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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Alterações climáticas estão a deslocar borboletas em todo o mundo


Uma em cada dez espécies de borboletas em todo o mundo já alterou a sua área de distribuição, com as alterações climáticas e os fenómenos meteorológicos extremos a serem responsáveis por quase 80% dos movimentos registados, revela um novo estudo liderado pela Monash University.

A investigação, publicada na revista científica Nature Ecology & Evolution, é a maior análise global deste tipo e avaliou 6.182 registos de alterações na distribuição de 1.758 espécies de borboletas em 105 países. O trabalho reuniu informação de literatura científica publicada em inglês e noutras línguas, bem como avaliações realizadas por 68 especialistas.

O autor principal do estudo, Shawan Chowdhury, responsável pelo Global Change Ecology Lab da School of Biological Sciences da Monash University, considera que os resultados revelam um mundo natural em rápida transformação e evidenciam falhas importantes na monitorização da biodiversidade.

“Encontrámos espécies de borboletas a alterar as suas áreas de distribuição em todos os continentes onde existem. A dimensão é impressionante e está a acontecer muito para além das regiões mais estudadas da Europa e da América do Norte”, afirma Shawan Chowdhury.

“As alterações climáticas são agora uma força dominante a redefinir os locais onde as espécies conseguem sobreviver. Para muitas borboletas, a única opção para sobreviver é deslocarem-se, muitas vezes rapidamente, para acompanhar as condições adequadas”, acrescenta.

Mais espécies avançam para novas áreas, mas algumas estão a desaparecer
O estudo mostra que 80% das espécies analisadas expandiram a sua área de distribuição, muitas vezes deslocando-se para novos territórios onde as condições climáticas se tornaram mais favoráveis devido ao aumento das temperaturas.

Ao mesmo tempo, 27% das espécies registaram uma redução da sua distribuição e 22% alteraram a sua presença ao longo de gradientes de altitude. No entanto, estas mudanças de altitude foram raramente documentadas nas regiões tropicais, uma situação considerada preocupante devido aos limites térmicos reduzidos das espécies que vivem nesses ecossistemas.

A análise revelou ainda diferenças significativas na quantidade de informação disponível entre regiões. Cinco países europeus - República Checa, Finlândia, Luxemburgo, Espanha e Suécia - destacaram-se por terem registos de alterações de distribuição para mais de metade das espécies de borboletas conhecidas.

Quando considerados apenas os países onde existem registos de espécies que alteraram a sua distribuição dentro ou fora do território nacional, 32 países apresentavam mudanças documentadas em pelo menos um quarto das espécies conhecidas e 10 países em mais de metade.

Falta de dados ameaça regiões tropicais
Para Shawan Chowdhury, uma das conclusões mais relevantes do estudo é a quantidade de informação que ainda permanece desconhecida.

“Uma das conclusões mais surpreendentes é a quantidade de evidência que estava em falta”, afirma.

“Quando incluímos estudos em línguas que não o inglês e conhecimento de especialistas, surgiu uma imagem global completamente diferente. Sem estas fontes, teríamos subestimado drasticamente os padrões globais de alteração de distribuição, sobretudo ignorando padrões importantes nos trópicos, onde vivem 80% das espécies de insetos.”

A investigação identifica grandes lacunas geográficas na monitorização da biodiversidade, nomeadamente na África Central, Sudeste Asiático, Nova Guiné e Bacia Amazónica, regiões consideradas hotspots globais de biodiversidade.

“Estas são as regiões onde as espécies são mais vulneráveis e onde sabemos menos”, alerta o investigador.

“As borboletas tropicais já vivem próximas dos seus limites térmicos superiores. Mesmo pequenos aumentos de temperatura podem ultrapassar esses limites, especialmente quando a alteração do uso do solo fragmenta os habitats de que as borboletas dependem para se deslocarem e acompanharem os climas adequados.”

Borboletas como sinais de alerta dos ecossistemas
Os autores defendem que uma monitorização global mais equilibrada, padronizada e multilingue é essencial para garantir que as estratégias de conservação sejam baseadas em informação completa.

“As borboletas são indicadores de alerta precoce e estão a emitir um aviso em todo o planeta. Se as suas áreas de distribuição estão a mudar desta forma, isso indica alterações profundas em todos os ecossistemas”, afirma Shawan Chowdhury.

“Precisamos urgentemente de uma monitorização global coordenada, sobretudo nos trópicos, para perceber o que as espécies estão a fazer, para onde estão a ir e como podemos protegê-las. Isto é particularmente importante para cumprir as metas do Quadro Global de Biodiversidade Kunming-Montreal.”

O estudo conclui que a redistribuição das espécies impulsionada pelo clima não é uma possibilidade futura, mas uma realidade atual e em aceleração, exigindo novas estratégias de conservação capazes de responder a um planeta onde cada vez mais espécies estão em movimento.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Ambientalistas alertam que zonas de aceleração de renováveis ameaçam áreas de valor ecológico no Algarve


O Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis (PSZAER) compromete áreas de valor ecológico e a conservação de espécies ameaçadas no Algarve, alertou hoje a Plataforma Pela Sustentabilidade e Biodiversidade do Algarve e Alentejo (PPSBAA).

Em comunicado enviado à agência Lusa, a plataforma ambientalista afirma que o plano identifica, no Algarve e Alentejo, áreas que coincidem com territórios considerados essenciais para a conservação da natureza e de espécies classificadas como «em perigo» ou «criticamente em perigo» de extinção.

A discussão pública da proposta do PSZAER, disponível no Portal Participa, decorre até ao final do hoje.

O documento é um instrumento nacional de ordenamento do território criado para identificar, à escala nacional, as áreas consideradas mais adequadas para a instalação de projetos de energias renováveis (como centrais solares, parques eólicos e infraestruturas associadas), visando acelerar o seu licenciamento.

A proposta identifica cerca de 7% do território continental com potencial para acelerar projetos solares e eólicos, mas alerta que a concretização depende de rede, licenciamento, mercado e aceitação pública.

A conclusão consta da Avaliação Ambiental Estratégica e proposta de Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis, um trabalho técnico colocado em consulta pública sobre a delimitação final das áreas.

Segundo a plataforma, o PSZAER «não garante a salvaguarda do corredor migratório das serras algarvias», utilizado por milhares de aves durante a migração outonal para África.

No mesmo sentido, adianta, não assegura a integridade dos corredores ecológicos que ligam a Serra de Monchique à Serra do Caldeirão e o nordeste algarvio ao vale do Guadiana e à Estremadura espanhola.

A plataforma sustenta que o plano abrange montados, mosaicos agroflorestais de azinheira e sobreiro, bem como habitats considerados «fundamentais para várias espécies com estatuto de conservação crítico».

De acordo com a organização ambientalista, a inclusão destas áreas sensíveis aumenta o risco de mortalidade por colisão, fragmentação e perda de ‘habitats’, bem como do chamado «efeito barreira».

Para a PPSBAA, fica comprometida a sobrevivência de espécies como o abutre-preto, britango, cegonha-preta, águia-imperial-ibérica, abetarda, sisão, rolieiro, francelho, tartaranhão-caçador, cortiçol-de-barriga-preta, morcego-de-ferradura-mourisco, morcego-rato-pequeno, gato-bravo, coelho-bravo e lince-ibérico.

No caso do lince-ibérico, a plataforma refere que o plano inclui, no nordeste algarvio, áreas de reprodução e expansão da espécie, alertando que a crescente artificialização do território «poderá também afetar habitats essenciais para a águia-de-bonelli e a águia-imperial-ibérica».

A plataforma considera que as opções previstas no PSZAER comprometem «décadas de investimento público e científico» na recuperação destas espécies, ao reduzirem as condições ecológicas necessárias para a consolidação das suas populações no sul de Portugal.

Como alternativa, a PPSBAA defende que a expansão das energias renováveis deve privilegiar áreas já artificializadas, como edifícios, zonas industriais e outras infraestruturas, bem como o sobre-equipamento e a repotenciação de parques eólicos existentes, reduzindo a necessidade de ocupar novas áreas naturais.

Por estes motivos, a plataforma manifesta a sua oposição ao PSZAER, apelando à revisão da proposta para compatibilizar o desenvolvimento das energias renováveis com a proteção da biodiversidade.

domingo, 21 de junho de 2026

Alterações climáticas provocam redução significativa de aves migratórias

No Parque Tommy Thompson, em Toronto, uma estação de anilhagem de aves está a registar sinais preocupantes de declínio nas populações migratórias. Os investigadores começam a associar as mudanças ao impacto crescente das alterações climáticas.

Ao amanhecer, Shane Abernethy verifica as redes de captura de aves em busca de pássaros presos. É assim que começa a rotina diária do coordenador da estação de anilhagem do Parque Tommy hompson, em Toronto, que recolhe dados em tempo real sobre as aves migratórias num contexto de aquecimento global.
“Esta estação existe para monitorizar as aves migratórias que passam pela cidade de Toronto. Estamos no meio de uma importante rota migratória e um local como este é uma das melhores formas de as observar. A rotina diária é chegar aqui cedo, abrir as redes para capturar as aves antes de estarem completamente despertas e passar o resto do dia a capturá-las e a marcá-las. Verificamos estas redes a cada 30 minutos".
Num dia normal, a estação regista entre 100 a 150 aves, por vezes ultrapassam as 200.

Sinais de mudança
Os dados do Relatório Anual de 2025, recentemente divulgado pela estação, apontam para uma tendência preocupante: uma descida significativa no número de anilhagens na primavera e no verão, em comparação com médias históricas.

Durante uma recente onda de calor, com a humidade a fazer a temperatura percebida ultrapassar os 40ºC, os investigadores observaram uma redução acentuada no número de crias que conseguiram abandonar os ninhos.
“Isto leva-nos a extrapolar que pode haver uma taxa de falha de ninhos mais elevada localmente. O calor extremo afeta o sucesso da nidificação porque os progenitores têm um limite para a termorregulação, nomeadamente para arrefecer o ninho. Quando a temperatura ultrapassa um determinado limite, todo o ninho pode falhar".
As alterações climáticas estão também a alterar o calendário natural das espécies. Gregor Beck, diretor sénior para o Norte do Canadá da Birds Canada, explica que o aquecimento mais precoce da primavera está a fazer com que as populações de insetos atinjam o pico demasiado cedo, antes de muitas aves migratórias chegarem aos locais de reprodução.
“O clima em constante mudança também está a desorganizar os ciclos sazonais. Um dos desafios é que as alterações climáticas estão a fazer com que as coisas aqueçam mais rapidamente na primavera, pelo que o pico de abundância de insetos não coincide com a época de migração das aves”, disse Gregor.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Aves migradoras estão a conseguir adaptar-se a um Ártico mais quente. Mas não será para sempre.


As aves aquáticas migradoras que viajam para o Ártico para se reproduzirem têm alguma capacidade para anteciparem as suas longas jornadas para coincidirem com a chegada cada vez mais precoce da primavera ao pólo norte da Terra. Contudo, há limites.

Num artigo publicado na revista ‘Nature Climate Change’, mais de duas dezenas de cientistas acompanharam, via GPS, as migrações de cinco espécies: o ganso-de-faces-pretas (Branta bernicla bernicla), o ganso-de-faces-brancas (Branta leucopsis), o ganso-grande-de-testa-branca (Anser albifrons), o ganso-de-bico-curto (Anser brachyrhynchus) e o cisne-de-bewick (Cygnus columbianus bewickii).

A equipa percebeu que estas aves são capazes de reduzir o tempo que passam a alimentar-se, e a abastecerem as suas reservas de energia e gordura, em preparação para a migração, e, dessa forma, lançarem-se aos céus mais cedo para chegarem ao Ártico quando a primavera precoce começa a brotar.

“Os nossos resultados são tanto encorajadores como preocupantes”, admite, citado em comunicado, Hans Linssen, da Universidade de Amesterdão e primeiro autor do estudo.

“Mostramos que estas aves podem migrar mais rapidamente ajustando as paragens que fazem e os tempos de alimentação”, explica o investigador, mas avisa que esta flexibilidade só será vantajosa “durante mais umas décadas”, entre 18 e 28 anos, mais precisamente. Depois disso, adiantar as migrações, por si só, não será suficiente.

Isto, porque as aves precisam de estar bem alimentadas antes de percorrerem milhares de quilómetros até ao Ártico, e isso exige paragens ao longo do caminho para descansarem e recuperarem energias. Além disso, para partirem mais cedo e poderem coincidir a sua chegada com a de primaveras cada vez mais antecipadas, fruto das alterações climáticas, as aves precisam de alimentos de alta qualidade e condições favoráveis, o que nem sempre acontece.

Por isso, é possível que muitas aves acabem por chegar ao Ártico em más condições de saúde, o que poderá afetar a sua reprodução e, em última análise, o futuro das suas populações.

“Estas aves estão a mostrar uma adaptabilidade incrível”, refere Linssen. “Mas, em meados do século, elas precisarão de outras estratégias, como mudarem os seus locais de invernada ou alterarem completamente as rotas de migração, para conseguirem estar sincronizadas com a primavera ártica.”

sábado, 7 de março de 2026

Birds Aren’t Just Declining. They’re Declining Faster, a New Study Finds



Bird populations are in free fall across North America. And in some hotspots their decline is accelerating, a new study reveals.

Wild bird numbers declined at an accelerating rate in California, the Midwest and the Mid-Atlantic between 1987 and 2021. Across these hotspots, losses were associated with high-intensity agriculture, according to the study.

Although the study, published Feb. 26 in the journal Science, shows a correlation between declining bird populations and intense agriculture, it doesn't definitively prove that agriculture is driving the increased decline or identify which agricultural activities might be responsible.

However, signs of intense agricultural activity consistently proved to be the best predictor of increased bird decline, which mirrors similar research conducted in Europe. The researchers also found that declines were stronger in warming areas, suggesting that rising temperatures due to climate change were driving some bird disappearances.

Birds perform important roles in the ecosystem, including spreading plant seeds and keeping insect populations under control. For decades, scientists have been concerned that bird populations are falling due to human activities, both in North America and globally — a plight shared by many other animals. What's special about the new research is that it reveals how the decline in North America has accelerated since the late 1980s.

"We are not talking about the decline but the acceleration of the decline," study lead author François Leroy, a postdoctoral researcher in macroecology at The Ohio State University, told Live Science. "We see that this decline is getting faster and faster with the intensification of human activities."

Leroy and his colleagues mapped bird decline by studying data from the North American Breeding Bird Survey, which is an annual surveying effort by professional biologists and skilled amateurs to monitor bird populations across North America. As a part of the survey, participants walk along specific routes and record the birds they find.

The researchers focused on specific routes with enough data to measure the rate of decline over 35 years. These routes were primarily in the U.S. and included 261 bird species. Across all of the species surveyed, the overall abundance of birds fell by at least 15%, with significant drops documented in about half (122) of the species and accelerating declines reported in about a quarter (63) of the species. Common birds ‪—‬ like red-winged blackbirds (Agelaius phoeniceus), house finches (Haemorhous mexicanus) and American crows (Corvus brachyrhynchos) ‪—‬ were among the native species found to have suffered an accelerated decline.

The study focused on the rate of decline in specific routes, so it's unclear how many individual birds were lost across the entire continent during the study period. However, previous research has found that billions of birds have disappeared in recent decades.

A 2019 study published in the journal Science estimated that the North American bird population decreased by 2.9 billion individual birds between 1970 and 2017. That estimate equated to a drop of 29%, which is almost double the 15% decline documented in the new study. However, the 2019 study also covered an earlier and longer time period when there may have been more severe losses.
People only started surveying North American birds in the second half of the 20th century, but we've been killing them directly and indirectly for much longer than that. For example, commercial hunting by humans forced passenger pigeons (Ectopistes migratorius), a species estimated to have once had a population of 3 billion to 5 billion, to extinction in 1914.

What caused the "birdemic"?
The new study demonstrated that birds were incurring losses not just at the species level but across whole families of species and across different habitats. To better understand the worrying trend, the researchers compared the bird data to potential contributing factors, such as temperature change, rainfall and land-cover changes.

The acceleration of bird decline coincided with large areas of croplands and high usage of fertilizers and pesticides, which are signs of intense agriculture. This tracks with research in Europe that has found that agricultural intensification has negatively impacted bird diversity.

Intense agriculture can destroy, change and break up traditional bird habitat. The amount of land used for farming in the U.S. hasn't changed that much since the 1980s. Agriculture has become more consolidated in that time, with a decline in midsize farms and a shift to larger farming operations, but there's slightly less land being used for farming overall. Thus, the bird losses can't be blamed solely on the amount of farmland. However, they could be the result of changes in farming practices.

Leroy said that from the new study, it's not really possible to say which specific practice in agriculture is the worst for bird losses. However, he noted that from previously published studies, it seems like pesticide use is one of the main suspects.

A 2023 study published in the journal PNAS found that the use of pesticides and fertilizers was the key to agricultural intensification being the main pressure behind most bird population drops, particularly in birds that feed on invertebrates. Most disappearing bird species depend on insects for food, and insects are in steep decline as they are killed through the use of pesticides. Birds also consume pesticides directly.

Leroy said he would like to see what farmers think about the correlation between agricultural intensification and bird losses. He and his co-authors also noted in the study that agriculture warms landscapes by reducing the amount of vegetation and altering its properties, which may then amplify warming impacts on birds.

While the findings were mostly bad news for birds, there were some bright spots. For example, the researchers found some local increases in forest bird populations, which likely benefited from the reforesting of old farmland. There was also a small pocket of land just north of the U.S.-Canada border where the overall abundance of birds increased — the only region in which this occurred. However, Leroy said he had "no clue" why this was the case.

"It doesn't mean that Canada is doing better because if you look at other regions in Canada, there were also some significant declines," he added.

domingo, 1 de março de 2026

O esverdeamento global (global greening) está a deslocar-se para Nordeste

Para visualizar melhor aqui

Um novo estudo liderado pelo Centro Alemão de Investigação Biológica Integrativa (iDiv), pelo Centro Helmholtz de Investigação Ambiental e pela Universidade de Leipzig revelou que a "onda verde" da Terra — o indicador da saúde e atividade da vegetação — está a deslocar-se gradualmente para nordeste. 
Através de um método inovador que calcula o centro de massa da vegetação global, os cientistas conseguiram monitorizar como a densidade das folhas verdes se move pelo planeta ao longo das décadas. Para ilustrar o conceito, o autor principal, Miguel Mahecha, sugere imaginar um globo com pequenos pesos aplicados em cada ponto onde existe vegetação; ao colocar esse globo na água, o centro de massa apontaria sempre para baixo, permitindo seguir a sua oscilação.
Utilizando observações de satélite e modelos de dados, a equipa descobriu que este "centro verde" oscila anualmente entre a Islândia, em meados de julho, e a costa da Libéria, em março, seguindo o ritmo das estações. 
No entanto, a análise de longo prazo revelou uma tendência preocupante e inesperada: um desvio consistente para norte em todas as estações do ano. Ao contrário do que previam, os investigadores não observaram um desvio compensatório para sul durante o verão do Hemisfério Sul. Esta mudança parece ser impulsionada por invernos mais amenos e épocas de crescimento mais longas no Hemisfério Norte, que permitem que a vegetação permaneça verde por períodos mais extensos.
Além do movimento para norte, o estudo identificou uma deslocação nítida para leste, fenómeno que os especialistas associam a focos de esverdeamento intenso em regiões como a Índia, a China e a Rússia. Este processo de "esverdeamento global" é amplamente influenciado pela atividade humana, uma vez que o aumento do CO2 atmosférico funciona como um fertilizante que potencia a fotossíntese, enquanto a subida das temperaturas altera os ciclos biológicos. Este novo método de monitorização oferece agora uma ferramenta crucial para compreender como a superfície viva do planeta se está a reorganizar face ao aquecimento global, ligando fatores como a migração animal, a dinâmica de incêndios e as interações entre a biosfera e o clima.
Este novo método de monitorização funciona como um termómetro visual da saúde do planeta, mostrando que a Terra não está apenas a aquecer, está a transformar-se fisicamente.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

França e Países Francófonos - um golpe que explora a transição energética

Dezenas de milhares de lâmpadas para iluminar caminhos agrícolas, plantações, trilhos ou jardins privados, distribuídas gratuitamente graças ao dinheiro da transição energética. O sistema dos Certificados de Economia de Energia está no centro de um (novo) enorme desperdício e de uma vasta fraude, que se tornou cada vez mais visível nos últimos meses em França  e países francófonos. Destaca-se a poluição luminosa que interfere na migração das aves e desorientam os insectos. Esta é mais uma operação de lavagem verde de grandes empresas petrolíferas francesas, como TotalEnergies e Esso, assim como a própria EDF e Engie.  

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Desconstruindo a ideia de "povo lusitano", ou "povo português luso" em detrimento dos "imigrantes".

Zigurate em Ur (moderno Tall al-Muqayyar, Iraque).

Quando a civilização suméria florescia na Mesopotâmia (aproximadamente entre 5.500 e 2.000 a.C.), a Península Ibérica também já era habitada — mas por povos pré-históricos que se encontravam na transição entre o Neolítico e a Idade do Bronze.
A Mesopotâmia foi uma região localizada entre os rios Tigre e Eufrates. Atualmente, corresponde aos territórios do Iraque, Irão e Jordânia, no Médio Oriente. O termo mesopotâmia tem origem grega e significa “terra entre rios”, uma referência à sua localização geográfica. Os povos que habitaram a região foram os babilónicos, assírios, sumérios e acádios. Os persas derrotaram os acádios em 539 a.C., encerrando o apogeu dos povos mesopotâmicos. A astronomia e a arquitetura são alguns legados culturais deixados pelos povos que habitaram a Mesopotâmia.

𝗘 𝗾𝘂𝗮𝗻𝘁𝗼 à 𝗣𝗼𝗿𝘁𝘂𝗴𝗮𝗹𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲? 𝗡ã𝗼 𝗲𝘅𝗶𝘀𝘁𝗶𝗮. É𝗿𝗮𝗺𝗼𝘀 𝗽𝗼𝘃𝗼𝘀 𝗶𝗯é𝗿𝗶𝗰𝗼𝘀 𝐞... 𝐢𝐦𝐢𝐠𝐫𝐚𝐧𝐭𝐞𝐬.
Muitos milénios depois dos mesopotâmicos. Aqui vai um resumo claro do que se passava na Península Ibérica nessa altura:

1. Neolítico Final e Calcolítico (c. 3500–2200 a.C.)
As comunidades eram agrícolas e pastoris, com uso de ferramentas de pedra polida e cerâmica.
Começavam a formar-se aldeias permanentes e havia cultivo de cereais, criação de gado e tecelagem.
Surgiam monumentos megalíticos (como antas e dólmens) usados para sepulturas coletivas e rituais.
No sul da Península (especialmente no atual Alentejo, Andaluzia e região de Los Millares), aparecem as primeiras metalurgias do cobre — daí o termo Calcolítico (ou Idade do Cobre).
2. Início da Idade do Bronze (c. 2200–1500 a.C.)
Desenvolve-se a metalurgia do bronze (liga de cobre e estanho).
Surgem sociedades mais hierarquizadas, com chefes locais e fortificações.
O famoso sítio arqueológico de Los Millares (Almería, Espanha) é um dos melhores exemplos dessa época.
Mais tarde, o povo de El Argar (também no sudeste ibérico) representa uma cultura avançada com estruturas sociais complexas e trocas comerciais.
Resumindo: Os primeiros povos que habitaram a Península Ibérica foram os iberos e os celtas, que mais tarde se fundiram nos celtiberos. Os iberos eram oriundos de África e estabeleceram-se na região, enquanto os celtas chegaram da Europa Central, trazendo consigo novas técnicas, como a metalurgia do ouro e ferro.

Anta de Zedes

𝐄 𝐨𝐬 𝐋𝐮𝐬𝐢𝐭𝐚𝐧𝐨𝐬? 𝐍ã𝐨 𝐞𝐫𝐚𝐦 𝐨𝐬 ú𝐧𝐢𝐜𝐨𝐬 𝐩𝐨𝐯𝐨𝐬 𝐞𝐦 𝐏𝐨𝐫𝐭𝐮𝐠𝐚𝐥 𝐚𝐜𝐭𝐮𝐚𝐥
Os Lusitanos foram um dos povos indo-europeu ou pré-celta, formados entre 800 e 600 a.C., que ocuparam a região do Douro e Tejo, sem escrita própria, de organização tribal e rural.
Além dos Lusitanos, também tinham uma implantação muito importante os Túrdulos, Célticos, Cónios, Galaicos (ou calaicos), Gróvios, e Vetões, entre outros que continuam a ser objeto de estudo conforme se realizam descobertas arqueológicas

𝐄 𝐭𝐨𝐝𝐨𝐬 𝐞𝐬𝐬𝐞𝐬 𝐩𝐨𝐯𝐨𝐬 𝐞 𝐭𝐫𝐢𝐛𝐨𝐬 𝐞𝐦 𝐏𝐨𝐫𝐭𝐮𝐠𝐚𝐥, 𝐪𝐮𝐞𝐦 𝐞𝐫𝐚𝐦 𝐛𝐢𝐨𝐥ó𝐠𝐢𝐜𝐚𝐦𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐟𝐚𝐥𝐚𝐧𝐝𝐨?
Eram Homo sapiens, como nós — descendentes das populações que chegaram à Península após o fim da última glaciação (c. 10.000 a.C.).
No entanto, a forma mais segura de averiguar se nós, os humanos modernos, temos ou não antepassados neandertais era sequenciar o genoma destes últimos. Tal conquista, que parecia impossível, foi realizada pelo cientista sueco Svante Pääbo e valeu-lhe o Prémio Nobel em 2022. Sabemos agora que muitos seres humanos transportam – ou transportamos – uma pequena percentagem de genes neandertais nas células. Portanto, há 40 mil ou 45 mil anos, vieram ao mundo crianças mestiças, que teriam pai neandertal e mãe sapiens, ou vice-versa.

Saber mais:

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

A Estafeta da Existência: O Legado Multigeracional da vanessa-dos-cardos (Vanessa cardui)


O conceito de migração animal evoca frequentemente a imagem de um indivíduo que parte de um ponto A para um ponto B. No entanto, a borboleta-dos-cardos (Vanessa cardui) subverte esta noção, apresentando um modelo de sobrevivência onde o destino não pertence ao indivíduo, mas à linhagem. Este sistema de migração multigeracional é um dos exemplos mais sofisticados de resiliência biológica na natureza.

Presente na América do Norte, Europa, África e Ásia, esta é uma borboleta grande, com uma envergadura de asas que pode chegar aos sete centímetros. O nome científico, Vanessa cardui, inspira-se nos cardos em que as lagartas gostam de se alimentar (embora também se alimentem de outras plantas).

Há uma década, os cientistas sabiam que a bela-dama desaparece da Europa no outono e acreditava-se que migraria para o norte de África. “Eu não acreditava nisso, pois estas regiões são muito frias no inverno e sabemos que esta borboleta não sobrevive ao frio. Como não entra em diapausa, precisa de continuar a mexer-se”, recorda Talavera. Além do mais, no Magrebe havia poucos registos da espécie para esta altura do ano.

E se a resposta estivesse na travessia do Saara, o maior deserto de areia do mundo? “Havia uma pequena hipótese, mas ninguém acreditava que a grande maioria destas borboletas pudesse atravessar o deserto”, reconhece. “Foi uma grande aposta.”

Já há provas científicas de que a Vanessa cardui, conhecida popularmente como bela-dama, consegue atravessar o Oceano Atlântico num único voo ininterrupto. O mistério começou a ser desvendado em outubro de 2013, quando o investigador Gerard Talavera encontrou vários exemplares desta borboleta numa praia da Guiana Francesa. A espécie não é nativa da América do Sul e os indivíduos apresentavam um estado de grande exaustão, com as asas extremamente desgastadas.

Posteriormente, um estudo científico internacional publicado na revista Nature Communications confirmou a origem da travessia. Através do estudo de isótopos estáveis nas asas, do sequenciamento genético e do estudo do pólen transportado no corpo das borboletas - originário de plantas da África Ocidental -, os cientistas comprovaram que aquele grupo tinha nascido na Europa e iniciado o voo transatlântico a partir da costa do Oeste Africano.

A viagem cobriu uma distância de pelo menos 4.200 quilómetros sobre o mar aberto ao longo de cerca de 5 a 8 dias. Como os insetos não podiam aterrar na água para descansar ou alimentar-se, a travessia só foi fisicamente possível graças ao aproveitamento dos ventos Alísios, correntes de ar favoráveis que sopram da África para as Américas e que impulsionaram o voo, permitindo-lhes economizar energia até chegarem ao continente americano. Este registo é considerado uma das maiores jornadas transoceânicas documentadas num inseto.

A Continuidade através da Brevidade
A característica mais marcante da V. cardui é a sua capacidade de completar um circuito migratório que ultrapassa os 12.000 km, uma distância impossível de cobrir durante o seu ciclo de vida de apenas poucas semanas. O segredo reside na fragmentação do percurso: o que observamos como um movimento migratório único é, na verdade, uma sucessão de até seis gerações que funcionam como uma estafeta biológica.

Mecanismos de Orientação e Genética
A questão que intriga a ciência é como uma borboleta, nascida no norte da Europa, "sabe" que deve voar para o Sul no outono, sem nunca ter feito o percurso ou tido contacto com as gerações anteriores. Estudos indicam que estas borboletas utilizam uma bússola solar compensada pelo tempo, integrada com a perceção do campo magnético terrestre. Esta informação não é aprendida; é uma herança genética codificada.

Resiliência Ecológica
Ao contrário de outras espécies especialistas, a borboleta-dos-cardos é uma generalista oportunista. A sua capacidade de se alimentar de uma vasta gama de plantas (especialmente cardos e malvas) permite-lhe atravessar desertos e cadeias montanhosas, adaptando-se a diferentes ecossistemas à medida que a sua linhagem avança pelo globo.

Para saber mais:

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Chaves para atrair os nossos jovens talentos, mantê-los no nosso País e outros a regressar Portugal

Portugal precisa acreditar mais no potencial empreendedor dos jovens. A falta de espírito empreendedor mata a inovação, a geração de empregos, a capacidade enriquecimento da população como um todo. Enfim, a solução não está no Estado, mas nas pessoas.


O empresário tem que trabalhar para tornar a sua empresa num ambiente amigável, motivador e positivo para todos os seus empregados. E tenha em mente as chaves que atraem e satisfazem especialmente a Geração Z e Millennials. Reuni o plano de ação em dez áreas muito práticas.
1. Assegurar horários de trabalho flexíveis
Os jovens de hoje não compartimentam as suas vidas, eles vivem-nas como um todo. É por isso que os horários fixos os estão a restringir e a repelir. Têm de se sentir no controlo do seu tempo e definir o seu dia de trabalho de acordo com as suas necessidades e circunstâncias pessoais. Isto permite-lhes conciliar o trabalho com a sua vida privada, satisfazer o seu desejo de outras experiências fora do trabalho e sentir-se muito mais felizes no dia-a-dia. Como resultado, a sua motivação e empenho são melhorados. Sempre que possível, não tente restringir as suas almas livres ou deixarão de ser criativos, produtivos e envolvidos.

2. Apostar no teletrabalho
O tempo é mais do que dinheiro para eles. Consideram-no o seu bem mais precioso. Eles não estão dispostos a perdê-lo ou desperdiçá-lo. Também o sabe, a deslocação pendular – especialmente em algumas grandes cidades – é um ladrão de tempo e experiência. É por isso que preferem evitá-los e trabalhar a partir de casa sempre que possível. Acolhem bem as fórmulas híbridas, mas não estão dispostos a abdicar desses momentos únicos por uma mera rotina. Portanto, o teletrabalho é um bem inquestionável para eles. Preferem ir fisicamente à empresa apenas em caso de necessidade. A sua empresa está preparada para satisfazer esta procura fundamental para atrair jovens talentos?

3. Oferecer numerosas oportunidades pessoais
Eles querem crescer, desenvolver-se e evoluir, e estão conscientes disso diariamente. Assim, a sua organização deve tornar-se uma fonte permanente de novas possibilidades de crescimento e desenvolvimento. É um fator de diferenciação fundamental quando escolhem uma empresa em detrimento de outra. O conformismo é alheio à sua natureza. Eles querem melhorar como profissionais enquanto fazem o seu trabalho.

4. Pagar uma remuneração justa e necessária
Todos nós trabalhamos para ganhar dinheiro. No entanto, a vida dos jovens de hoje não gira apenas em torno do trabalho. Trata-se de uma mudança de atitude muito clara e inegável. É por isso que não estão satisfeitos com um salário que lhes permita satisfazer as suas necessidades básicas. Eles também querem viajar, divertir-se, conhecer pessoas interessantes, socializar e ser felizes. Não é surpreendente, portanto, o facto de termos mencionado alguns parágrafos atrás: a maioria deles está a planear mudar de emprego dentro de dois anos. E a melhoria do seu salário é uma das principais razões.

5. Praticar a remuneração emocional
No entanto, a secção anterior não é apenas económica. Estes profissionais também valorizam muito outros complementos não monetários para a sua remuneração. Por exemplo, são estimulados por seguros médicos, descontos em ginásios, lojas ou infantários, viagens gratuitas…

6. Ser uma referência para a inclusão, diversidade e tolerância
Se não partilharem a essência da empresa, desistirão dela. Aspetos como a tolerância, diversidade e inclusão são pilares da sua existência e da sua forma de pensar. Não toleram a desigualdade e a injustiça, e não perdoam aos seus empregadores por isso. Exigem que todas as pessoas tenham igualdade de oportunidades na sua empresa. Independentemente da sua origem, etnia, sexo, idade e preferência sexual.

7. Proporcionar formação inovadora e personalizada
Lembre-se desta ideia: eles querem melhorar, desenvolver-se e crescer como um todo. Eles precisam de aprender coisas novas. Se eles sentirem que isto não está a acontecer, os jovens abandonarão a empresa. Por isso, implementar uma estratégia global para estimular e reforçar o talento. A formação mais recente tem de ser uma parte regular do seu trabalho. Deve ser adaptado às características específicas de cada empregado.

8. Gerar contactos e networking
De volta à órbita do desenvolvimento profissional, todos nós sabemos que a nossa rede de contactos é essencial. Os jovens também estão cientes disto. Encontrar pessoas importantes, esfregar ombros com referências sectoriais, ter líderes estimulantes e aproveitar as sinergias derivadas é muito estimulante e atrativo para estes profissionais. Não hesite em encorajar este clima de inter-relação e facilitar estes contactos.

9. Criar e consolidar um ambiente de trabalho positivo
Os jovens de hoje são sociais, solidários e de espírito aberto por natureza. E, não se esqueçam, são experienciais e hedonistas. Se não se sentirem à vontade com o ambiente e a relação com os colegas, despedir-se-ão do trabalho. Deve fomentar uma cultura de empresa baseada na colaboração, comunicação, tratamento impecável e um bom ambiente. A interfuncionalidade, a escuta empática e a preocupação sincera com as pessoas são valores essenciais para recrutar este talento e mantê-los à vontade.

10. Recrutar os melhores
O recrutamento de jovens talentos alimenta-se a si próprio. Se contratar trabalhadores brilhantes – zetas ou milenares – e os fizer sentir-se bem, eles atrairão os seus pares. Há muitas empresas com um espírito jovem, atual, renovado, empenhado e motivador para este segmento da força de trabalho. Todos eles têm uma equipa humana que é uma referência, facilitadora e admirável para os jovens de hoje.

É o primeiro passo: recrutar os melhores. Então a sua organização deve acolhê-los, acompanhá-los, motivá-los, estimulá-los e encorajá-los a atuar no seu melhor. Quando se trata de jovens talentos, a questão é ainda mais exigente. Porque este sector da população é muito mais fiel às suas expectativas, critérios e desejos do que os seus anciãos. Se quiser continuar a beneficiar deles, tem de os fazer sentir realizados, reconhecidos e altamente valorizados. Além disso, é preciso contribuir para os tornar mais felizes.

terça-feira, 17 de junho de 2025

HOJE - 17 de Junho é o Dia da Desertificação e da Seca, criado pela ONU em 1994


Para aumentar “a consciencialização e promover soluções para a desertificação, degradação da terra e seca”. Em Portugal a desertificação avança mas o Núcleo Regional de Combate à Desertificação do Centro, coordenado pelo ICNF, está inactivo. 

“Mais de metade do PIB global depende de ecossistemas saudáveis. No entanto, todos os anos, uma área do tamanho do Egipto é degradada, provocando a perda de biodiversidade, aumentando o risco de seca e deslocando as comunidades. Os efeitos colaterais são globais - desde o aumento dos preços dos alimentos à instabilidade e à migração". [Fonte]

Neste ano, o lema das Nações Unidas é “Restaurar a Terra. Desbloquear as Oportunidades”.

segunda-feira, 16 de junho de 2025

Consenso Imigração



A polarização e fratura que o tema da imigração tem provocado na sociedade portuguesa precisa de ser revertido. Precisamos de encontrar o "caminho do meio", uma abordagem equilibrada, capaz de mobilizar um consenso alargado, de uma política de imigração humanista e realista.

É necessário deixarmo-nos de agredir mutuamente e, pior ainda, de usar os imigrantes para o combate politico-partidário. Haverá caminhos para nos unirmos no essencial e para dialogar sobre as diferenças de perspetivas e negociar pontos de convergência. Esta iniciativa que mobiliza várias pessoas, no seu núcleo fundador, entre os quais os últimos 4 Altos-comissários para a Imigração, irá fazer o seu caminho e procurará ser parte da solução.

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Carta de Princípios do “Consenso Imigração”

Num tempo marcado por discursos de medo, de simplificações e generalizações perigosas e de crescente polarização em torno do fenómeno migratório, afirmamos a necessidade urgente de construir um espaço de pensamento, diálogo e propostas que recupere o valor do consenso informado, da dignidade humana e da convivência intercultural.
Portugal, além de ser historicamente um país incontornavelmente ligado a dinâmicas migratórias de entrada e de saída, enfrenta hoje uma crise demográfica com acentuado envelhecimento da população e necessidades de mão de obra cruciais para o contínuo desenvolvimento da nossa economia e desenvolvimento social.

O “Consenso Imigração” nasce como um espaço de reflexão da sociedade civil, enquanto expressão plural e independente, reunindo pessoas e instituições, a partir de uma significativa diversidade política e ideológica, comprometidas com uma visão positiva, realista e humana da imigração em Portugal — uma visão que reconhece os desafios, mas não ignora os contributos, as histórias e o potencial transformador da diversidade para a criação de uma comunidade com futuro.
Esta Carta de Princípios orienta o nosso trabalho coletivo.

1.⁠ ⁠Dignidade Humana como fundamento
Afirmamos o respeito pelo princípio de direitos humanos universais e da dignidade de todas as pessoas, independentemente da sua origem, nacionalidade, religião, nível socioeconómico, características étnico-raciais ou estatuto migratório. Recusamos a instrumentalização da imigração para fins políticos ou eleitorais.

2.⁠ ⁠Conhecimento rigoroso como base para a ação
Defendemos que o debate público sobre imigração deve assentar em dados fiáveis, investigação científica e análise crítica. Combater a desinformação, em todas as esferas, seja nas redes sociais, na comunicação social ou na interação direta com as comunidades é um imperativo ético e democrático.

3.⁠ ⁠Combate à polarização e compromisso com o diálogo e o consenso
Assumimos o compromisso de promover o diálogo construtivo, ouvindo diferentes perspectivas e rejeitando a lógica dos extremos. O consenso não é ausência de debate — é a procura honesta de pontos comuns para soluções sustentadas.

4.⁠ ⁠Valorização da contribuição dos Migrantes
Reconhecemos e tornamos visíveis os contributos sociais, económicos e culturais das pessoas migrantes para o desenvolvimento do país. A imigração legal, se bem gerida nos seus fluxos e devidamente integrada, não é uma ameaça — é uma oportunidade de desenvolvimento para o país, que exige políticas públicas justas, realistas e inclusivas.

5. Encontrar respostas para as preocupações da sociedade de acolhimento
Compreendemos que, em momentos de crescimento rápido do número de imigrantes, podem emergir incertezas e receios. Integramos e respeitamos esse sentimento. Dialogaremos para a procura de soluções que, no quadro do respeito pela lei e pela dignidade humana, promovam um bem-estar comum, gerador de tranquilidade e um sentimento de fraternidade e de diálogo entre todos, autóctones e imigrantes.

6. Recusa da generalização e da culpabilização coletiva
Comportamentos incorretos ou ilegais podem existir em qualquer grupo social - autóctones ou imigrantes, crentes ou não-crentes, caucasianos ou negros, pessoas de direita ou de esquerda, pobres ou ricos. Porém, isso não pode culpabilizar, nem caracterizar todo um grupo por alguma ação de um indivíduo.
Recusamos a estigmatização coletiva. Não se pode confundir a árvore com a floresta.

7. Compromisso com a coesão social e a inclusão, sem discriminação.
Defendemos a convivência baseada no respeito mútuo entre pessoas de diferentes origens e culturas, combatendo todas as formas de racismo, xenofobia, aporofobia e exclusão. A integração é um processo bidirecional que exige responsabilidade individual e coletiva.

8. Responsabilidade partilhada e Governança colaborativa
Entendemos que as questões migratórias são um desafio nacional e europeu, que exigem uma resposta articulada entre o Estado, as autarquias, o setor empresarial, a sociedade civil e as comunidades migrantes. Neste contexto, sublinhamos o papel da sociedade civil organizada, com a participação ativa e ampla dos cidadãos, como contributo relevante e urgente. Ninguém está dispensado desta responsabilidade. Cada tem um papel a desempenhar na construção das soluções necessárias.

9 . Esperança como horizonte político
Recusamos a política do medo e do ressentimento. Escolhemos a esperança como horizonte para pensar e construir um país mais justo, inclusivo e preparado para os desafios do século XXI, em que se constrói, todos os dias, o futuro que desejamos.
Assumimos estes princípios como guia para as nossas intervenções públicas, investigações, propostas e parcerias. O “Consenso Imigração” está aberto à participação de pessoas e entidades que partilhem esta visão e desejem contribuir para um debate mais responsável e construtivo sobre imigração em Portugal.

Lisboa, 16 de Junho de 2025

Catarina Marcelino (ex-Sec. Estado da Igualdade)
Catarina Reis Oliveira (ex-Coordenadora do Observatório das Migrações)
Eugénia Quaresma (Dir. Obra Católica Portuguesa das Migrações)
Francisca Assis Teixeira (ex-Diretora Centro Nacional de Apoio ao Imigrante)
Lucinda Fonseca (Professora universitária, Especialista em Migrações)
Paulo Mendes (ex-Presidente da AIPA – Associação Imigrantes dos Açores)
Pedro Calado (Ex-Alto-Comissário para as Migrações)
Rosário Farmhouse (ex-Alta-Comissária para a Imigração e Diálogo Intercultural)
Rui Marques (ex-Alto-Comissário para a Imigração e Diálogo Intercultural)
Sónia Pereira (ex- Alta Comissária para as Migrações)

terça-feira, 27 de maio de 2025

A migração espectacular de um falcão fêmea


Um falcão fêmea equipada com um rastreador GPS, fez uma jornada da África do Sul até a Finlândia, percorrendo cerca de 230 km por dia.
Ela voou em linha reta pelas terras africanas até chegar ao deserto no norte, depois seguiu o caminho do Rio Nilo pelo Sudão e Egito e evitou sobrevoar o Mar Mediterrâneo.
Ela cruzou a Síria e o Líbano e também evitou sobrevoar o Mar Negro, pois se tivesse sede, não poderia beber dele.
Ela continuou em linha reta e chegou à Finlândia depois de 42 dias.

domingo, 25 de maio de 2025

Papa Francisco disse


“Rejeitar um migrante em dificuldade, qualquer que seja a sua crença religiosa, por medo de diluir a cultura ‘cristã’ é distorcer o que é o cristianismo e a cultura."

sábado, 24 de maio de 2025

Fabrício Carpinejar na despedida de Sebastião Salgado


Os olhos azuis oceânicos, debaixo de tufos de sobrancelhas grisalhas, quase ruivas, caracterizavam a lente humana mais majestosa e universal que já existiu na fotografia mundial.
O mineiro de Aimorés, Sebastião Salgado, fez o mundo piscar de modo distinto depois de suas pálpebras.
Ele se despede, aos 81 anos, com um trabalho documental que conseguiu a proeza de ser, ao mesmo tempo, transgressor e clássico.
Trouxe à fotografia o projeto coletivo dos murais de Candido Portinari.
Na essência, era um Caravaggio da gelatina de prata, do papel fotográfico, mestre do claro-escuro, instaurando o barroco na captação crua das cenas.
Assim como em Caravaggio, a luz recai sobre os invisíveis — os pobres, os errantes, os exilados — com uma expressividade humanista e dramática.
Sua única professora foi a realidade, com seus contrastes e exuberâncias, suas misérias e rostos impregnados de compaixão. Formado em Economia, mas autodidata na arte, começou a fotografar em 1973, aos 29 anos, misturando-se em unha e carne aos seus fotografados.
Seu olhar não era de fora, mas de dentro. Não agia como um observador distante, que clica e desaparece. Daí a explicação para seus registos íntimos, como se fossem autorretratos dos excluídos. Sua aflição existencial tornou-se sua estética. Não explorava o outro, fundia-se ao outro. Não se resumia a um fantasma entre os vivos, e sim a um vivo que mandava notícias do reino dos fantasmas da sociedade.
Abordou as migrações, a dizimação dos povos originários, a devastação das florestas, o colapso climático, a escalada desenfreada do processo industrial.
Não procurava apontar as diferenças folclóricas entre as mais remotas culturas, mas identificar o que havia de comum entre todas elas: a dignidade apesar da desolação.
Ele converteu as cores gritantes da dor na suavidade bíblica do preto e branco. Denunciou o apocalipse e a extinção da nossa espécie pela ganância.
Percorreu mais de 130 países, criando exposições que marcaram a história: Trabalhadores, Gênesis e Êxodos.
Deixa para nós os seus olhos pesados de lágrimas. Sangue de nosso sangue, água de nossas águas.

sexta-feira, 16 de maio de 2025

No dia 18 de maio, o teu voto dita a forma e o conteúdo da nossa atuação no mundo


Mas porque é que a atuação de Portugal no estrangeiro é pessoal e está relacionada com o voto individual nas legislativas?
Há três razões fundamentais pelas quais a política externa deve importar no momento de votar, e cada uma delas ajuda a perceber como esta área governativa, tantas vezes invisível no debate público, tem impacto direto na nossa vida coletiva.

1. Porque define o que Portugal defende ou tolera em teu nome
Quando um país apresenta uma resolução ou decide como votar; quando silencia ou denuncia violações dos direitos humanos; e quando investe ou reduz as suas relações com países antidemocráticos, está essencialmente a falar em teu nome no palco mundial.

A diplomacia tem ao seu dispor várias ferramentas para comunicar os valores e as prioridades que o país define, e esse enquadramento diz mais sobre nós, como indivíduos e como país, do que imaginamos. Se nem tudo na política externa se altera consoante um governo mais à esquerda ou mais à direita, existem exemplos concretos do tipo de atuação externa que pode variar consoante os ciclos eleitorais: Há dois anos, Portugal associou-se à Comissão Europeia numa ação contra a Hungria por alegada violação dos valores fundamentais da União Europeia. Outras questões que podem oscilar incluem o Estado de Direito, as fronteiras e as migrações, o comércio e o investimento em defesa.

2. Porque molda o mundo em que vais viver — e deixar às próximas gerações
São exemplos disto as alterações climáticas, as sanções, a resposta às guerras, os fluxos migratórios, as novas pandemias — todos estes desafios resultam e são afetados pelas decisões externas do país, em estrita colaboração ou retaliação face a outros movimentos internacionais.

Ora, os partidos políticos não atribuem o mesmo valor e prioridade nem aos pilares da política externa em si, nem às soluções que se propõem apresentar. A falta de ambição ou de coerência na ação externa hoje pode significar instabilidade e insegurança amanhã.

3. Porque tens o direito e o dever de influenciar a nossa posição internacional
A política externa é política, e a política é feita de escolhas. Isto não acontece num vácuo — o comportamento dos Estados além fronteiras é, regra geral, uma extensão dos interesses, dos valores e, muitas vezes, das dinâmicas e prioridades eleitorais domésticas. A política externa é moldada por quem está no poder e por como esse poder interpreta o mundo e o papel que o país deve ter nele.

A política externa não é só para diplomatas. É feita por quem elegemos. Logo, é tua também.

sexta-feira, 11 de abril de 2025

Ana Deus - 62 anos


A regra não nos carrega
Nem faz de nós exceções
Terra cega
Terra em transe
Somos a ruga no mapa
O vento fora do rumo
A fuga fora da rota
O vento fora do rumo

As mãos apalpam o céu
E crescem asas nos pés
De lés a lés
Caminhantes
Ó vida que se semeia
Todos nascemos migrantes
Todos nascemos migrantes

As mãos apalpam o céu
E crescem asas nos pés
De lés a lés
Caminhantes
Ó vida que se semeia
Todos nascemos migrantes (3x)

Há quem tenha mеsa farta
Onde a penúria não mata
Mar bravio
Mar macabro
Debaixo do mеsmo sol
Somos filhos da tormenta
Bastardos em fraca barca
Com o vento fora do rumo

Terra cega, terra em transe
Somos a ruga no mapa
O vento fora do rumo
Fuga fora da rota
Vento fora do rumo
Fuga fora da rota
Vento fora do rumo
Fuga fora da rota
O vento fora do rumo
Fuga fora da rota
Fuga fora da rota

A vida que se semeia

As mãos apalpam o céu
E crescem asas nos pés
De lés a lés
Caminhantes
Ó vida que se semeia
Todos nascemos migrantes (3x)

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

As ilhas do Porto


As ilhas do Porto eram um tipo de habitação operária muito diferente do de outras cidades industriais, como Lisboa, onde existem os pátios, ou as cidades industriais europeias. Surgiram inicialmente na zona oriental da cidade, mas rapidamente se estenderam ao centro e aos concelhos limítrofes.
Para o aparecimento das ilhas acredita-se que tenha contribuído a grande influência inglesa na cidade. O esquema das ilhas é frequentemente associado às primeiras back-to-back houses em Leeds, quer em termos de morfologia, de promotores e em termos de intuito de construção.
A origem das ilhas é desconhecida sendo certo que no século XVIII já eram relatadas casas a que se chamava de ilhas.
Em inquirições de D. Afonso IV (1291-1357) fazem-se referência também a conjuntos de habitações com apenas uma saída para a rua.
Foi, no entanto, no final do século XIX, com o desenvolvimento industrial da cidade, e com a chegada de muitos migrantes das terras do norte do país, que este tipo de habitação se massificou.
Somente na freguesia de Campanhã houve 243 " ilhas". Ainda restam cerca de oito mil casas dos antigos bairros operários portuenses embora apenas pouco mais da metade ainda sejam habitadas.
Fontes: Viva! Porto, Domus Social, Cargo, Wikipédia.

sexta-feira, 24 de maio de 2024

Alterações climáticas colocam em risco a dieta das baleias


Um novo estudo conduzido pela Universidade Griffith prevê que as alterações climáticas futuras poderão perturbar a dieta rica em krill que as baleias jubarte do hemisfério sul consomem.

Jasmin Groß, que conduziu o estudo como candidata a doutoramento no Centro de Saúde Planetária e Segurança Alimentar da Griffith, analisou ácidos gordos e isótopos estáveis de amostras de gordura e pele de cinco populações diferentes de baleias jubarte do hemisfério sul.

Estes níveis foram depois comparados com os da sua presa principal, o krill do Antártico.

A equipa descobriu que, embora existissem diferenças distintas nos perfis bioquímicos, a dieta de todas as populações de baleias jubarte testadas era o krill do Antártico, que proporciona uma dieta com elevado teor de gordura, ideal para o estilo de vida migratório destas populações, afirmou Groß.

“O estilo de vida migratório das baleias jubarte requer uma produtividade previsível do ecossistema e, por isso, podemos esperar que as populações que se alimentam em áreas sujeitas aos impactos mais fortes das alterações climáticas tenham mais probabilidades de mostrar os primeiros sinais de um afastamento da sua dieta de krill de alta qualidade”, afirmou.

“Atualmente, não há provas de um afastamento de uma dieta de krill de alta qualidade, mas o sinal isotópico caraterístico que descobrimos nas baleias que se alimentam em áreas produtivas de ressurgência ou na zona marginal de gelo marinho implica que futuras reduções na extensão e duração do gelo marinho e o aumento da temperatura do oceano podem afetar sua ecologia alimentar”, acrescentou.

Biópsias de pele e gordura de baleia jubarte foram coletadas em agosto e setembro de 2019 em ou perto das respetivas áreas de reprodução no Brasil, Austrália Ocidental e Oriental, Nova Caledônia e Colômbia.

As amostras de krill foram recolhidas em zonas de alimentação a bordo de três navios diferentes entre janeiro e março de 2019.

Groß afirmou que a importância deste estudo, ao confirmar que cada população seguiu uma dieta de krill antártico de elevada fiabilidade, pode ser utilizada como conhecimento de base para avaliar a extensão dos impactos das alterações climáticas nas zonas de alimentação em estudos futuros.

O estudo “No distinct local cuisines among humpback whales: A population diet comparison in the Southern Hemisphere” foi publicado na revista Science of the Total Environment.