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sábado, 20 de junho de 2026
O relógio climático está a acelerar
terça-feira, 2 de junho de 2026
Curva de Keeling: o gráfico que tirou a "pressão arterial" à Terra
Se pudéssemos tirar a pressão arterial à Terra para avaliar a sua saúde climática, o gráfico resultante seria, sem dúvida, a Curva de Keeling. Este registo gráfico, considerado um dos documentos científicos mais importantes da era moderna, mostra a acumulação contínua de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera terrestre desde o final da década de 1950. Mais do que um simples conjunto de dados estatísticos, a curva funciona como o espelho do impacto da atividade humana no planeta e um aviso claro sobre o futuro do nosso clima.
Até meados do século passado, a comunidade científica sabia que a queima de combustíveis fósseis libertava gases, mas não havia certezas se esse dióxido de carbono se acumulava na atmosfera ou se era totalmente absorvido pelos oceanos e pelas florestas. Tudo mudou quando o cientista americano Charles David Keeling desenvolveu um método de alta precisão para medir o CO2 e, em 1958, começou a recolher amostras de ar no topo do vulcão Mauna Loa, no Havai. A escolha do local foi estratégica: isolado no meio do Oceano Pacífico e a grande altitude, o observatório ficava longe da poluição direta das grandes indústrias, oferecendo uma amostra limpa e global da atmosfera terrestre.
Ao olhar para a Curva de Keeling, saltam imediatamente à vista duas características principais: um padrão anual em forma de ziguezague e uma subida vertical implacável ao longo das décadas. O ziguezague regular representa aquilo a que os cientistas chamam a "respiração" da Terra. Durante a primavera e o verão do Hemisfério Norte - onde se concentra a maior parte da vegetação do planeta -, as florestas crescem e absorvem grandes quantidades de CO2 através da fotossíntese, fazendo os níveis atmosféricos descerem. No outono e no inverno, o processo inverte-se; a vegetação entra em dormência e decompõe-se, libertando o gás de volta para o ar.
No entanto, embora o planeta expire e inspire todos os anos, o topo de cada ziguezague é sucessivamente mais alto do que o do ano anterior. Esta tendência de subida contínua a longo prazo é o resultado direto da atividade humana, impulsionada pela queima de carvão, petróleo e gás natural, além da desflorestação global.
Quando Keeling fez a sua primeira medição em 1958, a concentração de $CO_2$ era de 315 partes por milhão (ppm). Hoje, esse valor já ultrapassou a barreira dos 420 ppm. Através do estudo de bolhas de ar presas no gelo profundo da Antártida, sabemos que, nos últimos 800 mil anos, estes níveis nunca tinham ultrapassado os 300 ppm. Em menos de um século, a humanidade alterou a composição química do ar de uma forma sem precedentes na história da evolução humana.
O dióxido de carbono atua como um manto térmico em redor do planeta, retendo o calor do Sol que, de outra forma, escaparia para o espaço. À medida que a Curva de Keeling continua a subir, esse cobertor torna-se cada vez mais espesso, alimentando o aquecimento global, o degelo dos glaciares, a subida do nível do mar e a multiplicação de fenómenos meteorológicos extremos.
No fundo, a Curva de Keeling deixou de ser apenas uma monitorização laboratorial no Havai para se tornar no diagnóstico mais urgente da nossa civilização, lembrando-nos diariamente de que a estabilidade do clima do futuro depende da rapidez com que conseguirmos travar esta subida.
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terça-feira, 19 de maio de 2026
Projeção máxima de aquecimento global cai 1 ºC por causa das renováveis
As projeções mais pessimistas para a subida da temperatura até ao fim do século foram revistas em baixa, à medida que as medidas de mitigação começam a dar frutos
A queda acentuada do custo da energia solar e eólica tornou um futuro altamente dependente de combustíveis fósseis cada vez mais improvável e as políticas climáticas estão a ajudar a reduzir as emissões, que já ficam abaixo das antigas projeções de pior caso
Alguns dos principais cientistas do clima do mundo consideram agora que o aumento de 4,5 °C até 2100, anteriormente projetado, deixou de ser plausível e reduziram o limite superior do seu cenário mais pessimista de aquecimento global para 3,5 °C acima dos níveis pré-industriais
Os novos modelos resultam do Scenario Model Intercomparison Project (ScenarioMIP), que elaborou projeções climáticas com base em cenários alternativos de futuras emissões e alterações no uso do solo. Liderado por um comité internacional de cientistas de topo, as suas conclusões serão integradas em futuras avaliações do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) da ONU
Ainda assim, as projeções mais pessimistas ficam muito longe do limite máximo de 2 °C acordado pelos países no Acordo de Paris de 2015 e continuariam a provocar consequências desastrosas para o planeta.
Como foram modeladas as temperaturas futuras mais extremas?
Os cientistas simularam vários cenários para projetar o melhor e o pior caso de aquecimento global até ao ano 2100.
Foram considerados fatores como a futura população mundial, o consumo de energia, as fontes de energia, o investimento na adaptação e mitigação das alterações climáticas, as políticas climáticas e a colaboração entre países.
Os cenários mais pessimistas imaginam um mundo em que as políticas climáticas e os esforços de mitigação são enfraquecidos ou invertidos, e em que o uso de combustíveis fósseis aumenta, a par de tecnologias e estilos de vida muito intensivos em recursos e energia.
Um uso intensivo de combustíveis fósseis ultrapassaria as reservas atuais, o que significaria recorrer a depósitos ainda por descobrir, cuja extração se tornaria viável graças a futuras tecnologias.
Os modelos assumem também o fim da queda, que já dura há uma década, nos custos das energias renováveis, possivelmente porque os minerais necessários para painéis solares, turbinas eólicas e baterias de veículos elétricos se tornam escassos ou ficam presos em disputas comerciais.
A falta de cooperação na resposta às preocupações ambientais globais, incluindo progressos insuficientes em tecnologias de baixas emissões, poderá agravar a situação.
Um forte crescimento económico e a concorrência regional, o ressurgimento do nacionalismo, receios quanto à competitividade e à segurança e conflitos regionais podem levar os países a dar prioridade a questões internas ou regionais face à mitigação das alterações climáticas. Segundo o estudo, isto poderia conduzir ao colapso das políticas climáticas internacionais e nacionais.
Os modelos de pior caso projetam que o consequente pico de emissões provoque alterações irreversíveis nos componentes mais lentos do sistema terrestre, como o oceano profundo ou as calotes e geleiras, que regulam o clima global.
Embora este cenário seja improvável, os seus impactos seriam catastróficos.
Ao longo deste ano serão realizadas novas simulações com Modelos do Sistema Terrestre, que incluirão também os efeitos das retroações do ciclo do carbono, e os seus resultados poderão alterar as projeções.
Quais são os cenários alternativos?
O relatório modela igualmente cenários progressivamente mais moderados, que vão de emissões elevadas até meados do século seguidas de reduções rápidas, a políticas climáticas reforçadas que levam o mundo a atingir a neutralidade carbónica o mais depressa possível, limitando aquilo que o estudo designa como a agora “inevitável” ultrapassagem da meta preferencial de 1,5 °C do Acordo de Paris. Os modelos prolongam-se até ao ano 2500.
Se as políticas climáticas atuais continuarem inalteradas, estimativas preliminares apontam para uma subida da temperatura de cerca de 2,5 °C. Se as medidas de mitigação forem adiadas mas o mundo conseguir alcançar a neutralidade carbónica até ao fim do século, os modelos indicam que a subida da temperatura poderá atingir 2 °C.
Mesmo cenários de baixas emissões podem bloquear alterações catastróficas do nível do mar e dos mantos de gelo que são irreversíveis à escala de tempo humana. Uma ultrapassagem temporária dos 1,5 °C, mesmo que revertida, pode também causar danos duradouros em ecossistemas vitais, como recifes de coral e florestas tropicais.
Desenvolvidos em meados da década de 2010, os cenários anteriores utilizavam dados reais de emissões até 2015. Os novos modelos estendem esse período até 2023 e descrevem melhor a forma como os sistemas da Terra respondem ao aquecimento – por exemplo, quanto CO2 os oceanos e as florestas absorvem à medida que as temperaturas sobem.
segunda-feira, 4 de maio de 2026
Microplásticos podem ter grande contribuição nas alterações climáticas
Os microplásticos prejudicam o ambiente e a saúde dos seres vivos, mas também contribuem para as alterações climáticas, com emissões que podem representar 16,2% das partículas resultantes da queima de combustíveis fósseis, biomassa e resíduos orgânicos.
A revista "Nature" publicou hoje um estudo no qual investigadores de vários centros chineses e americanos descrevem experiências e simulações em laboratório para medir a potencial contribuição dos microplásticos e nanoplásticos suspensos no ar para o aquecimento global, um impacto que não tinha sido avaliado anteriormente.
Estes micro e nanoplásticos têm origem na fragmentação de resíduos plásticos de maiores dimensões e o seu diâmetro varia de um nanómetro (um bilionésimo de metro) a 500 micrómetros (um milionésimo de metro).
Diversos processos atmosféricos transportam estes microplásticos pelo mundo, desde picos de altas montanhas até fossas oceânicas profundas.
Estudos anteriores sugeriram que a contribuição das micropartículas de plástico em suspensão para as alterações climáticas era mínima, mas as análises assumiam frequentemente que eram incolores, o que é irrealista, uma vez que a maioria dos plásticos de uso comum contém pigmentos.
Utilizando espetroscopia eletrónica de alta resolução e combinando estas medições com simulações de transporte atmosférico, os investigadores descobriram que as partículas pretas e coloridas absorvem a luz solar numa extensão muito maior do que as partículas brancas.
Após esta descoberta, calcularam o impacto potencial destas partículas coloridas no aquecimento global. E no passo seguinte os cientistas estimaram a massa total de plástico em suspensão que pode estar presente, em média, por metro quadrado de ar.
Para isso, tiveram em conta dados globais de inventário sobre as emissões de plástico e o tempo que estas partículas permanecem na atmosfera, que é geralmente de pelo menos algumas semanas, explicou um dos autores, Drew Shindell, investigador da Universidade norte-americana de Duke, em conferência de imprensa.
Os resultados indicaram que as partículas de plástico em suspensão, e em particular os nanoplásticos coloridos, que são os mais persistentes, contribuem para o aquecimento atmosférico.
As suas emissões seriam equivalentes a 16,2% da poluição provocada pelo carbono negro, um componente da fuligem com origem na combustão incompleta dos combustíveis, fosseis ou não, e da biomassa.
"Este estudo apoia a teoria de que as partículas de plástico presentes na atmosfera podem absorver luz e, por conseguinte, provocar um aumento do aquecimento global", afirma o investigador Sam Harrison, do Centro de Ecologia e Hidrologia do Reino Unido, numa reação publicada pelo "Science Media Centre" (SMC).
A estimativa pode estar sobredimensionada, porque "a massa total de plásticos não provém de uma amostragem real, mas de simulações baseadas em inventários anteriores", pelo que os resultados devem ser interpretados com cautela, esclarece Roberto Rosal, professor de Engenharia Química na Universidade de Alcalá, Espanha, numa reação para a mesma plataforma.
Questionado pelos jornalistas numa conferência de imprensa organizada pela "Nature", Drew Shindell reconheceu que, ao basearem os resultados em simulações laboratoriais, os autores podem ter sobrestimado a presença de plásticos, embora também a possam ter subestimado.
Os autores defenderam a realização de mais investigação sobre o impacto das partículas de plástico em suspensão nas alterações climáticas, uma vez que todos os indícios sugerem que este impacto é significativo.
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quarta-feira, 29 de abril de 2026
RCP8.5 Is Officially Dead
The international committee responsible for the official scenarios that feed into climate modeling that are the basis for most projective climate research and the assessments of the Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) has just published the next generation of climate scenarios.
Big news: The new framework has eliminated the most extreme scenarios that have dominated climate research over much of the past several decades — specifically, RCP8.5, SSP5-8.5, and SSP3-7.0. This is an absolutely huge development in climate science which will have lasting impacts across research and policy.
The future is not what it used to be.
Today’s post commends the researchers who have brought climate scenarios more in line with current understandings, but also raises some significant continuing issues with the scenarios.
Let’s get started . . .
The new scenarios come from the Coupled Model Intercomparison Project (CMIP) — a project of the World Climate Research Programme (WCRP), co-sponsored by the World Meteorological Organization, the International Science Council, and UNESCO’s Intergovernmental Oceanographic Commission.
Under CMIP, now in its seventh iteration, sits another little-known committee with responsibility for developing the scenarios necessary for earth system models to project future climate.1 That committee — called ScenarioMIP — just published the new scenario framework that will underpin the IPCC’s Seventh Assessment Report (AR7) and much of the research that it will draw upon.
In a paper released earlier this month, Van Vuuren et al. (VVetal26) introduce a new set of seven scenarios. The authors write of the obsolete high end emissions scenarios (emphasis added):
“For the 21st century, this range will be smaller than assessed before: on the high-end of the range, the CMIP6 high emission levels (quantified by SSP5-8.5) have become implausible, based on trends in the costs of renewables, the emergence of climate policy and recent emission trends.”
Read that again — The high end scenarios are Implausible.2
I disagree that the implausibility of the high-end scenarios resulted from the falling costs of renewables or the emergence of climate policy, but that is a debate for another day.
What matters today is that the group with official responsibility for developing climate scenarios for the IPCC and broader research community has now admitted that the scenarios that have dominated climate research, assessment, and policy during the past two cycles of the IPCC assessment process are implausible: They describe impossible futures.
Tens of thousands of research papers have been — and continue to be — published using these scenarios, a similar number of media headlines have amplified their findings, and governments and international organization have built these implausible scenarios into policy and regulation.
We now know that all of this is built on a foundation of sand.
What changed
The new CMIP7 ScenarioMIP framework offers seven scenarios spanning a range from “VERY LOW” through “HIGH.” The current naming convention drops the radiative-forcing target labels of the SSP era — there is no “8.5” scenario, and no “7.0” scenario, but as I’ll show below, each scenario has a radiative forcing level in 2100.
I ran the available new scenarios (HIGH, MEDIUM, LOW, and VERY LOW) through the FaIR calibrated and constrained ensemble that Sanderson and Smith (2025) used to characterize the CMIP7 set (FaIR v. 2.2.0 as described in their README file). I then ran each of the five tier-1 SSPs through the same emulator with identical parameters to ensure that the results are apples-to-apples. The full methodology, data, and code is in the appendix to this post.
The headline results follow.
CO₂ emissions: fossil fuels and industry, 2000–2100

The chart above shows fossil-fuel and industry CO₂ emissions for four CMIP7 scenarios alongside the five tier-1 SSPs and the two main reference scenarios from the 2025 IEA World Energy Outlook.
Note the massive gap between the new HIGH and SSP5-8.5. The new HIGH reaches 71 Gt CO₂/yr in 2100 — far below SSP5-8.5 at 128 Gt in 2100. Nothing in the CMIP7 set comes close to SSP5-8.5. The new HIGH also sits below SSP3-7.0 by about 9% in terms of cumulative emissions to 2100. Note also the gap between MEDIUM (solid yellow) and SSP2-4.5 (dashed yellow), which I’ll return to below.
Both of the most recent IEA near term scenarios — which run to 2050 — fall below MEDIUM and SSP2-4.5.
The table below compares the CMIP7 scenarios to their closest AR6 analogues, showing that the overall range has constricted. The higher scenarios have come down and the lower scenarios have come up — except VERY LOW, which moved down.
2100 effective radiative forcing and end-of-century temperature
The table below lists AR6 and CMIP7 scenarios from highest to lowest 2100 radiative forcing. The middle column shows the average global temperature change from an 1850-1900 baseline, under the climate emulator used by CMIP7. The right column shows the average temperature change for the SSPs as projected by the IPCC AR6.
Interestingly, the projected 2080-2100 temperatures of the SSPs decreased from their AR6 values based solely on recent updates to the FaIR climate emulator.3 These changes resulted primarily from the updating of emissions trajectories from 2014 (used in AR6) to 2023 (used by CMIP7). The more moderate emissions trajectories resulted in lower projected end-of-century temperature increases.
The new CMIP7 HIGH is 0.9°C cooler than SSP5-8.5 in apples-to-apples terms (and 1.4°C cooler versus IPCC AR6), and 0.2°C cooler than SSP3-7.0 (-0.6°C against IPCC AR6).
The implausibility of upper-end legacy scenarios is now official.
CMIP7 avoided repeating the past with SSP3-7.0
Last April I argued here at THB that the climate science community was on the brink of repeating the RCP8.5 mistake with SSP3-7.0 — which assumed a 2100 global population approaching 13 billion, well above any contemporary demographic projection and a five-fold expansion of global coal use. Neither assumption survives current understandings of demographics or energy systems.
I don’t know if anyone in CMIP or ScenarioMIP reads THB4 — if not they should! — but regardless, they wisely chose not to adopt SSP3-7.0 as the new HIGH scenario.
The new HIGH scenario sits at 6.7 W/m² in 2100 — below the SSP3 baseline 7.0 W/m² — with 9 percent less cumulative fossil CO₂ through 2100. As I’ll discuss below, this is progress; it is partial but real.
But the new HIGH still sits well above the plausibility range that we identified in Pielke, Burgess, and Ritchie (2022). We found that of the >1,000 scenarios in the AR5 database, the plausible subset centered on a median of ~3.4 W/m² in 2100, with an upper end near 6 W/m². The new HIGH scenario is well above that upper end.
The authors of Van Vuuren et al. partially acknowledge that the new HIGH scenario is exploratory — a thought experiment, not a projection:
“Clearly, this scenario is not a “business-as-usual” scenario nor the no-policy reference scenario for the other scenarios. The scenario is intended to explore the upper end of GHG emissions resulting from deep political, technological, and structural deviation from current trends.”
Note that first sentence — It means that any future research that compares the HIGH scenario to lower scenarios in order to characterize the effects of climate policy will be fundamentally flawed. The HIGH scenario is not a projective scenario, but a “what if?” exercise.
Unfortunately, Van Vuuren et al. then engage in some unsupported speculation about the plausibility of the HIGH scenario in the real world:
“The are various reasons why such a scenario could emerge. For instance, a rollback of climate policies could result from a lack of public support for the energy transition. This could be related to, for instance, local opposition to building new wind farms or concerns about impacts on fossil industries related to jobs and national energy security. Also, the rapid cost decrease in renewable energy of the past decade could be discontinued, possibly as a result of regional scarcity and limited tradability in materials for solar and wind technologies and EV batteries . . .”
As discussed below, the new population assumptions of the updated SSP3 are ridiculous, and by themselves render the HIGH scenario implausible. The lack of any systematic effort to evaluate plausibility of scenarios remains a fundamental weakness of the scenario development process.
The new scenarios are SSPs in new clothing
The new CMIP7 framework does not start from a fresh socioeconomic foundation. Van Vuuren et al. explain:
“In practice, the IAM [Integrated Assessment Modeling] teams have based their current scenarios on various SSPs, as it was generally deemed pragmatic as these come with already available, suitably rich quantifications and were implemented by the participating modelling teams within the given timeline.”
The CMIP7 scenarios rely on the same narrative architecture as the IPCC AR6 SSPs. The table below shows how the SSP storylines map onto the new scenarios — Confusion is sure to result, as the old SSPs are not the new SSPs.

The new HIGH inherits the SSP3 storyline directly — the same SSP3 whose enormous 2100 population rendered it implausible when used in the IPCC AR6. Remarkably, the IIASA 2024 update to the SSPs did not bring the population projections down. Instead, it increased them, as you can see in the table below.

The 2024 demographic update (KC et al. 2024, IIASA Working Paper WP-24-003, also referred to as WIC2023) revises SSP 2100 populations upward: SSP3 jumps from 12.6 to 14.5 billion. SSP4 increases from 9.3 to 13.3 billion — an eye-popping 43% increase.
The SSP population update assumes that child mortality declines faster than WIC2013 anticipated, fertility declines slower in sub-Saharan Africa, and Africa’s 2020 base-year population was already 76 million higher than WIC2013 had projected. Africa’s 2100 population alone is now 3.55 billion, up from 2.62 billion in the AR6-era projection — a 35% upward revision.
This puts the CMIP7 HIGH scenario in a strange position: The cumulative fossil CO₂ from energy and industry in CMIP7 HIGH (4,629 Gt 2020-2100) is lower than SSP3-7.0 (5,074 Gt), but it has a 2100 population that is 15 percent larger. That means that the implied per-capita emissions trajectory in the new HIGH has a steeper decline.
How much of the new HIGH scenario’s warming is due to its incredible population projection?
I performed a simple sensitivity analysis:Take HIGH as published: 4,629 Gt cumulative fossil CO₂ over 2020-2100, producing about 3.0°C of 2081-2100 warming.
That means per-capita emissions intensity average about 5.2 tonnes of CO₂ per person per year using 11-billion as the mean population across the century.
Hold that per-capita intensity constant and replace the SSP3 population trajectory with the SSP1/SSP5 population trajectory — peaking at 8.5 billion in 2050, declining to 7.4 billion by 2100, averaging about 8 billion.
Under these assumptions, under HIGH, cumulative fossil CO₂ falls to roughly 3,330 Gt, a 1,300 Gt reduction. The IPCC AR6 central TCRE estimate (0.45°C per 1,000 Gt CO₂) gives about 0.6°C less warming. The HIGH scenario with SSP1/SSP5 population thus would deliver about 2.4°C of 2081-2100 warming — slightly cooler than the new MEDIUM at 2.5°C.
Under this simple method, about 0.6°C of the HIGH scenario’s projected warming traces to the population assumption alone. The HIGH scenario may be much less about carbon and much more about assumed human fecundity.
This is a sensitivity analysis, not a coherent scenario — combining SSP3’s per-capita intensity with the SSP1/SSP5 demographic profile is internally inconsistent. But it suggests that the demographic contribution to the HIGH scenario’s warming is significant.
The plausibility vacuum remains
The deeper problem with the SSP/RCP architecture, as Justin Ritchie has documented at length, is that physical climate modeling became decoupled from the underlying IAM socio-economic scenarios.
Under the RCPs, scenario creators identified concentration pathways and the underlying socio-economic assumptions were expected to be filled in later. Whether the underlying assumptions actually described a coherent picture of the world was never systematically assessed.
Ritchie called this a plausibility vacuum — a situation where any combination of climate model inputs could be used without any assessment of the real-world plausibility of the assumptions.
To be fair, the new CMIP7 framework does address some earlier shortfalls. The new design specifies emission-driven runs as the default, which allows for carbon-cycle feedbacks. The harmonization of emissions to observed 2023 data is an improvement — CMIP6 harmonized to 2014, and that harmonization had become well out-of-date by the time AR6 came out.
However, the plausibility vacuum problem remains. Van Vuuren et al. do not evaluate scenario plausibility against observed energy trends, against IEA projections, or against the body of literature critiquing the SSP set.
The 2023 ScenarioMIP workshop report — which kicked off the process of developing these new scenarios — recognized the plausibility problem and committed to addressing it. Van Vuuren et al. does not deliver on that commitment.
ScenarioMIP produces a better scenario set than those of AR6, but the improvement comes from incorporating more recent emissions data and accepting the undeniable collapse of SSP5-8.5’s credibility — not from any methodological reform of how scenario plausibility is assessed.
The MEDIUM scenario is not “current policy”
The walk-back at the high end is the most important change in the new framework. The story in the middle is more complicated.
Van Vuuren et al. describe the MEDIUM scenario as one that “shows the consequences of the current policy situation (as of 2025) and trends continuing over the century.” They specify that MEDIUM includes only policies “actually officially being implemented” — no NDC pledges, no net-zero announcements, unless backed by explicit policy. The framing implies that MEDIUM tracks where the world is actually headed under current policies.
That framing is not consistent with other approaches to defining a current policy trajectory. The CMIP7 MEDIUM scenario produces fossil-fuel CO₂ emissions that rise from about 38 Gt CO₂/yr today to 41 Gt by 2050 — that part compares well to the scenarios (CPS and STEPS) of IEA’s World Energy Outlook 2025, released last November.
However, it is post-2050 where the new MEDIUM scenario diverges from other current-policy projections, with its emissions slowly rising through the second half of the century.

In contrast, STEPS — the IEA’s standard reference for where current and announced policies actually take us — falls below 30 Gt by 2050 and produces about 2.5°C of 2100 warming.
The CMIP7 MEDIUM is more accurately characterized as a “policy stagnation” scenario rather than a “current policy” scenario. Cumulative fossil CO₂ emissions through the end of the century come in 18% higher than SSP2-4.5 — the AR6-era middle-of-the-road scenario — even though the MEDIUM 2081–2100 mean temperature is slightly cooler (explained below).
The figure below shows what happens once SSP2-4.5 and MEDIUM are anchored to the same observed 2020 baseline. The original SSP2-4.5 (black) sits roughly 0.6°C above CMIP7 MEDIUM (red) at 2020 — not because the 21st century plays out differently, but because the SSP framework’s historical emissions are harmonized to 2014 while CMIP7’s are harmonized to 2023. That head start propagates through the entire 21st century trajectory.

Running SSP2-4.5 post-2020 emissions through the CMIP7 FaIR emulator with CMIP7’s updated historical baseline (dashed blue), the picture inverts: SSP2-4.5 produces a 2081-2100 mean of 2.44°C against CMIP7 MEDIUM 2.56°C. On an apples-to-apples comparison, the new MEDIUM results in about 0.12-0.20°C more warming than SSP2-4.5 — due to its 520 Gt larger cumulative CO₂ budget over the century.

This connects to the larger argument in Pielke, Burgess, and Ritchie (2022): observed CO₂ emissions from 2005 through 2020 tracked closer to the SSP 3.4 W/m² range than to SSP2-4.5. Today, the gap has widened, not closed. IEA STEPS now has emissions falling to under 30 Gt by 2050 — a trajectory consistent with the SSP 3.4 forcing range. The center of the new CMIP7 scenario set sits well above that range.
The new framework compressed the high end. Good.
The middle did not move far enough. The new MEDIUM might be considered a worst-case scenario rather than a current policy scenario. Interestingly, that would mean that there is no real current-policy scenario in the new CMIP7 scenarios, which would be something like a SSP2-3.4 scenario with updated demographics.
Perhaps, if projected demographic changes continue to trend lower, CMIP7 LOW will come to represent something akin to a current policy trajectory.
Why this matters: these scenarios live in policy
The now-implausible upper-end scenarios — RCP8.5, SSP5-8.5, and SSP3-7.0 — are not just academic constructs used in esoteric research. They are embedded in the policies and regulations of most of the world’s largest economies, found across the world’s most important multilateral institutions, and used in the climate stress tests that govern hundreds of billions of dollars in bank capital.
The table below provides just a few examples.

National climate impact assessments in the United States, United Kingdom, Germany, Canada, Australia, Japan, and the Netherlands all use RCP8.5 or SSP5-8.5 as a reference scenario. The Network for Greening the Financial System framework, used by more than 140 central banks, has utilized a “Hot House World” scenario calibrated to RCP8.5 physical risk into the bank stress tests run by the European Central Bank, the Bank of England, the Reserve Bank of New Zealand, the Banque de France, and the US Federal Reserve. The World Bank’s Climate Change Knowledge Portal, which provides the climate diagnostics that feed into the Country Climate and Development Reports for more than 100 client countries, defaults to SSP5-8.5 and SSP3-7.0.
The abandonment of the high-end legacy scenarios by CMIP7 will need to propagate through this entire infrastructure. The policy machinery built on RCP8.5 and the other implausible scenarios is systemic.
What this means
The new CMIP7 ScenarioMIP framework represents a real course correction, but with more work to do. SSP5-8.5 is gone. SSP3-7.0 has a successor that is less extreme but arguably remains implausible. The middle of the set is more pessimistic than trajectories of current and announced policies. The plausibility vacuum at the heart of the architecture has yet to be addressed.
All this means that users of climate models and model output based on legacy scenarios will now face decisions about if and how they’d like to realign with the latest scientific understandings versus continuing to rely on outdated research.
Furthermore, there are no doubt many — hundreds if not thousands — of studies in the publication pipeline that depend upon the upper end scenarios. Editors and reviewers should ensure that they are properly characterized as exploratory and are not intended to be interpreted as projective.
We’ve known since 2017 that upper end climate scenarios are fatally flawed. Nine years later, that understanding has now become officially recognized. That is good news.
We can debate whether nine years is short or long for the overturning of scientific understandings with massive economic and policy implications. But today, that overturning is undeniable.
Science is self-correcting. What matters now is what happens next.
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sábado, 21 de março de 2026
Dia Mundial dos Glaciares: Por que o Destino dos Glaciares é o Nosso Próprio Destino
No calendário global, o dia 21 de março costuma ser associado ao início da primavera no hemisfério norte, um símbolo de renovação. No entanto, desde que a Assembleia Geral da ONU proclamou esta data como o Dia Mundial da Preservação dos Glaciares, o foco mudou para a conservação crítica do que já temos — e do que estamos prestes a perder. Os glaciares não são apenas blocos estáticos de gelo; são "sentinelas" que moldam a geologia, regulam a temperatura e sustentam a vida humana.
A ciência por trás da sua importância é fascinante e, ao mesmo tempo, alarmante. Estas massas de gelo funcionam como o sistema de refrigeração da Terra através do efeito albedo. Quando a radiação solar atinge a superfície branca e brilhante de um glaciar, a maior parte dessa energia é refletida de volta para o espaço. À medida que o gelo derrete e expõe a rocha escura ou o oceano abaixo, a taxa de absorção de calor aumenta. É um equilíbrio delicado que pode ser resumido pela relação física onde a variação da temperatura é inversamente proporcional à capacidade de reflexão da superfície (efeito albedo). Pode imaginar o efeito albedo como o sistema de 'espelhos' da Terra. Os glaciares brancos refletem até 90% da luz solar de volta para o espaço, mantendo o planeta fresco. No entanto, quando o gelo derrete e expõe a rocha escura ou o oceano, a superfície passa a absorver a energia solar. Em termos físicos, a redução da refletividade (albedo) resulta num aumento catastrófico da absorção de calor. O infográfico abaixo ilustra claramente este ciclo de aquecimento.
O Ponto de Inflexão
De acordo com o Relatório AR6 do IPCC , a influência humana é 'inequívoca' no recuo global dos glaciares desde a década de 199. Os dados revelam que estamos a perder cerca de 220 mil milhões de toneladas de gelo anualmente, um ritmo que coloca ecossistemas inteiros num ponto de inflexão. Isto significa que certas perdas glaciares tornaram-se irreversíveis, independentemente dos nossos esforços imediatos. O recuo nestas áreas aumenta o risco de inundações catastróficas e, a longo prazo, de secas severas. O impacto não é apenas visual; é uma ameaça direta à segurança hídrica de mil milhões de pessoas que dependem destas fontes de água doce.
No entanto, o Dia Mundial dos Glaciares não serve apenas para lamentar perdas. É um convite à ação. Do majestoso Perito Moreno na Argentina às cavernas de gelo azul do Vatnajökull na Islândia, estas estruturas guardam a história do nosso clima. Cada bolha de ar presa no gelo profundo é um registo atmosférico de milhares de anos — uma biblioteca congelada que projetos como o Ice Memory tentam salvaguardar em "santuários de gelo" na Antártida.
Porém a rapidez com que o restante gelo desaparece ainda depende das nossas ações hoje. Estima-se que mais de mil milhões de pessoas dependam do degelo sazonal para obter água potável, irrigação e energia. Regiões como os Andes e os Himalaias (o "Terceiro Polo") estão na linha da frente.
Em 2026, a mensagem da ONU é clara: os glaciares são os "Guardiões do Futuro da Terra". Preservá-los é indissociável das metas de emissões zero. Reduzir a nossa pegada de carbono não é apenas um conceito abstrato; é o esforço direto para manter estes gigantes vivos. Ao celebrarmos este dia, devemos olhar para o gelo não como algo distante, mas como o espelho do nosso próprio destino. Se o gelo respira, nós respiramos.
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sábado, 14 de março de 2026
A variabilidade climática natural e a mistificação do aquecimento global por parte dos cépticos das alterações climáticas
O período Eemiano , também conhecido como o último interglaciar (aproximadamente entre 130.000 e 115.000 anos atrás), é um caso de estudo crucial para a compreensão das alterações climáticas, caracterizado por temperaturas mais elevadas do que as atuais.
Natureza
Factores climáticos no Eemiano:
Alterações naturais (Milankovitch): o aquecimento foi causado principalmente por alterações cíclicas na órbita da Terra, incluindo excentricidade, obliquidade (inclinação axial) e precessão. Estas alterações alteraram a distribuição da energia solar incidente.
Escala temporal: ao contrário do aquecimento atual, este processo natural demorou milhares de anos a ocorrer, permitindo uma adaptação mais lenta dos ecossistemas.
CO2 como retroalimentação: embora tenha havido um aumento do CO2 atmosférico, esta não foi a principal causa inicial do aquecimento, mas sim uma resposta do sistema climático. As concentrações permaneceram relativamente estáveis, cerca de 270-280 ppm, semelhantes aos níveis pré-industriais.
Contraste com o presente: o aquecimento actual está a ocorrer ao longo de décadas, e não de milénios, e é impulsionado por gases com efeito de estufa provenientes da actividade humana, e não por ciclos orbitais.
Impacto e extinções:
Apesar de ser uma variabilidade ambiental (alteração climática natural), o período Eemiano foi marcado por um impacto ambiental significativo:
Subida do nível do mar: temperaturas mais elevadas (aproximadamente 2°C acima dos níveis pré-industriais) provocaram o degelo das calotes polares, elevando o nível do mar entre 6 e 9 metros acima dos níveis atuais.
Alterações nos ecossistemas e na fauna: As alterações na vegetação e no clima provocaram uma reconfiguração dos habitats, obrigando à migração ou provocando o desaparecimento local de várias espécies da flora e da fauna.
Impacto nos humanos (neandertais): as evidências na Europa sugerem que estas drásticas alterações ambientais, incluindo o colapso da biomassa de presas, representaram desafios significativos para as populações neandertais, levando a um colapso demográfico em algumas regiões.
Em resumo, o Eemiano demonstra que mudanças intensas na órbita da Terra podem alterar drasticamente o clima e os ecossistemas, mas a mudança actual é qualitativamente diferente devido à sua velocidade e origem antropogénica.
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quinta-feira, 12 de março de 2026
As observações de satélite confirmam a previsão da variação do nível do mar dos anos 90
As projeções climáticas dos anos 90 acertaram em cheio na subida do nível do mar, mas subestimaram o degelo das camadas de gelo. Agora, com a aceleração da subida do nível do mar, os cientistas alertam para os riscos regionais e para a possibilidade de um colapso catastrófico.
As alterações globais do nível do mar são medidas por satélites há mais de 30 anos e uma comparação com as projeções climáticas de meados da década de 1990 mostra que estas são notavelmente exatas, de acordo com dois investigadores da Universidade de Tulane.
“O derradeiro teste às projeções climáticas é compará-las com o que se passou desde que foram feitas, mas isso requer paciência - são necessárias décadas de observações”. Torbjörn Törnqvist, autor principal do estudo e Professor de Geologia no Departamento de Ciências da Terra e do Ambiente.
Törnqvist frisa ainda que os investigadores ficaram espantados com a qualidade das primeiras projeções, especialmente quando comparamos a rudeza dos modelos existentes na altura, com os que estão disponíveis agora.
O nível do mar não varia de forma uniforme
O coautor Sönke Dangendorf, Professor Associado no Departamento de Ciências e Engenharia Fluvial e Costeira, afirmou que, embora seja encorajador ver a qualidade das primeiras projeções, o desafio atual é traduzir a informação global em projeções adaptadas às necessidades específicas das partes interessadas em locais como o sul do Louisiana.
"O nível do mar não sobe uniformemente - varia muito. O nosso estudo recente desta variabilidade regional e dos processos que lhe estão subjacentes baseia-se, em grande medida, nos dados das missões de satélite da NASA e nos programas de monitorização dos oceanos da NOAA. A continuação destes esforços é mais importante do que nunca e essencial para a tomada de decisões informadas em benefício das pessoas que vivem ao longo da costa.” Sönke Dangendorf.
Uma nova era de monitorização das alterações globais do nível do mar arrancou quando foram lançados satélites no início dos anos 90 para medir a altura da superfície do oceano. Isto mostrou que a taxa de subida global do nível do mar desde essa altura tem sido, em média, de cerca de 0,30 centímetros por ano. Só mais recentemente é que se tornou possível detetar que a taxa de subida do nível do mar está a acelerar.
Quando os investigadores da NASA demonstraram, em outubro de 2024, que a taxa duplicou durante este período de 30 anos, chegou o momento de comparar esta descoberta com as projeções feitas em meados da década de 1990, independentemente das medições por satélite.
As projeções do IPCC verificaram-se bastante próximas da realidade, apesar da subestimação do degelo
Em 1996, o Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) publicou um relatório de avaliação pouco depois do início das medições do nível do mar por satélite. Projetava que o valor mais provável da subida global do nível do mar nos próximos 30 anos seria de quase 8 cm, notavelmente próximo dos 9 cm que se verificaram. Mas também subestimou o papel do degelo em mais de 2 cm.
Na altura, pouco se sabia sobre o papel do aquecimento das águas oceânicas e sobre a forma como este poderia desestabilizar os setores marinhos do manto de gelo antártico a partir de baixo. O fluxo de gelo do manto de gelo da Gronelândia para o oceano também tem sido mais rápido do que o previsto.
As regiões com cotas ao nível do mar encontram-se sob maior risco, em caso de subida do nível do mesmo.
As dificuldades do passado em prever o comportamento dos mantos de gelo também contêm uma mensagem para o futuro. As atuais projeções da futura subida do nível do mar consideram a possibilidade, embora incerta e de baixa probabilidade, de um colapso catastrófico do manto de gelo antes do final deste século.
As regiões costeiras baixas dos Estados Unidos seriam particularmente afetadas se esse colapso ocorresse na Antártida.
Referências bibliográficas
R. S. Nerem
Nerem, R. S., Beckley, B. D., Fasullo, J. T., Hamlington, B. D., Masters, D., & Mitchum, G. T. (2018). Climate-change–driven accelerated sea-level rise detected in the altimeter era. Proceedings of the National Academy of Sciences, 115(9), 2022-2025Torbjörn E. Törnqvist, Clinton P. Conrad, Sönke Dangendorf, Benjamin D. Hamlington. Evaluating IPCC Projections of Global Sea-Level Change From the Pre-Satellite Era. Advancing Earth and Space Science - Earth’s Future (2025).
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domingo, 11 de janeiro de 2026
Ataque directo: Trump reverte avanços na acção climática nos primeiros 10 dias de 2026
Passados apenas 10 dias de 2026, Donald Trump já lançou uma série de ataques sucessivos ao clima.
A administração dos EUA tem vindo a afastar-se gradualmente de reconhecer o seu envolvimento na crise climática ou de a enfrentar, apesar de ser o segundo maior emissor anual de gases com efeito de estufa e, historicamente, o maior contribuinte para o aquecimento global.
No ano passado, os EUA não enviaram qualquer delegação às negociações da COP30 e, desde então, apagaram todas as referências a combustíveis fósseis do site da sua Agência de Proteção Ambiental. Entretanto, Trump tem criticado o boom das energias renováveis e levado a sua atitude "drill baby drill" ao plano global.
Eis um resumo do que o Presidente dos EUA fez até agora, com menos de duas semanas de 2026.
EUA retiram-se de tratado climático da ONU
Esta semana, o Presidente foi acusado de "descer a um novo mínimo" depois de retirar os EUA de um tratado climático crucial numa retirada abrangente das instituições globais.
Num Memorando Presidencial assinado a 7 de janeiro, Trump argumentou ser "contrário aos interesses dos EUA" permanecer membro, participar ou prestar apoio a mais de 60 organizações, tratados e convenções internacionais.
Isto inclui a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (UNFCCC), que visa estabilizar as emissões de gases com efeito de estufa, e o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), a principal autoridade mundial em ciência do clima.
"Numa altura em que a subida do nível do mar, o calor recorde e desastres mortais exigem ação urgente e coordenada, o governo dos EUA escolhe recuar", afirma Rebecca Brown, presidente e CEO do Center for International Environmental Law (CIEL).
"A decisão de retirar financiamento e sair da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (UNFCCC) não absolve os EUA das suas obrigações legais de prevenir as alterações climáticas e reparar os danos climáticos, como o mais alto tribunal do mundo deixou claro no ano passado".
Venezuela: controlo do petróleo
Após forças especiais dos EUA terem capturado o Presidente da Venezuela e a sua mulher numa operação relâmpago, Trump mostrou claro interesse nas reservas de petróleo.
A Venezuela detém as maiores reservas provadas de petróleo bruto do mundo, estimadas em 303 mil milhões de barris (Bbbl), superando petroestados como a Arábia Saudita e o Irão.
Trump confirmou de imediato que os EUA estariam "muito fortemente envolvidos" na indústria petrolífera do país, com planos para enviar grandes empresas norte-americanas para reparar a infraestrutura petrolífera da Venezuela e "começar a fazer dinheiro para o país". Numa entrevista a 8 de janeiro, disse que os EUA poderiam explorar as reservas de petróleo da Venezuela durante anos.
"Numa era de agravamento acelerado da crise climática, cobiçar as vastas reservas de petróleo da Venezuela desta forma é simultaneamente imprudente e perigoso", diz Mads Christensen, da Greenpeace International.
"O único caminho seguro passa por uma transição justa longe dos combustíveis fósseis, que proteja a saúde, salvaguarde os ecossistemas e apoie as comunidades, em vez de as sacrificar por lucros de curto prazo".
Novas orientações alimentares
Os Departamentos de Saúde e Serviços Humanos e da Agricultura dos EUA foram alvo de críticas após publicarem as orientações alimentares de 2026, que incentivam as famílias norte-americanas a privilegiarem dietas assentes em "alimentos integrais e densos em nutrientes".
A nova pirâmide alimentar coloca uma imagem de um bife de vaca e carne de vaca picada no topo, na secção "proteína", apesar de a carne de vaca ser responsável por emissões de gases com efeito de estufa 20 vezes superiores por grama de proteína do que alternativas de base vegetal, como feijões e lentilhas.
Nenhum destes alimentos surge na pirâmide alimentar, mas ambos são referidos nas orientações completas.
"Embora existam muitas formas de satisfazer as nossas necessidades de proteína, nem todas as fontes de proteína têm o mesmo impacto nas pessoas ou no planeta", afirma Raychel Santo, investigadora de alimentação e clima no World Resources Institute (WRI).
"A carne de vaca e o borrego, em particular, têm alguns dos custos ambientais mais elevados entre os alimentos ricos em proteína, com emissões de gases com efeito de estufa, uso do solo e poluição da água significativamente superiores por onça de proteína face à maioria das alternativas".
Bloqueio de Trump às renováveis
No ano passado, a administração Trump suspendeu concessões em todos os projetos eólicos offshore nos EUA, invocando preocupações de segurança nacional. A medida travou trabalhos em cinco locais, incluindo os parques Revolution Wind e Sunrise Wind da Ørsted, bem como áreas de empresas como a Equinor e a Dominion Energy.
Segue-se à crítica constante de Trump às energias renováveis, que já descreveu como a "burla do século". Mas a decisão teve consequências dispendiosas que transitaram para o novo ano.
Na semana passada, Ørsted apresentou uma ação judicial contra a suspensão do governo dos EUA, argumentando que já tinha obtido todas as licenças federais e estaduais exigidas em 2023. O seu projeto Sunrise Wind deverá custar ao promotor mais de 1 milhão de dólares por dia (cerca de 859 100 euros).
O Departamento do Interior afirmou, em dezembro, que a pausa daria ao governo "tempo para trabalhar com concessionários e parceiros estaduais na avaliação da possibilidade de mitigar os riscos de segurança nacional colocados por estes projetos".
Interesse de Trump na Gronelândia
A obsessão crescente de Trump com a Gronelândia suscitou preocupações entre ambientalistas relativamente aos seus recursos minerais críticos, vistos como "essenciais" para a transição para a energia verde.
Um levantamento de 2023 concluiu que 25 dos 34 minerais considerados "matérias-primas críticas" pela Comissão Europeia foram encontrados na Gronelândia. Estima-se que o território detenha entre 36 e 42 milhões de toneladas métricas de óxidos de terras raras, o que o torna a segunda maior reserva depois da China.
Explorar estes recursos poderia ajudar os EUA a reduzir a dependência da China, que atualmente processa mais de 90 por cento dos minerais de terras raras do mundo, e reforçar a posição dos EUA à medida que a procura aumenta.
Desde o primeiro mandato, Trump tem procurado responder a este tema, aprovando leis para aumentar a produção mineral norte-americana e intensificando a mineração em mar profundo, tanto em águas dos EUA como em águas internacionais.
No entanto, alguns especialistas acreditam que as reservas minerais da Gronelândia podem ser apenas uma cortina de fumo para os verdadeiros motivos de Trump.
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terça-feira, 18 de novembro de 2025
Aquecimento acelera, enquanto resiliência do sistema terrestre diminui, indica relatório lançado na COP30
Os cientistas do clima estão mais preocupados do que nunca, afirma Johan Rockström, diretor do Instituto Potsdam para Pesquisa sobre Impacto Climático, da Alemanha. O cientista sueco, que propôs o conceito de limites planetários para definir as margens seguras para a pressão humana sobre processos ambientais essenciais para a estabilidade do planeta, tem chamado a atenção, com diversos outros pesquisadores, para novas evidências científicas que indicam que o aquecimento global está acelerando, enquanto a resiliência do sistema terrestre diminui.
“Estamos em apuros. O planeta está mostrando os primeiros sinais de redução da capacidade de amortecer e resfriar o estresse que estamos causando por meio de nossas emissões de gases de efeito estufa. Estamos nos aproximando rapidamente do ponto de inflexão e precisamos agir mais rápido do que temos feito até agora”, disse Rockström em palestra de inauguração do Pavilhão da Ciência Planetária, no primeiro dia da COP30.
Um relatório coordenado pelo pesquisador, lançado em setembro, indicou que sete de nove limites da segurança planetária já foram ultrapassados. Entre eles, as mudanças climáticas, a integridade da biosfera, o uso do solo, o uso de água doce, os ciclos biogeoquímicos (nitrogénio e fósforo) e a introdução de novas entidades (como produtos químicos e plásticos).
Agora, um novo relatório elaborado por 70 renomados cientistas de 21 países – entre eles do Brasil –, que foi lançado oficialmente durante a COP30, aponta que os sumidouros naturais de carbono do planeta – entre eles as florestas tropicais – estão atingindo limites críticos, absorvendo menos emissões que as esperadas, enquanto décadas de mudança climática têm debilitado sua capacidade.
Até o oceano, outro sumidouro vital de carbono e calor, está absorvendo menos dióxido de carbono (CO2), enquanto intensas ondas de calor marinhas devastam os ecossistemas e os meios de subsistência costeiros.
“O planeta inteiro está apresentando sinais de diminuição na capacidade de absorção de carbono”, disse Rockström, que é membro do conselho editorial do relatório. “A maior preocupação, com base nos dados atuais, reside nas regiões temperada e boreal e na zona do permafrost [solo congelado em regiões muito frias que retém gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono]”, disse Rockström.
De acordo com dados compilados para o relatório, os ecossistemas do hemisfério Norte começaram a indicar, a partir de 2016, uma redução na capacidade de absorção de carbono.
“Isso está a ficar muito preocupante porque sabemos que muitas áreas da parte brasileira da floresta amazônica já deixaram de ser sumidouros e se tornaram fontes de carbono, mas a mesma coisa está acontecendo com as florestas temperadas e boreais”, ponderou.
Remoção de dióxido de carbono
A ampliação da remoção de dióxido de carbono (CDR, na sigla em inglês) é necessária para complementar – e não substituir – cortes rápidos nas emissões, ponderam os autores do relatório.
O desenvolvimento de diretrizes internacionais robustas e o apoio à pesquisa e à inovação são essenciais para preencher a lacuna de CDR e apoiar tanto as metas de curto prazo quanto a estabilidade climática de longo prazo, garantindo, ao mesmo tempo, salvaguardas ambientais e sociais, apontam.
“As políticas climáticas mais ambiciosas discutidas hoje visam reduzir as emissões em 45% até 2030 e ter uma economia mundial com emissões líquidas zero até 2050, mas ninguém está cumprindo essa meta. Se não ampliarmos a CDR, teremos que descarbonizar a economia global até 2040”, apontou Rockström.
Segundo o cientista, mesmo com as melhores atualizações das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, na sigla em inglês) pelos países, será possível conseguir reduzir as emissões globais em 5% até 2035. Mas as evidências científicas mostram que esse ritmo não será suficiente, ponderou.
“Na verdade, precisamos reduzir as emissões em 5% por ano, e não por década. É isso que a ciência nos diz para, no mínimo, desviar do perigo”, sublinhou.
Subsídio para as negociações
O relatório é fruto de uma iniciativa da Future Earth, da Earth League e do Programa Mundial de Pesquisa Climática, que todos os anos reúnem alguns dos principais cientistas do clima de todo o mundo para analisar as descobertas mais urgentes na pesquisa sobre mudanças climáticas. Os resultados são apresentados num artigo acadêmico revisado por pares e um relatório de ciência e política para oferecer uma síntese aos formuladores de políticas e à sociedade em geral para subsidiar as negociações das COPs.
“Espero que as conclusões do relatório estimulem o senso de urgência nos formuladores de políticas para que comecem a agir com base nas descobertas científicas”, disse Deliang Chen, professor da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, e um dos autores da síntese.
O relatório é complementar aos publicados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), mas com algumas diferenças, comparam os autores.
“Analisamos, todos os anos, os dados científicos do ano anterior que mostram evidências relacionadas às mudanças climáticas e sintetizamos isso em uma mensagem muito clara e direta. Esperamos que isso funcione de forma muito mais eficiente para a formulação de políticas e, de fato, subsidie as ações que serão tomadas e as negociações”, disse Regina Rodrigues, pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e uma das autoras da publicação.
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terça-feira, 4 de novembro de 2025
Duas Leis, Um Planeta e um Tribunal Silencioso
quinta-feira, 30 de outubro de 2025
NDC 3.0: planos pouco ambiciosos e ausência de grandes emissores deixam o mundo longe da meta climática
Um novo relatório faz uma avaliação integral da terceira rodada de Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), que são fundamentais para a implementação do Acordo de Paris. Aqui, analisamos quatro dos eixos que serão discutidos na COP30.
“Dez anos após sua adoção, podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que o Acordo de Paris está dando resultados reais. Mas ele precisa funcionar de forma muito mais rápida e justa, e essa aceleração deve começar imediatamente.” A declaração é de Simon Stiell, Secretário Executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês), após a apresentação, nesta terça-feira (28), do Synthesis Report, relatório sobre a nova rodada dos planos climáticos que os governos devem apresentar para avançar na implementação do Acordo de Paris.
Esses planos são conhecidos tecnicamente como Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, na sigla em inglês). Neles, a cada cinco anos e de forma cada vez mais ambiciosa, os países devem compartilhar seus compromissos e ações de mitigação e adaptação. A soma de cada compromisso de redução de emissões deve contribuir para limitar o aquecimento global a menos de 1,5 °C, principal meta do acordo firmado em 2015.
O dia 10 de fevereiro de 2025 era a data final para os países apresentarem essa terceira edição das NDCs, mas poucos cumpriram o prazo. Em diversas ocasiões ao longo do ano, a ONU e a presidência brasileira da COP30 convocaram as Partes a fazer suas respectivas apresentações.
O relatório apresentado hoje pela Convenção inclui as 64 novas NDCs que 64 Partes apresentaram formalmente entre 1º de janeiro de 2024 e 30 de setembro de 2025. Estão incluídos os compromissos anunciados pela China e pela União Europeia na Assembleia Geral em Nova York, em setembro? Não na análise geral, porque foram apenas discursos anunciando metas que, naquele momento, não vieram acompanhados da publicação formal dos documentos de NDC completos e detalhados, mas foram incluídos em algumas estimativas específicas.
Também estamos cientes de que os dados contidos no relatório oferecem uma visão bastante limitada, uma vez que o total das NDCs que ele resume representa cerca de um terço das emissões globais.Simon Stiell, Secretário Executivo da UNFCCC
O que o relatório revela sobre esta terceira rodada de NDCs? A seguir, aprofundamos cinco das conclusões da análise que estão vinculadas aos principais temas a ser discutidos na COP30 em Belém.
1- Uma tendência à redução de emissões, ainda sem os maiores emissores
Todos os anos, a principal expectativa em relação ao relatório é qual será a soma total dos compromissos de redução de emissões dos países. Em outras palavras: o quanto estamos perto ou longe de limitar o aquecimento a menos de 1,5°C? Esta edição parte de uma realidade específica: os maiores países emissores ainda não apresentaram seus planos climáticos.
“Este relatório apresenta apenas uma visão parcial. Os principais emissores, como China, União Europeia e Índia, ainda não apresentaram formalmente suas NDCs atualizadas, enquanto vários países em desenvolvimento estão demonstrando como a ação climática pode ser integrada às oportunidades de desenvolvimento”, disse Kaysie Brown, diretora associada de Diplomacia Climática e Geopolítica da E3G.
As 64 NDCs analisadas só cobriram cerca de 30% do total das emissões globais em 2019. O cumprimento dos compromissos de mitigação permitiria uma redução de 17% nas emissões em relação aos níveis de 2019. “De acordo com suas NDCs, as partes estão reduzindo ainda mais as suas curvas de emissões, mas ainda a uma velocidade insuficiente”, afirma o relatório.
“Celebrar uma redução de 17% nas emissões até 2035, quando o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) nos diz que precisamos de 60%, é profundamente enganoso. É uma ilusão de avanço”, disse à InfoAmazonia Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa, e acrescentou: “Sim, há avanços na economia real. Mas não se vê um resultado correspondente na política. A pior coisa que pode acontecer agora é a negação na COP30. Os líderes devem transformar o mal-estar político em uma resposta coletiva em Belém.”
As ações com maior potencial para atingir esses objetivos seriam florestamento e reflorestamento, energia solar, eletrificação de veículos e redução de emissões da agricultura.
Em relação a um dos temas que já gera debates no período que antecede a COP30 – a transição que deixe para trás os combustíveis fósseis – quase metade das NDCs analisadas apresentou objetivos quantitativos para reduzir uma proporção de combustíveis fósseis em sua geração de eletricidade até 2030.
A esse respeito, Camila Mercure, coordenadora de Políticas Climáticas da Fundación Ambiente y Recursos Naturales, avalia: “No setor energético, e de acordo com o apelo do Balanço Mundial a uma transição que abandone os combustíveis fósseis, é essencial que as NDCs estabeleçam roteiros claros e progressivos para descarbonizar as matrizes, garantindo que a transição busque a suficiência energética e o acesso universal, acessível e contínuo à energia para pessoas e territórios.”
2- Mais foco na adaptação
Setenta e três por cento das 64 NDCs apresentadas incluíram um componente de adaptação, ou seja, como se preparar melhor diante dos impactos atuais e futuros das mudanças climáticas.
As principais áreas em que esses países estão concentrando suas políticas de adaptação são segurança alimentar e nutrição, recursos hídricos, saúde, ecossistemas terrestres e setores econômicos estratégicos.
As secas apareceram como o fator climático de maior impacto sobre os países que apresentaram planos, com consequências sobre recursos hídricos, ecossistemas terrestres, pobreza e meios de subsistência. As inundações afetam principalmente áreas urbanas e rurais, transporte, infraestrutura e saúde. E o aumento do nível do mar ameaça áreas costeiras, ecossistemas oceânicos, património cultural e turismo.
Em comparação com os planos anteriores dessas 64 partes, observou-se um aumento no número de países que descreveram o estado de seus Planos Nacionais de Adaptação e identificaram sinergias e cobenefícios entre medidas de adaptação e mitigação.
Dos planos que incluíram políticas de adaptação, 94% se referiram a perdas e danos causados pelos impactos das mudanças climáticas. Isso demonstra um aumento no interesse pelo tema, em comparação com os 68% dos países analisados que os haviam mencionado em planos anteriores.
O dado importante: os países apontaram a necessidade de financiamento e capacitação para lidar com perdas e danos. O Fundo de Perdas e Danos, estabelecido na COP27 em 2022, ainda está em fase de detalhamento para começar a funcionar, e ainda não tem recursos financeiros suficientes.
3- O financiamento necessário e transversal
Dos 64 novos planos apresentados, 56 apresentaram informações sobre financiamento. Mais especificamente, a maioria se referiu ao que é necessário para implementar suas políticas climáticas.
Os governos aguardam que Azerbaijão e Brasil, que ocuparam as presidências da COP29 e da COP30, divulguem o relatório do Roteiro de Baku a Belém, sobre como aumentar o financiamento de 300 biliões de dólares para 1,3 trilião. Enquanto isso, 33 partes divulgaram cifras orçamentárias concretas sobre o apoio de que necessitam: cerca de 1,97 bilhão de dólares, em conjunto.
Em que atividades esse dinheiro seria usado? Em políticas de redução de emissões nos setores de energia, agricultura e gestão de resíduos, e em políticas de adaptação em agricultura e segurança alimentar, recursos hídricos, saúde e água.
“A maioria dos países em desenvolvimento condicionou grande parte de suas NDCs ao acesso a financiamento internacional, transferência de tecnologia e apoio à capacitação, ressaltando que fechar a lacuna do financiamento climático é essencial para fechar a lacuna de ambição”, disse à InfoAmazonia Rebecca Thissen, coordenadora de global de incidência da Climate Action Network (CAN). E acrescentou: “Os países em desenvolvimento deixaram claro que sua ambição não é limitada pela visão, e sim pelos recursos.”
Além do valor em dinheiro em si, os países divulgaram desafios e limitações financeiras enfrentados na implementação de seus planos climáticos. Isso inclui acesso limitado e tardio ao financiamento devido a processos burocráticos longos e complexos, e dificuldades na mobilização de financiamento privado devido à baixa rentabilidade em setores vulneráveis, à percepção de altos riscos, ou mesmo ao escasso interesse dos investidores em medidas de adaptação.
“O relatório destaca que o apoio internacional previsível, acessível e ampliado não é esmola, e sim a condição para se implementar a ambição já incorporada às NDCs dos países em desenvolvimento. Isso deve ser acompanhado por uma reforma ambiciosa dos sistemas financeiros atuais, criando o espaço fiscal e político de que os países em desenvolvimento precisam para acelerar sua transição justa”, comenta Thissen.
Considerando que 69% do financiamento climático mobilizado em 2022 se deu na forma de empréstimos, não surpreende que uma barreira a mais seja o peso da dívida e as restrições fiscais geradas pelas modalidades de financiamento baseadas em mais endividamento em nome da ação climática. Esse foi um elemento qualitativo não resolvido pela nova meta de financiamento climático – a NCQG – decidida na COP29 anterior.
“As NDCs não são apenas compromissos climáticos, mas também o prospecto de investimento de um país, ou seja, o sinal mais claro para os mercados globais sobre onde se alinharão as políticas e oportunidades”, comentou María Mendiluce, diretora executiva da We Mean Business Coalition, e acrescentou: “Governos e empresas devem trabalhar juntos para criar as condições fiscais e financeiras que façam com que a energia renovável, a eficiência e a resiliência sejam os investimentos mais atrativos em todos os setores.”
4- Um interesse cada vez maior nos mercados de carbono
Na rodada anterior, 64% das Partes que apresentaram novas NDCs haviam manifestado interesse em participar dos mecanismos de mercado de carbono previstos no Artigo 6 do Acordo de Paris (que os regula), como forma de atingir seus objetivos climáticos. Agora, esse número subiu para 89%, incluindo países como Brasil e Indonésia, o que demonstra um crescimento considerável do interesse pelo tema.
O relatório também tem uma motivação a mais: finalizar os detalhes de implementação do Artigo 6 na COP29 abre caminho para que mais países comecem a pensar em seus marcos regulatórios, jurídicos e institucionais para se envolver nos mercados de carbono e se beneficiar deles. Na verdade, os que os países têm mais intenção ou possibilidades de usar são o Artigo 6.2, sobre o comércio de redução de emissões entre países, e o Artigo 6.4, que trata do novo mercado internacional de carbono, sobre os quais houve decisões em Baku.
Maximiliano Manzoni, diretor da Consenso e jornalista especializado em mercados de carbono, disse à InfoAmazonia que identifica diversos problemas com a intenção de muitos países desenvolvidos de cumprir seus compromissos climáticos usando os mercados de carbono de acordo com o Artigo 6.
“Um problema essencial é que os países do Sul Global acabarão subsidiando, com suas florestas, os custos de mitigação dos países do Norte Global, transferindo esse carbono, ao mesmo tempo em que os do Norte podem alegar estar apoiando com financiamento climático”, diz Manzoni.
E mais: “Outro problema é que, sem normas firmes, essas transferências de carbono capturado pelos países do Sul Global para as NDCs do Norte aumentarão os custos de mitigação dos países em desenvolvimento e, em casos mais extremos, os colocarão na difícil situação de aceitar acordos desiguais como única forma de ter acesso a dinheiro para suas próprias necessidades de mitigação e adaptação.”
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