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terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Estética e Megaprojectos Eólicos e Fotovoltaico


A principal razão para nos opormos à proliferação actual de instalações solares e fotovoltaicas é de ordem estética. Pode parecer uma frivolidade, mas vamos demonstrar que não o é.

A política energética segue a tese de que a quantidade de energia gasta está correlacionada com o nível de bem-estar. Esta crença é consistente com a ideia moderna da história, que assume que o curso da humanidade consiste, basicamente, na luta para extrair da natureza os recursos que necessita para evitar uma vida de privação. Graças a existências penosas intermináveis, como se fosse uma verdadeira penitência, a humanidade tem vindo a alcançá-la agonizantemente. Chamamos-lhe “trabalho”, abstração cardeal que aglutina tarefas e ofícios muito diversos, com implicações muito diferentes. A moderna noção de “trabalho” foi criada durante o século XVIII, mas as pessoas hoje assumem-na como sendo a coisa mais natural, aceitando como evidente a ideia que fazer roupas, bonecas ou auto-estradas, por exemplo, é o mesmo: “trabalho” é “produzir”.

É o mito do Crescimento da Economia que dá sentido ao quadro institucional da sociedade industrial e proporciona às massas industrialistas petulância etnocêntrica, fundamentalmente porque dispõem de artefactos tecnicamente mais sofisticados do que os seus avós. As hierarquias do industrialismo promovem megaprojectos invocando mitos, e inundam as paisagens. A natureza colossal destas obras atordoa as pessoas comuns, mas estas aceitam-nas com gratidão, uma vez que carregam o mito nas veias. É inoculado pelos aparelhos educativos e publicitários dirigidos pelas mesmas hierarquias que executam os megaprojetos. Assim, a maioria acredita que estas obras insanas contribuirão positivamente para o “crescimento da economia”, ergo do seu bem-estar e dos seus descendentes. E, finalmente, aplaudem entusiasticamente as liturgias industriais, como as inaugurações de barragens gigantescas, etc. Nesta linha de pensamento, não deve haver dúvidas de que o sonho da tecnocracia especializada (engenheiros, agentes de desenvolvimento, gestores…), treinado na busca ansiosa de prémios e emolumentos, é coroar os picos do mundo com moinhos tão gigantescos que deixam as pirâmides dos antigos impérios ridiculamente pequenos. Trata-se de uma simples questão de escala, embora os exegetas do Produtivismo justifiquem as obras colossais de hoje, em contraste com as antigas: as de agora são úteis, porque são feitas para produzir; as de antigamente, sumptuárias, porque serviam para adorar os deuses.

Mas este mito do Crescimento da Economia foi respondido desde o início, quando Smith, Malthus e Marx completaram o seu cânone. Segundo Marx, a chave para a humanização e a civilização é a supracitada abstração do “trabalho”, não a palavra, nem a poesia, nem a peça e o devaneio artístico, como se acreditava, pelo menos desde Aristóteles. De acordo com esta mais antiga cosmologia, que repele as noções de Produção e Trabalho, a palavra, ao significar tudo, retira os humanos do ambiente (reino biológico) e coloca-os no mundo (reino simbólico), o lugar em que, irrevogavelmente, habitamos. A palavra não nasce do indivíduo, mas da comunidade, e nela as pessoas falam. Portanto, a condição humana é tornar-se comunidade (zoom politikon), e a questão essencial é o estar, que determina e dá sentido à existência. De acordo com esta permissa, os impulsos da comida, do abrigo e do sexo não determinam nada, mas são determinados pela identidade e ligação, e convertidos em formas de comunicação, ocasiões para o reconhecimento. Portanto, a condição humana não é determinada materialmente, mas pela identidade e ideais. É isso que explica a cultura humana na sua diversidade, não na luta pela existência.

Questionar o mito da Produção leva-nos a desafiar as suas hierarquias, que fingem ser fornecedores solventes das nossas “necessidades materiais”; e noções que pareciam inabaláveis parecem agora absurdas para nós, como a da “classe adequada” e da “classe trabalhadora”. Ou a da “matéria-prima”, que os economistas definem como qualquer coisa que só adquire valor se for usada na Produção. A noção atual de matéria-prima provém dos alquimistas, quando se acreditava que a Terra era praticamente infinita. Sabemos hoje que não é esse o caso, mas a noção permanece incólume, porque não deriva de provas, mas sim da fé tecnológica. É a idolatria da técnica (tecnolatry), e reduz-se a isto: a sofisticação técnica salvará a humanidade. Lançamentos de foguetes lunares, corridas de velocípedes ou exposições electrónicas da China são exemplos de cerimoniais deste culto.

Mais concretamente, as autoridades voltam agora à carga anunciando a “estratégia das matérias-primas críticas”. É a revitalizada litania da Produção, pregada durante o século e meio por capitalistas e socialistas, agora envernizada como “verde”, “circular” e “sustentável”. Esta idolatria sombria deve ser denunciada por respeito à justiça, à bondade e à beleza. E recuperar outros significados para as “matérias-primas” que o jargão económico enterrou, ou renomeá-los. Por que não bens comuns em vez de matérias-primas? Temos de deixar para trás o olhar pedestre da Economia, para recuperar o sentido de admiração, ao qual Rachel Carson apela, contemplar a maravilha do mundo, e depois compreender que as plantações solares e eólicas são horrores nocivos a que valem a pena opormo-nos.

A cosmologia da produção concebe noções de justiça, bondade e beleza de acordo com uma versão da ideia antiga da identidade dos opostos (a “dialéctica”, disse Marx). É por isso que os economistas insistem em que esses bens mais elevados só serão alcançados amanhã, negando-lhes o hoje. Por exemplo, na estética, pregam um prosaísmo orgulhoso e um modesto adiamento do belo.
Mas, uma vez que o que está em jogo aqui é negar a Produção, vamos fazê-lo precisamente a nível estético. Pensador@s dos últimos dois séculos compreenderam o crucial debate estético para sancionar ou invalidar a teoria da Produção. O romantismo e as suas derivações, bem como as tradições místicas (de Willian Blake a Octavio Paz ou Ludovico Einaudi, de Willian Turner a Martin Buber, Gandhi ou María Zambrano) ridicularizam a lógica sacrificial da Produção, com o seu rescaldo da fealdade e da devastação. Mas, ao mesmo tempo, há notáveis apologistas (todos masculinos) das paisagens industriais insanas, que nascem na mina moderna e se desdobram em impressionantes excrescências de tubos, fornos infernais e secreções tóxicas. E agora, além disso, moinhos gigantes e planícies de metal. Aspiram ao solene dos loucos, como símbolo do poder redentor.

H. D. Thoreau considerou as pirâmides um precedente do gigantismo industrial. Referindo-se a eles, escreveu em Walden (1854):
Não há nada para se surpreender tanto como o facto de poder haver tantos homens degradados para passar a vida a construir a sepultura de um tolo ambicioso…
Um século depois, E. F. Schumacher também escolheu a crítica estética do gigantismo industrial para desacreditar a cosmologia da Produção. O seu trabalho mais conhecido, Small is Beautiful, é um apelo contra a Produção.

A linha oposta de justificação estética do excesso de produto é bem capturada, por exemplo, J. M. Keynes, que, nas Possibilidades Económicas dos Nossos Netos, admoesta:
… pelo menos por mais cem anos temos de simular… que o belo é sujo e o sujo é bonito… Porque só [o sujo pode] guiar-nos para fora do túnel da necessidade económica para a clareza do dia.
Na homilia deste Pai da Economia é rastreável, embora no registo anti-literário, o simbolismo da travessia do deserto, que Deuteronomi, com respiração poética, descreve da seguinte forma:
Grande e inspiradora selva, com serpentes venenosas e escorpiões e com solo sedento que não tem água (Deuteronômio 1:19; 8:15).
Não há dúvida de que a soteriologia do industrialismo deve muito a estas metáforas antigas para expressar a lógica sacrificial e expiatória que o encontrou. Nesta linha, o grande profeta da modernidade foi, sem dúvida, Karl Marx, que avisa a humanidade de que terá de atravessar o inferno do capitalismo para ascender ao socialismo definitivamente progredido. A sua escrita enigmática e entediante, que atinge o seu clímax em O Capital, já contém a mensagem subjacente de que os feios, os sujos e os ininteligíveis anunciam, dialéticamente, a verdade, a beleza e a bondade. Após a consagração do trabalho destes Pais, é já uma convenção que a escrita antipoética e abstrusa e a ingenuidade técnica titânica e insana são um caminho de martírio, no entanto, necessário para a verdade, a bondade e a beleza.

Simone Weil, que escreveu talvez o apelo mais lúcido contra o inferno industrial (“Reflexões sobre as causas…”, 1934), desafia todos estes Pais – embora dirigindo-se expressamente a Marx – com apenas duas perguntas: como poderiam pensar que a propagação da fealdade e da devastação traria beleza e abundância?
Portanto, de acordo com uma simples razão estética, rejeitamos megaprojetos de vento e fotovoltaicos.

sábado, 3 de dezembro de 2022

E-Livro- The Subversive Simone Weil: A Life in Five Ideas


A vida fascinante de uma das mais importantes figuras do pensamento do séc. XX: cristã, combatente anti-fascista na guerra civil espanhola ao lado dos anarquistas, operária e filósofa.


Simone Weil (1909-1943) viveu muito em pouco tempo. Nasceu em Paris, no seio de uma família judia agnóstica. Quando, com 22 anos, ensina filosofia no liceu de uma cidade mineira francesa, decide viver com os cinco francos por dia dos desempregados, entregando o seu ordenado à caixa dos mineiros. Em Paris, onde trabalha como operária anónima, é testemunha da servidão imposta pela técnica, da coisificação do homem e da aniquilação do pensamento na produção de mercadorias. Filósofa, mística, pacifista, anarquista, activista da resistência francesa, Weil foi uma das mentes mais brilhantes do século XX, «o único grande espírito do nosso tempo» (Camus) com «um coração capaz de bater por meio do universo inteiro» (Beauvoir). Morreu aos 34 anos, debilitada e mal alimentada, em solidariedade com os compatriotas submetidos ao racionamento.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Pode ler aqui na íntegra a intervenção de José Tolentino Mendonça no Dia de Portugal

Fonte: aqui


O DIÁRIO publica na íntegra a intervenção proferida hoje pelo Presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas 2020, o Cardeal madeirense D. José Tolentino de Mendonça.

O que é amar um país

Agradeço ao senhor Presidente o convite para presidir à Comissão das comemorações do dia 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Estas comemorações estavam para acontecer não só com outro formato, mas também noutro lugar, a Madeira. No poema inicial do seu livro intitulado Flash, o poeta Herberto Helder, ali nascido, recorda justamente «como pesa na água (...) a raiz de uma ilha». Gostaria de iniciar este discurso, que pensei como uma reflexão sobre as raízes, por saudar a raiz dessa ilha-arquipélago, também minha raiz, que desde há seis séculos se tornou uma das admiráveis entradas atlânticas de Portugal.

É uma bela tradição da nossa República esta de convidar um cidadão a tomar a palavra neste contexto solene para assim representar a comunidade de concidadãos que somos. É nessa condição, como mais um entre os dez milhões de portugueses, que hoje me dirijo às mulheres e aos homens do meu país, àquelas e àqueles que dia-a-dia o constroem, suscitam, amam e sonham, que dia-a-dia encarnam Portugal onde quer que Portugal seja: no território continental ou nas regiões autónomas dos Açores e da Madeira, no espaço físico nacional ou nas extensas redes da nossa diáspora.

Se interrogássemos cada um, provavelmente responderia que está apenas a cuidar da sua parte - a tratar do seu trabalho, da sua família; a cultivar as suas relações ou o seu território de vizinhança - mas é importante que se recorde que, cuidando das múltiplas partes, estamos juntos a edificar o todo. Cada português é uma expressão de Portugal e é chamado a sentir-se responsável por ele. Pois quando arquitetamos uma casa não podemos esquecer que, nesse momento, estamos também a construir a cidade. E quando pomos no mar a nossa embarcação não somos apenas responsáveis por ela, mas pelo inteiro oceano. Ou quando queremos interpretar a árvore não podemos esquecer que ela não viveria sem as raízes.

Camões e a arte do desconfinamento

Pensemos no contributo de Camões. Camões não nos deu só o poema. Se quisermos ser precisos, Camões deixou-nos em herança a poesia. Se, à distância destes quase quinhentos anos, continuamos a evocar coletivamente o seu nome, não é apenas porque nos ofereceu, em concreto, o mais extraordinário mapa mental do Portugal do seu tempo, mas também porque iniciou um inteiro povo nessa inultrapassável ciência de navegação interior que é a poesia. A poesia é um guia náutico perpétuo; é um tratado de marinhagem para a experiência oceânica que fazemos da vida; é uma cosmografia da alma. Isso explica, por exemplo, que Os Lusíadas sejam, ao mesmo tempo, um livro que nos leva por mar até à India, mas que nos conduz por terra ainda mais longe: conduz-nos a nós próprios; conduz-nos, com uma lucidez veemente, a representações que nos definem como indivíduos e como nação; faz-nos aportar – e esse é o prodígio da grande literatura - àquela consciência última de nós mesmos, ao quinhão daquelas perguntas fundamentais de cujo confronto, um ser humano sobre a terra, não se pode isentar.

Se é verdade, como escreveu Wittgenstein, que «os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo», Camões desconfinou Portugal. A quem tivesse dúvidas sobre o papel central da cultura, das artes ou do pensamento na construção de um país bastaria recordar isso. Camões desconfinou Portugal no século XVI e continua a ser para a nossa época um preclaro mestre da arte do desconfinamento. Porque desconfinar não é simplesmente voltar a ocupar o espaço comunitário, mas é poder, sim, habitá-lo plenamente; poder modelá-lo de forma criativa, com forças e intensidades novas, como um exercício deliberado e comprometido de cidadania. Desconfinar é sentir-se protagonista e participante de um projeto mais amplo e em construção, que a todos diz respeito. É não conformar-se com os limites da linguagem, das ideias, dos modelos e do próprio tempo. Numa estação de tetos baixos, Camões é uma inspiração para ousar sonhos grandes. E isso é tanto mais decisivo numa época que não apenas nos confronta com múltiplas mudanças, mas sobretudo nos coloca no interior turbulento de uma mudança de época.

Que a crise nos encontre unidos

Gostaria de recordar aqui uma passagem do Canto Sexto d’Os Lusíadas, que celebra a chegada da expedição portuguesa à India. Os marinheiros, dependurados na gávea, avistam finalmente «terra alta pela proa» e passam notícia ao piloto que, por sua vez, a anuncia vibrante a Vasco da Gama. O objetivo da missão está assim cumprido. Mas o Canto Sexto tem uma exigente composição em antítese, à qual não podemos não prestar atenção. É que à visão do sonho concretizado não se chega sem atravessar uma dura experiência de crise, provocada por uma tempestade marítima que Camões sabiamente se empenha em descrever, com impressiva força plástica. Digo sabiamente, porque não há viagem sem tempestades. Não há demandas que não enfrentem a sua própria complexificação. Não há itinerário histórico sem crises. Isso vem-nos dito n’Os Lusíadas de Camões, mas também nas Metamorfoses de Ovídio, na Eneida de Virgílio, na Odisseia de Homero ou nos Evangelhos cristãos.

No itinerário de um país, cada geração é chamada a viver tempos bons e maus, épocas de fortuna e infelizmente também de infortúnio, horas de calmaria e travessias borrascosas. A história não é um continuum, mas é feita de maturações, deslocações, ruturas e recomeços. O importante a salvaguardar é que, como comunidade, nos encontremos unidos em torno à atualização dos valores humanos essenciais e capazes de lutar por eles.

Mas à observação realística que Camões faz da tempestade, gostaria de ir buscar um detalhe, na verdade uma palavra, para a reflexão que proponho: a palavra «raízes». Na estância 79, falando dos efeitos devastadores do vento, o poeta diz: «Quantas árvores velhas arrancaram/ Do vento bravo as fúrias indignadas/ As forçosas raízes não cuidaram/Que nunca para o Céu fossem viradas». A leitura da imagem em jogo é imediata: as velhas árvores reviradas ao contrário, arrancadas com violência ao solo, expõem dramaticamente, a céu aberto, as próprias raízes. A tempestade descrita por Camões recorda-nos, assim, a vulnerabilidade, com a qual temos sempre de fazer conta. As raízes, que julgamos inabaláveis, são também frágeis, sofrem os efeitos da turbulência da máquina do mundo. Não há super-países, como não há super-homens. Todos somos chamados a perseverar com realismo e diligência nas nossas forças e a tratar com sabedoria das nossas feridas, pois essa é a condição de tudo o que está sobre este mundo.

O que é amar um país

O Dia de Portugal, e este Dia de Portugal de 2020 em concreto, oferece-nos a oportunidade de nos perguntarmos o que significa amar um país. A pensadora europeia Simone Weil, num instigante ensaio destinado a inspirar o renascimento da Europa sob os escombros da Segunda Grande Guerra, de cujo desfecho estamos agora a celebrar o 75º aniversário, escreveu o seguinte: um país pode ser amado por duas razões, e estas constituem, na verdade, dois amores distintos. Podemos amar um país idealmente, emoldurando-o para que permaneça fixo numa imagem de glória, e desejando que esta não se modifique jamais. Ou podemos amar um país como algo que, precisamente por estar colocado dentro da história, sujeito aos seus solavancos, está exposto a tantos riscos. São dois amores diferentes. Podemos amar pela força ou amar pela fragilidade. Mas, explica Simone Weil, quando é o reconhecimento da fragilidade a inflamar o nosso amor, a chama deste é muito mais pura.

O amor a um país, ao nosso país, pede-nos que coloquemos em prática a compaixão – no seu sentido mais nobre - e que essa seja vivida como exercício efetivo da fraternidade. Compaixão e fraternidade não são flores ocasionais. Compaixão e fraternidade são permanentes e necessárias raízes de que nos orgulhamos, não só em relação à história passada de Portugal, mas também àquela hodierna, que o nosso presente escreve. E é nesse chão que precisamos, como comunidade nacional, de fincar ainda novas raízes.

Nestes últimos meses abateu-se sobre nós uma imprevista tempestade global que condicionou radicalmente as nossas vidas e cujas consequências estamos ainda longe de mensurar. A pandemia que principiou como uma crise sanitária tornou-se uma crise poliédrica, de amplo espetro, atingindo todos os domínios da nossa vida comum. Sabendo que não regressaremos ao ponto em que estávamos quando esta tempestade rebentou, é importante, porém, que, como sociedade, saibamos para onde queremos ir. No Canto Sexto d’Os Lusíadas a tempestade não suspendeu a viagem, mas ofereceu a oportunidade para redescobrir o que significa estarmos no mesmo barco.

Reabilitar o pacto comunitário

O que significa estar no mesmo barco? Permitam-me pegar numa parábola. Circula há anos, atribuída à antropóloga Margaret Mead, a seguinte história. Um estudante ter-lhe-ia perguntado qual seria para ela o primeiro sinal de civilização. E a expectativa geral é que nomeasse, por exemplo, os primeiríssimos instrumentos de caça, as pedras de amolar ou os ancestrais recipientes de barro. Mas a antropóloga surpreendeu a todos, identificando como primeiro vestígio de civilização um fémur quebrado e cicatrizado. No reino animal, um ser ferido está automaticamente condenado à morte, pois fica fatalmente desprotegido face aos perigos e deixa de se poder alimentar a si próprio. Que um fémur humano se tenha quebrado e restabelecido documenta a emergência de um momento completamente novo: quer dizer que uma pessoa não foi deixada para trás, sozinha; que alguém a acompanhou na sua fragilidade, dedicou-se a ela, oferecendo-lhe o cuidado necessário e garantindo a sua segurança, até que recuperasse. A raiz da civilização é, por isso, a comunidade. É na comunidade que a nossa história começa. Quando do eu fomos capazes de passar ao nós e de dar a este uma determinada configuração histórica, espiritual e ética.

É interessante escutar o que diz a etimologia latina da palavra comunidade (communitas). Associando dois termos, cum e munus, ela explica que os membros de uma comunidade – e também de uma comunidade nacional – não estão unidos por uma raiz ocasional qualquer. Estão ligados sim por um múnus, isto é, por um comum dever, por uma tarefa partilhada. Que tarefa é essa? Qual é a primeira tarefa de uma comunidade? Cuidar da vida. Não há missão mais grandiosa, mais humilde, mais criativa ou mais atual.

Celebrar o Dia de Portugal significa, portanto, reabilitar o pacto comunitário que é a nossa raiz. Sentir que fazemos parte uns dos outros, empenharmo-nos na qualificação fraterna da vida comum, ultrapassando a cultura da indiferença e do descarte. Uma comunidade desvitaliza-se quando perde a dimensão humana, quando deixa de colocar a pessoa humana no centro, quando não se empenha em tornar concreta a justiça social, quando desiste de corrigir as drásticas assimetrias que nos desirmanam, quando, com os olhos postos naqueles que se podem posicionar como primeiros, se esquece daqueles que são os últimos. Não podemos esquecer a multidão dos nossos concidadãos para quem o Covid19 ficará como sinónimo de desemprego, de diminuição de condições de vida, de empobrecimento radical e mesmo de fome. Esta tem de ser uma hora de solidariedade. No contexto do surto pandémico, foi, por exemplo, um sinal humanitário importante a regularização dos imigrantes com pedidos de autorização de residência, pendentes no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. O desafio da integração é, porém, como sabemos, imenso, porque se trata de ajudar a construir raízes. E essas não se improvisam: são lentas, requerem tempo, políticas apropriadas e uma participação do conjunto da sociedade. Lembro-me de um diálogo do filme do cineasta Pedro Costa, «Vitalina Varela», onde se diz a alguém que chega ao nosso país: «chegaste atrasada, aqui em Portugal não há nada para ti». Sem compaixão e fraternidade fortalecem-se apenas os muros e aliena-se a possibilidade de lançar raízes.

Fortalecer o pacto intergeracional

Reabilitar o pacto comunitário implica robustecer, entre nós, o pacto intergeracional. O pior que nos poderia acontecer seria arrumarmos a sociedade em faixas etárias, resignando-nos a uma visão desagregada e desigual, como se não fossemos a cada momento um todo inseparável: velhos e jovens, reformados e jovens à procura do primeiro emprego, avós e netos, crianças e adultos no auge do seu percurso laboral. Precisamos, por isso, de uma visão mais inclusiva do contributo das diversas gerações. É um erro pensar ou representar uma geração como um peso, pois não poderíamos viver uns sem os outros.

A tempestade provocada pelo Covid19 obriga-nos como comunidade, a refletir sobre a situação dos idosos em Portugal e nesta Europa da qual somos parte. Por um lado, eles têm sido as principais vítimas da pandemia, e precisamos chorar essas perdas, dando a essas lágrimas uma dignidade e um tempo que porventura ainda não nos concedemos, pois o luto de uma geração não é uma questão privada. Por outro, temos de rejeitar firmemente a tese de que uma esperança de vida mais breve determine uma diminuição do seu valor. A vida é um valor sem variações. Uma raiz de futuro em Portugal será, pelo contrário, aprofundar a contribuição dos seus idosos, ajudá-los a viver e a assumir-se como mediadores de vida para as novas gerações. Quando tomei posse como arquivista e bibliotecário da Santa Sé, uma das referências que quis evocar nesse momento foi a da minha avó materna, uma mulher analfabeta, mas que foi para mim a primeira biblioteca. Quando era criança, pensava que as histórias que ela contava, ou as cantilenas com que entretinha os netos, eram coisas de circunstância, inventadas por ela. Depois descobri que faziam parte do romanceiro oral da tradição portuguesa. E que afinal aquela avó analfabeta estava, sem que nós soubéssemos, e provavelmente sem que ela própria o soubesse, a mediar o nosso primeiro encontro com os tesouros da nossa cultura.

Robustecer o pacto intergeracional é também olhar seriamente para uma das nossas gerações mais vulneráveis, que é a dos jovens adultos, abaixo dos 35 anos; geração que, praticamente numa década, vê abater-se sobre as suas aspirações, uma segunda crise económica grave. Jovens adultos, muitos deles com uma alta qualificação escolar, remetidos para uma experiência interminável de trabalho precário ou de atividades informais que os obrigam sucessivamente a adiar os legítimos sonhos de autonomia pessoal, de lançar raízes familiares, de ter filhos e de se realizarem.

Implementar um novo pacto ambiental

A pandemia veio, por fim, expor a urgência de um novo pacto ambiental. Hoje é impossível não ver a dimensão do problema ecológico e climático, que têm uma clara raiz sistémica. Não podemos continuar a chamar progresso àquilo que para as frágeis condições do planeta, ou para a existência dos outros seres vivos, tem sido uma evidente regressão. Num dos textos centrais deste século XXI, a Encíclica Laudato Sii’, o Papa Francisco exorta a uma «ecologia integral», onde o presente e o futuro da nossa humanidade se pense a par do presente e do futuro da grande casa comum. Está tudo conectado. Precisamos de construir uma ecologia do mundo, onde em vez de senhores despóticos apareçamos como cuidadores sensatos, praticando uma ética da criação, que tenha expressão jurídica efetiva nos tratados transnacionais, mas também nos estilos de vida, nas escolhas e nas expressões mais domésticas do nosso quotidiano.

Uma viagem que fazemos juntos

Camões n’Os Lusíadas não apenas documentou um país em viagem, mas foi mais longe: representou o próprio país como viagem. Portugal é uma viagem que fazemos juntos há quase nove séculos. E o maior tesouro que esta nos tem dado é a possibilidade de ser-em-comum, esta tarefa apaixonante e sempre inacabada de plasmar uma comunidade aberta e justa, de mulheres e homens livres, onde todos são necessários, onde todos se sentem - e efetivamente são - corresponsáveis pelo incessante trânsito que liga a multiplicidade das raízes à composição ampla e esperançosa do futuro. Portugal é e será, por isso, uma viagem que fazemos juntos. E uma grande viagem é como um grande amor. Uma viagem assim - explica Maria Gabriela Llansol, uma das vozes mais límpidas da nossa contemporaneidade -, não se esgota, nem cancela na fugaz temporalidade da história, mas constitui uma espécie de «rasto do fulgor» que exprime a ardente natureza do sentido que interrogamos.

Cardeal José Tolentino de Mendonça

Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa, 10 de junho de 2020

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Encontros Improváveis- Lillum e Simone Weil


Lilium- Sorry

Quise decirte y no pudeQuise besarte no lo hiceTe digo la verdadYo no puedo masQuerer asiYo no soy capaz
 
Get her to call and ask for meGet her to call and say I am sorry


"A Amizade não se Procura, Exercita-se" - Simone Weil