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quinta-feira, 25 de junho de 2026

O Andorinhão

Andorinhão-preto (Apus apus) - Foto de Nuno Campos

O Andorinhão
"Elegante, escuro, incansável e livre.
Irmão do vento, filho do céu sem fim.

Amante do ar livre, do vendaval impetuoso e da emoção da caça.
Temendo apenas o solo firme, a terra pesada e a quietude de uma gaiola.

Doador de velocidade ao céu, de um grito agudo ao verão e de sombras às nuvens.
Vivendo num turbilhão de movimento, dormindo na brisa, bebendo da chuva.

Ansiando tocar as estrelas, perseguir o sol e nunca ter de aterrar.
Encontrando um lar nas vigas mais altas, nos céus mais profundos e no azul aberto.

Residente do horizonte sem limites.
Apus"

João Soares, 25.06.2026

Como é que os andorinhões conseguem dormir a voar?
O que muitas pessoas desconhecem é que os andorinhões passam quase toda a vida a voar, incluindo dormir. E conseguem fazê-lo sem acidentes porque “não dormem de forma contínua”.

À noite, “sobem a altitudes que podem chegar aos 2000 metros, aproveitando massas de ar quente”, e dessa forma ficam a salvo de chocar contra telhados, fachadas de prédios e outras estruturas. “Fazem movimentos de batimentos de asas de quatro segundos aos quais se seguem períodos de repouso de três segundos, que funcionam como um período de descanso intermitente”.

Tudo isto acontece enquanto continuam a voar a cerca de 20 km/h, sempre embalados pelas correntes de ar. E como descansam à noite em altitudes elevadas, os predadores – como corujas e falcões – têm dificuldade em caçá-los.

A verdade é que o corpo destas aves insectívoras está especialmente adaptado para o voo. “Toda a silhueta parece um arco com uma flecha. A cabeça fica bem escondida entre os ombros, as asas têm forma de foice e o corpo parece um torpedo.” É assim que atingem velocidades de 100 km/h, sendo considerados as aves mais rápidas do mundo em voo contínuo.

E é em pleno voo que caçam, normalmente a velocidades mais moderadas para escolherem os alimentos preferidos. “Com a sua enorme boca conseguem caçar mais de quinhentas espécies diferentes de insectos de diversos tamanhos e formas, e até aranhas em teias suspensas no ar.”

É também assim que recolhem materiais para os ninhos, aproveitando tudo o que apanham, como ervas secas e penas, que depois misturam com saliva. E é no ar que muitas vezes acasalam e realizam todas as outras tarefas, como a limpeza das penas ou beber água – o que fazem “em voos rasantes a rios e lagoas.”

Pousam apenas para se abrigarem de chuvas fortes e tempestades prolongadas, abrigando-se nos ninhos ou noutros abrigos, mas só aguentam sem comer um máximo de três a quatro dias. Outra pausa no voo acontece quando cuidam das crias que já nasceram. Nos primeiros 10 a 15 dias de vida daquelas, “um dos adultos, ou até os dois, ficam no ninho durante a noite.”

Os pequenos andorinhões vão permanecer abrigados quase um mês e meio. Depois, logo na primeira vez que levantam voo, “ficam de imediato independentes dos pais e nunca irão regressar ao ninho, começando a migração para África quase de imediato.” Durante pelo menos dois anos, vão continuar a voar, fazendo um total de 50.000 km sem pausas.

“Se considerarmos que a esperança de vida de um andorinhão pode chegar aos 21 anos – normalmente vivem apenas quatro a seis anos – percorrem distâncias que dariam para ir e vir à Lua várias vezes.”
Fonte

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Future Islands - Ran

Melhor som aqui
Ingest, where it goes, nobody sees but me
So perfect and so sweet
But the rest, feels incomplete
Like the rabbit's foot I keep
In the locket, with no key

And I can't take it, I can't take this world without
This world without you
I can't take it, I can't take it on my own
On my own

[Refrão]
On these roads
Out of love, so it goes
How it feels when we fall, when we fold
How we lose control, on these roads
How it sings as it goes
Flight of field, driving snow
Knows the cold

Ran round the wailing world

And what's a song without you?
When every song I write is about you
When I can't hold myself without you
And I can't change the day I found you

[Refrão]

A dor da perda e a jornada solitária em 'Ran', lançada em 2017, presente no álbum  The Far Field
A música 'Ran' da banda Future Islands é uma profunda exploração da dor da perda e da solidão. A letra começa com uma reflexão sobre algo precioso e doce, mas que, sem a presença de uma pessoa amada, se torna incompleto. A metáfora do 'pé de coelho' guardado num medalhão sem chave sugere um talismã de sorte que perdeu seu significado, simbolizando a ausência de alguém essencial para a completude do eu lírico.

O refrão expressa a incapacidade de enfrentar o mundo sem essa pessoa, destacando a dependência emocional e a sensação de desamparo. A repetição de 'I can’t take it, I can’t take this world without you' reforça a intensidade do sentimento de perda e a dificuldade de seguir em frente sozinho. A música também aborda a jornada emocional em 'these roads', que pode ser interpretada como os caminhos da vida, onde o amor se perde e o controle é difícil de manter.

A letra também questiona o valor da arte sem a musa inspiradora, refletindo sobre a criação artística e a importância da pessoa amada como fonte de inspiração. A repetição de 'out of love, so it goes' sugere uma aceitação resignada da realidade dolorosa. A imagem do 'flight of field, driving snow' e 'knows the cold' evoca um cenário desolado e frio, simbolizando a solidão e a tristeza que acompanham a perda. 'Ran' é, portanto, uma canção que captura a essência da dor da perda, a luta para encontrar sentido e a jornada solitária que se segue.

Sites
Future Islands wikipedia

segunda-feira, 22 de março de 2021

Mary Shelley: a adolescente que criou Frankenstein e a ficção científica moderna


Descubra a história da adolescente que criou Frankenstein, o primeiro romance da ficção científica moderna

A criação de Frankenstein é parte do panteão de monstros clássicos que existem no imaginário cultural do terror. Famosa pelo impacto da interpretação de Boris Karloff na sua adaptação para o cinema, essa criatura é o protagonista do romance Frankenstein ou o Prometeu moderno, considerado um dos primeiros romances da ficção científica moderna, tanto pelo enredo quanto pelos temas sobre os quais reflete.

Um dos pontos mais marcantes de sua criação, no entanto, não é somente o argumento que impressionou a sociedade do século XIX, como continua a nos impressionar hoje, mas a pessoa que o capturou em palavras: Mary Shelley, uma jovem de apenas 18 anos.

Retrato de Mary Shelley (1797-1851) por Richard Rothwell [Wikicommons]

Infância e adolescência turbulentas

Nasceu na Inglaterra em 1797. Sua mãe, a filósofa e ativista feminista Mary Wollstonecraft, morreu apenas um mês após o parto. O fato fez com que seu pai, o filósofo, político, romancista e primeiro expoente da ideologia anarquista, William Godwin, se encarregasse de sua educação, que, embora informal e caótica, também foi completa e rica. Porém, o segundo casamento de seu pai, com Mary Jane Clairmont, com quem Mary Shelley nunca teve uma boa relação, foi um elemento de tensão que tornou muito problemática sua vida na casa do pai.

Tudo isso contribuiu para que em 1814, aos 16 anos, Mary iniciasse uma relação amorosa com o famoso poeta Percy Bysshe Shelley, um homem casado com quem fugiu. Viajaram pela Europa e viveram um ano numa relação de amor livre. Quando voltaram para a Inglaterra, Mary estava grávida e foram rejeitados pela sociedade puritana da época, subsistindo apenas com o salário familiar de Percy. Casaram-se em 1816, após o suicídio da primeira esposa de Shelley.

Retrato de Percy Bysshe Shelley (1819), Curran [Wikicommons]


Foi então que Mary sofreu uma perda que a marcaria para sempre e que, infelizmente, viveria mais de uma vez: a morte da filha, nascida prematuramente. As tragédias pessoais e sua vida caótica contribuíram para que Mary afundasse em uma depressão da qual surgiria um dos monstros mais conhecidos da história.

Tudo começou durante uma tempestade noturna
Em maio de 1816, o casal decidiu passar o verão na aldeia suíça de Cologny em Villa Diodate com, entre outros, o famoso poeta Lord Byron e a meia-irmã de Mary. O retiro às margens do Lago Léman seria ideal para melhorar seu humor e passar um verão agradável.
Porém, naquele ano o clima decidiu não colaborar, a chuva os manteve em casa por dias seguidas e as histórias de fantasmas tornaram-se uma forma de passar as noites na luxuosa casa.

Fotografia da Villa Diodati de Lord Byron, por Robert Grassi


Numa dessas noites, Byron teve uma ideia: todos os presentes escreveriam uma história de terror que teria que causar incômodo e horror. No início, Mary sofreu: não conseguia pensar em nada e uma ansiedade crescente começou a apoderar-se dela. Mas, numa conversa entre Lord Byron e Shelley, surgiram temas como origem da vida, as experiências da época, os limites da ciência e a ideia de poder reviver um cadáver.

A conversa marcou tanto Shelley que, ao deitar, não conseguiu pegar no sono. Ela afirma que sua mente trouxe a visão de um "estudante de artes sacrílegas ajoelhado diante da criatura que havia criado". As imagens eram de modo tão vívidas que chegou a ficar horrorizada. Naquela noite, em sua mente inquieta, nascia o monstro Frankenstein

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                             Boris Karloff em foto promocional do filme 'A Noiva de Frankenstein' (1935) 
Está vivo!
A ideia se apossou de Mary Shelley desde o primeiro momento: começou a escrevê-la imediatamente, procurando aterrorizar os seus leitores da mesma forma que as visões da noite anterior haviam feito consigo.

A maioria conhece o enredo da história. O cientista Victor Frankenstein, um estudante de medicina, desafia as leis da natureza ao tentar dar vida a uma criatura composta de partes de diferentes cadáveres, que ele "desperta" graças a um processo científico não especificado (embora mencione reiteradamente a energia das tempestades, Shelley nunca escreveu que era eletricidade).

De imediato, Frankenstein percebe o erro e, horrorizado com o ser criado, foge do laboratório. O monstro, abandonado à própria sorte e rejeitado pela sociedade, começa a cometer crimes que culminam no assassinato da pretendente e do melhor amigo de seu criador e, por fim, na morte do próprio Victor.

Na sua primeira versão, Frankenstein não era mais do que um conto, mas o marido encorajou Shelley a transformá-lo em algo mais, um romance, e assim foi publicado anonimamente em 1818.
Ilustração do romance por Theodor von Holst (1831) 

Frankenstein é realmente a primeira obra de ficção científica moderna?
Frankenstein aborda temas que se tornaram pilares da ficção científica moderna: a moral científica, os limites e perigos dos avanços da ciência, o medo motivado pelas primeiras fases da revolução industrial que então se iniciava.

Mostra como as tendências capitalistas atacam a liberdade e a dignidade do ser humano, e a famosa criatura funciona como um castigo pelo uso irresponsável dos avanços da ciência e da tecnologia.
Imagem promocional de 'Frankenstein' (1931), com Colin Clive e Boris Karloff

Assim, embora o romance contenha elementos góticos e enquadre-se no movimento romântico, o escritor Brian Aldiss o definiu, em oposição a outras histórias anteriores mais ou menos fantásticas, como o primeiro romance de ficção científica. Ele acredita que é muito significativo o fato do personagem central utilizar novos experimentos de laboratório para criar o que é, essencialmente, um personagem fantástico.

Por isso, e pelas implicações filosóficas e morais, este romance teve uma enorme influência não apenas na literatura, mas também na cultura popular, na qual abriu novos caminhos para todo tipo de histórias, filmes e peças.
Imagem de Victor Frankenstein e sua criatura na série 'Penny Dreadful', do Showtime

No entanto, o enorme sucesso deste romance mítico não pode e não deve obscurecer as outras facetas da vida e obra desta autora. A morte do marido Percy num naufrágio, quando ela tinha apenas 25 anos, a perda de outros dois filhos e problemas financeiros marcaram os seus últimos anos, nos quais se tornou muito menos radical e inovadora.

Apesar disso, Mary continuou a escrever enquanto editava a obra do marido. Um tumor cerebral abreviou sua vida, aos 53 anos. A  sua produção literária (que abrange romances, artigos, relatos de viagem etc.) e, sobretudo, sua luta pessoal como mulher liberal ("de mente aberta", como definiu o seu pai), foram os pilares que marcaram a sua vida e obra.

Muito influenciada pelos escritos da mãe ("a memória de minha mãe tem sido o orgulho de minha vida", dizia), defendeu, as ideias políticas e feministas da progenitora: a importância da educação, a justiça social, o progresso baseado na cooperação, a melhoria da sociedade através do poder político, a igualdade entre homens e mulheres, a defesa do amor livre - tudo isso apesar das críticas e preconceitos de seu tempo. Foi, como sua mãe havia sido, uma autêntica pioneira do feminismo. Como ela mesmo disse:
"Acredito que possa me sustentar e há algo de inspirador na ideia."