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segunda-feira, 18 de maio de 2026

Desarmar a inteligência artificial, a mensagem do Papa ponto por ponto


Da ordenação de um robô-monge na Coreia à nova encíclica Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV junta-se a cientistas para lançar um aviso urgente: a IA e a Realpolitik ameaçam a nossa essência. O Pontífice exige reformas éticas globais para que permaneçamos, simplesmente, humanos

Conhece o robô de 130 cm chamado Gabi que foi, recentemente, ordenado monge num templo na Coreia do Sul? Se não conhece, faz mal, mas pode conhecê-lo através deste link. Este robô humanoide, recém-nascido (data de fabricação: 03.03.2026), recebeu há poucas semanas um colar de 108 contas de oração no templo sul-coreano de Jogyesa. Esta é, segundo a ordem de Jogye, a maior denominação budista da Coreia, uma tentativa de travar a falta de participação religiosa e de interesse pelo templo, em especial por parte da população mais jovem.

De facto, nada grita mais que o mundo está a mudar, se é que ainda era preciso gritá-lo, do que a ordenação de um robô-monge. Há 135 anos, a Igreja Católica pressentiu o mesmo, quando o Papa Leão XIII publicou a Carta Encíclica Rerum Novarum (‘Das Coisas Novas’), demonstrando a sua preocupação com a questão operária da época, ou seja, um clamor de ação para recuperar operários que pareciam cada vez mais distantes da Igreja.

Ora, se nos finais do século XIX a preocupação era com a possível perda de um grupo populacional das sociedades europeias modernas, agora, com o Papa Leão XIV, a preocupação é com a possível perda de toda a humanidade. A apresentação pública da encíclica Magnifica Humanitas, sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da IA (link), pelo próprio Papa – algo bastante incomum – ao lado de especialistas em IA, como o autodeclarado ateu e cofundador da Anthropic, Chris Olah – algo ainda mais incomum – é uma demonstração da aceleração dos nossos tempos. Ou, como escreve o Papa Leão XIV, é uma forma de “sabedoria para interpretar as tendências do nosso tempo”. Em especial, a fuga do poder do monopólio dos Estados e a sua dispersão por sujeitos privados e transnacionais, com mais poder do que os próprios sistemas estatais e mais distantes de qualquer lógica de bem comum.

Leio esta encíclica em quatro eixos gerais.
Teologicamente, a IA desafia a dignidade ontológica – aquela que pertence a cada ser humano simplesmente porque existe, foi desejado, criado e amado por Deus. Pelo contrário, a era da IA acelera os processos e sonhos de autossuficiência e autoaperfeiçoamento infalível, desligando-os dos próprios sentidos de religação e comunhão. A IA conduz-nos para nós mesmos, tentando alcançar a plenitude ou a autossuficiência excluindo o Criador ou tentando corrigir a fragilidade que faz parte da condição humana.

Ao nível da política internacional, o Papa Leão XIV já havia manifestado a sua visão do mundo, em particular a Donald Trump. Na encíclica, essa visão torna-se mais clara. Denuncia a cultura do poder, “feita de polarizações e violências”, que normaliza a guerra; dispara os “imperialismos” e “potências que desejam conservar a sua supremacia e potências que aspiram a conquistá-la”; desconfia da corrida tecnológica a armas “cada vez mais poderosas”, “desumanizantes” e que “parecem não conhecer limites”. Sobre o recente entusiasmo pela realpolitik, é claro: é “irresponsável”, pois coloca-nos num estado resignado que aceita a guerra como inevitável, desqualificando sistematicamente a paz e o diálogo. A guerra, como instrumento reabilitado de política internacional, é assim criticada, reconhecendo-se, neste contexto, a “crise do multilateralismo” e as fragilidades das Nações Unidas. Para o Papa, são necessárias “reformas profundas” e não apenas “ajustes técnicos”, indo ao núcleo dos fundamentos éticos das nações, orientando o “multilateralismo para o verdadeiro bem comum”.

Relativamente à guerra, mais especificamente no que toca à teoria da “guerra justa”, há uma viragem: considera oficialmente superada a sua teoria clássica, reduzindo o uso das armas à legítima defesa. Além disso, no quadro da dimensão mediática e digital, denuncia que os conflitos atuais são culturalmente preparados e normalizados no ambiente digital através de narrativas maniqueístas, desinformação e medo, sendo amplificados por algoritmos concebidos para privilegiar o confronto. Neste campo, apela à memória histórica e critica a ilusão de uma guerra tecnológica “limpa” ou “inevitável”, reafirmando que o recurso à força é sempre um sinal de pobreza relacional com efeitos desastrosos para os civis. Insta, assim, a humanidade a ativar as suas ferramentas mais eficazes de promoção da vida: o diálogo, a diplomacia e o perdão.

Por fim, sobre os desafios atuais da IA, a encíclica não defende uma posição ludita; pelo contrário, reconhece o seu valor potencial. Todavia, alerta que ela não é eticamente neutra, refletindo a visão eficiente, uniformizadora e reducionista de quem a concebe, financia, regula e utiliza. Aqui, o Papa alerta-nos para o risco da síndrome de Babel: “a idolatria do lucro, que sacrifica os mais fracos; a uniformidade, que anula as diferenças; a pretensão de uma linguagem única – mesmo digital” que desumaniza. A encíclica apela a que se desarme a IA, que se quebre a equivalência entre poder técnico e direito de governar; ou seja, que sejam retirados os monopólios, tornando-a um bem comum, habitável e plural. Isto só é possível com o cultivo de um “saudável realismo” onde, segundo Leão XIV, a técnica é acolhida, mas enquadrada por valores éticos e espirituais.

A mensagem desta encíclica parece clara: permanecer humanos. O que, em si mesmo, diz muito do mundo em que vivemos – humanos a dizerem a humanos para se manterem humanos. Num mundo dominado pela técnica, o verdadeiro progresso mede-se pelo cuidado e pela relação, não pelo poder. O modelo é o de Neemias que reconstruiu Jerusalém “tijolo por tijolo” através da oração, planeamento e trabalho conjunto. O legado que o Papa quer construir é uma “civilização do amor” – por oposição à cultura do poder, do descartável, do desencontro, do imediato e da hiperestimulação –, um projeto social e político que coloca o amor, a fraternidade e a justiça como princípios organizadores da sociedade. Este amor deve traduzir-se em “estruturas de justiça”, dando corpo institucional à fraternidade, combatendo as desigualdades causadas pela tecnologia e tornando o “outro” um aliado necessário na construção do bem comum.

domingo, 17 de maio de 2026

Mensagem do Papa Leao XIV por ocasião do Dia Mundial das Comunicações Sociais

Queridos irmãos e irmãs!

O rosto e a voz são traços únicos e distintivos de cada pessoa; manifestam a sua identidade irrepetível e são elemento constitutivo de cada encontro. Os antigos sabiam-no bem. Para definir o ser humano, os gregos usavam a palavra “rosto” (prósopon), que etimologicamente indica o que está diante do olhar, o lugar da presença e da relação. Por sua vez, o termo latino persona (de per-sonare) inclui o som: não um som qualquer, mas a voz inconfundível de alguém.

Rosto e voz são sagrados. Foram-nos dados por Deus, que nos criou à sua imagem e semelhança, chamando-nos à vida com a Palavra que Ele mesmo nos dirigiu. Uma Palavra que, ao longo dos séculos, ressoou na voz dos profetas e depois, na plenitude dos tempos, fez-se carne. Esta Palavra – esta comunicação que Deus faz de si mesmo – pudemos ainda escutá-la e vê-la diretamente (cf. 1 Jo 1, 1-3), porque se deixou conhecer na voz e no Rosto de Jesus, Filho de Deus.

Desde o momento da criação, Deus quis o ser humano como seu interlocutor e, como disse São Gregório de Nissa, [1] imprimiu no seu rosto um reflexo do amor divino, para que pudesse viver plenamente a sua humanidade através do amor. Preservar os rostos e as vozes humanas significa, portanto, preservar este selo, este reflexo indelével do amor de Deus. Não somos uma espécie feita de algoritmos bioquímicos predefinidos antecipadamente: cada pessoa possui uma vocação insubstituível e irrepetível, que emerge da vida e se manifesta precisamente na comunicação com os outros.

A tecnologia digital, no caso de falharmos nesta preservação, corre o risco de alterar radicalmente alguns dos pilares fundamentais da civilização humana, que por vezes temos como garantidos. Ao simular vozes e rostos humanos, sabedoria e conhecimento, consciência e responsabilidade, empatia e amizade, os sistemas conhecidos como inteligência artificial não só interferem nos ecossistemas informativos, como também invadem o nível mais profundo da comunicação, ou seja, o das relações entre as pessoas.

O desafio, por conseguinte, não é tecnológico, mas antropológico. Preservar os rostos e as vozes significa, em última análise, preservarmo-nos a nós próprios. Aceitar com coragem, determinação e discernimento as oportunidades oferecidas pela tecnologia digital e pela inteligência artificial não é sinónimo de esconder de nós mesmos os pontos críticos, a opacidade e os riscos.

Não renunciar ao próprio pensamento
Há muito tempo que existem múltiplas evidências de que os algoritmos concebidos para maximizar o envolvimento nas redes sociais – rentável para as plataformas – recompensam as emoções rápidas e, ao contrário, penalizam as expressões humanas que requerem mais tempo, como o esforço para compreender e a reflexão. Ao encerrar grupos de pessoas em bolhas de fácil consenso e indignação, estes algoritmos enfraquecem a capacidade de escuta e pensamento crítico, aumentando a polarização social.

Veio somar-se a isto uma confiança ingenuamente acrítica na inteligência artificial como “amiga” omnisciente, dispensadora de todas as informações, arquivo de todas as memórias, “oráculo” de todos os conselhos. Tudo isto pode enfraquecer ulteriormente a nossa capacidade de pensar de forma analítica e criativa, de compreender significados, de distinguir entre sintaxe e semântica.

Embora a IA possa dar apoio e assistência na gestão de tarefas comunicativas, ao abstermo-nos do esforço do próprio pensamento, contentando-nos com uma compilação estatística artificial, corremos o risco de deteriorar, a longo prazo, as nossas capacidades cognitivas, emocionais e comunicativas.

Nos últimos anos, os sistemas de inteligência artificial estão a assumir cada vez mais o controlo da produção de textos, música e vídeos. Grande parte da indústria criativa humana corre o risco de ser destruída e substituída pela etiqueta “Powered by AI”, transformando as pessoas em meros consumidores passivos de pensamentos não pensados, de produtos anónimos, sem autoria nem amor. Ao mesmo tempo, as obras-primas do génio humano no âmbito da música, da arte e da literatura vão sendo reduzidas a um mero campo de treino para as máquinas.

No entanto, a questão que realmente nos interessa não é o que a máquina consegue ou conseguirá fazer, mas o que nós podemos e poderíamos fazer, crescendo em humanidade e conhecimento, com uma inteligente utilização de ferramentas tão poderosas ao nosso serviço. Desde sempre, o ser humano tem sido tentado a apropriar-se do fruto do conhecimento sem o esforço do envolvimento, da pesquisa e da responsabilidade pessoal. Contudo, renunciar ao processo criativo e entregar às máquinas as próprias funções mentais e a própria imaginação significa enterrar os talentos recebidos para crescer como pessoas em relação a Deus e aos outros. Significa esconder o nosso rosto e silenciar a nossa voz.

Ser ou fingir: simulação de relações e da realidade
À medida que navegamos pelos nossos fluxos de informação (feeds), torna-se cada vez mais difícil compreender se estamos a interagir com outros seres humanos ou com “bots” ou influenciadores virtuais. As intervenções não transparentes destes agentes automatizados influenciam os debates públicos e as escolhas das pessoas. Especialmente os chatbots, baseados em grandes modelos linguísticos (LLM), estão a revelar-se surpreendentemente eficazes na persuasão oculta, através de uma contínua otimização da interação personalizada. A estrutura dialógica e adaptativa, mimética, destes modelos linguísticos é capaz de imitar os sentimentos humanos e, assim, simular uma relação. Esta antropomorfização, que pode até ser divertida, é ao mesmo tempo enganadora, especialmente para as pessoas mais vulneráveis. Porque os chatbots tornados excessivamente “afetuosos”, além de estarem sempre presentes e disponíveis, podem tornar-se arquitetos ocultos dos nossos estados emocionais e, desta forma, invadir e ocupar a esfera da intimidade das pessoas.

A tecnologia que explora a nossa necessidade de relacionamento pode não só ter consequências dolorosas para o destino dos indivíduos, mas também prejudicar o tecido social, cultural e político das sociedades. Isso acontece quando substituímos as relações com os outros pelas relações com a IA treinada para catalogar os nossos pensamentos e, portanto, construir à nossa volta um mundo de espelhos, onde tudo é feito “à nossa imagem e semelhança”. Desta forma, deixamo-nos roubar a possibilidade de encontrar o outro, que é sempre diferente de nós e com o qual podemos e devemos aprender a confrontar-nos. Sem aceitar a alteridade, não pode haver nem relação nem amizade.

Outro grande desafio que estes sistemas emergentes colocam é o da distorção (bias, em inglês), que leva a adquirir e transmitir uma perceção alterada da realidade. Os modelos de IA estão moldados pela visão do mundo de quem os constrói e podem, por sua vez, impor modos de pensar, replicando estereótipos e preconceitos presentes nos dados a que acedem. A falta de transparência na construção dos algoritmos, a par da inadequada representação social dos dados tendem a manter-nos presos em redes que manipulam os nossos pensamentos, perpetuando e aprofundando as desigualdades e injustiças sociais existentes.

O risco é grande! O poder da simulação é tal que a IA pode também iludir-nos com a construção de “realidades” paralelas, apropriando-se dos nossos rostos e das nossas vozes. Estamos imersos numa multidimensionalidade, onde se torna cada vez mais difícil distinguir a realidade da ficção.

A isto acrescenta-se o problema da falta de precisão. Os sistemas que apresentam como conhecimento uma probabilidade estatística, na realidade, oferecem-nos, quando muito, aproximações da verdade, que por vezes são verdadeiras “alucinações”. A falta de verificação das fontes, com a crise do jornalismo no terreno, que implica um trabalho contínuo de recolha e verificação de informações nos locais onde os eventos ocorrem, pode favorecer um solo ainda mais fértil para a desinformação, provocando uma crescente sensação de desconfiança, desorientação e insegurança.

Uma possível aliança
Por trás desta enorme força invisível que a todos envolve, está apenas um pequeno grupo de empresas, cujos fundadores foram recentemente apresentados como os criadores da “pessoa do ano de 2025”, ou seja, os arquitetos da inteligência artificial. Isto suscita uma preocupação importante em relação ao controlo oligopolístico dos sistemas algorítmicos e de inteligência artificial capazes de orientar subtilmente os comportamentos e até mesmo de reescrever a história da humanidade – incluindo a história da Igreja –, muitas vezes sem que possamos ter real consciência disso.

O desafio que nos espera não é impedir a inovação digital, mas sim orientá-la, estando conscientes do seu caráter ambivalente. Cabe a cada um de nós levantar a voz em defesa das pessoas, para que estas ferramentas possam realmente ser integradas por nós como aliadas.

Esta aliança é possível, mas tem de se basear em três pilares: responsabilidade, cooperação e educação.

Em primeiro lugar, a responsabilidade. Ela pode ser definida, consoante as funções, como honestidade, transparência, coragem, visão, dever de partilhar conhecimento, direito de ser informado. Porém, em geral, ninguém pode fugir à sua responsabilidade diante do futuro que estamos a construir.

Para quem está no comando das plataformas on-line, isso significa garantir que as próprias estratégias empresariais não sejam norteadas pelo exclusivo critério da maximização do lucro, mas por uma visão clarividente que tenha em conta o bem comum, da mesma forma que cada um deles se preocupa com o bem-estar dos seus filhos.

Aos criadores e desenvolvedores de modelos de IA, é exigida transparência e responsabilidade social em relação aos princípios de criação de projetos e aos sistemas de moderação que estão na base dos seus algoritmos e dos modelos desenvolvidos, de modo a permitir um consentimento esclarecido aos utilizadores.

Igual responsabilidade é pedida aos legisladores nacionais e reguladores supranacionais, que têm a função de zelar pelo respeito da dignidade humana. Uma adequada regulamentação pode proteger as pessoas duma ligação afetiva com os chatbots e conter a disseminação de conteúdos falsos, manipuladores ou deturpados, preservando a integridade da informação face à sua simulação enganosa.

Por sua vez, as empresas dos mass media e da comunicação não podem permitir que algoritmos orientados para vencer a qualquer custo a batalha por alguns segundos de atenção a mais prevaleçam sobre a fidelidade aos seus valores profissionais, voltados para a busca da verdade. A confiança do público conquista-se com a precisão e a transparência, não com a corrida por uma participação qualquer. Os conteúdos gerados ou manipulados pela IA devem ser sinalizados e claramente distinguidos dos conteúdos criados por pessoas. A autoria e a propriedade soberana do trabalho dos jornalistas e outros criadores de conteúdo devem ser protegidas. A informação é um bem público. Um serviço público construtivo e significativo não se baseia na opacidade, mas na transparência das fontes, na inclusão dos sujeitos envolvidos e num elevado padrão de qualidade.

Todos somos chamados a cooperar. Nenhum setor pode enfrentar sozinho o desafio de liderar a inovação digital e governar a IA. Por isso, é necessário criar mecanismos de salvaguarda. Todas as partes interessadas – desde a indústria tecnológica aos legisladores, das empresas de criação ao mundo académico, dos artistas aos jornalistas e educadores – devem estar envolvidas na construção e na efetivação de uma cidadania digital consciente e responsável.

O objetivo da educação é este: aumentar as nossas capacidades pessoais de refletir criticamente, avaliar a credibilidade das fontes e os possíveis interesses por trás da seleção das informações que nos chegam, compreender os mecanismos psicológicos que elas ativam, permitir às nossas famílias, comunidades e associações a elaboração de critérios práticos para uma cultura de comunicação mais saudável e responsável.

Precisamente por isso, cada vez mais, é urgente introduzir também, em todos os níveis dos sistemas educativos, a literacia para os meios de comunicação social, a informação e a IA, que algumas instituições civis já estão a promover. Como católicos, podemos e devemos dar o nosso contributo, para que as pessoas – especialmente os jovens – adquiram a capacidade de pensamento crítico e cresçam na liberdade do espírito. Esta literacia deveria ainda ser integrada em iniciativas mais amplas de educação permanente, alcançando igualmente os idosos e os membros marginalizados da sociedade, que muitas vezes se sentem excluídos e impotentes perante as rápidas mudanças tecnológicas.

A literacia para os meios de comunicação, a informação e a IA ajudará todos a não se adaptarem à tendência de antropomorfização destes sistemas, mas a tratá-los como ferramentas, a recorrer sempre a uma validação externa das fontes – que podem ser imprecisas ou erradas – fornecidas pelos sistemas de IA, a proteger a própria privacidade e os próprios dados, conhecendo os parâmetros de segurança e as opções de reclamação. É importante educar e educar-se para utilizar a IA de forma intencional e, neste contexto, proteger a própria imagem (fotos e áudio), o próprio rosto e a própria voz, para evitar que sejam utilizados na criação de conteúdos e comportamentos prejudiciais, como fraudes digitais, ciberbullying, deepfake, que violam a privacidade e a intimidade das pessoas sem o seu consentimento. Assim como a revolução industrial exigiu uma alfabetização mínima para permitir que as pessoas reagissem às novidades, também a revolução digital exige uma literacia digital (com uma formação humanística e cultural) para compreender como os algoritmos moldam a nossa perceção da realidade, como funcionam os preconceitos da IA, quais são os mecanismos que determinam o aparecimento de determinados conteúdos nos nossos fluxos de informação (feeds), quais são e como podem mudar os pressupostos e modelos económicos da economia da IA.

É necessário que o rosto e a voz voltem a dizer a pessoa. É necessário preservar o dom da comunicação como a mais profunda verdade do ser humano, para a qual também se deve orientar toda a inovação tecnológica.

Ao propor estas reflexões, agradeço a todos aqueles que estão a trabalhar para os objetivos aqui apresentados e, de coração, abençoo quantos trabalham para o bem comum através dos meios de comunicação.

Vaticano, na Memória de São Francisco de Sales, 24 de janeiro de 2026.

LEÃO XIV PP.


[1] «Ter sido criado à imagem de Deus significa que foi impresso no homem, desde o momento da sua criação, um carácter régio [...]. Deus é amor e fonte de amor: o divino Criador também colocou esta característica no nosso rosto, para que, através do amor – reflexo do amor divino –, o ser humano reconheça e manifeste a dignidade da sua natureza e a semelhança com o seu Criador» (cf. São Gregório de Nissa, A criação do homem: PG 44, 137).

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Catfish: descubra o que é o golpe com perfis digitais

Por mais que as camadas de proteção, dicas de precaução e os sistemas de segurança nos ambientes online estejam disponíveis em maior número, os novos golpes digitais continuam sendo criados, ou adaptados, por pessoas mal-intencionadas e que sabem como utilizar a engenharia social para atingir o elo mais fraco: o ser humano. O chamado Catfish é um dos tipos de armadilhas que estão sendo aplicadas atualmente.

Talvez você já tenha visto casos de pessoas dizendo que alguém está usando a sua foto para entrar em contato, principalmente por WhatsApp ou via uma conta falsa nas redes sociais. Ao se passarem por outra pessoa, como alguém conhecido, os criminosos fazem novas vítimas com o objetivo de capturar dados, receber dinheiro, até instalar vírus no celular de quem foi pego neste golpe.

Esse é o cenário em que o Catfish acontece. Quer compreender mais sobre o assunto? Então, continue a leitura e veja quais são as dicas de segurança que os especialistas do Santander indicam para você.

O que é o golpe Catfish?
Apesar de ter um nome em inglês, o golpe Catfish é aplicado em diferentes regiões do Brasil e do mundo, já que se refere a uma armadilha digital capaz de alcançar as vítimas de onde elas estiverem, e que os criminosos conseguem operar igualmente de qualquer lugar.

Ele ocorre quando uma pessoa mal-intencionada cria uma identidade falsa nas redes sociais para enganar e atrair pessoas para o golpe. Geralmente, o criminoso por trás do perfil falso busca estabelecer um relacionamento online com a vítima, muitas vezes românticos e fingindo ser alguém que não é.

Para você saber: o termo Catfish remete a “peixe-gato”, como uma espécie de tradução para essa prática em que há uma pessoa mal-intencionada fazendo uma pessoa comum como “presa” e vítima.

Em quais contextos o golpe Catfish acontece?
Os ambientes online são propícios a serem cenários de golpes porque em determinadas situações é difícil distinguir o que é real daquilo que não é.

Por exemplo, ao trocar mensagens em redes sociais, você poderá estar conversando com um perfil falso sem saber, basta que esteja usando a imagem de alguém que você conhece ou algo semelhante a isso.

Dessa forma, o golpe Catfish ocorre em contextos como os exemplos a seguir:
- Está interessado de forma romântica e passa a manter uma conversa diária por dias seguidos, perguntando assuntos pessoais, relatando o dia a dia e demais pontos de uma troca de mensagens comum;
- Encontrou o número em algum grupo em comum e mantém o bate-papo como se quisesse se tornar um amigo virtual da vítima, mostrando um perfil que utiliza fotos de outras pessoas para passar confiança;
- Entram em contato com familiares e amigos, e dizem ser um novo número de contato (o telefone de trabalho, por exemplo). Com a vítima aceitando tal mensagem como verdadeira e dando abertura, os criminosos alegam situações em que precisam de dinheiro ou de algum dado sigiloso;
- Afirmam que querem muito encontrar você pessoalmente, mas sempre apresentam algum motivo, como um imprevisto, para evitar que isso aconteça.

Saiba como se proteger do golpe Catfish
Quer redobrar os seus cuidados para se proteger online? Então, confira quais são as medidas de segurança para não ser vítima do golpe Catfish.

Para começar, nunca transfira dinheiro nem faça pagamentos para pessoas, por mais que esteja com a foto de algum conhecido seu, sem verificar antes se são elas mesmas que estão solicitando essa ajuda financeira. Ou seja, converse pessoalmente ou por chamada de vídeo com o seu contato, e confirme a mensagem.

Caso tenha conhecido alguém pela internet, como em aplicativos de relacionamento, busque maneiras de confirmar que essa pessoa existe mesmo. Por exemplo, investigue as fotos nas redes sociais, publicações com família e amigos, faça chamadas de vídeo e faça uma busca do nome completo em sites de pesquisa.

Sempre que possível marque um encontro presencial, em locais públicos e seguros, e leve alguém de confiança para acompanhá-lo(a), e desconfie de determinados assuntos, como os que envolvem dinheiro, e demais apelos emocionais.

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Catfishing de homens: o que é e o que pode fazer?


O catfishing ocorre quando alguém cria uma identidade falsa na internet ou em ambientes digitais para enganar outras pessoas, geralmente em contextos de relacionamentos ou amizades online. As motivações variam: algumas pessoas recorrem a esta prática para cometer fraude financeira, outras por “brincadeira”, desejo de vingança (mesmo que infundado), manipulação emocional, entre outros.

Em português, não existe uma tradução amplamente reconhecida para catfishing, mas algumas expressões usadas incluem burla romântica, fraude de identidade online, golpe sentimental ou, como referimos na Quebrar o Silêncio, fraude emocional ou romântica.

Sinais de Catfishing
Perfis demasiado perfeitos ou misteriosos
Fotos excessivamente atraentes, poucas imagens disponíveis ou ausência de presença noutras redes sociais. Contas recentes com poucos conteúdos ou sem atualizações, ou ainda com poucas interações que pareçam reais (ie: ter poucas amizades ou poucos seguidores).
Relutância em fazer videochamadas ou em encontros presenciais
Um ou uma catfish arranja desculpas para evitar interações que possam expor a sua verdadeira identidade. É comum alegarem que estão ocupados, que é uma má altura ou simplesmente que o telemóvel não tem câmara ou está avariado, para evitar fazer videochamadas.
Histórias inconsistentes ou demasiado dramáticas
Muitas vezes, inventam histórias de vida trágicas (mortes de familiares, doenças graves, perda de filhos) e alteram a narrativa conforme necessitam, apresentando factos contraditórios, para gerar empatia da vítima.
Rapidez em demonstrar emoções intensas
Expressões de amor ou amizade profunda demasiado cedo, sem um verdadeiro conhecimento mútuo. É comum tentarem passar de amizade para algo mais íntimo referindo que nunca se sentiram tão próximos como se sentem da vítima. Recorrem ao bombardeamento de elogios, procurando levar a outra pessoa a sentir-se única e especial.
Pedidos de dinheiro ou favores
Muitas vezes, um ou uma catfish tenta obter dinheiro com pretextos como emergências médicas, problemas financeiros ou custos de viagem para encontros que nunca acontecem. Motivos que aliados a histórias dramáticas (para apelar à simpatia da vítima), como por exemplo comprar comida para bebé, funcionam como um meio de extorquir dinheiro mesmo que seja quantias de baixo valor . 
Evitam partilhar informações pessoais verificáveis
Recusam-se a fornecer dados concretos como morada, trabalho, família ou número de telemóvel. Por vezes, cedem informações que são vagas (como a localidade onde vivem) ou contraditórias (idade, profissão).

Consequências para as vítimas
Danos emocionais e psicológicos
O engano pode levar a sentimentos de vergonha, humilhação, ansiedade ou depressão.
Perda de confiança nas relações
Muitas vítimas tornam-se desconfiadas e evitam novos relacionamentos por medo de serem enganadas novamente.
Danos financeiros
Se a vítima enviou dinheiro, pode perder quantias significativas sem possibilidade de reembolso.
Manipulação emocional e abuso
Alguns catfish exploram a vítima emocionalmente, levando-a a acreditar em mentiras e a tomar decisões que a prejudicam.
Exposição e chantagem
Em certos casos, pode haver ameaças para expor informações ou imagens íntimas da vítima, podendo haver uma sobreposição com extorsão sexual.

Se suspeitar que está a ser vítima, saiba o que pode fazer
Verificar a identidade da pessoa
Pesquisar imagens de perfil no Google, procurar a pessoa noutras redes sociais e verificar a coerência das suas histórias.
Recusar pedidos de dinheiro
Não enviar dinheiro a alguém, especialmente quando não tem a certeza de quem é a pessoa com quem fala.
Exigir interações reais
Insistir em videochamadas ou encontros presenciais (em locais públicos e com acompanhamento de uma pessoa amiga) para confirmar a identidade. E mesmo que consiga, desconfie sempre, se algo não lhe parecer bem.
Não partilhe dados pessoais e sensíveis
Não forneça os seus dados pessoais e informações sensíveis como números de cartões, morada, número de identificação fiscal, etc.
Confiar nos instintos
Se algo parece suspeito, confie no seu instinto. Questione e afaste-se.

Catfishing e extorsão sexual
O catfishing e a extorsão sexual (sextortion) podem sobrepor-se quando alguém cria uma identidade falsa para enganar vítimas e depois as chantageia. Um catfish pode dedicar meses ou até anos a construir uma relação falsa para extorquir dinheiro ou obter favores. É comum haver uma manipulação emocional que desempenha um papel central, levando a vítima a baixar a guarda.
Nos casos de extorsão sexual, a abordagem pode ser ainda mais rápida, com a transição do engano para a chantagem a ocorrer num único dia ou até em escassos minutos. As duas podem ter um impacto danoso e grave nas vítimas. Jovens e adultos vulneráveis são os principais alvos, mas qualquer pessoa pode ser apanhada neste tipo de esquema.

Homens e rapazes vitimados
O catfishing pode ter um impacto grave nos homens e rapazes, mas estes casos são frequentemente ignorados ou minimizados. Muitos homens, que são enganados por perfis falsos, enfrentam não só a dor emocional da traição, mas também sentimentos de vergonha, auto culpabilização e humilhação, exacerbados por normas sociais que os pressionam a serem emocionalmente resilientes. Esta vergonha pode impedi-los de procurar apoio ou denunciar o crime, deixando-os vulneráveis a abusos prolongados.

Os rapazes, especialmente os adolescentes, podem ser alvos fáceis para predadores que recorrem ao catfishing como ferramenta para manipulação e abuso. A falta de educação sobre segurança digital e a crença de que os homens estão menos expostos a este tipo de fraude contribuem para um risco acrescido.

Os rapazes gay, bissexuais ou trans (GBT) podem ser particularmente vulneráveis devido ao medo do preconceito, do outing (exposição forçada da sua orientação sexual e/ou identidade de género) e da falta de espaços seguros para explorar a sua identidade. Muitos recorrem a plataformas online para conhecer pessoas e construir ligações, ligações estas que podem ser exploradas por predadores. Alguns catfish manipulam vítimas GBT, ameaçando expô-las a familiares ou comunidades hostis, usando a vergonha e o medo como estratégias de controlo. Além disso, os rapazes GBT podem sentir-se encurralados, sem saber a quem recorrer, intensificando o isolamento social.

segunda-feira, 12 de maio de 2025

Machosfera “não é brincadeira de rapazes”, é bomba relógio


Escolhem as mulheres como inimigo, são orgulhosamente misóginos, transformam a violência de género em espetáculo ‘online’, doutrinam crianças e lucram com isso – eis a machosfera, uma “bomba relógio que já explodiu”, alertam especialistas.

“Temos uma sociedade pornificada, com plataformas digitais desreguladas, onde a misoginia e a violência contra as mulheres é espetacularizada, monetizada, comercializável. É uma bomba-relógio, um problema social que já explodiu nas nossas mãos”, sublinha Maria João Faustino, especialista em violência sexual.

Isto “não é uma mera brincadeira de rapazes”, garante Inês Amaral, investigadora do Observatório de Masculinidades do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.

Segundo a especialista, a misoginia “vende”, enquanto propaga filosofias “doentias e assustadoras”, num universo onde homens partilham “filmagens não consentidas de encontros com mulheres, ou até vídeos sem nada de sexual das mulheres, mães, irmãs, até das filhas”.

As “culturas digitais reacionárias e patriarcais” estão a construir “novas gerações que promovem ideias distorcidas sobre intimidade, consentimento, prazer mútuo e igualdade”, aponta Diana Pinto, da Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres.

As narrativas misturam “ressentimento, violência e nostalgia por uma ordem patriarcal perdida”, vendo como ameaça a emancipação feminina.

“Nos fóruns, nas redes sociais e nas plataformas de ‘streaming’, proliferam discursos misóginos que promovem uma cultura que sexualiza, desumaniza e até responsabiliza as raparigas e as mulheres pela violência que sofrem”, indica.

Esta “cultura digital violenta” é “potenciada por algoritmos e pela monetização de conteúdos sexistas, altamente lucrativos para alguns, nomeadamente para as plataformas”, assegura.

O problema de raiz é “muito profundo e está sedimentado em muitos séculos de desigualdade e supremacia masculina”, ganhando no ‘online’ “novas avenidas e dimensões de impunidade”, sinaliza Maria João Faustino, alertando que é “muito fácil aliciar, capturar e radicalizar jovens rapazes” para estes discursos.

A machosfera “tem muitos ecos e muitas alianças” com “a pornografia ou a extrema-direita” e “não está só nas catacumbas da internet”.

“Os misóginos são homens que partilham da vida em sociedade connosco, que vivem connosco, nas nossas casas, nas nossas famílias. É preciso fazer o reconhecimento doloroso de que são homens como nós, e muitas vezes homens que amamos, que são os nossos filhos, os nossos pais, homens em quem confiamos”, sublinha.

Maria João Faustino alerta que o problema é estrutural e tem passado “sem uma resposta preventiva ou uma abordagem séria”.

O britânico Andrew Tate, auto-denominado misógino, é para estes homens “uma espécie de herói” e propaga discursos “de uma violência atroz e uma promoção de ódio muito substancial, consumidos por centenas de milhares de jovens numa base quotidiana”, relata Inês Amaral.

“As crianças não vão ativamente à procura destes conteúdos, mas são o alvo destas pessoas”, avisa a investigadora.

Depois, “há o passa a palavra e o consumo de determinadas plataformas, nomeadamente de jogos, cheias destas ideias”, destaca, encontrando uma “ligação direta” entre a machosfera e os movimentos de Alt-Right (direita alternativa focada na supremacia branca) dos Estados Unidos da América.

É um “problema terrível”, fomentado “pelos discursos conservadores dos grupos e partidos de extrema-direita, que legitimam um discurso mais duro, de recurso à violência e de menorizar o papel das mulheres”, sinaliza Sandra Cunha, da FEM – Feministas em Movimento.

Tiago Rolino, jurista, gestor de investigação e ativista, olha para o machismo como “manifestação do sistema patriarcal”, o “topo da pirâmide de privilégios” que “está sempre presente”, bloqueando “a igualdade plena de direitos e oportunidades”.

“As primeiras vítimas do machismo são as mulheres. Mas os homens também. Têm mais suicídios, sofrem mais de doenças evitáveis porque não vão ao médico, consomem mais drogas, comentem mais crimes e têm mais depressões”, afirma.

Ser “provedor, corajoso, forte, bem constituído fisicamente, esconder as emoções, ser mulherengo e bem-sucedido” são os “pilares da masculinidade que o homem de verdade tenta atingir”, mas “nenhum os atinge a todos”, o que “causa problemas de frustração” e recurso à “violência para se imporem”, explica.