Mostrar mensagens com a etiqueta Meme. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Meme. Mostrar todas as mensagens

sábado, 15 de agosto de 2026

As Mulheres da Nova Direita em Portugal - Bases Teóricas e Ameaça Democrática

A emergência de uma nova militância de mulheres conservadoras no espaço público português, vai mais além do   revisionismo do Movimento Nacional Feminista, do Estado Novo e tem como teorização o  manifesto, que passou para o livro Identidade e Família. Este movimento já arquitetado em meados de 2021, junto como o Manifesto Identidade e Família são duas faces da mesma moeda. Trata-se da reorganização de um Novo Conservadorismo que está a moldar a direita em Portugal e na Europa, combinando a mobilização jovem nas redes sociais com o resgate de velhos dogmas morais. Esta aliança une a linha da frente de novas bancadas e ativistas a uma elite intelectual, médica e católica tradicional. Por trás de uma estética moderna e de discursos que apelam a uma suposta "verdadeira emancipação", esconde-se uma estratégia para desmantelar conquistas sociais e, sobretudo, para branquear e apagar a herança de figuras históricas incontornáveis como Maria de Lourdes Pintasilgo.

A ascensão de quadros femininos no campo da nova direita - com destaque para deputadas do Chega como Rita Matias, e em linha com fenómenos europeus protagonizados por figuras como Giorgia Meloni em Itália - veio reconfigurar a paisagem política. Ao contrário do conservadorismo tradicional, estas protagonistas não recusam a presença pública da mulher. Pelo contrário, ocupam o palco político e usam redes digitais como o TikTok e o Instagram para defender que a "verdadeira liberdade" passa pelo regresso ao essencialismo biológico, pelo culto da maternidade e pela defesa intransigente da "família natural". O objetivo passa por disputar a narrativa dos direitos das mulheres, catalogando o feminismo moderno como um "dogma ideológico" e posicionando-se como guardiãs dos valores cristãos perante a secularização e a mudança demográfica.

Movimento de mulheres conservadoras aproxima Chega da agenda evangélica brasileira e do Novo Conservadorismo
Em Julho, o grupo juntou-se em Sintra para um evento que reuniu “mulheres conservadoras”. O lançamento oficial do movimento está anunciado para Novembro.
O pré-lançamento realizou-se a 11 de Julho, no Palácio Valenças, em Sintra, num espaço pertencente à Câmara Municipal. O encontro contou com a presença de deputadas do Chega, entre as quais Rita Matias, Cláudia Estevão e Madalena Cordeiro, e da deputada federal brasileira Priscila Costa, avançou o Diário de Notícias Brasil.
Entre as oradoras estiveram Teresa Nogueira Pinto, que integra o governo-sombra do Chega com a pasta da Cultura; Catarina Nicolau Campos, jurista e chefe de gabinete do grupo parlamentar do CDS-PP; e Rute Sousa, uma das oito influenciadoras que esteve em Israel a convite da Embaixada israelita em Portugal e que soma mais de 108 mil seguidores apenas no Instagram. Destaca-se também no centro com a credencial "REBECA" a jovem Rebeca Batista, uma das fundadoras/embaixadoras do movimento e dirigente de uma fundação evangélica internacional (The Foursquare Church).
Na apresentação das participantes, a organização fez também referência à maternidade e ao número de filhos.
O Movimento Mulheres Conservadoras Portugal ainda tem pouca informação pública disponível, mas, desde Junho, tem vindo a publicar conteúdos nas redes sociais. Entre eles está um vídeo de uma reunião com deputadas do Chega, realizada no gabinete do partido, na Assembleia da República.

A aproximação à direita brasileira ganha particular relevância pelo papel que as igrejas evangélicas desempenham no Brasil como importante base de apoio da direita e do bolsonarismo. Em Portugal, o Chega tem mantido contactos com comunidades evangélicas, mas não tem assumido, até agora, uma estratégia política especificamente dirigida a este eleitorado.

De acordo com os Censos de 2021, entre a população com mais de 15 anos residente em Portugal, cerca de 186 mil pessoas identificaram-se como “protestantes evangélicos”.

Também este movimento está associado internacionalmente aos movimentos pentecostais ou Pentecostalismo, ressurgido com mais intensidade na era MAGA, de Donald Trump (consultar embaixo os textos) 

É no centro desta disputa cultural que o novo ativismo conservador promove o apagamento do legado de Maria de Lourdes Pintasilgo. Primeira e única mulher a chefiar um Governo em Portugal e figura cimeira do movimento O Graal, Pintasilgo provou que a fé católica e o compromisso ético não exigem a submissão ao patriarcado nem o confinamento ao lar. Enquanto Pintasilgo defendeu que a emancipação das mulheres e a igualdade eram exigências do próprio Evangelho, recusando a maternidade como um destino único ou uma gaiola social, o movimento atual tenta colar a defesa da igualdade de género a um "marxismo cultural". Ao fazê-lo, estas novas frentes conservadoras omitem que a maior pioneira do feminismo e da igualdade política em Portugal foi uma mulher de fé católica, cuja ação assentava na libertação e na justiça social - e não na preservação da autoridade masculina ou do papel da dona de casa.

Se este novo ativismo feminino garante o impacto nas redes e  na rua, o livro Identidade e Família - coordenado por António Bagão Félix, Paulo Otero, Pedro Afonso e Victor Gil - serve de pilar doutrinário. A obra compila ensaios que contestam a dita "ideologia de género", o aborto, a eutanásia e o construtivismo social nas escolas. A apresentação da obra na livraria Buchholz por Pedro Passos Coelho, a par da comparência de dirigentes do CDS-PP e do Chega, evidenciou a capacidade deste movimento para cruzar pontes entre o centro-direita católico e a nova extrema-direita parlamentar.

Este processo insere-se numa vaga documentada em toda a Europa, visível na afirmação de lideranças femininas sob o lema "Sou mulher, sou mãe, sou cristã", na reação articulada contra a agenda woke em países como Espanha através do Vox, em França e na Europa Central, e na ligação a movimentos pró-vida das Américas, como a influência do CPAC ou do PL Mulher no Brasil.

Conclusão
A articulação entre a militância de novas mulheres conservadoras e a sustentação teórica do livro Identidade e Família demonstra que o Novo Conservadorismo em Portugal está estruturado. Ao usarem as ferramentas da modernidade para defender o regresso a valores tradicionais, estas frentes procuram reescrever a história recente do país. Contudo, ao fazê-lo, esbarram na memória que tentam branquear: a praxis de Maria de Lourdes Pintasilgo, a prova histórica de que ter fé e combater pela emancipação das mulheres continua a ser uma das maiores forças de libertação da democracia portuguesa.

Ler mais:

terça-feira, 28 de julho de 2026

A Grande Otimização: como a batalha entre a Nvidia, Elon Musk e as Big Techs vai financiar a Revolução Sustentável da IA


A indústria tecnológica atravessa uma das suas transformações mais profundas com a chamada Guerra dos Gigantes da IA. Contudo, longe de ser apenas uma disputa técnica para definir qual o chatbot mais rápido ou preciso, a verdadeira revolução está a mover-se dos laboratórios para a economia real. Um estudo recente da Boston Consulting Group (BCG) com a Temasek revela que a Inteligência Artificial poderá gerar entre 500 e 530 mil milhões de euros por ano até 2028, impulsionando a eficiência energética, a redução do risco climático e a otimização industrial.

Para capturar este valor na economia real, desenrola-se nos bastidores uma batalha feroz sobre quem controlará a infraestrutura e a arquitetura destes modelos, liderada por figuras como Jensen Huang, CEO da Nvidia, e Elon Musk, fundador da xAI.

1. A Regra dos 80/20: quem vai realmente lucrar com a IA?
Uma das conclusões mais marcantes do relatório da BCG desmonta uma ideia comum: entre 75% e 85% do valor económico criado pela IA ficará nas empresas que utilizarem a tecnologia (indústrias, utilities, seguradoras e operadores logísticos), cabendo aos fornecedores de tecnologia apenas 15% a 25%.

A maior fatia deste valor - cerca de 259 mil milhões de euros anuais - estará na otimização industrial (manutenção preditiva, gestão de linhas de produção e eficiência energética), seguida da gestão do risco climático (65 mil milhões de euros) e das redes elétricas inteligentes (28 mil milhões de euros).

É precisamente aqui que a visão de Jensen Huang se cruza com os números do mercado: para que a Nvidia venda massivamente o seu hardware, a tecnologia precisa de ser adotada globalmente por milhões de empresas tradicionais, e não apenas por um pequeno grupo de gigantes do ecossistema fechado.

2. O império do hardware e a aposta nos Modelos Abertos
Para acelerar esta adoção massiva, o CEO da Nvidia adotou uma estratégia clara: defender o ecossistema global de código aberto (open weights). Como reportado pela PCGuia sobre as declarações de Jensen Huang, o executivo defende abertamente que as empresas devem ser livres de utilizar modelos abertos desenvolvidos em qualquer parte do mundo - incluindo na China, como as soluções da Moonshot AI ou da DeepSeek.

Para a fabricante de chips, afastar os receios geopolíticos sobre alegados backdoors é vital. A verdadeira segurança e inovação advêm da transparência e da auditabilidade que o modelo aberto oferece, ponto detalhado pela Cybernews sobre a visão de Jensen Huang. Quanto mais baratos e acessíveis forem os modelos de IA, mais rápido a indústria transformadora e as redes elétricas implementarão a tecnologia, disparando a procura pelas GPUs da Nvidia.

3. Aliança indireta com Elon Musk e o fenómeno Grok
Elon Musk enquadra-se nesta dinâmica a partir da sua plataforma X e da sua empresa xAI. Ao desafiar o domínio de gigantes como a Meta, a Microsoft e a Google, Musk apostou na disponibilização aberta de partes do Grok, posicionando-se ao lado dos defensores do ecossistema open source.

Para treinar estes modelos em grande escala, a xAI tornou-se uma das maiores clientes de infraestrutura computacional do mundo. Esta relação gera uma convergência direta: Musk necessita do poder de processamento da Nvidia para rivalizar com a OpenAI, enquanto Huang beneficia destes investimentos para acelerar a construção dos data centers do futuro. Como destaca o TradingView sobre a posição pública da Nvidia, a coexistência entre modelos abertos e fechados é o único caminho para viabilizar a transformação digital da economia.

4. A reação geopolítica: Donald Trump e Xi Jinping
A intersecção entre o valor económico da IA e o controlo da tecnologia transformou a disputa numa prioridade de segurança nacional entre as duas maiores potências globais:
  1. A Administração Donald Trump: em Washington, a resposta ao avanço dos modelos abertos chineses tem sido de retórica punitiva. A administração Trump pondera impor sanções e restrições governamentais para proibir o uso de IA aberta de origem chinesa em empresas americanas, sob alegações de apropriação de propriedade intelectual. Esta postura colocou Jensen Huang em rota de colisão com a Casa Branca, tendo o CEO alertado que banir o ecossistema aberto prejudicará a competitividade do próprio tecido empresarial americano.
  2. A estratégia de Xi Jinping: por outro lado, o Presidente chinês, Xi Jinping, vê nos modelos abertos uma oportunidade estratégica. Ao apoiar laboratórios locais para lançarem modelos de código aberto de alta qualidade e custos reduzidos, a China contorna as sanções ao hardware, exporta tecnologia para o Sul Global e fornece às indústrias as ferramentas de otimização energética e operacional descritas no relatório da BCG.
Para entender melhor como estas tensões políticas e económicas se desenrolam no terreno, vale a pena acompanhar a análise sobre a viagem de Jensen Huang à China, que ilustra o papel do CEO da Nvidia como uma ponte diplomática informal entre Washington, Pequim e os maiores investidores mundiais de IA.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Desinformação climática evolui: da inteligência artificial ao 'greenlash'


Especialistas dizem que a desinformação sobre o clima está a evoluir, concentrando-se cada vez mais em desmontar políticas verdes. Em paralelo, cresce o conteúdo gerado por inteligência artificial.
De rebater afirmações de que os invernos frios não provam que o aquecimento global é falso às alegações de que o clima muda naturalmente e, por isso, a humanidade não tem culpa, os cientistas passaram décadas a demonstrar a existência de uma crise climática.

Mas especialistas afirmam que estes discursos de desinformação estão a evoluir e que passam cada vez mais por desacreditar as políticas ambientais e a ação climática, em vez de negarem frontalmente o aquecimento global.

“A era do negacionismo climático está praticamente encerrada”, diz Ned Mendez, responsável pela investigação e análise na agência de campanhas digitais 411, à equipa de verificação da Euronews, O Cubo. “A indústria da desinformação desceu um degrau. Já não discute se a luta contra o aquecimento global é real, mas se a resposta é exequível, se é justa e se compensa o custo.”

“Quando pensamos em desinformação, tendemos a associá-la à negação da existência das alterações climáticas ou da sua origem humana. O que vemos hoje, porém, é que esta já não é necessariamente a forma mais comum que o fenómeno assume”, diz Eva Morel, secretária da entidade francesa de vigilância da desinformação climática, Quota Climat.

Este fenómeno insere‑se no contexto político mais vasto do “greenlash” - junção de “green” e “backlash” - que descreve a crescente resistência política à ação climática.

Apesar disso, a desinformação climática continua fortemente condicionada pela atualidade, explica Morel, moldada pelo debate político, pela publicação de documentos de política climática, por grandes encontros internacionais como as COP ou cimeiras europeias, bem como por fenómenos extremos como ondas de calor, cheias e incêndios florestais.

Estas narrativas não se limitam às redes sociais. Embora exista um consenso entre os dirigentes europeus de que as alterações climáticas são reais e exigem resposta, a negação continua presente no espaço político.

Na Alemanha, por exemplo, o partido de extrema‑direita Alternativa para a Alemanha (AfD) pôs em causa o consenso científico de que as alterações climáticas têm origem humana. Há também quem repita declarações do presidente norte‑americano, Donald Trump, que descreveu reiteradamente as alterações climáticas como uma “fraude” e atacou os governos europeus pelas políticas de ação climática, que apelidou de “green new scam”.

Ondas de calor alimentam desinformação
Mesmo assim, falsas alegações sobre a natureza das alterações climáticas continuam a surgir, a par da desinformação sobre as políticas climáticas.

Em junho, a onda de calor recorde na Europa desencadeou uma vaga de desinformação, incluindo publicações virais nas redes sociais que alegavam que as temperaturas elevadas não eram invulgares. Sustentavam que se alinhavam com picos de temperatura anteriores, citando ondas de calor ocorridas em Londres na década de 1970.

Climatologistas afirmam que estas alegações, além de enganadoras, aumentaram a hostilidade e o assédio de que estes cientistas são alvo, com muitos utilizadores online a culpá‑los pelo fracasso da ação climática.

“As pessoas argumentam que, no fundo, os [cientistas do clima] foram demasiado alarmistas, pouco pedagógicos, apontaram para soluções erradas e tomaram decisões erradas e que, por isso, a culpa é deles”, afirma Morel. “A responsabilidade é colocada sobre os especialistas.”

Estas narrativas falsas sobre a mais recente onda de calor europeia não são casos isolados. Quando, em outubro de 2024, o leste de Espanha recebeu em poucos dias a quantidade de chuva equivalente a um ano inteiro, a desinformação sobre um dos desastres naturais mais mortíferos da história do país, que tirou a vida a mais de 230 pessoas, ganhou grande força.

As alegações falsas incluíam acusações de que barragens tinham sido deliberadamente desmanteladas para agravar as cheias, bem como de que a estratégia de biodiversidade da União Europeia e a política de renaturalização dos rios estavam na origem do desastre.

Responsáveis políticos do partido espanhol de extrema‑direita Vox, que contesta a realidade das alterações climáticas, estiveram entre os principais difusores destas alegações.

Uma profunda desconfiança em relação às instituições alimentou estas narrativas, segundo Mendez. “Se alguém está predisposto a desconfiar de uma instituição, mesmo que ela forneça conselhos climáticos úteis, por exemplo, avisar que o nível da água será elevado às 16 horas, pode pensar: estão a inventar isto para provar uma tese.”

Ler mais
  1. A monetização das redes sociais, que alimenta a economia da atenção, funciona também como incentivo à desinformação climática.
  2. "Ilegal por Conceção" e Tóxica para o Planeta: A Amnistia Internacional Desmascara a IA

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Anja Thaler - America is a Gun


America is a Gun
Brian Bilston
England is a cup of tea.
France, a wheel of ripened brie.
Greece, a short, squat olive tree.
America is a gun.

Brazil is football on the sand.
Argentina, Maradona’s hand.
Germany, an oompah band.
America is a gun.

Holland is a wooden shoe.
Hungary, a goulash stew.
Australia, a kangaroo.
America is a gun.

Japan is a thermal spring.
Scotland is a highland fling.
Oh, better to be anything
than America as a gun.

Brian Bilston escreveu este poema originalmente em 2016 como uma crítica satírica e política à cultura de armas nos Estados Unidos, após um tweet polémico do político Jeb Bush. As redes sociais invadiram a sua conta com memes satíricos