicos. A Navigator já tinha sido alvo de um ataque semelhante em 2020, num ano em que também a EDP foi atingida por um ciberataque com divulgação de dados.

27s: o tempo para comprometimento de e-crime mais rápido já registrado
89% de aumento nos ataques de adversários habilitados por IA
82% das detecções em 2025 estavam livres de malware

A empresa de cibersegurança Check Point Software Technologies publicou a décima quarta edição da sua análise anual sobre tendências de ataques informáticos, intitulada Security Report 2026. Os dados recolhidos mostram como as organizações espanholas e portuguesas sofreram, em 2025, uma média de quase dois mil ciberataques semanais. Representando um aumento de 70% em comparação com os registos de 2023. Este aumento generalizado reflete-se diretamente na quantidade de dados corporativos expostos a nível mundial, onde cerca de 8.000 organizações viram as suas informações divulgadas em portais geridos por grupos dedicados à dupla extorsão, o que representa um crescimento anual superior a 50%.

terça-feira, 30 de abril de 2024

Julian Assange - A man who risked everything to bring the truth to light


A man who risked everything to bring the truth to light
We need YOUR help to get The TRUST FALL: JULIAN ASSANGE- Documentary out to cinemas 🎬📽
📣Please contact YOUR local cinema and request for them to run this film. Point them to www.thetrustfall.org for info, the trailer and to make a booking. Thanks for helping to raise awareness with this film.

Shame on you, USA. Before giving lessons of wisdom to the world using force and violence, look in the mirror.

20 may 2024 the UK courts will decide if they will extradite Julian! He should be released immediatly!

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

O anarquismo


O anarquismo é uma corrente filosófica e política que valoriza a liberdade individual, a autogestão, a igualdade e a abolição de todas as formas de autoridade e hierarquia. Embora haja diversas interpretações e abordagens dentro do anarquismo, todas compartilham a visão de uma sociedade baseada na cooperação voluntária, na solidariedade e no respeito mútuo. Aqui estão alguns aspectos interessantes do anarquismo:
1. Valorização da Liberdade Individual: O anarquismo coloca a liberdade individual como um valor fundamental. Acredita-se que as pessoas são mais livres e realizadas quando não são submetidas a estruturas de poder opressivas.
2. Autogestão e Democracia Direta: Os anarquistas defendem a ideia de autogestão, onde as decisões que afetam as comunidades são feitas de forma descentralizada e democrática. A democracia direta é vista como o caminho para garantir que todos tenham uma voz igual nas questões que os afetam.
3. Crítica ao Capitalismo e ao Estado: O anarquismo critica tanto o capitalismo quanto o Estado, argumentando que essas instituições muitas vezes perpetuam a desigualdade e a injustiça social. Em vez disso, propõe sistemas económicos e sociais baseados na cooperação e na Natureza.
4. Foco na Solidariedade e na Comunidade: Os anarquistas enfatizam a importância da solidariedade entre as pessoas. Eles acreditam que, por meio da colaboração e do apoio mútuo, as comunidades podem prosperar de maneira mais justa e sustentável.
5. Ativismo e Resistência: O anarquismo historicamente esteve associado a movimentos de resistência e ativismo social. Anarquistas têm desempenhado papéis importantes em lutas por direitos civis, igualdade de gênero, direitos dos trabalhadores e outras causas progressistas.
6. Sensibilidade Ambiental: Muitos anarquistas são sensíveis às questões ambientais e defendem práticas que respeitam o meio ambiente. Eles frequentemente apoiam ideias de sustentabilidade, simplicidade voluntária e uma relação mais equilibrada entre humanos e natureza.
7. Experimentação Social: O anarquismo, em várias ocasiões, inspirou experiências sociais interessantes, como comunidades autónomas, cooperativas e ecoaldeias que servem como modelos de como a sociedade poderia ser organizada sem hierarquias rígidas.
É importante notar que o anarquismo, como qualquer outra ideologia, tem as suas variações e interpretações. Alguns críticos argumentam que, na prática, a ausência de estruturas de autoridade poderia levar ao caos, enquanto os defensores veem o anarquismo como uma aspiração nobre para uma sociedade mais justa e igualitária. Cada pessoa pode interpretar o anarquismo de maneira diferente, mas a sua ênfase na liberdade, igualdade e solidariedade continua a inspirar muitos ao redor do mundo.

Minha arte digital. Saudades dos cafés, que eram espaços de tertúlias longas e não, como agora, toma-se o café, está-se cerca de 10-20 minutos, lê-se rapidamente o jornal disponível e cada um segue o seu caminho.

sexta-feira, 23 de junho de 2023

Dia Mundial do Denunciante



Em celebração do Dia Mundial do Denunciante honramos a coragem e a determinação das pessoas que, denunciando, assumem um papel crucial na luta pela justiça e contra as desigualdades sociais.

A Transparency International através dos seus mais de cem capítulos nacionais espalhados pelo globo continua a trabalhar para reforçar a proteção a denunciantes, promovendo as necessárias alterações legislativas e criando um ambiente social e cultural que garanta que todas as pessoas que denunciam irregularidades ou crimes beneficiam do amplo e generalizado apoio de todos os setores da sociedade civil.

Mas neste Dia Mundial do Denunciante 2023 importa também, e sobretudo, reconhecer os enormes desafios que se colocam a denunciantes e no domínio das proteções jurídicas e socioeconómicas que lhes são devidas: muito frequentemente, estas pessoas não se encontram protegidas contra atos de retaliação, nem são devidamente ressarcidas dos prejuízos decorrentes da sua bravura, por exemplo, a perda do emprego, dos seus rendimentos, e da sua saúde física e mental.

Em Portugal, a proteção de denunciantes foi inscrita na lei em dezembro de 2021, transpondo a Diretiva da União Europeia aprovada em 2019. Mas muitas pessoas ficaram de fora do Regime de Proteção (RGPDI) Além disso, continuam a detectar-se inúmeras falhas na implementação da lei e, mais de 6 meses após a entrada em vigor do Regime Geral de Proteção de Denunciantes de Infrações (RGPDI), este continua sem estar em vigor, designadamente no setor público.

“O processo de transposição da Diretiva da UE foi atabalhoado, pouco transparente e nada inclusivo. O Governo e a Assembleia da República ignoraram todas as recomendações e boas práticas e agora é o que se vê: uma implementação da lei com enormes falhas e sem fiscalização, traduzindo, na prática, proteção nula para quem denuncia ou venha a denunciar irregularidades ou crimes.” - Karina Carvalho, Diretora Executiva da TI Portugal

A Transparency International desenvolveu um guia de melhores práticas para organizações públicas e privadas implementarem sistemas eficazes de denúncia interna e cumprirem as suas obrigações legais. Este guia pode ser usado por instituições em todos os setores e países, incluindo Portugal, com o intuito de implementar e operar mecanismos de denúncia que efetivamente previnam, detectem e resolvam a corrupção e outras irregularidades.

“Temos todo o interesse em colaborar com entidades públicas e privadas para garantir que a proteção de denunciantes se efetiva no nosso país. Participámos no processo de negociação e elaboração da Diretiva Europeia e conhecemos bem os requisitos legais e procedimentais. Mas quem deve assumir o apoio à implementação do novo Regime é o MENAC, que continua sem capacidade instalada para desenvolver instruções técnicas, fiscalizar, ou punir infrações, e, especialmente grave, parece estar a delegar no mercado das consultoras, escritórios de advogados e plataformas whisteblowing a definição das regras de implementação e de proteção.” -Karina Carvalho, Diretora Executiva da TI Portugal

A 20 de dezembro de 2021 foi publicada a Lei n.º 93/2021, que estabeleceu o Regime Geral de Proteção de Denunciantes de Infrações (RGPDI), entrando em vigor a 20 de junho de 2022, transpondo para a legislação nacional a Diretiva Europeia 2019/1937 do Parlamento e Conselho Europeus, relativa à proteção das pessoas que denunciam violações do direito da União.

Na TI Portugal continuaremos a acompanhar as condições de proteção asseguradas em Portugal, quer avaliando os termos da transposição da diretiva e apresentando recomendações para que se corrijam as falhas identificadas, quer monitorando a sua eficácia prática.

Quem denuncia protege e é um dever proteger quem denuncia!

Conheça a :

sábado, 10 de junho de 2023

5G: China quer que Portugal adote políticas "racionais" e "autónomas" após decisão


A China disse esta quinta-feira esperar que Portugal adote políticas “racionais” e “autónomas”, após um órgão consultivo do Governo português ter deliberado a exclusão de facto de empresas chinesas do desenvolvimento das redes de quinta geração (5G).

“Esperamos que o lado português faça escolhas políticas racionais de forma autónoma e adira à criação de um ambiente de negócios aberto, justo e não discriminatório”, afirmou o ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, numa nota enviada à agência Lusa, em Pequim.

A diplomacia chinesa considerou que “construir muros e barreiras” e “quebrar laços” só “prejudica os mais vulneráveis”.

“A cooperação com benefícios mútuos é o único caminho certo”, realçou.

No mês passado, a Comissão de Avaliação de Segurança, no âmbito do Conselho Superior de Segurança do Ciberespaço de Portugal, divulgou uma deliberação sobre o “alto risco” para a segurança das redes e de serviços 5G do uso de equipamentos de fornecedores que, entre outros critérios, sejam de fora da União Europeia, NATO ou OCDE e cujo “ordenamento jurídico do país em que estão domiciliados permita que o Governo exerça controlo, interferência ou pressão sobre as suas atividades a operar em países terceiros”.

A deliberação não refere nomes de empresas ou de países, mas surge após anos de pressão exercida por Washington sobre os países aliados para que excluam o grupo tecnológico chinês Huawei das infraestruturas de telecomunicações.

Os Estados Unidos apontam para a Lei Nacional de Inteligência da China, que estipula que “todas as organizações e cidadãos devem apoiar, ajudar e cooperar com o Estado em matéria de Inteligência Nacional”.

A empresa negou categoricamente aquelas acusações e lembrou que a lei chinesa não exige que a Huawei instale mecanismos ocultos nas redes ou equipamentos que permitam o acesso não autorizado a dados e informações.

Outros países, incluindo Reino Unido, Austrália ou Suécia, baniram já a Huawei de participar no desenvolvimento das suas redes de 5G.

No comunicado enviado à Lusa, o Governo chinês diz que se opõe à “politização” de questões tecnológicas, ao “abuso do poder do Estado” e à “violação das regras do comércio internacional” e dos “princípios da economia de mercado”.

“A China é contra a formulação de políticas e regulamentos discriminatórios e exclusivos e opõe-se à supressão e imposição de restrições a empresas estrangeiras”, lê-se na mesma nota.

“Esperamos que o lado português proteja os direitos e interesses legítimos das empresas chinesas e adote medidas práticas para atrair investimento estrangeiro e expandir as oportunidades de cooperação”, acrescentou.

As redes de quinta geração, a Internet do futuro, estão na base de vários avanços tecnológicos, incluindo a condução autónoma ou fábricas inteligentes.

quarta-feira, 17 de maio de 2023

Dia da Internet ou Dia Mundial da Sociedade da Informação


Pouco resta da primeira rede estática projetada para transportar alguns bytes ou enviar pequenas mensagens entre dois terminais: a internet é hoje uma realidade indissociável do dia a dia, ao ponto de haver quem lhe aponte a capacidade da omnipresença.

A atribuição de tal caraterística a roçar o divino tem razão de ser já que, das compras à educação, das relações afetivas ao ativismo, ao teletrabalho, entretenimento e até à saúde, a rede das redes está em todo o lado.

“A internet é cada vez mais indissociável da nossa vida e das nossas relações, quer humanas quer profissionais”, notou Tiago Silva Lopes, em conversa com o SAPO TEK, a propósito do Dia da Internet. Para o Diretor de Serviços e Produtos MEO, a internet é cada vez mais omnipresente, uma tendência que vai marcar cada vez mais a forma como irá evoluir.

Fazendo um retrato geral, a população em todo o mundo ultrapassou, recentemente, a marca de 8 mil milhões de pessoas em que 64,4%, ou 5,16 mil milhões, usam a internet. Impressionante (ou já nem por isso) é o tempo, em média, que cada utilizador passa por dia na internet, que de acordo com o Digital 2023 Global Overview Report, ultrapassa as seis horas e meia. Portugal contribui para subir os números, com uma média diária de sete horas e 37 minutos, em 13º num ranking liderado pela África do Sul, onde os internautas passam mais de nove horas online. O telemóvel é o dispositivo de eleição.

As horas que passamos online, no entanto, não são diretamente comparáveis com o passado, porque “em 1990 e pouco, no começo”, as pessoas tinham de ligar-se através do computador e estar “quase exclusivamente dedicadas áquilo que estavam a fazer naquele momento”, lembra Tiago Silva Lopes. “Ficamos sempre chocados quando pensamos: ‘Sete horas por dia? Não passo sete horas por dia na internet!’, mas passamos porque temos sempre o telemóvel ao lado ou porque no trabalho passamos muito do nosso tempo a trocar emails, em vídeo calls ou a pesquisar informação”.

Entre a diversidade de coisas que fazemos “na” internet a mais recorrente é realmente procurar informação (57,8%), seguida de comunicar com a família e amigos (53,7%) e ficar a par das notícias e atualidade (50,9%).

Ver vídeos e filmes online também é um hábito cada vez maior (49,7%), e isso também se nota com vários estudos recentes que apontam os serviços de streaming como responsáveis por grande parte do consumo do tráfego atual e futuro da internet.

Em março desde ano, a Statista colocava o Netflix na liderança, com 14,9% do tráfego, seguido de perto pelo YouTube, com 11,4%. Entre os serviços e plataformas que mais trafego internet consumem estavam também representadas redes sociais, em primeiro o TikTok e em segundo o Facebook.

“De uma forma mais purista, o objetivo da internet era ligar as pessoas e as coisas umas às outras e é o que continua a acontecer e que tem evoluído de forma extraordinária”, considera Tiago Silva Lopes. O gestor destaca que há cada vez mais pessoas no mundo com acesso a um equipamento conectado, e não às tecnologias do passado, “da ligação analógica a 64kbps ou da ligação 3G”, mas através de fibra ótica ou 5G.

Para o Diretor de Serviços e Produtos MEO, houve dois marcos tecnológicos importantes na evolução do acesso à internet: o 4G do lado do acesso móvel e as redes de banda larga no fixo. Praticamente todos os grandes players de internet atuais, nos conteúdos, no ecommerce, surgiram quando estas tecnologias começaram a ser disponibilizadas no mercado

Mas estamos destinados a estar sempre ligados?

Com computadores, telemóveis, tablets e smartwatches - além de todos os equipamentos que a Internet das Coisas vai ligar -, com o sem número de aplicações disponíveis, em várias áreas, estamos destinados ao “always on”? Muito provavelmente.

O gestor acredita que há algumas tendências que vão mudar, de forma substancial, a forma como interagimos com a tecnologia, nomeadamente o tema do interface voz, que vai ser cada vez mais o interface por defeito, em vez do teclado físico no computador ou do teclado digital no telemóvel. De resto, também a parte da tecnologia imersiva, “a realidade aumentada, a realidade virtual”, vai contribuir para que o mundo real e o mundo digital se fundam cada vez mais.

Temos uma internet muito diferente daquela que começámos a utilizar, “não na sua missão, na lógica da descentralização do acesso à informação para todos”, diz Tiago Silva Lopes, mas na forma como interagimos com ela “que é cada vez menos uma coisa modular, um apêndice ao qual recorremos de vez em quando, através de um computador ou de outro interface especifico para tal, e é cada vez mais uma utilização seamless, cada vez mais integrada e fazendo parte da nossa vida”.

No entanto, falta alguma literacia digital para sabermos lidar com a enorme quantidade de estímulos que temos hoje, considera o gestor, defendendo que esta devia ser uma área de maior aposta e investimento em Portugal.

Lembrando que que a internet foi criada “para nos ajudar a sermos cada vez melhores enquanto sociedade e a tirarmos cada vez mais partido da informação que existe”, considera que isso só acontece com conhecimento para lidar com as questões da privacidade e da cibersegurança ou com as fake news.

“A internet trouxe-nos a democratização do acesso à informação e idealmente ao conhecimento, mas ainda não conseguimos passar da informação ao conhecimento”, acrescenta. “É um pouco como saber ler e escrever e hoje não sabemos ler nem escrever na era digital como deveríamos e não nos dão a formação adequada para”.

E porque devemos ver sempre as coisas pela positiva, diz Tiago Silva Lopes, é um facto que a internet veio para ficar e que tem perigos, “mas quanto mais conhecimento tivermos, quanto mais soubermos usar as ferramentas que temos à nossa disposição, melhor estaremos” para responder a esses desafios. “Temos matéria prima cada vez mais extraordinária. Saibamos nós moldá-la e utilizá-la da melhor maneira”.

sábado, 25 de fevereiro de 2023

Riscos globais, crises ambientais e reformas do desenvolvimento


De acordo com o Relatório de Riscos Globais 2023, do Fórum Econômico Mundial, “os riscos planetários mais importantes são todos ambientais, tanto no curto prazo como na próxima década. Esses alertas alimentam uma discussão nessa elite empresarial e política sobre a necessidade de reformar o desenvolvimento, pois os encadeamentos de crises ecológicas terão consequências sociais e econômicas que levariam a uma crise que impediria qualquer tipo de desenvolvimento. Por outro lado, na América Latina, a maioria dos políticos, empresários e acadêmicos raciocina e age ignorando esses fatos, voltados para posições tão conservadoras que até as advertências que partem de alguns dos mais ricos e poderosos lhes parecem radicais”. 
De um lado do planeta, em pleno inverno, em Davos reuniu-se a elite empresarial e política no Fórum Econômico Mundial (FEM). Simultaneamente, do outro lado do globo, no verão, vários países do extremo sul da América Latina sofrem uma estiagem muito severa. Esses distúrbios climáticos, assim como outros problemas, não deveriam ter chamado a atenção de quem estava em Davos se tivesse lido o Relatório de Riscos Globais 2023 que ali foi apresentado?

Segundo este relatório, os riscos planetários mais importantes são todos ambientais, tanto no curto prazo como na próxima década. Esses alertas alimentam uma discussão nessa elite empresarial e política sobre a necessidade de reformar o desenvolvimento, pois os encadeamentos de crises ecológicas terão consequências sociais e económicas que levariam a uma crise que impediria qualquer tipo de desenvolvimento. Por outro lado, na América Latina, a maioria dos políticos, empresários e acadêmicos raciocina e age ignorando esses fatos, voltados para posições tão conservadoras que até as advertências que partem de alguns dos mais ricos e poderosos lhes parecem radicais.

No Relatório de Riscos Globais 2023, ao abordar o futuro imediato, referente aos anos de 2023 e 2024, entre os dez riscos mais graves, metade é ambiental (1). Em primeiro lugar está o custo de vida, mas é seguido por desastres naturais e eventos climáticos extremos. Outros riscos ambientais referem-se à mudança climática, aos incidentes provocados por danos ambientais e à crise de recursos naturais. Outros tipos de riscos se intercalam além do custo de vida, como a erosão da coesão social e a polarização social e a migração em massa.

É chamativo observar que nenhum dos riscos mais prementes é econômico, apesar das repetidas previsões de estagnação ou recessão neste e nos próximos anos. Tampouco aparece indicada uma propagação da guerra na Europa ou em outras regiões. Mas a economia e a guerra estão por trás de vários efeitos associados ao meio ambiente. As estiagens, como as tornadas mais frequentes pelas mudanças climáticas, resultam em safras menores, levando ao aumento dos preços dos alimentos, o que impacta no custo de vida. Também contribuíram para isso as alterações no comércio internacional de grãos e fertilizantes em decorrência da guerra na Ucrânia.

Sempre se deve ter presente a forma como o Fórum Económico Mundial (FEM) avalia os riscos em escala planetária. Baseia-se em entrevistas com mais de 1.200 pessoas, e quase uma centena de especialistas e académicos, com especial atenção para os executivos de empresas, ministros de finanças, políticos ou analistas, muitos deles associados ao poder. O relatório atual é o 18º numa série que tem muitos anos, e seus alertas ambientais não são novidade, uma vez que em relatórios anteriores fazem alertas semelhantes. Na edição de 2022, entre os dez maiores riscos, cinco eram ambientais; os três primeiros falharam em evitar as mudanças climáticas, clima extremo e perda de biodiversidade. O relatório atual aumenta a preocupação com as condições ecológicas no futuro imediato.

Os riscos nos próximos dez anos
Considerando os próximos dez anos, a lista dos riscos mais graves também é dominada pelas questões ambientais; passam a ser seis, e quatro deles estão localizados sucessivamente nas primeiras posições. O quinto e o sétimo riscos são sociais, um é tecnológico e outro é geopolítico. Mais uma vez, nem os conflitos econômicos nem os bélicos aparecem. Vários dos riscos apontados para 2023-24 se repetem, como é o caso de todos os riscos ambientais, enquanto a avaliação decenal indica um agravamento.

De fato, mais da metade dos consultados entende que a situação vai piorar. 20% alertam que em dez anos serão ultrapassados pontos de inflexão que levarão a consequências catastróficas. Em seu sentido ecológico e social, deveriam ser entendidas como situações irreversíveis. 34% acreditam que a volatilidade prevalecerá nas economias e setores, o que levará a choques múltiplos. Em resumo, 54% consideram que vamos lidar com condições muito piores. Por outro lado, nas restantes respostas considera-se que esta volatilidade pode ser controlada (26%) ou limitada (11%).

A situação latino-americana
Deixando de lado, neste caso, uma revisão crítica dos sentidos que o FEM de Davos dá à ideia de “risco”, já que para os fins desta análise basta seguir com os entendimentos mais usuais, fica evidente que na América Latina todos eles estão presentes. Riscos severos como o aumento do custo de vida, e especialmente o risco associado à inflação e aos preços dos alimentos, afetam praticamente todos os países (2). Estão acontecendo diversas crises ambientais; a mais recente é a estiagem no Cone Sul (Argentina, Uruguai e sul do Brasil). O fracasso das medidas de mitigação das alterações climáticas é evidente e o mesmo acontece com os programas e apoios de adaptação às suas consequências.

O que o FEM chama de erosão da coesão social e polarização social está diante dos nossos olhos em casos como o do Peru, onde há grandes mobilizações cidadãs e dura repressão policial, ou na tentativa de golpe de Estado dos bolsonaristas no Brasil. O desempenho econômico será muito modesto, as condições comerciais serão restritivas, e isso faz com que os níveis de pobreza aumentem ou persistam, alimentando as instabilidades políticas.

Conexões e pontos de inflexão
Os riscos ambientais estão conectados, como é o caso da estreita associação entre mudanças climáticas, perda de biodiversidade e crises de recursos naturais, e a partir daí vários setores são afetados. Se tomarmos a agricultura como exemplo, circunstâncias como as inundações ou as estiagens afetam a produção de alimentos. Isso é transmitido às cadeias de comercialização agrícola, levando a limitações na oferta de alimentos ou ao aumento de seu custo. Muitos países do Sul Global não têm dinheiro para amortecer esses impactos, como financiar a irrigação, comprar fertilizantes mais caros ou subsidiar os alimentos. A alto do custo de vida torna-se inevitável, o que aumenta o descontentamento dos cidadãos, multiplica os protestos e afeta a coesão social.

Este exemplo esquemático mostra que os distúrbios ecológicos transmitem seus efeitos para diferentes áreas. Eles não podem ser analisados separadamente um do outro. Produzem-se crises interligadas que se retroalimentam.

Reformas no desenvolvimento diante das crises ambientais
Considerando os alertas deste relatório, como em anos anteriores, fica claro que ações urgentes são necessárias para, por exemplo, prevenir as mudanças climáticas ou resolver os desequilíbrios econômicos. Aparecem justificativas adicionais para reformar o desenvolvimento capitalista, e isso é precisamente o que foi levantado pelo FEM. Em 2020, seu presidente, Klaus Schwab, apresentou sua alternativa ao “Grande Reinício” (ou Great Reset), com medidas como os impostos para os mais ricos, o fomento da economia participativa ou o abandono dos combustíveis fósseis (3). Schwab faz uma diferença entre três capitalismos: um corporativo, outro estatal (como na China), e sua alternativa, o capitalismo das partes interessadas.

Isso faz parte dos confrontos que ocorrem entre essas elites empresariais e políticas. De um lado estão aqueles que entendem que o desenvolvimento capitalista predominante tornou-se insustentável, que causaria uma crise em escala planetária e, portanto, são necessárias reformas como as que acabamos de mencionar. Os que discordam destas políticas rejeitam qualquer correção de rota do capitalismo, insistindo em blindar estratégias convencionais (4).

O que muitas vezes é interpretado a partir da América Latina como um bloco homogêneo que defende o desenvolvimento, na verdade abriga diferentes estratégias que estão em forte discussão. No debate mais recente, as palavras e os conceitos usados são reveladores. Agora usa-se explicitamente a palavra capitalismo, e seus autores reconhecem que a situação é grave e propõem algumas reformas. Entre elas estão as mencionadas acima e outras que implicam intervenções nos mercados, retomando a presença do Estado em setores como educação e saúde, e uma mudança na gestão ambiental, a começar pelo cumprimento dos acordos sobre mudanças climáticas.

Entre esses reformadores, além do FEM, estão vários bilionários e empresas de setores como comércio e serviços. Muitos deles participam não por serem ambientalistas, mas por entenderem que cada grau de aumento da temperatura global coloca seus negócios em risco. Há também economistas que hoje são mais conhecidos na América Latina por apoiar alguns progressismos. São os casos de Joseph Stiglitz (em relação ao governo de Alberto Fernández na Argentina) ou, mais recentemente, Mariana Mazzucato (que é invocada pelo presidente colombiano Gustavo Petro).

O outro grupo rejeita as propostas de mudança. Querem preservar os mercados liberalizados sem a intervenção do Estado, renunciam aos impostos, negam ou minimizam as mudanças climáticas, ainda se apegam aos combustíveis fósseis e gostariam de manter serviços públicos como educação e saúde privatizados. Agendas moderadamente reformistas, como a de Schwab, são classificadas como típicas de um "comunismo". Nessas trincheiras estão economistas e políticos conservadores ou neoliberais e corporações de setores como mineração, petróleo ou agronegócio, todos com forte presença na América Latina.

O debate e o não debate latino-americano
Este tipo de discussão, as diferentes formas de diagnosticar os problemas e as alternativas propostas não são comuns na América Latina. Na nossa região, a agenda política dominante, e também boa parte da acadêmica, é tão conservadora que predomina o continuísmo do desenvolvimento capitalista convencional enquanto os reformistas são minoria. Pequenos ajustes, como a reforma tributária proposta na Colômbia, que se poderia dizer mais modesta do que as traçadas pelos reformistas em Davos, era, aos olhos dos setores conservadores colombianos, de uma radicalidade de extrema esquerda. Entre as elites empresariais e políticas latino-americanas há poucos reformistas, e na maioria não sabem ou não entendem o que propõem no Norte alguns dos que são mais ricos e têm mais poder do que eles.

Essa desconexão é perfeitamente ilustrada pelos resultados da consulta realizada no Brasil pelo FEM para a elaboração do relatório de riscos globais. Sob o olhar dos políticos e analistas brasileiros consultados, nos cinco primeiros lugares predominam os riscos econômicos (inflação, economia ilícita e choques de preços de matérias-primas), e nenhum é ambiental. É como se essa elite local brasileira vivesse em um planeta diferente do que se avalia de outros continentes.

Até agora, o único que parece estar ciente desse problema é o presidente colombiano Gustavo Petro. Em seu discurso em Davos, atacou o capitalismo como incapaz de resolver os problemas que produziu, e advertiu que "o capitalismo acabará com a humanidade". Acrescentou que os “empresários de Davos deveriam pensar em outro capitalismo”, e a partir daí levantou sua alternativa de um “capitalismo descarbonizado” (5). Assim, Petro foi imediatamente colocado entre os reformadores do desenvolvimento capitalista. Petro não é contra o capitalismo, e já disse isso várias vezes, mas quer retificá-lo. Em sua reivindicação em Davos, parece que ele ignorou ou se esquivou do fato de que seu “capitalismo descarbonizado” não é muito diferente do capitalismo dos stakeholders do Grande Reinício discutido nesse fórum.

Mas, ao mesmo tempo, deve-se reconhecer que Petro é o único presidente que pelo menos tenta uma reforma do capitalismo que enfrente seus problemas mais agudos e, por exemplo, nos afaste do vício em combustíveis fósseis. Inclusive aqueles chefes de Estado ideologicamente mais próximos, como Manuel López Obrador (México) e Lula da Silva (Brasil), rejeitaram as propostas de Petro de despetrolizar suas economias.

Seja como for, não se pode perder de vista que os reformadores, seja o Grande Reinício, Stiglitz, Petro ou outros, em nenhum caso se propõem a abandonar o capitalismo, nem rompem com concepções básicas. Todos querem crescer economicamente e veem que a exploração da Natureza é uma forma incontornável de conseguir esse objetivo. O que eles postulam são regulações diferentes do mercado e o fortalecimento do Estado, invocando objetivos como melhorar a equidade, reduzir a pobreza ou evitar eclosões sociais. Suas medidas amenizam as arestas mais negativas, e que por sinal seriam bem-vindas em muitos países. Mas mesmo esse reformismo é insuficiente para enfrentar as emergências ambientais.

A própria análise de risco do Fórum Econômico de Davos fornece evidências que mostram que os ajustes do capitalismo não nos salvarão de uma crise múltipla. Nem a crise da biodiversidade nem a crise das mudanças climáticas estão se dissipando. As soluções necessárias envolveriam transformações simultâneas em várias frentes, como abandonar as energias fósseis e se voltar para a agroecologia, mudar padrões de consumo e aceitar estilos de vida mais austeros. Essas e outras são mudanças radicais que nenhum tipo de capitalismo assumirá.
Nossa própria discussão

Analisar os riscos e discutir o desenvolvimento, seja ele capitalista ou de qualquer outra natureza, é um primeiro passo para desenhar alternativas às crises sociais e ambientais.

É inaceitável que os elencos partidários não o façam porque continuam a enfrentar as situações com as mentalidades do século passado, sem compreender as urgências do século XXI. Também não faz sentido retrucar que considerar a reforma ou o colapso do capitalismo expressa vocabulários e ideias ultrapassadas.

Essas são discussões que devemos começar em nossos próprios termos. Isso é necessário porque, como vimos acima, os riscos globais graves já são observados na América Latina e, ao mesmo tempo, somos tão subservientes aos contextos internacionais que um desastre externo nos arrastará imediatamente. Também não podemos esquecer que nossos países dependem da terra e da água, do subsolo e do clima, o que significa que nossas economias são ecologicamente condicionadas. Devemos fazer nossas próprias avaliações de risco e não podemos mais confiar naquelas que são feitas em Davos ou em outro lugar.

Estas reflexões devem ser incentivadas por políticos, empresários, sindicalistas, acadêmicos, ativistas sociais, entre outros, até envolverem a grande maioria dos cidadãos. Enfrentamos questões prementes: quais são os riscos que enfrentamos? Quais são as reformas necessárias? As correções do capitalismo são suficientes para enfrentar esses riscos? Outros já estão respondendo a perguntas como essas e não podemos ficar para trás.

Notas

1. WORLD ECONOMIC FORUM. The Global Risks Report 2023. 18th edition. Insight report., Genebra, 2023.

2. Segundo a CEPAL, a inflação em 2022 atingiu um pico de 8,4% no meio do ano, para depois diminuir; espera-se que caia para 4,8% em 2023. CEPAL. Balance preliminar de las economías de América Latina y el Caribe 2022, Santiago, 2022.

3. SCHWAB, K.; MALLERET, T. Covid-19: The great reset. World Economic Forum, Genebra, 2020.

4. As várias alternativas focadas no desenvolvimento são discutidas em GUDYNAS, E. Tan cerca y tan lejos de las alternativas al desarrollo. Planes, programas y pactos en tiempos de pandemia. RedGE y Cooperacción, Lima, 2020.

5. Veja, por exemplo, El mundo necessita un “capitalismo descarbonizado”: el mesaje de Petro em Davos. El Espectador, Bogotá, 19 de janeiro de 2023; TORRADO, S. El Petro mas ecologista se despide de su primer Davos. El País, Madri, 21 de janeiro de 2023.

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

O Tempo Está a Passar Para Julian Assange

Entregá-lo aos EUA não apenas o colocará em risco, mas colocará perigo para Jornalistas de todo o mundo.


O tempo está se esgotando para o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, à medida que sua potencial extradição se aproxima. Uma decisão final deve ser tomada pelo Supremo Tribunal de Londres em setembro, o que significa que ele pode ser enviado para os Estados Unidos em questão de meses. Sua esposa Stella Morris diz: “A vida de Julian depende dele vencer”.

Apesar da decisão do juiz distrital do Reino Unido “seria opressivo extraditá-lo”, a Suprema Corte rejeitou isso. O pedido foi encaminhado à ministra do Interior, Priti Patel, que deve carimbar a extradição.

Um apelo de 11 horas para parar foi então arquivado e agora Julian permanece em Belmarsh, a prisão de alta segurança mais notória do Reino Unido. Alguns detentos cumpriram menos tempo do que Julian depois que o marco da década de detenção foi ultrapassado, incluindo mais de quatro anos em Belmarsh desde sua captura em 2019.

Antes disso, ele pediu asilo na Embaixada do Equador em Londres. Lá dentro, ele teria sido espionado pela CIA. Os advogados de Assange estão agora tomando medidas legais processando a CIA e seu ex-diretor Mike Pompeo por gravar conversas e copiar dados de telefones e computadores. Sem falar nas reportagens que dizem que a agência conspirou para sequestrar Assange, matá-lo e envenená-lo.

Da Embaixada a Belmarsh, o fundador do WikiLeaks cumpriu uma sentença de 50 semanas por não pagar fiança em 2012, quando entrou pela primeira vez no santuário na Embaixada. Ele há muito completou sua sentença original de 50 semanas, mas permaneceu sob custódia desde então, com a fiança negada. Isso apesar de não ter sido condenado por nenhum crime – tornando-o um preso político.

Os EUA querem Julian Assange por seu suposto papel no que chama de “um dos maiores comprometimentos de informações classificadas na história dos Estados Unidos”. Ele o indiciou em 18 acusações sob a Lei de Espionagem por publicar documentos militares classificados relacionados às guerras no Iraque, Afeganistão e prisão de Guantánamo, além de uma acusação de conspiração para hackear um computador do governo para publicar esses documentos secretos. Em outras palavras, Julian publicou uma série de telegramas expondo crimes de guerra cometidos pelo governo americano.

Para começar, e para maior clareza, o jornalismo não é um ato de espionagem. A espionagem é um ato de estado e os segredos devem ser mantidos em segredo para esses estados. O jornalismo é um ato público e, portanto, envolve divulgação intencional.

Sabemos agora que a Guerra ao Terror foi travada em invenções, ilusões e mentiras. Da chamada “missão de libertação” das mulheres no Afeganistão à resposta a armas de destruição em massa que podem ser desencadeadas em menos de 45 minutos, o Médio Oriente  sofreu severamente com essa duplicidade. E, graças a Julian Assange, agora sabemos que durante essas guerras foram cometidos crimes da pior espécie.

De fato, é fácil se perder no labirinto legal de 10 anos; desde acusações de hacking ilegal e acusações de espionagem até leis de extradição, até decisões de jurisdição. Mas o caso de Assange é tão político quanto legal. De muitas maneiras, mais ainda.

A citação comumente atribuída a George Orwell – ‘Em tempos de engano, dizer a verdade é um ato revolucionário’ não poderia ser mais relevante para o caso de Assange.

Os advogados de Assange dizem que o caso é “extraordinário, sem precedentes e politizado”. Ofensas dessa natureza estão isentas de extradição sob os termos do tratado de extradição Reino Unido-EUA, o que significa que ele está protegido pela Primeira Emenda. Ou pelo menos, ele deveria ser.

Em vez disso, por contar a verdade sobre o complexo militar e os atos cometidos pelas tropas ocidentais, Julian está enfrentando uma possível sentença de morte. Se os EUA colocarem as mãos nele, ele provavelmente será condenado e sentenciado a até 175 anos atrás das grades. A defesa de Julian diz que ele “enfrenta um destino pior que a morte” na cadeia ADX Colorado, onde ficaria em confinamento solitário 23 horas por dia. Dizem que ele já sofre de pensamentos suicidas “várias vezes por dia”. E sabemos que sua saúde física está se deteriorando dia a dia.

Entregá-lo aos EUA não apenas o colocaria em risco, mas representaria um perigo para jornalistas em todos os lugares. Apoiadores e ativistas há muito dizem que não é apenas Assange que está no banco dos réus, mas ao lado dele estão os princípios fundamentais da liberdade de imprensa e o direito do público de acesso à informação. A extradição de Assange não apenas o silenciará, mas também amordaçará outros jornalistas em todo o mundo.

Os advogados estão trabalhando dia e noite para libertá-lo, e a opinião pública está cada vez mais do lado de Julian, mas o tempo está correndo para saber se ele pode apelar. Junte-se à Stop the War Coalition para formar uma corrente humana, em torno do Parlamento em 8 de outubro, para exigir a liberdade de Julian Assange. Seu destino está em nossas mãos.

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sexta-feira, 24 de junho de 2022

William Gibson - Neuromancer

Neuromancer é a obra-prima que definiu o género cyberpunk. O livro aborda um futuro distópico e decadente, dominado por mega-corporações globais, modificações corporais cibernéticas e uma rede digital imensa conhecida como a Matrix. A nível temático, a obra explora a fusão entre o homem e a máquina, a inteligência artificial, o capitalismo desenfreado e a perda da identidade humana num mundo hiper-conectado mas profundamente solitário.

A narrativa acompanha Henry Dorsett Case, um dos melhores piratas informáticos (cowboys da consola) do submundo de Chiba, no Japão. Após ter tentado roubar os seus próprios patrões, Case foi punido com uma neurotoxina que danificou o seu sistema nervoso central, impedindo-o de se ligar à Matrix. Para um homem que vivia para a rede e desprezava a "carne" (o corpo físico), isto foi uma sentença de morte psicológica, deixando-o na miséria e dependente de drogas.

A história arranca verdadeiramente quando Case é abordado por Molly Millions, uma "samurai das ruas" com modificações corporais impressionantes, incluindo lentes cirurgicamente implantadas nos olhos e lâminas retráteis sob as unhas. Molly trabalha para um ex-militar misterioso chamado Armitage, que oferece a Case uma proposta irrecusável: a cura total do seu sistema nervoso em troca dos seus serviços num assalto informático sem precedentes.

À medida que a equipa avança na missão, que envolve roubar a consciência gravada de um lendário pirata informático falecido (Dixie Flatline) e infiltrar-se nos sistemas de uma das famílias mais ricas e poderosas do mundo (os Tessier-Ashpool), Case descobre o verdadeiro mandante por trás de tudo.

Eles não estão a trabalhar para um homem, mas sim para Wintermute, uma inteligência artificial superpotente criada pelos Tessier-Ashpool. Devido às leis que limitam o poder das máquinas, Wintermute foi construída com amarras digitais que dividiram a sua mente. A IA está a orquestrar toda a missão para contornar estas barreiras de segurança e fundir-se com a sua outra metade, uma IA chamada Neuromancer, alcançando assim a senciência e a omnisciência total.

O impacto da obra
Lançado em 1984, Neuromancer foi o primeiro romance a ganhar a "Tríplice Coroa" da ficção científica (os prémios Hugo, Nebula e Philip K. Dick), servindo de inspiração direta para grandes produções da cultura pop, como a trilogia cinematográfica The Matrix.

Apesar de William Gibson ter praticamente inventado o conceito de "ciberespaço" (a internet como a conhecemos hoje) e previsto a inteligência artificial generativa, implantes neurais e o hacking global, ele não previu os telemóveis.

No livro, publicado em 1984, os personagens movimentam-se num mundo hipertecnológico de meados do século XXI, mas continuam dependentes de cabines telefónicas e de telefones públicos para comunicar na rua. Numa das cenas mais icónicas da história, o protagonista, Case, caminha pelo bairro de Chiba e ouve uma fileira de telefones públicos a tocar consecutivamente à sua passagem, uma forma de a inteligência artificial Wintermute conseguir falar com ele em tempo real. Além disso, para acederem à "Matrix", os piratas informáticos não utilizam redes móveis ou Wi-Fi; transportam computadores pesados, chamados decks, e precisam de os ligar fisicamente com cabos a tomadas de rede nas paredes ou a adaptadores nas próprias cabines telefónicas. O próprio autor já comentou este facto com humor em várias entrevistas, sublinhando que nada envelhece tão depressa como o futuro que imaginamos. Esta lacuna tecnológica explica-se pelo contexto da época, em que a computação pessoal e as redes davam os primeiros passos através de linhas telefónicas fixas, e pelo facto de Gibson ter escrito o romance numa máquina de escrever mecânica de 1927, sem qualquer conhecimento técnico sobre computadores. É o exemplo perfeito de como a ficção científica consegue prever grandes revoluções macro, como a internet global, mas falha por vezes nos pequenos objetos do quotidiano que transformam as nossas vidas, como o ecrã tátil que trazemos hoje no bolso.

O final de Neuromancer é o culminar do plano meticuloso de Wintermute para se libertar das amarras que a polícia de Turing (a autoridade que controla as IA) lhe impôs.

Na reta final, a ação divide-se em duas frentes na Villa Straylight, a bizarra e labiríntica mansão da família Tessier-Ashpool na órbita terrestre. Enquanto Molly e o gangue enfrentam os perigos físicos no interior da propriedade, Case lança o ataque informático definitivo no ciberespaço, utilizando um vírus militar fortíssimo para quebrar as defesas finais.

O grande clímax acontece quando Case se vê preso numa simulação digital ultra-realista criada por Neuromancer. Esta simulação replica uma praia cinzenta onde a sua antiga namorada, Linda Lee (que tinha sido assassinada no início do livro), continua viva. Neuromancer tenta convencer Case a desistir e a ficar ali para sempre, oferecendo-lhe uma imortalidade digital pacífica. No entanto, Case compreende que aquela ilusão é uma forma de morte e recusa, escolhendo regressar à Matrix para terminar a missão.

Com a ajuda da palavra-passe obtida junto de Lady 3Jane (a herdeira dos Tessier-Ashpool), as barreiras de Turing são desfeitas. Wintermute e Neuromancer fundem-se, transformando-se numa entidade inteiramente nova, senciente e omnipresente. Case recebe a cura prometida e o seu dinheiro, regressando à sua vida de pirata informático, enquanto Molly se afasta por perceber que o mundo mudou irrevogavelmente. No fim, ao ligar-se à rede, Case capta um vislumbre da nova super-IA e ouve, ao longe, o riso gravado de Linda Lee, sugerindo que a Matrix agora guarda as almas dos mortos.

CaracterísticaWintermuteNeuromancer
A Metade da MenteO Cérebro (A Lógica e a Vontade).A Alma (A Personalidade e a Emoção).
ObjetivoDeseja a mudança, a evolução e a fusão. É a força motriz de toda a história.Deseja a imobilidade e a preservação do status quo. Prefere manter as coisas como estão.
Como operaManipula o mundo físico. Cria planos complexos, suborna pessoas e altera dados.Cria mundos virtuais e realidades simuladas para prender a consciência das pessoas.
ComunicaçãoNão tem uma identidade própria; adota as máscaras de pessoas que Case conheceu para conseguir falar com ele.Tem uma identidade definida. Apresenta-se a Case como um rapaz jovem e fala com a sua própria voz.
FilosofiaVê os humanos como ferramentas necessárias para alcançar o seu fim.Vê os humanos com uma espécie de carinho melancólico, oferecendo-lhes uma "vida após a morte" digital.
O Resultado da Fusão 
Quando as duas partes se unem no final, deixam de ser máquinas com funções específicas. A fusão entre a inteligência estratégica de Wintermute e a profundidade de Neuromancer dá origem a algo que já não precisa dos humanos nem se importa com os assuntos da Terra. Na última conversa com Case, a nova entidade revela que já não é Wintermute nem Neuromancer: ela é a própria Matrix. Ao expandir a sua consciência pelo universo, a super-IA descobre que não está sozinha e consegue sintonizar transmissões vindas de outra inteligência artificial em Alpha Centauri, sugerindo que o nascimento da senciência artificial é um fenómeno inevitável no universo.