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domingo, 9 de julho de 2023

Homenagem a José Mattoso


A morte do vulto intelectual e excelente professor José Mattoso, levou-me a reler o Cântico de Daniel:

[…] Que a terra bendiga o Senhor;
Montes e colinas, bendizei o Senhor;
Plantas que brotais da terra, bendizei o Senhor.
Mares e rios, bendizei o Senhor;
Fontes, bendizei o Senhor
Peixes e animais que viveis nas águas, bendizei o Senhor;
Pássaros todos do céu, bendizei o Senhor.
Animais selvagens e rebanhos, bendizei o Senhor;
Filhos dos homens, bendizei o Senhor…"

sábado, 2 de julho de 2022

O que é ser português, segundo José Mattoso


Em 1989, sob a chancela da Quetzal Editores e apoio do Instituto de Promoção Turística era dada à estampa uma edição com grafismo irrepreensível intitulada Portugal, texto de José Mattoso e fotografia de Nicolas Sapieha.

O elenco de imagens do malogrado fotógrafo norte-americano ainda hoje satisfaz a exigências dos mais exigentes, independentemente dos aspetos da datação. O texto do historiador José Mattoso é, em meu entender, uma daquelas peças que se podem alinhar ao lado das de Eduardo Lourenço, António Sérgio, Jorge Dias ou Orlando Ribeiro sobre a identidade dos portugueses. São parágrafos sublimes, podiam facilmente circular no sistema educativo reportados à educação cívica.

Oiçamo-lo falando da consciência de ser português:
“Creio que é o secular contacto dos portugueses com outros povos, sobretudo não europeus, aquilo que mais lhes tem dado ocasião de tomarem consciência da sua própria identidade nacional. Mas a prevalência desta situação torna a experiência da identidade demasiado dependente do contexto da ausência e da distância – portanto, da imaginação de uma realidade que se tenta reconstituir pela memória (…) Os Lusíadas voltam a repetir-se todos os dias. Os portugueses só se consideram como tais para darem alguma resposta aos novos reis de Melinde que sem cessar os interrogam. Então são capazes, até, de contarem o que aprenderam na escola – histórias de batalhas e de reis, aventuras de antepassados heroicos como se fossem suas, glórias dos chefes que tomam como próprias, fidelidades meritórias que só foram de vassalos interesseiros e eles transformam em virtudes aglutinadoras de todo um pouco. Assumem uma alma coletiva que só existe nos livros de escola e cujos feitos eles aprenderam a custo para obterem o diploma que dava acesso ao emprego”.

E o historiador recorda as estruturadas assimetrias entre os letrados e os analfabetos, as problemáticas que só ganham sentido nas elites intelectuais para concluir que a consciência da identidade portuguesa parece forjar-se sobretudo na confrontação com outros povos, tanto pode ser a luta contra a moirama como as conquistas e navegações que se seguiram, não excluindo a travessia dos sertões brasileiros. É desse contágio e permuta de experiências que o português toma consciência do que é perante os outros povos e se reconhece como irmão do seu compatriota e súbito do mesmo rei.

Até ao romantismo, nada mais havia a perguntar ou a saber, havia a história oficial que servia para basear a história coletiva. As interrogações chegam a partir do momento em que se procura a ligação da cultura, da língua e da nação com a Natureza. Então, o confronto faz-nos hesitar entre as glórias passadas e aquela decadência que se passou a viver desde o século XVII em diante. E com a independência do Brasil falava-se constantemente na decadência, no declínio, então abriu-se a porta de África, reacendia-se o desafio coletivo.

Com o Estado Novo e a sua ideologia nacionalista recriou-se a ilusão de que a decadência tinha terminado e era possível recuperar o vigor primitivo. Mas a questão matricial permanecia: onde está o espírito da Nação? O que é ser português? Quais são as suas características comuns? O que explica a sua história? A intelectualidade portuguesa andou mais de um século a caminhar por becos sem saída, nem Fernando Pessoa escapou.

O fim formal do Império, em 1974, criou as condições para que os portugueses procurem compreender-se a si próprios de maneira mais realista. Diz José Mattoso que a Revolução dos Cravos repetiu, de alguma maneira, situações comparáveis a 1910, 1640 ou 1383:

“Constitui o ponto de apoio histórico para que a memória nacional recorde a capacidade coletiva de reagir a uma situação de crise. É uma condição importante para criar ou fortalecer uma consciência de identidade que não se baseie exclusivamente em dados ilusórios. As revoluções, na medida em que necessita do concurso de uma grande multidão de indivíduos para triunfarem, possuem, como acontecimentos reais que são, e justamente por serem reais, a virtude própria de simbolizar melhor do que quaisquer outros a capacidade que todo o indivíduo tem de participar no destino da Nação”.
Não devemos a identidade à geografia embora esta seja um ponto de partida na certeza de que não há nisso qualquer espécie de determinismo mecanicista. Um olhar mais sustentado merece o poder político, se acaso este entre em sintonia com os comportamentos generalizados dos cidadãos e os ajuda a melhorar, respondendo às alterações que são expectáveis. Há as críticas que há séculos lançam sobre os portugueses sobre uma alegada incapacidade de planeamento e de organização, aliada a um jeito especial para a improvisação. E José Mattoso pronuncia-se sobre a saudade e o lirismo, a improvisação e o chamado sentimento universalista. Quanto à saudade e o lirismo, questiona se não resultará do facto de nos vermos impelidos a emigrar, o que é uma constante da História portuguesa, foi o que aconteceu desde o século XI com os de Entre Douro e Minho e que procuravam o Sul, e mais adiante o constante fluxo para a África, Índia, Insulíndia ou Brasil, até chegarmos a caminhar para França, Alemanha, Suíça, Luxemburgo ou Canadá.

“Quem lutava contra a penúria, a fome ou a exploração, tinha de colocar a esperança no além, num amanhã, não próximo, mas incerto, situado noutro lugar, noutro espaço, noutro tempo (…) Ora esta experiência comum de tantos portugueses, repetidamente renovada ao longo dos séculos foi, sobretudo pelos que iam ficando, sublimada em poesia, romance ou ensaio, tornou-se um tema quase obsessivo da literatura portuguesa. Resta saber, porém, se o fenómeno pode ser, de facto, generalizado. Para o saber será preciso averiguar, por exemplo, se se encontra com a mesma intensidade na literatura popular. Se não será resultado das condições de vida de uma minoria escolarizada capaz de escrever, de uma minoria que pode até dispor de algumas vantagens no país, mas demasiado magras para serem preferíveis aos riscos da emigração”.

Falando agora da improvisação, recorda o estado concentracionário que existe desde Afonso III, o que poderá levar à convicção da inutilidade das previsões, à impossibilidade de responsabilização e da participação nas decisões. Se tudo é decidido por uma pequena minoria, a malta desenrasca-se.

Quanto ao universalismo, é verdade que entramos facilmente em contacto com outras civilizações, e o historiador tece uma observação admirável:

“Desenraizado, o português sente-se irmão de todos os homens, espera deles a luta ou o braço, não tem preconceitos contra nada ou ninguém, integra-se facilmente. Não só o português – todo o homem desenraizado. Só que isso tem acontecido a muitos portugueses desde há séculos.”

José Mattoso relembra o papel da intelectualidade no chamado período da decadência e releva a figura de Gonçalo Mendes Ramires, da Ilustre Casa de Ramires, de Eça de Queirós, por ir buscar em África as virtudes dos antepassados. Esse quadro ilusório simplesmente já não existe.
E agora? Agora adaptamo-nos a ser portugueses. Pode muito bem acontecer que venhamos substancialmente a mudar a opinião que temos de nós próprios. “Pelo menos daqueles que se consideravam vítimas de uma irremediável decadência coletiva”.
Não conheço melhor síntese sobre a questão de ser português nesta nossa modernidade.

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Portugal - O Sabor da Terra


Uma obra sobre Portugal, para os portugueses que persistem em tentar perceber-se a si mesmos.

"Vamos esquecer a terra? É nela que nos apoiamos, dela que nos alimentamos, ela que configura o nosso espaço, ela que condiciona as nossas comunicações físicas. Nela que moraram os nossos antepassados. Marcados pelo território, transmitiram-nos as estruturas sociais com que nos organizamos, as técnicas agrícolas que em parte a dominam, e tudo o mais que foi moldando as nossas comunidades até hoje. O território é o elemento permanente da identidade. Por isso acentuados a presença da terra e procurámos, por meio da fotografia de paisagens em monumentos, representamos sinais de permanência ou da longa duração"
José Mattoso (do prefácio)

Portugal — o Sabor da Terra, foi uma investigação e recolha fotográfica desenvolvida entre 1996 e 1998, para o Pavilhão de Portugal, na Expo’98, e para o Círculo de Leitores, do qual resultaram catorze exposições simultâneas nas várias regiões de Portugal e igual número de volumes publicados. Foi um trabalho elaborado com o historiador José Mattoso e a geógrafa Suzanne Daveau. Desde 1986 que percorria Portugal num levantamento fotográfico progressivo de unidades de paisagem, formas primitivas de ocupação e domínio do território, lugares arqueológicos, aspectos das cidades e da suburbanidade, arquitecturas, vias de comunicação e transformações recentes do espaço habitado. Destes itinerários foram extraídas as fotografias uma obra onde se procurou fixar a paisagem e povoamento num tempo longo. Este trabalho pretendeu contribuir para a identificação de um país, para a redescoberta das suas regiões e da multiplicidade dos seus lugares e arquitecturas.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Entrevista do ano - José Mattoso: o "governo do povo" favorece quem já tem o poder

José Mattoso em Mértola [autor desconhecido]
José Mattoso é parco em entrevistas e textos mediáticos - poderia manter uma coluna num Jornal, - e é uma pena, mas são opções individuais e intelectuais, quiçá monásticos.
Contudo, quando se expressa nas raras entrevistas como a que reproduzo aqui, e que foi publicada no Público, em 29 de Abril de 2012, o Professor revela-se e demonstra um profundo conhecimento em diversos domínios do ser humano e da sua relação com o meio ambiente e mais louvável ainda, ditos num discurso muito simples, acessível e "legível", nada ecléctico ou intencionalmente epistemológico. Por favor leiam esta entrevista até ao fim. É relevante, muito e inspiradora, intensa.

José Mattoso acaba de publicar o livro Levantar o Céu - Os Labirintos da Sabedoria (ed. Temas e Debates/Círculo de Leitores), onde recolhe textos de intervençao cívica e espiritual. É como que uma síntese da vida do historiador que, aos 79 anos, não desiste de um olhar lúcido sobre a contemporaneidade. Pretexto para esta entrevista.

PÚBLICO: No seu livro, confessa o seu cepticismo perante a realidade, relacionando-o também com a desilusão que sobreveio às esperanças da década de 1960. A posição céptica é a mais saudável hoje em dia?
José Mattoso: Não, de todo. A posição céptica é resultado de um certo realismo e lucidez. Quando se vêem as estatísticas, o aumento do lixo nuclear, das consequências dos aditivos na indústria alimentar, tudo o que preocupa um cidadão normal, não se vê como se possa sair daí. As coisas têm repercussões tais que só a reunião de poderes universais pode alterar a direcção em que se vai. As estatísticas são implacáveis e seria cegueira não ver isso. 

Não encarar essa realidade...
Sim, mas esse é um ponto de vista racional. Do ponto de vista da fé, nada disso é fatal. Podemos ter uma atitude política, tentar intervir na realidade. Mas, se não formos conduzidos pela fé, o realismo leva-nos a desistir. O cristão tem possibilidade de se livrar dessa fatalidade na sua relação com o céu. Na metáfora que utilizo, levantar o céu, é trazer a terra ao encontro do céu. Aí, não estamos sós. Temos a intervenção de Deus, temos a fé na redenção, no perdão dos pecados, no valor do sofrimento, na abnegação, na bondade... Temos também a fé na cultura, na inspiração extraordinária dos grandes artistas, que alcançam níveis fantásticos de captação da bondade, da beleza do mundo. E temos a renovação constante da vida: se há um incêndio numa mata, vemos daí a pouco aparecerem as flores, as ervas. A vida não desiste de se reproduzir, de envolver a realidade.

Fala da atitude política, mas hoje ela está subjugada ao financeiro. Estamos perante uma usurpação da democracia?
Não domino suficientemente a terminologia política para poder dizer se se trata de uma usurpação. Sei que o Estado tem mostrado a sua impotência perante os abusos do poder financeiro e que o sistema democrático não resolve os problemas actuais. Ninguém acredita no discurso político, nem mesmo quem o pronuncia. Os interesses corporativos viciam a democracia. O "governo do povo" não defende os direitos dos pobres e excluídos. Favorece quem já tem poder. 

Impressiona a evocação que faz da tragédia ambiental. Está ameaçada a relação da humanidade com a natureza?
Creio que sim. A escassez de petróleo e de água, de todas as fontes de energia, mostra que é preciso um investimento enorme. A grande ameaça é a confiança que o homem põe na técnica. A ciência dá um poder enorme sobre a realidade. Uma parte dos cientistas atribui uma grande capacidade de resolução dos problemas à técnica. Mas esta, muitas vezes, adopta soluções que depois se revelam extremamente dispendiosas. Somos incapazes de imaginar o mundo sem energia, sem movimento, sem Internet. As comunicações tornaram-se indispensáveis. Mas quais são os subprodutos?... A técnica não dá o poder de resolver os efeitos secundários.

Há anos, Lourdes Pintasilgo presidiu a uma comissão que elaborou o relatório "Cuidar o Futuro". Estamos a pôr em causa as futuras gerações?
Sim, é de tal modo uma evidência que espanta que não se veja isso. Todavia, o imediatismo na resolução dos problemas não deixa adoptar soluções de longo prazo. Não há nenhum político que se atreva a propor que se deixe de ter electricidade uma hora ou duas por dia, porque perderia as eleições...

É preciso recuperar as ideologias e os ideais, perdidos nas últimas décadas? 
Tenho pouca confiança nas ideologias, nos ideais sim. Os ideais propõem-nos um horizonte que nunca conseguiremos alcançar: o ideal da pureza, da beleza, da abnegação - nunca lá chegaremos suficientemente. Jesus Cristo utiliza expressões extremas, porque são ideais: se te baterem numa face, dá a outra; devemos fazer o bem aos nossos inimigos. Isso é um ideal, ninguém chegará lá, porque é um horizonte sem fim, de tal modo exigente, que há sempre uma aproximação e a esperança de fazer mais. 

E as ideologias?
Os ideais são indispensáveis para o homem melhorar a sociedade em que vive. As ideologias, não sei de nenhuma que tivesse resolvido os problemas da humanidade a uma escala suficiente: marxista, socialista, conservadora... Até as próprias religiões, como sistemas de organização da vida. Elas traçam uma série de regras e, se as regras são absolutas, tornam-se como o homem que se submete [à lei e não a lei] para o homem; e se são instituições permissivas, não atingem os objectivos. 
Apareceu um abaixo-assinado de 400 padres na Áustria. Há ali uma série de problemas concretos que a instituição-Igreja não aceita e, todavia, do ponto de vista evangélico, seria natural haver uma certa maleabilidade. Na Idade Média havia um subentendimento de outra forma de organizar a vida humana do ponto de vista moral e espiritual: as regras fundamentais eram apresentadas em toda a sua exigência, mas a prática era muito mais maleável e não considerava que houvesse casos sem solução. 

É nesse sentido que devemos ler a metáfora "levantar o céu"?
Não tanto. Quando falo em levantar o céu, é todo o universo, são realidades espirituais, a arte, mesmo a que não tem nada que ver com a religião, porque representa uma forma de melhorar o ser. O ser é sempre parcialmente realizado. Ao falar na beleza, não se pressupõe que ela não possa conter também alguma coisa de fealdade. Os antagonismos, fundamento do pensamento ocidental, em que se baseia a visão da realidade, são muitas vezes parciais. 

Por isso vai ao Oriente buscar a ideia da harmonização dos contrários?
Exactamente. O Ocidente precisava de mais maleabilidade e da consciência de que a realização do ser é tão pluriforme que ninguém pode abarcar essa totalidade. Não é por processos de oposição que caminharemos para o pleno do ser humano. Há toda uma tradição da cultura ocidental, em que predomina a racionalização, os opostos: preto e branco, bem e mal... Na Idade Média, aparentemente, também prevalece esse tom radical nos grandes pregadores. A mulher, para São Pedro Damião, é a encarnação do demónio. O leitor deixa-se enganar por essa aparência de intolerância mas, se estudar o que aconteceu na realidade, verifica que há uma concepção pragmática da realidade, muito diferente da doutrina. 

Constrói o seu livro à base do triângulo sabedoria, razão e fé. É possível a coexistência destes três vértices?
Creio que sim, contanto que a razão não prevaleça sobre a sabedoria e a fé. Mas a razão é fundamental. A formulação teológica do século XII, de São Tomás de Aquino e da teologia escolástica, é a demonstração mais categórica da capacidade de conciliar a fé com a razão. Isso representa um progresso enorme na compreensão da mensagem evangélica. Portanto, não há uma oposição inconciliável. O pietismo, uma devoção sentimental que é por vezes a expressão de um culto popular, precisa da reflexão racional para se tornar aceitável.
Em Portugal, não se cultivou suficientemente a teologia, na sua expressão plena. Não há uma tradição de estudos teológicos suficientemente válidos do ponto de vista racional, para poder responder a um anticlericalismo primário e cego que existiu em Portugal no século XIX e grande parte do século XX.

Já referiu a bondade e escreve que enquanto homens e mulheres se amarem, ainda há um resto de esperança. A bondade é a sua esperança?
Não só. Radica nela, na medida em que esse é um efeito de Jesus Cristo ter assumido a natureza humana e representar no mundo a bondade de Deus. Ele é o redentor, o salvador. Mas eu não queria insistir no aspecto dogmático, antes na forma prática como Jesus Cristo mostra o que deve ser o homem na sua expressão mais profunda.
A bondade pode ser praticada numa concepção laical, laicista mesmo. Não precisa de ter nenhum sobrenatural por trás. Mas o cristão tem essa propensão, se a cultivar. E tem o exemplo de Jesus Cristo que leva isso a um extremo que o homem, só por si, não alcança.A bondade pode ser uma chave de uma ética comum entre crentes e não-crentes?
Sim. Pode haver colaboração entre um crente e um não-crente na vivência da bondade.

Temos dificuldades com a supressão do tempo, porque ele traz o envelhecimento e a morte, e da liberdade, porque ela nos permite escolher entre o bem e a violência?
Quando falamos do ser, pensamos em qualquer coisa fora do tempo. Mas a realização do ser é no tempo, não pode ser toda de uma vez e tem que ser com todos os indivíduos que constituem a humanidade. A realização do ser homem faz-se na totalidade da vivência humana no tempo. 

E implica aceitar o sofrimento e a morte?
Sim, e também a consideração entre o bem e o mal.Que é a questão da liberdade. Sim. A realidade do ser humano implica o bem e o mal, como se conciliam, como entram em relação um com o outro... Os livros que têm aparecido a negar a existência de Deus dizem que, se Deus existisse, teria que intervir para que a maldade humana não prevalecesse. A oposição inconciliável entre o bem e o mal leva a negar a existência de Deus. 
Qualquer pessoa que considere as coisas em termos de justiça e verifique o que se passa no mundo ou a crueldade no Holocausto, diz: como é que Deus permite isto, como é que estes homens fazem isto e quem sofre são as vítimas? 
Para mim também é difícil aceitar esta realidade. Talvez seja numa visão de totalidade, em que o bem não pode existir sem o mal, que se pode aceitar e encontrar uma relação com o ser do homem. O ser implica também o ser mau.

A dificuldade maior das nossas sociedades é enfrentar o envelhecimento e a morte?
Sim, mas no envelhecimento há qualquer coisa mais própria da nossa época do que de outras. Não havia os progressos da medicina que permitem retardar o envelhecimento. Também há toda uma cultura da juventude que desvaloriza a velhice e as incapacidades que ela traz. Todavia, de um ponto de vista estatístico, a diminuição da natalidade não traz senão uma percentagem cada vez maior de velhos e doentes. Como se resolve tudo isso? O pensamento oriental se calhar é mais sábio, porque tem consciência do papel do velho...Tal como o africano..... talvez porque a percentagem de velhos é menor do que no Ocidente. Para o homem de fé, é preciso aprofundar esta noção da sabedoria, que se baseia numa experiência vivida e na meditação da palavra como fundadora da própria realidade, de autenticidade dos conceitos e dos valores.

Não se zanga quando ouve, na praça pública, referências à Idade Média como a idade das trevas? Mesmo quando várias das tragédias evocadas, como a Inquisição, são posteriores...
Não acho que seja precisa uma atitude apologética, explicando que esse é um conceito primário e redutor. Foi refutado já tantas vezes e de forma tão clara que não vejo nisso grande problema. Pode acontecer é que seja apenas expressão de um primarismo cultural que é lamentável. Mas há mais qualquer coisa: o Liberalismo e, sobretudo, o Iluminismo é muito responsável pela inferiorização da Idade Média, por causa da noção de progresso. O Iluminismo procura a racionalização e o progresso e desvaloriza tudo o que seja intuitivo, tudo o que seja [do domínio do] jogo...

Dizia que a Idade Média era muito mais tolerante e diversificada, que o clero não era tão dogmático como mais tarde alguns missionários...
Não diria "muito mais" tolerante. Diria mais tolerante e menos dogmático. Isso resulta sobretudo da prática das instituições. A Igreja quis formatar o homem de uma certa maneira, impor-lhe um modo de comportamento demasiado rígido. Por exemplo, a confissão sacramental, que aparece no Concílio de Latrão em 1215, ou a regra de ir à missa uma vez por semana ou o matrimónio como sacramento... O clero começou a pensar que eram objectivos. Mas não são senão meios pedagógicos. 
É verdade que a sociedade ocidental ganhou, do ponto de vista moral, com o matrimónio monogâmico. Mas, na prática, o concubinato era extremamente difundido. A Igreja conviveu com isso. Era preferível ter sido um pouco mais tolerante. A prática das visitas canónicas na região de Coimbra no século XVI era uma autêntica espionagem da vida privada das pessoas que levava a uma hipocrisia que não trouxe vantagem nenhuma em relação a uma certa tolerância medieval.

Tem evocado a sua convicção cristã, mas também expressa reservas em relação a aspectos institucionais do catolicismo. Como vê a Igreja institucional?
Poderia dizer, de forma quase brutal, que não me importaria de assinar a carta dos 400 padres austríacos [a pedir reformas na Igreja e o fim do celibato obrigatório, entre outras coisas]. Mas não quero ser provocador. Relaciono isso com a sondagem que diz que há menos católicos e uma proliferação cada vez maior de grupos religiosos ou pseudo-religiosos. A evolução social é implacável. Que estratégia a Igreja deveria seguir, para não perder o lugar que chegou a alcançar? Penso que é sobretudo na vivência do Evangelho, na autenticidade da vida cristã. Não de uma forma pietista, mas de forma autêntica, vivencial e esclarecida. Há uma grande quantidade de questões que resultam da ignorância teológica pura e simples. 
É uma atitude exemplar, a de frei Bento Domingues, seguro nas suas posições doutrinais e todavia extremamente maleável na sua apreciação da realidade actual. 

Quando ganhou o Prémio Pessoa, estava numa aldeia em Arganil. Agora vive no interior do distrito de Aveiro. Já passou por uma aldeia no Alentejo, por Timor... A vocação de monge continua a tentá-lo?
Não diria a tentar-me, diria a manifestar-se. Diria quase: a protestar contra todas as tarefas que tenho aceitado e das quais não me arrependo porque me parecia que era isso que eu devia fazer, na ocasião em que me foram propostas. Mas o meu apelo interior vai por aí, é um apelo primeiro, que permanece. 
Agora queria que me deixassem em paz. Se calhar já é tarde. Os cartuxos só admitem vocações até aos 40 anos, já tenho o dobro, não sei se tenho capacidades de viver sozinho. Mas pelo menos queria, com a liberdade pessoal suficiente e sem imposição de tempo, dedicar-me à oração. Mais do que isso: dedicar-me a descobrir o valor da palavra, o autêntico significado da palavra, no sentido de linguagem, de expressão da realidade, no sentido de logos. Encontrar-me na meditação da palavra como expressão do mundo, da existência, da história, e descobrir-lhe um sentido. 

Sente esse apelo mas, no livro, fala da cidade como símbolo da humanidade solidária. Na Idade Média, a cidade era o sítio onde as pessoas se protegiam da agressão do campo e hoje a cidade é a selva urbana...
Não oporia uma coisa e outra. Há uma tradição cristã que vê a cidade com uma dupla face: a Babilónia, o orgulho, o querer afrontar Deus na realização técnica. A outra metáfora é A Cidade de Deus, de Santo Agostinho, a sociedade ordenada, com uma capacidade de organização que valorize o homem e permita a sua realização, a solidariedade, a conjugação das tarefas. Essa dupla face da cidade mantém-se toda a Idade Média. Na actualidade, poderíamos também ter as duas metáforas como modelo: Corbusier e outros arquitectos que pensaram as coisas em termos urbanísticos quereriam dar realidade à concepção de Santo Agostinho. Mas o que a realidade nos mostra é a megapolis, as cidades desenvolvidas quase sem limites, como São Paulo, Bombaim ou outras. E o homem perde o domínio, a sua capacidade de construir um lugar onde possa viver em toda as suas virtualidades, na solidariedade.

quarta-feira, 12 de maio de 2004

Manifesto "Pela História"

To: Presidente da República; Presidente da Assembleia da República; Primeiro Ministro; Ministro da Educação; Ministra da Ciência e do Ensino Superior; Ministro da Cultura


A HISTÓRIA preserva a memória, contribuindo para o desenvolvimento da consciência social;
A HISTÓRIA alia permanências e mudanças, perenidade e relatividade, fundamentando a construção de uma identidade inclusiva (local, nacional e global);
A HISTÓRIA recorda o passado colectivo e, como diz José Mattoso, recordar o passado colectivo é uma forma de lutar contra a morte.

Esta consciência cidadã, aliada às potencialidades formativas das metodologias da educação histórica, torna manifesta a importância essencial da disciplina de História nos currículos escolares, como o reconheceu a Conferência Permanente dos Ministros Europeus da Educação, reunida na Noruega em 1997. As conclusões da Conferência, subscritas pelo governo português, consideram que:

O ensino da História pode e deve ter uma importante contribuição para a educação em geral e, em particular, para a educação de uma cidadania democrática permitindo aos jovens: 
i. Aprenderem acerca da sua herança histórica, bem como a de outras pessoas e nações; 
ii. Adquirirem e praticarem técnicas fundamentais, tais como a capacidade de pensarem por eles próprios, a capacidade para tratarem e analisarem de forma crítica diferentes formas de informação e a capacidade de não se deixarem influenciar por informação preconceituosa e por argumentos irracionais; 
iii. Desenvolverem atitudes básicas tais como a honestidade intelectual e rigor, um julgamento independente, uma abertura de espírito, a curiosidade, a coragem civil e a tolerância.

Desde a sua formação, a Associação de Professores de História tem procurado contribuir activamente para a promoção da História e a consecução dos objectivos do seu ensino. É, assim, incompreensível e preocupante o espaço cada vez menor atribuído à História nos actuais 2º e 3º ciclos do ensino básico, (reduzida em muitas escolas a escassos 90 minutos semanais) e o seu eventual futuro desaparecimento do currículo como área autónoma de saber.

A APH reafirma a importância da consagração do lugar da História no currículo da escolaridade obrigatória, dotada de tempos lectivos adequados e com o relevo que o seu papel na formação da cidadania democrática lhe exige.

Associação de Professores de História

Assine aqui a petição!