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sexta-feira, 26 de junho de 2026

Pode HAARP provocar terramotos? Verdade por trás do boato que surge após cada desastre natural


Sempre que ocorre um grande desastre natural, o termo HAARP volta a ser tendência nas redes sociais. Já aconteceu depois de terramotos, furacões, inundações ou incêndios florestais. Os recentes sismos registados na Venezuela não foram exceção.

Em plataformas como a X circularam mensagens que afirmavam, sem provas, que os Estados Unidos teriam usado o projeto HAARP para provocar os terramotos. Vários meios especializados em verificação desmentiram estas afirmações e lembram que não existe evidência científica que as sustente.

O que é afinal o projeto HAARP
HAARP é o acrónimo de High-frequency Active Auroral Research Program (Programa de Investigação de Aurora Ativa de Alta Frequência). Trata-se de uma instalação científica situada no Alasca cujo objetivo é estudar a ionosfera, uma camada da atmosfera terrestre localizada entre cerca de 60 e mais de 500 quilómetros de altitude.

Segundo explica a própria entidade, utiliza ondas de rádio de alta frequência para gerar pequenas perturbações controladas nessa região da atmosfera e compreender melhor fenómenos que afetam as comunicações por rádio, a navegação por satélite e outros sistemas tecnológicos. Entre 1993 e 2014 foi gerida pela Força Aérea e pela Marinha dos Estados Unidos e, desde 2015, pertence à Universidade do Alasca Fairbanks.

A instalação sublinha ainda que as suas experiências são públicas e que a investigação está centrada exclusivamente no estudo da ionosfera.

Porque é associado a terramotos e outros desastres
Apesar de o programa ter uma finalidade científica, há anos que o HAARP é alvo de numerosas teorias da conspiração.

Em diferentes momentos foi-lhe atribuída falsamente a capacidade de provocar terramotos, furacões, inundações, incêndios florestais ou até controlar o clima. Após a DANA que assolou a Comunidade Valenciana em outubro de 2024, por exemplo, voltaram a circular nas redes sociais mensagens que garantiam, sem provas, que a catástrofe tinha sido provocada pelo HAARP.

Uma investigação da equipa de verificação da Euronews documentou como estas teorias da conspiração se propagaram em diferentes idiomas e desmontou várias das afirmações que se tornaram virais.

Narrativas semelhantes também reapareceram após os terramotos em Marrocos e na Birmânia ou depois do furacão Milton nos Estados Unidos. Após os terramotos na Venezuela, voltaram a difundir-se publicações que afirmavam que os Estados Unidos tinham utilizado o HAARP para danificar infraestruturas do país ou provocar os sismos. Mas trata-se de um boato sem base científica.

Pode o HAARP provocar terramotos ou controlar o clima
A resposta, segundo os responsáveis pelo projeto e a comunidade científica, é negativa.

No seu apartado de perguntas frequentes, o HAARP salienta que as ondas de rádio que utiliza interagem apenas com a ionosfera e não com a troposfera nem com a estratosfera, as camadas inferiores onde se desenvolve o tempo atmosférico. Por isso, garante que não tem capacidade para modificar o clima.

Os investigadores acrescentam que o HAARP também não pode provocar nem intensificar fenómenos naturais como terramotos, furacões ou inundações. Os sinais emitidos pelo HAARP destinam-se a estudar processos físicos na atmosfera superior e não têm capacidade para alterar a crosta terrestre nem os processos geológicos responsáveis pelos sismos.

Os verificadores que analisaram as mensagens difundidas após o terramoto na Venezuela recordam ainda que não existe nenhuma evidência científica que relacione o HAARP com a atividade sísmica.

Teoria da conspiração que ressurgue após cada grande desastre
O caso da Venezuela segue um padrão habitual na desinformação sobre fenómenos naturais. Sempre que ocorre um terramoto ou um episódio meteorológico extremo, voltam a surgir publicações que atribuem o fenómeno a tecnologias secretas ou a alegadas armas climáticas, apesar de não existir evidência científica que sustente essas afirmações.

O HAARP tem sido um dos protagonistas recorrentes dessas narrativas. As autoridades do projeto insistem que o HAARP tem uma finalidade exclusivamente científica: estudar a ionosfera para melhorar o conhecimento sobre as comunicações e o denominado 'clima espacial', um conceito distinto do clima terrestre. Segundo os responsáveis, a instalação não tem capacidade para controlar o clima nem para provocar terramotos.

segunda-feira, 9 de março de 2026

‘A very dangerous person’: alarm as Pete Hegseth revels in carnage of Iran war

Not a single senator probed the most dangerous part of Hegseth's background: his support for white Christian nationalism [Fonte]

Critics say brash, bombastic Fox News host out of his depth to guide US military through murky new Middle East conflict



Brash and bellicose, he sounded more like a cartoon bully than a sombre statesman. “Death and destruction from the sky all day long,” Pete Hegseth, wearing a red, white and and blue tie and pocket square, bragged to reporters at the Pentagon near Washington. “This was never meant to be a fair fight, and it is not a fair fight. We are punching them while they’re down, which is exactly how it should be.”

Hegseth, 45, a former Fox News TV host who now commands the world’s most powerful military, has this week become the face of Donald Trump’s war in Iran. That has set off alarm bells for critics who warn that the Secretary of Defense – pointedly rebranded “Secretary of War” – has rapidly transformed the Pentagon into the staging ground for an ideological and religious crusade.

With machismo, Christian nationalism and callousness toward the lives of US troops, they say, Hegseth’s puerile displays on TV are aimed at sating Trump’s desire for a warmonger worthy of the manosphere. This was reinforced by a lurid social media video that intersperses clips from Hollywood blockbusters such as Braveheart, Gladiator, Superman and Top Gun with Hegseth and real kill-shot footage of the attacks in Iran.

Janessa Goldbeck, chief executive of Vet Voice Foundation, a nonprofit advocacy organisation, said: “Pete Hegseth is a very dangerous person. He’s a white Christian nationalist and has the arsenal of the United States government at his disposal and a permission slip from President Trump to deploy carnage wherever he wishes against whomever he wishes.”

Hegseth’s rise would have been unthinkable under any other commander-in-chief. Born in Minneapolis, he studied politics at Princeton University and became publisher and editor of the Princeton Tory, a conservative student journal, where he frequently waded into culture-war issues such as feminism and homosexuality.

After leaving Princeton, Hegseth joined the US army national guard as an infantry officer. His service included deployments to Guantánamo Bay in Cuba and tours of Iraq and Afghanistan. He later revealed in a book that he told soldiers under his command in Iraq to ignore legal advice about when they were permitted to kill enemy combatants under their rules of engagement.

Hegseth became chief executive of Concerned Veterans for America, a conservative advocacy group, but departed in 2016 amid allegations of financial mismanagement, sexual impropriety and personal misconduct.

In 2018 Hegseth’s mother, Penelope, sent him an email that said: “You are an abuser of women – that is the ugly truth and I have no respect for any man that belittles, lies, cheats, sleeps around, and uses women for his own power and ego. You are that man (and have been for years) and as your mother, it pains me and embarrasses me to say that, but it is the sad, sad truth.”

Hegseth subsequently became a familiar face on TV as a contributor and co-host of Fox & Friends on Fox News, frequently interviewing Trump and defending his policies. He once wrote that, in the event of a Democratic election win, “the military and police … will be forced to make a choice” and “Yes, there will be some form of civil war”.

But Trump prevailed in 2024 and nominated Hegseth to serve as secretary of defence. At his confirmation hearing, senators raised serious questions about his record: disparaging remarks about women serving in the armed forces; allegations that he drank while on duty; claims of sexual assault and misconduct; his troubled tenure running two small veterans’ nonprofit organisations; and his lack of experience for a post overseeing the world’s most powerful military.

The Senate ultimately split 50–50, forcing the vice-president, JD Vance, to cast the tie-breaking vote. As defence secretary Hegseth has vowed to “unleash overwhelming and punishing violence” on enemies and promised to dispense with “stupid rules of engagement” – rules designed to restrict attacks on civilian populations.

Now, in his first week guiding the nation through a murky new Middle East conflict, Hegseth has largely forgone the solemnity of a traditional defence secretary in favour of the performative antics of a partisan broadcaster revelling in America’s capacity to inflict violence.

For years he had cultivated a hypermasculine “muscleman” aesthetic designed to play to Trump’s sensibilities and the rightwing media ecosystem. Now, faced with a geopolitical crisis that demands nuance and strategic foresight, he appears to many to be out of his depth.

Goldbeck, a Marine Corps veteran who was deployed overseas as a combat engineer officer, commented: “I wish I could say how cavalier, obtuse and hopeless Secretary Hegseth is at leading the Pentagon. I can’t even muster the words to describe his self-adulation, matched only in scope by his apparent moral depravity.”

She added: “Let’s not forget that Pete Hegseth is a former morning-show Fox News TV host, and has this cartoonish persona, speaking what he thinks is tough-guy language, but sounds to me as a veteran and to many of my peers who served in combat like somebody who is completely inept and pretending to have this macho persona.

“Honestly, it’s embarrassing. We know this guy is incompetent. I wouldn’t feel safe leaving Pete Hegseth in charge of putting together a DoorDash order.”

Hegseth at the International Christian Media Convention in Nashville last month. [Fonte]

Former White House officials share the concerns. Brett Bruen, president of the public affairs agency Global Situation Room and former global engagement director of the Barack Obama administration, said: “Hegseth is ill-suited for the kind of reassurance and strategy that Americans and our allies need to hear from the Pentagon right now.

“They don’t need a bumper sticker. They don’t need the bravado and the brashness that he brings. They need to know that America’s military is in strong, stable hands and what we have seen in his first couple of war press conferences is an inability to move beyond this Fox personality and into the role of leader of our nation’s military at a time of war.”

During his Pentagon briefing on the war on Wednesday, Hegseth adopted a bombastic tone, saying of Iranian leaders: “They are toast and they know it. Or at least soon enough they will know it. America is winning – decisively, devastatingly and without mercy.”

He bashed “fake news” while addressing the six army reservists killed in an Iranian attack on an operations center in Kuwait. “When a few drones get through or tragic things happen, it’s front-page news. I get it. The press only wants to make the president look bad. But try for once to report the reality. The terms of this war will be set by us at every step.”

The comments provoked uproar for their lack of empathy for America’s fallen. Jeremy Varon, a history professor at the New School for Social Research in New York, said: “That’s outrageous. You have a national effort by all media regardless of partisan bent to memorialise and honour the dead and he sees that simply as a tactic to bring down Trump.”

There was another aspect of Hegseth’s personality barely addressed by the Senate: his sympathy for Christian nationalism. Photos have shown him bearing two tattoos associated with crusader imagery. One depicts the Jerusalem cross – a cluster of five crosses long connected to medieval crusader iconography – on his chest.

Nearby is an image of a sword accompanied by the Latin phrase “Deus vult”, meaning “God wills it”, a slogan historically linked to the crusades and revived in recent years by various far-right groups. It appeared on clothing and flags carried by some participants in the January 6 Capitol attack.

Nor are the references merely symbolic. In his 2020 book, American Crusade, Hegseth wrote that those who benefit from “western civilisation” should “thank a crusader”. The book suggests that democratic politics alone may not suffice to achieve the goals of his political allies, declaring: “Voting is a weapon, but it’s not enough. We don’t want to fight, but, like our fellow Christians one thousand years ago, we must.”

There have been reports of more troubling behaviour. The New Yorker reported that a colleague at Concerned Veterans for America complained that he and another man repeatedly shouted “Kill all Muslims!” during a drunken episode at a bar while travelling for work.

Hegseth has previously endorsed the doctrine of “sphere sovereignty”, a worldview derived from the extremist beliefs of Christian reconstructionism (CR). The philosophy calls for capital punishment for homosexuality and strictly patriarchal families and churches.

The defence secretary attends Pilgrim Hill Reformed Fellowship, a church linked to the Communion of Reformed Evangelical Churches, a denomination co-founded by the pastor Doug Wilson, who has openly advocated a theocratic vision of society in which wives should submit to their husbands and women should be denied the vote. Wilson recently led a worship service at the Pentagon at Hegseth’s invitation.

Robert P Jones, president and founder of Public Religion Research Institute thinktank in Washington, said: “This is not one or two comments. It’s not a kind of one-off behaviour. This is like a longstanding publicly demonstrated orientation that Hegseth has. It’s not just a glorification of violence but a glorification of violence in the name of Christianity and civilisation.”

The Military Religious Freedom Foundation (MRFF) says it has received more than 200 complaints from service members about military commanders invoking extremist Christian rhetoric about biblical “end times” to justify involvement in the Iran war. Such language could also be offensive to Arab allies and provide Iran with the fodder it needs to justify its own holy war against the US.

Jones warned: “It casts this not as anything related to the public – is it about a nuclear programme? Is it about sponsoring terrorism? – which are legitimate political concerns. It takes it out of the realm of politics and casts it as a holy war of a supposedly Christian nation against a Muslim nation.”

Doug Pagitt, a pastor and executive director of the progressive Christian group Vote Common Good, compares Hegseth’s worldview to the historical heresy of Constantine, who allegedly painted a cross on his shield to conquer in the name of God – a theology the broader Christian church has spent centuries trying to distance itself from following the horrors of the Crusades.

Pagitt said: “It seems to me that Pete Hegseth has a worldview, which is contorted toward thinking that this administration has a particular divine calling. He believes – because he said it – that God has uniquely ordained Donald Trump and those that he chooses to accomplish very specific purposes in the world.

“Pete Hegseth’s own version of Christianity is one that’s built around a certain Christian advancement that comes through the domination of the governments of nations. He believes that not only is the military at his disposal to use for his purposes but it’s there to fulfill God’s agenda for the world.”

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sábado, 3 de janeiro de 2026

Ainda a invasão da Venezuela por Trump


“Todos os Membros devem abster-se, nas suas relações internacionais, da ameaça ou do uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado, ou de qqer outra forma incompatível com os Propósitos das Nações Unidas"
Art. 2º, §4º, da Carta ONU

Meia dúzia de notas sobre Trump e  Nicolás Maduro.
1. Maduro e Trump estão bem um para o outro. Trump, perdeu as eleições de 2020 e recusou reconhecer o resultado, algo inédito na história moderna dos EUA. Tentou pressionar instituições para reverter o resultado eleitoral. Trump tentou manter o poder contra o resultado eleitoral.

2. Em maio de 2018, Maduro foi reeleito para um mandato de seis anos numa polémica eleição, não reconhecida pela oposição, pela Organização dos Estados Americanos e União Europeia, além de países como Estados Unidos e Brasil. Em janeiro de 2019, foi empossado para um segundo mandato. Isso acabou gerando uma grave crise política interna, com a Assembleia Nacional não reconhecendo a posse do presidente e várias nações do mundo removeram os seus embaixadores de Caracas, como protesto. Para a oposição, Nicolás Maduro estava, efetivamente, transformando a Venezuela numa ditadura sob seu comando.

3. Porém, esta intervenção americana é ilegítima e injustificada — representa uma gravíssima violação do Direito Internacional Público. Não é uma manobra de defesa, é uma manobra de dominação geoestratégica. Trump apresenta a desculpa dos cartéis de droga, mas o objetivo é chegar ao petróleo, ao lítio, ao ouro, aos minerais raros. Um regresso à lógica imperialista do século XIX que legitima outras intervenções e ocupações noutras partes do mundo. Uma visão de uma tripartição do globo, em que os EUA dominam o continente americano, a Rússia fica com a Ucrânia e a China ocupa Taiwan.

4. Além disso, esta intervenção na Venezuela é também uma conveniente manobra de diversão para os incómodos Epstein Files. Trump é um perigoso narcísico, um autoritário anti-democrático que só conhece o cotão do seu umbigo e instintos viscerais. Move-se por uma lógica egoísta, transacional e pela lei da força.

5. Mesmo sendo obviamente desejável uma mudança de regime na Venezuela, é assustador que seja feita desta forma.

6. A imposição pela força não pode ser aplaudida, mesmo quando é contra regimes de que não gostamos. Porque a pergunta obrigatória é esta: e quando esta imposição pela força for feita contra regimes, líderes ou países de que gostamos?


Trump anunciou a invasão nas redes sociais. Inédito. Desrespeitou auscultação prévia do Senado e do Congresso!


E quando o próximo ciclo de ficheiros Epstein for libertado, Trump invadirá a Gronelândia!

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Livro da semana - Os Engenheiros do Caos


Um livro de Giuliano da Empoli, consultor político de origem italiana e suíça. Licenciado de direito com Mestrado em Ciências Políticas, foi na política italiana que se instalou, teve cargos como conselheiro principal do primeiro-ministro italiano Matteo Renzi, tendo sido também conselheiro sénior do vice-primeiro-ministro e ministro da Cultura de Itália Francesco Rutelli, entre outros.

A ascensão dos populismos, na Europa e não só, ganhou a forma de uma dança desenfreada que inverte as regras estabelecidas e as transforma no seu contrário. Aos olhos dos eleitores, os defeitos dos líderes populistas são vistos como qualidades, a inexperiência deles é a prova de que não pertencem ao círculo corrupto das elites e a sua incompetência é garantia de autenticidade. Já as fake news que lhes pontuam a propaganda são a marca da sua liberdade de espírito.

No mundo de Donald Trump, de Boris Johnson, de Jair Bolsonaro ou de Matteo Salvini cada dia tem a sua gafe, a sua polémica, o seu brilharete. Ao contrário do que se possa pensar, por detrás das aparências de carnaval populista está o trabalho árduo de ideólogos, cientistas e especialistas em big data, sem os quais os líderes populistas dificilmente teriam chegado ao poder.

O livro explica muito bem o perigo da ‘internet’ e como um partido consegue reunir milhares de apoiantes utilizando apenas Fake news, mas não só, por exemplo, o Movimento 5 Estrelas não possui ideologia, ou seja, utiliza empresas consultoras para perceber qual é a opinião da maior parte do eleitorado e assim aglomerar mais apoiantes, apenas lhes interessa saber o que as pessoas querem. Estas ações têm sempre um "engenheiro" por de trás, um homem que apenas tem uma função, colocar o seu cliente no poder e até isso acontecer vale tudo!

Estes são os engenheiros do caos, cujo retrato Giuliano da Empoli pinta. Uma investigação que mostra uma galeria de personagens, muitas delas desconhecidas do público em geral, que estão a mudar as regras do jogo político. Com consequências sociais inegáveis.

sábado, 11 de maio de 2024

Jornalista José Vegar - Pobreza cultural e ideológica da extrema-direita nacional


É extremamente curioso ver o desacerto estratégico, que revela de imediato a actual pobreza cultural e ideológica, da extrema-direita nacional ao atacar emigrantes magrebinos no Porto.
Como qualquer cidadão minimamente informado sabe, os argelinos e marroquinos, embora tendo agência pessoal, isto é, vontade e capacidade de decisão, não são o alvo da extrema-direita, mas apenas a peça executora e controlada de um contexto global económico e social.
Por outras palavras, os alvos da extrema-direita nacional, se esta estrategicamente os escolhesse, e os decidisse combater, nos únicos formatos admissíveis, que são os fixados na Lei e na Constituição, e nunca pela acção directa violenta, são o coordenador da rede emigratória, o proprietário do imóvel, no caso onde os magrebinos foram atacados em casa, e o empregador.
Sendo estes os alvos, a extrema-direita nacional enfrenta um enorme problema, e talvez o exercício de violência sobre os emigrantes magrebinos não seja sinal de um desacerto estratégico, mas antes de uma impotência e de um desespero na acção, o que é ainda mais grave para os seus ideólogos e militantes.
Na verdade, os alvos que elenco são inacessíveis para a extrema-direita nacional, cada um pela sua razão.
O coordenador da rede internacional migratória é-lhe desconhecido, sendo apenas um dos milhares de operadores que dão materialidade e execução aquilo que hoje se chama “a economia do biscate” (gig economy) que assenta, essencialmente no fornecimento de mão de obra barata, maioritariamente não ocidental, aos mercados dos países desenvolvidos.
Ou seja, em Portugal fornece a mão de obra à hotelaria, distribuição, construção, agricultura, pequeno comércio e bem-estar físico, noutros países desenvolvidos a outros nichos do mercado, como é o caso da carne nos EUA e na Alemanha.
O proprietário do imóvel e o empregador, na esmagadora maioria dos casos sócios de pme´s, são intocáveis para a extrema-direita, porque, teoricamente, mas não na realidade nacional, são a sua base de apoio sociológica.
Por último, e mais uma vez basta ler a abundante literatura científica disponível, não é o emigrante magrebino, como não é o emigrante brasileiro, paquistanês, africano ou nepalês, que estão no terreno a roubar o trabalho ao cidadão nacional.
O emigrante ocupa o posto de trabalho porque aceita trabalhar com remuneração e direitos extremamente inferiores aos dos cidadãos nacionais, e caso essa força de trabalho não estivesse disponível, os postos de trabalho seriam extintos, ou substituídos pela tecnologia e pela deslocação da operação, sendo este o caso gravíssimo da manufactura nos EUA, que em muito explica a delirante, mas abundante, base de apoio de Trump.
Sendo este o contexto, os actos violentos no Porto não são mais do que, no ângulo político, tontices imaturas, e, no ângulo legal, crimes.
Ou seja, a extrema-direita nacional está totalmente encurralada.
Vasculhando o seu património cultural e ideológico, poderia apoiar-se no tradicionalismo moral, no nacionalismo, no patriotismo, na ordem e segurança, e no racismo.
Mas não o pode fazer por duas razões, uma de ordem cultural, outra de ordem posicional.
No caso do tradicionalismo moral, assenta na família monogâmica heterossexual católica perpétua, não tem qualquer base demográfica de suporte, especialmente em meio urbano, porque esta é uma das áreas onde os cidadãos nacionais mais abandonaram os valores tradicionais católicos.
No caso do nacionalismo, a pertença nacional à União Europeia, por um lado, a dependência de várias cadeias mercantis globais, e a ausência de um inimigo directo, tornam a causa impopular para a população.
O patriotismo é também uma causa de complexa criação de exaltação nos cidadãos, tanto porque é imaterial, como porque é impraticável, no caso da obtenção de capital e de mão de obra, e também dado que, infelizmente, a sua manifestação activa banalizou-se, seja nos cantos dos estádios, seja nas reivindicações profissionais.
Hoje, de novo infelizmente, canta-se o hino por qualquer razão menor.
Resta então à extrema-direita o racismo, que mais uma vez não tem massa demográfica de apoio, e todo o universo da Ordem e da Segurança.
Infelizmente para a extrema-direita nacional, o Chega, com visão estratégica, ocupou todas as dimensões da ordem e da segurança, da corrupção dos políticos ao menosprezo cultural pelas forças de segurança.
Seguindo os extremos políticos e sociais desde 1989, os de esquerda e direita, dos de ideário apenas político aos de agenda ecológica, não vejo nenhuma entidade mais encurralada que a extrema-direita nacional.
A extrema-esquerda tem uma causa poderosa, a da luta contra o capital global e contra os efeitos da sua implacabilidade, e os movimentos de agenda social, dos ecológicos aos de defesa dos direitos das minorias, um apoio demográfico em crescendo.
A extrema-direita nacional continua como começou em democracia, por volta de 1986.
Nunca soube criar uma agenda política que a fizesse respeitada e apoiada, caindo sempre na tentação de se transformar em grupo de violência que mata, magoa e fere.
É uma pena, porque, ao contrário do que muitos defendem em Portugal, continuo a ter a crença que todas as culturas, formas e formações políticas e sociais extremas têm lugar em democracia e contribuem, mesmo que não o queiram e desprezem a democracia, para tornar melhor uma sociedade democrática.
É que discutir uma ideia faz-nos sempre ganhar mais conhecimento.

sexta-feira, 10 de maio de 2024

George Orwell sobre Jornalismo


Liberdade para Julian Assange e Pablo González, um jornalista basco com o azar de ter dupla nacionalidade: espanhola e russa e desde o início da guerra russo-ucraniana está na cadeia na Polónia acusado sem provas de ser espião russo, quando ele fazia jornalismo ao estilo de Bruno de Carvalho.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

John Clauser, que nunca foi Professor de Física é membro activo da CO2 Coalition


John Clauser, que nunca foi Professor de Física é membro activo da CO2 Coalition que é uma organização de defesa sem fins lucrativos nos Estados Unidos, fundada em 2015. As suas alegações negacionistas das alterações climáticas entram em conflito com o consenso científico sobre as alterações climáticas.

História
A Coligação CO2 é a sucessora do Instituto George C. Marshall, um grupo de reflexão focado em questões de defesa e climáticas que foi encerrado em 2015. William O'Keefe, diretor executivo do Instituto Marshall e ex-CEO do American Petroleum Institute, continuou como CEO da Coligação CO2. William Happer, professor emérito de física conhecido por discordar do consenso sobre as alterações climáticas, foi outro fundador da Coligação CO2 do Instituto Marshall. Happer disse que a associação com o contrarianismo climático afetou negativamente o financiamento do Instituto Marshall, a saber: "Muitas fundações que normalmente teriam apoiado a defesa não o fariam porque o nome Marshall estava associado ao clima". As atividades de defesa do Instituto Marshall foram transferidas para o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais
Nos seus primeiros quatro anos, a Coligação CO2 recebeu mais de 1 milhão de dólares em contribuições de fundações que apoiam causas conservadoras e de responsáveis da indústria energética.

Atividades
A Coligação CO2 foi uma das mais de 40 organizações a assinar uma carta datada de 8 de maio de 2017, ao presidente Donald Trump, agradecendo-lhe pela sua promessa de campanha de se retirar do Acordo de Paris, que Trump anunciou em 1 de junho de 2017.

Em 2021, a Coligação CO2 apresentou um comentário público opondo-se às regras de divulgação das alterações climáticas da Comissão de Valores Mobiliários dos EUA. A Coligação afirmou que "Não há 'crise climática' e não há evidências de que haverá uma", e ainda "O dióxido de carbono, o gás supostamente a causa do aquecimento catastrófico, não é tóxico e não causa danos", afirmações que estão em desacordo com o consenso científico sobre as alterações climáticas.

Em 2022, a Coligação apresentou um comentário público sobre os riscos relacionados com o clima à Commodity Futures Trading Commission, concluindo que "a ciência real demonstra que não há emergência climática e que não há riscos financeiros ou outros riscos relacionados com o clima causados por combustíveis fósseis e CO2." O comentário criticou os relatórios de avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas e as Avaliações Climáticas Nacionais dos EUA, os resumos consensuais oficiais da ciência climática que informam as políticas públicas:

Francamente, a "ciência" citada para apoiar a investigação da CFTC e possíveis ações é meramente a opinião do governo do Painel Internacional para as Alterações Climáticas (IPCC) e do Programa Global de Pesquisa Climática dos EUA (USGCRP), que não é ciência e não pode ser usado como base científica para qualquer CFTC ou outra ação governamental."

Em 2023, um stand da CO2 Coalition foi expulso da convenção anual da National Science Teaching Association. A Coligação distribuiu uma história em quadrinhos infantil ensinando sobre o dióxido de carbono como uma parte essencial da vida. O cientista climático Andrew Dessler disse: "Ao focar 100 por cento nesta ideia de que as plantas precisam de CO2, eles estão intencionalmente enganando as pessoas, evitando os problemas reais do CO2, sobre os quais eles nem falaram." A Coligação também distribuiu um panfleto desafiando o que chamou de "a adoção pela NSTA da hipótese do 'aquecimento nocivo causado pelo homem', apesar de sua base em ciência falha e opiniões governamentais..." No contrato para comparecer à convenção, a organização havia concordado que os seus materiais seriam consistentes com a posição da NSTA sobre as alterações climáticas.

Em Fevereiro de 2023, a Coligação CO2 tinha publicado doze livros brancos, seis “questões climáticas aprofundadas”, oito resumos de políticas científicas, testemunhos de membros da coligação e publicações de membros da coligação. O grupo continua a falar publicamente e a emitir comunicados de imprensa sobre questões relacionadas com a produção de energia, as alterações climáticas e a defesa dos combustíveis fósseis.


terça-feira, 16 de janeiro de 2024

Encontros Improváveis: Moby, Damien Jurado e João Soares

Somos humanos. Somos água. Somos lágrimas. Somos sorrisos. Somos o mesmo sangue. Somos pó das estrelas.

We are human. We are water. We are tears. We are smiles. We are the same blood. We are stardust.
Why wars? Why hate speech? Why QAnon? Why ISIS?
This is our Land. Earth is you!

Clica na imagem e vês o teledisco


Moby - Almost Home (with Damien Jurado)

I'll decide
In a moment's time
To turn away
Leave it all behind

So we climb
So we're all are told the line
The crowd is home
The treasure found

So let it go
Wake up, wake up, wake up
We're almost home
So let it go
Wake up, wake up, wake up
We're almost home

Time to scout
When I was a child there
I know at heart
To be at your side

So we climb
Somewhere I will draw the line
I dream it, too
The stars were mine

So we climb
Somewhere I will draw the line
The crowd is home
The treasure found
So let it go
Wake up, wake up, wake up
We're almost home

Mais interpretações:

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Marty, o norte-americano que faz a diferença


O racismo, a xenofobia e o ódio não são divisíveis por dois
Os EUA, que possuem as leis sobre armas mais flexíveis do mundo, têm o maior número de tiroteios em massa do mundo. Os cidadãos dos EUA lideram o mundo em termos de posse de armas, com estimativas sugerindo que havia 390 milhões de armas em circulação em 2018, com uma taxa de 120,5 armas por 100 residentes.
Há um solitário activista, Marty, agora com 81 anos, desde há 5 anos mantém o seu posto diariamente em frente à Casa Branca, com este cartaz. Filho de imigrantes, pretende com o seu protesto que os americanos exerçam a sua tradicional amizade em vez de fomentar o ódio e a divisão.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Trump hosts event featuring QAnon, 'Pizzagate' conspiracy theorist at Mar-a-Lago

PHOTO: Former President Donald Trump announces that he will once again run for president in the 2024 presidential election during an event at his Mar-a-Lago estate in Palm Beach, Fla., Nov. 15, 2022.

A prominent adherent of the QAnon and "Pizzagate" conspiracy theories posed for photos with former President Donald Trump at his Mar-a-Lago resort Tuesday night after speaking at an event hosted at the club, according to photos and videos posted to social media.

The event came two weeks after Trump had dinner at Mar-a Lago with rapper Ye, formerly known as Kanye West, who recently spoke positively about Hitler, and far-right YouTuber Nick Fuentes, who the Department of Justice has labeled a white supremacist. The meeting sparked outrage despite Trump's claim he did not know who Fuentes was.

Videos and photos posted to social media appear to show Liz Crokin, a prominent promoter of QAnon and pro-Trump conspiracy theories, speaking at an event at Mar-a-Lago and later posing for photos with Trump. In one photo, the duo make a "thumbs up" sign together.

According to social media posts, the event was billed as a fundraiser in support of a "documentary" on sex trafficking - one of the pillars of the QAnon conspiracy theory. The website for the film, which includes multiple falsehoods and claims of mass sex-trafficking in Hollywood, boasts that it is "Banned by YouTube, Facebook, Instagram, Twitter, and PayPal."

Mar-a-Lago often hosts events for outside groups.

"You are incredible people, you are doing unbelievable work, and we just appreciate you being here and we hope you're going to be back," Trump said in remarks to the crowd, according to a video of his speech.

A representative for the Trump campaign did not respond to ABC News' request for comment.

"Tonight I had the privilege and honor to speak at America's Future fundraiser to combat child trafficking at Mar-A-Lago," Crokin wrote in a social media post, claiming that while she was at Trump's club she discussed "Pizzagate" -- a viral conspiracy theory that falsely claims prominent Democrats were running a child-sex trafficking ring out of a pizza shop in Washington, D.C.

Darlene Swaffar, a former Republican congressional candidate who attended the event, told ABC News she was happy to see the former president address attendees. She also said that other prominent conservatives who were in attendance included former national security adviser and retired Lt. Gen. Michael Flynn, former Alaska governor Sarah Palin, and Seth Keshel, a retired U.S. Army captain who has worked to challenge the results of the 2020 presidential election. Swaffar posted photos with both Flynn and Palin taken at the event.

Swaffar told ABC News the fundraiser had different events based on how much attendees gave. "For attendees there was a reception portion, and for those that contributed a little bit more there was the dinner portion," she said.

When asked about the event hosting a QAnon conspiracy theorist, Swaffar told ABC News she did not hear anything about QAnon or conspiracy theories at the event, saying she didn't see "any communication on that."

After the event at Mar-a-Lago, Crokin posted on social media that it was time to stop "tip toeing" around the Pizzagate conspiracy, saying "It’s time for the FULL TRUTH to come out!"

Conklin was featured last year in the HBO Docuseries "Q: Into the Storm." In a video, Rep. Marjorie Taylor Greene said she first was introduced to the conspiracy theory by Crokin.

According to a report on an another interview she gave, Crokin said of Trump that as president, Trump was "dismantling the deep state and one of his top priorities is to end sex trafficking."

Crokin did not respond to ABC News' request for comment on the event or whether she still believes in the QAnon and "Pizzagate" conspiracy theories.

In recent weeks, Trump's newly announced 2024 campaign has been playing defense on multiple fronts. On Wednesday, Trump's namesake real estate company was found guilty by a jury in New York of tax fraud. Last week, Trump on social media called for "termination" of "of all rules, regulations, and articles, even those found in the Constitution" over false claims of election fraud.

domingo, 16 de outubro de 2022

Aliados de Bolsonaro usam teorias da conspiração QAnon em campanha



Teorias da conspiração criadas pela extrema-direita estão a ser usadas como estratégia política de aliados que apoiam a reeleição do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, na segunda volta das presidenciais, segundo especialistas ouvidos pela Lusa.

"Não temos no Brasil uma militância QAnon como nos Estados Unidos em que os grupos exibem de maneiras mais vocal essa grande teoria conspiratória representada pelo QAnon, mas a gente vê elementos sendo trazidos por atores políticos 'bolsonaristas' para o debate publico", considerou o analista político Guilherme Casarões, integrante do Observatório da Extrema-direita.

Na última semana, o Brasil foi surpreendido por um vídeo gravado na Assembleia de Deus Ministério Fama, em Goiânia, no qual a pastora evangélica, ex-ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos e senadora eleita, Damares Alves, afirmava que o inferno se levantou contra Bolsonaro porque ele teria coibido um esquema de tráfico e abuso de crianças na Ilha de Marajó, no norte do país.

"Bolsonaro tem uma compreensão espiritual que vocês não têm ideia. Fomos para a Ilha do Marajó e descobrimos que nossas crianças estavam sendo traficadas por lá, e que essas crianças comem comida pastosa para o intestino ficar livre na hora do sexo anal", disse.

"Imagens de crianças nossas, brasileiras, de quatro anos, três anos, que quando cruzam as fronteiras, sequestradas, os seus dentinhos são arrancados para elas não morderem na hora do sexo oral", acrescentou no culto em Goiânia que atuou numa ação de campanha a favor de Bolsonaro, onde participou também a primeira-dama, Michelle Bolsonaro.

As declarações chocaram o país e mobilizaram as autoridades judiciais, que divulgaram um comunicado, dizendo desconhecer a existência destes crimes e pedindo esclarecimentos.

"O Ministério Público Federal (MPF) atuou, de 2006 a 2015, em três inquéritos civis e um inquérito policial instaurados a partir de denúncias sobre supostos casos de tráfico internacional de crianças que teriam ocorrido desde 1992 no arquipélago do Marajó, no Pará. Nenhuma das denúncias mencionou nada semelhante às torturas citadas pela ex-ministra Damares Alves no último dia 8", diz o órgão público brasileiro.

O MPF pediu a Damares Alves e ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos que apresentasse provas sobre a existência destes casos de abuso e as ações que o foram realizadas para impedi-los e ainda aguarda resposta.

O relato de Damares é muito semelhante a um conto de ficção que se tornou uma teoria da conspiração em circulação desde 2010, conhecida como "Lolitas escravas brinquedos" sobre abusos contra crianças alegadamente cometidos num país do leste europeu, publicado no 4chan.

O 4chan é fórum de discussão que se baseia na publicação de imagens e texto, geralmente de forma anónima que ganhou mais notoriedade depois que um utilizador anónimo (QAnon) ter passado a fazer publicações com informações falsas alegando ter acesso a dados de agências de segurança dos Estados Unidos sobre um grupo liderado por uma elite corrupta formada por pedófilos satanistas que sequestravam e sacrificavam crianças, criando um movimento que tem muitos adeptos no Partido Republicano.

No Brasil, o QAnon adaptou a narrativa conspiratória local e os seus disseminadores, que dizem defender valores cristãos e conservadores, usam as redes sociais para espalhar mentiras contra pessoas que fazem críticas ao Governo liderado por Bolsonaro.

"Ela [Damares Alves] que criar pânico, ela precisa criar um estado de pânico (...) Eu diria que ela é a grande liderança de teorias conspiratórias no Brasil, não só de QAnon", salientou Adriana Dias, doutorada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que estuda neonazismo e grupos que propagam teorias conspiratórias da extrema-direita.

"A história que a Damares conta de Marajó está num site neonazista chamado 4chan. É uma história que está no 4chan. Agora, porquê [a senadora citou este conteúdo]? Porque nos fóruns neonazistas existe muito incentivo à pedofilia. (...) Não é estranho que a ministra que deveria proteger as crianças esteja usando um site que ensina pedófilos a estuprá-las", disparou Adriana Dias.

Já Casarões reforçou que o Brasil ainda não é um baluarte QAnon, mas agentes políticos como Damares Alves, as deputadas Carla Zambelli, Bia Kisses e Eduardo Bolsonaro, deputado e filho do chefe de Estado brasileiro, têm feito uma adaptação de pontos específicos destas narrativas.

"Autorizar o emprego do cargo eletivo para a disseminação de teorias conspiratórias em geral, difamatórias e que têm um alvo muito específico ou um conjunto de alvos muito específico tem impactos muito importantes no jogo político. Permitir que isso se dissemine no mundo político terá um impacto eleitoral", ponderou Casarões.

"No caso da Damares Alves, em particular, que é uma líder evangélica, vinculada aos grupos evangélicos organizados como a Igreja Batista da Lagoinha isto também gera um outro problema que é disseminar teorias conspiratórias que vão chegar fatalmente à crescente população evangélica", completou.

Casarões considerou que, na eleição Presidencial, o impacto das teorias QAnon poderá ser mais grave porque os conceitos conspiratórias moldam a maneira como muitos eleitores veem o mundo.

"Nesse caso da eleição de 2022, percebe-se que muitas dessas teorias conspiratórias têm muito claramente um alvo que são o PT [Partido dos Trabalhadores] e o ex-presidente Lula da Silva", concluiu referindo-se ao oponente de Bolsonaro na segunda volta da eleição presidencial que acontecerá em 30 de outubro.

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

Armas, ódio e conspirações criam “risco de extrema violência política” nos EUA



Estudo recente nos EUA apura que:

"Metade da população norte-americana considera que haverá uma guerra civil nos próximos anos, segundo um estudo da Universidade da Califórnia. Investigadores dizem que há motivos para recear uma “insurgência mortífera” se a ala mais radical do Partido Republicano não conseguir tomar o poder."
1 em cada 5 americanos acham que a eleição foi roubada a Trump, apesar de nenhum tribunal o ter comprovado nem nenhuma prova disso ter sido apresentada.
1 em cada 5 estão dispostos a pegar em armas contra os seus concidadãos por razões políticas.
1 em cada 5 considera mais importante que haja 1 líder forte do que democracia.

Estudo aqui

"There is no such thing as society" - Margaret Thatcher

"We are caught in an inescapable network of mutuality" - Martin Luther King, Jr.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Teorias da Conspiração: da Revolução Francesa às Fake News do Whatsapp

22 de junho de 2020 
(actualizado em 8 de fevereiro de 2021) 

Elas existem há muito tempo e desafiam a ciência e a lógica. Mas hoje, as Teorias da Conspiração ganham nova velocidade de propagação graças às novas tecnologias e o reforço das Fake News.

Atualmente, as pessoas são constantemente bombardeadas por teorias conspiratórias absurdas sobre diferentes eventos diretamente de seus smartphones e computadores pessoais.

Especialistas de diversas áreas do conhecimento explicam que a Terra é esférica, ou melhor, elipsoide; que a humanidade realmente chegou à Lua e que as vacinas são estatisticamente seguras; que as pirâmides foram construídas pelos seres humanos, que o covid-19 [1] é uma doença potencialmente letal etc. Contudo, para muitos, nada disso parece ser suficiente. Os mitos persistem independentes da ciência e da lógica.

Na verdade, aqueles que creem em “teorias alternativas” e conspiratórias têm justamente aí uma confirmação de suas verdades, e não uma refutação. O fato de cientistas, de professores universitários, em suma, dos especialistas contestarem essas crenças é para o teórico da conspiração apenas a confirmação de que realmente há uma conspiração oculta e maligna para esconder a verdade e que eles, os especialistas, fazem parte dela. Como dizia a famosa e longeva série de TV Arquivo X, “Eu quero acreditar”.
Ator Charles Peckham “Charlie” Day como personagem Charlie em cena da série “It’s Always Sunny na Filadélfia”. A imagem e o personagem se tornaram uma representação bastante popular da Internet para a “teoria da conspiração”.

Esse artigo pretende discutir o que são “teorias conspiratórias” e a relação que existe hoje entre essas teorias e as chamadas fake News. Conforme veremos, o encontro das duas está por trás da disseminação do discurso de ódio (hate speechI) no espaço público e promovem a deterioração da política e da democracia.

O que são “teorias conspiratórias” ?

As teorias da conspiração são objeto de investigação de um vasto campo de estudos e pesquisas nos Estados Unidos e na França, países onde já se produziram centenas de artigos e livros em diferentes áreas do conhecimento, particularmente na História e Filosofia.

Para o pesquisador estadunidense Michael Barkun, as teorias conspiratórias seriam explicações sobre eventos ou processos baseadas na “crença de que uma organização formada por indivíduos ou grupos esteve ou está agindo secretamente para alcançar fins malignos”.

Já para o historiador francês Pierre-André Taguieff, essas teorias conspiratórias seriam baseadas na “visão de mundo dominada pela crença de que todos os eventos no mundo humano são desejados, realizados como projetos e que, como tais, revelam intenções ocultas – ocultas, porque malignas”. Ainda segundo Taguieff as teorias da conspiração seriam baseadas em quatro princípios: nada acontece acidentalmente; nada é o que parece ser; tudo é ligado, mas de forma oculta; e, tudo que acontece é o resultado de intenções ou vontades ocultas.

“O “Olho da Providência”, ou “o olho que tudo vê de Deus”. O símbolo, presente na nota de 1 dólar, foi considerado por alguns como evidência de uma conspiração envolvendo os fundadores dos Estados Unidos e os Illuminati”. Fonte: Wikipedia.

Mark Fenster, por sua vez, afirma que a teoria da conspiração é uma teoria sobre o poder que realiza um “reconhecimento errôneo” (misrecognition) das relações de poder. Por exemplo, ao invés de reconhecer o papel econômico, ideológico e político das classes sociais em luta durante a Revolução Francesa, especialmente a ação revolucionária da burguesia, a teoria da conspiração de Barruel e de Robinson acusa o grupo Illuminati de, através da Maçonaria, agirem de forma consciente e planejada através de uma conspiração maligna para destruir a religião católica e a monarquia francesa. O complexo processo político e social da Revolução Francesa é reduzida, assim, a ação de um poder irrefreável e consciente, quase sobrehumano.

Resumindo, poderíamos dizer que a teoria da conspiração (conspiracy theory) é uma explicação sobre eventos sociais, especialmente políticos, baseada na crença de que por trás de todos os atos humanos há a ação dissimulada e maligna de indivíduos e grupos que lutam para dominar o mundo. Essas teorias baseiam-se na crença religiosa de que a realidade é dominada por uma luta eterna entre o bem e o mal. Apesar de frequentemente ser formatada em uma narrativa aparentemente racional e até científica, esse tipo de “teoria” não está sustentada em pesquisa baseada na coleta e análise crítica de todas as informações e explicações disponíveis, na formulação de hipóteses e, finalmente, na proposição de uma teoria. Ao contrário, ela usa e abusa de diferentes “falácias lógicas”, isto é, argumentos falsos, mas com a aparência de verdadeiros.

Essas falsas teorias ocultam os grupos e classes que realmente dominam as relações sociais na sociedade e, ainda criam discurso de ódio [2] contra determinados grupos (judeus, comunistas, “esquerdopatas”, petralhas etc.) transformando-os em bodes expiatórios, acusando-os de serem aqueles que efetivamente dominam o mundo ou conspiram para conquistá-lo.
Quando surgiram as “teorias da conspiração” ?

Elas surgem com a própria modernidade capitalista. Durante a Revolução Francesa são publicados dois livros, do padre francês Augustin Barruel (1741-1820) e do cientista escocês John Robison (1739-1805), que têm em comum a “teoria da conspiração” de que a revolução burguesa que assentou as bases ideológicas, políticas e sociais da sociedade burguesa francesa e europeia da modernidade, na verdade seria uma ação orquestrada secreta e ardilosamente pela Maçonaria para destruir a monarquia e a Igreja católica francesa e europeia.

Afirmam ainda que por trás do “complô maçônico” estaria uma sociedade ainda mais secreta, os Illuminati, que estaria no núcleo mais oculto da conspiração. Essas duas obras receberam diversas edições e traduções para diferentes línguas ainda na primeira metade do século XIX e deixaram marcas na cultura política antirrevolucionária ocidental. Ao longo do século XIX, surgem outras teorias conspiratórias que terão papel importante no período.

No século XX, as teorias conspiratórias foram uma importante ferramenta ideológica de luta contra os setores progressistas da sociedade, vistos como ameaças à própria civilização. A Revolução Russa de 1917, por sua vez, suscitou um processo de criação de novas teorias conspiratórias pela síntese e atualização das “teorias” do passado com um livro recém lançado que acusava os judeus de organizarem uma conspiração para dominar o mundo, o Protocolo dos Sábios de Sião. Por exemplo, a “conspiração maçônica-judaico-bolchevique” disseminada nos anos 1920 e 1930 por intelectuais conservadores e reacionários como Nesta Webster (1876-1960) e Léon de Poncins (1897-1975), e que foi amplamente divulgada pela propaganda nazista ao longo dos anos 30 e durante a Segunda Guerra Mundial. O texto no topo diz: “Política mundial Revolução mundial”. O texto na parte inferior diz: “A Maçonaria é uma organização internacional pertencente aos judeus com o objetivo político de estabelecer o domínio judeu através da revolução mundial”. O mapa, decorado com símbolos maçônicos (templo, quadrado e avental), mostra onde ocorreram revoluções na Europa desde a Revolução Francesa em 1789 até a Revolução Alemã em 1919.
 
Segundo Jeffrey Herf , “quando, no meio da Segunda Guerra, Hitler e seus aliados fizeram o salto da perseguição ao extermínio de massa, deram como justificativa a retaliação à conspiração judaica, a qual responsabilizavam por começar e intensificar uma guerra de extermínio contra a Alemanha”. No pós-guerra, essa teoria da conspiração foi reelaborada para a contenção política e ideológica da União Soviética e dos partidos comunistas, no que viria a ser conhecido como anticomunismo.

Nos anos 1990, com o fim do “socialismo real” surgiu nos Estados Unidos a virulenta e agressiva “teoria da conspiração” do “marxismo cultural” que acusava os marxistas da Escola de Frankfurt de desenvolverem ideias de defesa dos direitos humanos dos negros, das mulheres, dos homossexuais etc. Essa teoria da conspiração requentava o anticomunismo da Guerra Fria e a conspiração judaico-bolchevique do entreguerras, acusando os marxistas alemães da “Escola de Frankfurt” migrados da Alemanha fugidos do nazismo, de quererem destruir os valores da sociedade estadunidense, isto é, o patriarcado, a religião, a ordem política etc. O fato de vários desses marxistas serem de origem judaica corroborava, para alguns de seus defensores, essa teoria da conspiração.

No Brasil, essa teoria conspiratória tem no ideólogo Olavo de Carvalho um de seus principais divulgadores. O movimento “Escola sem Partido” (ESP) que se dedica a atacar a obra de Paulo Freire, os professores e a Universidade pública tem sua base ideológica na teoria da conspiração do “marxismo cultural”. Até agora, o ESP não teve sucesso em mudar a legislação, mas contaminou o ambiente educacional brasileiro, não apenas no Ensino Básico, mas também na Universidade. [3] Isso contribui para que nos últimos anos os professores tenham se tornado alvo de discurso de ódio que chega às vezes a agressões verbais e físicas.

Teorias da Conspiração e Fake News

As notícias falsas veiculadas na Internet frequentemente ajudam a divulgar ampla e maciçamente teorias conspiratórias. A conexão entre as duas é tão forte que, não raro, muitas teorias da conspiração assumiram hoje uma forma noticiosa, ou seja, são socialmente disseminadas como notícias e recebidas como explicações legítimas sobre eventos políticos.

As teorias conspiratórias são parte importante do conteúdo divulgado pelas fake news que, assim, popularizam essas teorias. Além disso, a importância crescente das fake news no debate público ajuda a criar um ambiente propício à disseminação e à aceitação das teorias conspiratórias como uma explicação legítima dos eventos políticos e sociais. Não são poucas, hoje, por exemplo, notícias falsas que afirmam ter os chineses criado o novo coronavírus em laboratório.A Exposição antibolchevique denunciando uma conspiração judaico-maçônico-comunista internacional na França ocupada pela Alemanha nazista (1942). Fonte: Bundesarchiv Bild 183-2004-0211-500, Frankreich, Antisemitismus

Uma das estratégias dos disseminadores deste tipo de conteúdo é enviar uma grande enxurrada de fake news e teorias conspiratórias simultaneamente em diferentes mídias e canais a fim de entulhar o debate público realizado na Internet com mentiras e ataques verbais, não deixando espaço para o surgimento de um debate baseado em troca e confrontação de informações e ideias – essa tática é chamada de firehosing.

Desafios para o século XXI

No século XXI, o aprofundamento da crise da democracia representativa liberal e dos partidos políticos de esquerda tradicionais, a popularização da Internet, o surgimento e o crescimento das redes sociais, a precarização do trabalho e das condições de vida da classe trabalhadora, a falta de expectativas de superação das crises políticas, econômicas e sociais do capitalismo, a sofisticação dos órgãos de repressão policial e política e das ferramentas de monitoramento e controle oferecidos pela Internet e pelas ferramentas digitais, especialmente a partir de 2008, criaram um ambiente de deterioração do espaço público, da política e da democracia.

Nessas condições, as teorias conspiratórias tornaram-se um elemento ideológico ainda mais importante, cada vez mais sustentado pelas fake news e pelo discurso de ódio espalhado pelos diferentes grupos políticos das direitas. Infelizmente, as teorias conspiratórias tornaram-se parte integrante do senso comum.

Nos últimos anos, as direitas no Brasil, especialmente a extrema-direita de perfil ideológico fascista e próximo a alt-right internacional, tomaram de assalto o debate político nacional e importantes cargos no Executivo e Legislativo; em grande parte com o uso sistemático de ferramentas de disseminação massiva de notícias falsas, discurso de ódio (hate speech), ideias autoritárias e teorias da conspiração, e assim trabalham diuturnamente para criar as condições para a instauração de seu projeto autoritário.
Notas

[1] O ministro das Relações Exteriores Eduardo Araújo postou no blog “Meta Política 17 – contra o globalismo” um artigo intitulado “Chegou o Comunavírus” onde escreve: “O Coronavírus nos faz despertar novamente para o pesadelo comunista”. Acesso em 28/04/2020.

[2] “(…) fala, escrita ou comportamento, que ataca ou usa linguagem pejorativa ou discriminatória com referência a uma pessoa ou grupo com base em quem eles são, ou seja, com base em sua religião, etnia, nacionalidade, raça, cor, descendência, gênero ou outro fator de identidade”. United Nations strategy and plan of action on hate speech. p. 6. Disponível aqui.

[3] Os dois ministros da Educação do governo Bolsonaro até o momento em que esse texto foi escrito são crentes confessos da existência de uma conspiração marxista que controla a Universidade pública brasileira.

Referências Bibliográficas

BARKUN, Michael. A culture of conspiracy: Apocalyptic Visions in Contemporary America. Berkeley: University of California Press, 2003.

BERLET, Chip. Toxic to democracy: conspiracy theories, demonization & scapegoating. Sommerville (MA): Political Research Associates, 2009. Disponível em: https://www.politicalresearch.org/sites/default/files/2018-10/Toxic-2D-all-rev-04.pdf Acesso em 20/05/2020. p.3.

FENSTER, Mark. Conspiracy theories: secrecy and power in American culture. Minneapolis: University of Minesota, 1999.

HERF, Jeffrey. Inimigo judeu: propaganda nazista durante a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto. São Paulo: EDIPRO, 2014. p.331.

HOPE NOT HATE. The International Alternative Right: an explainer. Disponível em: https://www.hopenothate.org.uk/wp-content/uploads/2019/07/Alt-Right-report-SHORT-2019-v1.pdf Acessado em: 20/04/2020.

JAMIN, Jérôme. “Anders Breivik et le « marxisme culturel » : Etats-Unis/Europe”. Amnis. Revue de civilisation contemporaine Europes/Amériques, no 12 (1o de julho de 2013). https://doi.org/10.4000/amnis.2004.

SILVEIRA, Sérgio Amadeu da. Tudo sobre todos: redes digitais, privacidade e venda de dados pessoas. São Paulo: Edições SESC, 2017. [E-book]

SILVEIRA, Sérgio Amadeu da. Democracia e os códigos invisíveis: como os algoritmos estão modulando comportamentos e escolhas políticas. São Paulo: Edições SESC, 2019. [E-book]

TAGUIEFF, Pierre-André. L´imaginaire du complot mondial: aspects d´un mythe moderne. Paris: Mille et Une Nuit, 2006. p.54.
Como citar este artigo

CASTRO, Ricardo Figueiredo de. Teorias da Conspiração: conceito, história e as suas associações com as fake News (Artigo). In: Café História – história feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/fake-news-teorias-da-conspiracao-dicursos-de-odio/. Publicado em: 22 jun. 2020.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Teorias conspiratórias do QAnon varrem o mundo e são mais perigosas do que parecem


Como em um iceberg, por baixo do Estado visível há um Estado profundo (deep state) que exerce o poder longe dos olhos dos cidadãos. Os membros desse Estado profundo são adoradores de Satanás e, entre suas mil maldades, costumam manter redes de pedofilia e beber sangue de bebês (pensando que assim obterão a eterna juventude). É uma conspiração que envolve membros do Partido Democrata norte-americano, como Hillary Clinton e Barack Obama, astros de Hollywood, como Tom Hanks, bilionários como Bill Gates e George Soros e até o papa Francisco. Mas há um salvador que vai destruir o Estado profundo e romper nossos grilhões: Donald Trump.

Esta sinistra teoria conspiratória, conhecida como QAnon e vinculada à extrema direita, parece delirante, mas ganha cada vez mais adeptos. Embora nos faça rir, talvez devesse nos dar medo: o FBI já a qualificou como uma ameaça de terrorismo doméstico. Algumas das pessoas que invadiram o Congresso norte-americano na semana passada são adeptas destas crenças ― por exemplo, o homem que se tornou a estrela do incidente, conhecido como Yellowstone Wolf, disfarçado com silhueta do Jamiroquai e rosto de Axl Rose, tem um canal no YouTube dedicado a difundir essas teorias.

“Nenhuma construção conspiratória é inócua, pelo contrário: assim que se torna ideologia de Estado ou de grupos terroristas ou de fanáticos, sejam eles religiosos e/ou nacionalistas, conduzem a massacres, matanças, suicídios coletivos e até genocídio”, diz Alejandro M. Gallo, autor da recente e monumental Crítica de la Razón Paranoide (inédito no Brasil). “Os exemplos ao longo da História são múltiplos, e o movimento QAnon não é uma exceção”, afirma. Alguns especialistas consideram o QAnon como um movimento religioso emergente, que toma Trump como messias salvador. Assim como nas seitas, os membros chegam a sofrer certa desconexão com a realidade e inclusive com seus seres queridos.

O próprio Trump foi ambíguo ao falar sobre o QAnon, sem chegar a negá-lo, provavelmente para não perder seu apoio eleitoral e seu poder propagandístico. “Não sei muito sobre o movimento, exceto por entender que eles gostam muito de mim, o que agradeço”, afirmou numa entrevista. Perguntado sobre a crença de que ele mesmo estaria liberando o mundo de uma seita de pedófilos satânicos, respondeu: “Supõe-se que isso seja algo mau ou bom? Se posso ajudar a salvar o mundo de problemas, estou disposto a isso.” O QAnon tem seguidores também dentro do Partido Republicano: Marjorie Taylor Greene, adepta da teoria, conseguiu em 2020 uma vaga de deputada federal pelo Estado da Geórgia.
Marjorie Taylor Greene, apoiadora do QAnon, conquistou uma cadeira republicana na Geórgia.

“O QAnon surge do ódio contra a esquerda política e da busca por um líder messiânico, neste caso Donald Trump”, observa o jornalista Marc Amorós, autor de um livro sobre as fake news, inédito no Brasil. E também observa vários ensinamentos desta teoria conspiratória: “Ela demonstra a capacidade das narrativas falsas como cola social, como maneira de aglutinar muita gente muito diversa ao redor de uma ideia ou de um líder”, afirma o especialista. Além disso, mostra o poder do tribalismo, e como as culpas e possíveis consequências da teoria conspiratória se dissolvem ao se integrar a um coletivo ou comunidade. Por último, também mostra o perigo de participar de uma bolha de opinião ou informação. “Nelas se compartilham continuamente as mesmas ideias, e isso leva inevitavelmente a uma polarização do grupo e do indivíduo, tanto no pensamento como nas ações”, afirma Amorós. “Os indivíduos se veem impelidos a demonstrar cada vez com mais força sua adesão às ideias do grupo.”

O problema das paranoias conspiratórias e das fake news espalhadas pela Internet começa a respingar de forma muito clara no mundo real, porque o universo online e offline já se confundem. Quando os seguidores do QAnon invadiram o Capitólio, o fenômeno deixou de ser visto como algo risível para se tornar uma ameaça real. O Twitter eliminou permanentemente 70.000 contas afiliadas ao movimento, para impedir que os seguidores de Trump usem a rede social com fins violentos. E, em uma medida inédita, suspendeu também permanentemente a conta pessoal do presidente norte-americano devido “ao risco de mais incitamento à violência” de pessoas que acreditam, sem jamais apresentar provas, que a eleição foi roubada por Joe Biden. E essa crença se espalha pelo planeta, adaptada a cada território: na Alemanha, onde está crescendo com força, diz-se que Angela Merkel está em conluio com o Deep State. Na França, Emmanuel Macron é apontado como o fantoche da conspiração pedófila. E por aí vai. O mal, acreditam os adeptos adestrados em fóruns digitais e no YouTube, abraça o planeta como um polvo.

Quem é Q?
QAnon é uma fusão da letra Q com a palavra “anônimo”, em inglês. Q é o codinome do enigmático profeta deste movimento, alguém que supostamente integra o núcleo do Governo de Donald Trump e que, como um construtor de conspirações, deixa migalhas de informação na Internet para que sejam decifradas por seus seguidores. Assim chegam à revelação, de forma similar às mensagens herméticas do Oráculo de Delfos, que tinham que ser interpretadas por especialistas. “Procuram indícios, pistas, mensagens, sinais que só o iluminado distingue com o objetivo de encontrar a conspiração”, escreve Gallo. “Alimentam-se os seguidores com a cenoura e o porrete, levando-os a crer que estão prestes a descobrir algo muito valioso, uma espécie de epifania.”
Participante de um comício de Donald Trump em agosto de 2018 na Pensilvânia segura um enorme "Q", simbolizando o movimento QAnon.

Tudo começou em 2017 em fóruns da Internet frequentados por conservadores norte-americanos, como 4Chan e 8Chan. Um ano antes, em 2016, durante as eleições, já tinha viralizado uma versão preliminar, chamada Pizzagate, que também descrevia uma rede de pedofilia do Partido Democrata, vinculada a uma pizzaria de Washington chamada Comet Ping Pong, onde supostamente ocorriam abusos e rituais satânicos. Um homem com uma escopeta chegou a atacar a pizzaria ao tentar investigar os fatos. Não houve feridos, mas o adepto dessa teoria conspiratória, então com 28 anos, foi condenado a quatro anos de prisão. Entregou-se depois de não encontrar cômodos secretos nem sinais de rituais satânicos no interior do restaurante. Só farinha, tomate e mozzarella.

A teoria QAnon é tão ampla que pode funcionar como uma metateoria conspiratória, uma árvore com muitas ramificações, ou um guarda-chuva sob o qual muitas outras teorias são acolhidas ― como o citado Pizzagate, ou todo tipo de negacionismo da pandemia. Aliás, quando o coronavírus surgiu e o confinamento começou, os adeptos do QAnon cresceram notavelmente. As pessoas queriam respostas e tinham tempo em casa para buscá-las nas profundezas da Internet. Sem ir mais longe, após a histórica nevasca desta semana na Espanha, surgiram no Twitter vozes que sugerem queimar um pedaço de neve com um isqueiro para observar que não se trata de água congelada, e sim de plástico, provando que o temporal Filomena também seria uma conspiração.

Entre outra ramificações do QAnon se encontram crenças como a de que John Kennedy está vivo, que os Rothschild dominam o mundo financeiro, ou que a loja de móveis WayFair vende crianças em seu site, conforme enumera Gallo. Ou talvez a mais estranha delas: que o presidente norte-coreano, Kim Jong-un, foi colocado pela CIA em seu posto e liberado em 2018 por Trump, que instalou um dublê no seu lugar. Segundo esses adeptos, vivemos na época do Grande Despertar, que acontece antes de Trump desatar a Tempestade e prender os vilões do Estado Profundo (Clinton, Obama…) em Guantánamo.

Uma particularidade do QAnon, conforme relatam os pesquisadores Russell Muirhead e Nancy Rosenblum na The New Yorker, é que, enquanto as teorias conspiratórias clássicas tratam de explicar algo (o assassinato de Kennedy ou a chegada à Lua), o QAnon se caracteriza por sua falta de interesse na explicação. “Assim como a inexistente rede de tráfico de crianças que sai do inexistente porão, frequentemente não há nada a explicar: a nova conspiração às vezes parece surgir do nada”, escrevem. Outra particularidade: ao contrário de outras teorias conspiratórias, frequentemente alimentadas por grupos de oposição ao poder, o QAnon nasceu dos setores trumpistas enquanto Trump ocupava a Casa Branca (o próprio Trump começou sua carreira política difundindo boatos sobre a identidade real ou o lugar de nascimento de Barack Obama). Os autores citados observam que nos encontramos perante um .
Kim Jong-un é um clone? De acordo com a teoria Qanon, sim.

Novo Conspiracionismo.Por que acreditamos em idiotices?
“O pensamento conspirativo tem benefícios para os indivíduos: ele nos dá a sensação de controle, de que o mundo tem explicação”, afirma o psicólogo Ramón Nogueras, autor do livro ¿Por Qué Creemos en Mierdas? (inédito no Brasil). “Temos muita dificuldade em aceitar que não entendemos coisas: muitas vezes preferimos uma explicação ruim à incerteza”. E acreditamos que os grandes problemas devem ter grandes explicações: não é possível que o assassinato do Kennedy fosse obra de um maluco que agira sozinho: tem que haver algo mais poderoso por trás.

Num mundo que avança com crescente rapidez, que é cada vez mais difícil de compreender, em que as certezas desaparecem sob nossos pés, conspirações como o QAnon oferecem a seus adeptos uma realidade firme à qual se aferrar. Além disso, escapando do cotidiano cinzento, faz seus adeptos se sentirem especiais, “acordados”, como em um filme de espiões, possuidores de um segredo que é negado à maioria, que eles consideram tonta, vítima do malvado Estado Profundo.

“Os adeptos das teorias conspiratórias não têm nenhuma doença mental, mas certos traços que as tornam propensas a acreditar: são boas detectando patrões, percebem intenções inclusive onde não existem, são desconfiadas e com nível baixo de raciocínio analítico”, observa Nogueras. É mais fácil que uma pessoa com baixo grau de instrução caia nestas crenças, mas também pode acontecer com pessoas que fizeram faculdade e chegaram ao doutorado. Esses ambientes são atraentes também por propiciar uma comunidade que se relaciona e se apoia mutuamente.

As teorias conspiratórias passam das mentes alucinadas aos fatos e representam perigos. Por isso é importante fomentar o espírito crítico, mostrar que há algumas fontes de informação confiáveis, e outras não, e aprender a refletir antes de compartilhar informações. Vivemos em tempos de infodemia, ou seja, de uma avalanche de informação em que se misturam a verdade e a mentira, o relevante e o lixo. “Ter acesso a uma grande quantidade de informação, como temos agora, não implica que tenhamos melhor capacidade de filtrá-la”, opina Nogueras, partidário de que as plataformas digitais ponham mais ênfase na checagem dos conteúdos difundidos. “É importante conter estas teorias na origem”, afirma. Também é importante, sobretudo para os meios de comunicação, não dar voz aos teóricos da conspiração, nem que seja para tentar desprestigiá-los ou ridicularizá-los. Isso reforça suas crenças e sua comunidade. Cumpre, aparentemente, a profecia de que há uma conspiração contra eles.

O QAnon nos fala de conspirações que não existem, mas também nos fala dos perigos da comunicação sem filtros pela Internet, da falta de referências para o ser humano, da necessidade do comunitário em tempos individualistas, dos efeitos indesejáveis da polarização política, da manipulação das massas, de como é fácil chegar a um futuro distópico.