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terça-feira, 10 de março de 2026

A Naifa - Bolero Do Coronel Sensível Que Fez Amor Em Monsanto


Poema original e o álbum aqui 

Poema escrito e cantado em 1992 [1] e infelizmente continua a ser assim
Este poema de António Lobo Antunes é uma das peças mais cortantes da literatura contemporânea portuguesa, servindo como uma autópsia da hipocrisia burguesa e da profunda desigualdade social. A narrativa centra-se num homem que se descreve como alguém extremamente sensível — "eu que me comovo por tudo e por nada" — mas que, na prática, revela uma frieza absoluta e uma capacidade de desumanização assustadora. Ao longo do texto, assistimos à descrição de um encontro sexual pago com uma adolescente, entre os quinze e os dezassete anos, cujo corpo é tratado como um objeto descartável: ele "usa", "paga", "esquece o nome" e "limpa-se com o lenço".

A crueza do relato é acentuada pelos detalhes da miséria da rapariga, que cheira a "mato", à "sopa dos pobres" e ao "suor" da carência, contrastando com a transação clínica de quinhentos escudos. O autor utiliza a metáfora da "coxa em semifusa" e do "rosto de aguarela" para sublinhar a fragilidade e a rapidez com que aquela vida é consumida e deixada para trás, "parada na berma da estrada", enquanto o narrador retoma a sua existência de classe média.

O clímax do poema reside no regresso a casa. O narrador veste a máscara da normalidade, mente à mulher e ao filho dizendo que "fez serão" (trabalhou até tarde), janta calmamente e deita-se. Contudo, a imagem da jovem não o larga. O final sugere que a sua suposta sensibilidade não é empatia, mas sim uma obsessão perturbadora ou um remorso estéril. Ele está na segurança do seu lar, mas o seu pensamento permanece naquele corpo explorado, reforçando a ideia de uma sociedade que se comove com abstrações ou sentimentalismos baratos, mas que é capaz de conviver com a exploração e a degradação humana mais abjeta sem perder o apetite ou o sono.

[1] Nota Linguística: o poema utiliza termos muito específicos do quotidiano português do século XX, como o "alcatrão" (asfalto), o "serão" (trabalho noturno) e os "escudos". É uma crítica social feroz à "boa sociedade" que, por trás das portas, explora a miséria mais profunda.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Dia Europeu das Vítimas de Crime



O Dia Europeu das Vítimas de Crime assinala‑se a 22 de fevereiro e constitui um momento fundamental para reconhecer todas as pessoas que sofrem ou sofreram crimes, dar visibilidade às suas experiências e reforçar a importância das políticas públicas destinadas ao seu apoio, proteção e garantia dos seus direitos, bem como à prevenção e combate à criminalidade, designadamente à violenta e à especialmente violenta.

Entre os crimes que mais atentam contra a dignidade humana destaca‑se o Tráfico de Seres Humanos (TSH), uma grave violação dos direitos humanos e um fenómeno marcado pela grande invisibilidade das suas vítimas.

Trata‑se de um crime potenciado pelo aumento da mobilidade, pela utilização da internet como meio de aliciamento e controlo e pelo facto de envolver, na generalidade, baixos riscos e elevados lucros para as redes criminosas.

A verdadeira dimensão do tráfico de seres humanos é difícil de determinar, ainda assim, a informação existente permite perceber que o sexo, o género das vítimas e a idade influenciam a probabilidade, as formas e os objetivos da exploração. A nível internacional a maioria das vítimas identificadas são mulheres e raparigas, embora o tráfico afete também homens e rapazes, bem como pessoas trans.

Apesar de em Portugal e em alguns outros países europeus predominarem as situações reportadas de tráfico para fins de exploração laboral (com vítimas masculinas) não podemos esquecer a realidade do tráfico para fins de exploração sexual e que esta realidade se encontra especialmente ocultada.

A exploração sexual continua a ser o principal fim do tráfico de mulheres e raparigas. Entre os fatores que contribuem para este fenómeno destacam‑se as situações de vulnerabilidade, frequentemente associadas a contextos de violência, discriminação e pobreza, bem como a persistente procura de serviços sexuais. Os traficantes exploram, muitas vezes, a condição económica precária de pessoas que procuram uma vida melhor, recorrendo ao tráfico de migrantes e ao uso da internet como instrumento central de aliciamento.

A União Europeia tem vindo a adotar instrumentos fundamentais para prevenir e combater o tráfico de seres humanos, alinhados com os padrões internacionais e assentes numa abordagem centrada na vítima, que reconhece a necessidade de apoio, proteção e acesso efetivo aos direitos, bem como a importância de integrar uma perspetiva de género nas políticas de prevenção.

Em Portugal, de acordo com o Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) 2024, foram constituídos 43 arguidos por tráfico de seres humanos, mais 13 do que no ano anterior, e detidas 12 pessoas. O Observatório do Tráfico de Seres Humanos (OTSH) registou a sinalização de 355 presumíveis vítimas, mantendo‑se Portugal sobretudo como país de destino. Na exploração sexual, as presumíveis vítimas são maioritariamente mulheres adultas, de nacionalidade estrangeira, com destaque para as nacionais de São Tomé e Príncipe.

O principal instrumento nacional de prevenção e combate ao TSH é o V Plano Nacional para o período 2025‑2027, que visa consolidar o conhecimento sobre o fenómeno, reforçar a informação e sensibilização, assegurar um melhor acesso das vítimas aos seus direitos e intensificar o combate às redes de criminalidade organizada.

Contudo, o Dia Europeu das Vítimas de Crime não se limita ao tráfico de seres humanos. Esta data relembra também todas as pessoas afetadas por outros crimes, como a violência doméstica, a violência sexual, os crimes de ódio, o abuso de menores, , a fraude ou o cibercrime. Independentemente do tipo de crime, todas as vítimas têm direito a ser reconhecidas, protegidas e apoiadas, sem discriminação.

Conforme divulgado, o Conselho de Ministros aprovou no passado dia 20 de fevereiro a versão final da Lei-Quadro de Política Criminal, que define os objetivos, as prioridades e as orientações da política criminal para o biénio de 2025-2027, e entre os crimes de prevenção e investigação prioritária constam, nomeadamente a violência doméstica, o tráfico de pessoas, os crimes sexuais, o cibercrime e os crimes de ódio.

A resposta às necessidades das vítimas exige um esforço contínuo, tanto a nível nacional como europeu, baseado na cooperação entre autoridades, no trabalho integrado e articulado entre as entidades intervenientes, na , partilha de boas práticas e na formação contínua de profissionais.

Assinalar este dia é, acima de tudo, reafirmar o compromisso coletivo com uma Europa mais justa, segura e solidária, onde os direitos das vítimas ocupam um lugar central.

terça-feira, 16 de abril de 2024

Música do BioTerra: The Raveonettes - I Wanna Be Adored

Isto é que se chama uma verdadeira versão. E tão aktual!!!
The Raveonettes are a Danish indie rock duo, consisting of Sune Rose Wagner on guitar, instruments and vocals, and Sharin Foo on bass, guitar and vocals.
  

I don't have to sell my soul
He's already in me
I don't need to sell my soul
He's already in me

I wanna be adored
I wanna be adored

I don't have to sell my soul
He's already in me
I don't need to sell my soul
He's already in me
I wanna be adored
I wanna be adored

Adored
I wanna be adored

You adore me
You adore me
You adore me
I wanna, I wanna
I wanna be adored

I wanna, I wanna
I gotta be adored
I wanna be adored

Versão original Stone Roses

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

O Genocídio Arménio


O Genocídio Arménio, ocorrido essencialmente entre 1915 e 1917, representa um dos capítulos mais sombrios da história do século XX e permanece, ainda hoje, um tema de intensa sensibilidade diplomática. Para compreender a magnitude deste evento, é necessário recuar à identidade deste povo: os arménios são considerados um povo milenar porque a sua presença no Planalto Arménio remonta a mais de 3.000 anos. Foram a primeira nação do mundo a adotar o Cristianismo como religião oficial, em 301 d.C., desenvolvendo uma língua e um alfabeto únicos que serviram de baluarte cultural contra as sucessivas invasões e domínios de impérios vizinhos.

Causas e Contexto Histórico
A génese do conflito reside na decadência do Império Otomano no final do século XIX. Os arménios, uma minoria cristã sob domínio otomano muçulmano, começaram a exigir reformas civis e maior autonomia, inspirados pelos ideais liberais europeus. Em resposta, o regime do Sultão Abdul Hamid II levou a cabo massacres preliminares na década de 1890. No entanto, a situação deteriorou-se drasticamente com a subida ao poder dos Jovens Turcos em 1908. Inicialmente prometendo igualdade, o movimento radicalizou-se para um nacionalismo pan-túrquico, que via os arménios como um "corpo estranho" e um obstáculo à homogeneidade do império, especialmente com o eclodir da Primeira Guerra Mundial, onde foram injustamente acusados de conspirar com a Rússia czarista.

O Processo de Extermínio
O genocídio teve o seu marco inicial a 24 de abril de 1915, com a detenção e execução de centenas de intelectuais e líderes comunitários arménios em Constantinopla. Seguiu-se a "Lei de Deportação", que autorizou a remoção forçada da população civil. O método principal não foram apenas as execuções diretas, mas as marchas da morte em direção ao deserto de Deir ez-Zor, na atual Síria. Homens em idade militar foram maioritariamente fuzilados ou submetidos a trabalhos forçados até à exaustão, enquanto mulheres, crianças e idosos foram forçados a caminhar centenas de quilómetros sem água ou comida, expostos a ataques de milícias e às intempéries.

Relatos de Violações e Atrocidades
Os relatos da época, documentados por missionários, diplomatas estrangeiros (como o embaixador americano Henry Morgenthau) e sobreviventes, descrevem um cenário de horror sistemático. As violações de direitos humanos incluíam:
  1. Violência sexual: o uso da violação sistemática e da escravatura sexual contra mulheres e raparigas arménias como arma de humilhação e destruição biológica.
  2. Confisco de bens: a pilhagem total de propriedades e a destruição de igrejas e monumentos para apagar o rasto cultural da presença arménia.
  3. Experiências e tortura: Relatos de afogamentos em massa no Mar Negro e o uso de comboios de gado para transportar deportados em condições desumanas.
Número de Mortes e Consequências
Embora os números sejam objeto de debate político, a maioria dos historiadores independentes estima que entre 1 milhão e 1,5 milhões de arménios tenham perecido. As consequências foram devastadoras: a quase total aniquilação da presença arménia na Anatólia Oriental e a criação de uma vasta diáspora espalhada pela Europa, Américas e Médio Oriente.

Atualmente, o legado do genocídio é marcado pela luta pelo reconhecimento internacional. Enquanto muitos países (incluindo Portugal, que o reconheceu formalmente em 2019) e organizações internacionais classificam os eventos como genocídio — seguindo a definição jurídica de Raphael Lemkin, que se baseou precisamente no caso arménio para cunhar o termo — a Turquia, sucessora do Império Otomano, reconhece as mortes mas nega que tenha havido um plano sistemático de extermínio, atribuindo as perdas ao contexto caótico da guerra e a revoltas internas.

Saber mais aqui e aqui

sexta-feira, 11 de agosto de 2023

O mercúrio dos garimpos está a matar os povos indígenas na Amazónia


Os garimpos ilegais de ouro na Amazónia contaminaram solos, rios e lençóis freáticos com mercúrio. O metal não radioativo, mas extremamente tóxico, está a matar lentamente os povos indígenas e a destruir ecossistemas. Nados-mortos, a proliferação de cancros e outras doenças em comunidades inteiras são os sinais mais claros da contaminação.

Foi nas margens do Rio Tapajós, na Amazónia brasileira, que a indígena Maria Munduruku completou, em maio, nove anos. Na aldeia, crianças como ela jogam bola, sobem em árvores, brincam com animais e correm pela floresta, mas Maria não: ela não anda, não fala e não consegue ganhar peso. Com malformações congénitas e problemas neurológicos, ela não consegue sequer frequentar a escola.

Maria é uma das dezenas de crianças Munduruku com malformações e atrasos no desenvolvimento, além de adultos que relatam tremores, fraqueza e perda de visão. Há vários anos que médicos e lideranças indígenas tentam explicar o problema que faz com que as aldeias habitadas pelo povo Munduruku, no estado do Pará, sejam as que mais solicitam cadeiras de rodas ao Ministério da Saúde do Brasil.

Maria e o seu pai vivem na bacia do Rio Tapajós, de ocupação tradicional do povo Munduruku. Esta é a região do Brasil que mais concentra garimpos ilegais de ouro e onde estão os municípios de Itaituba, Trairão e Jacareacanga, os campeões de garimpagem, de acordo com um relatório da MapBiomas, organização que mapeia ações humanas nos biomas brasileiros.

Apesar de o problema ser conhecido entre indígenas e autoridades públicas, não há na região programas de combate ao garimpo ilegal ou sequer de testagens para verificar a possível contaminação de pessoas por mercúrio. Um dos poucos estudos sobre o tema foi feito em 2020, pela organização não governamental WWF e pela Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz), ligada ao Ministério da Saúde do Brasil.

Os resultados foram aterradores: todos os 200 indígenas Munduruku testados, entre adultos e crianças, possuíam mercúrio no organismo - em média 60% deles com níveis acima do considerado seguro pela Organização Mundial da Saúde (OMS), de 10μg/L. Entre as 57 crianças testadas, nove apresentaram problemas nos testes de neurodesenvolvimento.

Cadeia de Contaminação
Pesquisas confirmaram que parte dos sedimentos vieram de garimpos de ouro ilegais e que viajaram centenas de quilómetros até alcançarem a vila, contaminando peixes, crustáceos, algas e todo o complexo ecossistema da Amazónia. Até as andorinhas azuis, espécie migratória na região, já apresentam mercúrio nas penas, segundo um estudo do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP).

E o problema não se restringe apenas às áreas onde ocorre a atividade garimpeira: o movimento dos enormes rios amazónicos espalha a substância por quilómetros, expondo à contaminação a população urbana da região.

Um estudo recente do Laboratório de Epidemiologia Molecular (LEpiMol), da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), testou a quantidade de mercúrio em 462 pessoas de comunidades ribeirinhas do Rio Tapajós, Rio Amazonas e da área urbana de Santarém. Ao todo, 75,6% estavam com níveis de mercúrio acima do limite considerado seguro.

Aumento da Violência
Pelo seu trabalho de combate ao garimpo e de defesa dos direitos indígenas, Alessandra Munduruku já teve a sua casa invadida e saqueada duas vezes. Em ambas foram roubados cartões de memória e documentos que comprovavam a extração de ouro na região. Hoje, ela só circula pelas cidades da região com segurança particular – afinal, os garimpos ilegais também deixam marcas brutais de violência.

Eles foram responsáveis por 90% das mortes por conflitos no campo brasileiro em 2021, de acordo com um Relatório de Conflitos no Campo de 2021, publicado pela Comissão Pastoral da Terra.

“As pessoas vivem em um ambiente de extrema tensão e sofrem com a presença de armas, drogas, com prostituição e de violência sexual contra mulheres e crianças das comunidades. Essa violência toda também impacta na saúde, nas relações sociais e no desenvolvimento das comunidades”, diz o médico Paulo Basta, da Fiocruz.

Política de combate? Zero
O ouro extraído ilegalmente da Amazónia brasileira é matéria-prima para equipamentos médicos, eletrónicos e jóias, que serão comercializados e até exportados para a Europa e Estados Unidos. Uma investigação do portal jornalístico Repórter Brasil comprovou que computadores e smartphones da Apple e da Microsoft, além de servidores do Google e da Amazon, eram compostos por filamentos de ouro extraídos, em parte, de garimpos ilegais da Amazônia.

E quem acompanha o problema reforça: a situação piorou durante o governo do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro (PL), que esteve no poder entre 2018 e 2022: em 2021 a área garimpada em Terras Indígenas demarcadas aumentou 625% em comparação com 2020, segundo a organização MapBiomas.

Além disso, Bolsonaro articulou uma política de avanço do garimpo e assinou oito decretos que facilitaram a atividade ilegal. O ex-presidente chegou a enviar ao Congresso Nacional o Projeto de Lei 191 de 2020, que previa legalizar a mineração em terras indígenas. A pauta foi suspensa pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no seu primeiro dia de mandato, mas cabe ao Congresso aboli-la em definitivo.

“No governo Bolsonaro, os donos de garimpos não tinham medo. Eles se articulavam com deputados, senadores, vereadores, e acabavam ganhando muita força. Nós víamos helicópteros chegando e grandes quantidades de combustível sendo transportadas, em plena luz do dia”, conta Alessandra Munduruku. “Com a mudança de governo, eles estão mais discretos, mas continuam explorando ouro em nossas terras.”

Saber mais:
Mercúrio contamina a natureza por tempo indeterminado" – DW – 16/02/2023

sábado, 26 de dezembro de 2020

Mensagem de Natal do Papa Francisco


"'Um menino nasceu para nós' (Is 9, 5). Veio para nos salvar! Anuncia-nos que o sofrimento e o mal não são a última palavra"

Esta é a mensagem de Natal do Papa Francisco em 2020:

Queridos irmãos e irmãs, feliz Natal!

Gostava de fazer chegar a todos a mensagem que a Igreja anuncia nesta festa, com as palavras do profeta Isaías: «Um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado» (Is 9, 5).

Nasceu um menino: o nascimento é sempre fonte de esperança, é vida que desabrocha, é promessa de futuro. E este Menino – Jesus – «nasceu para nós»: um «nós» sem fronteiras, sem privilégios nem exclusões. O Menino, que a Virgem Maria deu à luz em Belém, nasceu para todos: é o «filho» que Deus deu à família humana inteira.

Graças a este Menino, todos podemos dirigir-nos a Deus chamando-Lhe «Pai», «Papá». Jesus é o Unigénito; ninguém mais conhece o Pai, senão Ele. Mas Ele veio ao mundo precisamente para nos revelar o rosto do Pai celeste. E assim, graças a este Menino, todos podemos chamar-nos e ser realmente irmãos: de continentes diversos, de qualquer língua e cultura, com as nossas identidades e diferenças, mas todos irmãos e irmãs.

Neste momento histórico, marcado pela crise ecológica e por graves desequilíbrios económicos e sociais, agravados pela pandemia do coronavírus, precisamos mais do que nunca de fraternidade. E Deus no-la oferece, dando-nos o seu Filho Jesus: não uma fraternidade feita de palavras bonitas, ideais abstratos, vagos sentimentos… Não! Mas uma fraternidade baseada no amor real, capaz de encontrar o outro diferente de mim, de compadecer-me dos seus sofrimentos, aproximar-me e cuidar dele mesmo que não seja da minha família, da minha etnia, da minha religião; é diferente de mim, mas é meu irmão, é minha irmã. E isto é válido também nas relações entre os povos e as nações: todos irmãos.

No Natal, celebramos a luz de Cristo que vem ao mundo e vem para todos: não apenas para alguns. Hoje, neste tempo de escuridão e incerteza devido à pandemia, aparecem várias luzes de esperança como a descoberta das vacinas. Mas, para que estas luzes possam iluminar e dar esperança ao mundo inteiro, hão de ser colocadas à disposição de todos. Não podemos deixar que os nacionalismos fechados nos impeçam de viver como a verdadeira família humana que somos. Nem podemos deixar que nos vença o vírus do individualismo radical, tornando-nos indiferentes ao sofrimento doutros irmãos e irmãs. Não posso passar à frente dos outros, colocando as leis do mercado e das patentes de invenção acima das leis do amor e da saúde da humanidade. Peço a todos, nomeadamente aos líderes dos Estados, às empresas, aos organismos internacionais, que promovam a cooperação, e não a concorrência, na busca duma solução para todos: vacinas para todos, especialmente para os mais vulneráveis e necessitados em todas as regiões da Terra. Em primeiro lugar, os mais vulneráveis e necessitados!

Por isso, que o Menino de Belém nos ajude a estar disponíveis, a ser generosos e solidários, especialmente para com as pessoas mais frágeis, os doentes e quantos neste tempo se encontram desempregados ou estão em graves dificuldades pelas consequências económicas da pandemia, bem como as mulheres que nestes meses de confinamento sofreram violências domésticas.

Perante um desafio que não conhece fronteiras, não se podem erguer barreiras. Estamos todos no mesmo barco. Cada pessoa é um meu irmão. Em cada um vejo refletido o rosto de Deus e, nos que sofrem, vislumbro o Senhor que pede a minha ajuda. Vejo-O no doente, no pobre, no desempregado, no marginalizado, no migrante e no refugiado: todos irmãos e irmãs!

No dia em que o Verbo de Deus Se faz menino, reparemos em tantas crianças que em todo o mundo, especialmente na Síria, Iraque e Iémen, ainda estão a pagar o alto preço da guerra. Os seus rostos sensibilizem as consciências dos homens de boa vontade, para que se enfrentem as causas dos conflitos e se trabalhe com coragem para construir um futuro de paz.

Que este seja o tempo propício para aliviar as tensões em todo o Médio Oriente e no Mediterrâneo oriental.

Jesus Menino cure as feridas do amado povo sírio, que está exausto com um decénio de guerra e suas consequências, agravadas ainda mais pela pandemia. Leve conforto ao povo iraquiano e a todos os povos incluídos no caminho da reconciliação, em particular os yazidis duramente atingidos pelos últimos anos de guerra. Dê paz à Líbia e permita que a nova fase de negociações em curso ponha fim a todas as formas de hostilidade no país.

O Menino de Belém conceda fraternidade à terra que O viu nascer. Possam israelitas e palestinenses recuperar a confiança mútua para procurarem uma paz justa e duradoura através dum diálogo direto, capaz de vencer a violência e superar ressentimentos endémicos, testemunhando ao mundo a beleza da fraternidade.

A estrela que iluminou a noite de Natal sirva de guia e encorajamento para o povo libanês, a fim de não perder a esperança no meio das dificuldades que tem vindo a enfrentar com o apoio da comunidade internacional. O Príncipe da Paz ajude os responsáveis do país a deixar de lado interesses particulares e empenhar-se com seriedade, honestidade e transparência para que o Líbano possa empreender um caminho de reformas e continuar na sua vocação de liberdade e convivência pacífica.

O Filho do Altíssimo sustente o empenho da comunidade internacional e dos países envolvidos na manutenção do cessar-fogo no Nagorno-Karabakh, bem como nas regiões orientais da Ucrânia, promovendo o diálogo como único caminho que conduz à paz e reconciliação.

O Deus Menino alivie o sofrimento das populações do Burkina Faso, Mali e Níger, atingidas por uma grave crise humanitária, na base da qual estão extremismos e conflitos armados, mas também a pandemia e outros desastres naturais; Ele faça cessar as violências na Etiópia, onde muitas pessoas são forçadas a fugir devido aos confrontos; o Deus Menino dê conforto aos habitantes da região de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, vítimas da violência do terrorismo internacional; Ele incite os responsáveis do Sudão do Sul, Nigéria e Camarões a continuar pelo caminho de fraternidade e diálogo empreendido.

O Verbo eterno do Pai seja fonte de esperança para o continente americano, particularmente afetado pelo coronavírus, que exacerbou os inúmeros sofrimentos que o oprimem, muitas vezes agravados pelas consequências da corrupção e do narcotráfico. Ajude a superar as recentes tensões sociais no Chile e a pôr fim aos sofrimentos do povo venezuelano.

O Rei do Céu proteja as populações flageladas por calamidades naturais no sudeste asiático, de modo particular nas Filipinas e no Vietname, onde numerosas tempestades têm causado inundações com devastadoras repercussões sobre as famílias, que moram naquelas terras, em termos de perdas de vidas humanas, danos ao meio ambiente e consequências para as economias locais.

E pensando na Ásia, não posso esquecer o povo Rohingya: Jesus, nascido pobre entre os pobres, leve esperança às suas tribulações.

Queridos irmãos e irmãs!

«Um menino nasceu para nós» (Is 9, 5). Veio para nos salvar! Anuncia-nos que o sofrimento e o mal não são a última palavra. Resignar-se à violência e à injustiça significaria recusar a alegria e a esperança do Natal.

Neste dia de festa, dirijo uma saudação particular a todas as pessoas que não se deixam subjugar pelas circunstâncias adversas, mas esforçam-se por levar esperança, consolação e ajuda, socorrendo quem sofre e acompanhando quem está sozinho.

Jesus nasceu num estábulo, mas envolvido pelo amor da Virgem Maria e de São José. Nascendo na carne, o Filho de Deus consagrou o amor familiar. Neste momento, penso de modo especial nas famílias que hoje não se podem reunir, como também naquelas que são obrigadas a permanecer em casa. E, para todos, seja o Natal a ocasião propícia para redescobrirem a família como berço de vida e de fé, lugar de amor acolhedor, de diálogo, perdão, solidariedade fraterna e alegria partilhada, fonte de paz para toda a humanidade.

Feliz Natal para todos!

Queridos irmãos e irmãs, renovo os meus votos de Feliz Natal a todos vós que de todo o mundo estais conectados através da rádio, televisão e outros meios de comunicação. Agradeço a vossa presença espiritual neste dia, marcado pela alegria. Nestes dias em que o clima do Natal convida os seres humanos a tornarem-se melhores e mais fraternos, não nos esqueçamos de rezar pelas famílias e comunidades atribuladas por tantos sofrimentos. E, por favor, continuai a rezar também por mim. Bom almoço de Natal! Adeus.

sexta-feira, 9 de março de 2018

António Lobo Antunes - Bolero do Coronel Sensível Que Fez Amor em Monsanto

Gustave Courbet - “La Bacchante” (1844-1847)

Eu que me comovo
Por tudo e por nada
Deixei-te parada
Na berma da estrada

Usei o teu corpo
Paguei o teu preço
Esqueci o teu nome

Limpei-me com o lenço
Olhei-te a cintura
De pé no alcatrão

Levantei-te as saias
Deitei-te no banco
Num bosque de faias

De mala na mão
Nem sequer falaste
Nem sequer beijaste

Nem sequer gemeste,
Mordeste, abraçaste
Quinhentos escudos

Foi o que disseste
Tinhas quinze anos
Dezasseis, dezassete

Cheiravas a mato
À sopa dos pobres
A infância sem quarto

A suor, a chiclete
Saíste do carro
Alisando a blusa

Espiei da janela
Rosto de aguarela
Coxa em semifusa

Soltei o travão
Voltei para casa
De chaves na mão

Sobrancelha em asa
Disse: fiz serão
Ao filho e à mulher

Repeti a fruta
Acabei a ceia
Larguei o talher

Estendi-me na cama
De ouvido à escuta
E perna cruzada

Que de olhos em chama
Só tinha na ideia
Teu corpo parado

Na berma da estrada
Eu que me comovo
Por tudo e por nada

In “Eu me comovo por tudo e por nada”, 1992 álbum de Vitorino Salomé, com poemas de António Lobo Antunes

sábado, 31 de outubro de 2015

The Stone Roses - I Wanna Be Adored


I don't have to sell my soul
He's already in me
I don't need to sell my soul
He's already in me

I wanna be adored
I wanna be adored

I don't have to sell my soul
He's already in me
I don't need to sell my soul
He's already in me
I wanna be adored
I wanna be adored

Adored
I wanna be adored

You adore me
You adore me
You adore me
I wanna, I wanna
I wanna be adored

I wanna, I wanna
I gotta be adored
I wanna be adored

domingo, 2 de dezembro de 2012

Dia Internacional para a Abolição da Escravatura




Trouxe aqui um teledisco baseado no excelente filme Aguirre, a Cólera dos Deuses Portugal foi pioneiro na abolição da escravatura. Contudo e como sabem, se Pombal foi pioneiro a legislar sobre o assunto de forma consistente, Portugal foi dos últimos países a abolir definitivamente a escravatura. 

O Dia Internacional para a Abolição da Escravatura observa-se a 2 de Dezembro.

Apesar dos progressos registados, a abolição da escravatura é ainda uma meta em pleno século XXI, constituindo-se o dia 2 de Dezembro como uma altura de reflexão e de luta contra esta realidade. A escravatura ainda se faz sentir nos dias de hoje de várias formas: trabalho forçado, servidão obrigatória, tráfico de crianças e mulheres, prostituição, escravatura doméstica, trabalho infantil, casamentos combinados, entre outros.

Este Dia Internacional da Abolição da Escravatura foi criado em 2004 pela Organização das Nações Unidas (ONU) que estima que existam 21 milhões de vítimas de escravidão espalhadas pelo mundo. A data lembra a assinatura da Convenção das Nações Unidas para a Supressão do Tráfico de Pessoas e da Exploração da Prostituição de Outrem, a 2 de dezembro de 1949.
A escravatura é um crime, sendo que aqueles que o cometem, permitem ou toleram devem responder perante a justiça.


“Para que discutir com os homens que não se rendem às verdades mais evidentes? Não são homens, são pedras. Tenho um instinto para amar a verdade; mas é apenas um instinto.” ―Voltaire

quarta-feira, 28 de março de 2012

Leymah Gbowee: Libertem a inteligência, a paixão e a grandeza das jovens mulheres


Biografias:
Leymah Gbowee

Gbowee Peace Foundation Africa 


00:00
Muitas vezes, viajo pelo mundo a falar e as pessoas fazem-me perguntas acerca dos desafios, os meus momentos, alguns dos meus arrependimentos. 1998: Uma mãe solteira com quatro filhos, três meses após o nascimento do meu quarto filho, fui trabalhar como assistente de investigação. Fui para o norte da Libéria. E fazia parte do trabalho a aldeia dar-me alojamento. E fiquei numa casa com uma mãe solteira e a sua filha.

00:44
Essa rapariga era a única, em toda a aldeia, a ter conseguido estudar até ao 9º ano. Ela era motivo de piada pela comunidade. Muitas vezes as outras mulheres diziam à sua mãe "Tu e a tua filha vão morrer pobres". Depois de duas semanas a trabalhar nessa aldeia, chegou a altura de me ir embora. A mãe aproximou-se de mim, ajoelhou-se, e disse "Leymah, leve a minha filha. Eu queria que ela se tornasse numa enfermeira." Muito pobre, a viver em casa dos meus pais, não podia fazer nada. Com lágrimas nos olhos, disse "Não".

01:34
Dois meses mais tarde, fui para outra aldeia com a mesma tarefa e pediram-me que fosse viver com a chefe da aldeia. A mulher chefe da aldeia tinha uma criança pequena, a mesma cor de pele que eu, toda suja. E passava o dia inteiro só com roupa interior vestida. Quando perguntei quem era, disseram-me "Chama-se Wei. O seu nome significa porco. A sua mãe morreu ao dar à luz e ninguém sabe quem é o pai." Fez-me companhia durante duas semanas, dormia comigo. Comprei-lhe roupas usadas e comprei-lhe a sua primeira boneca. Na noite antes de partir, ela veio ter comigo e disse "Leymah, não me deixe aqui. Quero ir consigo. Quero ir para a escola". Muito pobre, sem dinheiro, a viver com os meus pais, voltei a dizer "Não". Dois meses depois, essas duas aldeias entraram novamente em guerra. Até hoje, não sei o que é feito dessas duas meninas.

02:47
Avançando até 2004: No auge do nosso activismo, o Ministro de Género da Libéria chamou-me e disse "Leymah, tenho uma criança de 9 anos para ti. Quero que a leves para casa, pois não temos casas seguras." A história desta criança: Tinha sido violada pelo avô paterno diariamente durante 6 meses. Estava inchada, muito pálida. Todas as noites eu chegava do trabalho e deitava-me no chão frio. Ela deitava-se ao meu lado e dizia "Tia, quero ficar bem. Quero ir para a escola."

03:27
2010: Uma jovem apresenta-se perante a presidente Sirleaf e dá o seu testemunho de como ela e os irmãos vivem todos juntos, os pais morreram durante a guerra. Ela tem 19 anos, o seu sonho é ir para a Universidade para poder sustentá-los. É bastante atlética. Ela candidata-se a uma bolsa de estudos. Bolsa completa. Ela consegue-a. O seu sonho de ir para a escola, o seu desejo de estudar finalmente concretiza-se. Vai para a escola no primeiro dia. O director de desporto, responsável pela sua vinda para o programa, chama-a à parte. E nos três anos que se seguem, o seu destino será ter relações sexuais com ele todos os dias, para pagar o favor de ter sido aceite naquela escola.

04:18
A nível mundial, temos políticas, instrumentos internacionais, líderes trabalhistas. Pessoas incríveis comprometeram-se em proteger as nossas crianças da necessidade e do medo. A ONU tem a Convenção dos Direitos das Crianças. Na América, têm a lei chamada "Nenhuma Criança Será Deixada para Trás". Outros países têm diferentes iniciativas. No Desenvolvimento do Milénio há o objectivo Três que se foca em mulheres jovens. Todas estas grandes iniciativas de pessoas extraordinárias que têm como objectivo levar os jovens até onde queremos que eles vão globalmente, na minha opinião, falharam.

04:59
Na Libéria, por exemplo, a taxa de gravidez na adolescência é de 3 em cada 10 jovens. A prostituição entre adolescentes é a mais alta de sempre. Numa comunidade, dizem, acorda-se de manhã e vê-se preservativos usados como se fossem papéis de pastilha elástica usada. Raparigas de 12 anos a prostituirem-se por menos de um dólar por noite. É desolador, é triste. E alguém me perguntou, pouco antes do meu TEDTalk, há uns dias atrás, "Então, onde está a esperança?".

05:35
Há muitos anos, alguns amigos meus decidiram que era preciso fazer a ligação entre a nossa geração e a geração de mulheres jovens. Não é suficiente dizer que existem duas mulheres liberianas premiadas com o Nobel quando os filhos das nossas jovens estão por aí, sem esperança ou aparentemente sem ela. Criámos um espaço chamado "Young Girls Transformative Project" (Projecto de Transformação de Jovens Mulheres). Dirigimo-nos às comunidades rurais e aquilo que fazemos, assim como nesta sala, é criar o espaço. Quando estas jovens se sentam, libertamos a inteligência, libertamos a paixão, libertamos o compromisso, libertamos objectivos, libertamos grandes líderes. Até hoje, trabalhámos com mais de 300. E algumas dessas jovens, que entram na sala muito tímidas, foram corajosas, enquanto mães jovens, ao manifestarem-se e ao defenderem os direitos de outras mulheres jovens.

06:39
Conheci uma jovem, mãe adolescente com quatro filhos, que nunca pensou em acabar o liceu, formou-se com sucesso; que nunca pensou em ir para a Universidade, matriculou-se numa. Um dia ela disse-me, "O meu desejo é terminar a Universidade e ser capaz de sustentar os meus filhos." Encontra-se numa situação em que não consegue arranjar dinheiro para estudar. Vende água, vende refrigerantes e vende cartões recarregáveis para telemóveis. E podemos pensar que ela iria pegar nesse dinheiro e investir na sua educação. O seu nome é Juanita. Ela pega nesse dinheiro e procura mães solteiras na sua comunidade para que voltem a estudar. Ela diz "Leymah, eu queria estudar. Mas se eu não posso fazê-lo, ao ver algumas das minhas irmãs estudarem, o meu sonho concretiza-se. Quero uma vida melhor. Quero ter comida para os meus filhos. Quero que o abuso sexual e a exploração nas escolas acabe." Este é o sonho da jovem africana.

07:45
Há muitos anos, havia uma rapariga africana. Essa rapariga tinha um filho que queria um donut, porque estava faminto. Zangada, frustrada e muito chateada pelo estado da sua sociedade e o estado dos seus filhos, esta jovem iniciou um movimento, um movimento de mulheres comuns unidas para construir a paz. Eu irei realizar esse desejo. Este é o desejo de outra rapariga africana. Eu não realizei o desejo daquelas duas raparigas. Falhei em fazer isso. Era isto que passava pela cabeça de outra jovem mulher: falhei, falhei, falhei. Então farei isto. As mulheres manifestaram-se, protestaram contra um ditator brutal, falaram sem medo. Não só realizaram o desejo de um donut, como também o de alcançar a paz. Esta jovem mulher também queria estudar. Foi para a escola. Esta jovem mulher tinha outros desejos, que se concretizaram.

08:57
Hoje, essa jovem mulher sou eu, premiada com um Nobel. Embarquei numa viagem para realizar o desejo, com as minhas limitadas capacidades, das meninas africanas o desejo de estudarem. Criámos uma organização. Concedemos bolsas completas de quatro anos a meninas provenientes de aldeias, nas quais vemos potencial.

09:20
Não tenho muito para vos pedir. já estive em alguns lugares aqui nos E.U.A, e sei que as raparigas aqui também têm desejos, querem uma vida melhor algures no Bronx, querem uma vida melhor algures na baixa de L.A., querem uma vida melhor algures no Texas, querem uma vida melhor algures em Nova Iorque, querem uma vida melhor algures em Nova Jérsia.

09:46
Querem embarcar comigo nesta viagem para ajudar aquela rapariga, seja africana, americana, ou japonesa, a concretizar o seu desejo, o seu sonho, a alcançar esse sonho? Porque todos os grandes inovadores e inventores com quem falámos e que vimos, nos últimos dias, estão também sentados em cantos minúsculos, em diferentes partes do mundo, e tudo o que nos pedem é que criemos esse espaço para libertar a inteligência, libertar a paixão, libertar todas as grandezas que guardam dentro de si. Vamos embarcar nesta viagem juntos. Vamos embarcar nesta viagem juntos.

10:32
Obrigado.

10:34
(Aplausos)

10:57
Chris Anderson: Muito obrigado. Actualmente na Libéria, qual é a questão que mais a preocupa?

11:06
LG: Pediram-me para liderar a "Iniciativa de Reconciliação da Libéria". Como parte da minha função, faço estas viagens em diferentes aldeias e cidades, 13 a 15 horas em estradas de terra, e não houve nenhuma comunidade em que não houvesse raparigas inteligentes. Mas infelizmente, a visão de um grande futuro ou o sonho de um grande futuro, é somente um sonho, porque existem todos estes vícios. A gravidez na adolescência, que como eu disse, é epidémica.

11:43
Por isso, o que me preocupa é ter estado nesse lugar e, de certo modo, estou neste lugar, e não quero ser a única a estar neste lugar. Procuro formas de ter outras jovens comigo. Daqui a 20 anos quero olhar para trás e ver que há outra jovem liberiana, do Gana, da Nigéria, da Etiópia, aqui neste palco TED. E talvez, somente talvez, a dizer "Por causa da Leymah estou aqui hoje". Por isso fico preocupada quando vejo que não têm esperança. Mas também não sou pessimista, porque sei que não é preciso muito para as motivar.

12:29
CA: E durante o ano passado, conte-nos algo promissor que tenha presenciado.

12:35
LG: Posso contar-lhe muitas coisas promissoras. Mas no ano passado, na aldeia onde a presidente Sirleaf nasceu, trabalhámos com algumas raparigas. E não encontrámos 25 raparigas que frequentassem o liceu. Todas elas trabalhavam na mina de ouro e a maior parte eram prostitutas que faziam outras coisas. Pegámos em 50 dessas raparigas e trabalhámos em conjunto com elas. E isto foi no início da campanha eleitoral. É um local onde as mulheres, mesmo as mais velhas, nunca se sentavam no mesmo círculo que os homens. Mas estas jovens juntaram-se, formaram um grupo e lançaram uma campanha de registo eleitoral. É uma vila mesmo rural. E o lema que usaram foi: "Até as raparigas bonitas votam". Conseguiram mobilizar as mulheres jovens.

13:24
Mas não só, foram até aos candidatos e perguntaram-lhes "O que é que vão dar às raparigas desta comunidade se ganharem?". E um deles, já eleito, porque a Libéria tem uma das mais pesadas leis sobre a violação e ele era um dos que realmente lutava por isso no parlamento, para mudar essa lei, por considerar bárbaro. Ele dizia que a violação não era bárbara, mas sim a lei. E quando as raparigas começaram a questioná-lo, ele foi bastante hostil para com elas. Elas viraram-se para ele e disseram "Vamos fazer com que não seja reeleito". E ele não foi reeleito.

14:03
(Aplausos)

14:09
CA: Leymah, obrigado. Muito obrigado por ter vindo ao TED.

14:12
LG: De nada. (CA: Obrigado.)

14:14
(Aplausos)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A pé, escrevendo o Portugal que se recusa a morrer - uma reportagem a conhecer



Desertificação, um país de tradições e de gentes espontâneas. Paisagens, cheiros e sabores únicos e diversos. Nuno Ferreira, jornalista, percorreu o país das sensações. Fê-lo a pé. Em conversa, recorda ao Café Portugal algumas histórias trilhadas nos milhares de quilómetros que calcorreou. 

A viagem está suspensa desde Julho de 2009. A vontade de voltar aos caminhos percorre o corpo de Nuno Ferreira. Faltam, contudo, apoios. A escrita sobre o Portugal profundo parece não interessar às massas, sublinha. Uma conversa a par e passo, ao ritmo dos desafios, dos sentimentos e das desilusões.

Sara Pelicano, fotos: Nuno Ferreira | terça-feira, 1 de Dezembro de 2009

A carreira profissional de jornalista, onde soma quase duas décadas de experiência, fizeram-no, muitas vezes, sair da redacção ao encontro de Portugal. «Eram deslocações de dois, três dias. De carro até um determinado local. Ia eu e o fotógrafo» conta Nuno Ferreira, jornalista freelancer que desde de 2008 palmilha a pé o Portugal profundo. Sagres, no Algarve, foi o ponto de partida desta aventura, relatada todos os dias no blogue Portugal a Pé. A ideia de andar à força do corpo pelo país vinha desde há muito tempo, mas o jornalismo numa publicação diária não deixava espaço à realização do desejo de Nuno Ferreira. Como freelancer, o tempo passa a ser gerido de outra forma e, em Fevereiro de 2008, de mochila às costas encetou caminho num lugar carregado de simbolismo. 

Foi de Sagres que partiram muitas expedições na época dos Descobrimentos, embora em sentido inverso, mar adentro. A princípio estava cheio de medo porque não tinha grande actividade física. A mochila pesava 15 quilos. Quando fiz a primeira semana é que percebi que ia conseguir fazer isto, conta Nuno Ferreira. 

O percurso pelo Algarve fez-se entre a costa e a serra, onde sentiu alguma descaracterização do país. Faltam tradições. Achei o Algarve muito descaracterizado. A Serra do Caldeirão quase não tem nada de típico, afirma. A minha obsessão é andar pelo Portugal onde ninguém entra. Eu passo por sítios onde as pessoas olham para mim e ficam de boca a aberta. Perguntam: ‘o que estás aqui a fazer? Nunca ninguém vem aqui!’ Eu digo, vim precisamente por isso. Quero andar por partes do país onde normalmente os turistas não vão. Passou por peregrino, foi olhado com desconfiança mas acabou sentado à mesa de muita gente genuína. 

É esta multiplicidade de sentidos que fazem Nuno Ferreira continuar a batalhar pela procura de financiamento para a última etapa: falta calcorrear a Terra Fria de Trás-os-Montes. Depois do Algarve, de onde trouxe a imagem da descaracterização, o Alentejo surgiu como terra acolhedora. Para mim foi um banho quente quando cheguei ao Alentejo, porque a região ainda tem todas aquelas sociedades recreativas que mantêm vivas as tradições da terra, do Portugal que está a morrer. As gentes e as paisagens conquistam Nuno Ferreira. Na gastronomia encontrou prazeres descobertos, ou redescobertos, mas também um dos maiores problemas. Entre risos, conta: Um dos problemas foi começar a comer e beber. Uma das coisas que fiz questão foi ir sempre acompanhando a gastronomia. Fiz questão em comer todos os pratos que não conhecia, e repetir alguns. Toda a comida é espectacular

De Fevereiro a Setembro de 2008, as memórias deste Portugal a Pé foram registadas na revista Única. Mas, em jeito de confissão, Nuno revela-nos que, em terras lusas, este é o tipo de leitura que não capta muitos leitores. Desde Setembro até Julho de 2009, a aventura fez-se por conta própria e foi partilhada no blogue Portugal a Pé. Ainda no Alentejo, reparou que os postos de turismo nem sempre são a melhor forma de conhecimento de uma região. Encontrei cada cascata comenta em tom exclamativo. Vou muito ao site das câmaras municipais ver muita informação. Vou ao turismo pedir informações e a resposta é: parece que há uma [cascata] para aí. Vou, então, ter com as pessoas que me indicam lugares e dão dicas. Noutro país isto já estava tudo explorado, refere, com o olhar disperso nas memórias de um país profundo e longe do mediatismo do litoral para onde se dirige a nossa conversa. As saudades do interior apertaram à medida que Nuno se aproximava do mar. 

O Portugal litoral está mais modernizado e mais tecnológico e pautado pelo consumismo, pela, chamada modernidade. Nuno Ferreira recorda: Quando passei para o litoral, encontrei um Portugal do centro comercial, da prostituição na estrada, muitos carros, vias rápidas. Pensei: que saudades do interior. O espírito crítico deste jornalista com o pé literalmente na estrada relembra que é para as localidades do litoral que mais ajudas seguem: Agora, com a crise, Lisboa, Porto, Leiria pedem apoios. No interior, desenrascam-se. Fecham a casa e vão para imigração. Acho isso fascinante. O percurso é feito de cansaço e de momentos de glória. Por vezes fazes quilómetros por uma estrada de terra batida sem interesse. De repente, um vale, os sons da natureza, uma paisagem a perder de vista, comenta. Assim carrega energias para continuar a sua aventura. 

Chega à terra dos últimos pastores: Serra da Estrela. Adorei a Serra da Estrela, entre Manteigas e Folgosinho. Uma coisa é ir no regime turístico, outra é andar com os pastores, diz. Uma pausa para reviver emoções. Continua então: as pessoas a falarem do mar sem nunca o terem visto. Uns sonham estar com as sereias. Eram conversas surrealistas. Deparei-me com zonas muito desérticas onde as pessoas estão abandonadas. A desertificação é a linha geral desta viagem. No presente permanece a vontade de voltar a colocar a mochila às costas e voltar aos caminhos onde se trabalha a terra de forma pura e genuína.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2006

Nenhuma destas crianças é cubana


250 milhões de crianças com menos de 13 anos são obrigados a trabalhar para viver. Nenhuma delas é cubana. Mais de um milhão de crianças são forçadas à prostituição infantil e dezenas de milhares foram vítimas do comércio de órgãos. Nenhuma delas é cubana. 25 mil crianças morrem a cada dia no mundo por sarampo, caxumba, difteria, pneumonia e desnutrição. Nenhuma delas é cubana.[SÁNCHES, Luz Marina Fornieles. Privilegiada por direito: a infância em Cuba. Pedagogia em Foco, Havana, 2000]