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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Agência de Proteção Ambiental elimina limitação às emissões de gases com efeito de estufa nas centrais elétricas dos EUA

A Agência de Proteção Ambiental (EPA) norte-americana divulgou na segunda-feira que vai revogar as regras que limitam as emissões de gases com efeito de estufa, que causam o aquecimento global, provenientes de centrais elétricas alimentadas a carvão e gás natural.
A alteração à regra, inicialmente proposta no ano passado, representa uma mudança fundamental em relação aos esforços dos presidentes democratas Joe Biden e Barack Obama para combater as alterações climáticas e reduzir a poluição industrial.

Os grupos ambientalistas criticaram a medida, afirmando que vai prejudicar a saúde dos norte-americanos e degradar ainda mais o ambiente, noticiou a agência Associated Press (AP), que antecipou também batalhas judiciais após a entrada em vigor da nova regra.

A revogação da regra para as centrais elétricas da era Biden permitiria poupar mais de 300 mil milhões de dólares em custos para o setor e ajudar a libertar a energia norte-americana, de acordo com a EPA.

A mudança permitirá que as empresas de energia tomem as melhores decisões para os seus consumidores, em vez de serem forçadas a fechar centrais antigas ou ineficientes, sublinhou o administrador assistente da EPA, Aaron Szabo.

A proposta, que deverá ser oficializada no próximo ano, surge na sequência de uma ação anterior da EPA, realizada este ano, que revogou uma conclusão científica que há muito servia de base central para a atuação dos EUA na regulação das emissões de gases com efeito de estufa e no combate às alterações climáticas.

A medida de fevereiro eliminou todos os padrões de emissão de gases com efeito de estufa para automóveis e camiões.

O novo plano aplicaria uma lógica semelhante para uma reversão mais ampla das regulamentações climáticas dirigidas a fontes fixas, como as centrais elétricas.


As centrais termoelétricas alimentadas a carvão, gás e petróleo são responsáveis por cerca de um quarto de toda a poluição climática dos EUA, ficando apenas atrás do setor dos transportes.

A poluição proveniente destas centrais é uma das maiores fontes globais de poluição que altera o clima.

As normas visadas pela EPA sob a administração liderada por Donald Trump poderiam evitar cerca de 30 mil mortes e gerar uma poupança de 275 mil milhões de dólares por cada ano em que estivessem em vigor, segundo um estudo da AP realizado no ano passado, que incluiu avaliações anteriores da própria agência e várias outras pesquisas.

Enquanto a China consolida o domínio mundial nas tecnologias limpas do século XXI (baterias, painéis solares, veículos elétricos), os EUA arriscam-se a ficar para trás num mercado global de energia limpa estimado em biliões de dólares. 

Na Europa mantem o foco na sustentabilidade ambiental e regulação, assumindo custos económicos mais altos no curto prazo para liderar a transição ecológica.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Da "Salvação do Planeta" ao Petróleo na Foz do Amazonas: A Grande Contradição da Esquerda Extrativista



A confirmação técnica da descoberta de petróleo bruto no poço Morpho — localizado na sensível bacia da Foz do Amazonas, na Margem Equatorial — veio reacender um debate profundo sobre os rumos da política climática brasileira. Apenas dez meses após o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) ter concedido a licença operacional à Petrobras, em outubro de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comemorou o achado caracterizando a nova reserva como o seu mais recente "passaporte para o futuro".

Esta celebração escancara o esgotamento de um modelo ideológico: o de uma esquerda que tenta financiar a justiça social de hoje sacrificando o equilíbrio sustentável de amanhã. O discurso ecológico que entusiasmou a comunidade internacional deu lugar a um pragmatismo fóssil que abraça o ecocídio diferido em nome do crescimento imediato, esvaziando a liderança climática do país de qualquer substância ética.

A decisão do Ibama, contestada por pareceres técnicos históricos, abriu caminho para a exploração petrolífera no mar numa área de elevada vulnerabilidade ecológica. Um dos pontos mais graves de todo este processo envolve a violação de direitos humanos basilares e a subordinação das populações locais ao imperativo do desenvolvimento a qualquer custo. Organizações como a Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Amapá e Norte do Pará (Apoianp) denunciam abertamente que os povos indígenas e as comunidades tradicionais do Oiapoque não foram devidamente auscultados através da Consulta Prévia, Livre e Informada, violando a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Os territórios estão na linha da frente dos riscos de um eventual derramamento de crude, contudo as decisões estratégicas sobre o destino da região continuam a ser tomadas à porta fechada nos gabinetes de Brasília.

O timing do incentivo às novas sondagens marítimas expõe um desfasamento diplomático inaceitável. Pouco tempo depois de o Brasil ter acolhido em Belém a COP 30, onde se apresentou como o grande guardião da floresta tropical e líder da transição energética, o governo pressiona ativamente os órgãos reguladores para expandir a fronteira fóssil. Esta postura reflete a armadilha do neoextrativismo latino-americano, que insiste em ver os recursos naturais finitos como a única alavanca de financiamento público.

As reações das maiores redes ambientalistas mundiais foram devastadoras para a imagem do executivo:
  1. Greenpeace Brasil: através das declarações da coordenadora da campanha de Oceanos, Mariana Andrade, a organização denunciou que a celebração do achado de crude no poço Morpho representa o"risco a ser vendido como conquista". A Greenpeace alertou que insistir na exploração petrolífera no mar na Foz do Amazonas ignora os pareceres técnicos do órgão ambiental, afasta o país dos compromissos do Acordo de Paris e ameaça diretamente o frágil Grande Sistema de Recifes da Amazónia.
  2. Observatório do Clima: a coligação das principais ONGA brasileiras classificou os avanços da exploração na Margem Equatorial como uma verdadeira "sabotagem à COP 30" e uma "escolha desastrosa" que destrói a autoridade moral da diplomacia brasileira. A rede relembrou que a insistência do governo em contornar a prudência ambiental viola o princípio da prevenção científica e contradiz as decisões dos tribunais internacionais sobre a urgência de travar a expansão dos combustíveis fósseis.
A comunidade científica rejeita categoricamente a tese de que a extração de petróleo no mar serve para "financiar a transição energética". O prestigiado climatologista Carlos Nobre, copresidente do Painel Científico para a Amazónia, já reagiu à notícia e foi  incisivo ao declarar que a região já está perigosamente próxima do seu "ponto de não retorno" e que não existe qualquer justificativa técnica ou ecológica para abrir novas fronteiras petrolíferas. "Nós temos que zerar rapidamente o uso de combustíveis fósseis em todo o mundo. 75% das emissões dos gases de efeito estufa vêm da queima dos combustíveis fósseis. É uma emergência imensa" 

O climatologista Carlos Nobre expôs em detalhe, já em 13/02/2025 os riscos ambientais de perfurar poços na bacia marítima da Amazónia nesta entrevista sobre a exploração de petróleo na Foz do Amazonas. Nesta análise em vídeo aborda as dinâmicas de correntes marítimas, os perigos para a biodiversidade e os limites científicos do ponto de não retorno florestal.

Concluindo, para a ciência, não existe justiça social duradoura sobre um ecossistema em colapso. Ao atrelar o desenvolvimento brasileiro a uma matriz ultrapassada, o governo falha na proteção da biodiversidade e insiste num mapa do século XX para tentar navegar na maior crise do século XXI.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Todos gostamos do ambiente, mas o ambiente sai muito caro


Com os preços atuais do biometano ainda não é possível descarbonizar a indústria. Esta foi uma conclusão transversal aos dois debates que decorreram hoje na Feira Nacional de Agricultura, promovidos pela Floene e a que o Expresso se juntou como media partner.

Portugal depende quase exclusivamente de gás importado e, a este nível, tem sido um dos países da Europa mais afetado pela subida generalizada de preços, resultante da guerra na Ucrânia. Contudo, uma das soluções pode estar no biometano, capaz de somar vantagens como a descarbonização, a competitividade industrial e a valorização territorial. No debate desta manhã na Feira Nacional de Agricultura (FNA), em que o tema foi ‘o biometano enquanto solução ambiental’, os vários participantes foram unânimes no diagnóstico de que o país tem potencial na produção desta energia renovável, mas continua longe de conseguir transformá-lo em escala.

Quando questionado sobre se o país está a aproveitar o seu potencial agropecuário, António Farracho não hesitou em garantir que “a resposta óbvia é que não”. O fundador e CEO da Prado Energia recorda que o biometano permite transformar “um passivo ambiental que não está a ser aproveitado, em ativo energético”, sobretudo em territórios rurais onde os odores e riscos sanitários associados aos efluentes são uma preocupação constante.

Contudo, e como referiu Nuno Pinto, o biometano é antes de tudo um caminho de qualificação territorial, o que significa que “os projetos têm de ser transparentes, sem segredos, e envolver todos os envolvidos, até as populações”. Ou seja, o responsável pela área do biometano na REGA Energy alertou para a importância da aceitação, que dependerá sempre da forma como se comunica e como se escolhem os locais, e lembrou que, no contexto europeu, o gás renovável é já um pilar estratégico. “O biometano é um dos fatores essenciais da soberania energética europeia”.

Do lado da comercialização, Óscar Delfim, diretor comercial B2B da Goldenergy, destacou a vantagem imediata para as empresas. “As empresas conseguem descarbonizar rapidamente e sem necessidade de investir nos equipamentos”. Mas alerta para aquele que considera o principal desafio: “Há uma grande dificuldade na parte dos licenciamentos”.

Já na perspetiva da indústria cerâmica, altamente exposta ao custo do gás, o biometano “é uma solução técnica já madura”. Paulo Pires, vice‑presidente da APICER (Associação Portuguesa Indústria Cerâmica), não tem dúvidas de que seria possível “substituir a 100% o gás natural por biometano”. Mas, à data de hoje, identifica o preço “incomportável para a indústria” e a falta de oferta como os grandes travões à descarbonização. “Todos gostamos do ambiente, mas o ambiente sai muito caro”, acrescentou Nuno Pinto.

Miguel Faria reforçou que o país está atrasado na política de resíduos e que isso limita a matéria‑prima disponível, lembrando que o biofertilizante resultante do processo “já permite substituir metade do fertilizante que vem da Rússia ou do que passa pelo Estreito de Ormuz”. Para o COO (Chief Operating Officer) da Floene, o desafio é “dar velocidade à implementação dos projetos”.

Mix perfeito não existe
Quando falamos de mix energético, Portugal não pode substituir uma dependência por outra, nem avançar para soluções simplistas num sistema que continua estruturalmente ancorado em combustíveis fósseis. A opinião é de Nuno Ribeiro da Silva, que abriu o debate da tarde no espaço Floene, na Feira Nacional de Agricultura, e que defendeu também que a transição energética não é um exercício tecnológico, mas um teste económico e geopolítico à resiliência dos países. Como lembrou o ex-presidente da Endesa, “quando dizemos que produzimos 80% da energia com fontes renováveis, falamos apenas da eletricidade, que representa menos de um quarto do total da energia consumida no país. O resto continua a ser petróleo e gás”.

Neste contexto, defendeu ainda Nuno Ribeiro da Silva, o gás, e sobretudo o biometano, permanece “a geração menos agressiva do ponto de vista ambiental”, sendo por isso inevitável no equilíbrio do sistema.

Do lado regulatório, Mário Paulo rejeitou a ideia de que a ERSE (Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos) trava a transição. “A ERSE não faz leis”, sublinhou, lembrando que o regulador atua dentro das políticas definidas e que “acabar com o gás em dois ou três dias é uma fantasia tecnicamente impossível”. A Europa, acrescentou o presidente da ERSE, já reviu a sua posição e admite que o gás continuará a representar “cerca de 20% do mix energético em 2040”.

Gabriel Sousa, CEO da Floene, destacou que Portugal pode acelerar a adoção de biometano aprendendo com quem começou mais cedo. “Não é sempre mau sermos os últimos”, afirmou. França, Itália e Dinamarca mostram que o crescimento depende de mecanismos estáveis e de uma articulação entre energia, agricultura e resíduos. “Portugal vai precisar dos dois sectores”, defendeu, sublinhando que o país pode fazer “em três anos o que outros demoraram quinze a fazer”.

Nuno Ribeiro da Silva reforçou ainda que as tecnologias emergentes precisam de apoio, tal como aconteceu com a eólica e o solar. “Se fosse puramente o mercado, só as tecnologias incumbentes existiam”, disse, defendendo que o biometano representa uma oportunidade industrial acessível e integrável na economia nacional.

Outras conclusões:
  1. O potencial agropecuário português continua largamente por explorar, apesar de estar mapeado e quantificado. “O Concelho de Torres Vedras figura no Top 10 dos concelhos com maior produção de efluentes agropecuários”, exemplificou António Farracho.
  2. A aceitação social dos projetos depende da forma como são apresentados às comunidades. “Quando se chega a um território e se apresenta um projeto há sempre um fator de rejeição natural”, afirmou Nuno Pinto.
  3. Para Óscar Delfim, a produção nacional de biometano pode reduzir a exposição do país às flutuações internacionais do preço do gás. “Não estaremos sujeitos às acelerações de preços que têm sido fruto dos conflitos”.
  4. A indústria cerâmica enfrenta um risco real de perda de competitividade se não houver acesso a gás renovável a preços viáveis. “O problema que temos é um fator de competitividade”, alertou Paulo Pires.
  5. “A classificação dos resíduos como subprodutos é um passo essensial para desbloquear matéria‑prima para o biometano”, sublinhou Miguel Faria.
  6. A evolução do sistema energético não pode assentar em ilusões de substituição instantânea: exige convivência prolongada entre múltiplas fontes e uma gestão realista das limitações técnicas. “Neste processo de transição energética, temos de dar tudo para conseguir libertar‑nos deste uso que ainda fazemos do petróleo e do gás natural”, disse Nuno Ribeiro da Silva.
  7. “A regulação acompanha, mas não inventa políticas”, garantiu Mário Paulo. O regulador sublinha que o país precisa de soluções compatíveis com a sua estrutura industrial e que a transição não pode ignorar a história e o ritmo dos sistemas energéticos.
  8. Gabriel Sousa alertou que o biometano só avança se unir sectores que nunca trabalharam juntos. “Juntar energia, agricultura, resíduos, economia e indústria não é fácil, mas parece‑me absolutamente indispensável”.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Há um novo estreito em risco por causa da guerra entre Irão e EUA - trata-se do Estreito de Bab El-Mandeb : custos do comércio global podem disparar



O estreito de Bab El-Mandeb é uma das rotas comerciais mais importantes do mundo e separa os continentes asiático e africano. É a ligação entre o Mar Vermelho e o Oceano Índico, através do Golfo de Áden, e também uma das vias marítimas para o Canal do Suez, que liga ao Mediterrâneo.

A localização do Bab El-Mandeb confere-lhe uma enorme importância estratégica, que o Irão ameaça agora, através dos houthis, os maiores aliados que Teerão tem na região.

Os houthis são uma parte dos chamado Eixo da Resistência, uma coligação militar informal, liderada pelo Irão, que reúne vários grupos rebeldes armados que lutam contra a influência dos Estados Unidos, Israel e aliados no Médio Oriente.

O estreito fica entre o Iémen, o Djibuti e a Eritreia e é usado por cerca de 20 mil navios por ano, que representam um quinto de todo o comércio mundial.

Desde que o Irão bloqueou Ormuz, por exemplo, tem sido usado pela Arábia Saudita como única via para exportar milhões de barris de petróleo.

Nos últimos dois anos, os houthis atacaram e sequestraram alguns navios na passagem por Bab El-Mandeb, mas agora ameaçam com ataques em grande escala, que podem obrigar ao fecho do estreito e que podem, mesmo, chegar aos navios que atravessam o Mar Vermelho.

A ameaça de eventual bloqueio surge poucas horas depois de o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter voltado a endurecer o discurso contra Teerão, incluindo referências a possíveis ataques a infraestruturas como centrais elétricas e pontes.

Neste domingo Ali Akbar Velayati, conselheiro do novo líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, afirmou neste domingo numa publicação em inglês na rede social X que Washington deve encarar esta passagem estratégica “como encara Ormuz”, sugerindo que poderá sofrer perturbações semelhantes às já registadas no Golfo Pérsico.

Um analista do Atlantic Council não tem dúvidas do que pode acontecer se Trump não terminar rapidamente esta guerra: "O regime iraniano demonstrou o imenso poder global que pode exercer ao fechar o Estreito de Ormuz e ao pressionar a economia mundial. Se Trump agravar a situação ao atacar a ilha iraniana de Kharg, de onde é exportado 90% do petróleo do Irão, ou atacar a infraestrutura energética regional, o Estreito de Bab el-Mandeb tornar-se-á uma via crucial para o regime demonstrar o seu poder. Não estamos numa situação em que os iranianos estejam a capitular, já que Trump também está desesperado para negociar", constatou Danny Citrinowicz, citado pelo El País.

Se isso acontecer, será mais um golpe severo para a economia mundial, com os navios obrigados a irem dar a volta pelo Cabo da Boa Esperança, na África do Sul, aumentando exponencialmente os custos de milhares de produtos essenciais.

sábado, 4 de abril de 2026

Miranda Sarmento quer taxar lucros extraordinários das empresas


Numa carta conjunta enviada este sábado à Comissão Europeia, o ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, defende a aplicação de uma taxa sobre os lucros extraordinários que as empresas de energia estão a ter com o conflito no Médio Oriente, também conhecidos como “lucros caídos do céu” (windfall profits).

De acordo com a Reuters, a carta é assinada pelos ministros das Finanças de Portugal, Itália, Espanha e Áustria e defende que “dadas as atuais distorções de mercado e restrições fiscais, a Comissão Europeia deve desenvolver rapidamente um instrumento de contribuição semelhante para toda a União Europeia, com uma base jurídica sólida.”

A guerra no Médio Oriente tem provocado um aumento significativo dos preços do petróleo e do gás e o grupo de responsáveis pela pasta das Finanças nos seus respetivos países considera que uma taxa “enviaria uma mensagem clara de que aqueles que lucram com as consequências da guerra devem fazer a sua parte para aliviar o fardo sobre o público em geral”.

A carta dirigida ao comissário europeu para o Clima, Wopke Hoekstra, não traz mais detalhes sobre a taxa que consideram ter de ser aplicada. Em setembro de 2022, para responder à crise energética que se seguiu à invasão da Ucrânia pela Rússia, a União Europeia chegou a acordo sobre um novo pacote de emergência que incluiu um imposto de 33% sobre os lucros excessivos das empresas de energia, uma contribuição que os líderes europeus queriam usar para financiar medidas para as famílias mais vulneráveis atingidas pela crise.

O regulamento europeu cingia-se, na altura, ao setor energético, mas o Governo português, então liderado pelo socialista António Costa, acabou por estender a contribuição temporária também à grande distribuição alimentar. Costa referiu-se a esta medida como um “esforço de solidariedade adicional”, fazendo c0m que os “eventuais lucros excedentários possam ser canalizados para apoiar a população mais desfavorecida”.

sexta-feira, 6 de março de 2026

Invasão do Irão - a complexa teia de conflitos no Médio Oriente: um contributo histórico e teológico


Este cartoon que circula na net é pura desinformação e demonstrativo que há muita ignorância sobre o Islamismo,  o papel dos EUA, Palestina, Irão e Israel e Arábia Saudita e o extremismo muçulmano.
Vamos por partes: 

O Irão era um país governado por xiitas. Uma minoria no mundo muçulmano. 

Geografia
O termo "países sunitas" geralmente se refere a nações onde a maioria da população muçulmana segue o Sunismo, que é o maior ramo do Islão (estimado em 85% a 90% de todos os muçulmanos do mundo).

Diferente do Xiismo, que tem uma concentração geográfica muito clara (principalmente Irão e Iraque), o Sunismo está distribuído por quase todo o mundo islâmico.

Principais países de maioria Sunita
Estes países são centros políticos, culturais ou demográficos do mundo sunita:
  1. Arábia Saudita: considerada o "berço do Islão", abriga Meca e Medina. É a principal potência sunita no Médio Oriente
  2. Indonésia: o país com a maior população muçulmana do mundo, predominantemente sunita.
  3. Egito: sede da Universidade de Al-Azhar, a instituição de ensino sunita mais prestigiada do mundo.
  4. Turquia: embora laico é uma potência regional com uma longa tradição histórica sunita (herança do Império Otomano).
  5. Paquistão: possui uma das maiores populações sunitas globais.
  6. Nigéria: tem a maior população muçulmana da África Subsariana, maioritariamente sunita.
  7. Palestinos são maioritariamente sunitas.
Além disso existem países onde os xiitas não são a maioria absoluta, mas controlam o destino da nação:
  1. Líbano: não há um censo oficial recente, mas estima-se que os xiitas sejam o maior grupo religioso individual (cerca de 30-35%). Através do Hezbollah, os xiitas exercem um poder militar e político que muitas vezes supera o do próprio estado libanês.
  2. Iémen: cerca de 35-42% da população é Zaidita (um ramo do xiismo, como discutimos sobre os Houthis). Eles controlam atualmente a capital, Sanaa, e grande parte do norte do país.
  3. Síria: o país é majoritariamente sunita (70%), mas é governado pela família Al-Assad, que pertence aos Alauítas (um ramo minoritário e místico do xiismo). Por serem uma minoria xiita governando uma maioria sunita, o Irão é o seu aliado mais vital para se manterem no poder.
As diferenças teológicas entre sunitas e xiitas
A divisão entre Sunitas e Xiitas é a maior e mais antiga cisão do Islão. Embora ambos partilhem os pilares fundamentais - como a crença em um único Deus (Allah), no Alcorão e no Profeta Muhammad — a divergência começou como uma disputa política de sucessão que, ao longo dos séculos, ganhou camadas teológicas profundas. A separação ocorreu logo após a morte do Profeta Muhammad em 632 d.C.
  1. Sunitas: acreditavam que o líder (Califa) deveria ser escolhido por consenso entre os membros da comunidade e os seus companheiros. Eles apoiaram Abu Bakr, um amigo próximo do Profeta.
  2. Xiitas: acreditavam que a liderança era um direito divino e deveria permanecer na linhagem direta do Profeta. Eles apoiaram Ali, primo e genro de Muhammad, afirmando que ele foi designado pelo próprio Profeta. 
Com o passar dos séculos, essa disputa política evoluiu para divergências teológicas fundamentais. A principal delas reside no conceito de Imã. Para os sunitas, o Imã é um líder religioso e de oração, um homem respeitável, mas sem poderes sobrenaturais ou infalibilidade. Já para os xiitas, o Imã é uma figura divinamente inspirada e infalível, que possui um conhecimento esotérico do Alcorão inacessível aos homens comuns. A vertente majoritária do xiismo acredita em uma linhagem de doze Imãs, sendo que o último teria entrado em ocultação e retornará no fim dos tempos como o Mahdi, o salvador da humanidade.

Essas visões de mundo também alteraram a estrutura de autoridade. O Islã sunita é historicamente menos hierarquizado, focando na interpretação de textos por diversos juristas. O Islão xiita, por sua vez, desenvolveu uma hierarquia clerical muito forte e organizada - como os Aiatolás no Irão - onde os fiéis buscam orientação em líderes vivos que representam a autoridade do Imã oculto. 
Até mesmo nos rituais há nuances: embora ambos rezem voltados para Meca e sigam os cinco pilares do Islão, os xiitas costumam tocar a testa numa pequena pedra de argila (turbah) durante a prece e celebram datas de martírio, como a Ashura, com uma intensidade emocional e ritualística que não existe no mundo sunita.

Os Houthis (oficialmente conhecidos como Ansar Allah) trazem uma camada extra de complexidade a essa conversa. Eles são muçulmanos, mas pertencem a um ramo específico e diferente do que discutimos até agora.

Aqui está o "RX" religioso e político dos Houthis:
1. Eles são Xiitas, mas "Diferentes"
Os Houthis pertencem ao Zaidismo (ou Xiismo de Cinco Imames).O que isso significa? O Zaidismo é um ramo do xiismo que existe quase exclusivamente no Iémen.
Proximidade com os Sunitas: teologicamente, os zaiditas são considerados o ramo do xiismo mais próximo dos sunitas. Eles não acreditam na infalibilidade dos Imames da mesma forma que os xiitas do Irão (Duodecimanos) e não partilham a mesma hierarquia clerical rígida.
2. A Relação com o Irão
Embora os Houthis sejam zaiditas e os iranianos sejam xiitas duodecimanos, eles se tornaram aliados próximos por razões estratégicas- O "Eixo de Resistência": O Irão fornece armas, drones e treino aos Houthis.
Inimigo Comum: Ambos se opõem fortemente à influência dos EUA e da Arábia Saudita (que faz fronteira com o Iémen e interveio militarmente contra os Houthis).

Onde eles se encaixam no mapa que montamos?

Para facilitar a visualização de quem é quem nas alianças atuais:

Grupo radical/País

Ramo Religioso

Principal Aliado

Hamas (Palestinos)

Sunita

Irão (Apoio financeiro/militar)

Hezbollah (Líbano)

Xiita (Duodecimano)

Irão (Alinhamento total)

Houthis (Iémen)

Xiita (Zaidita)

Irão (Apoio militar/logístico)

ISIS e Al-Qaeda (Arábia Saudita)

Sunita 

EUA / Países do Golfo


Curiosidade: o Lema Houthi
Se você vir imagens dos Houthis, verá frequentemente uma bandeira com frases escritas em árabe (o Sarkha). O lema deles é bastante agressivo e reflete sua ideologia política: "Deus é o maior, morte à América, morte a Israel, maldição sobre os judeus, vitória para o Islão".

Política e gestão estratégica petróleo e nuclear
Na política do Médio Oriente, prevalece a regra de que o inimigo do meu inimigo é meu amigo. A Arábia Saudita, de liderança sunita, e o Irão, de maioria xiita, disputam a hegemonia da região há décadas, e o Irão é visto pelos sauditas como uma ameaça muito mais direta e existencial do que Israel. Como Israel também é o maior adversário do Irão, a Arábia Saudita e Israel tornaram-se aliados informais, trocando inteligência e cooperação militar de forma discreta para conter a influência iraniana.

Somado a isso, há a aliança estratégica com os Estados Unidos, já que a Arábia Saudita é um dos maiores parceiros americanos no mundo e o seu exército é quase inteiramente equipado com tecnologia dos EUA. Como Israel é o aliado número um de Washington, uma invasão saudita a Israel seria um suicídio diplomático e militar, pois os Estados Unidos cortariam todo o apoio à monarquia e possivelmente interviriam para proteger o Estado judeu.

O Paquistão consolida-se como uma das nações mais complexas do cenário global, sendo o país com a segunda maior população muçulmana do mundo, atrás apenas da Indonésia. Sua identidade é intrinsecamente ligada ao Islão, tendo sido fundado em 1947 como um refúgio para os muçulmanos do subcontinente indiano — um projeto liderado por Muhammad Ali Jinnah, que, curiosamente, era de origem xiita. Embora o país tenha nascido sob um ideal de união muçulmana contra o domínio britânico e a maioria hindu da Índia, a realidade interna contemporânea é marcada por uma profunda divisão sectária. A vasta maioria da população (cerca de 80-85%) é sunita, predominantemente da escola Hanafi e dividida entre os tradicionais Barelvi e os rigorosos Deobandi. No entanto, o Paquistão também abriga a segunda maior comunidade xiita do planeta (10-15%), o que representa um contingente expressivo de até 30 milhões de pessoas.

Essa composição demográfica coloca o Estado em uma posição diplomática delicada, funcionando como um pêndulo entre as influências da Arábia Saudita e do Irão. Enquanto os sauditas atuam como pilares económicos, fornecendo petróleo e suporte financeiro, o Irã é um vizinho geográfico direto com o qual o Paquistão precisa manter uma estabilidade fronteiriça pragmática. Essa dualidade frequentemente transborda para conflitos internos, onde grupos radicais sunitas realizam ataques sectários alimentados por rivalidades externas. O que eleva drasticamente o peso dessa instabilidade interna é o fato de o Paquistão ser a única nação do mundo islâmico a possuir um arsenal nuclear comprovado, o que torna sua segurança institucional uma prioridade de vigilância global.

Diferente de Estados laicos, a "República Islâmica" integra a Sharia em seu sistema judicial e exige constitucionalmente que seus líderes máximos sejam muçulmanos. Em 2026, o desafio do país permanece o mesmo: equilibrar uma economia fragilizada e as pressões de grupos extremistas internos com a responsabilidade de ser uma potência nuclear em uma das regiões mais voláteis do mapa. A manutenção deste equilíbrio é o que define não apenas a sobrevivência do Estado paquistanês, mas a própria segurança regional no Sul da Ásia.

Neste cenário de equilíbrios delicados, a Turquia desempenha um papel de "irmã estratégica" e modelo político alternativo. Ao contrário do modelo teocrático iraniano ou da monarquia absoluta saudita, a Turquia — historicamente laica, mas sob uma liderança que busca resgatar o prestígio islâmico — oferece ao Paquistão uma parceria baseada na cooperação militar e tecnológica. Ancara é um dos principais fornecedores de hardware militar para Islamabad (incluindo navios de guerra e drones), ajudando o Paquistão a modernizar suas defesas sem depender exclusivamente do Ocidente ou da China. Além disso, a Turquia utiliza o "soft power" cultural, como suas produções televisivas de temática histórica islâmica, para fortalecer laços com a juventude paquistanesa, promovendo uma visão de liderança sunita moderna e resiliente.

Essa aproximação com a Turquia permite ao Paquistão reduzir sua dependência histórica de Riade, embora os sauditas continuem sendo os principais financiadores económicos e fornecedores de petróleo. Enquanto o Irã permanece como um vizinho geográfico que exige uma convivência pragmática para evitar conflitos de fronteira, a Turquia surge como o parceiro ideal para o desenvolvimento industrial e a projeção de voz nos fóruns internacionais. Em 2026, o desafio do governo paquistanês é navegar por esse triângulo de potências (Arábia Saudita, Irão e Turquia) enquanto gere uma economia fragilizada e garante que seu poderio nuclear permaneça sob controle firme, evitando que as tensões sectárias internas alimentadas por rivalidades externas desestabilizem o Estado.

Israel, Arábia Saudita e Estados Unidos
Atualmente, o foco saudita mudou sob a liderança do Príncipe Herdeiro Mohammed bin Salman, que lançou o plano Visão 2030 para modernizar a economia e reduzir a dependência do petróleo. Ele sabe que uma guerra regional destruiria os planos de atrair turistas e empresas de tecnologia, pois a estabilidade é melhor para os negócios do que o conflito ideológico. Esse caminho da diplomacia ficou evidente com os Acordos de Abraão, onde a Arábia Saudita estava muito perto de reconhecer oficialmente Israel antes do conflito em Gaza em 2023. Para os sauditas, a causa palestina funciona hoje mais como uma ferramenta de negociação para obter concessões do que como um motivo real para uma guerra aberta.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

A UE tem um novo grande plano: substituir combustíveis fósseis por árvores. Nem todos gostam


Substituir o petróleo e o gás por biomassa produzida internamente irá reforçar a autonomia estratégica e reduzir emissões, defende Bruxelas. A UE “agarra-se à ilusão” de que é possível fazê-lo sem causar “danos sérios e imediatos” que isso acabará por infligir às pessoas e à natureza, sustentam alguns críticos.

A Comissão Europeia apresentou um novo plano para pôr fim ao domínio na economia dos combustíveis fósseis que aquecem o planeta — e substituí-los por árvores.

A chamada Estratégia para a Bioeconomia, divulgada na passada quinta-feira, pretende substituir os combustíveis fósseis usados atualmente em produtos como plásticos, materiais de construção, químicos e fibras por materiais orgânicos que voltam a crescer, como árvores e culturas agrícolas.

“A bioeconomia encerra oportunidades enormes para a nossa sociedade, economia e indústria, para os nossos agricultores, silvicultores e pequenas empresas, e para o nosso ecossistema”, afirmou na quinta-feira a responsável máxima da UE para o Ambiente, Jessika Roswall, citada pelo Politico.

No centro da estratégia está o carbono, o bloco de construção fundamental de uma vasta gama de produtos manufaturados, e não apenas da energia. Quase todo o plástico, por exemplo, é feito de carbono, e atualmente a maior parte desse carbono provém do petróleo e do gás natural.

Mas os combustíveis fósseis têm duas grandes desvantagens: poluem a atmosfera com CO₂ que aquece o planeta e são, em grande medida, importados de fora da UE, comprometendo a autonomia estratégica do bloco europeu.

A estratégia para a bioeconomia pretende responder a ambas as desvantagens, recorrendo a biomassa rica em carbono produzida localmente ou reciclada, em vez de combustíveis fósseis importados.

O propõe-se fazê-lo através da fixação de metas em legislação relevante, como as leis europeias sobre resíduos de embalagens, facilitando o acesso das startups da bioeconomia ao financiamento, harmonizando o quadro regulatório e incentivando novas fontes de biomassa.

A estratégia, com 23 páginas, é parca em promessas legislativas ou de financiamento, apoiando-se sobretudo em leis e fundos já existentes. Ainda assim, foi saudada pelos setores que poderão beneficiar de um mercado mais alargado para materiais de origem biológica.

“A indústria florestal acolhe favoravelmente a abordagem da Comissão em matéria de bioeconomia orientada para o crescimento”, afirmou a diretora-geral da Swedish Forest Industries Federation, Viveka Beckeman.

A responsável sublinhou ainda a necessidade de “reforçar o uso da biomassa como um recurso estratégico que beneficia não só a transição ecológica e os nossos objetivos climáticos comuns, mas também a segurança económica no seu conjunto”.

Quão renovável é, afinal?
Mas os ambientalistas receiam que Bruxelas esteja entusiasmada demais com a motosserra. As árvores não crescem de um dia para o outro, e a pressão sobre os ecossistemas naturais já é insustentavelmente elevada.

Relatórios científicos mostram que a quantidade de carbono armazenada nas florestas e solos da UE está a diminuir, que os habitats naturais do bloco se encontram em mau estado e que a biodiversidade se está a perder a um ritmo sem precedentes.

A proteção das florestas europeias também deixou de ser prioridade para muitos legisladores da UE. A emblemática lei europeia contra a desflorestação enfrenta atualmente um segundo adiamento, de um ano, após uma votação no Parlamento Europeu esta semana.

Em outubro, o Parlamento votou ainda a favor da revogação de uma lei destinada a monitorizar o estado de saúde das florestas europeias, para reduzir a burocracia.

Os ambientalistas avisam que o bloco pode pura e simplesmente não dispor de biomassa suficiente para responder ao aumento da procura.

“Em vez de definir uma estratégia que confronte a excessiva procura de recursos da Europa, a Comissão agarra-se à ilusão de que podemos simplesmente substituir o nosso atual consumo por matérias-primas de base biológica, ignorando os danos sérios e imediatos que isso acabará por infligir às pessoas e à natureza”, afirmou Eva Bille, responsável pela economia circular no European Environmental Bureau (EBB), em comunicado citado pelo Politico.

Madeira a mais para ser verdade
Os grupos ambientalistas querem que a Comissão dê prioridade à utilização dos recursos biológicos em produtos de longa duração, como a construção, em vez de usos de menor valor ou de curta duração, como embalagens descartáveis ou combustíveis.

Uma primeira versão preliminar da proposta, obtida pelo Politico, alimentou alguma esperança entre as organizações ambientais.

O texto destacava novas oportunidades para materiais sustentáveis de base biológica, mas avisava também que as “fontes de biomassa primária devem ser sustentáveis e a pressão sobre os ecossistemas deve ser consideravelmente reduzida” — para garantir que essas oportunidades se mantêm a longo prazo.

Dizia ainda que a Comissão trabalharia na “desincentivação da combustão ineficiente de biomassa”, substituindo-a por outros tipos de energias renováveis.

Essa formulação desagradou aos lóbis industriais.
Craig Winneker, diretor de comunicação da ePURE, o lóbi do etanol, queixou-se de que a linguagem do documento “prossegue uma tradição infeliz, em alguns setores da Comissão, de ignorar completamente a forma como os biocombustíveis sustentáveis são produzidos na Europa”, argumentando que essa energia “é, na verdade, um coproduto, a par dos alimentos, das rações e do CO₂ biogénico“.

Agora, essas referências ao compromisso de reduzir a pressão ambiental e de desincentivar a combustão ineficiente de biomassa desapareceram.

“A bioenergia continua a desempenhar um papel na segurança energética, particularmente quando utiliza resíduos, não aumenta a poluição da água e do ar e complementa outras energias renováveis”, lê-se na versão final do texto.

“Esta é uma omissão crucial, dado que a produção e o consumo insustentáveis da UE já ultrapassam em muito os limites ecológicos, colocando em risco pessoas, natureza e empresas”, criticou o EEB.

Delara Burkhardt, eurodeputada do grupo dos Socialistas e Democratas, considerou “positivo que a estratégia reconheça a necessidade de abastecer a biomassa de forma sustentável”, mas acrescentou que a proposta não aborda a questão da suficiência.

“Limitar-se a substituir materiais fósseis por materiais de base biológica, mantendo os atuais níveis de consumo, corre o risco de aumentar a pressão sobre os ecossistemas. Isso desloca os problemas em vez de os resolver. Precisamos de reduzir o uso global de recursos, não apenas de mudar a sua origem”, afirmou.

Roswall recusou comentar o rascunho anterior na conferência de imprensa de quinta-feira. “Acho que precisamos de aumentar os recursos de que dispomos, e é isso que esta estratégia procura fazer”, disse.

domingo, 28 de setembro de 2025

Colonialismo Verde - transição energética enriquece bilionários e devasta países do Sul, segundo a Oxfam


Os minerais para a transição energética, extraídos no Sul Global, estão a ser monopolizados pelos ultra-ricos do Ocidente, denuncia a Oxfam num relatório. Esta prática reforça padrões coloniais destrutivos.

Libertar os hidrocarbonetos do nosso quotidiano e voltar a nossa atenção para as energias renováveis. Este é o objectivo da transição energética, defendido e incentivado durante muitos anos em resposta à crise climática. No entanto, para promover esta transformação do sistema, são necessários minerais — lítio, cobalto, níquel e cobre —. E embora 70% deles se encontrem no subsolo do Sul Global, grande parte dos lucros acaba nos bolsos do 1% mais rico.

A 24 de setembro, a Oxfam divulgou um relatório que esclarece o funcionamento interno deste poderoso negócio. Segundo a ONG, os ultra-ricos — indivíduos, empresas e governos — estão a apropriar-se da transição em detrimento das comunidades de baixo rendimento. Não se trata de abandonar a lógica capitalista ou de questionar o consumo excessivo de energia. Também não se trata de imaginar uma partilha adequada dos lucros obtidos com os povos locais, que suportam o peso das repercussões nefastas da exploração mineira.

"Estes projetos envolvem frequentemente violência, trabalho forçado e danos ambientais."
Nesta corrida frenética aos minerais, os países do Sul Global estão a ver os seus recursos serem roubados e as suas terras confiscadas por multinacionais. "Estes projetos envolvem frequentemente violência, trabalho forçado e danos ambientais, e são implementados sem o consentimento das comunidades que vivem nos países em questão", escrevem os autores. Acrescentam: "Por outras palavras, a dinâmica que deu origem ao colonialismo histórico está a ressurgir em novas formas com a transição ecológica."

De acordo com o estudo da Oxfam, 60% dos territórios reconhecidos como terras indígenas estão ameaçados por projetos relacionados com a transição energética. Isto equivale à área total do Brasil, dos Estados Unidos e da Índia ou o dobro do tamanho do império colonial francês no seu auge. "Sem uma reforma urgente para proteger os direitos e os territórios, a transição apenas reforçará os padrões de mais de 500 anos de colonialismo energético, escravatura e exploração de biomassa na era do carvão e do petróleo", lamenta a Oxfam.

Tesla, a personificação do colonialismo verde
Uma alavanca fundamental na descarbonização do sector dos transportes, a conversão das frotas de veículos ocidentais para a energia eléctrica é uma clara ilustração deste desequilíbrio. Por um lado, as comunidades suportam os custos desta transição. Por outro, um bilionário vê o seu portefólio impulsionado pela crise climática.

Em 2024, a Tesla, propriedade do homem mais rico do mundo, Elon Musk, registou 5,63 mil milhões de dólares em lucros com a venda destes veículos elétricos. Ao mesmo tempo, a República Democrática do Congo recebeu apenas 17,5 milhões de dólares em royalties pelas enormes quantidades de minerais fornecidas para construir cada um destes automóveis — 3 quilogramas de cobalto por veículo.

A diferença é ainda mais abismal entre a fortuna do oligarca e o salário de uma pessoa que trabalha nas minas, estimado em 7 dólares por dia: "[Isto] significa que ele levaria quase dois anos a ganhar o que a Tesla ganha com um único carro", observam os autores.

França também envolvida
Elon Musk, que fez a saudação nazi no início deste ano, não é o único a lucrar à custa do Sul Global. A multinacional francesa TotalEnergies também utiliza esta estratégia. Em 2024, a sua subsidiária maioritária, a TE H2, lançou um projeto denominado Chbika em Marrocos. O objetivo? Desenvolver um gigawatt de capacidade solar e eólica onshore para alimentar a produção — através da eletrólise da água do mar dessalinizada — de hidrogénio verde, posteriormente transformado em amoníaco verde destinado ao mercado europeu.

Embora o conceito possa parecer obscuro, a intenção final é simples: fornecer à União Europeia recursos renováveis. Este visa atingir os objectivos definidos pelo plano REPowerUE, que visa reduzir a sua dependência dos combustíveis fósseis russos até 2027. Ou seja, Marrocos — bem como outros países do Sul Global, que detêm 70% do potencial eólico e solar do mundo — está excluído da transição devido à falta de financiamento acessível.

Mecanismos Financeiros Coloniais
"A arquitectura financeira internacional é [além disso] igualmente desequilibrada, uma vez que, moldada por séculos de poder colonial, continua a aprisionar os países de baixo rendimento numa dependência estrutural", refere o relatório. Quando um país rico investe num projecto de energia limpa, beneficia de taxas de juro de 3 a 6%. Por outro lado, quando o cliente é um país do Sul, os bancos inflacionam estas taxas para 13,5%. Por outras palavras, fornecer energia limpa a 100.000 pessoas custa 95 milhões de dólares ao Reino Unido mas 188 milhões de dólares à Nigéria. Esta diferença de tratamento justifica-se por uma percepção distorcida do risco, afirma o relatório, moldada por décadas de estereótipos negativos.

Os dados estão também viciados pela espiral da dívida em que as elites poderosas mergulharam os mais vulneráveis. "Os países ditos 'em desenvolvimento' têm uma dívida externa de 11,7 biliões de dólares, mais de 30 vezes o custo estimado para garantir o acesso universal à energia limpa até 2030", alerta a Oxfam. Esta espada de Dâmocles é um enorme obstáculo à sua transição energética.

Uma única estatística basta para demonstrar o absurdo da situação: 14% da energia consumida pelo 1% mais rico do planeta poderia satisfazer as necessidades energéticas básicas de todos aqueles sem electricidade. A grande maioria destas pessoas vive na África Subsariana. No entanto, em 2024, o continente terá captado apenas 2% do investimento global em energia limpa. Uma triste ironia que a Oxfam esteja a pedir o fim.

quarta-feira, 28 de maio de 2025

Combustíveis fósseis: Bruxelas diz que Portugal não cumpriu recomendações


Portugal não cumpriu as recomendações da Comissão Europeia para eliminar subsídios aos combustíveis fósseis até 2030, ser mais ambicioso na eficiência energética e responder às necessidades de investimento na transição climática.

A Comissão Europeia concluiu que Portugal "não respondeu" a três recomendações, incluindo a de eliminar subsídios aos combustíveis fósseis.

"O plano reconhece a necessidade de eliminar os subsídios aos combustíveis fósseis até 2030, em conformidade com os compromissos internacionais, mas não apresenta medidas específicas nem um cronograma claro para tal", assinala a instituição.

Além disso, apesar de o plano português incluir metas sobre a eficiência energética, o país "não aumentou o nível de ambição", critica Bruxelas.

Já quanto ao financiamento da transição energética e climática, o plano de Portugal "não apresenta dados sobre necessidades de investimento", nem "explica como as medidas irão mobilizar investimentos privados", não incluindo uma "divisão entre investimento público e privado".

A Comissão Europeia pede que Portugal garanta "uma implementação atempada e completa" de um novo plano energético.

"A UE está atualmente no caminho para reduzir as emissões líquidas de gases com efeito de estufa em cerca de 54% até 2030, caso os Estados-membros implementem plenamente as medidas nacionais existentes e planeadas, bem como as políticas da UE", concluiu a Comissão Europeia.

A meta da UE é reduzir as emissões líquidas de gases com efeito de estufa em pelo menos 55% face a 1990, alcançar pelo menos 42,5% de energias renováveis no consumo final bruto de energia e melhorar a eficiência energética em pelo menos 11,7%.

sexta-feira, 18 de abril de 2025

Documentário de Werner Herzog - Lessons of Darkness (German: Lektionen in Finsternis)


É um filme de 1992 do realizador Werner Herzog.
Filmado em estilo documental em película de 16 milímetros, a partir da perspectiva de um observador quase alienígena, o filme é uma exploração dos campos petrolíferos devastados do Kuwait pós-Guerra do Golfo, descontextualizados e caracterizados de forma a enfatizar a estranheza cataclísmica do terreno.

Um companheiro eficaz para o seu filme anterior Fata Morgana, Herzog volta a perceber o deserto como uma paisagem com uma voz própria.

Uma coprodução com Paul Berriff, o filme foi financiado pelos estúdios de televisão Canal+ e Première.
Toda a informação aqui

Lessons of Darkness (Lektionen in Finsternis, 1992) é um dos documentários mais marcantes e estilizados do diretor alemão Werner Herzog. Em vez de adotar o tom jornalístico ou político tradicional dos meios de comunicação, Herzog aborda a destruição devastadora do Kuwait pós-Guerra do Golfo sob a perspectiva de uma ficção científica apocalíptica e poética.

A obra retrata os cenários desolados do Kuwait logo após o fim da Guerra do Golfo, quando centenas de poços de petróleo foram incendiados pelas forças iraquianas em retirada. Dividido em 13 capítulos, o filme quase não possui diálogos informativos ou dados geopolíticos. A narração hipnótica do próprio Herzog descreve a Terra como um planeta alienígena que sofreu uma catástrofe desconhecida. Através de planos aéreos majestosos, trilha sonora erudita com composições de Mahler, Wagner, Verdi e Grieg, e imagens impressionantes de bombeiros tentando conter os incêndios gigantescos, o filme transforma um desastre ecológico real em uma meditação sobre a autodestruição humana.

A inspiração real para a produção veio diretamente das notícias e coberturas televisivas do conflito entre 1990 e 1991. Durante a Operação Tempestade no Deserto, as tropas de Saddam Hussein incendiaram cerca de 700 poços de petróleo como tática de terra arrasada. Herzog viajou ao Kuwait imediatamente após o encerramento dos combates para registrar o cenário antes que o fogo fosse extinguido. No entanto, recusou o formato dos telejornais da época, como a cobertura em tempo real da CNN, optando por desprovê-lo de dados contextuais imediatos para elevá-lo a uma dimensão mítica e universal.

Para moldar essa atmosfera, Herzog utilizou diversas referências literárias, bíblicas e poéticas. O filme abre com uma citação impactante atribuída ao filósofo francês Blaise Pascal: "O colapso dos universos estrelados ocorrerá suavemente, como a criação, na grandiosa desolação". No entanto, Herzog admitiu posteriormente ter inventado a frase, utilizando-a como um recurso para preparar o público para o tom do filme - um exemplo prático do que o diretor conceitua como "Verdade Extática", onde a estilização ou fabricação de fatos busca alcançar uma verdade poética mais profunda. A estrutura narrativa evoca o tom profético do livro do Apocalipse, enquanto a estética se aproxima da ficção científica distópica de autores como H.G. Wells e J.G. Ballard, retratando os bombeiros e trabalhadores não como técnicos contemporâneos, mas como seres de um mundo agonizante.

sábado, 14 de dezembro de 2024

África

África. É bom lembrar como era a realidade ainda não há muito tempo. Hoje por outros meios, o processo de esbulho das suas riquezas e populações procura perpetuar a mesma realidade.
Em 1913, a 20 de outubro, a Inglaterra fez um acordo com a Alemanha para eles ficarem com Angola e Moçambique. Se os alemães não tivessem cheios de vontade de começar uma guerra com a Rússia antes de esta se tornar demasiado forte para eles, esse mapa seria muito diferente.

terça-feira, 26 de novembro de 2024

Richard Flanagan


Richard Flanagan, vencedor do prémio Baillie Gifford de não ficção pelo seu livro Questão 7, disse não aceitar o prémio de £ 50.000 enquanto o patrocinador não reduzir os seus investimentos em combustíveis fósseis e investir nas renováveis. A empresa de gestão de investimentos Baillie Gifford tem sido alvo de controvérsia nos últimos anos não só devido aos seus investimentos em combustíveis fósseis mas também por se relacionar com empresas ligadas a Israel.

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

COP29: Desastre total


Ativistas e ambientalistas criticam acordo financeiro frágil na COP29. Greta Thunberg: “A decisão da COP29 é um desastre completo. As pessoas no poder estão mais uma vez prestes a concordar com uma sentença de morte para as inúmeras pessoas cujas vidas foram e serão arruinadas pela crise climática. O texto está cheio de falsas soluções e promessas vazias”. Claudio Angelo, do Observatório do Clima: “O acordo de financiamento fechado em Baku distorce a UNFCCC e subverte qualquer conceito de justiça. Com a ajuda de uma presidência incompetente, os países desenvolvidos conseguiram mais uma vez abandonar suas obrigações e fazer os países em desenvolvimento literalmente pagarem a conta”. Tasneem Essop, da Climate Action Network, acusou os países desenvolvidos de má-fé nas negociações em torno do financiamento climático: “Esta deveria ser a COP das finanças, mas o Norte Global apareceu com um plano para trair o Sul Global. No final, assistimos à mesma história, com os países em desenvolvimento ficando com pouca opção a não ser aceitar um acordo ruim”. Tracy Carty, da Greenpeace International: “A nova meta é uma amarga decepção. US$ 300 biliões anuais até 2035 é muito pouco, muito tarde. Essa meta de financiamento não vem com nenhuma garantia de que não será entregue por meio de empréstimos ou financiamento privado, em vez do financiamento público baseado em subsídios os quais os países em desenvolvimento precisam desesperadamente”. Fonte.

Um delegado da Arábia Saudita foi acusado de fazer alterações diretas a um texto oficial de negociação da COP29, diz o Guardian: “As presidências das COP costumam distribuir os textos de negociação como documentos PDF não editáveis a todos os países em simultâneo, sendo depois discutidos. No sábado, a presidência do Azerbaijão fez circular um documento com atualizações ao texto de negociação sobre o programa de trabalho para uma transição justa (JTWP). Este programa tem por objetivo ajudar os países a avançar para um futuro mais limpo e mais resistente, reduzindo simultaneamente as desigualdades. O documento foi enviado com ‘alterações registadas’ em relação à versão anteriormente distribuída. Em dois casos, o documento mostrava que as alterações tinham sido feitas diretamente por Basel Alsubaity, que pertence ao Ministério da Energia saudita e é o líder do JTWP.Namíbia aproveita a cimeira sobre o clima COP29 para promover investimentos em petróleo e gás. Fonte.

terça-feira, 29 de outubro de 2024

Novo relatório da Oxfam alerta que cinquenta dos bilionários mais ricos do mundo produzem mais poluição por carbono em 90 minutos do que a pessoa média em toda a sua vida



BREAKING: Fifty of the world’s richest billionaires produce more carbon pollution in 90 minutes than the average person does in their entire
lifetime. Oxfam’s new report exposes the luxury-driven lifestyles of the super-rich as a key driver of the climate crisis. Private jets, superyachts, and fossil fuel investments are pushing us closer to a global catastrophe. This isn’t just about lavish living—it’s about the future of our planet.

domingo, 23 de junho de 2024

Milhares de pessoas marcham em Londres pela proteção da natureza e do clima


Londres, 22 jun 2024 (Lusa) - Milhares de pessoas participaram hoje numa manifestação em Londres, promovida por organizações como a Extinction Rebellion (XR) e o World Wide Fund for Nature (WWF), para apelar aos políticos para que atuem pela natureza e pelo clima.

Esta manifestação acontece a menos de duas semanas das eleições legislativas de 04 de julho no Reino Unido. Segundo as recentes sondagens, os trabalhistas estão amplamente em vantagem, prevendo-se, assim, uma pesada derrota para os conservadores, no poder há 14 anos.

A atriz britânica Emma Thompson e o naturalista e apresentador britânico Chris Packham ocuparam os lugares da frente na marcha realizada em Londres, pedindo para se “restaurar a natureza agora”.

Chris Packham explicou que esta é a primeira vez que organizações tão diferentes se unem para uma manifestação, dando como exemplo o National Trust (Fundo Nacional para Locais de Interesse Histórico ou Beleza Natural), que defende a herança britânica, e o grupo ativista ambiental Just Stop Oil, representado por ecologistas que são muito controversos pelas ações contundentes que realizam.

Fazendo-se notar de forma muito colorida, a manifestação decorreu num ambiente de boa disposição, num percurso desde Hyde Park até ao parlamento, em Westminster.

Entre a multidão de manifestantes, que vieram de várias zonas do Reino Unido, havia muitos fantasiados de animais, incluindo girafas e ursos.

“Não há vida sem vida selvagem” e “Não há botão para começar do zero” eram algumas das mensagens dos cartazes erguidos na manifestação.

Em declarações à agência de notícias France-Presse (APF), a atriz britânica Emma Thompson dirigiu-se aos políticos: “Parem de ser tão profundamente irresponsáveis”.
“Não acredito na falta de compromisso deles” com o clima durante a campanha eleitoral, criticou a atriz, que é ativista ambiental, alertando que o planeta está “no meio da tempestade”, manifestando “surpresa ao ver quanta negação ainda existe”.

Emma Thompson disse que apoia o grupo Just Stop Oil, do qual dois ativistas pulverizaram, na quarta-feira, tinta nos monólitos do famoso sítio pré-histórico inglês de Stonehenge.

O Just Stop Oil reclama o fim da exploração de combustíveis fósseis até 2030.

“Penso que apoio todos os que estão a liderar este combate extraordinário”, disse Emma Thompson, defendendo que não se pode mais extrair petróleo do solo.

O naturalista e apresentador britânico Chris Packham disse não estar muito impressionado com o conteúdo dos programas dos vários partidos políticos britânicos.

“Quando se trata de enfrentar os verdadeiros grandes problemas, não há substância, compromisso ou determinação para enfrentá-los, e isso é realmente dececionante”, criticou Chris Packham

quinta-feira, 13 de junho de 2024

Invasão russa lançou mais 175 milhões de toneladas de CO2 para atmosfera


Bruxelas, 13 jun 2024 (Lusa) - Dois anos de conflito na Ucrânia devido à invasão pela Rússia lançaram mais 175 milhões de toneladas de dióxido de carbono para a atmosfera, o equivalente às emissões anuais de 90 milhões de automóveis, segundo um relatório divulgado hoje.

De acordo com o relatório, divulgado por uma iniciativa para a contabilização das emissões de gases com efeito estufa em guerra, com o patrocínio do Ministério da Proteção Ambiental e Recursos Naturais da Ucrânia, para a emissão adicional de 175 milhões de toneladas de dióxido de carbono contribuíram “milhares de milhões de litros de combustível utilizados pelos veículos militares, aproximadamente um milhão de hectares de terrenos e florestas incendiados, centenas de estruturas de petróleo e gás destruídas e grandes quantidades de ferro e betão utilizados para fortificar as linhas defensivas ao longo de centenas de quilómetros".

O documento dá conta de que de que estas emissões, comparáveis às produzidas por 90 milhões de automóveis em apenas um ano, aumentam em 32 mil milhões de euros as reparações que estão a ser imputadas a Moscovo para reconstruir a Ucrânia depois da guerra.

Os dados foram recolhidos em grande parte com recurso a informações de satélite do Governo da Ucrânia e outros publicamente disponíveis, já que a verificação no terreno está dificultada e em alguns casos impossibilitada pelas operações militares.

“As imagens de satélite demonstram que houve pelo menos 27.000 incêndios” desde o início da invasão russa e 150 milhões de metros cúbicos de gás desapareceram por causa da ofensiva russa no território ucraniano.

O relatório também dá conta das consequências de desviar voos que atravessavam o território ucraniano e russo desde 24 de fevereiro de 2022, que terão contribuído para mais horas de voo e mais consumo de combustível.

Os investigadores que participaram no estudo alertam também que o aumento do investimento em defesa acarreta consequências ambientais, assim como o transporte de armamento.

quarta-feira, 5 de junho de 2024

Guterres pede medidas urgentes para próximos 18 meses contra “inferno climático”


O secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou esta quarta-feira que o planeta se aproxima do "inferno climático", instando os líderes mundiais a tomar medidas nos próximos 18 meses para "criar pontos de viragem" e livrar as populações do desastre.

No Dia Mundial do Meio Ambiente, Guterres fez um discurso no Museu Americano de História Natural de Nova Iorque, e, num "momento de verdade", expôs os limites climáticos que o planeta já ultrapassou e o que as empresas e os países - especialmente o G7 e o G20 - precisam de fazer durante os próximos 18 meses para permitir um futuro habitável para a humanidade. 

"Hoje é o Dia Mundial do Meio Ambiente. É também o dia em que o Serviço de Alterações Climáticas Copernicus da Comissão Europeia reporta oficialmente maio de 2024 como o mês mais quente de que há registo. Isto marca 12 meses consecutivos dos meses mais quentes de todos os tempos", disse.

"No ano passado, cada viragem do calendário aumentou a temperatura. O nosso planeta está a tentar dizer-nos algo. Mas parece que não estamos a ouvir", lamentou.

Aproveitando a localização do evento, Guterres fez uma comparação com o período em que um meteoro varreu os dinossauros do planeta, advogando que o mundo vive também agora um impacto "descomunal". Com uma diferença: "No caso do clima, nós não somos os dinossauros. Nós somos o meteoro", frisou. "Não estamos apenas em perigo. Nós somos o perigo. Mas também somos a solução", defendeu.

O ex-primeiro-ministro português alertou que, a este ritmo, todo o orçamento de carbono (o dióxido de carbono que pode ser emitido antes que o aquecimento global de 1,5°C seja inevitável) será destruído antes de 2030.

A Organização Meteorológica Mundial informou esta quarta-feira que há 80% de probabilidade de a temperatura média anual global exceder o limite de 1,5 graus em pelo menos um dos próximos cinco anos.

Em 2015, a probabilidade de tal acontecer "era próxima de zero", sublinhou o líder da ONU.

"Estamos a jogar à roleta russa com o nosso planeta. Precisamos de uma rampa de saída do inferno climático. E a verdade é que temos o controlo da roda. O limite de 1,5 graus ainda é possível", advogou Guterres, que tem na agenda climática uma das prioridades do seu mandato.

Explicando a importância em torno do limite de 1,5 graus, António Guterres indicou que o planeta é uma massa de sistemas complexos e conectados e que cada fração de grau de aquecimento global conta.

"A diferença entre 1,5 e dois graus pode ser a diferença entre a extinção e a sobrevivência de alguns pequenos Estados insulares e comunidades costeiras. (...) 1,5 graus não é uma meta. Não é um objetivo. É um limite físico", reforçou.

Num discurso duro em que usou uma dezena de vezes a palavra "verdade", o secretário-geral observou que a batalha pelo limite de 1,5 graus será vencida ou perdida na década de 2020, sob a vigilância dos líderes atuais.

Colocando a pressão sobre os líderes, Guterres sublinhou que "tudo dependerá das decisões que tomarem - ou deixarem de tomar - especialmente nos próximos dezoito meses".

Entre as medidas urgentes que devem ser tomadas no próximo ano e meio, o secretário-geral da ONU apontou a redução das emissões, a proteção das pessoas e da natureza dos extremos climáticos, o aumento do financiamento climático, e a repressão à indústria de combustíveis fósseis.

Na prática, Guterres instou, entre outros pontos, que o G7 e outros países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) se comprometem a acabar com o carvão até 2030 e criar sistemas de energia livres de combustíveis fósseis e reduzir a oferta e a procura de petróleo e gás em 60% até 2035.

Apelou também às instituições financeiras para que comecem a investir numa revolução global das energias renováveis e instou todos os países a proibirem a publicidade de empresas de combustíveis fósseis.

O líder das Nações Unidas criticou ainda o facto de os menos responsáveis pela crise climática serem os mais atingidos: "as pessoas mais pobres; os países mais vulneráveis; pessoas indígenas; mulheres e meninas".

Enquanto isso, "os padrinhos do caos climático - a indústria dos combustíveis fósseis - obtêm lucros recordes e celebram biliões em subsídios financiados pelos contribuintes", criticou.

"Nós temos uma escolha. Criar pontos de viragem para o progresso climático -- ou aproximar-se de pontos de viragem para desastres climáticos. Nenhum país pode resolver a crise climática isoladamente", dependeu.

Guterres aproveitou ainda para agradecer aos jovens, à sociedade civil, às cidades, às regiões, às empresas e a outros que têm liderado a luta por um mundo "mais seguro e mais limpo", afirmando que "estão do lado certo da história".