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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

A minha árvore que não é minha

Foto e texto do meu amigo botânico Carlos Aguiar

Em modo de fim de semana, e cheia de ruídos inflamados nas redes sociais, quando li esta crónica, foi como foi como uma raiz a travar a pressa do passo.

"Lá num canto do terreno vive a árvore, que não é minha. Quem pela primeira vez a vê, estranha: uma nogueira sem tronco, de copa arrojada pelo chão? Abeiram-se os curiosos da semba e percebem: é uma árvore, sim, de grosso tronco, manchado de líquenes amarelos, como é próprio da espécie, fincado dois metros abaixo, sólido, no solo fértil da horta do vizinho.
Diz o direito civil dos romanos que eu, como proprietário, tenho direitos exclusivos à coluna de ar que se ergue na vertical da estrema. Nenhum ramo ou folha pode invadir o meu espaço sem consentimento. Mas consinto, porque decepar uma nogueira brava é crime botânico grave... e os frutos que caem deste lado pertencem-me de direito.
Árvore, encontrei-te triste e enfraquecida. As entranhas trespassadas por videiras com a grossura de um punho. Braças e pernadas feridas pelos espinhos de silvas e roseiras-bravas. Adossado ao tronco, um vasto sabugueiro tirava-te a luz de que tanto precisas. Os ramos jovens secos nas pontas; as folhas manchadas pela antracnose, os frutos negros e mofados pela Xanthomonas.
Olhei para ti e compadeci-me. Armei-me de tesoura e serrote e, decidido, carreguei nos teus inimigos. Como um explorador de terras virgens, calquei ervas, cortei troncos, sarmentos e turiões, aparei galhos. Vieram os dias grandes e aqueceu o tempo. Da mesma forma que sorvo o ar fresco da manhã, bebo a água fresca da fonte e, a honrar o sol nascente, trinco uma maçã, abriste a copa ao sol, alongaste no espaço vazio os ramos, e estendeste as tuas raízes ao solo da horta, a aproveitar, à socapa, o azoto e a água das batateiras. Agora a luz é toda tua. O verde encheu o céu. Pelo ar veio o pólen, o sexo aconteceu e carregaste-te de frutos.
Na reserva da sombra da casa, levanto os olhos do livro e sinto-te. Fantasio que és um ser senciente regressado do passado, que pensas, decides e sabes agradecer. Com as folhas a tremeluzir na brisa julgo que sussurras: “vem cá”. Quando o vento mais forte te limpa os excessos da copa e os ramos secos caem num brando estrépito no solo, estás a dizer-me: “também sou capaz, sem ajuda”. O rebrilho das folhas molhadas de murrinha na luz crua da primavera é um sorriso de bem-estar. E os frutos? Presentes de agradecimento. Se na colheita me golpeias com uma noz, é porque brincas; zangada seria um galho de peso. Ou talvez me estejas a pedir mais cuidados. Uma calda de cobre? Adubo ao pé? Ergo-me e riposto: se te portares bem, no próximo ano, veremos.
As tuas folhas cansadas crestam e amarelecem. Em breve devolverão ao solo a fertilidade de que necessitarás no próximo ano. Dormirás profundamente, indiferente à água a escorrer pelos caules despidos e à agitação do vento. E a seiva suculenta protegida, sob a casca, a salvo das ferroadas da geada.
Árvore que és quase minha, chegamos juntos ao outono na esperança de uma nova primavera."

sábado, 8 de agosto de 2026

Cientistas criam vírus com IA para combater superbactérias


Pela primeira vez, cientistas da Universidade de Stanford e do Arc Institute recorreram à Inteligência Artificial (IA) para criar novos tipos de vírus, que não existem na natureza. O objetivo é o desenvolvimento de tratamentos para o combate de bactérias resistentes ou superbactérias.

“A nossa abordagem amplia o que a genómica sintética pode alcançar juntamente com métodos como evolução dirigida e engenharia racional, traça um caminho para gerar terapias com bacteriófagos adaptativos e resilientes contra agentes patogénicos em rápida evolução e estabelece uma base para o projeto generativo de genomas maiores e mais complexos”, referem os investigadores no estudo publicado na quinta-feira na revista Science.

Apesar de a biologia sintética não ser novidade, sobretudo em relação à reprodução de genomas conhecidos, os investigadores ensinaram o modelo de IA Evo 2 a “reconhecer padrões de estrutura de ADN na natureza e, em seguida, a usar esses dados para escrever receitas para vírus inteiramente novos”, refere o The New York Times. As receitas foram usadas para criar bacteriófagos, para serem inseridos em bactérias E. coli resistentes ao PhiX174. Estes micro-organismos apenas infetam e destroem bactérias e não afetam humanos.

O Evo 2 foi treinado a aprender estruturas de sequências genéticas dos genomas PhiX174 e cerca de 15 mil parentes próximos, e criar novas. No total, foram analisados nove biliões de nucleótidos. O modelo gerou 700 mil novos vírus, tendo sido selecionadas 285 sequências de moléculas, que foram sintetizadas quimicamente e testadas. Destas, foram gerados 16 bacteriófagos com possibilidade de infetar bactérias e que se mostraram tão resistentes quanto os vírus naturais.

Estes vírus não representam uma ameaça para os humanos, pois “são todos semelhantes a um vírus natural chamado PhiX174, que só consegue infetar bactérias”, sublinha o jornal norte-americano. No entanto, o estudo aumenta as preocupações em relação à criação de vírus em laboratório para serem usados como armas biológicas. Por essa razão, o modelo de IA foi treinado para produzir receitas de vírus que apenas infetassem bactérias, e não humanos, animais ou fungos.

“Acho isso muito louvável, porque [os investigadores] não recebem nenhuma orientação de lugar nenhum sobre o que deveriam estar a fazer”, afirmou ao The New York Times Moritz Hanke, investigador do Centro Johns Hopkins para Segurança da Saúde, que não participou no estudo. O académico alerta que os governos e organizações científicas têm demorado a implementar medidas de proteção para impedir a geração de um vírus mortal.

Na semana passada, os Institutos Nacionais de Saúde (NIH) implementaram uma nova política para interromper investigações de alto risco que envolvem o desenvolvimento da nocividade de agentes biológicos.

“Só queríamos ser extremamente cautelosos”, sublinhou Brian Hie, biólogo computacional da Universidade de Stanford e um dos autores do estudo, em relação à investigação.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Dia Mundial da Oliveira


No Dia Mundial da Oliveira, a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) associa-se à celebração de uma das espécies agrícolas mais emblemáticas do território português e do espaço mediterrânico. A oliveira, símbolo de resiliência, biodiversidade e equilíbrio ambiental, representa também um importante pilar socioeconómico para milhares de produtores, contribuindo de forma decisiva para a qualidade e autenticidade do azeite português. Portugal é hoje uma referência mundial na olivicultura, tendo a fileira oleícola um papel estratégico na política agrícola e na economia portuguesas. Com mais de 380 mil hectares de olivais, a produção de azeite aumentou 300% nos últimos 20 anos, sendo a maior parte do azeite produzido extra virgem.

A DGAV reafirma o seu compromisso na proteção e valorização do olival nacional, promovendo políticas e medidas técnicas que assegurem a sanidade vegetal, a sustentabilidade da produção e a segurança alimentar ao longo de toda a cadeia de valor. A prevenção e o controlo de organismos nocivos, como a Xylella fastidiosa, permanecem como prioridades, acompanhadas pelo reforço da vigilância fitossanitária, da cooperação com os produtores e da sensibilização para boas práticas agrícolas.

Neste dia, destacamos igualmente o papel fundamental dos agricultores e técnicos que, com conhecimento e dedicação, contribuem para preservar um património natural e cultural que atravessa gerações. O olival, tradicional ou moderno, continua a ser um elemento estruturante da paisagem rural e do desenvolvimento das regiões onde se insere.

Esta ano a efeméride foi assinalada a nível internacional no passado dia 20 de novembro, em Córdova, por ocasião da realização da 122.ª Sessão Plenária do Conselho Oleícola Internacional (COI), na qual participaram cerca de 47 países, incluindo Portugal, e onde foi assinada a Declaração de Córdova como reforço do compromisso de apoio ao setor oleícola.

A DGAV continuará a contribuir para a preservação do olival como um património para as gerações futuras.

Saiba mais:

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Para reduzir as superbactérias, o mundo deve reduzir a poluição

  • Até 10 milhões de mortes podem ocorrer anualmente até 2050 devido à resistência antimicrobiana (AMR), a par da taxa de 2020 de mortes globais por câncer
  • A poluição em setores-chave da economia contribui para o desenvolvimento, transmissão e disseminação da RAM
  • O custo econômico da AMR pode resultar em uma queda do PIB de pelo menos US$ 3,4 triliões anualmente até 2030, empurrando mais 24 milhões de pessoas para a pobreza extrema
Nairóbi, 7 de fevereiro de 2023 – Reduzir a poluição criada pelos setores farmacêutico, agrícola e de saúde é essencial para reduzir o surgimento, a transmissão e a disseminação de superbactérias – cepas de bactérias que se tornaram resistentes a todos os antibióticos conhecidos – e outras instâncias de resistência antimicrobiana, conhecidas como AMR. Esta é a principal mensagem de um relatório divulgado hoje pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) sobre as dimensões ambientais da AMR, que já está causando sérios danos à saúde de humanos, animais e plantas, bem como à economia.

O relatório Preparando-se para superbactérias: fortalecendo a ação ambiental na resposta de saúde única à resistência antimicrobiana foi lançado na Sexta Reunião do Grupo de Líderes Globais sobre RAM , realizada em Barbados. Ele exige uma resposta multissetorial de Saúde Única . Isso está de acordo com o trabalho da Aliança Quadripartite, incluindo o PNUMA, a Organização para Agricultura e Alimentação (FAO), a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Mundial de Saúde Animal (WOAH).

“A crise ambiental de nosso tempo é também uma crise de direitos humanos e geopolítica – o relatório de resistência antimicrobiana publicado hoje pelo PNUMA é mais um exemplo de desigualdade, já que a crise da RAM está afetando desproporcionalmente os países do Sul Global”, disse o primeiro-ministro Mia Amor Mottley, presidente do One Health Global Leaders Group on Antimicrobial Resistance.

O desenvolvimento e a disseminação da RAM significam que os antimicrobianos usados ​​para prevenir e tratar infecções em humanos, animais e plantas podem se tornar ineficazes, com a medicina moderna não sendo mais capaz de tratar até mesmo infecções leves.

Listada pela OMS entre as 10 principais ameaças globais à saúde, estima-se que em 2019, 1,27 milhão de mortes foram diretamente atribuídas a infecções resistentes a medicamentos em todo o mundo e 4,95 milhões de mortes em todo o mundo foram associadas à RAM bacteriana (incluindo aquelas diretamente atribuíveis à RAM ).

Espera-se que a RAM cause 10 milhões de mortes diretas adicionais anualmente até 2050. Isso equivale ao número de mortes causadas globalmente por câncer em 2020.

Espera-se que o custo económico da AMR resulte em uma queda do PIB de pelo menos US$ 3,4 triliões anualmente até 2030, empurrando mais 24 milhões de pessoas para a pobreza extrema.

A tripla crise planetária acarreta temperaturas mais altas e padrões climáticos extremos, mudanças no uso da terra que alteram sua diversidade microbiana, bem como poluição biológica e química. Tudo isso contribui para o desenvolvimento e disseminação da RAM.

“A poluição do ar, do solo e dos cursos de água prejudica o direito humano a um ambiente limpo e saudável. Os mesmos fatores que causam a degradação do meio ambiente estão piorando o problema da resistência antimicrobiana. Os impactos da resistência antimicrobiana podem destruir nossos sistemas de saúde e alimentação”, disse Inger Andersen, Diretora Executiva do PNUMA. “Reduzir a poluição é um pré-requisito para mais um século de progresso em direção à fome zero e boa saúde.”

O relatório destaca um conjunto abrangente de medidas para abordar tanto o declínio do meio ambiente quanto o aumento da AMR, abordando especialmente as principais fontes de poluição de saneamento precário, esgoto, resíduos comunitários e municipais.

Para prevenir e reduzir estes poluentes é fundamental:
  • criar estruturas robustas e coerentes de governança, planejamento, regulamentação e legal em nível nacional e estabelecer mecanismos de coordenação e colaboração
  • aumentar os esforços globais para melhorar a gestão integrada da água e promover a água, o saneamento e a higiene para limitar o desenvolvimento e a disseminação da RAM no meio ambiente, bem como reduzir as infecções e a necessidade de antimicrobianos
  • aumentar a integração de considerações ambientais nos Planos de Ação Nacionais de AMR e AMR em planos relacionados ao meio ambiente, como programas nacionais de poluição química e gerenciamento de resíduos, biodiversidade nacional e planejamento de mudanças climáticas
  • estabelecer padrões internacionais para o que constitui um bom indicador microbiológico de RAM a partir de amostras ambientais, que podem ser usados ​​para orientar decisões de redução de risco e criar incentivos eficazes para seguir tal orientação
  • explorar opções para redirecionar investimentos, estabelecer incentivos e esquemas financeiros novos e inovadores e justificar o investimento para garantir financiamento sustentável, incluindo a alocação de recursos domésticos suficientes para combater a RAM.
  • Monitoramento e vigilância ambiental e maior priorização de pesquisas para fornecer mais dados e evidências e melhor direcionar as intervenções.
A AMR requer uma resposta One Health que reconheça que a saúde das pessoas, animais, plantas e meio ambiente estão intimamente ligadas e interdependentes. A prevenção está no centro da ação necessária para deter o surgimento da RAM e o meio ambiente é uma parte fundamental da solução. O fortalecimento abrangente e coordenado da ação ambiental na resposta One Health à RAM reduzirá o risco e a carga da RAM para os seres humanos e a natureza, além de ajudar a enfrentar a tripla crise planetária.

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Entenda o que são superbactérias e a ameaça global da resistência a antibióticos



A resistência de microrganismos aos antibióticos é uma das maiores ameaças à saúde global atualmente. O aumento no número de bactérias resistentes aos medicamentos, chamadas popularmente de superbactérias, coloca em risco a saúde de humanos e de animais. O problema está associado diretamente ao uso excessivo e incorreto dos antibióticos disponíveis.

Em Novembro é promovida a Semana Mundial do Uso Consciente de Antibióticos (World Antibiotic Awareness Week), realizada anualmente pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A campanha tem como objetivo conscientizar a população, profissionais de saúde e gestores públicos sobre os impactos de dimensões sociais, econômicas e ambientais causados pela resistência ao medicamento.

Em 2016, um relatório do governo britânico liderado pelo economista Jim O’Neill apontou um cenário global preocupante para a resistência bacteriana aos antibióticos. Segundo o documento, 700 mil pessoas morrem a cada ano no mundo devido a infecções causadas por bactérias resistentes.

Os pesquisadores estimaram que, se não forem feitas mudanças em nível global, a resistência a antibióticos pode levar à morte de 10 milhões de pessoas por ano a partir de 2050, o que representa uma morte a cada 3 segundos.

Para traçar um panorama atual da resistência bacteriana, a CNN consultou o economista Jim O’Neill, que revelou uma preocupação com os impactos da Covid-19, apontou a falta de interesse da indústria farmacêutica na produção de novos antibióticos e cobrou ações de governos e autoridades sanitárias na confrontação do problema.

“Como resultado da Covid-19, o mundo inteiro se dá conta, ou deveria se dar conta, de que as principais infecções globais, não são apenas nos países emergentes, em que morrem milhões de pessoas, podem acontecer”, afirmou. “Alguns aspectos das nossas recomendações aconteceram, especialmente mais pessoas a estudar as infecções resistentes a medicamentos em departamentos de pesquisa especializada, e alguns esforços para reduzir o uso inadequado em animais, com resultados melhores do que o esperado”, acrescentou O’Neill.

O economista contou à CNN como foi receber o convite para liderar um estudo de uma área que não fazia parte da sua formação. “Fui convidado conscientemente porque não era especialista em ciências médicas, em parte para espalhar a consciência sobre o problema, mas também para pensar nas soluções em termos de economia e finanças”, afirmou.

“Esse foi um movimento muito inteligente, a meu ver, por que os que entendem a ciência médica percebem o problema, mas se ele não for compreendido pelos políticos fora da saúde, não será resolvido”, completou.

Além disso, segundo O’Neill, a resistência aos antibióticos pode impactar diferentes áreas além da saúde. “Conforme a minha análise mostrou, terminaremos com pelo menos 10 milhões de pessoas morrendo por ano devido à resistência aos antimicrobianos até 2050, e uma perda colossal do PIB. A experiência da Covid-19 em 2020 e 2021 mostra o que pode acontecer”, afirmou.

O especialista avalia que há uma falta de compromisso por parte de governos e autoridades de saúde no combate à resistência antimicrobiana.

“Há menos e menos atenção para o problema nas formulações de política global desde os destaques de 2015 e 2016, principalmente no que se refere ao tópico central do investimento financeiro. Nem os governos nem as empresas do ‘Big Pharma’ [as grandes farmacêuticas do mundo] querem comprometer recursos para isso”, disse. “Houve muito pouco progresso em muitas de nossas recomendações, especialmente no diagnóstico e no mercado quebrado de novos antibióticos”, afirmou O’Neill.

Ponto de situação em Portugal

Em Portugal, estima-se que anualmente se registem 1160 mortes causadas por bactérias resistentes e a Direcção-Geral da Saúde (DGS) alerta para a importância de utilizar antibióticos apenas quando necessário, para que não se venham a tornar ineficazes.

Artur Paiva, director do Programa de Prevenção e Controlo de Infecções e Resistências aos Antimicrobianos (PPCIRA), implementado em 2013, sob a alçada da DGS, explica à Lusa que o principal factor para as bactérias ganharem resistência é a exposição a antibióticos, por conseguirem estabelecer mecanismos adaptativos e registarem mutações. Daí a importância da utilização responsável destes fármacos, para que não se corra o risco de retroceder nos cuidados médicos.

“Este cenário de o antibiótico ser um bem escasso em vias de extinção é uma consciencialização muito significativa e temos de evitar a utilização desnecessária do antibiótico”, realçou.

O responsável pelo PPCIRA acentuou os efeitos adversos individuais da utilização abusiva de antibióticos, mas também os efeitos colectivos, ecológicos, que faz com que as bactérias fiquem mais resistentes e criam o “risco de os antibióticos perderem a efectividade para as gerações futuras”.

“Se nada for feito à escala mundial, em 2050 teremos as infecções como a primeira causa de morte”, referiu o especialista em Medicina Interna, que remete para os anos 30 do século passado, quando estes fármacos não existiam e as infecções eram a segunda causa de morte, estando agora em oitavo ou nono nesse ranking.

Em 2011, Portugal apresentava das mais elevadas taxas de infecção hospitalar e também das mais elevadas taxas de doentes hospitalizados a fazer antibiótico. Com a criação do PPCIRA, esses números “diminuíram significativamente”, através de “estratégias educacionais, produção de normas e até algumas estratégias de mudança comportamental, nomeadamente de programas de apoio à prescrição adequada do antibiótico nos hospitais e melhoria das estratégias que evitam a transmissão”.

“Temos obtido um percurso positivo. Embora a taxa de infecções hospitalares ainda seja alta, temos uma redução franca”, disse Artur Paiva.

O director do PPCIRA considerou que a consciencialização para os efeitos perniciosos da má utilização de antibióticos é uma responsabilidade não apenas dos médicos prescritores, mas também dos cidadãos, que deve “saber regras básicas”.

Além de estarem cientes de que só podem ser tomados com receita médica e de que a automedicação é um erro, os cidadãos devem também saber que não devem guardar antibióticos em casa. As sobras devem ser entregues na farmácia e não deitadas na sanita ou no lixo doméstico, “porque irão ser lançados no ambiente e produzir o efeito de resistência”, vincou Artur Paiva.

Como o uso indiscriminado favorece a resistência

Os antibióticos são medicamentos capazes de matar ou inibir o crescimento de bactérias. A sua eficácia está associada diretamente ao agente causador da infecção. Isso significa que nem todos os antibióticos são adequados para o tratamento de uma mesma infecção. Por isso, esses medicamentos devem ser utilizados apenas no combate a infecções bacterianas e de acordo com a prescrição médica.

A resistência aos antibióticos acontece quando determinada bactéria se modifica em resposta ao uso dos medicamentos.

Imagine uma pessoa que tenha contraído a sífilis, uma infecção sexualmente transmissível (IST) causada pela bactéria Treponema pallidum. Após o diagnóstico, o indivíduo é tratado com um antibiótico chamado penicilina benzatina, conhecido como Benzetacil.

Vamos supor que 90% das bactérias sejam eliminadas e que 10% sobrevivam. Dentre as sobreviventes, é possível que uma parte tenha desenvolvido mecanismos de resistência à penicilina benzatina. Quando essas mesmas bactérias forem expostas novamente ao medicamento, ele pode não ter a mesma eficácia, tornando mais difícil o combate à infecção.

“São as bactérias que se tornam resistentes e não os seres humanos. Com o uso inadequado de antibiótico, pode ocorrer um processo de ‘seleção’: enquanto as bactérias ‘sensíveis’ são eliminadas a partir do tratamento, as ‘resistentes’ permanecem e se multiplicam”, explica a pesquisadora Ana Paula Assef, do Laboratório de Pesquisa em Infecção Hospitalar do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), no Rio de Janeiro.

Segundo a pesquisadora da Fiocruz, o uso indiscriminado desses medicamentos por instituições de saúde, pela população e em práticas agropecuárias tem contribuído para o aumento da resistência.

“A rotina hospitalar, por exemplo, conta com uma série de procedimentos invasivos que são portas de entrada para as bactérias – como a utilização de ventilação mecânica e de cateteres venosos. Em consequência ao aumento das infecções hospitalares associadas a esses instrumentos, o uso de antibióticos é intensificado, o que promove a seleção de bactérias resistentes nesse ambiente”, explica.

A falta de sistemas de saneamento eficazes, com o lançamento de esgoto de hospitais e domicílios no ambiente sem o tratamento adequado, também favorece o aumento da resistência. Na natureza, as bactérias entram em contato com outros microrganismos e resíduos de antibióticos, o que gera novos processos de seleção e resistência.

A resistência eleva os custos de tratamentos, prolonga a permanência dos pacientes nos hospitais e aumenta os índices de mortalidade. Conforme os antibióticos vão se tornando ineficazes, o número de infecções que se tornam mais difíceis de tratar também tende a aumentar.

“Com o esgotamento das ações terapêuticas, infecções que hoje são conhecidas por ter um tratamento simples, poderão, no futuro, causar danos maiores ao organismo, na medida em que teremos menos recursos para combatê-las”, afirma Assef.

A opinião é compartilhada pelo economista Jim O’Neill. “Um dos acontecimentos mais preocupantes desde o nosso estudo é que existe o uso excessivo de colistina para promoção de crescimento em animais, que levou à evidência de resistência em animais e humanos. Esse é um dos últimos e mais importantes antibióticos de amplo espectro para a humanidade”, ressaltou.

Ações globais podem reverter a situação

O documento produzido por Jim O’Neill destacou um cenário alarmante da resistência bacteriana no mundo, mas também elencou dez pontos de ação que podem nortear as decisões de governos e autoridades sanitárias (veja quadro abaixo).

Cinco anos após a publicação do documento, o economista afirma enxergar dois cenários para 2050, um otimista e outro pessimista. “O mais otimista não poderá acontecer sem a ação decisiva dos formuladores de políticas. Estou especialmente desapontado que a reunião de 2021 do G20 não tenha feito maiores progressos na reforma sistemática chave da política de saúde global”, ressaltou.

O especialista estima que, sem a adoção das recomendações do documento, o mundo enfrentará um contexto catastrófico devido à resistência antimicrobiana. “Precisamos que muitos países, incluindo o Brasil e outros grandes países do chamado mercado emergente, tratem isso como um problema grave”, disse O’Neill.

A pesquisadora Ana Paula Assef, da Fiocruz, participa das formulações de documentos nacionais sobre o tema e de um projeto de fortalecimento do Sistema Nacional de Vigilância da Resistência Antimicrobiana.

Ela defende o desenvolvimento de políticas públicas que abordem o tema e incentivem mudanças de comportamento da população.

“A lavagem correta das mãos e dos alimentos, por exemplo, são práticas eficazes que devem ser estimuladas para a prevenção da transmissão de bactérias. Além disso, é importante cumprir as recomendações médicas sobre os antibióticos, evitando o uso por conta própria e a interrupção da duração do tratamento recomendado pelo médico”, disse.

Como parte de um esforço coletivo, as recomendações para a população em geral incluem o uso de antibióticos apenas com prescrição de um profissional de saúde, seguir as orientações médicas quanto aos horários e dosagens recomendadas, não compartilhar ou usar sobras de antibióticos, além de manter hábitos de higiene individual e lavar os alimentos antes do consumo.

O que explica a falta de interesse das grandes farmacêuticas

A formulação de um novo antibiótico pode levar de 10 a 15 anos. Por mais que sejam formulados novos medicamentos, as bactérias continuam criando mecanismos de resistência, o que faz com que o desenvolvimento dos antibióticos seja visto como um mercado pouco lucrativo.

“As grandes empresas farmacêuticas tomam uma decisão calculada de risco e retorno, a menos que os governos ofereçam financiamento ou grande suporte, elas não querem investir em soluções por que não é especialmente rentável”, diz O’Neill.

Para a pesquisadora da Fiocruz, a limitação das drogas disponíveis para o tratamento de infecções bacterianas chama a atenção para o investimento em pesquisa que permita ampliar o estudo de novas formas de eliminação das bactérias.

“Para pensar em novas formas de combate, é importante estudar a estrutura da bactéria, conhecer os mecanismos de resistência e investigar novos alvos de antibióticos”, afirma a especialista.

Pandemia de Covid-19 pode acelerar processo de resistência

A Covid-19 é uma infecção respiratória causada por um vírus chamado tecnicamente de SARS-CoV-2, ou novo coronavírus. Embora os antibióticos não tenham efeito no combate às infecções virais, o aumento no número de pacientes internados em decorrência da Covid-19 ampliou o uso desses medicamentos em larga escala em todo o mundo.

O aumento do uso de antibióticos está associado principalmente ao tratamento de infecções hospitalares, comuns em pacientes que permanecem internados por longos períodos, como pode acontecer em casos graves de Covid-19.

O economista Jim O’Neill afirma que, por um lado, a pandemia deixou duas lições: a lavagem de mãos é uma estratégia simples e eficaz para conter a disseminação de doenças e que as vacinas são especialmente úteis, em termos da resistência, por reduzir a necessidade dos antibióticos e prevenir a doença.

Por outro, ele reforça que o uso incorreto dos antibióticos na pandemia contribuiu para o agravamento do contexto da resistência. “A pandemia piora esse cenário uma vez que em muitas partes do mundo os antibióticos têm sido utilizados para lidar com os problemas da Covid-19, para enfrentar desafios para os quais não foram feitos, aumentando a resistência”, disse.

A pesquisadora da Fiocruz, Ana Paula Assef, aponta a necessidade de ampliar o controle das infecções, agilizar a identificação da bactéria e do mecanismo de resistência. Dessa forma, é possível acelerar ações de isolamento do paciente e contenção do espalhamento do microrganismo.

“É imprescindível estimular o desenvolvimento de novas drogas, visto que temos um número restrito de antibióticos no mercado que apresentam eficácia no combate às bactérias multirresistentes”, conclui.

sábado, 5 de fevereiro de 2022

A outra 'pandemia' que ameaça a humanidade (a uma velocidade alarmante)

As superbactérias já matam mais do que sida, malária e cancro do pulmão.



O número de mortes por infeções causadas por bactérias resistentes irá aumentar em 10 vezes até 2050, adverte um estudo publicado na revista Lancet, sublinhando que as superbactérias já matam mais do que sida, malária e cancro do pulmão

De acordo com a investigação, todos os anos morrem 1,2 milhões de pessoas devido a superbactérias. E os cientistas estimam que, em menos de 30 anos, as venham a provocar a morte de 10 milhões de pessoas por ano, três vezes mais do que a estimativa de óbitos por Covid para 2020.

A investigação é baseada em dados de 204 países. Até à data, é a mais abrangente sobre o tema. Os investigadores analisaram 23 agentes patogénicos diferentes e quase 90 combinações de infeções e medicamentos utilizados para tratá-las, sem sucesso.

Segundo o estudo, as superbactérias foram a terceira causa de morte a nível mundial em 2019, ficando apenas atrás das doenças cardíacas e do AVC. As infeções respiratórias, tais como a pneumonia, causadas por estas bactérias são as maiores 'assassinas': 400 mil mortes por ano.

As crianças são as mais afetadas. Os dados mostram que 20% tinham menos de cinco anos. Ou seja, vão ao encontro dos números da Unicef, que estima que até 40% de todas as mortes neste grupo etário são provocadas por superbactérias.

De todos os micróbios testados, seis deles - E. coli, S. aureus, K. pneumoniae, S. pneumoniae, A. baumannii, e P. aeruginosa - são responsáveis pela maioria das mortes (920 mil).

A África Subsaariana e o Sudeste Asiático são as duas regiões mais abaladas, com mais de 20 mortes por cada 100 mil habitantes. Nos países desenvolvidos, esta infeções matam, em média, 13 pessoas por 100 mil habitantes. No entanto, a mortalidade causada por estes micróbios poderia ser muito inferior se houvesse um acesso mais facilitado à medicação. sublinham os investigadores.

Recorde-se que a biotecnológica portuguesa Immunethep tem em desenvolvimento uma vacina injetável e um tratamento contra as infeções bacterianas. "Estamos a trabalhar na primeira vacina para prevenir infeções por cinco bactérias diferentes, como a E Coli, que são conhecidas por superbactérias, porque são resistentes aos antibióticos. Temos também um outro produto para tratar essas próprias infeções e uma parceria com a americana Merck", revelou Bruno Santos, CEO da empresa portuguesa de biotecnologia, em entrevista ao Notícias ao Minuto.

A vacina em desenvolvimento contra infeções bacterianas resistentes a antibióticos baseou-se numa investigação desenvolvida na Universidade do Porto "realmente única" ligada à própria criação da Immunethep, em 2014.

"Não estamos a atacar cada uma das bactérias isoladamente. Foi descoberto um mecanismo que todas essas bactérias usam e estamos a falar de bactérias conhecidas pela sua resistência a antibióticos e responsáveis por grande parte das infeções hospitalares. Ao ter sido descoberto o porquê de elas estarem a ultrapassar o nosso sistema imunitário e serem capazes de nos infetar e terem um mecanismo comum, com esta abordagem conseguimos fazer uma vacina que tem capacidade de prevenir infeção de cinco bactérias diferentes", disse à agência Lusa Bruno Santos, cofundador e administrador executivo da biotecnológica.

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Superbactérias: um filme de terror cada vez mais próximo


O estúdio onde foi rodado o filme "Mulheres à beira de um ataque de nervos", em Madrid, fica a poucos metros da sala onde trabalha Cristina Muñoz, mas ela não parece nervosa, apesar de não atuar em nenhuma comédia, e sim num roteiro de filme de terror. Muñoz é a codiretora do Plano Nacional Frente à Resistência aos Antibióticos, uma iniciativa espanhola que tenta frear uma das maiores ameaça à humanidade. Os medicamentos contra as bactérias estão deixando de funcionar, a uma velocidade agora acelerada pelo consumo excessivo e incorreto durante a pandemia de covid-19. A cientista convida a imaginar o dia a dia sem antibióticos, um horripilante mundo onde qualquer infecção poderia ser letal. Sem cesarianas, sem transplantes de órgãos, sem operações de menisco, sem prótese de quadril.

“Seria dar um passo atrás de quase 100 anos nos avanços médicos”, adverte Muñoz. “Aconteceriam coisas que nem nos ocorre pensar, como que uma criança caia, abra o joelho, seja levada ao hospital e o médico lhe diga que não há nada a fazer, que sente muito”, explica. Algumas doenças bacterianas —como a pneumonia, a tuberculose, a gonorreia e a salmonelose - já estão a ficar sem tratamentos eficazes. A quimioterapia, que favorece as infecções microbianas nos pacientes com cancro ao reduzir as suas defesas, também seria uma prática de alto risco na ausência de antibióticos. “Deixaríamos de curar as pessoas, mas também os animais. Não poderíamos produzir alimentos saudáveis”, adverte Muñoz. A um regresso das enfermidades do século XIX se somaria também a fome.

Nesta quinta-feira começa a Semana Mundial de Consciencialização sobre o Uso dos Antimicrobianos, e as autoridades tocam as trombetas do apocalipse. Um relatório elaborado para o Governo britânico alertava em 2016 que os micróbios resistentes aos fármacos - sobretudo as bactérias - já matavam 700.000 pessoas por ano no planeta, e que se poderia chegar a 10 milhões de óbitos em 2050, mais do que os causados pelo cancro. O microbiologista Bruno González Zorn alerta que a covid-19 piorou a pandemia silenciosa das superbactérias. “Pode ser que os 10 milhões de mortes já não ocorram em 2050, mas sim em 2040 ou em 2030″, adverte.

As bactérias se multiplicam a cada 20 minutos e às vezes sofrem mutações que são, por acaso, um escudo contra algum antibiótico. E o mais inquietante é que podem transmitir esses novos genes de resistência a outras bactérias próximas, inclusive de outras famílias. “É como se eu aprender alemão e transmitir essa capacidade a você”, explica González Zorn, catedrático da Faculdade de Veterinária da Universidade Complutense de Madrid. Quantos mais antibióticos são usados, mais as bactérias evoluem para resistir a eles.

González Zorn afirma que está se formando “uma tempestade perfeita” e mostra os dados dos hospitais espanhóis durante a primeira onda da covid-19. De fevereiro a março de 2020, cresceu em 400% o uso de azitromicina, um antibiótico que foi muito receitado, de forma desesperada, para a eventualidade de que funcionasse contra o vírus SARS-CoV-2. O consumo de doxiciclina aumentou 517%. Na Espanha, estes níveis voltaram rapidamente à normalidade, mas continuaram descontrolados em outras regiões do mundo, como a América Latina. “Durante a pandemia foram utilizadas tantas carbapenemas [um tipo de antibióticos] que em alguns países, como o Chile, temos os níveis de resistência que esperávamos ter em 2030. Aceleramos 10 anos. Estamos muito alarmados”, afirma o pesquisador.

O microbiologista é um dos 15 membros de um grupo internacional de cientistas recém-criado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para identificar quais antibióticos são essenciais para a saúde humana, com o objetivo de blindar seu uso para que continuem funcionando. Estes fármacos são uma espécie de tropa de elite dos medicamentos. Se forem necessários e não derem conta, depois deles não há nada. São o último recurso. E as carbapenemas são justamente uma destas últimas balas.

A subsede europeia da OMS lançou um alerta em fevereiro: “Não permitamos que a crise da covid-19 se transforme em uma catástrofe de resistência aos antimicrobianos”. Em alguns países, o cenário é horripilante. Médicos do Hospital Almenara, em Lima, advertiram para o uso “irracional e indiscriminado” de antimicrobianos no Peru durante a pandemia. Especialistas nos Estados Unidos, Índia, México e outros países também fizeram soar os alarmes.

A microbiologista holandesa Ana Maria de Roda Husman adverte que os mecanismos de resistência, em princípio, só precisam aparecer uma vez. “Então a caixa de Pandora já se abriu”, afirma. Sua equipa, do Instituto Nacional para a Saúde Pública dos Países Baixos, detectou uma grande quantidade de bactérias resistentes a carbapenemas nas águas residuais do país. As tubulações dos hospitais, e também as dos lares, contribuem para disseminar superbactérias na natureza. A ameaça de combinações inimagináveis está sobre a mesa. Um homem tampa o nariz em frente ao rio Isakavagu, destino dos dejetos das fábricas de antibióticos de Patancheru, um polo industrial próximo a Hyderabad, na Índia, em uma imagem de 2008. Mahesh Kumar A (AP)

Husman alerta que “os próprios fabricantes de antibióticos podem ser um problema, especialmente em regiões onde não existem leis de resíduos”. A pesquisadora cita o caso de uma fábrica de azitromicina a 25 quilómetros de Zagreb, na Croácia, que contaminou o rio Sava, já colonizado por uma rica comunidade de bactérias resistentes a antibióticos. Noutros países, como a Índia, a gravidade da situação dispara. Em 2007, um estudo encontrou níveis inauditos de antibióticos nas águas vertidas no rio Isakavagu por uma fábrica de tratamento que atende 90 fabricantes de medicamentos genéricos em Patancheru, uma zona industrial próxima à cidade de Hyderabad. A concentração do antibiótico ciprofloxacino no rio alcançava 31 miligramas por litro, uma dose 1.000 vezes superior ao limite tóxico para algumas bactérias.

O microbiologista clínico Rafael Cantón recorda de quando começou a trabalhar, em 1988, e fazia testes de laboratório para determinar a suscetibilidade de uma bactéria a diferentes antibióticos. “Antes o habitual era ver tudo S, a letra inicial de sensível. Agora a maioria dos valores é R, de resistente. Costumamos estudar 20 antibióticos [para cada infecção], e 15 vezes por ano nos deparamos com uma situação dramática: tudo R. Não temos opções terapêuticas para estes casos”, lamenta Cantón, chefe de Microbiologia do Hospital Ramón y Cajal, em Madri.

As autoridades europeias calculam que as superbactérias já matam 33.000 pessoas por ano no continente. A Agência Espanhola de Medicamentos e Produtos Sanitários, onde trabalha Cristina Muñoz, fala de 4.000 mortes na Espanha, o triplo das causadas por acidentes de tráfego. Apesar dos alertas, a última pesquisa Eurobarómetro mostrava que 42% dos espanhóis haviam tomado antibióticos em 2018, frente a 32% do total da UE. Um em cada três pesquisados na Espanha pensava, equivocadamente, que os antibióticos curam resfriados, quando na verdade estes são provocados por vírus, não por bactérias.

Rafael Cantón lamenta que, apesar destas cifras, a pandemia de supermicróbios seja praticamente invisível. “Não há coletivos de pacientes que se queixem da resistência a antibióticos”, afirma. É um silêncio surpreendente, porque 6% dos internados em hospitais adquirem uma infecção no próprio centro, depois de intervenções como a colocação de uma sonda urinária ou a intubação para a respiração artificial, segundo um estudo promovido pela Sociedade Espanhola de Medicina Preventiva, Saúde Pública e Higiene.

“Há menos infecções adquiridas nos hospitais, metade que em 1990, mas as adquiridas agora são mais problemáticas”, adverte Cantón. “Chamamos isso de capitalismo genético. Uma bactéria que é resistente tende a permanecer e tem mais possibilidades de adquirir ainda mais mecanismos de resistência. É como alguém que já tem dinheiro, que tem mais facilidade para ganhar mais dinheiro”, compara.

O especialista reconhece o “tremendo pico” no consumo de antibióticos nos hospitais durante a primeira onda da pandemia. “Isso recrudesceu problemas que já tínhamos, e outros apareceram”, aponta Cantón em referência à proliferação de bactérias resistentes às carbapenemas. “Aumentaram em todos os hospitais pelo efeito seletivo da utilização de antibióticos”, diz.

O panorama na indústria farmacêutica é desolador. Só existem 43 antibióticos experimentais em ensaios clínicos, segundo a OMS, frente a mais de 5.700 possíveis novos tratamentos contra o câncer. Para o microbiologista Marc Lemonnier, isso é escandaloso. “Para cada produto antibacteriano em desenvolvimento há mais de 100 em oncologia. É inaceitável. Estamos falando de uma necessidade médica comparável. Daqui até 2050 estas infecções matarão igual que o cancro”, opina.

Lemonnier, um hispano-francês nascido em Tânger (Marrocos) há 54 anos e criado em Madri, trabalhou como cientista até que em 2009 montou sua própria empresa farmacêutica, chamada Antabio. O nome faz referência a Anteu, o gigante norte-africano que, segundo a mitologia grega, vencia todas as suas lutas porque cada vez que caía no chão obtinha novas forças de sua mãe, Gea, a deusa da terra. “Hércules encontrou uma maneira inovadora de matar esse monstro: levantá-lo do chão, para que não entrasse em contato com sua mãe. E essa é exatamente a estratégia da minha empresa: encontrar uma maneira inovadora de matar as bactérias que nada consegue matar”, afirma Lemonnier. Uma tela do pintor Francisco de Zurbarán no Museu do Prado, em Madri, representa esta luta de Anteu e Hércules.Tela do pintor Zurbarán sobre a luta mitológica entre Hércules e o gigante Anteu, no Museu do Prado.

“A quantidade de antibióticos em desenvolvimento é paupérrima, porque ninguém quer investir nesta área”, sentencia o empresário. Os laboratórios farmacêuticos ganharam mais de sete bilhões de euros (44 bilhões de reais) com produtos contra o câncer entre 2014 e 2016, ao mesmo tempo que perdiam 90 milhões com os antibióticos (560 milhões de reais), segundo a organização americana Pew. O dinheiro voou para a oncologia. Em 2019, o investimento privado em potenciais tratamentos contra o cancro rondou os 8,6 bilhões de euros (54 biliões de reais), frente a 120 milhões (cerca de 750 milhões de reais) para os antibióticos. “O paradoxo é que é uma área prioritária para a OMS, mas absolutamente não prioritária para os investidores privados”, lamenta Lemonnier.

O empresário obteve 44 milhões de euros de financiamento desde 2009 para o desenvolvimento de três antibióticos promissores. Metade desse dinheiro chegou a ele através de organizações sem fins lucrativos, como a britânica Wellcome Trust e a norte-americana CARB-X. “Cada vez fica mais complicado financiar minha empresa. Para meus estudos clínicos em humanos, preciso levantar agora dezenas de milhões, mas o investimento privado está se tornando rarefeito porque os investidores não veem saídas, não veem sucessos comerciais, e vão para outro lugar”, explica.

Grandes laboratórios —como o suíço Novartis, o anglo-sueco AstraZeneca e o francês Sanofi— abandonaram nos últimos anos a pesquisa de novos antibióticos. “Se a dinâmica não mudar, temos um problema maiúsculo. Estamos numa encruzilhada que pode dar lugar a uma segunda pandemia mundial devastadora”, adverte Lemonnier, membro do conselho de direção da BEAM, uma aliança de 70 pequenas e médias empresas biotecnológicas europeias que se dedicam a buscar tratamentos contra os micróbios.

A economista espanhola Laura Marín dirige desde 2013 em Estocolmo a maior iniciativa mundial de estudo das resistências antimicrobianas, o programa JPIAMR, com a participação de quase 30 países, incluindo Alemanha, Espanha, Índia e Argentina. “Não há um modelo de negócio favorável”, explica. “Criar novos antibióticos é complicado cientificamente, e todo mundo deixou de fazê-lo. O antibiótico depois é vendido por um euro (6,28 reais), então não vale a pena. E se conseguirmos um novo antibiótico, não vamos querer dá-lo a ninguém, para reservá-lo para os casos mais graves, então serão vendidos muito poucos”, argumenta Marín. São necessários, salienta, incentivos econômicos para os laboratórios farmacêuticos e muito mais dinheiro público.

O programa JPIAMR tenta convencer os países a investirem mais o quanto antes, não só para o desenvolvimento de novos antibióticos, mas para descobrir como manter a eficácia dos que ainda funcionam. “Se obtivermos um novo antibiótico, que é algo que pode ocorrer dentro de 20 anos, não podemos ter resistências desde o primeiro dia”, alerta Marín. A especialista menciona duas medidas importantes: proibir a venda de antibióticos sem receita médica e acabar com seu uso sistemático para estimular o crescimento de animais saudáveis. São duas políticas em vigor na UE, mas inimagináveis nos países mais pobres, sem acesso a médicos e com necessidade de aumentar sua produção de carne.

Cristina Muñoz considera a Espanha como um exemplo para o mundo. Era o país com o maior consumo de antibióticos da UE em 2014, quando o Plano Nacional foi lançado. Desde então, segundo suas cifras, as vendas caíram 33% em medicina humana e 59% na veterinária, frequentemente graças a acordos voluntários com as empresas pecuaristas. O maior sucesso é a eliminação quase total, nas criações suínas, do antibiótico colistina, que após sua descoberta, em 1947, foi descartado para os humanos por sua toxicidade renal, mas acabou adotado na veterinária.

Há 15 anos, perante a falta de alternativas, os médicos tiveram que ressuscitar a colistina para usá-la como último recurso em pessoas com infecções multirresistentes, conforme recorda Bruno González Zorn. “Isto dá uma ideia da situação em que estamos. Estamos resgatando antibióticos tóxicos dos anos cinquenta para salvar vidas nos hospitais do mundo. É algo inédito”, afirma o microbiologista. Em novembro de 2015, na China, detectou-se pela primeira vez um gene capaz de transformar as bactérias em superbactérias resistentes à colistina. Abriu-se a caixa de Pandora.

domingo, 17 de outubro de 2021

NL19. Já ouviu falar nesta super bactéria descoberta por cientistas portugueses?



Até ao dia em que entrou nos laboratórios do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM), nunca tinha sido vista ou identificada, o que levou à identificação de uma nova espécie. Mas essa não era a única novidade. Após a sequenciação do seu genoma, a NL19 – como foi batizada pelos investigadores portugueses – mostrou ter um potencial biotecnológico imenso, podendo dar origem a diversas aplicações, especialmente na Medicina, mas também nas áreas da Veterinária ou da Indústria Alimentar.

A história da descoberta desta bactéria também é insólita. Foi recolhida numa mina de urânio desativada no norte do País. E é neste tipo de ambientes extremos, em alguns casos ainda muito inexplorados, que se realizam novas conquistas para a ciência.

“O interesse biotecnológico desta bactéria está relacionado com o tipo de compostos que ela produz. Alguns deles têm atividade microbacteriana, ou seja, têm capacidade de inibir o crescimento de outras bactérias ou de fungos”, explica Tânia Caetano, uma das investigadoras ligadas a esta descoberta, que logo adianta: “Ainda mais interessante é que esses compostos também têm propriedades anticancerígenas, anti-tumorais e imunodepressoras”.


Por Paulo Caetano


segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Drug-resistant superbug thriving in hospitals hit hard by COVID-19

Fonte: National Geographic

OVER CHRISTMAS BREAK in 2015, Johanna Rhodes received a panicked email from a doctor working at the Royal Brompton Hospital, the largest heart and lung center in the United Kingdom. A horrid yeast was invading the skin of patients, spreading through the intensive care unit even though the hospital maintained extensive protocols for infection control.

“The doctor asked me to take a look … I thought, how bad can it be?” recalls Rhodes, an infectious disease expert at Imperial College London who studies antifungal resistance. Rhodes stepped in to help one of the world’s top cardiology hospitals identify the pathogen and clear it from the premises. The germ was Candida auris, little known at the time. What she saw stunned her: “You think COVID-19 is bad until you see Candida auris.”

Candida auris is a superbug, a pathogen that can evade drugs made to kill it—and early signs suggest the COVID-19 pandemic may be propelling infections of the highly dangerous yeast. That’s because C. auris is particularly prominent in hospital settings, which have been flooded with people this year due to the coronavirus.

The superbug sticks stubbornly to surfaces such as sheets, bed railings, doors, and medical devices—making it easier to colonize skin and pass from one person to another. Moreover patients who have tubes that go into their body, such as catheters or ones for breathing or feeding, are at the highest risk for C. auris infections, and these invasive procedures have become more common because of the respiratory failure associated with COVID-19.

“Unfortunately, there have been places where we’ve seen a resurgence of C. auris,” says Tom Chiller, head of the mycotic diseases branch at the U.S. Centers for Disease Control and Prevention. “We’ve also seen it get into some of the acute care hospitals and also into some COVID-19 units … the concern there is that once it sets up shop in a place, it’s hard to get rid of.”

Prior to its emergence in 2009, fungi in the genus Candida were best known for causing benign cases of thrush, a white overgrowth on the tongue or genitals. A few thousand C. auris infections have since spread to at least 40 countries where they’ve been tied to deaths in 30 to 60 percent of cases. By comparison, the coronavirus kills about one percent of the infected but has afflicted a larger number of people in a short timespan.

The worry is that if C. auris becomes more common in hospitals or the general public, it could bolster the growing crisis of superbugs, which already infect millions worldwide. Last year, the CDC classified C. auris as one of the biggest drug resistance threats in America. Now, though it’s too early to confirm a direct knock-on effect, the U.S. has recorded 1,272 confirmed cases of C. auris in 2020, a 400 percent increase over the total recorded during all of 2018, the most recent year with available data.

The real number is likely to be much higher, though, as the COVID-19 pandemic has halted much of the disease surveillance for C. auris at hospitals and because the germ can often colonize a person’s skin without generating symptoms.

Such superbugs may also be contributing to the tens of thousands of excess deaths occurring during the COVID-19 era. Hence why doctors around the world are sounding the alarm.

“How will we treat it?”

In 2011, Anuradha Chowdhary was working in her laboratory in New Delhi, when she received an unexpected pile of blood samples from two hospitals in the sprawling city. Mysterious fungal infections had sprouted in intensive care units and neonatal wards so Chowdhary, a professor of medical mycology at Vallabhbhai Patel Chest Institute at the University of Delhi, was recruited to identify the germ through genetic screening and to recommend the best drug for treatment. The results left her dumbfounded.

The yeast samples collected from the patients—known as isolates—weren’t in the identification system that microbiology labs use to track fungal infections, she says. “It was Candida auris. I had to ask: ‘What is C. auris?’”

The superbug had first been identified two years earlier in a patient's ear (“auris” is Latin for ear), but Chowdhary hadn’t seen it before. The biggest surprise was that all the specimens were resistant to fluconazole—the first-line drug for treating a variety of fungal and yeast infections. Since she and her group published their study on the New Delhi outbreak in 2013, researchers have learned that C. auris is nearly always resistant to this medication and the chemical relatives in its family—known as azoles. Some variants are also impervious to the other two main classes of antifungal drugs.

That’s why Chowdhary has now pivoted to address critically ill COVID-19 patients who were admitted to an ICU in Delhi and acquired candidemia, a Candida fungal infection in the bloodstream. In a small study published August 27, her team found 10 of 15 such patients had drug-resistant C. auris—which was likely acquired inside the hospital.

All the specimens could flout fluconazole, but four of the C. auris isolates were also resistant to amphotericin B, a second-line antifungal drug. Resistance to two classes of drugs is particularly concerning because India has limited access to the third option for antifungal treatment: echinocandins. Six of the patients died.

“Our worry right now is that we’re seeing published cases of patients with COVID-19 and other fungal infections, with people getting really sick and dying,” says Rhodes, as she and other clinicians in the U.K. face the coronavirus’s autumn surge. “We expect to see the same with C. auris.”

Both she and Chowdhary emphasize the importance of testing and contact tracing—key interventions in the control of COVID-19 that are also critical in the fight against the spread of C. auris. They’re pushing for patients to be routinely screened for the superbug, which involves collecting a skin swab, blood, or urine to test for the yeast’s DNA. After a patient tests positive for C. auris, a medical procedure known as susceptibility testing is done to determine if any of the three classes of antifungal drugs can alleviate the infection.

These tactics can help track the deaths caused by the superbug, a process that is often complicated because the germ tends to be acquired in hospitals among people who are already sick with something else.

“If we don’t identify it, then we don’t know if a patient is dying of COVID-19 or another infection,” Chowdhary says, but “if it’s resistant to drugs, how will we treat it?”

The pandemic duel

In 2019, the World Health Organization listed antimicrobial resistance as one of the top ten threats to global health. The agency’s fear is that humanity is returning to a time when easily treatable infections—such as tuberculosis and gonorrhoea—can no longer be kept under control.

The global overuse of antimicrobial drugs on farm animals and in human medicine has been pegged as a cause for the emergence of superbugs. But looking ahead, Ramanan Laxminarayan, founder and director of the Center for Disease Dynamics, Economics & Policy in Washington, D.C., says he and other researchers are concerned about the role climate change will play in the spread of fungal infections.

Researchers are concerned about the role climate change will play in the spread of fungal infections.

A research review published last year in mBio, a journal of the American Society of Microbiology, suggests that C. auris “may be the first example of a new fungal disease emerging from climate change.” When humans suffer from infections, we tend to develop fever as a defense. The hot temperatures help kill off the germs, in a concept known as the mammalian thermal restriction zone. The report argues that as fungal species like C. auris adapt to higher environmental temperatures due to global warming, they may breach this thermal defense. That means in the future we may not only see existing fungal infections spread, but new ones taking hold in humans.

“Fungal resistance could be as dangerous as antibiotic resistance,” Laxminarayan says, hinting at superbug bacteria such as Clostridioides difficile or multidrug-resistant tuberculosis. Those potent bacteria account for 99 percent of the 2.8 million superbug infections reported every year in the U.S., which leads to approximately 35,000 deaths.

India has long been viewed as a hotbed of drug-resistance, and now the nation has become Asia’s epicenter for COVID-19. Back in New Delhi, half of Anuradha Chowdhary’s laboratory staff have recently tested positive for COVID-19. Two have died. Despite the personal hardship, she is grateful that people are waking up to the danger C. auris poses.

“Everyone initially thought this was an India-centric problem—that it wasn’t their problem,” she says. “I was struggling and working alone but I’m glad now that the world is working on it. Fungal infections shouldn’t be neglected.”

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Cientistas descobrem super bactéria numa antiga mina de urânio

Uma bactéria descoberta numa antiga mina de urânio, por investigadores da Universidade de Aveiro, pode vir a ter aplicações na Medicina, Veterinária e Indústria Alimentar. A NL19 já é conhecida como a "super bactéria".


Até ao dia em que entrou nos laboratórios do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM), nunca tinha sido vista ou identificada, o que levou à identificação de uma nova espécie. Mas essa não era a única novidade. Após a sequenciação do seu genoma, a NL19 - como foi batizada pelos investigadores portugueses - mostrou ter um potencial biotecnológico imenso, podendo dar origem a diversas aplicações, especialmente na Medicina, mas também nas áreas da Veterinária ou da Indústria Alimentar.

A história da descoberta desta bactéria também é insólita. Foi recolhida numa mina de urânio desativada no norte do País. E é neste tipo de ambientes extremos, em alguns casos ainda muito inexplorados, que se realizam novas conquistas para a ciência.

"O interesse biotecnológico desta bactéria está relacionado com o tipo de compostos que ela produz. Alguns deles têm atividade microbacteriana, ou seja, têm capacidade de inibir o crescimento de outras bactérias ou de fungos", explica Tânia Caetano, uma das investigadoras ligadas a esta descoberta, que logo adianta: "Ainda mais interessante é que esses compostos também têm propriedades anticancerígenas, anti-tumorais e imunodepressoras".

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Como evitar as pandemias de superbactérias


Quatro anos atrás, a Assembleia Geral das Nações Unidas assinou uma declaração para coordenar os Estados-membros em face de uma grande ameaça à saúde. Até a primeira metade do século XX, a principal causa de morte no mundo eram as infecções por vírus e bactérias. As vacinas ajudaram os primeiros e os antibióticos reduziram drasticamente a letalidade das últimas. Mas, como advertiu Alexander Fleming, um dos criadores desses medicamentos, desde que a penicilina passou a ser usada as bactérias começaram a se adaptar para sobreviver. Hoje, a resistência aos antibióticos é uma ameaça que cresce a cada dia e contra a qual os especialistas já alertam há algum tempo, como aconteceu com a grande pandemia.

Todos os anos, cerca de 700.000 pessoas morrem de infecções causadas por bactérias resistentes aos medicamentos disponíveis e a previsão é que esse número cresça gradualmente nos próximos anos. Jesús Rodríguez Baño, porta-voz da Sociedade Espanhola de Doenças Infecciosas e Microbiologia Clínica (SEIMC), afirma que, nos hospitais, “ter bactérias resistentes a muitos antibióticos antes era uma raridade e agora é frequente”.

O uso indevido desses medicamentos pela população, nos hospitais ou com os animais, é a principal causa de que os microrganismos os tolerem melhor. Quando um tratamento é finalizado antes da hora ou se toma um antibiótico quando não é necessário, a bactéria sobrevive depois de ter tido contato com o fármaco e sai reforçada para ocasiões posteriores, como se tivesse recebido um treinamento. Rodríguez Baño lembra que, durante esta crise do coronavírus, em países como o Reino Unido e Espanha, “entre 70% e 80% dos pacientes com covid-19 recebem antibióticos, embora aqueles que têm infecção bacteriana ao entrar não superem 5% e cheguem apenas a 15% durante a internação”.

Além disso, a globalização está facilitando a disseminação das resistências, que podem ser intercambiadas entre bactérias. Num estudo recente observou-se como uma proteína que oferece às bactérias resistência aos antibióticos e foi detectada pela primeira vez em um hospital de Nova Delhi (Índia) em 2008, atravessou os limites da cidade e em poucos anos chegou a mais de 100 países. Em 2013, apareceu inclusive em amostras de bactérias coletadas no arquipélago ártico de Svalbard.

Rafael Cantón, chefe do Serviço de Microbiologia do Hospital Universitário Ramón y Cajal, em Madri, assinala diferenças entre a rápida expansão de uma pandemia como a do SARS-CoV-2 e o impacto na saúde global que o surgimento de resistências pode ter. “A dispersão de uma bactéria multirresistente é possível, mas as dinâmicas de dispersão e as possibilidades de controle tornam o processo mais lento”, explica.

Acordos como o da ONU e os planos nacionais de combate às bactérias super-resistentes mostram que há consenso internacional sobre a existência do problema e sua importância, mas a complexidade de algumas medidas e o próprio surgimento da covid-19 estão retardando sua implementação. Apesar de o problema do uso excessivo de antibióticos ter sido identificado, a SEIMC, que estima que uma em cada duas prescrições de antibióticos na Espanha é inadequada, denunciou há dois anos que não há investimento para formar na aplicação de fármacos que, ao contrário de outros medicamentos, como os antitumorais, são prescritos por todos os médicos. “Agora as pessoas estão trabalhando mais na covid-19 e muitos especialistas não têm tempo para isso, mas assim como temos de compatibilizar as cirurgias com o tratamento da covid-19, temos que torná-lo compatível com um bom uso dos antibióticos”, diz Rodríguez Baño.

Outro ponto fundamental na guerra contra as bactérias é manter o armamento atualizado. Até os anos sessenta, mais de 20 novos tipos de antibióticos foram desenvolvidos, mas desde então a inovação neste campo diminuiu drasticamente. Para as empresas farmacêuticas, os antibióticos são pouco rentáveis. Ao contrário dos remédios que são sucesso de vendas, como os medicamentos contra o cancro, que podem ser usados por longos períodos, ou as estatinas, que são prescritas durante metade da vida, os antibióticos são usados por alguns dias e seu uso deve ser limitado ao máximo, dificultando a recuperação do investimento. Cantón comenta que em alguns casos, inclusive depois de o antibiótico ter sido criado, “alguns foram retirados do mercado porque se o pagamento fosse feito por paciente tratado a empresa não fechava as contas”. Para resolver essa situação, muitos países estão tentando criar outras formas de pagamento que incentivem a inovação sem a necessidade de que o medicamento criado seja usado com muita frequência, durante muito tempo, ou em muitas pessoas para que haja retorno financeiro.

Em julho, cerca de 20 das principais empresas biotecnológicas e farmacêuticas do mundo lançaram o Fundo de Ação AMR, uma iniciativa com a qual pretendem desenvolver entre dois e quatro antibióticos inovadores durante a próxima década. Por enquanto já fizeram um investimento de um bilião de dólares (cerca de 5,39 biliões de reais) e buscarão investimentos e incentivos por parte de Governos e organizações internacionais como o Banco Europeu de Investimentos e a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Num relatório de 2016, a OMS estimou que até 2050, se nenhuma medida for tomada, as superbactérias resistentes provocarão cerca de 10 milhões de mortes, mais do que o câncer, número que as colocaria como a primeira causa de morte global. Ao contrário do surgimento de um novo vírus mortal, essa ameaça mundial crescerá gradualmente e ainda há tempo para mitigar seus efeitos.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Descoberto gene capaz de tornar bactérias imunes a todos os antibióticos



As bactérias estão a tornar-se cada vez mais resistentes aos antibióticos
Cientistas descobriram na China um gene capaz de tornar bactérias invencíveis, resistentes mesmo a um a tipo de antibióticos de último recurso, denominados como polimixinas. O perigo é que doenças habitualmente tratáveis, como pneumonias e infecções urinárias por E.coli, possam vir a tornar-se letais.

“Estes são resultados extremamente preocupantes”, disse Liu Jian-Hua, professor da Universidade Agrícola do Sul da China e coautor do estudo divulgado na publicação científica britânica “The Lancet”.

A descoberta ocorreu após terem sido detetadas superbactérias em testes de rotina a porcos e galinhas no sul da China. Os animais transportavam uma bactéria resistente à colistina, um antibiótico potente de uso corrente na criação de gado.

Os investigadores analisaram as amostras de bactérias K. pneumoniae e E.coli recolhidas em porcos e galinhas vendidas em dezenas de mercados de quatro províncias chinesas.

GENE JÁ DETECTADO EM HUMANOS

Também analisaram os testes de laboratório de pacientes de dois hospitais, das províncias de Guangdong e Zhejiang.

Mais de 20% das bactérias encontradas nos animais, e mais de 15% das amostras de carne crua, tinham indicadores do gene MCR-1, que também foi encontrado em 16 dos 1322 pacientes cujos testes foram analisados.

A baixa taxa de infecções detectadas entre os humanos aponta para que a bactéria resistente tenha passado, com forte probabilidade, dos animais para os humanos, refere o mesmo estudo.

O gene é facilmente propagado de uma estirpe para outra, o que cria receios de uma “potencial epidemia” e está a preocupar os investigadores.

RISCO DE EXPANSÃO GLOBAL

A Organização Mundial da Saúde já alertou que a resistência antimicrobiana poderá conduzir “ao retrocesso a uma era préantibióticos”, na qual mesmo pequenas infecções ou cortes podem revelar-se fatais.

O estudo indicou que o gene MCR-1 está “actualmente confinado à China”, mas alerta para a possibilidade de vir a alastrar-se para outro pontos do globo. Alguns dados recolhidos apontam mesmo para que já possa ter chegado ao Laos e à Malásia.

Fonte: Expresso

domingo, 25 de julho de 2010

Médicos detectam superbactéria resistente a quase todos os antibióticos

NDM-1 tem sido encontrada em bactérias E.coli
Uma nova superbactéria resistente a quase todos os antibióticos foi detetada em hospitais britânicos, indicou hoje um estudo, referindo que o micróbio é originário de países do sul da Ásia.
De acordo com o estudo, publicado na revista britânica The Lancet, os investigadores isolaram 37 doentes, incluindo alguns que tinham viajado para a Índia e para o Paquistão para realizarem cirurgias estéticas.
As «enterobacteriaceae» (bactérias que podem causar infeções do aparelho gastrointestinal e de outros órgãos do corpo), que produzem uma enzima do tipo NDM-1, foram detetadas pela primeira vez em 2009 por Timothy Walsh, da Universidade britânica de Cardiff, num doente sueco que tinha estado hospitalizado na Índia.
“A NDM-1 tem um forte potencial para se transformar num problema da saúde pública mundial e é necessária uma vigilância coordenada”, alertaram os autores do estudo, sublinhando que “a Índia disponibiliza cirurgias estéticas para a Europa e para a América e é provável que a NDM-1 se propague no mundo”.
A superbactéria é resistente a quase todos os tipos de antibióticos, incluindo aqueles geralmente reservados para emergências e ao tratamento de infeções multi-resistentes.
“Com este género de bactéria, esgotamos quase todos os antibióticos. Apenas dois podem combater esta bactéria e um deles não é muito eficaz. Não irão existir novos antibióticos disponíveis em dez anos. Se permitirmos que estas infeções subsistam sem tratamento adequado, iremos presenciar provavelmente algumas mortes”, afirmou Timothy Walsh, numa entrevista à estação britânica BBC.
Só dois antibióticos - tigeciclina e colistina - combatem a nova superbactéria.
Cerca de 44 casos positivos do tipo NDM-1 foram identificados no estado de Tamil Nadu (sul da Índia) e 26 no estado de Haryana (norte), existindo ainda registos de casos em outras regiões indianas, no Bangladesh e no Paquistão.

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Study into resistant superbugs 01 APRIL 2010, WEST MIDLAND