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domingo, 22 de março de 2026

«Manipulação climática»: gigantes dos combustíveis fósseis abandonam metas de neutralidade carbónica


Nova análise alerta que algumas das maiores petrolíferas mundiais entraram numa fase de manipulação para aumentarem os lucros

As grandes petrolíferas são acusadas de estarem a “abandonar discretamente” as suas promessas climáticas para justificarem a continuação do uso de combustíveis fósseis poluentes.

Uma nova investigação da Clean Creatives, um projeto para profissionais de relações públicas e publicidade conscientes do clima, acompanhou como as Big Oil têm vindo a mudar “de forma sistemática” a sua narrativa nos últimos quatro anos, apesar dos repetidos alertas sobre o aquecimento do planeta.

Intitulado Toxic Accounts: From Greenwashing to Gaslighting , o relatório analisa mais de 1.800 peças de campanha das gigantes dos combustíveis fósseis BP, Shell, ExxonMobil e Chevron entre 2020 e 2024.

Inclui anúncios pagos em redes sociais como o Facebook, YouTube, TikTok e Instagram, bem como spots de televisão, arquivos de bibliotecas, comunicados de imprensa, informação para investidores e discursos de executivos.

Grandes petrolíferas fazem “gaslighting” climático
No início do período analisado, as campanhas enfatizavam metas climáticas e compromissos com a transição para energia limpa, apresentando frequentemente as empresas como parceiras de transição.

No entanto, em 2023, a mensagem passou a apresentar cada vez mais o petróleo e o gás como “permanentes, indispensáveis e essenciais para a estabilidade económica e a segurança nacional”.

Em 2020, a BP passou da promessa de neutralidade carbónica e da retórica de “tornar as empresas mais verdes” para campanhas que, segundo a Clean Creatives, defendem a continuação da expansão do gás e do petróleo, ao mesmo tempo que recua nas suas ambições em matéria de energias renováveis.

A Chevron também abandonou o posicionamento “Human Energy” e passou para uma “mensagem nacionalista” que associa a produção interna de combustíveis fósseis à segurança económica e nacional, revela o relatório.

Investigadores alertam que, apesar das diferenças de tom, todas as grandes petrolíferas analisadas seguiram mudanças narrativas semelhantes, passando de se apresentarem como “parte da solução” para uma mensagem de “não podem viver sem nós”.

As campanhas passaram também a promover cada vez mais o gás natural liquefeito (GNL), a captura e armazenamento de carbono (CCS), o hidrogénio azul, os biocombustíveis e o gasóleo renovável como soluções climáticas, apesar de existirem provas de que estas tecnologias continuam a ser derivadas de combustíveis fósseis ou não estão comprovadas em larga escala.

“A velocidade com que as empresas passaram para mensagens centradas na segurança energética correlacionou-se com o seu desempenho financeiro”, lê-se no relatório.

“A Chevron e a ExxonMobil foram rápidas a orientar a sua mensagem para a predominância dos combustíveis fósseis e, como resultado, lideraram o mercado.”

O estudo concluiu também que a Shell, acusada no ano passado de minimizar o impacto climático dos combustíveis fósseis, deixou de se apresentar como líder da neutralidade carbónica para passar a destacar o GNL como mercado de crescimento a mais longo prazo.

Combustíveis fósseis mantêm-se “lucrativos” apesar da mudança de atitudes
“O ‘greenwashing’ assume agora uma nova forma”, afirma Nayantara Dutta, responsável pela investigação na Clean Creatives e autora principal do relatório.

“Em vez de fazerem afirmações falsas, as grandes petrolíferas promovem falsas soluções como a CCS e o gás natural, apesar de serem derivadas de combustíveis fósseis e de criarem uma dependência de longo prazo desses combustíveis.”

Dutta defende que as petrolíferas constroem uma narrativa que as mantém “lucrativas e no poder” perante uma oposição crescente.

A transição para longe dos combustíveis fósseis tornou-se um dos pontos de maior tensão na cimeira COP30 das Nações Unidas em Belém, no ano passado, apesar de não constar oficialmente da agenda.

Mais de 90 países, incluindo a Alemanha e os Países Baixos, apoiaram a ideia de um roteiro que permita a cada nação definir as suas próprias metas para avançar para a energia verde.

Apesar do apoio crescente a esta ideia, todas as referências aos combustíveis fósseis foram retiradas do acordo final nas últimas horas da cimeira. Isto significa que a esperança de um futuro sem combustíveis fósseis fica agora fora do âmbito das Nações Unidas.

Um relatório da Carbon Majors concluiu recentemente que 17 dos 20 maiores emissores em 2024 eram empresas controladas por países que vieram a bloquear o roteiro da COP30. Entre eles contam-se a Arábia Saudita, o Irão, o Qatar, a Índia, a Rússia e a China.

Irão: grandes petrolíferas e a guerra
“A transição do ‘greenwashing’ para a defesa da predominância da energia de origem fóssil é a mais recente reviravolta retórica na manipulação da opinião pública para aceitar as emissões de gases com efeito de estufa como apenas parte da atividade económica”, afirma Robert Brulle, sociólogo ambiental da Universidade Brown.

“Ao mesmo tempo, a guerra no Médio Oriente evidencia o erro da ideia de que os combustíveis fósseis proporcionam ‘segurança energética’.”

Vários especialistas têm usado a guerra contra o Irão para sublinhar a necessidade urgente de uma transição para a energia limpa, numa altura em que os preços do petróleo e do gás continuam a disparar.

A organização sem fins lucrativos 350.org apelou recentemente aos países do G7 para que apliquem um imposto sobre lucros extraordinários às grandes petrolíferas que, segundo a organização, estão a “lucrar” com a escalada do conflito no Médio Oriente.

Embora a guerra no Irão também tenha reforçado os apelos para que o Reino Unido abra novas licenças de perfuração no mar do Norte, uma análise da Universidade de Oxford concluiu que apostar nas energias renováveis é muito mais provável que faça baixar as faturas de energia das famílias.

“O que estamos a ver é a desinformação climática a evoluir em tempo real”, afirma Dana Schran, da coligação Climate Action Against Disinformation (CAAD).

“Em vez de negarem a crise, grandes petrolíferas como a BP e a Shell estão a reescrever a narrativa para que a expansão dos combustíveis fósseis pareça necessária e responsável. É um esforço sofisticado para proteger a influência política e os lucros, mesmo à medida que os impactos climáticos se agravam.”

Saber mais: 


segunda-feira, 14 de abril de 2025

Contra o abate de sobreiros em Condeixa-a-Nova



Porque não instalam estes projetos em solos pobres, impróprios para cultivo ? Em solos secos e degradados, como antigos povoamentos de eucalipto, abandonados? Isso sim até contribuiria para redução de risco de incêndios no Verão ! Ou em áreas ocupadas por várias espécies de plantas exóticas invasoras, como mimosas e acácias, que são cada vez mais extensas em Portugal devido ao êxodo e abandono rural?

Não faz qualquer sentido destruir áreas importantes do ponto de vista da biodiversidade, áreas que abrigam espécies de plantas e animais autóctones, cada vez mais ameaçadas, e de todos os benefícios que proporcionam às populações!

As Árvores VIVAS sustentam Vidas e RETIRAM CARBONO DA ATMOSFERA.
ESTAMOS NA PRIMAVERA, ÉPOCA DE REPRODUÇÃO DAS AVES E OUTRAS ESPÉCIES dependentes das árvores para alimento e abrigo, para ninhos! Onde está o ICNF, Instituto de de Conservação da Natureza e Florestas? Onde está a APA, Agência Portuguesa do Ambiente a defender a SAÚDE AMBIENTAL E SAÚDE HUMANA?

Nem os nossos avós, camponeses analfabetos, fariam semelhante coisa. Eles tinham SABEDORIA E AMOR À TERRA. JAMAIS FARIAM UM CORTE RASO DE TODO O SEU PATRIMÓNIO ARBÓREO!

Saberão os proprietários que hoje há medidas que podem permitir um rendimento do Estado por manterem as suas arvores VIVAS pelos benefícios prestados à comunidade ?
Já agora, qual o destino que estas empresas pretendem dar à madeira retirada dos terrenos despidos de vegetação?

Será que vai ser usada para mobiliário e outros bens de longa duração, que sequestram o carbono capturado em vida pelas árvores?

Ou será essa madeira encaminhada para queimar na forma de pellets na queima residencial urbana para aquecimento das casas no inverno, ou em caldeiras e centrais que queimam a madeira e libertam dióxido e monóxido de carbono entre dezenas de outros poluentes, como os compostos orgânicos voláteis, o carbono negro, a matéria particulada fina e ultrafina?

Não estaremos A AUMENTAR A EMISSÃO DE GASES COM EFEITO DE ESTUFA NA EUROPA E EM PORTUGAL com este tipo de transição? A. AGRAVAR O PROBLEMA DAS ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS E AQUECIMENTO GLOBAL?

Parece-me que estamos a fazer o oposto do que deve ser feito e a criar um sério risco de saúde pública, seja pelo impacte directo da destruição local do arvoredo, seja pela fomentação da queima de biomassa lenhosa noutros locais do país. O fumo da queima de madeira é altamente poluente, aumenta o risco de doenças respiratórias e cardíacas, diabetes, hipertensão , cancro e até demência, a longo prazo.
Substituir as melhores "máquinas" de captura de carbono que são os SERES VIVOS que fazem FOTOSSÍNTESE, como as árvores, arbustos e ervas, e a biomassa do solo por painéis solares com duração limitada levará à contaminação dos solos por plásticos, metais e possivelmente herbicida - isto em áreas saudáveis, ricas em espécies nativas de flora e fauna.
Isto faz algum sentido ?
É esta a forma correcta de gerar energia ?
É esta a energia VERDE" e "LIMPA"? que nos estão a vender ?
Queimam árvores para electricidade na indústria e nas centrais de biomassa isoladas. Queimam toneladas por ano na queima residencial urbana que arruína a qualidade do ar nas aldeias urbanizadas, nas vilas e cidades, por todo o país.
Queremos a Transição MAS ASSIM É UMA ABERRAÇÃO. Uma insanidade. Assim NÃO.

sábado, 12 de abril de 2025

Mercado voluntário de carbono a patrocinar a exploração intensiva de monoculturas de crescimento rápido?


O que temíamos está prestes a acontecer: o mercado voluntário de carbono em Portugal, atualmente em fase de criação, corre sério risco de ser totalmente capturado pela promoção da monocultura de eucalipto — sem limites!

A primeira metodologia proposta para certificar créditos de carbono em Portugal, atualmente em consulta pública, não resolve os problemas estruturais da floresta e pode agravar os complexos desafios que afetam os territórios rurais. Em vez de promover a regeneração ecológica e a multifuncionalidade do território, a proposta favorece modelos intensivos de exploração florestal — os mesmos que têm contribuído para a degradação do interior e para a perda de biodiversidade.

No âmbito desta consulta pública, vimos expressar a nossa preocupação, pois esta metodologia falha em alinhar-se com os objetivos nacionais e ignora lições aprendidas com projetos semelhantes noutros países. Destacamos quatro pontos críticos:

1. Permissividade no uso de monoculturas exóticas sem necessidade desse rendimento
Permite-se, sem restrições claras, a plantação de espécies exóticas em monocultura para créditos de carbono. Esta abordagem ignora evidências de que estas plantações têm causado graves impactos ecológicos e sociais — como já se verificou no Brasil, Chile, Uruguai e África do Sul —, levando a grandes escândalos que comprometeram a própria credibilidade destes mecanismos.
Standards internacionais, como o Gold Standard, adaptaram as suas metodologias e introduziram critérios mais rigorosos para evitar a aprovação de sistemas baseados em monoculturas de crescimento rápido, nomeadamente com espécies exóticas como o eucalipto.

2. Critérios de permanência incoerentes e permissivos
A proposta permite o corte de madeira durante o período de permanência (30 anos), desde que haja replantação. Isto desvirtua o conceito de “permanência”, essencial à credibilidade dos créditos de carbono. Standards internacionais reconhecidos, como o Plan Vivo ou o Gold Standard, não permitem este tipo de exploração.
É importante lembrar que apenas um conjunto restrito de espécies, como o eucalipto, se adequa a ciclos de corte dentro deste período — o que revela a verdadeira intenção da metodologia: reforçar o atual modelo florestal assente em monoculturas rápidas, ignorando os seus impactos cumulativos no empobrecimento dos solos e na sustentabilidade a longo prazo.

3. Desvalorização da complexidade ecológica e dos co-benefícios
Não há qualquer incentivo ao uso de espécies autóctones, nem à promoção de sistemas (agro)florestais complexos. O sub-bosque é excluído dos cálculos de carbono.
Em vez disso, a proposta reforça a ideia de “florestas limpas e bem geridas”, perpetuando monoculturas rápidas com baixos benefícios ecológicos e sociais, monotonizando ainda mais o território rural.

4. Desalinhamento com políticas nacionais e europeias
A proposta contraria compromissos assumidos por Portugal no Pacto Ecológico Europeu, na Lei Europeia da Restauração da Natureza e na Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e Biodiversidade. Ignora os objetivos de diversificar a floresta e reduzir a dependência de monoculturas, ameaçando fazer exatamente o contrário.

Este instrumento, que deveria ser uma oportunidade para regenerar a floresta portuguesa, pode acabar por cristalizar modelos insustentáveis e hipotecar o futuro ecológico do país.

👉 É fundamental partilhar e participar nesta consulta pública! Temos menos de 15 dias para agir!

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

CSDDD Datahub reveals law covers fewer than 3,400 EU-based corporate groups


Like the European Commission, SOMO has identified approximately 7,000 companies that currently meet the threshold criteria of the EU Corporate Sustainability Due Diligence Directive (CSDDD). However, many of these companies are part of a corporate group containing several subsidiaries or holding companies that operate under the same umbrella. Data analysis by SOMO – based on companies’ most recent reported revenues and employee figures – shows that in practice, the CSDDD will cover only 4,280 corporate groups, of which just under 3,400 are based in the EU. For example, within these 7,000 companies, there are several corporate groups, of which over ten subsidiary companies meet the threshold criteria individually (e.g. several car manufacturers and supermarkets).

This means that the actual number of corporations that will have to implement the CSDDD is substantially lower than the European Commission’s simple count of companies would suggest. While standardised statistics on the number of corporate groups in the EU do not appear to be available, previous SOMO research showed that the CSDDD would only cover less than 0.1 per cent of all companies in the EU.

SOMO’s analysis shows that the actual coverage of the CSDDD is, in practice, even smaller. It also shows that claims about the CSDDD having an enormous impact on the EU economy simply do not match the reality of the extremely small number of companies that will be within the scope of the law. In February 2025, the European Commission is set to publish an omnibus legislative proposal to amend three key pillars of the European Green Deal: the CSDDD, the Corporate Sustainability Reporting Directive (CSRD), and the Taxonomy Regulation. It is crucial that the Commission refrain from reinforcing false narratives about the supposed burdensome impact of the CSDDD on the EU economy as a disguise for deregulatory policies that boost corporate profits at the expense of people and the planet

Ample preparation time for companies
The CSDDD will enter into force in three phases. 31 per cent of the corporate groups SOMO has identified will have to comply with the CSDDD in 2027, followed by 18 per cent in 2028. Over 50 per cent of the corporate groups will only meet the threshold criteria in 2029, leaving them with no less than 4.5 years to prepare for compliance with the law.

CSDDD coverage: key sectors
The companies covered by the CSDDD mainly operate in the manufacturing (24.6%), services (19.1%), and wholesale and retail (16.2%) sectors. Notably, one out of every five companies that will have to comply with the CSDDD is a provider of financial services, though the holding companies of many corporate groups are included in this category. The CSDDD largely exempts financial institutions such as banks and insurers from the obligation to conduct due diligence on adverse impacts associated with their investments and financial services, which makes the total number of corporate groups directly affected by the CSDDD’s obligations even smaller in practice.

Breaking down barriers: access to information and corporate accountability
In countries that already have corporate accountability legislation in place, not knowing which companies fall within the scope of the law has been a crippling obstacle for civil society and workers to effectively hold companies to account for their impacts on human rights, the environment, and the climate. The purpose of SOMO’s CSDDD Datahub is to break down this barrier and make it possible to identify whether companies, suppliers, or buyers can be held accountable under the CSDDD.

About SOMO’s CSDDD Datahub
SOMO has compiled the Datahub based on data from Moody’s Orbis, supplemented with data from the LSEG Workspace and Company.info databases, national business registries, and the annual accounts and websites of companies. The Orbis database was also used by the European Commission and Wageningen University & Research to map companies covered by the CSDDD. While SOMO has aimed to ensure the Datahub is as complete and accurate as possible, these data sources have their limitations. In particular with regard to non-EU companies, the list is incomplete. SOMO is planning to update the CSDDD Datahub on a regular basis.

SOMO also provides pro bono research to activists, communities, trade unions, journalists, and others on corporate structures and supply chains through The Counter.

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

O manto da Terra pode revelar as origens da vida


Investigadores descobriram a amostra mais profunda de rocha marinha alguma vez extraída do manto terrestre que poderá ajudar a revelar as condições no início da vida.

O fragmento de rocha foi extraído da Crista Média Atlântica por uma equipa internacional no navio de perfuração JOIDES Resolution e está a ser analisado pelo Professor Gordon Southam da Universidade de Queensland.

”A amostra foi recolhida durante uma expedição do Projeto Internacional Ocean Discovery que conseguiu, pela primeira vez, perfurar 1.268 metros abaixo do fundo do mar em rochas do manto”, disse o Professor Southam.

“É um trabalho incrível, uma vez que as perfurações anteriores neste tipo específico de rocha – peridotito oceânico – só tinham atingido uma profundidade máxima de 201 metros”, sublinhou.

“Estas amostras ajudarão a melhorar a nossa compreensão das ligações entre a geologia da Terra, a química da água, os gases e a microbiologia”, revelou, explicando que “sempre que os perfuradores recuperavam outra secção do núcleo profundo, recolhíamos amostras para cultivar bactérias”.

“Utilizaremos estas amostras para investigar os limites da vida neste ecossistema marinho de subsuperfície profunda, melhorando a nossa compreensão das suas origens e ajudando a definir o potencial de vida para além da Terra”, acrescentou.

Para compreender o percurso da vida na Terra, os investigadores vão analisar a forma como a olivina, um mineral abundante nas rochas do manto, reage com a água do mar, conduzindo a uma série de reacções químicas que produzem hidrogénio e outras moléculas que podem alimentar a vida.

A equipa prepara-se agora para analisar o teor de níquel do núcleo.

“O níquel é necessário para a hidrogenase, a enzima chave que permite que estas bactérias antigas utilizem o hidrogénio nestes ambientes extremos, pelo que estamos atualmente a seguir o seu percurso através da rocha do manto”, disse o Professor Southam.

Os minerais descobertos serão examinados utilizando microscópios eletrónicos no Centro de Microscopia e Microanálise da UQ e o Microscópio Fluorescente de Raios X da ANSTO no Sincrotrão Australiano, para melhor compreender o efeito da circulação da água do mar na carbonatação dos minerais.

Esta investigação é essencial para o trabalho do Professor Southam como líder do Grupo de Geomicrobiologia da UQ.

“Estamos a investigar o papel da microbiologia na transformação do dióxido de carbono em minerais de carbonato estáveis e a forma como podemos reduzir as concentrações de gases com efeito de estufa na atmosfera”, explicou.

Para além de analisar a vida primitiva e melhores formas de sequestrar carbono, os resultados da expedição poderão também ter implicações importantes para a compreensão da formação do magma e do vulcanismo.

“Há descobertas espantosas ainda por descobrir nas profundezas da Terra e os dados desta expedição são apenas o começo”, disse o Professor Southam.

“Os resultados serão tornados públicos, pelo que esperamos que outros cientistas e entusiastas possam contribuir com as suas descobertas sobre o funcionamento do nosso mundo”, concluiu.

A investigação foi publicada na revista Science.

segunda-feira, 1 de julho de 2024

Lavagem verde da multinacional Dentsu


A empresa de publicidade Dentsu mostrou uma solução para limpar o ar. Para tal instalou um mural na Euston Road, um dos pontos mais poluídos de Londres. O mural mostrava uma mulher cor-de-rosa e roxa a apanhar os fumos numa rede. O molho secreto: uma tinta supostamente capaz de converter os poluentes do ar em "sais inofensivos". Acontece que, nos últimos cinco anos, a holding multinacional japonesa e as suas subsidiárias, celebraram pelo menos 27 contratos de relações públicas, publicidade e campanhas de marketing para 25 produtores de combustíveis fósseis diferentes, incluindo a Shell, a ExxonMobil e a BP. Em maio, os ativistas da Clean Creatives atribuíram à Dentsu um prémio satírico de "Excelência em Ficção Científica" pelo seu trabalho de promoção de projetos controversos de captura de carbono em nome da Chevron. Fonte.

terça-feira, 14 de maio de 2024

Cientistas descobrem a chave para a criação de plantas “devoradoras de carbono” com grande apetite

As cianobactérias apresentam diversos formatos e podem realizar fotossíntese


A descoberta do funcionamento de uma enzima crítica “escondida na planta da natureza” lança uma nova luz sobre a forma como as células controlam os processos-chave na fixação do carbono, um processo fundamental para a vida na Terra.

A descoberta, feita por cientistas da Universidade Nacional Australiana (ANU) e da Universidade de Newcastle (UoN), poderá ajudar a conceber culturas resistentes ao clima, capazes de sugar o dióxido de carbono da atmosfera de forma mais eficiente, ajudando a produzir mais alimentos no processo.

A investigação, publicada na revista Science Advances, demonstra uma função anteriormente desconhecida de uma enzima chamada anidrase carboxissomal carbónica (CsoSCA), que se encontra nas cianobactérias – também chamadas algas azuis-verdes – para maximizar a capacidade dos microrganismos de extrair dióxido de carbono da atmosfera.

As cianobactérias são vulgarmente conhecidas pelas suas florescências tóxicas em lagos e rios. Mas estes pequenos insetos azul-esverdeados estão espalhados por todo o mundo, vivendo também nos oceanos.

Embora possam constituir um perigo para o ambiente, os investigadores descrevem-nas como “pequenos super-heróis do carbono”. Através do processo de fotossíntese, desempenham um papel importante na captura de cerca de 12% do dióxido de carbono do mundo todos os anos.

O primeiro autor e investigador de doutoramento Sacha Pulsford, da ANU, descreve a eficiência notável destes microrganismos na captura de carbono.

“Ao contrário das plantas, as cianobactérias têm um sistema chamado mecanismo de concentração de dióxido de carbono (CCM), que lhes permite fixar o carbono da atmosfera e transformá-lo em açúcares a um ritmo significativamente mais rápido do que as plantas normais e as espécies cultivadas”, diz Pulsford.

No centro do CCM estão grandes compartimentos proteicos chamados carboxissomas. Estas estruturas são responsáveis pelo sequestro de dióxido de carbono, abrigando a CsoSCA e outra enzima chamada Rubisco.

As enzimas CsoSCA e Rubisco trabalham em uníssono, demonstrando a natureza altamente eficiente da CCM. A CsoSCA trabalha para criar uma elevada concentração local de dióxido de carbono no interior do carboxissoma, que a Rubisco pode depois engolir e transformar em açúcares para a célula comer.

O autor principal, Ben Long, da UoN, afirmou: “Até agora, os cientistas não tinham a certeza de como a enzima CsoSCA é controlada. O nosso estudo centrou-se em desvendar este mistério, particularmente num grupo importante de cianobactérias que se encontram em todo o mundo. O que encontrámos foi completamente inesperado”.

“A enzima CsoSCA dança ao som de uma outra molécula chamada RuBP, que a ativa como um interrutor”, acrescentou.

“Pense na fotossíntese como se estivesse a fazer uma sanduíche. O dióxido de carbono do ar é o recheio, mas uma célula fotossintética precisa de fornecer o pão. Essa é a RuBP”, revela, sublinhando que, “tal como é necessário pão para fazer uma sandes, a taxa de transformação do dióxido de carbono em açúcar depende da rapidez com que a RuBP é fornecida”.

O autor explica ainda que “a rapidez com que a enzima CsoSCA fornece dióxido de carbono à Rubisco depende da quantidade de RuBP presente. Quando há suficiente, a enzima é ativada. Mas se a célula ficar sem RuBP, a enzima desliga-se, tornando o sistema altamente sintonizado e eficiente”.

“Surpreendentemente, a enzima CsoSCA tem estado sempre incorporada no projeto da natureza, à espera de ser descoberta”, acrescenta.

Os cientistas afirmam que a engenharia de culturas mais eficientes na captura e utilização de dióxido de carbono daria um enorme impulso à indústria agrícola, melhorando consideravelmente o rendimento das culturas e reduzindo a procura de fertilizantes azotados e de sistemas de irrigação.

Asseguraria também que os sistemas alimentares mundiais fossem mais resistentes às alterações climáticas.

Pulsford afirmou: “Compreender como funciona a CCM não só enriquece o nosso conhecimento dos processos naturais fundamentais para a biogeoquímica da Terra, como também nos pode orientar na criação de soluções sustentáveis para alguns dos maiores desafios ambientais que o mundo enfrenta”.

quinta-feira, 7 de março de 2024

Que Fazer Com as Árvores – Madeira ou Créditos de Carbono?


A procura de créditos de carbono tornou as florestas mais atrativas para os investidores. Os gestores de investimentos que adquiriram terrenos florestais estão a analisar árvore a árvore para saber se devem ser abatidas para a produção de madeira ou mantidas para a produção de créditos de carbono.

A procura crescente de créditos significa que o investimento em florestas não se resume à produção de madeira, mas pode ser necessário muito trabalho para determinar o papel que cada árvore deve desempenhar numa carteira, bem como para garantir que está a cumprir os benefícios ambientais prometidos se for mantida de pé. Quando se investe numa floresta, a pergunta que fazemos é: "Como é que se gerem os produtos de madeira versus o carbono?", diz Brian Kernohan, diretor de sustentabilidade, mercados privados, na Manulife Investment Management. "A resposta para nós é: 'O que é que os nossos clientes querem?

A Manulife, que tem 5,4 milhões de acres de floresta na sua carteira de investimentos, calcula o valor de cada árvore para informar a sua estratégia de colheita. Cada árvore de uma floresta tem de ser avaliada com base nas taxas de crescimento das espécies e no valor do produto. Se o valor do crédito de carbono for suficientemente elevado, a árvore mantém-se, mesmo que seja apenas por mais alguns anos. Se não for, é cortada para a produção de madeira. As árvores de folha larga, por exemplo, são melhores para o sequestro de carbono, mas demoram mais tempo a crescer, criando até 500 a 600 créditos por hectare, mas levando mais de 100 anos a atingir a maturidade. As árvores coníferas, por outro lado, criam metade do número de créditos por hectare, mas demoram apenas 35 a 40 anos a atingir a maturidade, o que as pode tornar mais úteis para atingir mais rapidamente as emissões líquidas nulas.

Kernohan afirma que, até há pouco tempo, os terrenos florestais não eram suficientemente valiosos para se considerar que valia a pena investir apenas no sequestro de carbono. "Agora podemos perceber esse valor", diz ele.

O mercado voluntário de créditos de carbono poderá valer 40 mil milhões de dólares até 2030, contra 2 mil milhões de dólares em 2021, de acordo com um relatório do Boston Consulting Group e da Shell. Este mercado oferece uma forma de as empresas ajudarem a anular as emissões de carbono que produzem nas suas operações e pode ser especialmente útil para as empresas de sectores difíceis de eliminar, como a produção de energia e a indústria pesada.

A procura de créditos de carbono tem crescido rapidamente, tanto nos EUA como no estrangeiro, mas nos últimos anos começou a abrandar depois de terem sido levantadas questões sobre se os projetos estão a cumprir o que prometem. Uma investigação levada a cabo em 2023 pelo jornal britânico The Guardian, pelo semanário alemão Die Zeit e pela Source Material, uma organização jornalística sem fins lucrativos, revelou que muitos dos créditos de carbono certificados que são comprados e vendidos não representam, de facto, reduções genuínas das emissões de carbono.

"O problema de todo o mercado é a diversidade dos tipos de créditos e das metodologias utilizadas para os calcular", afirma Tom Frith, gestor de investimentos da JustCarbon, uma empresa de financiamento de projetos de créditos de carbono. "Para uma empresa, é muito mais fácil pensar na compra de créditos de carbono como um investimento num projeto individual do que num produto uniforme".

Há diferentes tipos de créditos de carbono. Os créditos de remoção, por exemplo, são gerados pela quantidade de dióxido de carbono que uma empresa remove da atmosfera e são vistos como mais valiosos porque a tonelagem de carbono pode ser calculada mais facilmente. Entretanto, os créditos de evitação podem ser mais difíceis de calcular com precisão, uma vez que são gerados através de uma atividade que não se realiza - por exemplo, não cortar uma árvore. As iniciativas de plantação de árvores também geram créditos de remoção porque removem carbono através da fotossíntese.

Fonte: WSJ

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

Encontros Improváveis - Sylvia Earle e João Soares


Quando observo o oceano, esse vasto mundo, questiono-me com Sylvia Earle:

"Temos de mudar a nossa mentalidade. Quando olhamos para a vida selvagem, em terra, pensamos que a temos de proteger, mas quando olhamos para o mar vemos produtos. Começámos a mudar em relação às baleias ou às tartarugas, mas temos de fazer o mesmo para todos os seres vivos. Os camarões ou as lagostas são animais selvagens, como os leões ou os tigres. Os tubarões ou os atuns são os seus equivalentes, grandes predadores que fazem parte da química planetária, do ciclo do carbono e hidrogénio, parte da janela de oportunidade que mantém a terra habitável. Pode soar um pouco nerd, mas é tão básico. Sabemos que as árvores geram oxigénio e capturam o carbono, por isso sabemos que as devemos proteger, mas no mar o plâncton tem vindo a diminuir nos últimos anos, tal como os recifes de corais, as florestas de algas, as pradarias marinhas. E capturam mais dióxido de carbono e produzem mais oxigénio do que todas as florestas terrestres. Eu assisti a tudo isto, sou uma testemunha."

"Os peixes têm caras, personalidade, famílias e protegem as crias tão vigorosamente como a maior parte das criaturas que adoramos em terra. Não é aceitável explorar a vida selvagem, nem em terra nem no mar."

Os oceanos produzem mais de metade do oxigénio, são o maior reservatório de dióxido de carbono e o maior regulador do clima e da temperatura. Todos os 8 mil milhões de habitantes da Terra, quer vivam perto ou longe do mar, dependem diretamente dos oceanos para a sua sobrevivência, mas os oceanos não são água. São vida, e esta está (também) seriamente em perigo.

Sobre esta temática, Extinção e Ecocídio, está disponível na rtp1 e rtpplay uma série de documentários muitíssimo interessante, Ressuscitar o Éden - Ajuda Humana Para a Resiliência da Natureza que recomendo a todos, biólogos, professores, estudantes, políticos, gestores ambientais, economistas...
A nossa pegada ecológica é tremenda e, por vezes, não temos noção do quão longe demais já fomos e como podemos ainda reverter isso... 

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

COP28: Afinal, o que é isto do ‘unabated’?



Na 28.ª cimeira climática global das Nações Unidas (COP28), o fim dos combustíveis fósseis é reivindicado por muitos, não apenas por movimentos e organizações ambientalistas, mas também por povos indígenas e alguns países, sobretudo os mais vulneráveis aos efeitos devastadores das alterações climáticas.

Estima-se que, atualmente, mais de 100 países de África, das Caraíbas, do Pacífico e da União Europeia tenham já publicamente defendido o fim progressivo de todos os combustíveis fósseis, mas outros, como a Rússia, a Arábia Saudita e a China, posicionam-se do outro lado da barricada.

As negociações ainda decorrem e muita água há ainda para correr debaixo da ponte, mas é importante perceber o que está em causa. Alguns governos defendem o fim, mesmo que progressivo, de todos os combustíveis fósseis, outros pedem o abandono dos combustíveis fósseis cujas emissões não possam ser neutralizadas, por exemplo, por tecnologias de captura de carbono, outros pedem apenas uma redução do uso dessa energia e há ainda os que querem que tudo fique como está.

Na discussão, um termo que muito tem sido debatido é o ‘unabated’. Esta expressão refere-se, no jargão climático, às emissões de gases com efeito de estufa, não apenas o dióxido de carbono, mas também o metano, que não podem ser capturadas e armazenadas e, por isso, são libertadas na atmosfera e agravam as alterações climáticas.

Embora seja usada prolificamente num sem-número de documentos relativos a negociações e compromissos climáticos, a definição do que é essa neutralização, ou ‘abatement’, frequentemente não gera consenso. Contudo, num relatório deste ano do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), uma nota de rodapé explica que isso poderá ser definido como “as intervenções humanas que reduzem a quantidade de gases com efeito de estufa que é libertada para a atmosfera a partir de infraestruturas de combustíveis fósseis”.

Adicionalmente, outra nota de rodapé aponta que combustíveis fósseis ‘unabated’ são aqueles “produzidos e usados sem intervenções que reduzam substancialmente a quantidade de [gases com efeito de estufa] emitidos ao longo do seu ciclo de vida”.

Numa altura em que o fim dos combustíveis fósseis está em cima da mesa na COP28, a indefinição do que é ‘unabated’ poderá gerar ainda mais dissensos no âmbito dos trabalhos de negociação climática.

Na ausência de uma definição clara, a palavra ‘unabated’ poderá, por exemplo, permitir a continuação de emissões de gases com efeito de estufa para a atmosfera, pois há espaço para argumentar que capturar 50% dessas emissões é neutralizar parte delas.

Outro debate acontece em torno do ‘phaseout’, ou abandono progressivo, e do ‘phasedown’, ou redução progressiva. Embora nenhum país defenda o fim dos combustíveis fósseis de um dia para o outro, a opção mais amplamente aceite é ‘phaseout’, permitindo uma transição energética justa que cause os menores impactos negativos sobre as sociedades e economias.

O ‘phaseout’ implica um abandono progressivo com vista ao seu eventual fim definitivo.

Contudo, há países que defendem o ‘phasedown’, sobretudo aqueles cujas economias dependem mais fortemente dos combustíveis fósseis, em que existiria uma redução faseada do uso de combustíveis fósseis, mas não o seu fim.

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Esgotamento de oxigénio. Um cisne negro?


1. Nos últimos 20 anos, a quantidade de oxigénio na atmosfera da Terra tem diminuído. Embora a queda possa parecer pequena agora, não temos a certeza de como esta tendência poderá evoluir no futuro.

2. A investigação sugere que este declínio no oxigénio pode acelerar ao longo do tempo. 

3. Se esta tendência continuar, os humanos poderão sobreviver na atmosfera atual por mais cerca de 3.600 anos.

4. A redução do oxigénio é apenas uma das muitas mudanças ambientais. Também estamos a ver mais dióxido de carbono no ar, aumento das temperaturas, padrões climáticos imprevisíveis e degelo das calotas polares. Todas estas mudanças estão interligadas e podem ter consequências graves para o nosso futuro.

5. As alterações na nossa atmosfera, incluindo a diminuição dos níveis de oxigénio, são sinais de que precisamos de estar mais conscientes das nossas ações.

Segundo o estudo, conclui que se nada fizermos, o futuro dos humanos na Terra poderá estar em risco.

quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Capitalismo ou Humanidade



Por Jorge Bateira, 15 de Março de 2021
Durante milénios, as sociedades humanas mantiveram sistemas produtivos cujo impacto na biosfera tinha uma escala compatível com os seus mecanismos regeneradores. Porém, com o advento e a expansão do capitalismo, ocorreu uma ruptura Histórica em diferentes domínios. Karl Polanyi, um nome incontornável da Economia Política do século XX, explicou-nos o essencial: ao transformar (em larga medida) o trabalho, a moeda e a natureza em mercadorias, o capitalismo criou um enorme potencial de crescimento económico. A riqueza produzida cresceu exponencialmente, o que permitiu a alguns países alcançar, em poucas décadas, um nível de bem-estar inédito na História. Porém, tal sucesso teve custos que não podem ser ignorados. A exploração dos seres humanos destruiu milhões de vidas, da escravatura às guerras, criou pobreza em larga escala e de ordem estrutural, gerou desigualdades chocantes e lutas de classes que dilaceram sociedades, promoveu guerras locais e empurrou milhões de pessoas para a emigração intercontinental. A criação de moeda pelos bancos, e a sua aplicação em activos para uso especulativo, produziu sucessivas crises financeiras de consequências devastadoras para as sociedades. O crescimento industrial, alimentado pelo consumo de massa – ele mesmo objecto da manipulação pelo marketing –, foi sustentado pela extracção desenfreada de combustíveis fósseis, pela transformação do solo agrícola e da floresta em agro-negócio global, e pela degradação dos solos e da água com a utilização de produtos químicos, para além da acumulação de gases, resíduos tóxicos e produtos não recicláveis.

A lógica do lucro comanda o capitalismo e o motor da sua expansão é o continuado crescimento do consumo. Porém, este permanente crescimento económico colide com a finitude dos recursos naturais que até agora o sustentou e, ao mesmo tempo, colide com a capacidade do planeta para absorver os desequilíbrios que lhe são infligidos. Há quem defenda que o capitalismo pode adaptar-se e continuar a crescer, sobretudo através dos serviços, utilizando proporcionalmente menos recursos materiais. Contudo, a investigação mais recente não sustenta esta tese e conclui que o “crescimento verde” é uma ilusão.[1]

Na realidade, o que temos pela frente é uma trajectória que, se nada de radical for feito, conduzirá ao colapso das condições de vida na Terra. A comunidade científica tem vindo a produzir documentos de alerta sobre a gravidade da situação em que nos encontramos, com destaque para as consequências calamitosas de um aumento da temperatura média global do planeta que ultrapasse os 2 ºC por comparação com a do início da Revolução Industrial. Isto implica uma travagem drástica das emissões de gases com efeito de estufa, ou seja, emissões nulas ou mesmo negativas (por recurso a diversas formas de captura do carbono) até ao final do século XXI. Em 2017, mais de 15 000 cientistas de 184 países produziram um sério aviso à Humanidade. Face à predação dos recursos do planeta, a comunidade científica afirmou que estamos a caminho de “miséria em larga escala e de uma catastrófica perda de biodiversidade.” Um aspecto poucas vezes mencionado é a natureza cumulativa das emissões de carbono. O que determinará a futura temperatura global, e as decorrentes alterações climáticas do planeta, é a acumulação das emissões passadas, das presentes, e as dos próximos anos. Portanto, não basta neutralizar as emissões de carbono dos países ditos desenvolvidos, é preciso travá-las à escala global, o que coloca o gravíssimo problema da reconversão dos modelos de desenvolvimento industrial nos países ‘emergentes’, e noutros que legitimamente pretendem alcançar melhores condições de vida.

Apesar da gravidade do que está em causa, os avisos dos cientistas ainda são formulados numa retórica de grande contenção para evitar questionar os fundamentos do sistema económico que, sendo a causa dos males do planeta, também lhes financia a investigação e o emprego. Nos documentos oficiais, as análises são quase sempre sujeitas a uma ‘edição’ que suaviza os termos mais fortes e procura preservar a teoria económica dominante que fundamenta as políticas económicas do capitalismo.[2]

Contudo, a devastação produzida pelo ciclone Idai em África (Moçambique, Zimbabwe e Malawi), as inundações com perdas da produção agrícola na Guatemala, Honduras e El Salvador, assim como a recente onda de calor na Europa, seguida do degelo na Gronelândia, os fogos na Rússia e no Ártico, e os furacões devastadores nos EUA – apenas alguns episódios de uma lista que poderia ser muito longa –, constituem fenómenos com impacto relevante para questionar políticas ambientais que não incomodam o sistema económico-financeiro predador do planeta.

Face à gravidade da situação, seria de esperar que os media ocupassem uma parte significativa do seu tempo a discutir as causas das alterações climáticas, a eficácia e o grau de cumprimento dos acordos internacionais, e a escala das mudanças a realizar na produção e na logística das actividades económicas, assim como o nível e a estrutura do consumo actual, incluindo o turismo por via aérea. Porém, a comunicação social de grande alcance, a dos canais de televisão, apenas responde ao que dá rendimento publicitário. O tema das alterações climáticas não é comercialmente interessante, e até pode ser incómodo para alguns anunciantes que contribuem significativamente para o problema que enfrentamos. Exibe-se a tragédia humanitária mas silencia-se a discussão séria das causas estruturais dos desastres ambientais.

Se pensarmos bem, não é difícil perceber o interesse das grandes empresas na manutenção do caminho para o abismo que estamos a percorrer. A cotação das suas acções na bolsa depende em boa parte das expectativas de crescimento da economia, sendo este em larga medida sustentado pelo crescimento do consumo, o que exige a exploração dos recursos finitos e a degradação do planeta. Há aqui um conflito de interesses e uma real ameaça à democracia. Os decisores políticos estão sujeitos a uma enorme pressão das empresas no sentido de manterem uma política de mudanças leves que não ponham em causa o status quo. Como alguns cidadãos já perceberam, este crescimento económico e financeiro só pode ser mantido através de uma poderosa rede comunicacional que seja eficaz na alienação das populações através do entretenimento vazio, e alimente a ilusão de que, através de alguns investimentos em energias renováveis, temos boas perspectivas para uma trajectória sustentável. Difundem um cenário de resolução do problema pela via do mercado das emissões e pela inovação tecnológica que está em curso. Através de um ‘crescimento verde’, o capitalismo reinventar-se-ia e a crise ambiental desapareceria.

Na verdade, apenas uma transformação profunda deste sistema económico pode evitar o colapso da Humanidade. Isso implica grandes mudanças nos padrões de consumo, grandes mudanças nos sistemas agrícolas, grandes mudanças no sentido da desglobalização comercial (os transportes aéreo e marítimo são uma grande fonte de emissões) e, ainda mais importante, uma mudança no que entendemos por desenvolvimento. Para além de um dado limiar de consumo frugal, as políticas públicas deverão promover a busca do sentido da vida através da criação de tempo/espaço favorável a relacionamentos humanos de qualidade, uso de serviços e equipamentos públicos, fruição da natureza, investimento pessoal na organização e nas actividades da comunidade a que pertencemos, intervenção em diferentes níveis de debate e decisão no quadro de uma democracia participativa, em complemento de uma renovada democracia representativa, etc. Uma nova macroeconomia focada no pleno emprego, no desenvolvimento regional e local, na justiça social, e no respeito pelos limites e equilíbrios do planeta terá de informar as políticas económicas.

De facto, confrontados com um enorme risco de sobrevivência da Humanidade, bloqueados pelos interesses instalados que insistem no caminho para o desastre, enfrentando o silêncio cúmplice dos media que anestesiam os cidadãos, só nos restam a mobilização através dos media alternativos, e a realização no espaço público de acções mediáticas que abram caminho a novas iniciativas políticas. Por imperativo moral, o silêncio não é uma opção. A ideologia e o sistema de interesses que comandam as nossas vidas obrigam-nos a escolher: ou o Capitalismo, ou a Humanidade.
 
[1]Schroder, E. e Storm, S. (2018), Why “Green Growth” Is an Illusion

[2]Anderson, K. (2015), On the duality of climate scientists. Disponível em: 

quinta-feira, 13 de julho de 2023

Rochas fosfatadas na Noruega


A Norwegian miner has completed the exploration of a phosphate deposit that it claims is large enough to meet phosphorous demand for batteries and solar panels for the next 100 years.

Norge Mining, which will develop the site, says that it has discovered up to 70 billion tonnes of the mineral.

Around 90% of mined phosphate is used to produce fertiliser for the agriculture industry. Phosphorous is also used to produce lithium-ion phosphate batteries used in green technologies and batteries. The mineral is in high demand but currently faces significant supply issues.

According to the US Geological Survey, proven phosphate reserves equal 71 billion tonnes globally, only slightly larger than the total discovered in Norway.

Prior to this discovery, the largest phosphate deposit was located in the western Sahara region of Morocco, equalling around 50 billion tonnes. This is followed by China with 3.2 billion tonnes, Egypt with 2.8 billion tonnes and Algeria with 2.2 billion tonnes, according to US Geological Survey estimates.

Phosphorous appears on the EU’s list of strategic raw minerals. The bloc is almost entirely reliant on imports of phosphate and is concerned about its supply.

“The discovery is indeed great news, which would contribute to the objectives of the Commission’s proposal on the Critical Raw Material Act,” a spokesperson for the EU executive told Euractiv.

A polluting refining processes
Phosphorus refining is a highly carbon-intensive process. “This is part of the reason why there is no more production of this critical raw material in Europe; there was some production in the Netherlands many years ago, but they stopped it because of the heavy pollution,” Michael Wurmser, founder of Norge Mining told Euractiv.

Wurmser told reporters that Norge Mining will use carbon capture and storage to reduce the carbon emissions of the refining process.

“Europe is in an excellent position: we can use our advantage in clean tech innovation and skills development to turn the industry into a powerhouse of innovation and change and, in doing so, achieve the highest social and environmental standards,” said Bernd Schäfer, managing director of the European Raw Materials Alliance, earlier this year.

The discovery was initially made by Norge Mining in 2018 using information provided by the Norwegian Geological Survey. However, a drilling programme conducted by the company has found that ore reserves extend much deeper than initially estimated.

The deposit also contains vanadium and titanium, which are also classified as critical raw minerals by the EU. Vanadium is used to produce liquid batteries required by power companies.

Norge Mining is currently awaiting a permit from the EU and the Norwegian Government. Norwegian ministers have been supportive of the project and are treating it as a high priority, according to Norge Mining.

domingo, 2 de julho de 2023

Is Healthy Soil the Most Effective Tool to Fight Climate Change?

Jaggi Vasudev, known by the honorific title Sadhguru, an Indian yoga guru

There is a rapidly accelerating global call to protect ecosystems, and while biodiversity and nature are part of the overall conversation, less attention has been paid to soil health. But there is no way to talk about climate change, biodiversity or food security without referring to soil degradation. Sadhguru, head of the Isha Foundation, is running a campaign, Conscious Planet – Save our Soil, to change that.

For three decades global yogi Sadhguru has been raising the importance of soil and the alarming threat of soil extinction into the spotlight and says: "Soil is our life, our very body. And if we forsake soil, in many ways, we forsake the planet."

Soil lies at the heart of ecosystem health, providing essential services not just for agricultural production but also for plant growth, animal habitation, biodiversity, carbon sequestration and resilience to droughts or flooding. The decline in soil health is exacerbating many of the most severe challenges from climate change to global hunger.

To give just a couple of examples, poor soil health is contributing to global warming by reducing the volume of carbon absorbed from the atmosphere and driving biodiversity loss by impacting vegetation that provides food and shelter to various animal species.

The goals of the Sadhguru campaign are simple, if ambitious. They involve raising awareness of the importance of soil, inspiring the electorate to support policy around soil health (the goal is 4 billion people or 60% of the world’s electorate) and, in particular, helping to raise and maintain the organic content of soils to a minimum of 3-6%.

Research published in 2020 suggests that around 24 billion metric tons of fertile soils are being lost each year and the United Nations Convention to Combat Desertification has warned that up to 40% of the global land area is already in a degraded state. This is down in part to a changing climate but human activity has a significant role to play, with intensive farming, excessive use of chemical inputs, deforestation and other forms of land-use conversion contributing to the problem.

This has a direct economic impact as well as environmental one. The European Commission recently estimated that Europe loses nine million tonnes of soil annually, while in 2019 Solar Energy UK’s analysis of natural capital value suggested that soil degradation costs the UK alone around £1.2 billion per year.

Food, agriculture and the soil
For the agricultural sector, declining soil fertility raises a number of issues. It reduces both the yields and quality of growing crops, eating into farmers’ profits as well as their ability to produce enough food for the growing population.

Indeed, estimates suggest that around 95% of the food we consume is directly or indirectly dependent on healthy soils, but approximately 52% of the world’s agricultural land has already been degraded.

About 51 million square kilometers of land, which amounts to 70% of the land on the planet, is under agriculture right now. Sadhguru says: "Right now, the United Nations is saying that the world may have agricultural soil only for another 80–100 crops. This means after 45–60 years, there could be severe food shortages, and getting rich soil will become the basis of wars on this planet. And every responsible scientist in the world is pointing out that by 2045, we will be producing 40% less food than what we are producing right now and our populations will be well over 9 billion.

"That is not a world you want to live in or leave for your children and go. But that is what we are creating. In every agricultural land on the planet, a minimum 3–6% of organic matter must be there. If you institute this in the policy of every nation, in 12–15 years’ time, we can significantly mitigate climate change just by attending to the soil.”

Restoration and regeneration of soil can be done in combination with industry too, as for example through agri-solar, with growing interest in the impact of deploying solar PV alongside both crops and animal agriculture. Mark Rowcroft, development director at Exagen, which is promoting the combination of solar PV generation with agriculture wrote: “Land regeneration is as vital to securing a low-carbon future as decarbonising our energy systems. Protecting and nurturing biodiversity has the double impact of restoring soil quality to sequester carbon and improve soil quality and farming yields.”

Soil as a carbon sink
Soil is a significant carbon sink - globally, approximately 75% of terrestrial carbon has been estimated to be stored in soil, which is up to is three times more than the amount stored in living plants and animals.

If the soil is covered and has humus (organic matter), it absorbs the carbon from the atmosphere. At the same time, unhealthy soil, which is ploughed and exposed, is a source of emissions of both carbon dioxide and methane. That means that improving the health of soil can play a major role in increasing carbon sequestration and addressing atmospheric carbon.

Whether you want to fix or reverse climate change, or do carbon sequestration, or limit the temperatures rising in the world, or resolve water scarcity, the connecting need is the need to fix the soil. As Sadhguru points out: “It is also the largest water soak on the planet. If soil is organically rich, we can store eight times more water than all the rivers on the planet put together!” That can have a significant impact on local resilience to drought and/or floods.

Healthy soil underpins many of the approaches that we are taking to address climate change and food challenges. Healthy soil is home to the mycelium that connects plants and trees helps them share nutrients, exchange nitrogen, phosphorus, magnesium, iron, etc. That then helps to keep forests healthy, a goal which is expected to play a critical part in attempts to mitigate and adapt to the challenge of climate change.

Driving finance for soil regeneration
One of the ways in which finance can be funnelled towards soil regeneration is through the voluntary carbon markets. Verra’s methodology for Improved Agriculture Land Management (IALM) for example – which was recently updated – allows farmers to deliver important climate mitigation benefits while improving their incomes and on-farm resilience.

The IALM methodology, which is linked to Verra’s Verified Carbon Standard (VCS), enables carbon financing at scale for projects that remove agriculture greenhouse gasses (GHGs) in numerous ways – including improved fertilizer management, improved water management/irrigation, reduced tillage or improved residue management, improved crop planting and harvesting (e.g., improved agroforestry and crop rotations) or improved grazing practices. Once projects applying the IALM methodology have been verified and validated, farmers are able to gain Verified Carbon Units (VCUs), i.e., carbon credits.

A spokesperson for carbon standard and certification body Verra says: “When improved agricultural land management (IALM) practices are implemented that focus on enriching the soil, it enhances both its role as a carbon sink, allowing it to absorb greenhouse gas emissions instead of releasing them, and wider ecosystem resilience. This resilience helps protect communities against the impacts of climate change-induced extreme weather, such as flooding and drought, with knock-on benefits for food security and health.”

By advancing global efforts to restore soil health and implement more sustainable farming practices in the future, the agricultural industry could play a key role in solving the interconnected crises of food security, climate change and biodiversity loss.

Challenges and opportunities
As the recognition of the importance of soil health – for climate mitigation, biodiversity, and the health of the environment as a whole – has grown, so too has the number of initiatives and campaigns dedicated to raising awareness of this topic. Alongside the French initiative 4 per 1,000, other examples include the Global Soil Partnership and the Coalition of Action for Soil Health.

Innovative methods to direct investment towards enhancing soil health are much-needed, and there are an increasing number of options available for farmers to access additional revenue streams for improving soil health, which is becoming ever-more possible with technological and scientific advancements in monitoring and reporting on soil organic carbon (SOC).

There are challenges as well though. As Aadith Moorthy chief executive of soil carbon marketplace Boomitra points out, the understanding of the role of soil carbon is not as established as forestry, which plays a central role in today’s carbon markets.

More importantly, its not really understood by financiers which means it is seen as a high-risk investment. If this challenge can be overcome though, there are funds in the voluntary carbon markets that might well be able to direct significant financial flows.

Sadhguru says: “Soil degradation is a global scale disaster, but it can be turned around simply with a committed focus. It does not need any absolutely new technology or trillions of dollars. What it needs is a committed approach from the governments.”

To achieve the minimum 3-6% organic matter, Sadhguru believes we need a three-pronged strategy. Firstly, the governments of the world need to incentivize farmers to raise the organic matter in their soil. Secondly, the carbon credit market needs to be simplified so that it is accessible for the farmers. The third part of the strategy calls for market recognition and valuation of the produce as per the organic matter of the soil which it comes from.

There are other opportunities too – robotics, soil monitoring and measurement are sectors in which investors are showing increasing interest – and the potential for transforming agriculture is immense. Sadhguru says that industries and businesses should focus on evolving fertilizers, pesticides, and farm machinery that are more soil friendly, saying: “Today there is enough technology – robotics, artificial intelligence - to transform these things. The science is already there; we know what to do. It is just that the industry has not caught up with it yet.”

Soil and climate action
Given that nearly 40% of climate change is affected by soil, it may seem odd that the topic has not yet become part of the wider climate conversation and indeed, the climate negotiations. Moorthy points out that to date only fourteen NDCs have included soil health in one form or another.

Sadghuru says: “If you fix this one thing, everything will be fixed naturally. Whether you want to fix or reverse climate change, or do carbon sequestration, or limit the temperatures rising in the world, or resolve water scarcity, we need to fix the soil.” So maybe that’s where the focus should be at the next COP.
Fonte: Forbes

quarta-feira, 7 de junho de 2023

Documentário: Living Soil (Solo Vivo)


Os nossos solos sustentam 95% de toda a produção de alimentos e, até 2060, os nossos solos serão solicitados a nos fornecer a mesma quantidade de comida que consumimos nos últimos 500 anos. Eles filtram a nossa água. Eles são um dos nossos reservatórios mais económicos para sequestrar carbono. Eles são a nossa base para a biodiversidade. E eles estão vibrantemente vivos, repletos de 4.5 toneladas  de vida biológica em cada 4.046 m2. No entanto, nos últimos 150 anos, perdemos metade do alicerce básico que torna o solo produtivo. Estima-se que os custos sociais e ambientais da perda e degradação do solo apenas nos Estados Unidos cheguem a US$ 85 biliões a cada ano (valores de 2018). Como qualquer relacionamento, o nosso solo vivo precisa da nossa ternura. É hora de mudarmos tudo o que pensávamos que sabíamos sobre o solo. Vamos fazer deste o século do solo vivo.

Este documentário de 60 minutos apresenta agricultores inovadores e especialistas em saúde do solo de todos os EUA. Planos de aula de acompanhamento para estudantes universitários e do ensino médio também podem ser encontrados neste site. "Living Soil" foi dirigido por Chelsea Myers e Tiny Attic Productions com sede em Columbia, Missouri, e produzido pelo Soil Health Institute através do generoso apoio da The Samuel Roberts Noble Foundation.

terça-feira, 30 de maio de 2023

Seca implacável deixa olival de Portugal em risco. Sem água, não há azeite


É tempo de reconhecer que há um conjunto de circunstâncias que estão a deixar de ser atípicas. O agravamento da intensidade das alterações climáticas, redução da precipitação anual, aumento das temperaturas médias, mínimas e máximas e a diminuição do frio invernal, já não são a excepção, mas estão a fazer parte da regra. As condições meteorológicas em 2022 deram lugar à pior colheita de azeitona do século XXI e as consequências revelam-se na alta de preços do azeite, que atingiu valores só comparáveis às campanhas da década de 90 do século passado. Os olivais de sequeiro foram os mais atingidos pela seca e esperam-se declínios ainda mais significativos na produção de 2023/2024.

Os sinais de alerta vindos de Espanha anunciam que a produção de azeite pode estar “à beira de um colapso”. E percebe-se porquê: dados do Ministério da Agricultura, Pesca e Alimentação (MAPA) referem que, em anos normais, o país vizinho fornece cerca de 50 por cento do azeite mundial.

Porém, na campanha de 2021-2022 a falta de chuva e as temperaturas extremas fizeram com que a produção de azeite caísse 55 por cento, para 660 mil toneladas, face a 1,48 milhões de toneladas, produção recorde do ano anterior. Uma quebra tão drástica na produção de azeite acabaria por realçar um paradoxo: a diminuição da produção do olival espanhol fez com que o país que era o maior produtor mundial se tornasse o maior importador de azeite europeu, com uma subida de 38,6%, constatou Juan Luis Vicente, do Departamento de Estudos Económicos e Estatísticas do Conselho Oleícola Internacional (COI).

Este organismo reconhece que os oito principais países produtores da União Europeia, um dos quais é Portugal, produziram na campanha de 2021/2022 cerca de 1,5 milhões de toneladas de azeite, “bem abaixo da média de 2,17 milhões de toneladas dos últimos cinco anos”.

E este ano? Para já, prevê-se o pior para o olival de sequeiro (que representa entre 75 a 80% do olival que existe em Portugal). Na agricultura de sequeiro a plantação envolve no máximo 300 árvores por hectare e depende da água da chuva, ao contrário da cultura de regadio (sendo que, no caso do regime superintensivo, o número de árvores por hectare pode chegar às duas mil). Em 2020, o olival ocupava um total de 379.444 hectares em Portugal: olival tradicional de sequeiro ocupava 284 758 hectares.

Os resultados da campanha oleícola de sequeiro em curso são preocupantes. Nem a precipitação atmosférica que caiu nos últimos dias mitigou a escassez hídrica no Sul de Espanha e no Nordeste transmontano, Vale do Tejo, Baixo Alentejo e Algarve.

Os produtores culpam as altas temperaturas e o défice hidrológico que danificaram as árvores na época da floração e também os efeitos de uma seca sem precedentes. Um estudo publicado recentemente na Nature Geoscience concluiu que o Sul de Espanha está a sofrer os efeitos de uma seca como não acontecia “há mais de 1.000 anos” e que o fenómeno climático extremo “foi igualmente implacável em Portugal”, ao ter em 2022 metade das chuvas que normalmente ocorrem durante um ano hidrológico, acrescenta o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).

Apesar de mais vulnerável às alterações climáticas, há especialistas que defendem que o olival de sequeiro é mais benéfico para o clima. Um estudo de uma equipa de investigadores da Universidade de Jaén conclui que os olivais de sequeiro contribuem para a mitigação das alterações climáticas comparado com os que usam sistemas de rega. "Os olivais de sequeiro cultivados da forma tradicional absorveram significativamente mais CO2 do que os olivais que usam regadio e que os olivais intensivos, que se estão a tornar cada vez mais comuns".

Saber mais: