Mostrar mensagens com a etiqueta Myanmar. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Myanmar. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Pode HAARP provocar terramotos? Verdade por trás do boato que surge após cada desastre natural


Sempre que ocorre um grande desastre natural, o termo HAARP volta a ser tendência nas redes sociais. Já aconteceu depois de terramotos, furacões, inundações ou incêndios florestais. Os recentes sismos registados na Venezuela não foram exceção.

Em plataformas como a X circularam mensagens que afirmavam, sem provas, que os Estados Unidos teriam usado o projeto HAARP para provocar os terramotos. Vários meios especializados em verificação desmentiram estas afirmações e lembram que não existe evidência científica que as sustente.

O que é afinal o projeto HAARP
HAARP é o acrónimo de High-frequency Active Auroral Research Program (Programa de Investigação de Aurora Ativa de Alta Frequência). Trata-se de uma instalação científica situada no Alasca cujo objetivo é estudar a ionosfera, uma camada da atmosfera terrestre localizada entre cerca de 60 e mais de 500 quilómetros de altitude.

Segundo explica a própria entidade, utiliza ondas de rádio de alta frequência para gerar pequenas perturbações controladas nessa região da atmosfera e compreender melhor fenómenos que afetam as comunicações por rádio, a navegação por satélite e outros sistemas tecnológicos. Entre 1993 e 2014 foi gerida pela Força Aérea e pela Marinha dos Estados Unidos e, desde 2015, pertence à Universidade do Alasca Fairbanks.

A instalação sublinha ainda que as suas experiências são públicas e que a investigação está centrada exclusivamente no estudo da ionosfera.

Porque é associado a terramotos e outros desastres
Apesar de o programa ter uma finalidade científica, há anos que o HAARP é alvo de numerosas teorias da conspiração.

Em diferentes momentos foi-lhe atribuída falsamente a capacidade de provocar terramotos, furacões, inundações, incêndios florestais ou até controlar o clima. Após a DANA que assolou a Comunidade Valenciana em outubro de 2024, por exemplo, voltaram a circular nas redes sociais mensagens que garantiam, sem provas, que a catástrofe tinha sido provocada pelo HAARP.

Uma investigação da equipa de verificação da Euronews documentou como estas teorias da conspiração se propagaram em diferentes idiomas e desmontou várias das afirmações que se tornaram virais.

Narrativas semelhantes também reapareceram após os terramotos em Marrocos e na Birmânia ou depois do furacão Milton nos Estados Unidos. Após os terramotos na Venezuela, voltaram a difundir-se publicações que afirmavam que os Estados Unidos tinham utilizado o HAARP para danificar infraestruturas do país ou provocar os sismos. Mas trata-se de um boato sem base científica.

Pode o HAARP provocar terramotos ou controlar o clima
A resposta, segundo os responsáveis pelo projeto e a comunidade científica, é negativa.

No seu apartado de perguntas frequentes, o HAARP salienta que as ondas de rádio que utiliza interagem apenas com a ionosfera e não com a troposfera nem com a estratosfera, as camadas inferiores onde se desenvolve o tempo atmosférico. Por isso, garante que não tem capacidade para modificar o clima.

Os investigadores acrescentam que o HAARP também não pode provocar nem intensificar fenómenos naturais como terramotos, furacões ou inundações. Os sinais emitidos pelo HAARP destinam-se a estudar processos físicos na atmosfera superior e não têm capacidade para alterar a crosta terrestre nem os processos geológicos responsáveis pelos sismos.

Os verificadores que analisaram as mensagens difundidas após o terramoto na Venezuela recordam ainda que não existe nenhuma evidência científica que relacione o HAARP com a atividade sísmica.

Teoria da conspiração que ressurgue após cada grande desastre
O caso da Venezuela segue um padrão habitual na desinformação sobre fenómenos naturais. Sempre que ocorre um terramoto ou um episódio meteorológico extremo, voltam a surgir publicações que atribuem o fenómeno a tecnologias secretas ou a alegadas armas climáticas, apesar de não existir evidência científica que sustente essas afirmações.

O HAARP tem sido um dos protagonistas recorrentes dessas narrativas. As autoridades do projeto insistem que o HAARP tem uma finalidade exclusivamente científica: estudar a ionosfera para melhorar o conhecimento sobre as comunicações e o denominado 'clima espacial', um conceito distinto do clima terrestre. Segundo os responsáveis, a instalação não tem capacidade para controlar o clima nem para provocar terramotos.

sábado, 9 de maio de 2026

Nick Drake - Pink Moon


Fez 3 álbuns e ninguém o ouviu em vida. Morreu de depressão aos 26 anos. No final dos anos 70, diversos músicos descobriram-no, como os vocalistas dos Cure e dos REM, que reconheceram a sua enorme influência na sua própria música. A Rolling Stone colocou-o entre os maiores guitarristas de sempre. Foi preciso a Volkwagen fazer um anúncio nos anos 80 com a magnífica Pink Moon, cujo piano seria adicionado depois, para dar a volta ao planeta. 
Às vezes cria-se cedo de mais, às vezes o mundo não está preparado para a mudança. E quase sempre basta alguém que nos ouça. Pena que ninguém o ouviu antes de tomar os comprimidos fatais, pois teríamos certamente um continuum de excelência musical. 
Se ainda não ouviu Pink Moon ou outra qualquer música de Nick Drake não sabe o que perde!

Nick Drake entrou num estúdio em Londres em outubro de 1971. Sem banda. Sem ensaios. Sem grandes planos. Apenas ele, a sua guitarra e onze canções que precisava libertar da sua mente.
Ele sentou-se. Colocou um microfone. E tocou.

O seu produtor, John Wood, assistiu chocado. Não era assim que se faziam os discos. Sem camadas. Sem cordas. Sem acompanhamento.
"É só isso?", perguntou Wood quando Nick parou. "Não quer acrescentar nada?"
"Não", respondeu Nick suavemente. "Este é o disco."

Pink Moon. Onze canções. Pouco mais de 28 minutos de duração. Apenas uma voz e uma guitarra, captadas em luz ténue.

Foi lançado em fevereiro de 1972. Nick tinha 24 anos. A sua editora, a Island Records, não sabia o que fazer com ele. Muito silencioso. Muito incomum. Muito pesado. Pressionaram um pequeno lote. Enviaram. Esperaram.

Quase ninguém o comprou.

Nick já tinha lançado dois álbuns antes de Pink Moon. Ambos belíssimos. Ambos ignorados. Five Leaves Left. Bryter Layter. Aclamados pela crítica. Sem vendas.

Quando Pink Moon chegou, a Island Records tinha perdido o interesse. Deixaram de promovê-lo. Deixaram de atender as chamadas.

Nick voltou a viver com os pais no interior de Inglaterra. Uma pequena aldeia chamada Tanworth-in-Arden. A sua depressão piorou. Sempre fora quieto, distante, desconfortável perto dos outros. Mas agora não conseguia funcionar. Não conseguia compor. Não conseguia tocar. Mal conseguia sair do quarto.

Os seus pais tentaram de tudo. Terapia. Remédios. Antidepressivos que atenuavam os sintomas, mas nunca aliviavam o peso. Os amigos afastaram-se. Os laços musicais desapareceram. A indústria seguiu em frente.

Nick Drake tornou-se invisível.

A 25 de novembro de 1974, a mãe foi acordá-lo. Não havia descido para o café da manhã. Ela encontrou-o na cama. Frio. Um frasco de comprimidos vazio na mesa de cabeceira. Nick Drake tinha 26 anos.
O médico legista não conseguiu determinar se foi intencional ou acidental. Um veredicto inconclusivo. Uma interrogação no fim de uma vida curta e tranquila.
O seu funeral foi pequeno. Família. Alguns amigos antigos. O seu produtor.

Nenhum músico. Sem representante da gravadora. Nenhum fã. Porque não havia fãs. Foi enterrado em um cemitério tranquilo. Uma lápide simples. Esquecido.
E esse deveria ter sido o fim.

Mas algo inesperado começou a acontecer. No final da década de 1970, os músicos começaram a encontrar os discos de Nick em alfarrabistas. Descobertas fortuitas em coleções de amigos. Eles ouviram Pink Moon. Five Leaves Left. Bryter Layter.
E ficaram impressionados.

Robert Smith, dos The Cure: "Mudou tudo para mim".
Peter Buck, dos R.E.M.: "Nick Drake moldou a nossa abordagem à música." Os Smiths. Radiohead. Belle and Sebastian. Bon Iver. Todos o citaram como influência.
A notícia espalhou-se discretamente. De músico para músico. De artista para artista.
Na década de 1980, Nick já tinha um público fiel. Na década de 1990, os seus álbuns vendiam-se com constância.
Depois, em 1999, a Volkswagen usou "Pink Moon" num anúncio publicitário. Trinta segundos. Um carro a deslizar sob a luz do luar.

A música explodiu. De repente, todos perguntavam: Quem é Nick Drake?

Pink Moon subiu nas tabelas. Vinte e sete anos após o lançamento. O álbum que mal vendeu enquanto estava vivo tornou-se um fenómeno após a sua morte. Hoje, os álbuns de Nick Drake venderam milhões de cópias em todo o mundo.

A Rolling Stone classifica-o entre os maiores guitarristas de todos os tempos. A TIME considera-o um dos artistas mais influentes do século XX.

O seu túmulo em Tanworth-in-Arden está coberto de flores. Fãs de todo o mundo visitam-no. Deixam palhetas. Bilhetes. Agradecimentos silenciosos.
Os festivais anuais homenageiam a sua música. Espetáculos tributo. Exposições. Documentários.

Tudo o que nunca experimentou na vida. Eis o que torna esta história dolorosa. Nick não precisava de fama. Não queria ser uma estrela. Ele só queria que a sua música tivesse importância. Que chegasse às pessoas. Que significasse algo.

Quando Pink Moon foi lançado, apenas alguns milhares de pessoas o compraram.Nick viu isso como um fracasso. Mas entre esses poucos milhares estavam as pessoas certas. Músicos que moldariam milhões. Artistas que definiriam décadas.

Robert Smith ouviu-o. Mudou o som dos The Cure. Os The Cure influenciaram uma geração.
Peter Buck ouviu-o. Mudou o rumo do R.E.M. O R.E.M. inspirou inúmeras bandas.

O pequeno público de Nick tornou-se multiplicador. É assim que funciona a influência. Não através da fama instantânea. Através das almas certas que o ouvem no momento certo.

O Nick nunca soube disso. Morreu pensando que havia fracassado. Pensando que a sua música não tinha importância. Mas ele tinha criado algo intemporal.

A sua mãe, Molly, viveu o suficiente para testemunhar parte do seu renascimento antes de falecer em 1993. Ela disse: "O Nick só queria fazer música bonita. Ele teria ficado feliz por as pessoas finalmente o ouvirem".

Hoje, as novas gerações descobrem Nick Drake todos os anos. A Pink Moon ainda vende. Ainda ressoa. Ainda transforma vidas. Se o Nick pudesse ter visto isto. Se pudesse ter sabido que a sua música lhe sobreviveria durante décadas. Que não era um fracasso. Que ele importava.Talvez ele ainda estivesse aqui.

Essa é a tragédia. Não que tenha morrido desconhecido. Mas que tenha morrido sem nunca saber a verdade:
As suas canções tranquilas ecoariam mais alto do que ele alguma vez imaginou.

sexta-feira, 6 de março de 2026

EUA criticam “políticas agressivas” criadas para enfrentar alterações climáticas


O secretário de Energia norte-americano, Chris Wright, criticou ontem, nas Nações Unidas, aquilo que considerou “políticas agressivas” criadas para enfrentar as alterações climáticas, as quais classificou como “irrealistas e mal planeadas”.

“Precisamos de mais energia, não de menos, e precisamos dela agora. Sem energia acessível, fiável e segura, nada funciona. Energia é vida. A ausência de energia é pobreza, desespero e morte. É assim que fazemos crescer as nossas economias. É assim que inovamos, alimentamos o nosso dia-a-dia e garantimos a segurança das nossas nações”, defendeu Wright.

O secretário norte-americano presidia a uma reunião do Conselho de Segurança da ONU sobre “Energia, minerais críticos e segurança”, com uma intervenção que acabou por atacar as políticas de combate às alterações climáticas.

“Nos últimos anos, muitos Governos adotaram políticas climáticas agressivas. Estas políticas, criadas em nome das alterações climáticas, têm sido irrealistas e mal planeadas. As ilusões energéticas implícitas nas políticas climáticas representam ameaças reais e crescentes para as nações e povos de todo o mundo”, defendeu.

As declarações do secretário de Energia estão em linha com a posição do Presidente norte-americano, Donald Trump, que desde que regressou à Casa Branca, em janeiro de 2025, esforçou-se por reverter as políticas climáticas decretadas pelo seu antecessor, Joe Biden.

O passo mais recente nesse recuo foi dado no mês passado, quando Trump anunciou que rejeita a descoberta científica de que as mudanças climáticas colocam em risco a saúde humana e o meio ambiente, pondo fim à autoridade legal do Governo federal para controlar a poluição que está a aquecer o planeta de forma perigosa.

Em várias ocasiões, Trump referiu-se às mudanças climáticas como uma “farsa”.

Na reunião de hoje na ONU, e falando em nome dos Estados Unidos, Wright afirmou que “a segurança energética é segurança nacional” e alertou contra a excessiva dependência de um único fornecedor para recursos críticos.

Lembrando a crise energética europeia resultante da dependência do petróleo e do gás russos, realçou que “a energia é demasiado importante, demasiado essencial para a vida, para que erremos na sua gestão”.

O representante da administração Trump acrescentou que é do interesse da segurança dos Estados Unidos e dos seus aliados não depender de nenhum país para minerais críticos, destacando os esforços para manter as rotas comerciais globais abertas e reforçar a cooperação económica e de segurança.

De acordo com Chris Wright, os Estados Unidos e aliados “estão a trabalhar arduamente para manter os mares abertos e as principais rotas comerciais, do Canal do Panamá ao Mar Vermelho e ao Estreito de Ormuz, seguras e com fluxo contínuo”.

Já a subsecretária-geral da ONU para Assuntos Políticos e de Consolidação da Paz, Rosemary DiCarlo, destacou, na mesma reunião, que uma governação responsável dos minerais críticos é essencial para a paz e o desenvolvimento.

DiCarlo afirmou que os minerais críticos estão “entre os principais motores da economia do século XXI”, sustentando tecnologias que vão desde os ‘smartphones’ aos veículos elétricos.

Alertou, porém, que a crescente procura — que deverá triplicar até 2030 — eleva também o risco de intensificar a competição geopolítica e os conflitos nas regiões ricas em recursos.

A representante da ONU recordou que várias regiões e países afetados por conflitos são grandes produtores de minerais críticos, sublinhando que mais de 70% da extração global de cobalto, por exemplo, ocorre na República Democrática do Congo, sendo que a maioria das baterias que alimentam os dispositivos inteligentes depende desse mineral.

Já Myanmar (antiga Birmânia) é uma das maiores fontes mundiais de elementos de terras raras, essenciais para ímanes de alto desempenho utilizados em eletrónica avançada.

E a Ucrânia, por sua vez, possui reservas significativas de titânio e lítio, indispensáveis para tecnologias aeroespaciais e manufatura avançada.

A mineração ilegal pode “impulsionar economias ilícitas e financiar grupos criminosos e armados”, disse DiCarlo, apelando a uma governação mais forte, à transparência na cadeia de abastecimento e à diplomacia para garantir que os minerais apoiam o desenvolvimento sustentável e a paz.

quinta-feira, 12 de junho de 2025

Guerra e violência mantêm 122 milhões deslocados em todo o mundo


Cerca de 122,1 milhões de pessoas vivem longe de casa em todo o mundo devido a guerras, violência e perseguições, um recorde que quase dobra o número de 2015, indica um relatório publicado hoje pela ONU.

Conflitos como os de Myanmar (antiga Birmânia), Sudão e Ucrânia continuam a ser os principais responsáveis por esta deslocação forçada, que inclui mais de 42,7 milhões de refugiados em países que não o de origem e 73,5 milhões de deslocados internamente, de acordo com o relatório da agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).

Destes refugiados e deslocados internamente, 40% são menores de idade e 7% têm mais de 60 anos.

Os números recorde, atualizados até abril, surgem num contexto de "relações internacionais voláteis" e de conflitos marcados por um enorme sofrimento para os civis, afirmou o Alto Comissário do ACNUR, Filippo Grandi, no lançamento do relatório.

De acordo com o documento, a Síria deixou de ser o país com mais refugiados e deslocados em todo o mundo (13,5 milhões), tendo sido ultrapassada pelo Sudão, com 14,3 milhões de pessoas deslocadas pela guerra civil.

O Afeganistão ocupa o terceiro lugar, com 10,3 milhões de deslocados, e a Ucrânia a quarta posição, com 8,8 milhões.

Em termos de refugiados em outros países, as quatro nações mencionadas tenham cada uma um número semelhante, cerca de seis milhões.

Em termos de países de acolhimento, o Irão ocupa o primeiro lugar, com 3,8 milhões de refugiados, na maioria afegãos, seguindo-se a Turquia (3,1 milhões, na maioria sírios), Colômbia (2,8 milhões, principalmente da Venezuela), Alemanha (2,7 milhões) e Uganda (1,7 milhões).

Em termos relativos, o Líbano lidera a lista, com um refugiado em cada oito habitantes, seguido do Chade e da Jordânia, onde a proporção é de um refugiado em cada 16 pessoas.

O relatório do ACNUR inclui ainda estatísticas relativas aos países que recebem mais pedidos de asilo, uma lista encabeçada pelos Estados Unidos (729 mil só na primeira metade de 2024), seguidos do Egito (433 mil para todo o ano), Alemanha (229 mil), Canadá (174 mil) e Espanha (167 mil, muitos deles colombianos, venezuelanos e ucranianos).

Numa perspetiva positiva, 9,8 milhões de pessoas - um número notavelmente mais elevado do que noutros anos - regressaram a casa em 2024, incluindo dois milhões de sírios, um número que deverá aumentar acentuadamente em 2025, na sequência da queda do regime de Bashar al-Assad, no final do ano passado.

Embora o regresso de deslocados seja, em princípio, uma notícia positiva, o ACNUR observa que, em alguns casos, ocorreram num contexto adverso para estas populações, como é o caso do grande número de afegãos que estão a ser forçados a voltar ao país, ainda abalado pela violência, a partir dos vizinhos Irão e Paquistão.

O ACNUR recorda no relatório que, contrariamente à perceção em muitos países desenvolvidos, 60% das pessoas deslocadas à força não abandonam o país de origem e que, dos refugiados que o fazem, dois em cada três vivem em países vizinhos e três em cada quatro em economias em desenvolvimento.

A agência da ONU alertou ainda para o facto de que, embora o número de deslocados no mundo tenha quase duplicado em relação aos 65 milhões contabilizados em 2015, o financiamento da agência permanece quase ao mesmo nível, "num contexto de cortes brutais na ajuda humanitária".

Embora o relatório não detalhe esses cortes, fontes internas da agência indicaram nos últimos meses que, na sequência do congelamento das contribuições dos EUA, um dos seus principais contribuintes, a agência foi forçada a reduzir o pessoal em todo o mundo em cerca de 30%.

Perante este cenário, a agência para os refugiados insta os dadores a continuarem a financiar os programas de assistência aos refugiados e deslocados, "um investimento essencial para a segurança regional e mundial".

quinta-feira, 30 de março de 2023

O projeto português para construir (e doar) casas de bambu no Mianmar

Objetivo é doar casas a famílias deslocadas. Campanha de crowdfunding do projeto Housing Now irá decorrer até ao final de abril.


Housing Now é o nome do projeto de habitação social que pretende construir casas de baixo custo em bambu no Mianmar (Birmânia), para depois doá-las a famílias deslocadas que vivem em condições precárias. O arquiteto português António Duarte é um dos fundadores deste projeto, e acaba de lançar uma campanha de crowdfunding (recolha de donativos) para financiar a construção de dez casas de baixo custo nesta região.

“Após o golpe militar de fevereiro [do ano passado] no Mianmar, mais 400.000 pessoas fugiram das suas casas e estão atualmente deslocadas internamente no país (...) Uma grande percentagem da população não tem acesso a uma habitação digna (...)”, lê-se na descrição do crowdfunding do Housing Now, um projeto do atelier de design Blue Temple.

O objetivo, segundo explica António Duarte ao P3, é angariar 15.000 euros para construir dez casas de bambu para deslocados, na região de Pago. “Por cada 1500 euros doados, nós construímos uma casa”, disse em entrevista à publicação.


“O financiamento recebido cobrirá os custos de construção, expedição e montagem das casas doadas no local; contratação de assistentes sociais locais que ajudarão na implementação do projeto, trabalhando em estreita colaboração com cada família”, explicam ainda na página de angariação de donativos. Além disso, uma pequena parte do lucro gerado “será usado para levar o projeto à próxima etapa do seu desenvolvimento, que será a produção em larga escala”.

Casas pré-fabricadas de bambu
Porquê o bambu? O objetivo será usar um recurso “abundante e pouco explorado”. “O bambu pode ser encontrado em grandes quantidades no mercado local, mas não é usado na construção”, referem.

O processo de construção será híbrido, ou seja, partes da casa são pré-fabricadas e transportáveis, enquanto outras são montadas no local trabalhando em conjunto com as comunidades locais.

Depois, e de acordo com as necessidades de cada família, o tamanho da casa pode variar ao longo do tempo, sendo também facilmente desmontável e transportada para outro local no futuro.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

O Movimento 969 e a Ma Ba Tha (Myanmar)



Diferente da imagem tradicional do monge budista sereno, o movimento liderado por Wirathu — que chegou a ser apelidado pela revista Time como "O Rosto do Terror Budista" — utiliza uma retórica de ódio e exclusão.

1. A Simbologia do "969"
O nome não é aleatório; ele foi criado para se opor ao número "786", usado por muçulmanos no sul da Ásia para identificar estabelecimentos halal.
9: As nove virtudes de Buda.
6: Os seis ensinamentos do Dharma.
9: As nove características da Sangha (comunidade monástica).

O uso desse selo em lojas e casas servia para identificar estabelecimentos "puros", incentivando um boicote econômico contra não-budistas.

2. A Ideologia do "Cerco"
A base do grupo não é uma disputa teológica sobre o Nirvana, mas sim uma paranoia demográfica. Wirathu argumenta que:

O budismo está em risco de extinção devido às taxas de natalidade mais altas de minorias muçulmanas (os Rohingya).

Recursos económicos estão sendo "roubados" por estrangeiros.

A "pureza" das mulheres budistas precisa ser protegida por leis que proíbam o casamento inter-religioso.

3. A Transição para a Ma Ba Tha
Em 2014, o movimento evoluiu para a Ma Ba Tha (Associação para a Proteção da Raça e da Religião). Com uma estrutura muito mais organizada, eles conseguiram pressionar o governo birmanês a aprovar as "Leis de Proteção de Raça e Religião", que restringiam conversões religiosas e casamentos entre budistas e muçulmanos.

O Impacto Prático: A Crise Rohingya
O fundamentalismo pregado por esses grupos serviu como combustível ideológico para as operações militares em 2017 no estado de Rakhine.

Desumanização: Monges influentes compararam minorias a "pestes" ou "invasores", facilitando a aceitação popular da violência.

Silenciamento: Budistas moderados que tentaram pregar a tolerância foram frequentemente intimidados ou rotulados como "traidores da fé".

Por que os monges têm tanto poder?
Em Myanmar e no Sri Lanka, o monge não é apenas uma figura religiosa; ele é o pilar moral da sociedade. Se um monge diz que a fé está em perigo, a população rural e as classes médias tendem a acreditar mais nele do que em políticos civis. Isso cria um escudo de "santidade" que torna difícil para o Estado punir discursos de ódio.

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Let me tell you something- O Estado Global da Democracia

Let me tell you something... The Almost Forgotten Selma March.
Aos países como EUA, Rússia, China, Marrocos, Índia, Qatar, Myanmar, Angola, Irão, regimes autocráticos/teocráticos, regimes que violam os Direitos Humanos e países europeus governados pela extrema-direita tenho um textinho para vós:

"True peace is not merely the absence of tension; it is the presence of justice.
To cure injustices, you must expose them before the light of human conscience." - Martin Luther King, Jr. (Montgomery, Alabama, March 25, 1965)


Martin Luther King, Jr.- Selma March, 1965

História

Relatórios

quinta-feira, 28 de julho de 2022

O que é que a Zara, a H&M ou o Lidl têm a ver com a brutal ditadura de Myanmar?

A brutalidade da Junta Militar que governa Myanmar desde o golpe de Estado de fevereiro de 2021 voltou a ser notícia dia 25 de Junho, devido à execução de quatro opositores do governo, enforcados por causa das suas atividades pró-democracia, a que os militares no poder chamam “terrorismo”. Mas, esta terça-feira, um relatório de uma ONG sobre os abusos de que são alvo as trabalhadoras do setor têxtil daquele país volta a colocar as atenções sobre a antiga Birmânia. E não só: o mesmo relatório coloca no centro das atenções marcas internacionais tão conhecidas como a Zara, a H&M, a Primark ou o Lidl, que comercializam produtos fabricados naquele país em total desrespeito pelos direitos humanos mais básicos.


O relatório (que pode consultar aqui) é do Business & Human Rights Resource Centre (BHRRC), uma Organização Não Governamental (ONG) internacional, sediada em Londres, que monitoriza o impacto das empresas nos direitos humanos. Segundo o estudo desenvolvido em Myanmar ao longo dos últimos dezoito meses - ou seja, desde o golpe de Estado que permitiu à Junta Militar tomar o poder e terminar com quase uma década de experiência democrática no país -, verificam-se "abusos generalizados e sistémicos nas cadeias de abastecimento das marcas internacionais".

Que tipo de abusos? No fundo, quase todos os que se possam imaginar, nomeadamente roubo de parte do salário, horários de trabalho abusivos, horas extraordinárias forçadas e não remuneradas, repressão de qualquer tipo de associação - nomeadamente sindical - e ainda violência baseada no género e assédio sexual. Para além de violência pura e dura - há relatos de mulheres que levam pontapés, socos no peito e na cabeça, que são empurradas, insultadas e humilhadas em público nestas fábricas.

Na linha da frente do movimento pró-democrático

A informação refere-se ao setor têxtil, um dos grandes empregadores de Myanmar, com uma mão de obra de cerca de 700 mil pessoas, das quais cerca de 90% são mulheres. Há dados relativos a 70 fábricas cuja produção acaba por ser incorporada na cadeia de valor de grandes marcas internacionais de têxtil e pronto a vestir.

A atenção ao setor têxtil não é um acaso: é aquele cujos trabalhadores mais se destacaram na linha da frente do Movimento de Desobediência Civil que alastrou pelo país após o golpe militar. Estudantes, trabalhadores fabris e agricultores, um pouco por todo o país, resistiram à Junta Militar, “arriscando as suas vidas e meios de subsistência para exigir o fim da ditadura e para restaurar a democracia em Myanmar”, relata o BHRRC.

“Para manter o poder, os militares responderam com força letal à oposição e à dissidência. Tem sido noticiado que pelo menos 55 ativistas sindicais foram mortos e 301 líderes sindicais e membros do movimento laboral foram presos” em pouco mais de um ano.

Ao longo desta investigação foi ainda documentado o assassinato de sete trabalhadores pelas forças militares e outros seguranças armados, e 15 casos de prisão e detenção arbitrária de trabalhadores.

Este é um relato esclarecedor: “A 15 de Março de 2021, seis trabalhadores - incluindo uma mulher líder sindical - de Xing Jia Calçado foi baleada e morta pelos militares e pela polícia depois dos trabalhadores se terem reunido fora da fábrica para reivindicar salários não pagos. Cerca de 17 pessoas foram presas, incluindo mulheres trabalhadoras da fábrica e membros das suas famílias”. Esta fábrica fornecia calçado para a marca norte-americana Justin Brands, que descreveu estes relatos como "fabricação completa" - prometeu conduzir uma investigação independente sobre os tiroteios, e continuou as operações como se nada se tivesse passado.

O mesmo tipo de brutalidade foi usado contra os estudantes e os agricultores nas áreas rurais da antiga Birmânia. Observadores da ONU têm recolhido provas de crimes contra a humanidade perpetrados pelas Forças Armadas, incluindo a destruição total de aldeias e tortura e assassinato de populações civis em territórios onde a resistência armada pró-democracia se tem feito notar.

Nas dezenas de fábricas de vestuário sob a análise da ONG, foram investigados mais de 100 casos de alegados abusos laborais e dos direitos humanos, perpetrados contra pelo menos 60.800 trabalhadores. Mas este é apenas um número indicativo, por baixo, pois algumas queixas referem-se a abusos cometidos contra elevados números de trabalhadores da mesma fábrica.

Os casos documentados, diz uma porta-voz da ONG, são "apenas a ponta do iceberg, dadas as severas restrições às liberdades cívicas e à apresentação de relatórios sob domínio militar, e o risco acrescido de represálias para os trabalhadores que se pronunciam contra os abusos".

A amostra é, porém, suficiente para a BHRRC denunciar uma cultura “generalizada” de abusos e violações de direitos e exigir que as marcas internacionais cortem com esses fornecedores.

Grandes marcas de todo o mundo

Das fábricas têxteis de Myanmar saem produtos que integram as coleções de 32 marcas internacionais tão conhecidas como Zara e Bershka (do grupo espanhol Inditex), H&M, Adidas, Primark, Lidl, Mango, C&A, Guess, Next, Moschino, Carhartt, a japonesa Uniqlo, a francesa Kiabi ou o grupo dinamarquês Bestseller (com marcas como Jack&Jones ou Only).

“Os dados destacam a escala e o alcance dos abusos nos 18 meses desde que os militares tomaram o poder e o impunidade generalizada de que gozam os perpetradores”, lê-se no relatório, divulgado esta terça-feira. A informação recolhida junto de parceiros locais - incluindo todos os principais sindicatos do setor têxtil - “levanta sérias questões às marcas de vestuário e aos seus investidores relativamente à sua capacidade de se abastecerem de forma responsável, conduzir a devida diligência em matéria de direitos humanos e proteger os trabalhadores nas suas cadeias de abastecimento.”

A conclusão é clara: se não são capazes de garantir o respeito pelos direitos dos trabalhadores e um pagamento justo, estas marcas devem abandonar “de forma responsável”

"As marcas devem acordar para a dura realidade de que já não existem condições de trabalho decentes em Myanmar e a continuação dos negócios como habitualmente já não está a ajudar a 'proteger empregos e trabalhadores', como tem sido repetidamente afirmado", disse Alysha Khambay, chefe dos direitos laborais no Business & Human Rights Resource Centre, citada pelo jornal de Hong Kong South China Morning Post. "Quando os militares não estão a realizar buscas porta-a-porta em albergues e casas, a sua presença está a ser solicitada pelas fábricas para ameaçar os trabalhadores para que fiquem em silêncio", acrescentou Khambay.

Prioridade aos lucros sobre os direitos humanos

Segundo esta ONG, e os grupos de trabalho com quem o relatório foi feito, “as marcas que permanecem em Myanmar beneficiam da repressão dos direitos laborais sob domínio militar e dando prioridade aos lucros sobre os direitos humanos, num país onde os trabalhadores do vestuário - 90% dos quais mulheres - ganham agora menos de 2 dólares por dia [o mesmo em euros].”

Em mais de uma centena de casos analisados, as violações mais comuns são o roubo de salários (55 casos), cargas laborais abusivas e horas extraordinárias obrigatórias e não pagas (35 casos), e ataques à liberdade de associação (31 casos). Seguem-se os casos de violência e assédio com base no género, e a conivência entre os patrões das fábricas e os militares que usam da sua força para obrigar os trabalhadores à submissão.

Eis um caso exemplar dessa aliança efetiva entre capital e força das armas: “Em maio de 2021, militares e policias invadiram a fábrica Gasan Apparel, para prender trabalhadores suspeitos de terem participado em protestos contra o golpe. Antes da rusga, os trabalhadores alegadamente ouviram o gerente da fábrica ao telefone com alguém que acreditam ser um oficial dos militares. Trabalhadores e sindicatos alegam que a direção da fábrica conspirou com os militares, fornecendo às forças de segurança os nomes dos líderes dos sindicatos. Na altura, essa fábrica estava a produzir para Inditex e para a Mango. Na sequência do incidente, as marcas confirmaram ter cortado os laços com a fábrica em maio e em setembro de 2021, respetivamente.”
Só dois gigantes internacionais saíram do país

Pouco tempo após a tomada do poder pela Junta Militar, os sindicatos começaram a apelar às marcas internacionais para que se retirassem “de forma responsável” de Myanmar, dada a impossibilidade prática de verificarem as condições de trabalho nesses locais da sua cadeia de valor. Porém, só duas marcas o fizeram, denuncia o relatório.

“Apesar dos apelos dos sindicatos locais e internacionais para que as marcas internacionais se retirem de Myanmar até à restauração da democracia, apenas duas empresas (Tesco e ALDI) saíram”.

O gigante britânico de retalho Tesco diz ter saído de vez de Myanmar na primavera deste ano, seguindo as recomendações dos sindicatos locais e internacionais. O grupo alemão ALDI já tinha feito o mesmo em setembro de 2021, e explicou a sua decisão "devido ao caráter imprevisível da realização das nossas atividades comerciais no país e à dificuldade de cumprimento dos mais básicos processos de due diligence [verificação] dos direitos humanos”.

Os argumentos de quem fica

Outras marcas, como a Primark, a H&M ou a Bestseller começaram por suspender as compras a fábricas de Myanmar na sequência da tomada do poder pelos militares. Mas depressa retomaram a relação com as fábricas do país, invocando a importância de proteger aqueles postos de trabalho como um fator decisivo para essa atitude. No entanto, escreve a ONG, essa alegadas preocupação com os trabalhadores locais não bate certo com o comportamento recente das mesmas marcas no início da pandemia da COVID-19. “Algumas destas mesmas marcas - e muitos outros que se abastecem em Myanmar - cancelaram encomendas e solicitaram descontos retroativos com pouco respeito pela remuneração dos trabalhadores da sua cadeia de abastecimento, que foram despedidos aos milhares sem pagamento de salários devidos quando as fábricas eram obrigadas a fechar.”

Alguns trabalhadores do setor do vestuário admitem ter medo de perder os seus rendimentos se as encomendas internacionais secarem e as fábricas fecharem. Mas os sindicatos e grupos de trabalho acusam as marcas que permanecem em Myanmar porque dão “prioridade aos lucros em detrimento dos direitos humanos”, e “até de beneficiarem da tomada do poder pelos militares e subsequente repressão dos direitos laborais”.

“Nestas circunstâncias, as marcas de vestuário devem lembrar-se que a inação não é uma opção”, lê-se no relatório divulgado 26 de Julho. “No mínimo, devem empreender uma diligência elevada e contínua em matéria de direitos humanos para determinar se são capazes de se abastecer de forma responsável junto de fornecedores de Myanmar; onde não o são, devem ser consideradas estratégias de saída responsável, para cumprir as normas internacionais que as marcas adotaram”.

As marcas que responderam às acusações da BHRRC rejeitam que estejam mais preocupadas com os lucros do que com os direitos humanos e garantem, sem exceção, que estão preocupadas com a situação, prometendo investigar as alegações e tomar decisões empresariais em conformidade.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Fundamentalismo Budista




1. O Budismo Nacionalista
O fundamentalismo budista moderno raramente foca em "interpretação literal de escrituras" (como ocorre em vertentes de outras fés). Em vez disso, ele foca na proteção da nação e da cultura. A ideia central é que o país é o "guardião" do budismo puro e que outras religiões ou minorias étnicas representam uma ameaça a essa pureza.

Myanmar (Birmânia): O movimento 969 e a associação Ma Ba Tha, liderados por monges como Ashin Wirathu, têm sido figuras centrais na retórica contra a minoria muçulmana Rohingya. O argumento usado é que o budismo está sob "cerco" e que medidas violentas seriam formas de "autodefesa" da fé.

Sri Lanka: Grupos como o Bodu Bala Sena (BBS) — ou Força de Poder Budista — promovem uma agenda nacionalista cingalesa. Eles frequentemente entram em conflito com minorias muçulmanas e cristãs, alegando que o Sri Lanka deve ser um Estado exclusivamente budista.

Tailândia: Embora menos centralizado, há facções de monges que pedem que o budismo seja declarado a religião oficial do Estado na constituição e que defendem uma postura agressiva contra insurgências no sul do país.

2. A "Doutrina" da Defesa da Fé
Diferente do fundamentalismo cristão ou islâmico, que pode focar em leis morais (como criação versus evolução ou a Sharia), o fundamentalismo budista costuma criar uma distorção do conceito de Karma e Dharma:

Violência Justificada: Alguns líderes extremistas argumentam que matar para proteger o Budismo não gera o mesmo karma negativo que um assassinato comum.

Identidade vs. Espiritualidade: O foco muda do desapego do "eu" (uma base do budismo) para o apego à "identidade nacional".

Por que isso acontece?
O budismo, como qualquer instituição humana, está sujeito a pressões políticas e sociológicas. O fundamentalismo surge geralmente em contextos de:
  1. Insegurança económica.
  2. Legado colonial (sentimento de que a cultura nativa foi suprimida).
  3. Uso político da religião por governos que buscam uma base de apoio sólida e emocional.
Nota: É importante distinguir a prática espiritual de milhões de budistas — que seguem os preceitos de não-violência — desses movimentos políticos radicais que utilizam a simbologia da religião para fins de exclusão.

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

China: A Convivência Nem Sempre Pacífica Entre Humanos e Elefantes

Esbarrar com um elefante selvagem está a transformar-se em algo comum para alguns aldeões na China, onde o aumento de espécimes e a redução do seu habitat implica uma convivência às vezes complicada com os humanos.


Atualmente, a China está apaixonada pelos paquidermes devido à incrível travessia de 14 desses animais, que no ano passado saíram de uma reserva no sudeste tropical rumo ao norte.

Acompanhada diariamente pelas câmaras de televisão, esta misteriosa transumância destrói plantações agrícolas e causa calafrios às autoridades, preocupadas com a segurança dos moradores.

Quase todos os elefantes asiáticos presentes na China estão na cidade de Xishuangbanna, um território tropical povoado por minorias étnicas e localizado nas fronteiras com Mianmar e Laos.

Os elefantes asiáticos estiveram à beira da extinção na China na década de 1980, quando havia apenas 150 espécimes restantes. A proibição da caça em 1988 e a criação de reservas no território fragmentado melhoraram a situação e hoje há mais de 300 animais. Elefantes num centro de tratamento em Xishuangbanna, província de Yunnan 

Com um peso que pode chegar a quatro toneladas, cada animal é capaz de comer até 200 quilos de alimento por dia, o que os leva a roubar quintas, devorar cultivos e provocar danos nas casas, com prejuízos estimados em 20 milhões de yuanes (quase 3 milhões de dólares) por ano.

Em Xishuangbanna, eles são inclusive a principal fonte de pedidos de indemnização às seguradoras, de acordo com Zhang Li, professor de Ecologia na Universidade Normal de Pequim e comprometido com a proteção dos elefantes.

Os paquidermes também mataram 41 pessoas entre 2013 e 2019, afirma. As vítimas foram estranguladas, pisoteadas ou até mesmo desmembradas.

A imprensa local informa com frequência sobre os ataques, que costumam ser cometidos por mães que protegem os filhos ou por machos jovens solitários e instáveis.

Os moradores acostumaram-se e sabem como agir em caso de alerta. Devem refugiar-se em locais fechados, subir as escadas, não se aproximar dos animais e, acima de tudo, não usar fogos de artifício para assustá-los, já que isso os enfurece.

A viagem dos 14 elefantes continua
A razão exata pela qual os 14 elefantes começaram sua viagem para o norte ainda é um mistério.

"A perda e fragmentação de seu habitat poderia ser a causa principal", estima o professor Zhang Li. Um fenómeno que se intensificou com a competição entre paquidermes pela comida, à medida que sua população aumenta. Zhang Li acredita que as coisas podem piorar ainda mais com o aquecimento global.

A China está a desenvolver um novo sistema de parques nacionais para fortalecer a proteção do habitat de espécies como pandas e tigres. Um elefante "beija" uma turista num parque temático dedicado aos animais em Xishuangbanna, província deYunnan 

Os cientistas propõem um parque nacional dedicado aos elefantes de Xishuangbanna. O projeto, no entanto, é politicamente arriscado, já que exigiria tomar terras agrícolas e deslocar centenas de milhares de pessoas para garantir a continuidade territorial entre as diferentes áreas.

Enquanto isso, os chineses estão a aprender a conviver com os elefantes. "Não posso dizer que gosto dessa situação", disse o agricultor Lu Zhengrong. "Mas temos de encontrar um equilíbrio entre os animais e os humanos. Devemos protegê-los", acrescentou.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Quem é o monge conhecido como 'Bin Laden budista'


[Fonte] Ele descreve mesquitas como "bases inimigas" e se refere a muçulmanos como "cães loucos". Também acusa os adeptos do Islã de "roubar e estuprar mulheres birmanesas" e de "se reproduzirem muito rápido".

Durante anos, as autoridades de Mianmar deram proteção e apoio ao monge budista mais polêmico do mundo, Ashin Wirathu, o que lhe permitiu seguir adiante com suas pregações extremas.

Mas depois de seu ataque à chefe de governo Aung San Suu Kyi, ganhadora do Prémio Nobel da Paz em 1991, as autoridades do país parecem ter concluído que o monge foi longe demais. Agora ele pode ser preso sob acusação de perturbação da ordem pública.

Mas quem é esse monge controverso, conhecido como "Bin Laden budista"?
Primeiros anos
Em 2001, Wirathu chamou atenção ao liderar uma campanha para boicotar empresas que pertenciam a muçulmanos.

Ele foi preso e sentenciado a 25 anos de prisão em 2003, mas solto em 2010, após uma anistia geral. Mas o encarceramento não parece ter reduzido seu fervor ativista contra as minorias muçulmanas do país.

Em seus discursos, ele mistura parábolas budistas com fortes doses de nacionalismo.

Ele fala com calma e clareza durante as entrevistas à imprensa, mas se inflama em reuniões públicas. Suas palavras semeiam o ódio - e a islamofobia existente no país.

Wirathu também fez campanhas pela a aprovação de uma lei que proíbe homens muçulmanos de se casarem com mulheres budistas.

"Você não pode subestimar uma cobra porque ela é pequena. Os muçulmanos são assim", disse ele, certa vez.

Banido das redes sociais
Nos últimos anos, o monge passou a divulgar nas redes sociais a mensagem de que a cultura budista do país seria esmagada por uma crescente população muçulmana.

Eventualmente, o Facebook bloqueou sua conta em janeiro de 2018, citando suas mensagens de ódio contra a minoria muçulmana rohingya do país.

Wirathu afirmou que procuraria outras plataformas para divulgar suas ideias.

"Quando o Facebook me baniu, passei a confiar no YouTube. Mas o YouTube não é abrangente o suficiente, então vou usar o Twitter para continuar o trabalho nacionalista", disse ele.

Ele também compartilha seus vídeos pelo VK, uma espécie de Facebook russo.

Mas não foi apenas o Facebook a bani-lo. Em abril deste ano, ele foi impedido de fazer um sermão na vizinha Tailândia, que também tem maioria budista.

Incompreendido
A popularidade de Wirathu reflete a difícil situação dos muçulmanos de Mianmar, onde formam apenas cerca de cinco por cento da população.

Em julho de 2013, a revista Time publicou uma foto do monge na capa com a legenda "O rosto do terror budista".

"Estou sendo mal interpretado e atacado. Acho que há um grupo pagando à mídia para me difamar. Certamente a mídia online é controlada por muçulmanos", disse ele à BBC em 2013.

Ele foi descrito como "Bin Laden budista" em um documentário lançado em 2015 - apelido rapidamente adotado por alguns veículos de mídia. Porém, Wirathu rejeita a comparação.

Ele diz que abomina a violência. "Eu nem gosto de responder com grosseria", disse.

Críticas à ONU
O budista de 51 anos tem um vasto histórico de controvérsias.

Em 2015, quando a Organização das Nações Unidas (ONU) enviou uma agente especial para investigar a situação da minoria muçulmana em Mianmar, Wirathu chamou a enviada, a diplomata sul-coreana Yanghee Lee, de "cadela" e "prostituta".

Um relatório da ONU divulgado no ano passado disse que os chefes de militares de Mianmar deveriam ser investigados por genocídio no Estado de Rakhine - depois disso, o Tribunal Penal Internacional abriu uma análise preliminar do caso.

O governo de Mianmar rejeitou o relatório e o monge liderou uma ofensiva contra a ONU.
Os seguidores de Wirathu foram amplamente responsabilizados por tumultos antimuçulmanos no Estado de Rakhine, que começaram em 2012 e culminaram no êxodo de mais de 700 mil pessoas para o país vizinho Bangladesh.

Os nacionalistas do país costumam se referir aos muçulmanos rohingya como "bengalis" (como são chamados os nascidos em Bangladesh) - querendo imputar-lhes uma condição de forasteiros.

Numa entrevista concedida ao jornal britânico The Guardian em 2017, Wirathu acusou o partido do governo, a Liga Nacional pela Democracia, de apoiar secretamente uma agenda muçulmana.

Budismo
Mianmar não tem religião oficial definida pelo governo, mas a sociedade é fortemente influenciada pelo budismo - cerca de 90% da população se diz adepta da religião.

Os monastérios desfrutaram de patrocínio estatal há séculos - a ajuda só terminou no século 19, durante o período colonial britânico.

Magníficos templos budistas enfeitam a paisagem de Myanmar, nutridos pelas águas do Irrawaddy e outros rios. Os mosteiros são donos de grandes faixas de terras aráveis.

O país, com população de 54 milhões, tem uma longa história de ditadura militar e mantém um Exército permanente de mais de 400 mil soldados. Estima-se que o número de monges budistas seja ainda maior, de 500 mil - eles desfrutam de status social elevado e são amplamente reverenciados pela população.

Ma Ba Tha
Wirathu foi inicialmente associado a uma organização chamada 969. Os defensores do grupo dizem que o primeiro número 9 representa os atributos especiais do Buda, o 6 denota as características especiais dos ensinamentos budistas e o último 9 significa as qualidades da Sangha - a congregação de monges.

Mas o grupo 969 era mais conhecido por seu ativismo antimuçulmano.

O grupo recebeu apoio do governo e, em 2013, o então presidente de Mianmar Thein Sein se manifestou abertamente em apoio tanto ao movimento quanto a seu mais proeminente líder, descrevendo Wirathu como "filho de Buda".

Wirathu posteriormente se tornou líder de outra organização chamada Ma Ba Tha - ou a Associação Patriótica da Birmânia (nome antigo de Mianmar), criada em 2014. Ela cresceu rapidamente em todo o país, antes de ser proibida em 2017.

Mas ele continuou espalhando sua mensagem de ódio aos muçulmanos do tranquilo mosteiro Ma Soe Yein em Mandalay - onde ergueu uma exposição permanente de fotos que, segundo ele, mostram as vítimas da "violência muçulmana".

Em uma longa entrevista concedida à BBC em 2013, o monge, vestido com a tradicional túnica de cor laranja, não se arrependeu de suas provocações. "Os muçulmanos só se comportam bem quando são fracos. Quando se tornam fortes, eles são como um lobo ou um chacal; em grandes grupos, eles caçam outros animais", disse ele.

"Eles (muçulmanos) não reconhecem outros grupos como humanos. Eles atacam cristãos e hindus também. Na verdade, eles atacam a todos. Se você não acredita nisso, dê sua tecnologia nuclear ao Talebã. Prometo a você, seu país em breve desaparecerá ", acrescentou.

Ampla influência
Wirathu viaja frequentemente e até estabeleceu laços estreitos com o grupo Bodu Bala Sena ou o BBS, organização anti-Islã do Sri Lanka, também mantida por monges que seguem o ramo teravada do budismo.

"Hoje, o budismo está em perigo. Precisamos que as mãos sejam firmemente mantidas unidas se ouvirmos o alarme", disse Wirathu em uma reunião em 2014.

Porém, o aumento de sua popularidade não foi bem vista por mosteiros tradicionais. O Conselho de Sanga, apoiado pelo governo, proibiu Wirathu de realizar sermões por um ano, em 2017.

Ataque a líder política
Mas os problemas para o monge realmente começaram quando ele atacou a figura mais popular do país, a ativista e líder política Aung San Suu Kyi.

"Ela se veste como uma fashionista, usa maquiagem e anda por aí em elegantes sapatos de salto alto, sacudindo a bunda para estrangeiros", disse ele a uma multidão em abril deste ano.

Em um discurso proferido em maio, Wirathu a acusou de "dormir com um estrangeiro".

Suu Kyi foi casada com o acadÉmico britânico Michael Aris, que morreu de câncer em 1999, enquanto ela estava sob prisão domiciliar imposta pelo regime militar.

"Wirathu é um monge muito popular e comanda um grande número de seguidores. Essa massa fica feliz quando ele ataca os muçulmanos. Mas quando ele atinge Aung San Suu Kyi, sua popularidade leva uma pancada e despenca", diz Myat Thu, co-fundador do centro de estudos Escola de Ciência Política de Yangun.

Educada em Oxford, Aung San Suu Kyi é conhecida como "A Dama" e é tida como líder de fato do país. Seu cargo oficial é o de conselheira do Estado. O presidente, Win Myint, é um aliado próximo.

A Constituição de Myanmar a proíbe de se tornar presidente do país por ter filhos com nacionalidade estrangeira - eles têm dupla cidadania birmanesa e britânica.

O governo civil agora quer mudar termo da Constituição que proíbe Aung San Suu Kyi de assumir o cargo máximo no Executivo do país. Wirathu se opõe às mudanças constitucionais propostas.

"As pessoas têm grande respeito por Aung San Suu Kyi. Mesmo muitos monges linha dura, e que estão com Wirathu, agora podem achar mais difícil apoiar sua diatribe contra Suu Kyi", acrescenta Myat Thu.

"Se Wirathu tivesse sido crítico apenas às mudanças constitucionais, teria sido difícil para o governo tomar medidas contra ele. Mas ele recorreu a ataques pessoais contra Suu Kyi, o que não caiu bem com o público", diz Myat.

"Ele tornou mais fáceis ações do governo contra ele".

Mas Wirathu mantém sua postura desafiadora. "Se eles quiserem me prender, podem fazê-lo", disse ele ao portal Irrawaddy, recentemente.

domingo, 14 de agosto de 2011

Filme - Samsara (2011)

Lançado em 2011, Samsara é uma obra-prima do cinema contemplativo e não narrativo, dirigida pelo renomado diretor de fotografia e realizador Ron Fricke e produzida por Mark Magidson. O filme dá continuidade ao estilo visual revolucionário fundado por Fricke em Koyaanisqatsi (1982) e aperfeiçoado em Baraka (1992). Sem utilizar uma única linha de diálogo, voz off ou personagens com enredo tradicional, o documentário confia inteiramente no poder da imagem, da montagem e do som para construir a sua mensagem. Gravado ao longo de cinco anos em vinte e cinco países, o filme foi capturado em película de 70 milímetros e posteriormente digitalizado em resolução 8K, o que confere a cada fotograma uma profundidade, textura e riqueza de detalhes quase hipnóticas.

A força condutora do filme reside nas suas profundas raízes filosóficas e espirituais. O próprio título, Samsara, é uma palavra em sânscrito presente nas tradições do Budismo, Hinduísmo e Jainismo que se traduz literalmente como "fluxo contínuo" ou "roda da vida". Filosoficamente, o conceito descreve o ciclo ininterrupto de nascimento, vida, morte e renascimento, ao qual todos os seres estão presos até alcançarem a iluminação ou a libertação (Moksha ou Nirvana). Ao adotar essa premissa, o filme não busca contar uma história linear, mas sim revelar o ritmo e as contradições desse ciclo na Terra, espelhando a transitoriedade de todas as coisas - desde as paisagens geológicas ancestrais até às criações do homem moderno.

Ao longo de noventa minutos, o filme explora a dualidade da condição humana através de justaposições visuais provocatórias. Inspirando-se no conceito budista da impermanência (Anicca), a câmara de Ron Fricke guia o espectador por uma meditação visual sobre o belo e o grotesco, o sagrado e o profano. Numa sequência, testemunhamos rituais espirituais ancestrais, como a criação meticulosa de um mandala de areia por monges tibetanos ou a grandiosa peregrinação de milhões de fiéis ao redor da Kaaba em Meca. Logo a seguir, somos confrontados com a escala esmagadora do consumo moderno: linhas de montagem automatizadas na Ásia, o processamento industrial de alimentos, os gigantescos aterros de lixo eletrónico e as megacidades que nunca dormem.

Essa alternância reflete uma crítica filosófica ao modo como a humanidade se desligou dos ritmos naturais ao criar a sua própria "roda mecânica" de produção e consumo. Há também uma clara influência da fenomenologia e da filosofia da perceção, pois o filme não impõe uma interpretação fechada. Ao olhar diretamente para os rostos das pessoas retratadas - desde operários de fábrica e dançarinos a presidiários e tribos indígenas -, a câmara exige uma conexão empática e interior por parte de quem assiste, fazendo do próprio espectador o narrador da obra.

O elo que une estas imagens e ideias é a sua banda sonora envolvente, composta por Michael Stearns, Lisa Gerrard (vocalista dos Dead Can Dance) e Marcello De Francisci. A música atua como o coração emocional e o motor narrativo do filme. Ela alterna entre cânticos étnicos profundos, texturas ambientais meditativas e arranjos orquestrais e industriais tensos. O som não serve apenas como fundo, mas sim como o sopro vital que conecta cada corte visual, elevando a experiência de um mero espetáculo fotográfico para uma verdadeira jornada espiritual e reflexiva sobre o nosso papel na teia da vida.

Quais foram os principais locais e países onde o documentário Samsara foi filmado?

O documentário Samsara é uma das produções mais ambiciosas e geograficamente abrangentes do cinema moderno, tendo sido rodado ao longo de cinco anos em mais de cem localizações espalhadas por vinte e cinco países e cinco continentes. Na África, a câmara de Ron Fricke capturou a imponência histórica do Egipto através das Pirâmides de Gizé, da Esfinge e da Mesquita do Sultão Hassan no Cairo, ao mesmo tempo que retratou as tradições da tribo Mursi no Vale do Omo, na Etiópia, a arquitetura de barro da Grande Mesquita de Djenné, no Mali, e os invulgares caixões personalizados em Acra, no Gana. A passagem pelo continente africano destaca ainda a transição entre o natural e o abandonado, evidente nas imponentes dunas de Sossusvlei e na cidade-fantasma de Kolmanskop, na Namíbia, onde o deserto recupera o seu espaço entre antigas construções humanas.

O continente asiático e o Médio Oriente constituem o coração espiritual e industrial da obra. Na Ásia Oriental e do Sul, o filme contrasta rituais sagrados — como a devoção no Templo Dourado de Amritsar e nas margens do Rio Ganges em Varanasi, na Índia, a dança rituística das Mil Mãos nas grutas de Longmen, na China, e os templos ancestrais de Borobudur, na Indonésia - com a modernidade tecnológica e a extração laboral. Esta dualidade manifesta-se nos laboratórios de robótica em Osaka, no Japão, nas extensas planícies de estupas milenares em Bagan, em Mianmar, e na perigosa mineração de enxofre no vulcão Kawah Ijen. No Médio Oriente, o filme regista a magnitude de símbolos religiosos globais, com destaque para as imagens da peregrinação do Hajj ao redor da Kaaba em Meca, na Arábia Saudita, além de marcos históricos e urbanos como o Muro das Lamentações em Jerusalém, a antiga cidade de Petra, na Jordânia, e a arquitetura futurista dos arranha-céus no Dubai.

Nas Américas e na Europa, o foco da obra recai sobre a escala da atividade humana, as infraestruturas urbanas e a força da natureza. Nos Estados Unidos, a rodagem abrangeu desde a vastidão natural do Parque Nacional de Arches, em Utah, e dos vulcões no Havaí, até cenários de devastação e consumo, como as marcas do Furacão Katrina em Nova Orleães, prisões de alta segurança e gigantescos aterros industriais. Na América do Sul, a equipa filmou no Brasil, retratando a densidade urbana e social da Favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, e a malha rodoviária de São Paulo. Por fim, na Europa, a produção registou a imponência da arquitetura sacra e artística na Basílica de São Pedro, no Vaticano, no Museu do Louvre e no Palácio de Versalhes, em França, assim como o tom sombrio das Catacumbas dos Capuchinhos em Palermo, na Itália, fechando um mosaico global que une o património natural, espiritual e industrial da humanidade.