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domingo, 4 de outubro de 2026

Faz mal deixar o gato ir à rua sozinho?


Gatos domésticos e a biodiversidade: o impacto silencioso na vida selvagem
Durante décadas, existiu o mito de que os felinos precisam de "liberdade" e de acesso à rua para terem uma vida plena e feliz. No entanto, a realidade atual desmente esta ideia. Deixar o seu felino passear sozinho e sem supervisão é, hoje em dia, um dos maiores riscos para a sua sobrevivência e, simultaneamente, uma ameaça silenciosa para o equilíbrio ambiental.
Embora o gato doméstico (Felis catus) seja um companheiro dócil dentro de quatro paredes, as suas garras e dentes escondem um predador altamente eficaz. Quando sai de casa, o seu instinto de caça permanece totalmente intacto. Ele não caça por fome, mas sim por puro reflexo natural. O resultado deste comportamento assume proporções alarmantes à escala global, com milhares de milhões de aves e pequenos mamíferos a perderem a vida todos os anos devido à predação felina.

O impacto global em números
Os números associados à predação felina são alarmantes. Um grande estudo internacional publicado na Nature Communications revelou que os gatos em liberdade consomem mais de 2.000 espécies de animais diferentes em todo o mundo, incluindo centenas que se encontram sob ameaça de conservação.
Apenas nos Estados Unidos, as estimativas apontam para a perda anual de aves - entre 1,3 e 4 mil milhões de indivíduos.  Mamíferos: entre 6,3 e 22,3 mil milhões de pequenos animais.

De acordo com dados analisados pela BBC News Brasil, esta pressão predatória contínua já associou os gatos à extinção moderna de pelo menos 63 espécies de aves, mamíferos e répteis.

A vulnerabilidade das ilhas e habitats isolados
O problema atinge proporções críticas em ecossistemas insulares. Como muitas espécies nativas evoluíram em ambientes sem a presença de mamíferos carnívoros rápidos, elas não possuem estratégias de defesa ou fuga eficazes. Em Portugal, este risco é visível em territórios como os Açores e a Madeira, onde projetos de conservação como o Natura@Night da SPEA monitorizam o impacto de gatos assilvestrados em aves marinhas vulneráveis, como as cagarras.

A realidade em Portugal Continental
A discussão ganha ainda mais relevância com os dados recentes do Primeiro Censo Nacional de Animais Errantes, coordenado pela Universidade de Aveiro em parceria com o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). O estudo confirmou a existência de cerca de 830 mil gatos errantes nas áreas urbanizadas do país.
Além da predação direta da fauna urbana, o ICNF alerta no seu canal oficial para outro perigo ecológico: a hibridização. O cruzamento de gatos domésticos abandonados com o raro gato-bravo (Felis silvestris) - uma espécie classificada "Em Perigo" de extinção em Portugal - ameaça a integridade genética da fauna selvagem nativa.

Os perigos invisíveis da rua para a saúde do gato e saúde pública
Os gatos domésticos não devem andar na rua sozinhos e sem supervisão devido a uma combinação de riscos graves para a sua própria segurança, para a saúde pública e para o equilíbrio do meio ambiente. [1, 2]
Os veterinários e as principais associações de bem-estar animal recomendam que vivam exclusivamente no interior (ou com acesso vedado) pelos seguintes motivos estruturais: [1, 2]

1. Riscos letais imediatos para o gato
A rua é um ambiente hostil para um animal domesticado. Os gatos com acesso livre à rua enfrentam perigos constantes que reduzem drasticamente a sua esperança média de vida: [1, 2, 3]
  1. Atropelamentos: é uma das causas mais comuns de morte súbita. Os gatos não têm perceção do perigo do trânsito automóvel. [1, 2, 3, 4]
  2. Envenenamentos: seja por ingestão acidental de químicos (como anticongelante de carros), raticidas ou plantas tóxicas, o risco de intoxicação é altíssimo. [1, 2]
  3. Maus-tratos e violência: infelizmente, os animais na rua estão expostos à crueldade humana, armadilhas ou ataques de cães. [1, 2]
  4. Lutas territoriais: os gatos são extremamente territoriais. As brigas com outros gatos de rua causam ferimentos graves, abcessos e infeções que necessitam de intervenção cirúrgica. [1, 2, 3]
2. Transmissão de doenças incuráveis
Mesmo que um gato seja vacinado, as saídas à rua expõem-no a vírus altamente contagiosos e fatais entre felinos. Estudos recentes mostram que gatos com acesso à rua têm taxas de doenças infeciosas semelhantes às de gatos totalmente errantes. Os principais riscos são: [1, 2, 3]
  1. FIV e FeLV: o Vírus da Imunodeficiência Felina (FIV) e a Leucemia Felina (FeLV) não têm cura e são transmitidos facilmente através de mordeduras, arranhões ou partilha de fluidos na rua. [1, 2]
  2. Zoonoses (risco para os humanos): os gatos que andam na rua podem trazer para dentro de casa parasitas (pulgas, carraças, desinterias por vermes) e doenças transmissíveis ao ser humano, como a toxoplasmose e a raiva. [1, 2]
3. Destruição da biodiversidade local
Como vimos anteriormente, o instinto de caça do gato não desaparece por ele ter comida em casa. Um gato doméstico na rua torna-se um predador invasor que caça aves, lagartos e pequenos mamíferos nativos apenas por reflexo. Esta pressão ecológica contribui para o declínio de espécies protegidas e desequilibra a fauna urbana. [1, 2, 3, 4]

Medidas de prevenção e guarda responsável
A mitigação deste impacto silencioso não passa por diabolizar os felinos, mas sim por promover uma mudança de comportamento nos seus tutores. Algumas das recomendações estruturais apoiadas por especialistas incluem:
  1. Acesso controlado ao exterior: manter os gatos domésticos dentro de casa ou construir espaços exteriores vedados e seguros. Quem procura inspiração prática pode consultar várias Ideias para fazer um cercado externo (catios), que permitem adaptar janelas, pátios ou varandas para dar liberdade vigiada ao animal sem riscos.
  2. Estilo de vida enriquecido: para evitar o tédio e a ansiedade de estar apenas no interior, o tutor deve aplicar estratégias descritas num Guia de enriquecimento ambiental para gatos. Isto inclui a instalação de arranhadores altos, jogos de procura e o fornecimento de dietas ricas em proteína animal para satisfazer o reflexo natural de caça de forma segura.
  3. Controlo de populações de rua: apoiar os programas municipais de esterilização para travar o crescimento exponencial de colónias errantes. De acordo com o enquadramento legal de Detenção de Animais de Companhia do ICNF, a promoção da guarda responsável e o controlo destes animais em ambiente urbano (através de programas como o CED - Capturar, Esterilizar, Devolver) são passos cruciais para proteger tanto o bem-estar animal como a fauna selvagem nativa.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Como as cidades estão a transformar os seus rios poluídos em paraísos para banhos

No dia 5 de Julho de 2026, durante uma onda de calor opressiva, parisienses e turistas nadaram no Sena, um de muitos rios que foram limpos e estão a receber novamente banhistas urbanos.

Durante a maior parte da vida de Pauline Janbon, a ideia de tomar banho no rio Sena, em Paris, era inimaginável.

“Quando éramos crianças diziam-nos que havia cadáveres a flutuar na água”, disse Janbon, uma estudante de 20 anos da Universidade da Sorbonne, em Paris. “Tinha a reputação de ser extremamente sujo.”

Em Junho deste ano, porém, quando uma onda de calor inédita assolou o país, Janbon e milhares de parisienses mergulharam nas águas outrora temidas da cidade para se refrescarem. No dia em que a conheci, ela estava junto à margem do Canal Saint-Martin, rodeada por hordas de banhistas, que saltavam, nadavam e boiavam na água.

“Até hoje, nunca tinha dado um mergulho na minha própria cidade”, disse Janbon, enquanto espremia água do cabelo. “Parece que estou de férias.”

Paris é apenas uma de muitas cidades europeias que se têm esforçado para tornar as suas vias aquáticas novamente seguras para banhos. Copenhaga, Basileia, Zurique, Berna e Oslo passaram anos a melhorar os seus sistemas de gestão de águas residuais, criando uma infra-estrutura de águas pluviais e implementando políticas para controlar melhor a poluição aquática. Os seus esforços têm sido maioritariamente bem-sucedidos, com os residentes das cidades da Europa a regressarem às suas águas. E à medida que as alterações climáticas criam ondas de calor mais intensas e frequentes, os urbanistas e residentes também estão a virar-se para estas águas para lidar com os dias mais quentes.

“Estamos a ver pessoas a renegociar os seus contratos sociais com a água nestas cidades”, disse Matthew Sykes, co-fundador e director do programa Swimmable Cities, uma aliança de organizações que promove o direito ao usufruto das vias aquáticas urbanas. “As pessoas começam a perceber que é melhor ter uma cidade onde se possa nadar.”

Um regresso histórico às águas
Até ao início do século XX, tomar banho nos rios urbanos era uma actividade comum na Europa ocidental e em algumas zonas da América do Norte. Eram construídas casas de banhos directamente em cima dos rios e havia sítios que as pessoas visitavam a lazer, bem como para se lavarem. A falta de canalizações em casas particulares significava que estas casas de banho – populares em cidades como Nova Iorque, Londres, Boston, Filadélfia e Paris – eram frequentemente o único sítio onde as pessoas podiam lavar-se.

À medida que a industrialização foi avançando e as populações subiram a pique nas cidades, os rios urbanos da Europa tornaram-se inimaginavelmente sujos. Em Paris, águas residuais, partes do corpo de animais e escoamentos de lavandarias eram despejados directamente no Sena. Por esta razão, a cidade proibiu os banhos em 1923, declarando a água insegura para a saúde humana.

As autoridades municipais começaram a discutir a limpeza do rio em 1988, mas só em 2016 é que a presidente da câmara de Paris, Anne Hidalgo, renovou o empenho da cidade em limpar o Sena, transformando o rio num pilar essencial da candidatura de Paris aos Jogos Olímpicos de Verão de 2024.

“Paris fez muito do trabalho pesado pelas outras cidades”, disse Sykes, comentando que o gabinete do presidente da câmara sofreu muitas críticas da parte da imprensa e dos eleitores. “Tiveram de provar que uma iniciativa como esta, que já tinha sido testada em cidades mais pequenas, era possível em grandes metrópoles urbanas.”

Em Julho de 2025, quando o Sena abriu oficialmente ao público, mais de 100.000 pessoas nadaram nas áreas de banho designadas, levando a cidade a prolongar a época balnear até ao início de Setembro. Agora, com o rio a entrar na sua segunda temporada de banhos, Paris está a provar que limpar os rios não só é possível, como é essencial na época das alterações climáticas.

Em Junho, Paris sofreu a sua onda de calor mais grave de que há registo. França tem poucos equipamentos de ar-condicionado: apenas um quarto das casas e menos de 7 por cento das escolas estão equipadas com sistemas de refrigeração. Em Paris, os edifícios haussamannianos que dão à cidade o seu visual emblemático, são notoriamente mal isolados contra o calor, deixando os parisienses com poucas opções para se refrescarem. Quando as temperaturas aumentaram no final de Junho, os parisienses suados procuraram refúgio nos corredores refrigerados dos supermercados e aguardaram em longas filas para entrar nas piscinas municipais da cidade. No entanto, as opções mais populares para muitos foram os rios e canais recentemente limpos de Paris, aos quais hordas de pessoas desceram para dar o seu primeiro mergulho na cidade.

Cientificamente falando, os parisienses têm poucas razões para se preocuparem com a higiene da sua água. Todos os dias, a cidade monitoriza o Sena em busca de E. Coli e enterococci, que podem causar febre, infecções do tracto urinário e diarreia. Estes testes têm concluído de forma consistente que a água é segura para banhos, de acordo com os regulamentos da União Europeia.

Mesmo assim, um bloqueio mental impede muitos parisienses de nadar no Sena. Em 2021, quando a agência de sondagens IFOP pediu a mil pessoas francesas a sua opinião sobre o Sena, 70 por cento dos inquiridos descreveram-no como sujo, poluído e malcheiroso. Poucos disseram que seriam capazes de mergulhar no rio. E embora essa perspectiva tenha começado a mudar, a longa reputação do Sena como um rio sujo é difícil de limpar.

“Estou feliz por os meus filhos poderem desfrutar da água, mas eu não meto os pés lá dentro”, disse Soizic Prado, de 52 anos, sentada num banco, toda vestida, a ver os filhos brincar. “Tenho a certeza que é segura, mas passei a minha vida inteira a ouvir dizer que a água é suja”, explicou. “Ça donne pas envie” [“Não dá vontade”].

terça-feira, 10 de março de 2026

What are the world’s deadliest animals, and can we protect ourselves against them?

O artigo explica que, embora tenhamos medo de tubarões ou lobos, os animais que mais matam humanos são os mosquitos (cerca de 700.000 a 1 milhão de mortes/ano por doenças) e as cobras. O gráfico do Our World in Data mostra que o risco real está muito mais ligado à exposição a doenças e parasitas do que a ataques diretos de grandes animais.

One and a half million people are killed by animals every year. Almost one million by other animals, and more than half a million from direct conflict among ourselves.

Almost all of these deaths from other animals are caused by just two types: mosquitoes and snakes.

In the chart above, we’ve brought together estimates of the number of people killed by different animals.

These numbers are estimates, and some come with significant uncertainty. That’s why we’ve published a detailed methodology explaining our sources and how they compare. Despite this uncertainty, we feel confident about the relative orders of magnitude across different animals.1

The biggest killers, by far, are mosquitoes. They have been one of our biggest threats for millennia, and still kill approximately 760,000 people every year.2 Over 80% of those deaths are the result of malaria, which is transmitted and spread by the Anopheles mosquito. Malaria still kills close to half a million children every year.

Another 100,000 people die every year from other mosquito-borne diseases, including dengue fever and yellow fever (spread by the mosquito species Aedes aegypti) and Japanese encephalitis.

Almost all deaths from other animals are caused by just two types: mosquitoes and snakes.

Snakes are one of the most common phobias, and you can see why. They are the second largest killers. The death toll from venomous snakes is surprisingly uncertain, as many of these deaths occur in rural areas where death records are often poor.3 But the figure is likely to be around 100,000 deaths per year. That means snakes kill more than all animals below them on the list combined.4

Most of those remaining deaths are caused by dogs, the animals that humans have grown to love as domesticated pets. The majority are due to rabies, rather than direct wounds.

Near the bottom of the list, we reach the animals that dominate our nightmares — sharks and wolves. They make for gripping headlines and blockbuster films. But in reality, shark and wolf attacks are very rare.

Of course, they don’t kill fewer people because they’re less dangerous. We’d rather be locked in a room with a mosquito than a lion. The real difference is exposure: it’s much easier to avoid large predators than it is to avoid disease-carrying insects and parasites.5

The good news is that most deaths from animals — especially the largest killers — are preventable. We have bednets and insecticide sprays to reduce exposure to mosquitoes, and medication to treat malaria if someone does become infected. New techniques, such as the Wolbachia method, have been developed to stop the spread of dengue fever. Antivenoms can often save someone from a potentially fatal snakebite.6

The problem is that not everyone has access to these preventive and treatment methods when they need them.7 If these small killers received the same global attention as large predators, more effort might go into stopping them. That is one reason why these comparisons are useful: as a reminder of what people are actually dying from, and where the most lives could be saved.There are other diseases — in particular, neglected tropical diseases — that could also be dramatically reduced with better access to treatment.

In many regions, deaths from mosquitoes have decreased dramatically. Malaria was once prevalent in countries that are now free of it. If we could achieve this in all parts of the world, the number of deaths caused by other animals would be almost six times smaller.8

If we were to also eliminate deaths from snakes through the use of antivenoms and better diagnostics, the death toll would be again reduced by almost two-thirds.9


Methodology

domingo, 19 de novembro de 2023

Por que é que os chineses comem animais exóticos?


Um artigo publicado pela revista científica The Lancet, intitulado “Game consumption and the 2019 novel coronavirus”, assinado por Jie Li, da Universidade de Guangzhou e Jun Li, da Universidade de Ningxia, juntamente com mais cinco autores chineses, explica as razões que estão por detrás de uma prática muito comum na sociedade chinesa desde há vários séculos.​

“A prática do consumo de carne e produtos oriundos de animais selvagens na China data de períodos pré-históricos. Nos tempos modernos, apesar deste tipo de comércio não ser essencial à alimentação, a tradição de comer este tipo de animais persiste”, lê-se no artigo.​

De facto, no período entre 1959 e 1961, terão morrido cerca de 15 milhões de pessoas devido à Grande Fome. Preocupado com um novo período de escassez de alimentos, em 1979, o governo chinês temia não conseguir voltar a alimentar os seus milhões de habitantes. Nessa altura, abriu a atividade agrícola a grandes grupos de privados que começaram a produzir galinha, porco e vaca. Os pequenos agricultores, que ficaram sem soluções, decidiram começar a criar animais selvagens, como cobras e tartarugas. O governo chinês apoiou esta iniciativa. ​

Ao mesmo tempo, com base em crenças antigas, muitas famílias acreditam que comer órgãos de animais selvagens pode curar ou prevenir doenças. Por exemplo, acreditam ainda que a carne de pangolim ajuda a aliviar o reumatismo, que o seu sangue ajuda a promover a circulação sanguínea, e as escamas um bom aliado nos tratamentos estéticos. “A cultura alimentar chinesa sustenta que os animais recém-abatidos são mais nutritivos e essa crença pode aumentar a transmissão viral”, salientam os cientistas chineses. ​

Por definição, animal exótico é todo aquele que não ocorre naturalmente numa determinada região geográfica e que foi trazido acidental ou intencionalmente pelo homem. ​

sábado, 12 de agosto de 2023

These animal interactions are risks for future pandemics


The analysis calls for tightening existing regulations and implementing new ones in order to prevent zoonotic-driven outbreaks.

The report is the first to comprehensively map networks of animal commerce that fuel zoonotic disease risk in the US. It analyzes 36 different animal industries, including fur-farming, the exotic pet trade, hunting and trapping, industrial animal agriculture, backyard chicken production, roadside zoos, and more, to assess the risks each poses of generating a large-scale disease outbreak.

The report states, far from being a problem that only exists elsewhere, many high-risk interactions between humans and animals that happen routinely and customarily inside the US could spark future pandemics. All of the animal industries the report examines are far less regulated than they should be and far less than the public believes they currently are. Today, wide regulatory gaps exist through which pathogens can spillover and spread, leaving the public constantly vulnerable to zoonotic disease.

“COVID has infected more than 100 million Americans and killed over a million of them. But the next pandemic may be far worse and might happen sooner than we think. The stakes are simply too high for the problem to be ignored,” says Ann Linder, one of the report’s lead authors and a research fellow with the Brooks McCormick Jr. Animal Law and Policy Program at Harvard Law School.

The immense and increasing scale of animal use in the United States makes the country uniquely vulnerable to zoonotic outbreaks. For example, the US is the largest importer of live wildlife in the world, importing more than 220 million wild animals a year, many without any health checks or disease testing.

The US also produces more livestock than almost any other nation. In 2022, the US processed more than 10 billion livestock, the largest number ever recorded. Yet, the USDA does not regulate on-farm production of livestock. At slaughterhouses inspections are cursory, with each inspector tasked with examining more than 600 animals per hour for signs of disease.

The US is one of the world’s largest producers of pigs and poultry, two important carriers of influenza viruses—viruses that scientists believe are most likely to produce a large-scale human pandemic.The largest avian influenza outbreak in US history is currently ongoing and has left 58 million poultry dead since it began in 2022. The virus has spread to several species of mammals in the US and has infected a man in Colorado. Even a slight shift in the viruses’ composition could allow it to move rapidly through human populations.

The US also has recorded more “swine flu” infections than any other country since 2011. Most of these infections occurred in children exhibiting pigs at state and county fairs, which attract 150 million visitors each year and have given rise to multistate outbreaks of influenza. Despite this, animal fairs remain largely unregulated.

In addition, the people most vulnerable to zoonotic disease in the US are those who work hands-on with farmed animals. Such jobs tend to be disproportionately staffed by people of color and those in rural communities who may be the least likely and the least able to report disease or seek medical care.

Studies estimate that swine workers have a 30 times greater risk of zoonotic influenza infection than the general public, but these viruses have the potential to spread far beyond livestock workers. The CDC estimates the 2009 “swine flu” hospitalized over 900,000 Americans.

Live animal markets in the US (elsewhere called “wet markets“), where animals are stored alive and slaughtered onsite for customers, also pose serious disease risks. New York City alone is home to at least 84 live animal markets.A detailed study of pigs in two live animal food markets in Minneapolis found high rates of influenza viruses not only in and on the animals but also in the air and on surfaces throughout the market.

A shocking 65% of workers at the market tested positive for influenza during the 12-week study, as did a 12-year-old customer who became sick after touching the railings of a pig pen and one of the animals.

Wildlife also poses significant risk. Hundreds of millions of live wild animals are imported into the US each year, many without ever being looked at by anyone. Only scant and incomplete information exists about these animals, where they are originating, and where they go after they arrive. For example:The $15 billion US exotic pet trade brings high-risk species of wildlife into American homes, initiating close human-animal interactions that serve as potential flashpoints for spillover of zoonotic disease—with roughly 14% of American households owning one or more exotic animal from among hundreds of species that range from monkeys to monitor lizards.

Animals carrying zoonotic disease are sold through legal channels such as pet stores without health checks or veterinary oversight, as well as through the black market.
Some exotic animal dealers keep more than 25,000 wild animals together at a single facility, often in poor conditions that facilitate disease spread, before they are shipped off to customers across the country.

During a major mpox outbreak, which originated in one of these facilities after it received a shipment of exotic animals from overseas, CDC agents were not able to track down a large number of infected prairie dogs that had been sold through pet stores and swap meets.

Even lesser-known animal industries in the US pose serious risks to human health. Crocodile farms have facilitated the spread of West Nile Virus to humans and mink in fur farms have transmitted COVID-19 to humans.

Still, many industries that generate risk are loosely regulated or not regulated at all. Policy change is often reactive, the report explains, happening only after outbreaks occur. Rarely, it says, do agencies take proactive steps to address zoonotic risk, even when they are aware of the danger to the public. For many industries, the government lacks even basic data and has no system to screen animals for disease or to identify zoonotic threats proactively. In some industries, government action actually drives zoonotic risk and increases human exposure to pathogens.

“While zoonotic risks cannot be eliminated, they can be managed and reduced in ways that make all of us safer. But we need to look them in the eye. The risks that these markets present have been ignored or downplayed for far too long,” says Dale Jamieson, director of New York University’s Center for Environmental and Animal Protection.

This US report is being released ahead of a larger global policy report overseen by the same researchers from Harvard Law School’s Brooks McCormick Jr. Animal Law & Policy Program and New York University’s Center for Environmental and Animal Protection. The full report, which will be released later this year, examines global policy responses to live animal markets in 15 countries and the role these markets play in zoonotic disease transmission. The project aims to provide a comprehensive assessment that will assist global policymakers and increase public awareness of the dangers posed by zoonotic diseases.

Source: NYU

quinta-feira, 6 de julho de 2023

Documentário: Colapso - Extinção humana a curto prazo?



A espécie Homo sapiens evoluiu há cerca de 300.000 anos e passou a dominar a Terra de maneira diferente de qualquer espécie anterior. Mas quanto tempo os humanos podem durar?

Eventualmente, os humanos serão extintos. Na estimativa mais otimista, nossa espécie durará talvez mais um bilhão de anos, mas terminará quando o envelope de expansão do sol aumentar e aquecer o planeta a um estado semelhante ao de Vénus .

Mas um bilhão de anos é muito tempo. Há um bilião de anos, a vida na Terra consistia em micróbios. A vida multicelular não apareceu até cerca de 600 milhões de anos atrás, quando as esponjas proliferaram. Como será a vida daqui a um bilhão de anos é uma incógnita, embora um estudo de modelagem publicado em 2021 na Nature Geoscience sugira que a atmosfera da Terra conterá muito pouco oxigénio até então, tornando provável que os micróbios anaeróbicos, em vez dos humanos, sejam os últimos terráqueos vivos.

Se sobreviver para ver o sol fritar a Terra é um tiro no escuro, quando a humanidade provavelmente encontrará seu destino? Paleontologicamente, as espécies de mamíferos geralmente persistem por cerca de um milhão de anos, diz Henry Gee, paleontólogo e editor sénior da revista Nature , que está a trabalhar em um livro sobre a extinção dos humanos. Isso colocaria a espécie humana na sua juventude. Mas Gee não acredita que essas regras se apliquem necessariamente ao H. sapiens.

“Os humanos são uma espécie bastante excepcional”, diz ele. “Podemos durar milhões de anos, ou podemos todos cair na próxima semana.”

Oportunidades para o dia do juízo final são abundantes. Os seres humanos podem ser exterminados por um ataque catastrófico de asteroides , cometer autodestruição com uma guerra nuclear mundial ou sucumbir à devastação causada pela emergência climática . Mas os humanos são um bando resistente, então o cenário mais provável envolve uma combinação de catástrofes que podem nos exterminar completamente.

Escolha o seu veneno
Alguns assassinos de espécies estão fora de nosso controle. Num artigo de 2021 na revista Icarus , por exemplo, os pesquisadores descrevem como asteróides comparáveis ​​àquele de 10 a 15 quilómetros de diâmetro que matou os dinossauros não-aviários atingem a Terra aproximadamente a cada 250 milhões a 500 milhões de anos. Num artigo pré-impresso publicado no servidor arXiv.org, os físicos Philip Lubin e Alexander Cohen calculam que a humanidade teria a capacidade de se salvar de um asteróide do tamanho de um dino-killer, dado um aviso de seis meses e um arsenal de penetradores nucleares para explodir a rocha espacial em uma nuvem de seixos inofensivos. Com menos aviso ou um asteroide maior, Lubin e Cohen sugerem que a humanidade deveria desistir e “festejar” ou “se mudar para Marte ou para a Lua para festejar”. Atualmente, o maior asteróide que os cientistas conhecem com o potencial de atingir a Terra é chamado (29075) 1950 DA. Tem apenas 1.300 metros de diâmetro e uma chance em 50.000 de atingir nosso mundo em março de 2880, de acordo com uma análise de risco de 2022 da Agência Espacial Europeia .

Deixando de lado as rochas espaciais, muitas ameaças à humanidade são de nossa própria autoria: guerra nuclear, emergência climática, colapso ecológico. Nossa própria tecnologia pode acabar conosco na forma de inteligência artificial senciente que decide extinguir seus criadores, como sugeriram alguns críticos da IA.

Uma guerra nuclear total poderia facilmente destruir a humanidade, diz François Diaz-Maurin, editor associado de assuntos nucleares do Bulletin of the Atomic Scientists. A última vez que os humanos lançaram bombas nucleares uns sobre os outros, apenas um país, os EUA, tinha ogivas nucleares, então não havia risco de retaliação nuclear. Não é o caso hoje – e as bombas são muito maiores. Essas bombas, que atingiram as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki em 1945, continham o equivalente a 15 e 21 quilotons de TNT, respectivamente. Juntos, eles mataram cerca de 110.000 a 210.000 pessoas. Uma única arma nuclear moderna de 300 quilotons lançada sobre a cidade de Nova York, por exemplo, mataria um milhão de pessoas em 24 horas, diz Diaz-Maurin. Uma guerra nuclear regional, como a entre a Índia e o Paquistão, poderia matar 27 milhões de pessoas no curto prazo, enquanto uma guerra nuclear em grande escala entre os EUA e a Rússia poderia causar cerca de 360 ​​milhões de mortes diretas, acrescenta.

A ameaça à própria existência da humanidade viria depois da guerra, quando a fuligem dos grandes incêndios provocados pelos bombardeios alteraria rapidamente o clima em um cenário conhecido como inverno nuclear. O medo de um inverno nuclear pode ter diminuído desde o fim da Guerra Fria, diz Diaz-Maurin, mas pesquisas mostram que as consequências ambientais seriam graves. Mesmo uma guerra nuclear regional danificaria a camada de ozônio, bloquearia a luz solar e reduziria a precipitação globalmente. O resultado seria uma fome global que poderia matar mais de cinco bilhões de pessoas em apenas dois anos, dependendo do tamanho e do número de detonações.

A morte por contaminação ecológica ou pela emergência climática seria mais lenta, mas ainda dentro do possível. Os humanos já estão enfrentando estressores de saúde devido à poluição crônica que foi exacerbada pelo calor adicional trazido pela mudança climática, diz Maureen Lichtveld, reitora da Escola de Saúde Pública da Universidade de Pittsburgh. Temperaturas mais altas forçam as pessoas a respirar mais rapidamente para dissipar o calor, o que atrai mais poluição para os pulmões. A emergência climática também aprofunda os problemas existentes em torno da segurança alimentar – por exemplo, secas persistentes podem devastar plantações – e doenças infecciosas. “A interconexão das mudanças climáticas e as desigualdades e desigualdades na saúde em geral é o que está afetando nossa população global”, diz Lichtveld.

sexta-feira, 5 de maio de 2023

OMS declara fim da pandemia



 A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou nesta sexta-feira (5/05), em Genebra, na Suíça, o fim da Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII) referente à COVID-19.

A decisão foi tomada pelo diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, após receber a recomendação do Comitê de Emergência encarregado de analisar periodicamente o cenário da doença.

Durante a 15ª sessão deliberativa do Comitê, na quarta-feira (4/05), seus membros destacaram a tendência de queda nas mortes por COVID-19, o declínio nas hospitalizações e internações em unidades de terapia intensiva relacionadas à doença, bem como os altos níveis de imunidade da população ao SARS-CoV-2, coronavírus causador dessa enfermidade.

O fim da Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional não significa que a COVID-19 tenha deixado de ser uma ameaça à saúde. A propagação mundial da doença continua caracterizada como uma pandemia, tendo tirado uma vida a cada três minutos apenas na semana passada. “O que essa notícia significa é que está na hora de os países fazerem a transição do modo de emergência para o de manejo da COVID-19 juntamente com outras doenças infecciosas”, destacou Tedros Adhanom.

domingo, 12 de fevereiro de 2023

'Uma ameaça crescente para a saúde humana': estamos mal equipados para os perigos das infecções fúngicas

Cerca de 2 milhões de pessoas morrem por ano como resultado de um grupo central de fungos, e a OMS está preocupada por não estarmos preparados para o futuro.


O ano é 2003, e uma espécie de fungo Cordyceps passou de formigas para humanos, transformando seus hospedeiros em zumbis frenéticos e sedentos de sangue que espalham a infecção para todos que mordem. A solução proposta por uma importante micologista em Jacarta, na Indonésia, onde foram detectados os primeiros casos, é radical, mas, a seu ver, essencial: bombardear a cidade inteira e todos os que estão nela para interromper o contágio. , comumente conhecido como “fungo formiga-zumbi”, a se adaptar para sobreviver em temperaturas mais altas, tornando os humanos um hospedeiro alternativo.

O roteirista e produtor Craig Mazin – que também nos deu a minissérie de Chernobyl – defendeu a premissa do programa, explicando que tudo o que sugere que os fungos fazem, eles já fazem e vêm fazendo desde sempre – incluindo sequestrar o cérebro das formigas e obrigá-las a propagar seus esporos dos assassinos. Outros fungos já podem produzir efeitos que alteram a mente em humanos (pense em cogumelos mágicos).

The Last of Us se passa 20 anos após a civilização moderna ter sido destruída por uma infecção fúngica. Fotografia: HBO/Warner Media

The Last of Us ainda é muito ficção científica, mas há muitos outros motivos para se preocupar com fungos. As infecções fúngicas já matam cerca de 2 milhões de pessoas por ano – mais do que a tuberculose ou a malária – e o número está crescendo. Os fungos também estão se tornando cada vez mais resistentes ao pequeno número de tratamentos disponíveis, e há muito poucas alternativas em andamento. O mundo estava relativamente despreparado para uma pandemia viral quando a Covid atingiu, mas pelo menos os cientistas já estavam desenvolvendo vacinas contra o coronavírus. Não existem vacinas humanas contra fungos.Em outubro, a Organização Mundial da Saúde divulgou sua lista de patógenos fúngicos prioritários, o primeiro esforço global para criar uma lista micológica “mais procurada” dos 19 fungos mais perigosos para os seres humanos. “Apesar de representar uma ameaça crescente à saúde humana, as infecções fúngicas recebem muito pouca atenção e recursos globalmente”, disse o relatório. “Tudo isso torna impossível estimar a carga exata de infecções fúngicas e, consequentemente, dificulta a galvanização de políticas e ações programáticas”.

Os fungos são a forma de vida mais populosa do planeta, com cerca de 12 milhões de espécies existentes em todo o mundo. A maioria nunca foi categorizada. Apenas uma fração dessas espécies infecta humanos, mas são responsáveis ​​por cerca de um bilhão de infecções a cada ano. “A maioria são coisas superficiais, como pé de atleta, com as quais ninguém se preocupa particularmente, mas há um grupo principal que causa infecções com risco de vida, principalmente em populações suscetíveis, como os muito velhos ou jovens, e aqueles com sistemas imunológicos que não funcionam adequadamente”, diz Mark Ramsdale, professor associado de micologia no Centro MRC de Micologia Médica em Exeter.

Cerca de 1,5 milhão de pessoas morrem por ano como resultado dessas infecções, diz Ramsdale – embora isso possa ser uma subestimação, porque os fungos infectam predominantemente pessoas que já têm grandes problemas de saúde. “A principal causa de morte provavelmente será leucemia ou transplante de coração, ou qualquer outra coisa”, diz ele. “Mas o que realmente mata o paciente é uma infecção fúngica, então há um forte elemento de subnotificação acontecendo.”

No topo da lista da OMS estão três formas de levedura patogénica, além do Aspergillus fumigatus, um fungo comum encontrado no solo e na vegetação em decomposição que pode causar uma infecção com risco de vida chamada aspergilose em pessoas com imunidade comprometida, como aquelas com HIV, doença pulmonar crónica, ou receptores de transplante de órgãos.

Alguns dos fungos da lista da OMS também podem afetar pessoas saudáveis. Coccidioides , conhecidos coloquialmente como “Cocci”, são fungos que vivem no solo encontrados no sudoeste dos EUA, México e partes da América do Sul que causam uma doença semelhante à gripe chamada febre do vale em um subconjunto de pessoas que os respiram. a 10% dos indivíduos infectados desenvolverão problemas pulmonares graves ou de longo prazo, enquanto em cerca de 1% dos casos a infecção se espalha para outras partes do corpo, incluindo o cérebro, onde pode ser fatal. Cerca de 150.000 pessoas nos EUA são infectadas a cada ano e cerca de 75 morrem por causa disso.

O alcance de algumas dessas infecções também está aumentando. Casos de febre do vale foram recentemente detectados no norte do estado de Washington. O número de infecções relatadas também aumentou 400% entre 1998 e 2015, possivelmente devido às mudanças climáticas.

Outras infecções fúngicas parecem ter aumentado como resultado da Covid, incluindo aspergilose e mucormicose, ou “síndrome do fungo preto”, uma infecção rara, mas perigosa, que pode fazer com que o tecido infectado morra e fique preto. Como essas infecções são mais comuns em pessoas com imunidade suprimida ou danos pulmonares, os médicos suspeitam que estejam capitalizando os danos físicos causados ​​pela Covid.

Um médico se prepara para realizar uma cirurgia em um paciente com mucormicose em Allahabad, na Índia. A mucormicose apresenta elevada prevalência no país. Fotografia: Ritesh Shukla/Getty Images

Os sintomas da mucormicose podem ser terríveis. Frequentemente começando nos seios da face, a infecção pode se espalhar para tecidos e órgãos vizinhos, incluindo olhos e cérebro, resultando em pele enegrecida, inchaço facial, visão turva, consciência alterada ou coma. Alguns pacientes perderam a visão em ambos os olhos ou tiveram que fazer uma cirurgia para remover ossos e tecidos mortos ou infectados.

Por mais horríveis que sejam essas doenças, uma graça salvadora é que a maioria das doenças fúngicas não é transmitida de pessoa para pessoa. Em vez disso, eles geralmente são retirados do meio ambiente, o que tende a limitar sua propagação. A mucormicose, por exemplo, é 70 a 80 vezes mais prevalente na Índia do que no resto do mundo.

No entanto, existem excepções a esta regra. Uma delas é Candida auris , um parente mortal da levedura que causa aftas. Está na lista “crítica” da OMS, pois está superando rapidamente nossos melhores tratamentos antifúngicos. Como muitos patógenos fúngicos, Candida auris ataca predominantemente pessoas com sistema imunológico enfraquecido; se entrar no sangue ou invadir outros órgãos e tecidos, suas hipóteses de sobrevivência são de aproximadamente 50-50.

Semelhante ao fungo em The Last of Us, Candida auris veio até nós do nada. Era desconhecido da ciência até que foi encontrado no canal auditivo de uma japonesa de 70 anos em Tóquio em 2009. Em alguns anos, infecções foram relatadas na Ásia, África e Oriente Médio.

“Agora está em todo o mundo e é um pesadelo absoluto nos hospitais porque é resistente a muitos dos medicamentos antifúngicos da linha de frente”, diz o professor Matthew Fisher , do Centro MRC para Análise Global de Doenças Infecciosas do Imperial College London. Também é parcialmente resistente a desinfetantes e ao calor, o que o torna extremamente difícil de erradicar. Sua detecção pode desencadear o fechamento temporário de enfermarias hospitalares inteiras.

De onde veio Candida auris é incerto. “Estamos supondo que, na profunda biodiversidade de fungos que existe, essa espécie em particular teve sorte”, diz Fisher. Alguns fatores podem ter contribuído. A mudança climática pode ter promovido a mudança desse organismo de um hospedeiro desconhecido para nós, e é até possível que, como em The Last of Us, temperaturas mais altas tenham selecionado variantes que podem crescer na temperatura do corpo humano.

Outra possibilidade é que o uso excessivo de medicamentos antifúngicos na medicina ou na agricultura tenha suprimido o crescimento de organismos concorrentes, abrindo nichos nos quais cepas de Candida auris resistentes a medicamentos e outros fungos potencialmente nocivos podem prosperar. Para agravar o problema, existem apenas quatro classes de drogas antifúngicas, e há muito poucas em andamento.

Fungo Cordyceps atacando uma mosca. Fotografia: Nature Picture Library/Alamy

O desenvolvimento de novos medicamentos será um desafio. “Como os fungos estão realmente intimamente relacionados aos animais, quaisquer drogas que possam interferir no crescimento e desenvolvimento de um fungo são frequentemente tóxicas para nós”, diz Ramsdale. Apesar dessas preocupações, os fungos atualmente recebem menos de 1,5% de todo o financiamento de pesquisa de doenças infecciosas. O relatório da OMS pede maior vigilância e desenvolvimento de antifúngicos, bem como melhores ferramentas de diagnóstico, para garantir que os pacientes sejam tratados prontamente com os medicamentos corretos. A educação também é crítica, diz Ramsdale: “Muitos médicos recebem apenas uma ou duas palestras [sobre patógenos fúngicos] durante todo o treinamento na faculdade de medicina”.

A OMS disse que era importante não sensacionalizar a ameaça representada pelos fungos. Bactérias resistentes a antibióticos apresentam uma ameaça mais imediata e quantificável. “Este é um apelo para aumentar a conscientização, gerar evidências e gerar ciência – não apenas a pesquisa e desenvolvimento de novos produtos, mas também a ciência básica para entender a dinâmica da doença, epidemiologia, ecologia e distribuição global de infecções fúngicas, ” diz o Dr. Hatim Sati, da divisão de resistência antimicrobiana da OMS, que ajudou a escrever o relatório.

No entanto, a ameaça representada pelos fungos não se limita necessariamente às espécies que desenvolveram a capacidade de nos infectar. Cerca de 6.000 espécies de fungos são conhecidas por causar doenças em plantas comerciais e, a cada ano, 40% das safras de arroz do mundo são perdidas para uma doença fúngica chamada brusone do arroz. “Esse é um grande problema de segurança alimentar”, diz Ramsdale.

Doença fúngica da podridão parda em maçãs. Fotografia: Sabena Jane Blackbird/Alamy

O relatório da OMS também não lida com ameaças fúngicas desconhecidas – aquelas que ainda não chegaram aos humanos. Desde a década de 1990, os biólogos conservacionistas observam horrorizados espécies após espécies de anfíbios sucumbirem a uma doença causada por fungos quitrídios que tem sido associada ao declínio de pelo menos 500 espécies de anfíbios e à extinção de 90. Semelhante ao cenário imaginado em The Last of Us, não há nenhuma medida eficaz conhecida para controlar a doença.

Com tantas espécies de fungos por aí, ficar atento a ameaças emergentes é uma tarefa assustadora. “Não há micologistas suficientes no mundo para acompanhar tudo isso”, diz Ramsdale. Treinar mais deles seria um bom lugar para começar. Mas tanto quanto os fungos representam um perigo para nós, eles também apresentam oportunidades. O primeiro antibiótico do mundo, a penicilina, foi descoberto em um molde. Quem sabe que outros truques químicos eles têm em seus micélios? “Como bactérias ou vírus, os fungos são antigos e estão por toda parte”, diz Fisher.

Subestimá-los seria um erro.

domingo, 29 de janeiro de 2023

Documentário: Amazônia Sociedade Anônima (2019)


‘Amazônia Sociedade Anônima’ surgiu após a série homônima desenvolvida pelo diretor Estêvão Ciavatta para o programa Fantástico, da TV Globo, entre 2014 e 2015, que teve um dos episódios dedicado à grilagem e ao comércio ilegal de madeira. Ao longo de cinco anos, a narrativa do documentário foi se desenvolvendo a medida que os acontecimentos históricos se davam. A fotografia é um dos destaques de ‘Amazônia Sociedade Anônima’, que ora revela a harmonia dos povos indígenas com a floresta, ora surpreende com imagens desconcertantes do desmatamento ilegal.

De 2014 a 2018, o diretor e sua produção acompanharam ações de órgãos oficiais federais no combate ao roubo de terras públicas. Nesse período eles presenciaram as duas maiores ações do IBAMA junto ao Ministério Público e a Polícia Federal para combater o roubo de terras públicas no Sudoeste do Pará: as operações Castanheira e Rios Voadores. Ignorando os limites da lei, essas organizações criminosas começaram a avançar sobre regiões de florestas intocadas, chegando cada vez mais perto das terras dos Munduruku. Com o passar dos anos, a produção notou que as ações do IBAMA não estavam sendo suficientes para combater essas máfias de extração ilegal de madeira e roubo de terras.

A proximidade com a comunidade indígena Munduruku surgiu junto com a auto-demarcação, e com as primeiras filmagens que fizeram com o grupo indígena em 2014. Já em 2017, o diretor doou uma câmera, um tripé e um microfone ao Coletivo Audiovisual Munduruku, composto em sua maioria por mulheres, para que elas continuassem registando seus desafios na defesa de suas terras. Quando a produção recebeu as filmagens e o acervo do coletivo passou a fazer parte do filme, o diretor decidiu colocar a entidade como coprodutora do documentário.

Para Estêvão, uma câmera nas mãos dessas mulheres é a melhor forma de defesa das terras. “Nos dias de hoje o audiovisual é uma forma delas contarem sua própria história e ao empunharem as câmeras nos momentos de monitoramento e vigilância do território, elas se tornam guerreiras tão ou mais importantes que os outros guerreiros. A câmera de filmar se tornou, então, um poderoso instrumento de defesa de suas vidas e da floresta. Tudo o que acontece está sendo registrado. O filme se torna, então, estratégico para que esta realidade seja conhecida e dialogue com o mundo, abrindo novas perspectivas para o futuro da Amazônia. ”, pondera ele.

Estêvão Ciavatta reforça a relevância desse tema ser discutido através do documentário nos tempos atuais.

“Quando falamos a primeira vez sobre o assunto, em 2015, estava claro para mim a importância do tema para o futuro da Amazônia e do Brasil. Ainda em 2017, quando aprofundei o tema com entrevistas para o filme, vi que o assunto das terras públicas desprotegidas ainda estava invisível. Isso me deu mais certeza de que estava no caminho certo. Hoje, apesar da triste realidade, vejo que fiz a escolha certa. Nós temos que conhecer a realidade amazônica e respeitar 14 mil anos de história dos povos indígenas na região”.

Sobre filmar na Amazônia, o diretor destaca as dificuldades enfrentadas. “Qualquer trabalho na Amazônia é um desafio, seja por suas dimensões continentais, seja pelos contratempos de produção. Mas a disposição e a vontade venceram todas as barreiras. Posso dizer que a maior dificuldade foi a convivência com os micuins, carrapatos minúsculos que vivem na floresta”, finaliza Estêvão.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

José Saramago - sobre História


"A História é tão pródiga, tão generosa, que não só nos dá excelentes lições sobre a actualidade de certos acontecidos outrora como também nos lega, para governo nosso, umas quantas palavras, umas quantas frases que, por esta ou aquela razão, viriam a ganhar raízes na memória dos povos."
José Saramago - in Diário de Notícias (2009)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Nanoplásticos podem viajar da alface para larvas e peixes



É sabido que os microplásticos transportados pela água podem se acumular nos tecidos dos peixes e eventualmente ser engolidos pelas pessoas. No entanto, há outra maneira de essas minúsculas partículas acabarem na cadeia alimentar: da terra à vegetação, dos insetos aos peixes.

Em um novo estudo da University of Eastern Finland , os pesquisadores aplicaram a técnica a um modelo de cadeia alimentar contendo três níveis tróficos (posições na cadeia alimentar) alface cultivada em solo contendo poliestireno e partículas de PVC (policloreto de vinila) de 250 nanómetros de largura. Esses materiais foram selecionados porque representam uma parcela considerável da poluição plástica atualmente presente no ambiente marinho.

As plantas foram colhidas após quatorze dias e alimentadas com larvas de mosca-soldado-negra, frequentemente utilizadas como fonte de proteína na alimentação animal. Após cinco dias comendo alface, as larvas foram alimentadas pelos peixes-barata (peixes insetívoros) por mais cinco dias. Em seguida, os peixes, larvas e plantas de alface foram dissecados e analisados ​​por microscopia electrónica de varredura.

Foi descoberto que as raízes das plantas primeiro absorveram ambos os tipos de nanopartículas antes de se acumularem nas folhas. Algumas das partículas dessas folhas entraram na boca e nas entranhas das larvas quando elas as comeram. As partículas persistiram mesmo depois que as larvas tiveram 24 horas para esvaziar o estômago.

As nanopartículas então se moveram das larvas para os peixes, onde foram encontradas predominantemente no fígado, mas também nos tecidos do intestino e brânquias. Nenhuma partícula foi encontrada no tecido cerebral.

Vale a pena notar que nenhum dos organismos – alface, larvas, peixes – apresentou efeitos adversos ao absorver as nanopartículas. No entanto, algumas investigações levantaram a hipótese de que as nanopartículas de plástico podem, no mínimo, acumular patógenos de ambientes contaminados e, posteriormente, transmitir esses patógenos a animais ou plantas.

O Dr. Fazel Monikh, principal autor do estudo, concluiu:

“Os nossos resultados mostram que a alface pode absorver nanoplásticos do solo e transferi-los para a cadeia alimentar. Isso indica que a presença de minúsculas partículas de plástico no solo pode estar associada a um risco potencial à saúde de herbívoros e humanos, se esses achados forem generalizáveis ​​para outras plantas e culturas e para ambientes de campo. No entanto, mais pesquisas sobre o tema ainda são necessárias com urgência.”

O estudo foi publicado no Nano Today em 9 de setembro de 2022.

sábado, 26 de novembro de 2022

Relatório da OMS - Resistência aos antibióticos, não há tempo a perder


"Não há tempo a perder". O relatório OMS 29.4.19 sobre resistência a antibióticos apresenta um cenário catastrófico, para a saúde e para a economia global. Até 10 milhões de mortes por ano nas próximas três décadas, com custos sociais e picos de desigualdade comparáveis ​​aos da crise financeira de 2008. (1)

Resistência aos antibióticos, o problema e as suas causas

Resistência a antibióticos é um fenómeno que ocorre quando as bactérias 'aprendem a resistir' aos antibióticos, uma vez que são capazes de derrotá-los. E quando microorganismos antes considerados quase inofensivos começam a resistir a diferentes classes de antibióticos (resistência multi-antibióticos), o problema se torna grave. Aumento da mortalidade, internações prolongadas, indisponibilidade de tratamentos eficazes.

O exorbitante custar das especulações insanas das gigantes das drogas, como sempre, é terceirizada para a comunidade global. Que durante meio século revirou os cofres de Grande Farmácia, comprar antibióticos como balas para tosse. Sem que ninguém, até alguns anos atrás, levantasse dúvidas sobre os custos individuais e sociais de seu abuso. A não ser adicionar uma caixa de fermentos lácteos - às receitas ou sugestões de venda livre - para 'restaurar a flora intestinal', numa visão de conto de fadas de interação de armas químicas com o microbioma.

Criação animal por sua vez contribuiu e ainda contribui para causar e agravar a resistência aos antibióticos, uma vez que os medicamentos veterinários nas explorações de 'gado' têm sido utilizados de forma sistemática e não local, como uma 'maneira mais simples' de prevenir o aparecimento de focos de infecção. Se não também para compensar a falta de higiene e melhorar o desempenho da produção. O legislador europeu interveio, portanto, com uma reforma drástica (registo UE 2019/6), com o objetivo expresso de limitar ao mínimo o uso de antimicrobianos e antibióticos nas fazendas.

'Não há tempo a perder'. Relatório da OMS 29.4.19

'Sem Tempo para Esperar. Protegendo o Futuro das Infecções Resistentes a Drogas.' O relatório publicado em 29.4.19 pela OMS deriva das atividades do Grupo de Coordenação de Agências da ONU dedicados à resistência antimicrobiana (IACG, 'Grupo de Coordenação Interagências da ONU sobre Resistência Antimicrobiana'. (2) A gestão de uma crise sanitária e socioeconómica com impacto global pressupõe, de facto, uma abordagem partilhada, de acordo com a visão 'Uma Saúde'. Onde os 'Objetivos de Desenvolvimento Sustentável'(ODS), na agenda da ONU 2030, representam tanto objetivos quanto ferramentas para sobrevivência e solução de problemas. Em particular no que diz respeito aos direitos dos acesso a comida e água condições de segurança, saúde e higiene.

O estado atual, pelo menos 700 mortes a cada ano são atribuídas a doenças resistentes a medicamentos, 230 apenas a formas de tuberculose que não respondem ao tratamento. Doenças comuns tornam-se incuráveis ​​e protocolos que salvam vidas perdem sua eficácia. As cadeias de abastecimento de alimentos, por sua vez, aumentam a fragilidade, devido ao impacto de patógenos multirresistentes em 'segurança alimentar' (segurança alimentar) e assim por diante 'segurança alimentar«(segurança do abastecimento alimentar, ou seja, disponibilidade de alimentos para as populações). O IACG prevê que a resistência antimicrobiana levará 24 milhões de pessoas à pobreza extrema até 2030.

'Resistência antimicrobiana é uma das ameaças mais sérias que enfrentamos como comunidade global ' (Amina Mohammed, vice-secretária-geral da ONU e copresidente do IACG)

O cenário de previsão tem uma escala diferente, anuncia uma epidemia sem precedentes. Antibióticos, antivirais, antifúngicos estão se tornando ineficazes. A IACG relata 10 milhões de mortes a cada ano, globalmente, até 2050. Com prevalência nos países LMIC ('Países de renda média pequena'), mas sem excluir as economias mais maduras. O fenômeno é, de fato, registrado em níveis alarmantes em todos os países, independentemente do nível de renda nacional. Continuamos humanos e continuaremos a ser, todos nós, independentemente de apólices de seguro e contas correntes. Sem nunca perder, em todo caso, a esperança de alcançar aquela cobertura universal de saúde até então proclamada em vão pela própria ONU e pelos políticos que dela participam. Palavras vazias.

'Uma saúde', a sinergia indispensável

'Uma saude,. A saúde humana, o bem-estar animal, a segurança alimentar e a protecção do ambiente nas suas várias vertentes - incluindo a gestão dos resíduos e das águas residuais - são questões estreitamente relacionadas e devem ser geridas em sinergia. O relatório do IACG enfatiza a necessidade de uma abordagem coordenada e sistêmica, multissetorial. A Europa já embarcou neste caminho, começando com o Livro Branco sobre segurança alimentar (12.2.2000). E, no entanto, é essencial desenvolvê-lo, também no contexto internacional, em várias frentes.


'Abuso e uso excessivo antimicrobianos existentes em humanos, animais e plantas estão acelerando o desenvolvimento e a disseminação da resistência antimicrobiana', destaca o relatório do IACG. É necessário estabelecer sistemas regulatórios mais rígidos, conscientização sobre o uso correto de antibióticos, financiamento de pesquisas e desenvolvimento de novas tecnologias para combater a resistência aos seus princípios ativos, abolição do uso de antimicrobianos de importância crítica e outros medicamentos veterinários como promotores de crescimento na pecuária.

'As recomendações do relatório reconhecer que os antimicrobianos desempenham um papel fundamental na proteção da produção, saneamento e comércio de alimentos, bem como na saúde humana e animal, e promover seu uso responsável em todos os setores. Os países devem incentivar sistemas alimentares sustentáveis ​​e práticas agrícolas que reduzam o risco de resistência antimicrobiana, trabalhando juntos para promover alternativas viáveis ​​ao uso de antimicrobianos, conforme estabelecido nas recomendações do relatório'(José Graziano da Silva, FAO, Diretor-Geral)
Salmonela e campylobacter, aumenta a resistência

Relatórios recentes da EFSA (Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos) e o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) mostram como os antimicrobianos utilizados no tratamento de doenças transmissíveis entre animais e humanos (por exemplo, campilobacteriose e salmonelose) estão a perder eficácia e a resistência aos antibióticos não mostra sinais de diminuição.

Em alguns países da UE resistência a fluoroquinolonas (como ciprofloxacina) em tais bactérias Campylobacter é tão alto que esses antimicrobianos não funcionam mais para o tratamento de casos graves de campilobacteriose. Salmonella em humanos também é cada vez mais resistente às fluoroquinolonas, bem como sua resistência a diferentes classes de antibióticos (MDR, Resistência a Múltiplos Medicamentos).

Antibióticos, consumo em Portugal

O consumo de antibióticos em ambulatório aumentou ligeiramente entre 2013 e 2019 em Portugal, mas registou uma redução acentuada a partir de 2020 devido à pandemia de covid-19, avança um relatório da Direção-Geral da Saúde (DGS) hoje divulgado.

“Em ambulatório, a redução de incidência de infeções respiratórias bacterianas pela restrição à circulação e aglomeração de pessoas e pelo uso generalizado de máscara e, por outro lado, a redução de acesso a consulta médica determinaram uma franca redução de consumo de antibióticos”, adianta o relatório anual do Programa de Prevenção e Controlo de Infeções e de Resistências aos Antimicrobianos (PPCIRA) da DGS.

Publicado hoje, no Dia Mundial da Higiene das Mãos, o documento refere que o consumo de antibióticos em ambulatório teve uma “tendência ligeiramente crescente” entre 2013 e 2019, mas mantendo-se sempre abaixo da média europeia.

“Em 2020, pelo contexto pandémico, verificou-se uma marcada redução de consumo, que parece sustentada em 2021. Esta redução foi mais marcada do que a da média europeia”, adiantam ainda os dados do PPCIRA.

No entanto, o rácio de antibióticos de largo espetro sobre os de espetro estreito aumentou entre 2018 e 2021 e de forma mais acentuada do que na média europeia, o que faz com que Portugal tenha o “quinto pior resultado à escala europeia neste indicador”, alerta o relatório divulgado pela DGS.

Já relativamente ao consumo hospitalar de antibióticos, o documenta refere que se tem mantido estável desde 2013 e abaixo da média europeia.

“O consumo de um grupo de antibióticos de uso hospitalar mais associado ao tratamento de infeções causadas por bactérias multirresistentes tem-se mantido estável desde 2014, resolvendo a tendência crescente que se verificou entre 2011 e 2014”, nota ainda o relatório.

“Parece-nos que o contexto pandémico teve influência significativa nos indicadores de consumo de antibióticos”, admitem os autores do relatório do PPCIRA, programa prioritário de saúde criado em 2013.

O documento conclui também que a adesão ao cumprimento da higiene das mãos aumentou progressivamente a partir de 2016, sendo “particularmente significativo o aumento ocorrido entre 2019 e 2020 no contexto pandémico”.

Nas unidades de saúde, “entre esses dois anos, a taxa de cumprimento global e a taxa de cumprimento do primeiro momento de higiene das mãos aumentaram de 75,7 para 82,7% e de 68,0 para 76,2%, respetivamente”, refere o documento.

De acordo com os dados do programa, entre 2015 e 2020, verificou-se uma redução da incidência da taxa global de infeção em locais cirúrgicos, de infeção da corrente sanguínea adquirida em hospital, de pneumonia associada a tubo endotraqueal em unidades de cuidados intensivos de adultos e neonatais e de infeção por `Clostridioides difficile´.

“O período pandémico levou a significativo decréscimo da amostra de vigilância epidemiológica de infeções hospitalares, decorrente sobretudo da dedicação dos grupos locais do PPCIRA à batalha contra a covid-19”, reconhece o relatório.