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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Trumpismo – o maquiavelismo na época contemporânea. O que fazer?

Donald Trump afirmou que «Cuba não conseguirá sobreviver», ao assinar, em 29/01/2026, uma Ordem Executiva impondo novas sanções tarifárias aos países que fornecessem petróleo a Cuba.  

Essa declaração apresenta um contraste evidente em relação à postura anteriormente adotada por Trump, que aparentou um certo humanismo perante a guerra Rússia-Ucrânia e destacou o desfecho do conflito Israel-Palestina, chegando mesmo a manifestar a este respeito, interesse na candidatura ao Prémio Nobel da Paz (aspiração posteriormente reconhecida através da distinção que a Corina Machado lhe atribuiu!).

Não deixa de ser positivo o propósito de pôr termo a essas duas agressões, numa aparente manifestação de respeito pela dignidade humana em toda a linha. Sabe-se, no entanto, que estes dois conflitos tiveram e continuam a ter subjacentemente todo um apoio logístico/militar dos EUA. Se, todavia, Trump enveredou recentemente pelo caminho de retração conciliatória é porque, no primeiro caso a Federação Russa tem demonstrado uma indesmentível superioridade, e, no segundo, o facto de as forças democráticas por esse mundo fora se terem manifestado contra a destruição e o genocídio levado a cabo pelo governo de Israel e suas Forças Militares. Subjacentemente, como aliás, tem sido realçado pelos falcões governativos americanos J. Vance e M. Rubio, lógico é que a América tire um certo lucro dos gastos efetuados, como as terras raras na Ucrânia e o os lucros de reconstrução e da Riviera em Gaza.

«Em pleno século XXI, resta, isso sim, afrontar esta nova ordem mundial engendrada pelo governo dos EUA, que mais não visa senão alcançar os seus propósitos num formato não compatível com a prática diplomática do diálogo e de negociação.»

Vem à laia referir que, é neste enquadramento que a União Europeia (UE) acabou por ser vítima da sua incúria política, de ambiguidade comportamental e seguidista à gesta americana. Da guerra da Ucrânia, longe de procurar alcançar vias de negociação política e diplomática, fomentou a intensificação da guerra, esgotando milhares de milhões de euros em empréstimos destinos à guerra. Por outro lado, alheou-se do conflito em Gaza, silenciando os valores de liberdade, do direito internacional e dos direitos humanos, nunca condenando as atrocidades praticadas contra o povo palestiniano. 

Sucede porém que, numa altura em que se assiste mundialmente a campanhas e  movimentos populares no sentido de paz e diálogo entre os homens e as Nações, surge o MAGA, de autoria do Trump, e que se tem revelado como um expediente chauvinista manhosamente engendrado através de expedientes para alcançar a riqueza à custa, ora de exploração económica de outros países, ora desrespeitando as normas do direito internacional e da soberania de Nações, ora, hostilizando a dignidade de organizações internacionais. Casos como o da exploração da Faixa de Gaza, das terras ricas da Ucrânia, o rapto do Presidente Nicolás Maduro, o aprisionamento de petroleiros estrangeiros, a pretensão à anexação da Gronelândia, a provocação ao Irão, a subalternização e desprezo dirigido à União Europeia, a saga das tarifas alfandegárias, o Conselho de Paz sobre Gaza a substituir a ONU e, mais recentemente, o desumano embargo de petróleo contra Cuba, são exemplos a ponderar.

Aqui se evidencia o maquiavelismo da gesta do Trump, já que parece não poupar esforços para atingir seus objetivos (fins justificam os meios), adotando práticas políticas marcadamente autoritárias e repletas de contradições. De facto, o mínimo de bom senso indica que não se pode defender a paz enquanto se criam focos de instabilidade política, ameaças de belicismo, desacreditando organismos como a ONU e tentativas de sufocar populações.

Em pleno século XXI, resta, isso sim, afrontar esta nova ordem mundial engendrada pelo governo dos EUA, que mais não visa senão alcançar os seus propósitos num formato não compatível com a prática diplomática do diálogo e de negociação. Anote-se a este propósito que, os países componentes do BRICS, titulares de economias florescentes e com estatura suficiente para rivalizar com América, têm estado à altura dos seus objetivos, quais sejam o do desanuviamento bélico, de desenvolvimento económico e de um relacionamento amigável entre as Nações.  Tudo aconselharia por isso, que a UE e outros países da Europa, se autonomizassem da suserania americana, contribuindo decisivamente para a defesa de valores paz, de liberdade, de democracia, de bom entendimento entre as Nações que tanto prezam, mas cuja prática, até agora, fica muito a desejar.

quinta-feira, 15 de maio de 2025

A Palestina e o colapso da ordem mundial baseada em regras

A realidade no terreno - Em Abril de 2025, a catástrofe humanitária em Gaza atingiu proporções catastróficas.

Por Peiman Salehi

Introdução
Em Maio de 2025, a catástrofe humanitária em Gaza atingiu um nível sem precedentes. Mais de 50.000 palestinianos foram mortos desde outubro de 2023, a grande maioria deles civis, incluindo milhares de crianças. No entanto, as potências ocidentais — particularmente os Estados Unidos e os seus aliados — continuam a defender a chamada “ordem internacional baseada em regras”. Esta frase, frequentemente invocada para justificar sanções, intervenções e pressões diplomáticas noutros locais, soa vazia quando aplicada à difícil situação do povo palestiniano, que dura há décadas. A ocupação contínua, as políticas de apartheid e os repetidos crimes de guerra cometidos por Israel — apoiados incondicionalmente pelo Ocidente — expõem uma profunda hipocrisia no cerne desta ordem dita global.

Apesar de mais de 100 resoluções da ONU condenarem os colonatos israelitas, a deslocação forçada e os ataques indiscriminados contra civis, continua ausente uma responsabilização significativa. Israel não enfrenta sanções, embargo de armas ou isolamento internacional. Em vez disso, continua a receber milhares de milhões de dólares em ajuda militar, acordos comerciais preferenciais e cobertura política das potências ocidentais. Gaza, entretanto, continua cercada. Os hospitais são bombardeados, os comboios de ajuda são bloqueados e as necessidades básicas como água, combustível e electricidade são deliberadamente retidas. Esta não é uma resposta de segurança — é uma punição coletiva em grande escala.

Aplicação Selectiva do Direito Internacional
A abordagem do Ocidente ao direito internacional é tudo menos consistente. Quando a Rússia anexou a Crimeia ou quando países como o Irão e a Venezuela foram acusados ​​de violações de direitos, seguiram-se sanções rápidas e condenação global. No entanto, quando Israel viola abertamente as Convenções de Genebra, ataca as infraestruturas civis e desafia o Tribunal Internacional de Justiça, é recompensado com acordos de normalização, investimentos em tecnologia e parcerias de defesa. Este flagrante duplo critério destruiu a credibilidade de qualquer narrativa “baseada em regras”. É claro que as “regras” se aplicam apenas aos adversários do Ocidente — não aos seus aliados.

A armamentização da narrativa
Igualmente preocupante é o papel dos media ocidentais em moldar a perceção pública. A resistência palestiniana é rotulada como “terrorismo”, enquanto a agressão israelita é enquadrada como “autodefesa”. Termos como “confrontos” são utilizados para obscurecer a realidade dos ataques militares unilaterais. A desumanização dos palestinianos e a eliminação do seu sofrimento são componentes essenciais para manter esta ilusão de superioridade moral. O jornalismo que desafia esta narrativa é frequentemente silenciado, censurado ou descartado como tendencioso.

Conclusão
A Palestina já não é apenas uma crise humanitária — é um espelho que reflecte a falência moral do sistema global. A ordem mundial baseada em regras, promovida pelo Ocidente, entrou em colapso sob o peso das suas próprias contradições. Quando o direito internacional é aplicado seletivamente, quando algumas vidas são consideradas dispensáveis ​​e quando a justiça é sacrificada por interesses geopolíticos, o que resta não é a ordem, mas a dominação. A justiça para a Palestina já não é uma preferência política; é um imperativo moral global. Até que o mundo enfrente esta hipocrisia, a paz permanecerá fora de alcance — não apenas para os palestinianos, mas para a humanidade como um todo.

segunda-feira, 10 de junho de 2024

Europa: Reinvenção ou subjugação

«Leituras para compreender a Europa em perigo» é o titulo de um artigo na Babelia, o suplemento cultural do El País (nenhum jornal português tem um suplemento cultural) — e começa com uma declaração do escritor Jean-Baptiste Andre, vencedor do último prémio Goncourt (em Portugal nenhum escritor, premiado ou não, é ouvido sobre o mundo que o cerca e que é matéria de reflexão nos seus romances) — diz o escritor: Estamos à beira de um regresso da extrema direita. Não deveria surpreendermos neste tempo que a História tende a repetir-se . A pergunta é, portanto, a de sabermos se é possível detê-la ou não.

A cerimónia dos 80 anos do desembarque na Normandia diz-nos que já estamos no reino da extrema-direita. Quer o nazismo quer o fascismo são interpretações do mundo que justificam o poder de um dado grupo. Assentam sempre numa interpretação da História, isto é, na reescrita da História de um povo ou de um grupo para o tornar virtuoso e com direito a impor a sua virtude a todos os outros. A extrema-direita assume-se senhora dos Valores, do Bem, da Verdade, da Superioridade. As Cruzadas, a Colonização, o Colonialismo são a materialização dessa mistificação que tem origem no conceito de Povo Eleito. O discurso do presidente americano Joe Biden, em 2024, em França, repete o discurso de Ronald Reagen há quarenta anos a 6 de Julho de 1984: A América a terra da Liberdade, da defesa da Liberdade contra a tirania. O direito da América intervir em qualquer parte e contra quem quer que seja para impor a Liberdade. A afirmação de que a América é a herdeira da Terra Prometida, que o modo de vida americano é a suprema aspiração dos povos. O Fim da História. Os Superiores têm o direito de impor os seus valores!

O novo machartismo
A “mensagem” da América como paraíso final justifica todas as intervenções. Mesmo que os “pastores” da religião americana levantem muralhas contra os que ali querem entrar. Quem não acreditar na “mensagem” é herege e está fora da ordem, da Igreja, do Povo Eleito. O sociedade da exclusão e do totalitarismo, que é a dos Estados Unidos, teve o seu ponto alto com a doutrina do Macarthismo — a prática de acusar alguém de subversão ou de traição. Um termo originalmente cunhado para descrever a campanha anticomunista promovida pelo senador republicano Joseph McCarthy, nos anos 50. O macarthismo serviu para acusar milhares de americanos de serem comunistas ou simpatizantes, que foram objetos de agressivas investigações e de inquéritos abertos pelo governo ou por indústrias privadas baseados em evidências inconclusivas e questionáveis. Muitos perderam os empregos e/ou tiveram as carreiras destruídas; alguns foram presos.

O machartismo teve a cumplicidade ativa de muitos fazedores de opinião, artistas e jornalistas — incluindo Reagan, um denunciante que chegou a Presidente! — que promoveram a histeria da verdade única e denunciaram aqueles que não seguiam os mandamentos, que não se incorporavam no rebanho. (Hoje basta abrir as Tvs e ver os macthartistas militantes).

Quarenta anos passados estamos de regresso ao machartismo. A Normandia foi um festival de radicalismo: nós e eles. O perigo está do lado de lá. Denunciemos e ataquemos. Não pensemos. Principalmente: não pensem, Não pensem que a Liberdade que o Ocidente — a Terra do Bem — defende é a Liberdade que só no século passado, em nome da Liberdade, manteve a segregação racial mesmo nos exércitos: nos Estados Unidos havia unidades brancas e negras e se as negras sofreram muito mais baixas, ainda assim foram impedidas de desfilar no dia da vitória em Paris, assim como as tropas africanas ao serviço da França, que ocuparam o sul, e que também não desfilaram. O racismo em nome da Liberdade. Os negros eram inferiores. Nos Estados Unidos as leis de segregação racial mantiveram-se até aos anos 60. Também em nome da Liberdade. E, em nome da Liberdade, os Estados Unidos apoiaram as ditaduras sul-americanas, no Brasil, na Argentina, na Bolívia, na Republica Dominicana, na Nicarágua, no Uruguai, no Chile, isto até aos anos 80. E também em nome da Liberdade dos povos e da democracia, os Estados Unidos e a Inglaterra derrubaram um presidente eleito na Pérsia e substituíram-no por um títere seu vassalo, o Xá Rheza Phalevi, e invadiram o Iraque e o Afeganistão e destruíram a Sérvia.

São estes conceitos de Liberdade e Democracia que fizeram de Zelensky a figura principal das celebrações do Dia D de 2024! O exemplo a seguir de marioneta que tem conseguido encobrir os neonazis verdadeiros executores da política da Ucrânia e da guerra em nome da Liberdade americana.

A Democracia e a Liberdade de Salazar para os americanos
A opção dos Estados Unidos por “democratas convenientes e talhados à medida”, de que Pinochet será o exemplo mais evidente, é antiga e tem sido continuada. Nós, os portugueses, quando ouvimos falar na defesa da Liberdade e Democracia devíamos ter alguém que nos recordasse a História. Após o final da Segunda Guerra, em 1947 ocorreu em Portugal a mais séria tentativa de implantação de uma democracia europeia com o golpe que ficou conhecido pela «Abrilada de 47», conduzida pelo general Marques Godinho e pelo doutor João Soares. O golpe abortou, o general acabou por morrer na prisão, porque os ingleses preferiram manter Salazar no poder do que correr o risco de, num futuro governo democrático puderem fazer parte comunistas, ou aparentados, mesmo que eleitos. E a defesa da liberdade e da democracia em Portugal, por parte dos ingleses e dos americanos também foi uma bela falácia com a entrada de Portugal como membro fundador da NATO ( a Aliança do Mundo Livre), apenas porque os Açores eram bases importantes para os democratas.

Os 80 anos do desembarque da Normandia mostraram a face mais hipócrita e radical dos que se assumem pastores universais e aspergem os povos com juras de Liberdade, como qualquer demagogo atiram confétis e rebuçados às crianças miseráveis. Sobre a Liberdade da Palestina é que nem uma palavra. Israel é um campeão desta Liberdade que foi aviltada na Normandia. A extrema direita estava lá. A questão não é detê-la, mas extirpá-la.

quarta-feira, 5 de junho de 2024

Livro "A abolição do trabalho" de Bob Black (para descarregar)


Tão estimulante quanto contagioso, este texto escrito em 1985 continua a manter intacta a força para impulsionar as nossas vidas para uma busca da plenitude e enfrentar a mutilação que a economia nos impõe. Nesta altura do século XXI, a obra do anarquista Bob Black continua a ser uma heresia para muitos. Para nós, a abolição do trabalho é além de um harmónico canto à vida um monumental corte de mangas à ordem mental estabelecida.

[... ] Ninguém deveria trabalhar nunca. O trabalho é a fonte de quase toda a miséria existente no mundo. Quase todos os males que podem ser nomeados vêm do trabalho ou da vida num mundo desenhado em função do trabalho. Para parar de sofrer, temos que parar de trabalhar. Isso não significa que tenhamos que parar de fazer coisas. Significa que há que criar uma nova forma de vida baseada no jogo: por outras palavras, uma revolução lúdica. Por "jogo" também se deve considerar festa, criatividade, convivialidade, comida e talvez até arte. O jogo vai além dos jogos infantis, por mais dignos que sejam. Apelo a uma aventura coletiva baseada na alegria generalizada e na exuberância livre e recíproca. [... ]

E-Livro que pode descarregar aqui

sexta-feira, 10 de maio de 2024

George Orwell sobre Jornalismo


Liberdade para Julian Assange e Pablo González, um jornalista basco com o azar de ter dupla nacionalidade: espanhola e russa e desde o início da guerra russo-ucraniana está na cadeia na Polónia acusado sem provas de ser espião russo, quando ele fazia jornalismo ao estilo de Bruno de Carvalho.

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Inteligência artificial vai criar muito desemprego

A rede X anda muito silenciosa com a nova revolução tecnológica: a IA. O nosso patrão Elon Musk vai muito à frente e investe puro e duro na IA. Aqui vai um cartoon, para refletirmos. 
"- Que fazia antes de se encontrar desempregada? 
- Ocupava o seu emprego!"

quinta-feira, 23 de março de 2023

Enrico Berlinguer & the NIEO in the Global North


“Comrade Berlinguer do not forget that we even get our aspirin from the USSR”. It was with these words that, in October 1981, a long discussion between Fidel Castro and the Secretary of the Italian Communist Party (PCI) came to an end.

Enrico Berlinguer had traveled to Cuba for a trip that would take him to various places throughout Latin America, from López Portillo’s Mexico to Sandinista Nicaragua. In Cuba, Berlinguer debated Castro on a range of topics both theoretical and practical in nature, from the relationship between socialism and democracy to the role of the USSR in the international communist movement. But the New International Economic Order constituted a privileged meeting-point: as President of the Non-Aligned Movement, Castro was curious to hear the perspective of the Secretary of the PCI, a party that had placed North-South relations at the core of its international strategy. Their conversation, and the broader commitment of the PCI to the project of the NIEO, fills a gap in the dominant historical account of this period by pointing to the role of Northern countries — Western Europe’s left parties in particular — as allies and strategic actors in the rise and demise of the NIEO.

The original purpose of Berlinguer’s trip was to promote the Charter for Peace and Development1, a document drafted by Italian Communists with the aim of defining a program for global development. In the footprints of the 1980 Brandt Report2, the Charter was inspired by a new idea of equal cooperation between global North and South. The “new internationalism” of the largest Western Communist Party seemed an important partner for the policies of the Non-Aligned, particularly given the upcoming North-South Summit, which was to be held a few days later in Cancun. Fidel Castro, who had been excluded from the meeting by the Reagan administration, was interested in the Italian perspectives on the NIEO.

“That argument we had with Castro” — this is how Antonio Rubbi, then-head of the PCI Foreign Relations and a member of the delegation that accompanied Berlinguer on his trip to Latin America, described the encounter in a recent interview, before quickly retracting the phrase, and hastening to recall the exceptional affinity felt by Italian Communists for the Cuban leader3. Charged, among others, with drafting the final joint communiqué of the meeting, Rubbi described the subjects of the discussion that took place between Castro and the PCI: the democratic path to socialism, democratic pluralism, and the USSR. Castro’s comment on the subject was incisive in unraveling the different perspectives between a small, embargoed island threatened by neighbouring US, on the one side, and 1970s Italy, on the other: “we are a small country, besieged by the US; here multipartyism was a very bad experience, before the revolution”.

Often blurred and shrouded in the myth of an extraordinary harmony between two differently charismatic personalities, “one imposing and fiery in the olive-green uniform, the other slender and shy”, the anecdotal aestheticization of the protagonists’ recollections fails to completely hide the unsolved crux of the discussions, made between swimming and fishing trips4. The underlying misunderstanding between the two would never be resolved, but the episode remains of interest for us today, for its insight into the debates on the NIEO, and how different ambitions and perspectives were projected onto it.

While a single episode can’t solely represent the reasons behind the fate of the NIEO, assessing these moments of missed opportunities and alliances in the networks built around the NIEO in the 1970s can perhaps help us reflect on important questions about the future before us, and help us in looking at the new balances of a conflict that, albeit in different ways and forms, undoubtedly still runs through the world today. What did the NIEO mean for a “Northern” country like Italy? How many and what different strategies did it conceal under the image of a universal egalitarian banner for the Global South and the Western left?

Recent historiographical interest in the NIEO has provided various insights into the question: “What, exactly, was the New International Economic Order?”. Opening the Special Issue of Humanity in spring 2015 with this question, Nils Gilman describes the NIEO as “like an apparition, an improbable political creature”, appearing “as the figment of a now all but lost political imaginary, sprang forth during a narrow and specific window of geopolitical opportunity”. A “moment of disjunction and openness, when wildly divergent political possibilities suddenly appeared plausible”, something “dramatically alternative”5, radically other than what would soon emerge as “the real new international economic order”6— that is, the neoliberal order. But, as many interpretations have suggested, the NIEO was multiple things at the same time: a project of “worldmaking”, an initiative to reform transnational governance or to radically change international law, the completing/the high point of the process of decolonization and its economic cultures,7 a global Keynesianism or even a global socialism, “the most serious challenge to US global leadership since the end of the Second World War”, and, in the end, a possible alternative globalization8.

This ambitious project of redefining global relations was a ground on which, on the part of both the “South” and the “North”, different visions and hopes were projected, not immediately coinciding, sometimes even opposing each other. In the latter half of the 1970s, the NIEO represented an alternative project of international economic relations – but also of state-market relations – that was a critical part of the competition between different models of global integration. Through this prism, it is possible to look at individual national debates in terms of how they moved within this competition. To shed light on this double level — between an “institutional” level and the broader internal political confrontation — allows us to gain a better understanding of the intertwining of different ambitions and expectations that lay behind this global issue.

The Italian debate on the NIEO was shaped by domestic needs and issues, exemplifying how the challenges of the new global economic interdependencies constituted a ground for competition among different political cultures. The political discussion on the NIEO emerged in the wake of the far-reaching cultural impact provoked by the vast cycle of conflict which began in 1968-1969. In Italy, it developed during a period of great social change that worked as a new driving force for the Italian elites to rethink their responses to the outcomes of modernization processes and deal with domestic social demands for democratization. A first element thus emerges in considering this period as a crucial transition in bringing about a critical rethinking within the major political cultures in response to the overall crisis of legitimacy of the Italian institutional and party system.

Although in different ways – and with different inclinations and purposes – the main Italian parties identified new international strategies as the preferred terrain of this effort. They framed new global issues as part of a broader interpretation of the crisis, linking global and domestic egalitarian claims. This trend was backed by two main influences or traditions: both the reflection on post-colonial experiences fostered by the Communist leadership – inherently related to its “internationalist” identity – as well as the emerging of an ethical-humanitarian interest in the Global South among Catholics following the Second Vatican Council. As early as November 1967, Communist member Renato Sandri had already brought attention to the “presence of great forces that referred to internationalism and ecumenism” to encourage the start of a new Italian focus on the post-colonial world, that should have been based on the values of universalism and global solidarity shared by all major Italian political cultures9. Behind this was the intertwining and competition between two universalist visions, each of which had given rise to its own internationalist networks, especially the Communist one that had always supported the decolonization processes. At the turn of the decade, the Christian Democrats and the Communist leadership began to work out new agendas to bring about – as they said – “the pressing need of new times”10. According to the Christian Democrats Aldo Moro and Luigi Granelli – who would lead the Italian Foreign Ministry almost continuously from 1969 to 1974 – the “moral awakening of the new generations” gave rise to the overcoming of anachronistic divisions, moving towards a “new and different international order”.

This effort resulted first and foremost in Italy’s growing commitment to the European project. Author Giuliano Garavini showed how the EC’s new relationship with developing countries and support for the New International Economic Order were part of a broader discussion among European elites on the consequences of the oil crisis and the reconsideration of the Community’s new role in a global context11. The vision of the Italian Foreign Ministry (expressed in these years by the Christian Democrats’ left wing) reflected those European approaches aimed at maximizing the potential of the EC’s enlargement to achieve a “qualitative leap”12 that could meet the expectations of both European public opinion and those of the developing world. Within this framework, it was the issue of political and economic relations with the Global South – as well as several specific debates on the NIEO – that represented a crucial first experience of political dialogue, as demonstrated by the birth of the Institute for relations between Italy and the countries of Africa, Latin America, and the Middle East in 1972, on the initiative of the Christian Democrats’ left wing, the Socialists and the Communists.

The economic challenges facing Italy, driven in part by the oil crisis, had the effect of sharpening the debate on the relationship between Southern development and Western standards of living. Thus, for example, in February 1974, Ugo La Malfa, the Republican Party Minister of the Treasury, committed to passing his austerity policy by highlighting how “the transfer of resources from developed to oil-producing countries, as a result of the change in the terms of trade” would necessarily lead to “a restriction of domestic consumption in the industrialized countries”. To such statements, Communist Senator Napoleone Colajanni replied that his party rejected “precisely this conception of Third World development as necessarily linked to a halt and a compression of the standard of living of the working masses of the industrialized countries”, considering it “not necessary in absolute terms” but rather “intrinsically linked to the workings of the capitalist system”13.

To Aldo Moro, the transition “from the rhetorical to the political phase” of relations with the developing world needed a “slowing of growth” necessary to “allow the progress of others”14. At the same time, the PCI’s international policy stimulated an in-depth analysis linking North-South relations with the rethinking of Western societies’ economic structures. These theories, processed in tune with the political lines of the European social democracies within the framework of “Eurocommunism”, demanded a new conception of development, based on the global redistribution in terms of a “qualitative” rather than exclusively quantitative growth15. Indeed, the fundamental premise of Berlinguer’s well-known “austerity policy” was the re-elaboration of the Western model of production and consumption, in close connection with the development of the Global South16. This proposal was highly compatible with that of the promoters of the NIEO and the categories of its fundamental theoretical framework – the ambitious vision of global redistribution and the centrality of the notion of sovereignty. Between 1973 and 1976, the Communists would develop, in parallel, the idea of “introducing elements of socialism17 into Italian society and the need to move towards a “new international division of labor” within an overall analysis that looked at the current economic crisis as a systemic crisis of capitalism, affecting the entire structure of global value chains. This would have required the “theoretical and practical initiative of the working-class vanguard and democratic forces of Western Europe” which would have had to match the thrust of the developing countries in a common struggle. As Renato Sandri pointed out in June 1974, the need for such an initiative would require a new vision of interdependence, “so that the approaching crossroads would not result in a further polarization of imperialist domination but in an international division in which interdependence would no longer be that fable of the wolf and the lamb”18.


As political confrontation expanded, ironically the potential Italian role on the international scene was further reduced. Italian economic crisis and social conflict became a source of special attention within the multilateral Euro-Atlantic framework, constraining Italian policy, especially in the monetary field, which would later take the form of financial aid packages placed under political conditions. Italy would become the object of close monitoring as part of a change of pace in the instruments of U.S. foreign policy, defined by some authors as a shift from the “rigid containment” to a phase of “concerted stabilization19. This trend was also solicited by certain domestic concerns: “What is at stake”, La Malfa complained in February, “is the issue of who is running the country, the unions or the government”20. The position taken by the Italian government at the UN Sixth Special Session was within this framework, as was the one taken at the vote on the Charter of Economic Rights and Duties of States21 in late 1974, in which Italy eventually abstained along with some of the leading European countries, after long and arduous negotiations with the United States. As U.S. ambassador John Anthony Volpe concluded about the vote on the Charter, Italy was “perfectly willing to take the heat from LDCs [Least Developed Countries] on this issue, but not at the cost of being isolated within European Community”22.

As the European Community set out to negotiate the Lomé Convention23, different international fora were being arranged outside the equal and global framework of the United Nations. The launch of exclusive meetings between Western technocratic elite would become increasingly influential in the years that followed, affecting the fates of both the NIEO project and the difficult Italian political balance24. Some authors have effectively shown the close link and parallel proceeding between stabilization projects, towards the containment of both Western leftists and the demands of the Global South, also pointing out how parties such as the PCI ended up being tied down by their own internal legitimation strategies and — willingly or unwillingly — going along with these outcomes25.

The debate between political visions coexisted with a profound divide within the institutional system, leading to an era in which international policies swung between innovative impulses and stark re-stabilization. The NIEO debate was part of such a competition and clash between different visions and formulas for exiting the crisis, demonstrating how domestic designs were also based on and legitimized by reference to external models of global integration. Such a twofold trend characterized the ways in which Italian political elites faced the major global transformations that occurred at the turn of the 1970s, showing the multilevel relationship Italy established with such processes. On the one hand, Italy was particularly exposed to the new global economic interdependences, suffering first the immediate economic implications, then consequent political constraints; on the other hand, international issues, including the NIEO, became a ground on which different efforts to shift the domestic political balance were exercised.

While the NIEO may appear today retrospectively as an announced failure, these histories serve as reminder that the NIEO seemed to be surprisingly credible in its most successful moment26, a hope or a threat to the global order, arousing even disproportionate irritation in its contemporary critics, if not even the redefinition of their own international strategies27. As Quinn Slobodian pointed out, “understanding the irritation means recognizing that the NIEO was not acting alone” but it found influential allies in the North, from “global reformists”, economists and social democrats to European leftists28. In this regard, it seems useful today to ask whether, in addition to a new South-South cooperation, it is possible to rethink a North-South cooperation, starting precisely from those missed opportunities or alliances past left unresolved.

Historians often rush to warn against hurried comparisons, analogies, or parallels between ages and times. However, the importance, not just nominal but political, of the recent revival of an idea of South-South cooperation, whose call for alternative models of solidarity-based and non-hierarchical global integration is explicit, should not escape us. Recognizing the political relevance of such a reference is not to fail to see the differences between one period and another, or the contradictions that lie beneath the homogenizing banner of “Global South” — the “Global South” after all has never been homogenous, it was not in the 1970s and it is not today. But the viewpoint of the researcher and historian, accurate to specificities and differences, can (and must) sometimes give way to the no less necessary political outlook.

And it is thus precisely in a political perspective that we should start again from where the meetings, connections and networks built around the NIEO in the 1970s had failed. Silvio Pons has effectively explained how Berlinguer's trip to Latin America had been a disappointment for the PCI, particularly with respect to the party's ambitions to relaunch its traditional vocation as transnational mediator and its role as a “bridge between different worlds”, within a project of “interaction and interpenetration between European reformist communism and anti-imperialist traditions outside Europe”. According to Pons, after Tito's death, the Non-Aligned Movement under the Cuban presidency had represented a “radicalisation that denied the reformist assumptions of a rebalance between North and South and reflected the growing fragmentation of political subjects in the global South”. The PCI therefore intended to act as a key interlocutor partner to restore convergence of networks and relations around the NIEO project29.

From this point of view, two different political strategies clashed in the meeting between Castro and Berlinguer, both very much informed by the respective position that Cuba and the PCI thought they should hold within the international communist movement at the time, and the resulting new tactics as sources of identity and legitimacy. In turn, these assessments were profoundly related to the context in which they developed and acted as political actors, and thus to the specific positioning of the two countries in the balances of the global economy. Corresponding to these two strategies were two different visions and interpretations of the NIEO as a political project, beneath which lay distinct ideas of the relationship between anti-imperialist struggle, democracy and development.

As we saw above, Berlinguer's “austerity” political project was also based on the assumption of a convergence and shared interests between the popular classes of the West and the collective struggle of the developing countries. But that vision failed, just as the meeting between Castro and Berlinguer revealed the limitations of an authentic political understanding.

The defeat of the NIEO and the emerging of the neo-liberal model represented both the revival of class struggle from above and the return of hierarchical conceptions of global integration. We all lost from this. At the same time, however, the winners in this story were not only in the North. Today, globalization processes have in many ways redefined the core-periphery balances and structures of the world30. The terrain of struggle remains one not exclusively of “the West and the rest” but also between global rich and poor. It is a matter of understanding on what to base this convergence and working on the deconstruction and demystification of false differences and identities. Above all, it is about being able to find a way to imagine — and, possibly, achieve — a world in which real differences and identities are integrated into a collective and cooperative vision, instead of being declined into domination hierarchies or conflicting strategies. But this first requires asking whether the structural and systemic conditions for this convergence exist today. Are they better than they were in the 1970s? What are the interests that Western leftists want to represent? Are they compatible and convergent with a new collective struggle of the Global South? These are the real challenges of this fundamentally emancipatory, progressive, and timely struggle, and which can perhaps provide some elements to reconstruct a dialogue between different points of view left unresolved in the meeting between Castro and Berlinguer.


Martina Marchesi is a PhD candidate at the Scuola Normale Superiore.


References
01 “Il contributo del PCI per una Carta della pace e dello sviluppo”, l’Unità, 8 novembre 1981, p. 8. See also “La più ampia iniziativa contro il riarmo per la pace e lo sviluppo. Il dibattito sulla relazione di Ledda”, l’Unità, 7 ottobre 1981, pp. 1, 8-9.Fonte↗
02 North-South: A Program for Survival, The Indipendent Commission on International Development Issues, MIT Press, Cambridge, 1980.Fonte↗
03 Author's interview with Antonio Rubbi, Rome, 8 October 2022.
04 For several accounts and recollections of the episode see R. Borroni, Renato Sandri. Un italiano comunista, Tre lune, 2010; A. Rubbi, Il mondo di Berlinguer, Napoleone, 1994. See also S. Pons, I comunisti italiani e gli altri. Visioni e legami internazionali nel mondo del Novecento, Einaudi, Torino, 2021, pp. 269-280.
05 N. Gilman, The New International Economic Order: A Reintroduction, “Humanity”, 6, no. 1, 2015, pp. 1-16, p. 1.
06 M. Mazower, Governing the World: The History of an Idea. 1815 to the Present, Penguin Group, London, 2013.
07 G. Garavini, The Rise and Fall of OPEC in the Twentieth Century, Oxford University Press, Oxford, 2019; G. Garavini, Completing Decolonization: The 1973 ‘Oil Shock’ and the Struggle for Economic Rights, “The International History Review”, v. 33, no. 3, September 2011, pp. 473-487; C. R. W. Dietrich, Oil Revolution. Anticolonial Elites, Sovereign Rights, and the Economic Culture of Decolonization, Cambridge University Press, Cambridge, 2017.
08 See the Special Issue “Toward a History of the New International Economic Order”, Humanity: An International Journal of Human Rights, Humanitarianism, and Development”, 6, no.1 (2015); M. Mazower, Governing the World, cit.; A. Getachew, Worldmaking after Empire. The Rise and Fall of Self-determination, Princeton University Press, Princeton-Oxford, 2019.
09 Camera dei deputati, IV Legislatura, Discussioni, 15 November, 1967, p. 40576.Fonte↗
10 ACS, AAM, Scritti e discorsi 1947-1978, anno 1968, 465, Discorso tenuto al Consiglio nazionale Dc (20 Novembre 1968-1 Dicembre 1968). Resource available online on ASS, Fondi federati.Fonte↗
11 G. Garavini, After Empires: European Integration, Decolonization, and the Challenge from the Global South, 1957-1986, Oxford University Press, Oxford, 2012.
12 ACS, AAM, Scritti e discorsi 1947-1978, anno 1972, 559, Preparazione del vertice a Lussemburgo, intervento (26 maggio 1972). ASS, Fondi federati.Fonte↗
13 Comunicazioni del ministro del tesoro On. La Malfa alla Commissione bilancio del Senato, (21 febbraio, Res. Somm.), Ministero Affari Esteri, Servizio storico e documentazione (MAE-SSD), Testi e documenti della politica estera italiana, Roma, 1974, p. 45.
14 ACS, AAM, Scritti e discorsi 1947-1978, anno 1974, 621, Intervento alla Commissione esteri della Camera dei deputati (25 febbraio 1974-28 febbraio 1974). ASS, Fondi federati.Fonte↗
15 E. Berlinguer, La politica internazionale dei comunisti italiani, Rapporto al XIV Congresso del PCI, 18 marzo 1975, Editori Riuniti, Roma, 1976; see also, G. Garavini, After Empires, pp. 219-220.
16 E. Berlinguer, La proposta comunista. Relazione al Comitato centrale e alla Commissione centrale di controllo del Partito comunista italiano in preparazione del XIV Congresso, Einaudi, Torino, 1975; E. Berlinguer, Austerità: occasione per trasformare l’Italia. Le conclusioni al convegno degli intellettuali (Roma, 15-1-1977) e alla assemblea degli operai comunisti (Milano, 30-1-77), Editori Riuniti, Roma, 1977; R. Sandri, La sfida del Terzo Mondo. L’Europa comunitaria e i paesi ex coloniali tra protezionismo, liberalizzazione «selvaggia» e cooperazione, Editori Riuniti, Roma, 1978.
17 A. Tatò, Caro Berlinguer. Note e appunti riservati, Einaudi, Torino, 2003, p. 50.
18 R. Sandri, Tutte le materie prime e non solo il petrolio, “Rinascita”, no. 25, 31, June 21, 1974, p. 14.
19 L. Cominelli, L’Italia sotto tutela. Stati Uniti, Europa e crisi italiana degli anni Settanta, Le Monnier, Milano, 2014.
20 Feb 11, 1974. Telegram from AmEmbassy Rome to SecState: Treasury Minister La Malfa requests US assistance for Italian labor situation, NARA, RG 59, CFPF, El. Tel. 1974.Fonte↗
21 Charter of Economic Rights and Duties of States, UNGA, Res. 3281 (XXIX), UN doc., A/RES/29/3281 (12 December 1974) Free access on UN Digital Library.Fonte↗
22 Oct 31, 1974. Telegram from AmEmbassy Rome to SecState: Charter of Economic Rights and Duties of States, NARA, RG 59, CFPF, El. Tel. 1974.Fonte↗
23 For a detailed account of the negotiations that led to the Lomé Convention see G. Garavini, After Empires, pp. 183-200.
24 See Ivi, pp. 203-215; E. Mourlon-Druol, F. Romero (eds), International Summitry and Global Governance. The Rise of the G7 and the European Council, 1974-1991, Routledge, London-New York, 2014.
25 D. Basosi, G. Bernardini, The Puerto Rico Summit of 1976 and the End of Eurocommunism, in L. Nuti (a cura di), The Crisis of Détente in Europe. From Helsinki to Gorbachev, 1975-1985, Routledge, London, 2009, pp. 257-267.
26 V. McFarland, The International Economic Order, Interdependence and Globalization, “Humanity”, 6, no. 1, 2015, pp. 217-233, p. 217.
27 M. Franczak, Global Inequality and American Foreign Policy in the 1970s, Cornell University Press, Ithaca and London, 2022.
28 Q. Slobodian, Globalists. The End of Empire and the Birth of Neoliberalism, Harvard University Press, Cambridge-London, 2018, p. 221.
29 See S. Pons, I comunisti italiani e gli altri, pp. 271-273.
30 B. Milanovic, Global inequality. A New Approach for the Age of Globalization, Belknap, Harvard University Press, Cambridge, 2016.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

O fim da Nova Paz — Ensaio de Yuval Noah Harari


Ao longo da era da Nova Paz os políticos procuraram deixar a sua marca lançando reformas dos sistemas de Saúde, e não pilhando cidades estrangeiras. Líderes de todo o mundo — influenciados pelo receio de uma guerra nuclear, pelas mudanças na natureza da economia e pelas novas tendências culturais — juntaram forças para construir uma ordem global que funcionasse. Esta ordem global tem-se baseado nos ideais liberais e humanistas, nomeadamente em que todos os seres humanos merecem as mesmas liberdades fundamentais. 
Apesar de esta ordem global estar longe de ser perfeita, melhorou a vida de muita gente, não apenas em antigos pólos imperiais, como o Reino Unido ou os EUA, mas também em muitas outras partes do mundo, da Índia ao Brasil e da Polónia à China. Não foram apenas a Dinamarca e o Canadá a desviar recursos da compra de tanques para formação de professores — a Nigéria e a Indonésia fizeram a mesma coisa.
Qualquer pessoa que discurse acerca das falhas da ordem liberal global deveria antes responder a uma simples pergunta: consegue indicar uma década na qual a humanidade tenha estado em melhor condições do que nos anos 2010? Que década é a sua época dourada? Os anos 1910, com a Primeira Guerra Mundial, a Revolução Bolchevique, as leis de segregação racial nos Estados Unidos, e os impérios europeus a explorar brutalmente a maior parte de África e da Ásia? Talvez os anos 1810, com Napoleão no pico das suas campanhas sangrentas, os camponeses russos e chineses esmagados pelos seus senhores aristocratas, a Companhia das Índias Orientais a assegurar o controlo da Índia, e a escravidão ainda legal nos Estados Unidos, no Brasil e na maior parte do mundo? Talvez sonhe com os anos 1710, com a Guerra da Sucessão de Espanha, a Grande Guerra do Norte, as guerras de sucessão do Império Mongol, e um terço das crianças a morrer de má nutrição e doenças antes de atingirem a idade adulta?
A Nova Paz não foi o resultado de um qualquer milagre divino. Foi alcançada por seres humanos. Infelizmente, demasiadas pessoas tomaram este feito como um dado adquirido. Talvez achassem que a Nova Paz estava garantida e que poderia sobreviver até sem a ordem global. Consequentemente, essa ordem foi primeiro negligenciada, e depois atacada com uma ferocidade crescente.
O ataque iniciou-se através de Estados-pária como o Irão e líderes-pária como Putin, mas sozinhos não seriam suficientemente fortes para acabar com a Nova Paz. O que de facto minou a ordem global foi que tanto os países que mais beneficiaram com ela (incluindo a China, a Índia, o Brasil e a Polónia) como os países que iniciaram a sua construção (nomeadamente o Reino Unido e os EUA) lhe voltaram as costas. O voto pelo “Brexit” e a eleição de Donald Trump em 2016 simbolizaram esta viragem.
Os que desafiaram a ordem global não desejavam a guerra. Apenas queriam avançar naquilo que acreditavam ser os interesses do seu país, e argumentavam que cada Estado-nação devia defender a sua identidade e tradições sagradas. O que nunca chegavam a explicar é como todas essas diferentes nações iriam lidar umas com as outras na ausência de valores universais e instituições globais. Os oponentes da ordem global não ofereciam qualquer alternativa clara. Pareciam pensar que as várias nações iriam dar-se bem e que o mundo iria tornar-se uma rede de fortalezas muradas, mas amistosas . Mas as fortalezas raramente são amistosas. Cada fortaleza nacional quer um pouco mais de prosperidade para si própria, à custa dos seus vizinhos, e sem a ajuda de valores universais não conseguem chegar a acordo em relação a qualquer regra comum. O modelo de rede de fortalezas era um caminho para o desastre. E o desastre não demorou a surgir. A pandemia demonstrou que, na ausência de uma cooperação global eficaz, a humanidade não se consegue proteger de ameaças comuns, como os vírus. Então, talvez por ter observado como a covid-19 diminuiu ainda mais a solidariedade global, Putin concluiu que poderia levar a cabo o golpe de misericórdia, quebrando o maior dos tabus da era da Nova Paz. [Pensou] que se conquistasse a Ucrânia e a absorvesse na Rússia, alguns países poderiam mostrar-se espantados e indignados e condená-lo — mas que ninguém tomaria alguma acção efectiva contra si.
O argumento de que Putin foi empurrado para invadir a Ucrânia e assim antecipar-se a um ataque por parte do Ocidente é propaganda sem qualquer sentido. Alguma vaga ameaça ocidental não é uma razão legítima para destruir um país, pilhar as suas cidades, violar e torturar os seus cidadãos. Quem acredita que Putin não tinha alternativa deve dizer que país se estava a preparar para invadir a Rússia. O exército alemão estava a reunir forças para passar a fronteira? Napoleão levantou-se do túmulo para mais uma vez liderar a Grande Armée até Moscovo, e que Putin não tinha outra alternativa a não ser antecipar-se ao massacre iminente por parte dos franceses? Putin preparou a sua invasão ao longo de muito tempo. Nunca aceitou o desmantelamento do Império Russo, e nunca viu a Ucrânia, a Geórgia ou qualquer das repúblicas pós-soviéticas como nações independentes e legítimas. Enquanto — como referi antes — os gastos com as Forças Armadas eram, em média, de 6,5% dos orçamentos dos governos pelo mundo fora, e de 11% nos Estados Unidos, na Rússia têm sido muito mais elevados. Não sabemos exactamente quanto mais elevados, porque são um segredo de Estado. Mas algumas estimativas põem o número algures pelos 20% por cento, e poderá até chegar a mais de 30%.
Se a aposta de Putin for bem sucedida, o resultado poderá ser o colapso final da ordem global e da Nova Paz. Autocratas um pouco por todo o mundo irão perceber que guerras de conquista são de novo uma possibilidade, e as democracias também serão forçadas a militarizarem-se para se protegerem. Já vimos que a agressão da Rússia levou a um aumento imediato das verbas para a Defesa em países como a Alemanha, e a que países como a Suécia voltassem a impor o serviço militar obrigatório. O dinheiro que devia ser destinado a professores, enfermeiros e assistentes sociais irá para a compra de tanques, mísseis e ciberarmas. Aos 18 anos, jovens de todo o mundo irão cumprir o serviço militar obrigatório. O mundo inteiro irá ficar parecido com a Rússia — um país com um Exército desmesuradamente grande e hospitais com falta de pessoal. O resultado será uma nova era de guerra, pobreza e doença. Mas há uma alternativa: se Putin for parado e punido, a ordem global não será destruída por aquilo que ele fez, mas reforçada. Quem quer que tivesse ideias perceberia que simplesmente não pode fazer coisas destas.
Qual destes dois cenários irá concretizar-se? Felizmente para todos nós, e apesar de todos os seus preparativos militares, Putin estava imensamente mal preparado para uma coisa crucial: a coragem do povo ucraniano. Os ucranianos repeliram os russos numa série de espantosas vitórias perto de Kiev, Kharkiv (Carcóvia) e Kherson. Mas até agora Putin tem-se recusado a reconhecer o seu erro, e reage à derrota com crescente brutalidade. Ao ver que o seu Exército não consegue vencer os soldados ucranianos na frente de batalha, Putin está a tentar matar de frio os civis ucranianos nas suas casas. É impossível prever como vai acabar esta guerra, tal como o destino da Nova Paz.
A História nunca é determinista. Após o final da Segunda Guerra Mundial, muita gente acreditou que a paz era inevitável, e que iria manter-se, mesmo que negligenciássemos a ordem global. Após a Rússia ter invadido a Ucrânia, alguns viraram-se para o extremo oposto. Agora afirmam que a paz sempre foi uma ilusão, que a guerra é uma incontrolável força da Natureza, e que a única escolha que os seres humanos têm é ser a caça ou o caçador. Ambas as posições estão erradas. A guerra e a paz são decisões, não são inevitabilidades. As guerras são feitas por pessoas, não por uma lei da Natureza. E tal como os seres humanos fazem a guerra, também podem fazer a paz. Mas fazer a paz não é uma decisão isolada. É um esforço a longo prazo para proteger normas e valores universais, e para criar instituições de cooperação.
Reconstruir a ordem global não significa regressar ao sistema que se desintegrou nos anos 2010. Uma nova e melhor ordem global deveria atribuir papéis mais destacados a poderes não ocidentais que estejam dispostos a fazer parte dela. Também deverá reconhecer a importância das lealdades nacionais. A ordem global desintegrou-se principalmente devido ao assalto das forças populistas, que argumentam que as lealdades patrióticas são incompatíveis com a cooperação global. Os políticos populistas declaram que quem é patriota deve opor-se às instituições globais e à cooperação global. Mas não existe qualquer contradição intrínseca entre patriotismo e globalismo, porque patriotismo não significa odiar os estrangeiros. Patriotismo significa amar os nossos compatriotas. E no século XXI, se queremos proteger os nossos compatriotas da guerra, pandemias e colapso ecológico, a melhor forma de o fazer é cooperando com os estrangeiros.

terça-feira, 29 de novembro de 2022

G20: agora, já é às claras



Há duas semanas realizou-se a reunião anual do G20, em Bali, com a participação dos inefáveis e não-eleitos Klaus Schwab e Bill Gates, todos vestidos ao melhor estilo de ditadores comunistas.

Os líderes das 20 maiores economias do Mundo, coadjuvados pelas duas luminárias, assinaram o seguinte compromisso, muito bem sintetizado por Kit Knightly no OffGuardian:

1 – Alterar a produção e distribuição de alimentos;
2 – Incrementar a dependência global de fontes de energia “renováveis”;
3 – Aumentar a vigilância e a censura da “desinformação” na Internet;
4 – Introduzir moedas digitais programáveis dos Bancos Centrais;
5 – Introduzir passaportes digitais de vacinas, com base “na experiência” da putativa pandemia covid-19.

Enquanto andávamos todos distraídos com os dislates do prócere máximo da República, com a reconquista de Kherson pelas tropas ucranianas e com o míssil “russo” na Polónia, os principais líderes mundiais, com base nas ordens dos não-eleitos Klaus Schwab e Bill Gates, discutiam, combinavam e publicavam os seus planos para o Governo Mundial.

Os participantes destes encontros globais já não escondem os seus planos. Desde a putativa pandemia que os seus planos maquiavélicos para o futuro da Humanidade são públicos e contêm todos os detalhes que nos esperam.

Antes de me debruçar sobre os detalhes do compromisso, importa mencionar novo lema: “Recuperar Juntos, Recuperar Mais Forte”, isto depois do infame “Reconstruir Melhor”. O colectivo acima do indivíduo, tal como uma utopia socialista, onde cada membro não é mais do que uma peça da engrenagem para rumar à “Terra Prometida”.

Daqui a uns meses estarão todos em uníssono a repetir “Recuperar Juntos, Recuperar Mais Forte”, incluindo o fugitivo do pântano nas Nações Unidas.

Vamos então ao compromisso do G-20; em sequência da “Cimeira do Clima”, a COP27, onde se falou de “agricultura alternativa” – carne cultivada em laboratório e produção em massa de insectos para alimentação humana-, o documento volta a debruçar-se sobre o tema:

“Vamos tomar mais acções coordenadas para enfrentar os desafios da segurança alimentar, incluindo aumentos de preços e escassez de produtos alimentares e fertilizantes a nível mundial… assegurar que os sistemas alimentares contribuam para a adaptação e mitigação das alterações climáticas, travem e invertam a perda de biodiversidade, diversificando as fontes alimentares… Estamos empenhados em apoiar a adopção de práticas e tecnologias inovadoras, incluindo a inovação digital na agricultura e nos sistemas alimentares para aumentar a produtividade e a sustentabilidade.”

Passemos a fazer um exercício de tradução: (i) onde está a expressão “mitigar a mudança climática”, deveria ser “produzir menos carne”; (ii) onde está a frase “diversificando as fontes alimentares”, deveria estar “diversificando as fontes alimentares com a produção massiva de insectos”; (iii) onde consta “práticas e tecnologias inovadoras”, deveria ter sido escrito “de tecnologias de produção em laboratório”.

Em relação à produção de energia, mais do mesmo, os gases com efeito de estufa continuam a ser o alvo a abater:

“Reiteramos o nosso compromisso de alcançar uma redução global das emissões líquidas de gases com efeito de estufa/ neutralidade de carbono…aumentando a implantação da produção de energia limpa, incluindo as energias renováveis, bem como medidas de eficiência energética, incluindo a aceleração dos esforços para a redução gradual da energia que usa carvão.”

O Santo Ofício era uma brincadeira de crianças ao lado destes “Senhores do Mundo”. Propõem controlar a Internet com maior rigor; tudo, obviamente, em nome da nossa segurança!

“Reconhecemos que uma conectividade digital acessível e de alta qualidade é essencial para a inclusão e a transformação digital, enquanto um ambiente online resistente, seguro e protegido é necessário para aumentar a confiança na economia digital… Reconhecemos a importância de combater campanhas de desinformação, ameaças cibernéticas, abusos online e garantir a segurança nas infraestruturas de conectividade”.

O combate ao dinheiro físico continua a ser uma obsessão. O lançamento de Moedas Digitais dos Bancos Centrais constitui agora a prioridade máxima!

“Saudamos o relatório do Banco SIS (o Banco Central dos Bancos Centrais) sobre a interligação dos sistemas de pagamento… sobre opções de acesso e interoperabilidade das Moedas Digitais dos Banco Central para pagamentos transfronteiriços.”

A melhor parte estava reservada para o fim: os certificados digitais, instrumentos de segregação, justificados com a mais despudorada mentira, beneficiaram de um tremendo panegírico:

“Reconhecemos a importância de normas técnicas e métodos de verificação comuns…para facilitar as viagens internacionais sem descontinuidades, a interoperabilidade, e o reconhecimento de soluções digitais e não digitais, incluindo a prova de vacinação. Apoiamos a continuação do diálogo e colaboração internacionais no estabelecimento de redes de saúde digitais globais de confiança.”

Que bons que são eles! Querem atribuir-nos direitos que já estão inscritos na Carta dos Direitos Humanos. Se nos inocularmos com as substâncias experimentais, passamos a ter liberdade de locomoção. A nossa privacidade é enviada definitivamente para o caixote de lixo. Passaremos a apresentar “os papéis”, tal como na Alemanha Nazi, em cada “check-point” que estes tiranetes decidam impor.

Anteriormente, uma pandemia era algo que existia uma vez na vida de uma pessoa. Agora está aí ao virar da esquina, temos de nos preparar para próxima – dizem eles –, aproveitando o legado dos certificados-nazi covid-19.

De uma coisa estaremos certos, por aqui esta agenda será fácil de implementar.

Há pouco tempo, o prócere máximo da República até nos anunciava que a bola era mais importante que os direitos humanos; estes podiam ficar para mais tarde. Quando reparou que tinha enfiado o “pé-na-poça”, proclamou que ia ao Qatar falar de direitos humanos!, isto vindo de alguém que solicita uma revisão constitucional para legalizar precisamente atropelos aos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos que ele jurou proteger.

No Qatar, até o tivemos a dar lições de moralidade, quando no país que preside, os direitos humanos são sistematicamente violados, em alguns casos até por si validados: confinamentos ilegais, prisões domiciliárias ilegais, imigrantes estrangeiros em escravatura, um sem fim de misérias!

Até o tivemos numa aula de “religião e moral” nas Arábias, onde segundo a obnóxia imprensa, seríamos um país-modelo, com os dirigentes do país dos “atentados aos direitos humanos” a assistir satisfeitos. Isto tudo num inglês que ninguém compreende. Talvez por isso dormiam e aplaudiam enquanto ele falava.

No final, dirigiu-se para o estádio, informando-nos que estaria “concentrado no jogo” a partir daquele momento! Com tais líderes, a agenda de Klaus Schwab e Bill Gates será uma realidade em breve!

Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Umberto Eco: 14 lições para identificar o neofascismo e o fascismo eterno


Intelectual italiano, romancista e filósofo, autor de "O pêndulo de Foucault" e "O Nome da Rosa", morreu em 2016, aos 84 anos; "O fascismo eterno ainda está ao nosso redor, às vezes em trajes civis", diz Eco

A Revista Samuel reproduz o texto de Umberto Eco "Ur-Fascismo", produzido originalmente para uma conferência proferida na Universidade Columbia, em abril de 1995, numa celebração da liberação da Europa:

"O Fascismo Eterno"
Em 1942, com a idade de dez anos, ganhei o prémio nos Ludi Juveniles (um concurso com livre participação obrigatória para jovens fascistas italianos — o que vale dizer, para todos os jovens italianos). Tinha trabalhado com virtuosismo retórico sobre o tema: “Devemos morrer pela glória de Mussolini e pelo destino imortal da Itália?” Minha resposta foi afirmativa. Eu era um garoto esperto.

Depois, em 1943, descobri o significado da palavra “liberdade”. Contarei esta história no fim do meu discurso. Naquele momento, “liberdade” ainda não significava “libertação”.

Passei dois dos meus primeiros anos entre SS, fascistas e resistentes, que disparavam uns nos outros, e aprendi a esquivar-me das balas. Não foi mal exercício. 

Em abril de 1945, a Resistência tomou Milão. Dois dias depois os resistentes chegaram à pequena cidade em que eu vivia. Foi um momento de alegria. A praça principal estava cheia de gente que cantava e desfraldava bandeirolas, invocando Mimo, o líder a resistência na área, em alto brado. Mimo, ex-suboficial dos carabinieri, envolveu-se com os partidários do marechal Badoglio e perdeu uma perna nos primeiros confrontos. Apareceu no balcão da Prefeitura, apoiado em muletas, pálido; tentou acalmar a multidão com uma mão. Eu estava ali esperando seu discurso, já que toda a minha infância tinha sido marcada pelos grandes discursos históricos de Mussolini, cujos passos mais significativos aprendíamos de cor na escola. Silêncio. Mimo falo com voz rouca, quase não se ouvia. Disse: “Cidadãos, amigos. Depois de tantos sacrifícios dolorosos… aqui estamos. Glória aos que caíram pela liberdade…”. E foi tudo. Ele voltou para dentro. A multidão gritava, os membros da resistência levantaram as armas e atiraram para o alto, festivamente. Nós, rapazes, nos precipitamos para recolher os cartuchos, preciosos objetos de coleção, mas eu tinha aprendido então que liberdade de palavra significa também liberdade da retórica. 

Alguns dias depois vi os primeiros soldados norte-americanos. Eram afro-americanos. O primeiro ianque que encontrei era um negro, Joseph, que me apresentou às maravilhas de Dick Tracy e Ferdinando Buscapé. Seus gibis eram coloridos e tinham um cheiro bom.

Um dos oficiais (o major ou capitão Muddy) era hóspede na casa da família de dois dos meus companheiros de escola. Sentia-me em casa naquele jardim em que alguns senhores amontoavam-se em torno ao capitão Muddy, falando um francês aproximativo. O capitão Muddy tinha uma boa educação superior e conhecia um pouco de francês. Assim, minha primeira imagem dos libertadores norte-americanos, depois de tantos caras-pálidas de camisa negra, era a de um negro culto em uniforme cáqui que dizia: “Oui, merci beaucoup Madame, moi aussi j'aime le champagne…” Infelizmente, faltava o champagne, mas ganhei do capitão Muddy o meu primeiro chiclete e comecei mastigando o dia inteiro. De noite colocava o chiclete em um copo d'água para que ficasse fresco para o dia seguinte. 

O líder fascista italiano Benito Mussolini no banco de trás de um veículo, acompanhado pelo líder nazista alemão Adolf Hitler, em Munique, 1940

Hitler e Mussolini em Munique, em 1940 

Em maio, ouvimos dizer que a guerra tinha acabado. A paz deu-me uma sensação curiosa. Haviam me dito que a guerra permanente era a condição normal de um jovem italiano. Nos meses seguintes descobri que a Resistência não era apenas um fenómeno local, mas Europeu. Aprendi novas e excitantes palavras como “reseau”, “maquis”, “armée secrète”, “Rote Kapelle”, “gueto de Varsóvia”. Vi as primeiras fotografias do Holocausto e assim compreendi o seu significado antes mesmo de conhecer a palavra. Percebi que havíamos sido libertados. 

Hoje em Itália existem algumas pessoas que se perguntam se a Resistência teve algum impacto militar real no curso da guerra. Para a minha geração a questão é irrelevante: compreendo imediatamente o significado moral e psicológico da Resistência. Era motivo de orgulho saber que nós, europeus, não tínhamos esperado passivamente pela libertação. Penso que, também para os jovens norte-americanos que derramaram o seu sangue pela nossa liberdade, não era irrelevante saber que atrás das linhas havia europeus que já estavam a pagar o seu débito. 

Hoje em Itália tem gente que diz que a Resistência é um mito comunista. É verdade que os comunistas exploraram a Resistência como uma propriedade pessoal, pois realmente tiveram um papel primordial no movimento; mas lembro-me dos resistentes com bandeiras de diversas cores. 

Grudado ao rádio, passava as noites — as janelas fechadas e a escuridão geral faziam do pequeno espaço em torno ao aparelho o único halo luminoso — escutando as mensagens que a Rádio Londres transmitia para a Resistência. Eram, ao mesmo tempo, obscuras e poéticas (“Ainda brilha o sol”, “As rosas hão-de florir”), mas a maior parte eram “mensagens para Franchi”. Alguém soprou no meu ouvido que Franchi era o líder de um dos grupos clandestinos mais poderosos da Itália do Norte, um homem de coragem lendária. Franchi tornou-se o meu herói. Franchi (cujo verdadeiro nome era Edgardo Sogno) era um monarquista tão anticomunista que, depois da guerra, se uniu a um grupo de extrema direita e foi até acusado de ter participado de um golpe de Estado reacionário. Mas que importa? Sogno ainda é o sonho da minha infância. A libertação foi um empreendimento comum de gente das mais diversas cores. 

Hoje em Itália tem gente que diz que a guerra de libertação foi um trágico período de divisão, e que precisamos agora de uma reconciliação nacional. A recordação daqueles anos terríveis deveria ser reprimida. Mas a repressão provoca neuroses. Se a reconciliação significa compaixão e respeito por todos aqueles que lutaram a sua guerra de boa-fé, perdoar não significa esquecer. Posso até admitir que Eichmann acreditava sinceramente na sua missão, mas não posso dizer: “Ok, volte e faça tudo de novo”. Estamos aqui para recordar o que aconteceu e para declarar solenemente que “eles” não podem repetir o que fizeram. 

Se pensamos ainda nos governos totalitários que dominaram a Europa antes da Segunda Guerra Mundial, podemos dizer com tranquilidade que seria muito difícil que eles retornassem sob a mesma forma, em circunstâncias históricas diversas. Se o fascismo de Mussolini baseava-se na ideia de um líder carismático, no corporativismo, na utopia do “destino fatal de Roma”, numa vontade imperialista de conquistar novas terras, num nacionalismo exacerbado, no ideal de uma nação inteira arregimentada sob a camisa negra, na recusa da democracia parlamentar, no anti-semitismo, então não tenho dificuldade para admitir que a Aliança Nacional, nascida do MSI (Movimento Social e Italiano), é certamente um partido de direita, mas tem muito pouco a ver com o velho fascismo. Pelas mesmas razões, mesmo preocupado com os vários movimentos neonazis ativos aqui e ali na Europa, inclusive na Rússia, não penso que o nazismo, e sua forma original, esteja ressurgindo como movimento capaz de mobilizar uma nação inteira. 

Todavia, embora os regimes políticos possam ser derrubados e as ideologias criticadas e destituídas da sua legitimidade, por trás de um regime e de sua ideologia há sempre um modo de pensar e de sentir, uma série de hábitos culturais, uma nebulosa de instintos obscuros e de pulsões insondáveis. Há, então, um outro fantasma que ronda a Europa (para não falar de outras partes do mundo)?

Ionesco disse certa vez que “somente as palavras contam, o resto é falatório”. Os hábitos linguísticos são muitas vezes sintomas importantes de sentimentos não expressos. 

Portanto, permitam-me perguntar por que não somente a Resistência mas toda a Segunda Guerra Mundial foram definidas em todo o mundo com uma luta contra o fascismo. Se relerem "Por quem os sinos dobram", de Hemingway, vão descobrir que Robert Jordan identifica os seus inimigos com os fascistas, mesmo quando está a pensar nos falangistas espanhóis. 

Permitam-me passar a palavra a Franklin Delano Roosevelt: “A vitória do povo americano e dos seus aliados será uma vitória contra o fascismo e o beco sem saída que ele representa” (23 de setembro de 1944).

Durante os anos de McCarthy, os norte-americanos que tinham participado da guerra civil espanhola eram chamados de “fascistas prematuros” — entendendo com isso que combater Hitler nos anos 1940 era um dever moral de todo bom norte-americano, mas combater Franco cedo demais, nos anos 1930, era suspeito. Por que uma expressão como “fascist pig” era usada pelos radicais norte-americanos até para indicar um policial que não aprovava os que fumavam? Por que não diziam: “Porco Caugolard”, “Porco Falangista”, “Porco Quisling”, “Porco croata”, “Porco Ante Pavelic”, “Porco nazi”?

Mein Kampf é o manifesto completo de um programa político. O nazismo tinha uma teoria do racismo e do arianismo, uma noção precisa de entartete Kunst, a “arte degenerada”, uma filosofia da vontade de potência e da Übermensch. O nazismo era decididamente anticristão e neopagão, da mesma maneira que o Diamat (versão oficial do marxismo soviético) de Stalin era claramente materialista e ateu. Se como totalitarismo entende-se um regime que subordina qualquer ato individual ao Estado e a sua ideologia, então nazismo e estalinismo eram regimes totalitários. 

O fascismo foi certamente uma ditadura, mas não era completamente totalitário, nem tanto por sua brandura quanto pela debilidade filosófica de sua ideologia. Ao contrário do que se pensa comumente, o fascismo italiano não tinha uma filosofia própria. O artigo sobre o fascismo assinado por Mussolini para a Enciclopédia Treccani foi escrito ou inspirou-se fundamentalmente em Giovanni Gentile, mas refletia uma noção hegeliana tardia do “Estado ético absoluto”, que Mussolini nunca realizou completamente. Mussolini não tinha qualquer filosofia: tinha apenas uma retórica.

Começou como ateu militante, para depois firmar a concordata com a Igreja e confraternizar com os bispos que benziam os galhardetes fascistas. Nos seus primeiros anos anticlericais, segundo uma lenda plausível, pediu certa vez a Deus que o fulminasse ali mesmo para provar a sua existência. Deus estava, evidentemente, distraído. Nos anos seguintes, nos seus discursos, Mussolini citava sempre o nome de Deus e não desdenhava o epíteto: “homem da Providência”. Pode-se dizer que o fascismo italiano foi a primeira ditadura de direita que dominou um país europeu e que, em seguida, todos os movimentos análogos encontraram uma espécie de arquétipo comum no regime de Mussolini. 

O fascismo italiano foi o primeiro a criar uma liturgia militar, um folclore e até mesmo um modo de vestir-se — conseguindo mais sucesso no exterior que Armani, Benetton ou Versace. Foi somente nos anos 1930 que surgiram movimentos fascistas na Inglaterra, com Mosley, e na Letónia, Estónia, Lituânia, Polónia, Hungria, Roménia, Bulgária, Grécia, Jugoslávia, Espanha, Portugal, Noruega e até na América do Sul, para não falar da Alemanha. Foi o fascismo italiano que convenceu muitos líderes liberais europeus de que o novo regime estava a realizar interessantes reformas sociais, capazes de fornecer uma alternativa moderadamente revolucionária à ameaça comunista. 

Todavia, a prioridade histórica não me parece ser uma razão suficiente para explicar por que a palavra “fascismo” tornou-se uma sinédoque, uma denominação pars pro toto para movimentos totalitários diversos. Não adianta dizer que o fascismo continha em si todos os elementos dos totalitarismos sucessivos, por assim dizer, em “estado quintessencial”. Ao contrário, o fascismo não possuía nenhuma quintessência e sequer uma só essência. O fascismo era um totalitarismo fuzzy[1]. O fascismo não era uma ideologia monolítica, mas antes uma colagem de diversas ideais políticas e filosóficas, uma colmeia de contradições. É possível conceber um movimento totalitário que consiga juntar monarquia e revolução, exército real e milícia pessoal de Mussolini, os privilégios concedidos à Igreja e uma educação estatal que exaltava a violência e o livre mercado?

O partido fascista nasceu proclamando a sua nova ordem revolucionária, mas era financiado pelos proprietários de terras mais conservadores, que esperavam uma contrarrevolução. O fascismo do começo era republicano e sobreviveu durante vinte anos proclamando sua lealdade à família real, permitindo que um “duce” puxasse as cordinhas de um “rei”, a quem ofereceu até o título de “imperador”. Mas quando, em 1943, o rei despediu Mussolini, o partido reapareceu dois meses depois, com a ajuda dos alemães, sob a bandeira de uma república “social”, reciclando sua a velha partitura revolucionária, enriquecida de acentuações quase jacobinas. 

Existiu apenas uma arquitetura nazi, apenas uma arte nazi. Se o arquiteto nazi era Albert Speer, não havia lugar para Mies van der Rohe. Da mesma maneira, sob Stalin, se Lamarck tinha razão, não havia lugar para Darwin. Ao contrário, existiram certamente arquitetos fascistas, mas ao lado de seus pseudocoliseus surgiram também os novos edifícios inspirados no moderno racionalismo de Gropius. 

Não houve um Zdanov fascista. Na Itália existiam dois importantes prémios artísticos: o Prémio Cremona era controlado por um fascista inculto e fanático como Farinacci, que encorajava uma arte propagandista (recordo-me de quadros intitulados Ascoltando all radio un discorso del Duce ou Stati mentali creati dal Fascismo); e o Prémio Bergamo, patrocinado por um fascista culto e razoavelmente tolerante como Bottai, que protegia a arte pela arte e as novas experiências da arte de vanguarda que, na Alemanha, haviam sido banidas como corruptas, criptocomunistas, contrárias ao Kitsch nibelúngico, o único aceite. 

O poeta nacional era D'Annunzio, um dândi que na Alemanha ou na Rússia teria sido colocado diante de um pelotão de fuzilamento. Foi alçado à categoria de vate do regime pro seu nacionalismo e o seu culto do heroísmo — com o acréscimo de grandes doses de decadentismo francês. 

Tomemos o futurismo. Deveria ter sido considerado um exemplo de entartete Kunst, assim como o expressionismo, o cubismo, o surrealismo. Mas os primeiros futuristas italianos eram nacionalistas, favoreciam por motivos estéticos a participação da Itália na Primeira Guerra Mundial, celebravam a velocidade, a violência, o risco e, de certa maneira, estes aspectos pareciam próximos ao culto fascista da juventude. Quando o fascismo identificou-se com o império romano e redescobriu as tradições rurais, Marinetti (que proclamava que um automóvel era mais belo que a Vitória de Samotrácia e queria inclusive matar o luar) foi nomeado membro da Accademia d'Italia, que tratava o luar com grande respeito. 

Muitos dos futuros membros da Resistência, e dos futuros intelectuais do futuro Partido Comunista, foram educados no GUF, a associação fascista dos estudantes universitários, que deveria ser o berço da nova cultura fascista. Esses clubes tornaram-se uma espécie de caldeirão intelectual em que circulavam novas ideias sem nenhum controle ideológico real, não tanto porque os homens de partido fossem tolerantes, mas porque poucos entre eles possuíam os instrumentos intelectuais para controlá-los. 

No curso daqueles vinte anos, a poesia dos herméticos representou uma reação ao estilo pomposo do regime: a estes poetas era permitido elaborar os seus protestos literários dentro da torre de marfim. O sentimento dos herméticos era exatamente o contrário do culto fascista do otimismo e do heroísmo. O regime tolerava esta distensão evidente, embora socialmente imperceptível, porque não prestava atenção suficiente ao um jargão tão obscuro. 

O que não significa que o fascismo italiano fosse tolerante. Gramsci foi mantido na prisão até a morte, Matteotti e os irmãos Rosselli foram assassinados, a liberdade de imprensa suspensa, os sindicatos desmantelados, os dissidentes políticos confinados em ilhas remotas, o poder legislativo tornou-se pura ficção e o executivo (que controlava o judiciário, assim como a mídia) emanava diretamente as novas leis, entre as quais a da defesa da raça (apoio formal italiano ao Holocausto).

A imagem incoerente que descrevi não era devida à tolerância: era um exemplo de desconjuntamento político e ideológico. Mas era um “desconjuntamento ordenado”, uma confusão estruturada. O fascismo não tinha bases filosóficas, mas do ponto de vista emocional era firmemente articulado a alguns arquétipos. 

Chegamos agora ao segundo ponto de minha tese. Existiu apenas um nazismo, e não podemos chamar de “nazismo” o falangismo hipercatólico de Franco, pois o nazismo é fundamentalmente pagão, politeísta e anticristão, ou não é nazismo. Ao contrário, pode-se jogar com o fascismo de muitas maneiras, e o nome do jogo não muda. Acontece com a noção de “fascismo” aquilo que, segundo Wittgenstein, acontece com a noção de “jogo”. Um jogo pode ser ou não competitivo, pode envolver uma ou mais pessoas, pode exigir alguma habilidade particular ou nenhuma, pode envolver dinheiro ou não. Os jogos são uma série de atividades diversas que apresentam apenas alguma “semelhança de família”:

Suponhamos que exista uma série de grupos políticos. O grupo 1 é caracterizado pelos aspectos abc, o grupo 2, pelos aspectos bcd e assim por diante. 2 é semelhante a 1 na medida em que têm dois aspectos em comum. 3 é semelhante a 2 e 4 e é semelhante a 1 (têm em comum o aspecto c). O caso mais curioso é dado pelo 4, obviamente semelhante a 3 e a 2, mas sem nenhuma característica em comum com 1. Contudo, em virtude da ininterrupta série de decrescentes similaridades entre 1 e 4, permanece, por uma espécie de transitoriedade ilusória, um ar de família entre 4 e 1.

O termo “fascismo” adapta-se a tudo porque é possível eliminar de um regime fascista um ou mais aspectos, e ele continuará sempre a ser reconhecido como fascista. Tirem do fascismo o imperialismo e teremos Franco ou Salazar; tirem o colonialismo e teremos o fascismo balcânico. Acrescentem ao fascismo italiano um anticapitalismo radical (que nunca fascinou Mussolini) e teremos Ezra Pound. Acrescentem o culto da mitologia céltica e o misticismo do Graal (completamente estranho ao fascismo oficial) e teremos um dos mais respeitados gurus fascistas, Julios Evola. 

A propósito dessa confusão, considero possível indicar uma lista de características típicas daquilo que eu gostaria de chamar de “Ur-Fascismo”, ou “fascismo eterno”. Tais características não podem ser reunidas num sistema; muitas se contradizem entre si e são típicas de outras formas de despotismo ou fanatismo. Mas é suficiente que uma delas se apresente para fazer com que se forme uma nebulosa fascista. 

1.   A primeira característica de um Ur-Fascismo é o culto da tradição. O tradicionalismo é mais velho que o fascismo. Não somente foi típico do pensamento contra reformista católico depois da Revolução Francesa, mas nasceu no final da idade helenística como uma reação ao racionalismo grego clássico.Na bacia do Mediterrâneo, povos de religiões diversas (todas aceites com indulgência pelo Panteon romano) começaram a sonhar com uma revelação recebida na aurora da história humana. Essa revelação permaneceu longo tempo escondida sob o véu de línguas então esquecidas. Havia sido confiada aos hieróglifos egípcios, às runas dos celtas, aos textos sacros, ainda desconhecidos, das religiões asiáticas.
Essa nova cultura tinha que ser sincretista. “Sincretismo” não é somente, como indicam os dicionários, a combinação de formas diversas de crenças ou práticas. Uma combinação assim deve tolerar contradições. Todas as mensagens originais contêm um germe de sabedoria e, quando parecem dizer coisas diferentes ou incompatíveis, é apenas porque todas aludem, alegoricamente, a alguma verdade primitiva. 
Como consequência, não pode existir avanço do saber. A verdade já foi anunciada de uma vez por todas, e só podemos continuar a interpretar sua obscura mensagem. É suficiente observar o ideário de qualquer movimento fascista para encontrar os principais pensadores tradicionalistas. A gnose nazista nutria-se de elementos tradicionalistas, sincretistas ocultos. A mais importante fonte teórica da nova direita italiana Julius Evola, misturava o Graal com os Protocolos dos Sábios de Sião, a alquimia com o Sacro Império Romano. O próprio fato de que, para demonstrar sua abertura mental, a direita italiana tenha recentemente ampliado seu ideário juntando De Maistre, Guenon e Gramsci é uma prova evidente de sincretismo.
Se remexerem nas prateleiras que nas livrarias americanas trazem a indicação “New Age”, irão encontrar até mesmo Santo Agostinho e, que eu saiba, ele não era fascista. Mas o próprio fato de juntar Santo Agostinho e Stonehenge, isto é um sintoma de Ur-Fascismo.

2. O tradicionalismo implica a recusa da modernidade. Tanto os fascistas como os nazistas adoravam a tecnologia, enquanto os tradicionalistas em geral recusam a tecnologia como negação dos valores espirituais tradicionais. Contudo, embora o nazismo tivesse orgulho de seus sucessos industriais, seu elogio da modernidade era apenas o aspecto superficial de uma ideologia baseada no “sangue” e na “terra” (Blut und Boden). A recusa do mundo moderno era camuflada como condenação do modo de vida capitalista, mas referia-se principalmente à rejeição do espírito de 1789 (ou 1776, obviamente). O iluminismo, a idade da Razão eram vistos como o início da depravação moderna. Nesse sentido, o Ur-Fascismo pode ser definido como “irracionalismo”. 

3. O irracionalismo depende também do culto da ação pela ação. A ação é bela em si, portanto, deve ser realizada antes de e sem nenhuma reflexão. Pensar é uma forma de castração. Por isso, a cultura é suspeita na medida em que é identificada com atitudes críticas. Da declaração atribuída a Goebbels (“Quando ouço falar em cultura, pego logo a pistola”) ao uso frequente de expressões como “Porcos intelectuais”, “Cabeças ocas”, “Snobes radicais”, “As universidades são um ninho de comunistas”, a suspeita em relação ao mundo intelectual sempre foi um sintoma de Ur-Fascismo. Os intelectuais fascistas oficiais estavam empenhados principalmente em acusar a cultura moderna e a inteligência liberal de abandono dos valores tradicionais. 

4. Nenhuma forma de sincretismo pode aceitar críticas. O espírito crítico opera distinções, e distinguir é um sinal de modernidade. Na cultura moderna, a comunidade científica percebe o desacordo como instrumento de avanço dos conhecimentos. Para o Ur-Fascismo, o desacordo é traição. 

5. O desacordo é, além disso, um sinal de diversidade. O Ur-Fascismo cresce e busca o consenso desfrutando e exacerbando o natural medo da diferença. O primeiro apelo de um movimento fascista ou que está se tornando fascista é contra os intrusos. O Ur-Fascismo é, portanto, racista por definição. 

6. O Ur-Fascismo provém da frustração individual ou social. O que explica por que uma das características dos fascismos históricos tem sido o apelo às classes médias frustradas, desvalorizadas por alguma crise económica ou humilhação política, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos. No nosso tempo, em que os velhos “proletários” estão se a transformar em pequena burguesia (e o lumpesinato se auto exclui da cena política), o fascismo encontrará nessa nova maioria seu auditório. 

7. Para os que se vêem privados de qualquer identidade social, o Ur-Fascismo diz que seu único privilégio é o mais comum de todos: ter nascido num mesmo país. Esta é a origem do “nacionalismo”. Além disso, os únicos que podem fornecer uma identidade às nações são os inimigos. Assim, na raiz da psicologia Ur-Fascista está a obsessão do complot, possivelmente internacional. Os seguidores têm que se sentir sitiados. O modo mais fácil de fazer emergir um complot é fazer apelo à xenofobia. Mas o complot tem que vir também do interior: os judeus são, em geral, o melhor objetivo porque oferecem a vantagem de estar, ao mesmo tempo, dentro e fora. Na América, o último exemplo de obsessão pelo complot foi o livro The New World Order, de Pat Robertson. 

8. Os adeptos devem sentir-se humilhados pela riqueza ostensiva e pela força do inimigo. Quando eu era criança ensinavam-me que os ingleses eram o “povo das cinco refeições”: comiam mais frequentemente que os italianos, pobres mas sóbrios. Os judeus são ricos e ajudam-se uns aos outros graças a uma rede secreta de mútua assistência. Os adeptos devem, contudo, estar convencidos de que podem derrotar o inimigo. Assim, graças a um contínuo deslocamento de registo retórico, os inimigos são, ao mesmo tempo, fortes demais e fracos demais. Os fascismos estão condenados a perder suas guerras, pois são constitutivamente incapazes de avaliar com objetividade a força do inimigo. 

9. Para o Ur-Fascismo não há luta pela vida, mas antes “vida para a luta”. Logo, o pacifismo é conluio com o inimigo; o pacifismo é mau porque a vida é uma guerra permanente. Contudo, isso traz consigo um complexo de Armagedon: a partir do momento em que os inimigos podem e devem ser derrotados, tem que haver uma batalha final e, em seguida, o movimento assumirá o controle do mundo. Uma solução final semelhante implica uma sucessiva era de paz, uma idade de Ouro que contestaria o princípio da guerra permanente. Nenhum líder fascista conseguiu resolver essa contradição. 

10. O elitismo é um aspecto típico de qualquer ideologia reacionária, enquanto fundamentalmente aristocrática. No curso da história, todos os elitismos aristocráticos e militaristas implicaram o desprezo pelos fracos. O Ur-Fascismo não pode deixar de pregar um “elitismo popular”. Todos os cidadãos pertencem ao melhor povo do mundo, os membros do partido são os melhores cidadãos, todo cidadão pode (ou deve) tornar-se membro do partido. Mas patrícios não podem existir sem plebeus. O líder, que sabe muito em que seu poder não foi obtido por delegação, mas conquistado pela força, sabe também que a sua força baseia-se na debilidade das massas, tão fracas que têm necessidade e merecem um “dominador”. No momento em que o grupo é organizado hierarquicamente (segundo um modelo militar), qualquer líder subordinado despreza os seus subalternos e cada um deles despreza, por sua vez, os seus subordinados. Tudo isso reforça o sentido de elitismo de massa. 

11. Nesta perspectiva, cada um é educado para tornar-se um herói. Em qualquer mitologia, o “herói” é um ser excepcional, mas na ideologia Ur-Fascista o heroísmo é a norma. Este culto do heroísmo é estreitamente ligado ao culto da morte: não é por acaso que o mote dos falangistas era: “Viva la muerte!” À gente normal diz-se que a morte é desagradável, mas é preciso enfrentá-la com dignidade; aos crentes, diz-se que é um modo doloroso de atingir a felicidade sobrenatural. O herói Ur-Fascista, ao contrário, aspira à morte, anunciada como a melhor recompensa para uma vida heroica. O herói Ur-Fascista espera impacientemente pela morte. E sua impaciência, é preciso ressaltar, consegue na maior parte das vezes levar os outros à morte. 

12. Como tanto a guerra permanente como o heroísmo são jogos difíceis de jogar, o Ur-Fascista transfere sua vontade de poder para questões sexuais. Esta é a origem do machismo (que implica desdém pelas mulheres e uma condenação intolerante de hábitos sexuais não-conformistas, da castidade à homossexualidade). Como o sexo também é um jogo difícil de jogar, o herói Ur-Fascista joga com as armas, que são seu Ersatz fálico: os seus jogos de guerra são devidos a uma inveja penis permanente. 

13. O Ur-Fascismo baseia-se em um “populismo qualitativo”. Numa democracia, os cidadãos gozam de direitos individuais, mas o conjunto de cidadãos só é dotado de impacto político do ponto de vista quantitativo (as decisões da maioria são acatadas). Para o Ur-Fascismo os indivíduos enquanto indivíduos não têm direitos e “o povo” é concebido como uma qualidade, uma entidade monolítica que exprime “a vontade comum”. Como nenhuma quantidade de seres humanos pode ter uma vontade comum, o líder apresenta-se como seu intérprete. Tendo perdido seu poder de delegar, os cidadãos não agem, são chamados apenas pars pro toto, para assumir o papel de povo. O povo é, assim, apenas uma ficção teatral. Para ter um bom exemplo de populismo qualitativo, não precisamos mais da Piazza Venezia ou do estádio de Nuremberg.
Em nosso futuro desenha-se um populismo qualitativo TV ou internet, no qual a resposta emocional de um grupo selecionado de cidadãos pode ser apresentada e aceita como a “voz do povo”. Em virtude de seu populismo qualitativo, o Ur-Fascismo deve opor-se aos “pútridos” governos parlamentares. Uma das primeiras frases pronunciadas por Mussolini no Parlamento italiano foi: “Eu poderia ter transformado esta assembleia surda e cinza em um acampamento para meus regimentos”. De fato, ele logo encontrou alojamento melhor para seus regimentos e pouco depois liquidou o Parlamento. Cada vez que um político põe em dúvida a legitimidade do Parlamento por não representar mais a “voz do povo”, pode-se sentir o cheiro de Ur-Fascismo. 

14. O Ur-Fascismo fala a “novilíngua”. A “novilíngua” foi inventada por Orwell em 1984, como língua oficial do Ingsoc, o Socialismo Inglês, mas certos elementos de Ur-Fascismo são comuns a diversas formas de ditadura. Todos os textos escolares nazistas ou fascistas baseavam-se em um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com o fim de limitar os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico. Devemos, porém estar prontos a identificar outras formas de novilíngua, mesmo quando tomam a forma inocente de um talk-show popular. 

Depois de indicar os arquétipos possíveis do Ur-Fascismo, permitam-me concluir. Na manhã de 27 de julho de 1943 foi-me dito que, segundo informações lidas na rádio, o fascismo havia caído e Mussolini tinha sido feito prisioneiro. Minha mãe mandou-me comprar o jornal. Fui ao jornaleiro mais próximo e vi que os jornais estavam lá, mas os nomes eram diferentes. Além disso, depois de uma breve olhada nos títulos, percebi que cada jornal dizia coisas diferentes. Comprei um, ao acaso, e li uma mensagem impressa na primeira página, assinada por cinco ou seis partidos políticos como Democracia Cristã, Partido Comunista, Partido Socialista, Partido de Ação, Partido Liberal. Até aquele momento pensei que só existisse um partido em todas as cidades e que na Itália só existisse, portanto, o Partido Nacional Fascista.

Eu estava descobrindo que, no meu país, podiam existir diversos partidos ao mesmo tempo. E não só isso: como eu era um garoto esperto, logo me dei conta de que era impossível que tantos partidos tivessem aparecido de um dia para o outro. Entendi assim que eles já existiam como organizações clandestinas. 

A mensagem celebrava o fim da ditadura e o retorno à liberdade: liberdade de palavra, de imprensa, de associação política. Estas palavras, “liberdade”, “ditadura” — Deus meu —, era a primeira vez em toda a minha vida que eu as lia. Em virtude dessas novas palavras renasci como homem livre ocidental. 

Devemos ficar atentos para que o sentido dessas palavras não seja esquecido de novo. O Ur-Fascismo ainda está ao nosso redor, às vezes em trajes civis. Seria muito confortável para nós se alguém surgisse na boca de cena do mundo para dizer: “Quero reabrir Auschwitz, quero que os camisas-negras desfilem outra vez pelas praças italianas!”. Ai de mim, a vida não é fácil assim! O Ur-Fascismo pode voltar sob as vestes mais inocentes. Nosso dever é desmascará-lo e apontar o indicador para cada uma de suas novas formas — a cada dia, em cada lugar do mundo. Cito ainda as palavras de Roosevelt: “Ouso dizer que, se a democracia americana parasse de progredir como uma força viva, buscando dia e noite melhorar, por meios pacíficos, as condições de nossos cidadãos, a força do fascismo cresceria em nosso país” (4 de novembro de 1938). Liberdade, liberação são uma tarefa que não acaba nunca. Que seja este o nosso mote: “Não esqueçam”. 

E permitam-me acabar com uma poesia de Franco Fortini:

Sulla spalletta del ponte

"Le teste degli impiccati
Nell'acqua della fonte
La bava degli impiccati
Sul lastrico del mercato
Le unghie dei fucilati
Sull'erba secca del prato
 I denti dei fucilati
Mordere l'aria mordere i sassi
La nostra carne non à più d'uomini
Mordere l'aria mordere i sassi
 Il nostro cuore non à più d'uomini.

Ma noi s'è letto negli occhi dei morti
E sulla terra faremo libertà
Ma l'hanno stretta i pugni dei morti
 La giustizia che si farà. Na amurada da ponte"

No parapeito da ponte

"A cabeça dos enforcados
Na água da fonte
A baba dos enforcados
No calçamento do mercado
As unhas dos fuzilados
Sobre a grama seca do prado
 Os dentes dos fuzilados
Morder o ar morder as pedras
Nossa carne não é mais de homens
Morder o ar morder as pedras
 Nosso coração não é mais de homens

Mas lemos nos olhos dos mortos
E sobre a terra a liberdade havemos de fazer
Mas estreitaram-na nos punhos os mortos
 A justiça que se há de fazer".

Umberto Eco, O Fascismo Eterno, in: Cinco Escritos Morais,1997

Tradução: Eliana Aguiar, Editora Record, Rio de Janeiro, 2002.
 
[1] Usado atualmente em lógica para designar conjuntos “esfumados”, de contornos imprecisos, o termo fuzzy poderia ser traduzido como “esfumado”, “confuso”, “impreciso”, “desfocado”.