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sábado, 4 de julho de 2026

A Filantropia enganadora e porque é importante taxar os bilionários

Durante anos venderam a ideia de que a luta de classes era uma invenção da esquerda. Conversa de comunistas. Teorias de ressabiados. Inveja de quem teve sucesso. Uma fantasia repetida sempre que alguém ousava falar de desigualdade ou da concentração da riqueza.
Depois aparece Warren Buffett. Sim, Warren Buffett. Esse conhecido marxista. Admirador de Che Guevara. Frequentador assíduo da Festa do Avante. Praticamente um bolchevique de Wall Street.
E diz isto:
De repente, a teoria da conspiração da esquerda passou a ser uma confissão de um dos homens mais ricos do planeta. Buffett não disse que a luta de classes existiu. Disse que existe. Não disse que a sua classe ganhou. Disse que está a ganhar. [New York Times, 2006]
Durante décadas, convenceram milhões de pessoas de que falar em luta de classes era coisa de comunistas, sindicalistas e ressabiados. Entretanto, a guerra continuou a ser travada. E, segundo um dos seus principais protagonistas, está a correr bastante bem para um dos lados.

"Regra Buffett" nunca chegou a ser implementada.
Apesar de ter tido uma enorme tração mediática e o apoio explícito do então presidente Barack Obama, a proposta falhou o seu caminho legislativo no Congresso dos Estados Unidos.

Em 2012, o projeto de lei (batizado formalmente como Paying a Fair Share Act) foi levado a votação no Senado norte-americano. Embora tenha conseguido uma maioria simples de votos a favor (51 contra 45), a proposta foi travada pela oposição do Partido Republicano através de uma manobra de bloqueio parlamentar (o chamado filibuster), que exigia uma maioria qualificada de 60 votos para que o debate e a votação final pudessem avançar.

Os opositores da medida argumentaram na altura que aumentar os impostos sobre os mais ricos equivalia a uma "guerra de classes" e que a introdução desta taxa iria prejudicar o investimento privado, travar a criação de emprego e desacelerar a economia.

Assim, o sistema fiscal norte-americano manteve-se estruturalmente idêntico no que toca à proteção dos rendimentos de capital. Até hoje, os ganhos derivados de investimentos financeiros e ações continuam a ser taxados a taxas significativamente mais baixas do que os salários do trabalho, permitindo que a assimetria denunciada por Warren Buffett continue a ser uma realidade.

O outro lado da Filantropia
A generosidade proclamada pelos super-ricos através de iniciativas como o The Giving Pledge costuma recolher aplausos unânimes, mas, quando se vira a moeda, a filantropia dos multimilionários revela uma face muito mais cinzenta e amplamente criticada por economistas e sociólogos. Longe de ser um ato puramente altruísta, a transferência de fortunas para fundações privadas funciona, em grande parte, como um mecanismo altamente eficaz de evasão ou otimização fiscal. Ao canalizarem o seu dinheiro para estas estruturas, os bilionários obtêm deduções de impostos massivas, o que significa que o Estado — e, por arrastamento, os cidadãos comuns — deixa de arrecadar receitas que poderiam ser aplicadas em serviços públicos essenciais, como o SNS, a escola pública ou as infraestruturas.

Além da questão financeira, há um profundo défice democrático neste modelo. Quando a riqueza é transferida para fundações geridas pelos próprios magnatas ou pelas suas famílias, o poder de decisão sobre o que é prioritário para a sociedade passa das mãos de governos eleitos para as mãos de elites privadas. São os multimilionários que passam a ditar, segundo as suas convicções pessoais ou interesses de mercado, se o dinheiro deve ir para a cura de uma doença específica, para a exploração espacial ou para reformas educativas que nem sempre são testadas ou validadas. Este fenómeno cria uma espécie de plutocracia disfarçada de caridade, onde o destino do bem-estar social fica sujeito aos caprichos de um punhado de indivíduos que não respondem perante nenhum eleitorado. Ler como os ricos se tornaram mesquinhos

Por fim, não se pode ignorar o tremendo ganho de reputação e a lavagem de imagem, muitas vezes apelidada de philanthro-washing. Muitas destas fortunas colossais foram erguidas com base em práticas laborais controversas, salários baixos, lóbis políticos para travar direitos sociais ou modelos de negócio que aceleraram a crise climática. Ao doarem uma percentagem vistosa do que acumularam, estes empresários conseguem desviar as atenções do escrutínio público e das críticas à forma como geraram a sua riqueza, transformando-se de predadores económicos em benfeitores da humanidade, enquanto mantêm intacto o sistema económico que perpetua as desigualdades que eles próprios dizem combater.

A forma mais democrática é exigir regulação e taxação dos bilionários. 
A exigência de uma maior taxação sobre os bilionários tem deixado de ser um debate puramente académico para se tornar uma pressão política concreta, movida pela necessidade de corrigir o que muitos consideram ser uma falha estrutural do capitalismo moderno. A estratégia para viabilizar esta mudança assenta, primordialmente, na cooperação internacional, dado que os super-ricos operam numa economia globalizada que lhes permite deslocar o património para jurisdições com tributação mais favorável. Projetos como a proposta de um imposto global sobre a riqueza, que visa estabelecer uma taxa mínima anual sobre as maiores fortunas, são fundamentais para evitar a concorrência fiscal entre Estados e impedir a existência de paraísos fiscais que servem de refúgio ao capital.
A nível nacional, a luta pela justiça fiscal passa por reformas legislativas que alterem a forma como a riqueza é tributada, centrando-se na taxação de mais-valias não realizadas - o património latente que cresce sem ser tributado enquanto não é vendido - e no encerramento de lacunas que permitem aos multimilionários viver através de empréstimos garantidos pelas suas próprias ações, escapando assim ao imposto sobre o rendimento das pessoas singulares. Paralelamente, o reforço dos impostos sobre heranças é defendido como uma medida essencial para prevenir a cristalização de dinastias financeiras que exercem um poder desproporcional sobre a democracia. 
Esta causa tem vindo a ganhar força através da pressão cívica, com movimentos de cidadãos e até de investidores consciencializados a sublinharem que a filantropia voluntária é um paliativo insuficiente perante a necessidade urgente de um sistema redistributivo robusto, transparente e democrático, que reponha o equilíbrio entre a acumulação de capital privado e o financiamento dos bens e serviços públicos que sustentam a coesão social.

Saber mais:

quarta-feira, 11 de março de 2026

MacKenzie Scott gave away more than $7 billion last year—but her secretive style got her snubbed from a top donors list


Thanks to multiple historic donations last year and an eye-popping volume of philanthropic gifts, MacKenzie Scott has etched her way to becoming one of the world’s most generous philanthropists.

But the Chronicle of Philanthropy doesn’t see it that way.

Although Scott donated more than $7 billion to more than 120 organizations last year through her philanthropic organization, Yield Giving, the Chronicle didn’t recognize her on its list of the top 50 donors this year.

Scott’s donations in 2025 alone eclipsed that of her ex-husband Jeff Bezos’ lifetime giving, but the billionaire philanthropist’s playbook got in the way of her being recognized on the list. Scott is notoriously secretive and under-the-radar with her donations, never seeking press coverage for her gifts and rarely offering insights into the donations she’s made. 

“MacKenzie Scott is among the notable absences on the Philanthropy 50 list,” according to the Chronicle. “While it is possible she made gifts to her donor-advised funds that would have earned her a spot on the Philanthropy 50, she and her representatives declined to provide such information to the Chronicle.”

It’s essentially impossible to contact Yield Giving (Fortune has tried and failed innumerable times to receive more information about donations she’s made in the past). So, confirming donations for a list like the Chronicle compiles wasn’t possible. Still, Scott has appeared on other generous donor lists, including Forbes, which recognized her for the speed at which she gives and the amount of her net worth she’s donated (at least 40%).

Since 2020, Scott has donated $26 billion, while Forbes currently estimates that Bezos and his wife, Lauren Sánchez Bezos, have given about $4.7 billion to charity over their lifetimes. That’s just about one-fifth of what Scott has donated since her 2019 divorce from Bezos, when she received about 4% of Amazon stock, amounting to roughly $36 billion to $38 billion at the time. Scott’s net worth (currently $38.9 billion) continues to be buoyed by the ever-increasing upward trajectory of Amazon shares, though.

“Scott awarded grants totaling about $7 billion to at least 120 charities last year through her Yield Giving fund, but she continues to decline to provide details about how much money she is funneling into the grant maker,” the Chronicle continued.

Scott has donated 40% of her net worth, while Bezos has donated less than 2% of his.

Still, critics find the Chronicle’s exclusion bizarre.
“I find it odd that MacKenzie Scott isn’t on this list,” Hans Peter Schmitz, the Bob and Carol Mattocks distinguished professor in nonprofit leadership at North Carolina State University, told The Conversation. “She says she gave $7.1 billion in 2025. If she had met the Chronicle of Philanthropy’s criteria, that would have landed her in first place by far.”

Schmitz recognizes, though, the Chronicle’s methodology knocked Scott from the list since she’s “never provided sufficient information about her generosity since becoming a major donor on her own, following her 2019 divorce from Amazon founder Jeff Bezos.”

“And that leaves her off the list year after year,” Schmitz said.

How MacKenzie Scott makes donations
Scott can be considered one of the most generous philanthropists in the world, but she’s also the most mysterious—so much so, some donors have even thought donation emails were spam. That has to do with the fact that Yield Giving typically contacts organizations to offer a donation rather than the other way around. Still, her process for sussing out organizations is extensive, sources have told Fortune.

The hallmark of Scott’s giving style is making unrestricted gifts, meaning organizations can use the donations however they choose. That comes after a thorough due diligence process, though, Anne Marie Dougherty, CEO of the Bob Woodruff Foundation, told Fortune. Scott donated $15 million to the veteran-focused nonprofit organization in 2022 and made a subsequent $20 million donation in fall 2025. The $15 million gift was the largest in history at the organization, which was founded in 2006—the same year military reporter Bob Woodruff was severely injured by a roadside bomb in Iraq.

The due diligence process for Scott included sharing information such as the organization’s strategic plan, audited financials, business plans, organization chart, and grant-making process, Dougherty said. But after the donation was made, Yield Giving was very hands-off, she added.

“Unlike traditional funding processes that often involve lengthy applications, specific restrictions, and reporting requirements, her style empowers organizations like ours to determine how best to direct funds quickly and innovatively to address pressing issues,” Noni Ramos, CEO of Housing Trust Silicon Valley, told Fortune in late 2024, when her organization received a $30 million gift from Scott.

The fact that Scott doesn’t make a big to-do about her donations and largely allows organizations to use gifts however they see fit goes back to her overall philanthropic philosophy: She’s just one cog of a generosity wheel, and works to inspire others as others have inspired her.

“[The] dollar total [I’ve donated] will likely be reported in the news, but any dollar amount is a vanishingly tiny fraction of the personal expressions of care being shared into communities this year,” Scott wrote in a December 2025 essay. “It is these ripple effects that make imagining the power of any of our own acts of kindness impossible.”

Indeed, every time she’s made a donation, she’s thought about the generosity from others she’s experienced in her life, including free dental work from a local dentist in college when she was using denture glue to get by—and her college roommate who loaned her $1,000 so she wouldn’t have to drop out during her sophomore year at Princeton University.

“The potential of peaceful, non-transactional contribution has long been underestimated, often on the basis that it is not financially self-sustaining, or that some of its benefits are hard to track,” Scott wrote. “But what if these imagined liabilities are actually assets?”At the Fortune Workplace Innovation Summit, Fortune 500 leaders will convene to explore the defining questions shaping the workforce of the future—delivering bold ideas, powerful connections, and actionable insights for building resilient organizations for the decade ahead.


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