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sábado, 14 de fevereiro de 2026

A epidemia invisível dos ultraprocessados


Nas prateleiras dos supermercados, embalagens coloridas prometem conveniência, sabor imediato e preços acessíveis. Mas por detrás dessa sedução industrial esconde-se uma ameaça que a ciência tem vindo a estudar e não permite ignorar. Um estudo internacional publicado na The Lancet, assinado por 43 especialistas de vários países, revela que os alimentos ultraprocessados não são apenas "menos saudáveis” são agentes ativos de doença, com impacto mensurável em praticamente todos os órgãos humanos.

Os números impressionam. Em países como EUA, Reino Unido e Austrália, metade das calorias ingeridas diariamente provém de ultraprocessados. Snacks embalados, refrigerantes, refeições prontas e cereais artificiais tornaram-se rotina, substituindo alimentos frescos e minimamente processados. O estudo identificou mais de 30 associações distintas entre o consumo destes produtos e doenças crónicas: obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão, problemas cardiovasculares, depressão e mortalidade precoce.

Mas o alerta vai mais longe. Não se trata apenas de calorias vazias ou excesso de açúcar. Os investigadores descrevem um efeito sistémico: fígado, rins, coração e cérebro mostram sinais de impacto direto. A combinação de aditivos, emulsionantes e processos industriais altera a forma como o corpo metaboliza os alimentos, criando uma espécie de “nova biologia alimentar” que fragiliza o organismo.

Esperar por "provas perfeitas" é repetir erro histórico
A comparação com o tabaco é inevitável. Tal como aconteceu no século XX, as empresas recorrem a marketing agressivo, lobbying político e estratégias de influência para atrasar regulamentações. A The Lancet avisa: esperar por “provas perfeitas” seria repetir o erro histórico de deixar que um produto nocivo se enraizasse ainda mais nas dietas globais.

O estudo não se limita à ciência. Aponta também para a política e para a desigualdade social. Os ultraprocessados são mais consumidos em comunidades vulneráveis, onde o preço e a conveniência pesam mais do que a qualidade nutricional. A crise é, portanto, dupla: sanitária e social.

​​De acordo com os inquéritos nacionais analisados pelos investigadores da série publicada na The Lancet, a presença destes produtos na dieta das famílias aumentou de forma expressiva nas últimas décadas. Em Espanha, por exemplo, a proporção de energia proveniente de ultraprocessados nas compras alimentares quase triplicou, passando de cerca de 11% para 32%. Na China, o salto foi igualmente significativo, de 4% para 10% em apenas 30 anos. A tendência repete-se na América Latina: no México e no Brasil, a contribuição energética dos ultraprocessados duplicou em 40 anos, evoluindo de 10% para 23%.

A análise mostra ainda que a proporção destes produtos na ingestão energética total varia de acordo com fatores económicos e culturais. Nos países do Sul da Europa com maior rendimento, como Portugal, Itália, Chipre e Grécia, e em algumas economias asiáticas, como Taiwan e Coreia do Sul, os ultraprocessados representam menos de um quarto da dieta. Já em nações como Austrália e Canadá, essa percentagem ultrapassa os 40%, enquanto no Reino Unido e nos EUA chega a superar metade da energia diária consumida.

Desafio não é só individual
Os especialistas pedem medidas urgentes: legislação forte, rotulagem clara com alertas visíveis, promoção ativa de dietas frescas e acessíveis e políticas públicas que enfrentam desigualdades. Para além da transparência informativa, defendem também regras mais apertadas no campo do marketing, sobretudo no que toca à publicidade dirigida a crianças e à difusão em plataformas digitais. Entre as medidas propostas está ainda a exclusão de alimentos ultraprocessados de instituições públicas, como escolas e hospitais, e a definição de limites tanto para a sua comercialização como para o espaço que ocupam nas prateleiras dos supermercados.

O desafio é global e não pode ser resolvido apenas com escolhas individuais. No fundo, o que este estudo revela é uma verdade desconfortável: os ultraprocessados são um motor silencioso da crise de saúde contemporânea. A sua omnipresença nas mesas e prateleiras representa uma ameaça comparável às epidemias de tabaco e álcool do século passado. A diferença é que, desta vez, a ciência chega cedo e clara. Falta saber se a política terá coragem de colocar a saúde antes do lucro.

sábado, 4 de outubro de 2025

Como responder ao colapso social


A ciência e a modelação mostram que a nossa civilização está em colapso existencial, mas e se esta realidade aterradora for o estímulo de que a humanidade necessita para voltar a viver plenamente e com realização? Nesta palestra provocadora, a autora e jornalista best-seller internacional Sarah Wilson explora o lado positivo de perder o que temos dado como garantido. Sarah Wilson é autora de vários best-sellers do New York Times e da Amazon, podcaster, filósofa social e renegada.

É a apresentadora do podcast Wild with Sarah Wilson e escreve a popular newsletter da Substack, This is Precious, que conta com uma comunidade envolvida de 57.000 subscritores.

Sarah é conhecida mundialmente por ter fundado o movimento I Quit Sugar – um programa de bem-estar digital e 13 livros premiados vendidos em 52 países – que viu milhões de pessoas em todo o mundo transformarem a sua saúde. Em 2022, Sarah vendeu o negócio e doou 100% dos lucros a instituições de solidariedade.

O seu best-seller do New York Times, First, We Make the Beast Beautiful, é descrito por Mark Manson como "o melhor livro sobre como viver com a ansiedade que já li" e foi apresentado como livro do ano no Today Show da NBC. O seu livro This One Wild & Precious Life ganhou o prémio US Gold Nautilus de 2021.

Sarah é consultora de empresas e universidades em media, saúde mental e risco existencial. Foi oradora convidada para o curso de mestrado em Sustentabilidade e Liderança da Universidade de Cambridge e estabeleceu parcerias com organizações como o Climate Council, a Universidade de Harvard e a Intelligence Squared em campanhas. Esta palestra foi proferida num evento TEDx utilizando o formato de conferência TED, mas organizado de forma independente por uma comunidade local.

domingo, 18 de maio de 2025

Carolyn Steel - Desafios da Sitopia para alimentação nas grandes cidades hoje


E se o caminho para transformar o planeta e torná-lo sustentável dependesse de algo tão cotidiano e de primeira necessidade como a comida? Este é o argumento defendido pela arquiteta, professora e escritora britânica Carolyn Steel, em seu livro Sitopía (Capitán Swing, 2022).

Sitopia é um termo inventado por Steel a partir das palavras gregas sitos (alimento) e topos (lugar), e significa, literalmente, lugar de alimentos. Com isso, pretendia dar um nome à nossa sociedade, um mundo conformado pela comida.

Steel reflete sobre como a forma como nos alimentamos moldou nossas cidades. Conforme os mercados tradicionais vão desaparecendo e o valor que atribuímos à comida é cada vez menor, também vamos perdendo a coesão social, a saúde e até a nossa própria identidade cultural. Por dependermos de alimentos cada vez mais baratos e produzidos de modo intensivo, entramos em um modo de vida menos sustentável. Ainda temos tempo para mudar?

A entrevista é de Mariángeles García, publicada por Yorokobu, 22-03-2023. A tradução é do Cepat.
Eis a entrevista.

A filosofia está muito presente em seu livro. O fato desta disciplina estar desaparecendo dos planos de estudo (ao menos na Espanha) nos torna, como cidadãos, mais vulneráveis a ideologias que nos desumanizam?
Sim! De fato, acredito que estamos perdendo a capacidade de pensar por nós mesmos e de nos fazer grandes perguntas, o que realmente me preocupa. Penso que a internet criou uma espécie de supermercado das ideias, no qual as pessoas vão às compras até encontrar conceitos pré-fabricados que as atraem. Então, elas os adotam por atacado, como se tivessem sido pensados por elas próprias.

Isto me preocupa muito, porque essas ideias, muitas vezes, tornam-se ideologias irremovíveis. Também nos expõe a acreditar em teorias da conspiração e a ser incapazes de examinar o que realmente pensamos desde a base e, portanto, de estabelecer um debate fundamentado. Como vimos com a recente invação ao Capitólio dos Estados Unidos e agora ao Congresso brasileiro, este fenômeno ameaça a própria democracia.

Qual é a relação entre filosofia e alimentação, e como isso afeta nossa cultura alimentar?
Bem, existem poucos atos tão significativos como o de comer: levanta questões muito profundas como o que é a vida, o que significa compartilhar com justiça, qual é a nossa relação com a natureza e como é uma boa vida.

Por exemplo, só pelo fato de comer, nós nos autorizamos a considerar nossa vida mais importante do que a de, por exemplo, um frango ou uma batata. Mais do que isso, penso que ver o mundo pelo prisma da comida pode nos ajudar a nos tornarmos filósofos, o que significa que pode nos habilitar a fazer grandes e importantes perguntas. E isso, conforme eu dizia antes, é extremamente importante. De fato, se eu tivesse que redesenhar o plano de estudos, colocaria a alimentação e a filosofia entre as disciplinas mais importantes.

Por isso, inventei a palavra sitopia, porque vivemos em um mundo moldado pela comida. Sendo assim, pensar a partir dela pode nos ajudar a olhar ao nosso redor, questionar nosso lugar no mundo e voltar a nos fazer essas grandes perguntas.

O urbanismo das cidades costumava gravitar em torno de seus mercados: eram os centros de reuniões sociais e quase políticas. Como o urbanismo mudou, desde que a nossa alimentação piorou?
O mercado era o centro da cidade pré-industrial, não só fisicamente, mas social, econômica, simbólica e politicamente. Antes que a industrialização destruísse a o vínculo geográfico entre os alimentos e as cidades, os mercados eram os únicos lugares onde as pessoas podiam comprar alimentos frescos, então, todos recorriam a eles, não só para comprar comida, mas para uma socialização, para saber das últimas notícias e tagarelar.

Basta ler as descrições da ágora ateniense, os relatos de Zola sobre Les Halles, em Paris, e os de Samuel Pepys sobre Covent Garden para perceber como esses espaços públicos eram vibrantes. De fato, os supermercados foram projetados especificamente para eliminar os encontros sociais que outrora caracterizavam os mercados, o que significa uma grande perda.

O que essas mudanças implicam?
Como arquiteta, tenho muito interesse na importância da esfera pública, ou seja, a presença de um espaço aberto, inclusivo e heterogêneo no qual se é livre para atuar e se encontrar face a face com seus concidadãos. De fato, isso está diretamente relacionado ao debate anterior, sobre como as pessoas estão perdendo a capacidade de debater e pensar por si mesmas, porque grande parte dessa atividade agora é realizada on-line. E isto está longe de ser um verdadeiro espaço público, já que, como sabemos, é muito manipulado.

As implicações são enormes, uma vez que limitam nossa experiência do outro e nossas oportunidades de sentir o que temos em comum (apesar de nossas diferenças). E, por sua vez, ameaça nosso compromisso político e, de fato, nossa capacidade de participar como cidadãos em uma democracia que funcione.

Qual é a primeira coisa que você faz quando viaja para uma nova cidade? 
No meu caso, e penso que no de muitos de nós, é procurar pela comida local e tradicional, seja em mercados, comércios locais, cafés e restaurantes. É de longe a maneira mais rápida (e prazerosa!) de entender o que faz um lugar funcionar, como as pessoas se relacionam, como são a paisagem e a cultura local.

Uma cidade como Barcelona, por exemplo, que protege e investe em seus mercados e promulga leis para protegê-los do desenvolvimento dos supermercados, seria uma dessas cidades. E, claro, muitas cidades do sul permanecem organizadas de forma espetacular em torno de suas culturas alimentares tradicionais, porque a marcha inexorável do McDonald's et al ainda não as alcançou.

Penso que a mensagem mais poderosa que podemos enviar a esses lugares é que, a todo custo, se apeguem a suas culturas alimentares locais: uma vez perdidas, é muito difícil recuperá-las (como qualquer pessoa no Reino Unido pode dizer!) e delas depende, em grande medida, a coesão social e política de um povo.

domingo, 11 de maio de 2025

Pastilha elástica liberta microplásticos na saliva e no ambiente quando deitada fora


Os plásticos encontram-se em produtos do quotidiano como roupa ou panos de limpeza, utensílios que libertam diariamente pequenas partículas de micrómetros de largura denominadas microplásticos, e, segundo um novo estudo, também a pastilha elástica está entre estes produtos.

Um estudo piloto da Universidade da Califórnia, em Los Angeles (UCLA) descobriu que a pastilha elástica pode libertar centenas a milhares de microplásticos por unidade na saliva, o que pode provocar a sua ingestão. Além disso, uma vez utilizada e deitada fora, a pastilha elástica é uma fonte de poluição ambiental.

Os resultados do estudo foram apresentados em 25 de Março na reunião da American Chemical Society (ACS), noticiou a agência Efe.

"Não queremos alarmar ninguém", frisou Sanjay Mohanty, investigador principal do projeto e professor de engenharia na UCLA, mas vários estudos com células animais e humanas indicam que os microplásticos podem ser prejudiciais.

Por isso, enquanto se tiram conclusões mais definitivas, uma opção prudente seria "reduzir a exposição aos microplásticos", aconselhou.

Estima-se que cada pessoa consuma dezenas de milhares de microplásticos (entre 1 micrómetro e 5 milímetros de largura) todos os anos através de alimentos, bebidas, embalagens de plástico e processos de produção ou fabrico.

Mas, apesar da sua popularidade global, a pastilha elástica como potencial fonte de microplásticos não tinha sido completamente estudada.

Mohanty e a sua equipa queriam determinar a quantidade de microplástico que uma pessoa poderia ingerir ao mascar pastilha elástica natural e sintética.

A pastilha elástica é feita a partir de uma base de pastilha elástica, adoçantes, aromatizantes e outros ingredientes. Enquanto a pastilha elástica natural utiliza um polímero de origem vegetal, como a seiva de árvore, outros produtos utilizam bases de pastilha elástica sintéticas feitas de polímeros derivados do petróleo.

Os autores testaram cinco marcas de pastilha elástica sintética e cinco marcas de pastilha elástica natural e, para reduzir o fator humano de diferentes padrões de mastigação e salivação, pediram a uma única pessoa que testasse sete pastilhas elásticas de cada marca.

Numa experiência, o sujeito mascou a goma durante quatro minutos, depois foram recolhidas amostras de saliva a cada 30 segundos.

Ao medir o número de microplásticos presentes em cada amostra de saliva, encontraram uma média de 100 microplásticos por grama de goma, embora alguns pedaços individuais de goma tenham libertado até 600 microplásticos por grama.

Um pedaço típico de pastilha elástica pesa entre 2 e 6 gramas, o que significa que um pedaço grande pode libertar até 3.000 partículas de plástico. E se uma pessoa comum mastigar 160 a 180 pedaços pequenos de pastilha elástica por ano, os autores estimam que pode ingerir cerca de 30.000 microplásticos.

Além disso, surpreendentemente, tanto as pastilhas sintéticas como as naturais apresentaram quantidades semelhantes de microplásticos libertados quando mastigadas.

A maioria dos microplásticos foi libertada da goma nos primeiros dois minutos de mastigação e, após oito minutos de mastigação, 94% das partículas de plástico recolhidas durante os testes foram libertadas.

Por isso, a equipa sugere que é melhor mascar pastilha elástica durante mais tempo do que usar uma nova.

Os autores reconheceram ainda que são necessárias mais investigações para avaliar a potencial libertação de plásticos de tamanho nanométrico a partir da pastilha elástica.

segunda-feira, 5 de junho de 2023

Sobre os hábitos alimentares dos Portugueses


Os portugueses são (de longe) os que mais comem peixe e marisco, os que mais comem arroz, os segundos que mais carne comem e dos que mais comem vegetais na Europa Ocidental/Central.
Se bem que na realidade o vegetal comum é a batata e uma salada de alface e tomate. 
Os vegetarianos portugueses ainda são uma minoria.
Comemos e bebemos muito. Ainda estamos a almoçar e já estamos a pensar no jantar.
Por experiência própria confirmo que na Irlanda e Reino Unido abundam alimentos processados. As sanduíches estão cheias de molhos. Uma surpresa foi quando estive na Suécia (que não aprece no mapa) e Finlândia. Realmente recorrem muito aos alimentos processados. A culinária é pobre. Arenques, alce e salmão. De resto é tudo fast-food.

segunda-feira, 29 de maio de 2023

Restaurantes Não São Santuários

por João Pereira Coutinho

Este texto é dedicado ao "Chef" Avilez, que estragou dois magníficos restaurantes, o Tavares e, principalmente, o Belcanto. E como esta praga não é nacional apenas, dedicado também ao Alain Ducasse, que assassinou em tempos o magnífico Louis XV, o restaurante (emblemático) do Hotel de Paris, em Monte Carlo. Felizmente, neste caso, pelo menos continua a magnífica garrafeira.
Restaurantes não são santuários...
Estou cansado da religião dos chefs: restaurantes não são santuários...
O melhor restaurante do mundo?
Ora, ora: é o Eleven Madison Park, em Nova York.
Parabéns, gente.
A sério.
Espero nunca vos visitar.
Entendam: não é nada de pessoal.
Acredito na vossa excelência.
Acredito, como dizem os críticos, que a vossa mistura de "cozinha francesa moderna" com "um toque nova-iorquino" é perfeitamente comparável às 72 virgens que existem no paraíso corânico.
Mas eu estou cansado da religião dos chefs.
Vocês sabem: a elevação da culinária a um reino metafísico, transcendental, celestial.
Todas as semanas, lá aparece mais um chef, com a sua igreja, apresentando o cardápio como se fossem as sagradas escrituras.
Os ingredientes não são ingredientes.
São "elementos".
Uma refeição não é uma refeição.
É uma "experiência".
E a comida, em rigor, não é comida.
É uma "composição".
Já estive em vários desses santuários.
Quando a comida chegava, eu nunca sabia se deveria provar ou rezar.
Os meus receios sacrílegos eram acentuados pelo próprio garçom, que depositava o prato na mesa e, em voz baixa, confidenciava o milagre que eu tinha à minha frente:
– Pato defumado com pétalas de tomate e essências de jasmim.
Escutava tudo com reverência, dizia um "obrigado" que soava a "amém" e depois aproximava o garfo trêmulo, com mil receios, para não perturbar o frágil equilíbrio entre as "pétalas" e as "essências".
Em raros casos, sua santidade, o chef, aparecia no final.
Para abençoar os comensais.
No dia em que beijei a mão de um deles, entendi que deveria apostatar.
E, quando não são santos, são artistas.
Um pedaço de carne não é um pedaço de carne.
É um "desafio".
É o teto da Capela Sistina aguardando pelo seu Michelangelo.
Nem de propósito: espreitei o site do Eleven Madison Park.
Tenho uma novidade para dar ao leitor: a partir de 11 de abril, o Eleven vai fazer uma "retrospectiva" (juro, juro) com os 11 melhores pratos dos últimos 11 anos.
"Retrospectiva."
Eis a evolução da história da arte ocidental: a pintura rupestre de Lascaux; as esculturas gregas de Fídias; os vitrais da catedral gótica de Chartres; os quadros barrocos de Caravaggio; a tortinha de quiche de ovo do chef Daniel Humm.
Gosto de comer.
Gosto de comida.
Essas duas frases são ridículas porque, afinal de contas, sou português.
E é precisamente por ser português que me tornei um ateu dos "elementos", das "composições" e das "essências".
A religião dos chefs, com seu charme diabólico, tem arrasado os restaurantes da minha cidade.
Um deles, que fica aqui no bairro, servia uns "filetes de polvo com arroz do mesmo" que chegou a ser o barômetro das minhas relações amorosas: sempre que estava com uma namorada e começava a pensar no polvo, isso significava que a paixão tinha chegado ao fim.
Duas semanas atrás, voltei ao espaço que reabriu depois das obras.
Estranhei: havia música ambiente e a iluminação reduzida imitava as casas de massagens da Tailândia (aviso: querida, se estiveres a ler esta crônica, juro que nunca estive na Tailândia).
Sentei-me.
Quando o polvo chegou, olhei para o prato e perguntei ao dono se ele não tinha esquecido alguma coisa.
"O quê?", respondeu o insolente.
"O microscópio", respondi eu.
Ele soltou uma gargalhada e explicou: "São coisas do chef, doutor."
"Qual chef?", insisti.
Ele, encolhendo os ombros, respondeu com vergonha: "O Agostinho".
O cozinheiro virou chef e o meu polvo virou calamares.
Infelizmente, essa corrupção disseminou-se pela pátria amada.
Já escrevi sobre o crime na imprensa lusa.
Ninguém acompanhou o meu pranto.
É a música ambiente que substituiu o natural rumor das conversas.
É a iluminação de bordel que impede a distinção entre uma azeitona e uma barata.
É o hábito chique de nunca deixar as garrafas na mesa, o que significa que o garçom só se apercebe da nossa sede "in extremis" quando existem tremores alcoólicos e outros sinais de abstinência.
Meu Deus, onde vamos parar?
Não sei.
Mas sei que já tomei providências: no próximo outono, tenciono aprender a caçar.
Tudo serve: perdiz, lebre, javali.
Depois, com uma fogueira e um espeto, cozinho o bicho como um homem pré-histórico.
O pináculo da civilização é tortinha de quiche de ovo do chef Daniel Humm?
Então chegou a hora de regressar às cavernas de Lascaux..."
Viva a Lampreia‼️
Viva o cozido à Portuguesa‼️
O pudim de Abade dos Priscos‼️
O tinto‼️
O branco‼️
E... poupem na água que faz muita falta na lavoura🥴

quinta-feira, 23 de março de 2023

É possível boicotar supermercados? Eles tentam todos os dias, mas não é fácil

Enquanto conversam sobre música e futebol, João Mendes faz as compras da semana ao Sr. José, do Pomar Coutinho. Começou a visitar com mais frequência o pequeno supermercado local, no centro da Trofa, há seis anos, quando decidiu evitar ao máximo entrar em grandes cadeias de supermercados.


Reportagem Público
O copywriter freelancer de 38 anos virou as costas quando se apercebeu que “os legumes e a fruta que comprava nas grandes superfícies duravam pouquíssimo tempo” em comparação com os produtos que chegavam de familiares e amigos que tinham hortas. Pouco depois, reparou que no minimercado da sua rua os preços estavam muito abaixo do que via no hipermercado onde costumava comprar. Produto a produto, foi fazendo comparações e reparou que lhe compensava mais comprar no pequeno comércio.

João não é único a trocar as grandes superfícies, empurrado pelo que classifica de “preços e lucros excessivos”. Outros apontam como razões a preocupação com a sustentabilidade ambiental ou com a sobrevivência dos negócios locais. E há quem questione se um boicote generalizado, mesmo sabendo o quão difícil é mudar rotinas e encontrar alternativas equiparáveis, ajudaria a baixar os preços galopantes e a passar uma mensagem de descontentamento perante irregularidades detectadas pela ASAE e denunciadas por consumidores.

“Existe sempre um produto que me obriga a voltar”

Hoje, 90% das compras de João são feitas entre o Pomar de José Coutinho, o mercado semanal da Trofa e um talho que fica a dois minutos de casa. No entanto, por vezes, ainda se vê obrigado a ir comprar aos grandes: “Existe sempre um produto mais complexo que me obriga a ir a uma grande superfície como um creme, umas bolachas que o meu filho quer muito, uma garrafa de vinho e pouco mais.”

Quando começou a comprar mais regularmente no minimercado da sua rua, João Mendes decidiu comparar o preço de vários produtos com os praticados numa grande cadeia de hipermercados de um grupo nacional.

A primeira diferença que encontrou foi no café. A mesma caixa de quarenta cápsulas era 2,39 euros mais barata no minimercado. Mas rápido percebeu que gastava menos em muitos outros produtos. Em alguns casos, como o do gel de banho, o preço caiu para metade (menos 119%, calculou).

Ana Machado, 35 anos, gerente de um estúdio de fotografia no Porto, já há algumas semanas que evita por princípio fazer compras em grandes superfícies. Costumava visitar o supermercado três vezes por semana, agora vai duas a três por mês: “Neste momento, incomoda-me gastar dinheiro num supermercado. Do ponto de vista ideológico também já não se aceita. Não se justifica.”

A preocupação em ser mais sustentável também levou Stefanie Silva a reduzir as idas aos supermercados. Sendo vegetariana, a enfermeira de Viseu diz que não compra quase nenhuma da comida que consome em grandes superfícies. Porém, não vive sozinha. Normalmente, recorre a hipermercados para comprar comida para os animais, “alimentos processados” e outros que a granel sejam mais difíceis de encontrar.

A viver longe do centro da cidade, reconhece que nem sempre é fácil fazer as compras em locais mais sustentáveis. ​“Procurando ser sustentável a todos os níveis, tenho de me organizar quando me desloco ao centro da cidade para fazer tudo aquilo que preciso. Organizar muito bem, não só as compras mas também a deslocação”, diz.

Há mais de 30 anos que os alimentos não eram tão caros

Rosa Silva, trabalhadora independente de 55 anos, costumava fazer as compras sempre no mesmo hipermercado. No final de 2022, quando a subida dos preços se tornou “um abuso”, procurou alternativas. Agora, opta por mercados locais (onde, diz, a especulação também existe) e mercearias.

“Eu sou muito básica nas compras, não me estico muito. São sempre as mesmas coisas há anos e sou fiel às mesmas marcas. Portanto, há aqui um referencial muito claro quando as coisas aumentam de uma forma absurda”, conta. A título de exemplo, refere o caso da manteiga dos Açores, que costumava usar: “Passou de 1,69 euros para 2,30.”

Nos mercados, os preços nem sempre são mais baixos. Rosa Silva, costuma dirigir-se ao mercado de São João da Madeira e já percebeu que os preços flutuam ao longo do dia. Com o contacto certo, porém, pode-se poupar: “Sei que os preços são mais caros durante o dia. Mas já encontrei, ao ir às sete da manhã, a pessoa certa que tem produtos muito mais baratos, bons e frescos.”

Desde que começou a comprar mais fora de supermercados, Ana Machado já reparou que gasta menos: “Este mês nem gastei o plafond todo do cartão de alimentação.”

sábado, 28 de janeiro de 2023

Orgânico versus Eco-pontuação. IFOAM recorre ao Tribunal de Paris

O movimento orgânico europeu IFOAM recorreu ao Tribunal de Justiça em Paris para pedir a proibição do uso da rotulagem ambiental Eco-score em produtos alimentícios. Este sistema de informação, reclamação, pode ser injusto e enganoso para os consumidores.

IFOAM, pare o Eco-pontuação
A Organics Europe e a Associação Francesa de Membros da IFOAM entraram com uma ação contra os criadores e usuários do selo Eco-score, ou seja,

ADEME, a agência francesa para a transição ecológica,

– YUCA, empresa proprietária do aplicativo YUKA,

– a empresa ECO2 INITIATIVE, gestora da plataforma ETIQUETTABLE,

– a associação OPEN FOOD FACTS, também e em particular como gestora da plataforma homónima.

Risco greenwashing
Estes movimentos orgânicos repetidamente protestaram contra o modelo de rotulagem ambiental Eco-score, destacando que paradoxalmente penaliza os alimentos mais virtuosos para a proteção ambiental, como havíamos relatado. (1)

O esquema de avaliação ambiental elaborada pela ECO2, na verdade, considera apenas a pegada de carbono dos produtos. Com isso, pode dar nota favorável até mesmo para produtos da agroindústria intensiva que disseminam venenos, contra o investimento em painéis solares. Um conceito evidentemente distante da agroecologia, que protege o solo e o meio ambiente.

Reclamação IFOAM
Rotulagem ambiental com pontuação ecológica, eles especificam IFOAM Organics Europa e a Associação Francesa de Membros da IFOAM, é ilegítimo porque contrário ao artigo 30 do Regulamento (UE) nº 2018/848 (ex-artigo 23 do Regulamento (CE) nº 834/2007) sobre produção orgânica e rotulagem de produtos orgânicos, pode constituir uma prática comercial enganosa em detrimento dos consumidores e do mercado.
Particularmente, e entre outras coisas, devido ao seu formato, pois  associa ilicitamente o diminutivo "Eco" a produtos não orgânicos certificados e  é considerado susceptível de criar confusão entre os consumidores, não apenas na França, mas mais amplamente na Europa, entre produtos de origem orgânica e os de produção não orgânica.
A metodologia de classificação usada, que é principalmente e essencialmente baseado no banco de dados Agribalyse e no Avaliação do ciclo de vida (LCA) da ADEME, bem como a metodologia PEF (Pegada Ambiental do Produto) recentemente questionado pela Comissão Europeia no âmbito do projeto de diretiva sobre os estados verdes que:
  1. não considera todas as dimensões objetivas que são essenciais para o desenvolvimento de uma exposição ambiental confiável de produtos alimentícios,
  2. em última análise, favorece a produção intensiva e convencional, em vez de uma transição de sistemas de produção para processos que respeitam o meio ambiente e a biodiversidade,
  3. não é adequado para fornecer aos consumidores informações relevantes sobre os impactos ambientais dos produtos alimentares.
Invalidade de Marcas Relacionadas
Mais duas ações iniciativas foram iniciadas pela IFOAM Organics Europe e pela Associação Francesa de Membros da IFOAM.

– a primeira, intentada perante o Diretor Geral do INPI, para pleitear a nulidade da marca “ECO SCORE” (n°4618707) registrada a pedido do ADEME,

– o segundo, interposto perante o EUIPO, para contribuir como terceiro para a apreciação do pedido de registo como marca da União Europeia (n°018750670) “ECO IMPACT” apresentado pela FOUNDATION EARTH.

Mais um ataque à agricultura orgânica
"Em vez de lutar contra o greenwashing, esquemas de rotulagem como o Eco-score contribuem para isso. Eles potencialmente enganam os consumidores quanto à natureza orgânica ou não orgânica dos produtos alimentícios em que são exibidos e favorecem produtos de agricultura intensiva.

O movimento orgânico está preocupado com a disseminação de tais esquemas de rotulagem em vários países da UE.

É mais importante do que nunca informar melhor os consumidores sobre o valor ambiental de suas escolhas alimentares. Mas isso deve ser feito em conformidade com a legislação europeia sobre agricultura biológica no que diz respeito aos termos utilizados e com base em metodologias que tenham em conta todas as externalidades ligadas aos diferentes métodos de produção agrícola, em particular sobre a biodiversidade”, esclarece Jan Plagge, presidente da IFOAM Organics Europe.

"Segundo o Tribunal de Contas em seu recente relatório, os benefícios da agricultura orgânica para o meio ambiente estão claramente estabelecidos na literatura científica e seu desenvolvimento é a melhor maneira de alcançar uma transição agroambiental de nossos sistemas alimentares.

Num contexto já difícil de inflação para produtores e consumidores, os ataques à agricultura orgânica devem ser interrompidos, sejam eles ligados ao uso de termos enganosos ou a metodologias tendenciosas. Termos que são permitidos apenas em alimentos orgânicos sob os regulamentos da UE não devem ser usados ​​para outros fins e, certamente, não em produtos alimentícios prejudiciais ao meio ambiente, como é o caso atual do Eco-score.”, comenta Jacques Caplat, presidente da Associação Francesa de Membros da IFOAM.

(1) Dario Dongo, Marta Strinati. Rotulagem ambiental, o Planet-score estreia em França. GIFT (Grande Comércio de Alimentos Italianos). 17.11.21

sábado, 17 de dezembro de 2022

O relatório da Carbon Disclosure Project é esmagador: apenas 1.3% das 29.500 empresas analisadas são transparentes



Apenas 12 empresas de mais de 18.700 em todo o mundo mereceram uma pontuação “triplo A” por suas divulgações ambientais em 2022, de acordo com o último relatório de um sistema de divulgação voluntária amplamente utilizado por grandes investidores.

Isso foi ainda menos do que as 14 empresas identificadas no ano anterior pelo grupo sem fins lucrativos CDP, anteriormente conhecido como Carbon Disclosure Project.

Muitas empresas estão lutando para atender às solicitações de mais informações, pois reguladores e investidores exigem melhorias nos relatórios ambientais e nos padrões de divulgação.

Mais de 29.500 empresas com um valor de mercado combinado de mais de US$ 24,5 trilhões foram classificadas como “F” depois de não fornecer dados ao CDP, que visa incentivar as empresas a melhorar seus relatórios sobre riscos ambientais.

Berkshire Hathaway, Tesla e os produtores de petróleo e gás Saudi Aramco, ExxonMobil e Chevron estão entre as empresas que consistentemente não respondem.

“A maioria das empresas ainda não está gerenciando todos os riscos ambientais de forma holística. Muitos permanecem complacentes ou não respondem de forma alguma”, disse Dexter Galvin, diretor global de corporações e cadeias de suprimentos do CDP.

Sasja Beslik, diretora de investimentos da SDG Impact Japan, especialista em investimentos sustentáveis, disse que as descobertas mostram quão pouco progresso foi alcançado no relato dos riscos das mudanças climáticas.

“Os investidores carecem de dados ambientais cruciais e, portanto, não podem tomar decisões totalmente informadas, o que leva a uma contínua má alocação de capital”, disse Beslik.

Mais de 680 instituições financeiras com ativos combinados de US$ 130 trilhões usam as pontuações do CDP, de acordo com o grupo.

Apenas 330 empresas das 18.700 empresas que responderam este ano receberam uma única pontuação A do CDP com base em sua transparência e desempenho em mudanças climáticas, segurança hídrica e desmatamento em sua sétima avaliação anual de padrões ambientais e de relatórios.

Os novos participantes da classe triple A foram a Beiersdorf, empresa alemã de bens de consumo mais conhecida por sua marca Nivea; LVMH, fornecedora de bens de luxo listada em Paris; e UPM-Kymmene, a empresa finlandesa de papel.

Melhor da classe CDP 2022
Empresa Setor País
Beiersdorf Bens de consumo Alemanha
Danone Bens de consumo França
Firmenich Fragrância e sabor Suíça
Tecnologia HP EUA
Kao Chemicals e cosméticos Japão
Klabin Papel e Celulose Brasil
Produtor da Lenzing Fibers na Áustria
L'Oréal Cosméticos França
LVMH Artigos de luxo França
Papelão Metsä Board Finlândia
Philip Morris Tobacco EUA
UPM-Kymmene Papel e Celulose Finlândia

Cinco empresas saíram da categoria triplo A: Fuji Oil, fornecedora japonesa de ingredientes alimentícios; IFF, fabricante de aromas, fragrâncias e cosméticos dos EUA; Mondi, o grupo britânico de papel e embalagens; Symrise, fabricante alemão de produtos químicos aromáticos; e a Unilever, o grupo de produtos de consumo do Reino Unido.

Estes falharam em obter a nota depois que o CDP incluiu uma pontuação mais rigorosa no alinhamento dos planos corporativos com a meta do acordo de Paris de 1,5º C para o aquecimento global, bem como a verificação de dados de desmatamento e água.

Outros 59% das 18.700 empresas que reportaram ao CDP foram classificadas como “C” ou “D”, o que significa que estavam apenas começando a reconhecer seu impacto ambiental.

Dois terços das empresas que pontuaram entre “A-” e “D” não apresentaram melhora em sua transparência e ação ambiental em comparação com o ano passado.

Lisa Beauvilain, diretora de sustentabilidade da Impax Asset Management, com sede em Londres, disse que a “fadiga de relatórios” estava se tornando um problema, pois as empresas enfrentavam vários requisitos de divulgação para cumprir estruturas como a Força-Tarefa sobre divulgações financeiras relacionadas ao clima, bem como novos requisitos nacionais de relatórios ambientais.

A Casa Branca anunciou no mês passado que exigiria que as empresas que fornecem ao governo federal dos EUA divulgassem publicamente as emissões de gases de efeito estufa e estabelecessem metas de redução de emissões com base científica. Isso se aplicará a todas as empresas com contratos anuais de mais de US$ 50 milhões.

sábado, 26 de novembro de 2022

Relatório da OMS - Resistência aos antibióticos, não há tempo a perder


"Não há tempo a perder". O relatório OMS 29.4.19 sobre resistência a antibióticos apresenta um cenário catastrófico, para a saúde e para a economia global. Até 10 milhões de mortes por ano nas próximas três décadas, com custos sociais e picos de desigualdade comparáveis ​​aos da crise financeira de 2008. (1)

Resistência aos antibióticos, o problema e as suas causas

Resistência a antibióticos é um fenómeno que ocorre quando as bactérias 'aprendem a resistir' aos antibióticos, uma vez que são capazes de derrotá-los. E quando microorganismos antes considerados quase inofensivos começam a resistir a diferentes classes de antibióticos (resistência multi-antibióticos), o problema se torna grave. Aumento da mortalidade, internações prolongadas, indisponibilidade de tratamentos eficazes.

O exorbitante custar das especulações insanas das gigantes das drogas, como sempre, é terceirizada para a comunidade global. Que durante meio século revirou os cofres de Grande Farmácia, comprar antibióticos como balas para tosse. Sem que ninguém, até alguns anos atrás, levantasse dúvidas sobre os custos individuais e sociais de seu abuso. A não ser adicionar uma caixa de fermentos lácteos - às receitas ou sugestões de venda livre - para 'restaurar a flora intestinal', numa visão de conto de fadas de interação de armas químicas com o microbioma.

Criação animal por sua vez contribuiu e ainda contribui para causar e agravar a resistência aos antibióticos, uma vez que os medicamentos veterinários nas explorações de 'gado' têm sido utilizados de forma sistemática e não local, como uma 'maneira mais simples' de prevenir o aparecimento de focos de infecção. Se não também para compensar a falta de higiene e melhorar o desempenho da produção. O legislador europeu interveio, portanto, com uma reforma drástica (registo UE 2019/6), com o objetivo expresso de limitar ao mínimo o uso de antimicrobianos e antibióticos nas fazendas.

'Não há tempo a perder'. Relatório da OMS 29.4.19

'Sem Tempo para Esperar. Protegendo o Futuro das Infecções Resistentes a Drogas.' O relatório publicado em 29.4.19 pela OMS deriva das atividades do Grupo de Coordenação de Agências da ONU dedicados à resistência antimicrobiana (IACG, 'Grupo de Coordenação Interagências da ONU sobre Resistência Antimicrobiana'. (2) A gestão de uma crise sanitária e socioeconómica com impacto global pressupõe, de facto, uma abordagem partilhada, de acordo com a visão 'Uma Saúde'. Onde os 'Objetivos de Desenvolvimento Sustentável'(ODS), na agenda da ONU 2030, representam tanto objetivos quanto ferramentas para sobrevivência e solução de problemas. Em particular no que diz respeito aos direitos dos acesso a comida e água condições de segurança, saúde e higiene.

O estado atual, pelo menos 700 mortes a cada ano são atribuídas a doenças resistentes a medicamentos, 230 apenas a formas de tuberculose que não respondem ao tratamento. Doenças comuns tornam-se incuráveis ​​e protocolos que salvam vidas perdem sua eficácia. As cadeias de abastecimento de alimentos, por sua vez, aumentam a fragilidade, devido ao impacto de patógenos multirresistentes em 'segurança alimentar' (segurança alimentar) e assim por diante 'segurança alimentar«(segurança do abastecimento alimentar, ou seja, disponibilidade de alimentos para as populações). O IACG prevê que a resistência antimicrobiana levará 24 milhões de pessoas à pobreza extrema até 2030.

'Resistência antimicrobiana é uma das ameaças mais sérias que enfrentamos como comunidade global ' (Amina Mohammed, vice-secretária-geral da ONU e copresidente do IACG)

O cenário de previsão tem uma escala diferente, anuncia uma epidemia sem precedentes. Antibióticos, antivirais, antifúngicos estão se tornando ineficazes. A IACG relata 10 milhões de mortes a cada ano, globalmente, até 2050. Com prevalência nos países LMIC ('Países de renda média pequena'), mas sem excluir as economias mais maduras. O fenômeno é, de fato, registrado em níveis alarmantes em todos os países, independentemente do nível de renda nacional. Continuamos humanos e continuaremos a ser, todos nós, independentemente de apólices de seguro e contas correntes. Sem nunca perder, em todo caso, a esperança de alcançar aquela cobertura universal de saúde até então proclamada em vão pela própria ONU e pelos políticos que dela participam. Palavras vazias.

'Uma saúde', a sinergia indispensável

'Uma saude,. A saúde humana, o bem-estar animal, a segurança alimentar e a protecção do ambiente nas suas várias vertentes - incluindo a gestão dos resíduos e das águas residuais - são questões estreitamente relacionadas e devem ser geridas em sinergia. O relatório do IACG enfatiza a necessidade de uma abordagem coordenada e sistêmica, multissetorial. A Europa já embarcou neste caminho, começando com o Livro Branco sobre segurança alimentar (12.2.2000). E, no entanto, é essencial desenvolvê-lo, também no contexto internacional, em várias frentes.


'Abuso e uso excessivo antimicrobianos existentes em humanos, animais e plantas estão acelerando o desenvolvimento e a disseminação da resistência antimicrobiana', destaca o relatório do IACG. É necessário estabelecer sistemas regulatórios mais rígidos, conscientização sobre o uso correto de antibióticos, financiamento de pesquisas e desenvolvimento de novas tecnologias para combater a resistência aos seus princípios ativos, abolição do uso de antimicrobianos de importância crítica e outros medicamentos veterinários como promotores de crescimento na pecuária.

'As recomendações do relatório reconhecer que os antimicrobianos desempenham um papel fundamental na proteção da produção, saneamento e comércio de alimentos, bem como na saúde humana e animal, e promover seu uso responsável em todos os setores. Os países devem incentivar sistemas alimentares sustentáveis ​​e práticas agrícolas que reduzam o risco de resistência antimicrobiana, trabalhando juntos para promover alternativas viáveis ​​ao uso de antimicrobianos, conforme estabelecido nas recomendações do relatório'(José Graziano da Silva, FAO, Diretor-Geral)
Salmonela e campylobacter, aumenta a resistência

Relatórios recentes da EFSA (Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos) e o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) mostram como os antimicrobianos utilizados no tratamento de doenças transmissíveis entre animais e humanos (por exemplo, campilobacteriose e salmonelose) estão a perder eficácia e a resistência aos antibióticos não mostra sinais de diminuição.

Em alguns países da UE resistência a fluoroquinolonas (como ciprofloxacina) em tais bactérias Campylobacter é tão alto que esses antimicrobianos não funcionam mais para o tratamento de casos graves de campilobacteriose. Salmonella em humanos também é cada vez mais resistente às fluoroquinolonas, bem como sua resistência a diferentes classes de antibióticos (MDR, Resistência a Múltiplos Medicamentos).

Antibióticos, consumo em Portugal

O consumo de antibióticos em ambulatório aumentou ligeiramente entre 2013 e 2019 em Portugal, mas registou uma redução acentuada a partir de 2020 devido à pandemia de covid-19, avança um relatório da Direção-Geral da Saúde (DGS) hoje divulgado.

“Em ambulatório, a redução de incidência de infeções respiratórias bacterianas pela restrição à circulação e aglomeração de pessoas e pelo uso generalizado de máscara e, por outro lado, a redução de acesso a consulta médica determinaram uma franca redução de consumo de antibióticos”, adianta o relatório anual do Programa de Prevenção e Controlo de Infeções e de Resistências aos Antimicrobianos (PPCIRA) da DGS.

Publicado hoje, no Dia Mundial da Higiene das Mãos, o documento refere que o consumo de antibióticos em ambulatório teve uma “tendência ligeiramente crescente” entre 2013 e 2019, mas mantendo-se sempre abaixo da média europeia.

“Em 2020, pelo contexto pandémico, verificou-se uma marcada redução de consumo, que parece sustentada em 2021. Esta redução foi mais marcada do que a da média europeia”, adiantam ainda os dados do PPCIRA.

No entanto, o rácio de antibióticos de largo espetro sobre os de espetro estreito aumentou entre 2018 e 2021 e de forma mais acentuada do que na média europeia, o que faz com que Portugal tenha o “quinto pior resultado à escala europeia neste indicador”, alerta o relatório divulgado pela DGS.

Já relativamente ao consumo hospitalar de antibióticos, o documenta refere que se tem mantido estável desde 2013 e abaixo da média europeia.

“O consumo de um grupo de antibióticos de uso hospitalar mais associado ao tratamento de infeções causadas por bactérias multirresistentes tem-se mantido estável desde 2014, resolvendo a tendência crescente que se verificou entre 2011 e 2014”, nota ainda o relatório.

“Parece-nos que o contexto pandémico teve influência significativa nos indicadores de consumo de antibióticos”, admitem os autores do relatório do PPCIRA, programa prioritário de saúde criado em 2013.

O documento conclui também que a adesão ao cumprimento da higiene das mãos aumentou progressivamente a partir de 2016, sendo “particularmente significativo o aumento ocorrido entre 2019 e 2020 no contexto pandémico”.

Nas unidades de saúde, “entre esses dois anos, a taxa de cumprimento global e a taxa de cumprimento do primeiro momento de higiene das mãos aumentaram de 75,7 para 82,7% e de 68,0 para 76,2%, respetivamente”, refere o documento.

De acordo com os dados do programa, entre 2015 e 2020, verificou-se uma redução da incidência da taxa global de infeção em locais cirúrgicos, de infeção da corrente sanguínea adquirida em hospital, de pneumonia associada a tubo endotraqueal em unidades de cuidados intensivos de adultos e neonatais e de infeção por `Clostridioides difficile´.

“O período pandémico levou a significativo decréscimo da amostra de vigilância epidemiológica de infeções hospitalares, decorrente sobretudo da dedicação dos grupos locais do PPCIRA à batalha contra a covid-19”, reconhece o relatório.




sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Alimentos e ingredientes 'naturais' - o engano viral


A apresentação de alimentos e/ou seus ingredientes como 'natural', em rótulos e publicidade, é difundido em todos os cantos do planeta.

O conceito de 'natural' é completamente ambíguo, na UE, em alimentos como noutras categorias de Bens de consumo rápido (FMCG, por exemplo, cosméticos).

As regras em vigor nos vários mercados internacionais, aliás, tendem a endossar o engano viral. 

Decepção viral.

1) Alimentos naturais v. superprocessado
O recall no 'Naturalidade' de produtos alimentícios hoje responde principalmente à preocupação do consumidor com alimentos ultraprocessados. Que muitas vezes são caracterizadas como junk food, devido a perfis nutricionais desequilibrados, cujo consumo está associado a maiores riscos de doenças graves e crónicas. (1)

Alimentos 'natural, são, portanto, identificados, principalmente, com matérias-primas agrícolas não processadas ou sujeitas a transformações mínimas, por métodos tradicionais, sem adição de aditivos químicos de síntese. A especificação técnica ISO/TS 19657:2017 é de fato estruturada sobre essas premissas, como vimos, mesmo que se aplique apenas a relacionamentos B2B. (2)

2) Comida 'natural', as regras da UE
O Regulamento de Informações sobre Alimentos, reg. EU 1169/11, limita-se a estabelecer os critérios gerais que devem ser seguidos na informação ao consumidor. A transparência, nos rótulos e na publicidade, pressupõe a veracidade (e demonstrabilidade) das informações fornecidas nos produtos alimentícios. E a sua expressão clara e inequívoca, compreensível para o consumidor médio (regulamento da UE 1169/11, artigos 7.º e 36.º).

A Comissão Europeia pode adotar atos delegados para garantir que os consumidores sejam adequadamente informados, quando os operadores de empresas de alimentos fornecem informações voluntárias sobre alimentos que são conflitantes e podem induzir em erro ou confundir o consumidor (regulamento da UE 1169/11, art. 36.4). Mas os apelos repetidos da sociedade civil até agora caíram em ouvidos surdos. (3)

3) Inglaterra
A FSA, Agência de Padrões de Alimentos, recomenda restringir o uso de reivindicar 'natural' a apenas produtos compostos exclusivamente por ingredientes naturais, ou seja, produtos da natureza.

É enganoso use este termo para descrever alimentos ou ingredientes cuja composição foi modificada pelo uso de produtos químicos ou que incluem produtos de 'nova tecnologia'. Inclui aditivos e aromas produzidos pela indústria química ou extraídos por processos químicos. (4)

O texto 'produtos com ingredientes naturais' pode ser usado para descrever alimentos compostos onde todos os ingredientes são naturais, inalterados pelo uso de produtos químicos, no máximo submetidos a processos de fermentação tradicionais.

4) Irlanda

A FSAI, Autoridade de Segurança Alimentar da Irlanda, por sua vez esclarece o uso de uma série de expressões pelos especialistas em Marketing Comida. Estes incluem a expressão 'natural' e variações sobre o tema, por exemplo. 'naturalmente melhor', 'bondade natural'. (5) Recordando a proibição de atribuir a um alimento características comuns a outros produtos da mesma categoria (Regulamento UE 1169/2011, artigo 7.1.c).

Uma comida mono-ingrediente minimamente processado pode, portanto, ser definido como 'natural' apenas se for distinguido por esta característica de todos os alimentos semelhantes. Os alimentos compostos, conforme processados ​​pelo homem, não podem ser considerados "natural".

"Feito com ingredientes naturais", é a única designação permitida para alimentos compostos que, portanto, diferem de produtos similares, desde que atendam a todos os seguintes critérios:
  • apenas ingredientes naturais, não sujeitos a interferência humana significativa,
  • ingredientes e produto final isentos de aditivos, exceto os obtidos de fontes naturais (por exemplo, plantas) submetidos a processos físicos e/ou 'tradicionais' (incluindo destilação e extração com solventes) e aromas naturais.
5) EUA
Três petições foram apresentados pelo CSPI (Centro de Ciência para o Interesse Público) para a FDA (Food and Drug Administration), a partir de 2014, para obter uma regulamentação específica – ou melhor, a proibição – do uso do termo 'natural' no especialistas em Marketing de comida.

Certificação – abstendo-se de adotar normas específicas – especificou que a rotulagem de um alimento como 'natural' – postula a ausência de ingredientes artificiais ou sintéticos. No entanto, sem abordar algumas questões cruciais levantadas pelo CSPI, como o uso de pesticidas e algumas tecnologias (por exemplo, irradiação). (6)

6) Canadá
Health Canada esclareceu os termos de uso do termo 'natural', especificando que os alimentos e ingredientes assim designados:
  • são isentos de vitaminas e sais minerais adicionados, aditivos e aromatizantes não naturais,
  • não foram submetidos a remoção significativa ou modificação de qualquer componente ou fração do mesmo, exceto redução de água,
  • são feitos sem processos que tenham alterado significativamente seu estado físico, químico ou biológico original (processos intensivos).
Os processos que não alterem significativamente o estado físico, químico ou biológico original do alimento (processamento mínimo) seriam reconhecidos como 'natural'. Bem como substâncias aromatizantes derivadas de fontes vegetais e/ou animais. Com algumas exceções. (7)

7) Austrália
"Natura" 'natural', 'mãe natureza', o 'método natural' são termos que podem ser mal utilizados em rótulos de alimentos e bebidas. Mesmo quando baseado em regras técnicas, códigos ou normas.

Então a AAAC, Comissão Australiana de Concorrência e Consumidor, sublinhou:

– a necessidade de se colocar 'no lugar do consumidor' para verificar se o reivindicar não pode enganá-lo,
– a oportunidade de melhor circunstanciar o significado de 'natural'. Ao adicionar, por exemplo, palavras como 'não contém aditivos alimentares', ou 'sem conservantes artificiais'. (8)

8) Israel
O Ministério da Saúde em Israel distingue produtos alimentícios 'natural' em comparação com os feitos 'com ingredientes naturais':

– um alimento mono-ingrediente pode ser rotulado como 'natural', sem texto acompanhante, desde que não tenha sido submetido a processos diversos dos especificados na Norma,
– a designação de um 'ingrediente natural' é permitido quando é feito a partir de matrizes que atendem aos critérios acima e outros processos especificados na Norma,
– um género alimentício constituído por dois ou mais 'ingredientes naturais', e não contém nenhum ingrediente não natural, pode ser apresentado como 'com ingredientes naturais', não também como 'natural',
– alimentos que contenham um ingrediente não natural (por exemplo, aromatizante) só podem incluir a palavra 'na lista de ingredientes natural', após o nome dos componentes que atendem aos requisitos da Norma,
– um ingrediente sintético pode ser indicado como 'semelhante ao natural, quando há identidade de composição química comcomponente natural', apenas na lista de ingredientes (9,10).

Engano viral

No Velho Continente a decepção viral domina as prateleiras dos supermercados. O uso do termo 'natural' – além dos regulamentos setoriais isolados que o regulam especificamente (e.g. alegações nutricionais e de saúde, águas minerais, aromatizantes) – é usado com a mais ampla liberdade e engano. Exceto esporádico ação de classe e decisões de autoridades nacionais responsáveis ​​pela defesa da concorrência e do mercado. (11)

Internacionalmente – na ISO/TS 19657 e nas várias normas citadas – os requisitos para designar um alimento como 'natural' estão de fato limitados ao estágio de transformação. O engano de apresentar aos consumidores como 'natural':
  • alimentos à base de plantas cultivados com glifosato e / ou coquetel tóxico de pesticidas, talvez até de monoculturas de OGM em áreas sujeitas a desmatamento e roubos de terras,
  • produtos derivados de animais tratados com antibióticos (e hormonas de crescimento, bem como alimentados com farinhas de origem animal, no continente americano),
  • embalagens redundantes, excessivas e insustentáveis.
A única solução possível
A única solução possível é restringir o uso desses reivindicações exclusivamente aos produtos orgânicos, os únicos que podem ostentar uma "Naturalidade" autentica com base em regulamentos obrigatórios e certificações reconhecidas internacionalmente.

Referências Bibliográficas
(1) Dario Dongo, Andrea Adelmo Della Penna. Alimentos ultraprocessados, o pior mal. Apelo dos cientistas no British Medical Journal. GIFT (Grande Comércio de Alimentos Italianos). 16.8.21

(2) Dário Dongo. Ingredientes naturais, o ABC de acordo com a ISO. GIFT (Grande Comércio de Comida Italiana). 11.1.19

(3) Dario Dongo, Marta Strinati. Reivindicação 'Natural' no rótulo. Petição contra enganos. GIFT (Grande Comércio de Alimentos Italianos). 26.11.20

(4) FSA. Critérios para o uso dos termos fresco, puro, natural etc. na rotulagem de alimentos – Critérios recomendados para o uso do termo “Natural”.  (acessado em 23.11.22)




(9) Estado de Israel. Rotulagem de Alimentos e Rotulagem Nutricional. Ministério da Saúde. 

(10) No dir. 88/388/EEC para sabores sintéticos 'idêntico natural'(substâncias aromatizantes idênticas às substâncias naturais). Categoria então eliminada pelo seguinte reg. CE 1334/08

(11) Marta Strinati, Dario Dongo. Puro e '100% natural' com glifosato? Consumidores dos EUA versus Twinings. GIFT (Grande Comércio de Comida Italiana). 21.7.19

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Vegan for Everything


A dieta estritamente vegetariana ou o estilo de vida vegano exclui o consumo de carne, peixe, ovos e laticínios, no entanto nem sempre é fácil perceber se os alimentos são realmente veganos. Para alguém que está no início de uma alimentação vegana, pode ser ainda mais desafiante saber quais produtos contêm ou não substâncias de origem animal.

Atualmente tem-se visto um grande aumento na oferta de produtos vegan, contudo a maior parte dos produtos nas prateleiras dos supermercados contém ingredientes de origem animal. De modo a confirmar se os produtos são 100% vegan, por vezes os consumidores conferem os rótulos e a lista de ingredientes dos mesmos.

Apesar desse escrutínio, às vezes certas matérias-primas não são muito evidentes, devido ao facto de serem identificadas com códigos (como os aditivos, que são identificados com um “e” e um número) ou por terem um nome complexo e pouco familiar. Para além disso, alguns produtos de origem animal são por vezes utilizados no fabrico como auxiliares (ex. gelatinas no caso de filtragem do vinho), que não entram na composição do produto final, nem constam na lista de ingredientes, na embalagem do produto.

Por estes motivos, a presença de um selo independente, como o da V-Label, garante aos consumidores se um produto é realmente vegetariano ou vegano, pois a entidade responsável por atribuir a certificação faz uma verificação rigorosa de todas as matérias-primas usadas ao fabricar um produto, muitas das quais facilmente escapariam ao olho atento de qualquer consumidor.


Aqui encontras 10 alimentos que nem sempre são veganos (quando não têm uma certificação vegan, como da V-Label), e que tens de ter em atenção.

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

Negative Health Impacts of Ultra-Processed Foods Go Beyond Their Nutritional Profiles, Researchers Say



The impact of ultra-processed food consumption on human health may be more significant than the food’s nutritional qualities.

According to new research in Italy, food ratings currently used for packaged food labels may miss the point by mainly focusing on the nutritional profile of processed foods.People should stop focusing only on the nutritional profile of food. They need to start exploring the degree of processing in the food they buy.- Marialaura Bonaccio, senior epidemiologist, Italian Mediterranean Neurologic Institute

The research paper published by the Journal of the British Medical Association (BMJ) found that significant ultra-processed food consumption leads to higher mortality risks by several causes. However, the nutritional profile of such food does not impact these risks.

The same edition of the BMJ also featured American research demonstrating a link between high consumption of ultra-processed food and colorectal cancer, with significant differences in the impact between men and women.

Investigating the results of their 15-year study on more than 20,000 individuals, the Italian researchers tested the effects of consuming ultra-processed food, classified as such by NOVA ratings, while also considering their nutritional classification from the Food Standards Agency Nutrient Profiling System (FSAm-NPS).

NOVA was developed by researchers at the University of São Paulo in Brazil. According to a 2019 United Nations Food and Agricultural Organization paper, NOVA definitions of ultra-processed foods are the most applied in scientific literature.

FSAm-NPS, on the other hand, is currently used to rate foods by relevant front-of-pack-labeling systems, such as the French-born Nutri-Score.

“We felt the need to see if Nutri-Score could really help improve public health, as the European Commission is currently considering its introduction as an E.U.-wide mandatory food rating system,” Marialaura Bonaccio, senior epidemiologist at the Italian Mediterranean Neurologic Institute and co-author of the study, told Olive Oil Times.

“In the last 10 years, research has gone beyond focusing on the sole nutritional composition of foods,” she added. “Thanks to the work of Carlos Monteiro and others, the research has begun focusing on how food is transformed and manipulated.”

According to the researchers, both FSAm-NPS and NOVA reach their food rating goals when individually applied to foods. Results change, though, when the two indexes are jointly considered.

“Both systems correctly predict health risks,” Bonaccio said. “If you constantly choose foods rated as inadequate by Nutri-Score, you expose yourself to greater risks of incurring relevant diseases. The same goes for NOVA, which is also associated with coronary heart disease risk.”

“When they are jointly considered, though, the risks associated with Nutri-Score are reduced by the NOVA system, and that tells us we are not seeing the impact of a nutrient-poor diet but the impact of ultra-processed foods,” she added. “More than 80 percent of foods Nutri-Score rates as poor quality foods are ultra-processed.”

In the study, the authors wrote that “a significant proportion of the higher mortality risk associated with an elevated intake of nutrient-poor foods was explained by a high degree of food processing. In contrast, the relation between a high ultra-processed food intake and mortality was not explained by the poor quality of these foods.”

The NOVA system typically defines ultra-processed food as food having five or more ingredients not usually found in a household. Those substances, such as additives and enhancers, are part of ultra-processing methods as they derive from the further processing of food components.

“The ultra-process definition is crucial because it is not univocal. It is mostly common sense,” Bonaccio said. “If I bake a pie at home, I might use many simple ingredients such as flour, eggs or milk. And the outcome might depend on the correct balance among those ingredients.”

“But when, on top of that, I use food additives, then the pie starts to become an ultra-processed food,” she added. “That is why the definition is not totally unambiguous. For example, if in a supermarket you see a fruit-based yogurt whose package displays five lines of ingredients, it might be enough to spot an ultra-processed food.”

The food industry commonly uses additives to give specific colors to food and sweeten or preserve it. Other additives cover many functions, such as enhancing flavors, suppressing fungi, inhibiting particular characteristics of the food or sanitizing the food itself.

“The processing of foods might play a role in health beyond their nutritional composition, through a variety of mechanisms triggered by non-nutritional components, such as cosmetic additives, food contact materials, neoformed compounds, and degradation of the food matrix,” wrote the researchers.

“The health risks that we have found in our study are related to significant consumption of ultra-processed food,” Bonaccio added. “Therefore, the suggestion here is not to abolish that kind of food but to limit its intake. People should stop focusing only on the nutritional profile of food. They need to start exploring the degree of processing in the food they buy.”

She recommends that a suitable method to limit ultra-processed food is to spend more time in the kitchen and follow the advice of food journalist and author Michael Pollan not to eat any food your grandmother would not recognize as food.

“Your grandmother would not know what substances like maltodextrin are. That means that cooking must stay close to the origin of food and away from food manipulation as much as possible,” Bonaccio said, citing a widely-used ultra-processed carbohydrate.

In a joint editorial about the two studies published by the BMJ, Carlos A. Monteiro, a professor of public health nutrition at the University of São Paulo and Geoffrey Cannon, a senior research fellow, warned that “to reformulate ultra-processed foods by methods such as replacing sugar with artificial sweeteners or fat with modified starches and adding extrinsic fiber, vitamins, and minerals, is not a solution.”

“Reformulated ultra-processed foods would be especially troublesome if promoted as ‘premier’ or ‘healthy’ products,” they added. “They would remain partly, mainly, or solely formulations of chemicals.”

Following their study, the Italian researchers warned against adopting any food labeling system mainly based on the nutritional aspects of food.

“Within Nutri-Score, for instance, you could find highly refined and processed foods which achieve a good and apparently healthy score,” Bonaccio said. “That happens because they might be low in salt, sugar or fats. But that does not mean they are to be considered a healthy food.”

An example of this is artificially-sweetened sugar-free sodas, which achieve healthy scores, “even when they are not food at all, but just a chemical formulation,” Bonaccio added.

She noted that ultra-processed food intake is growing globally. “In the United States and the United Kingdom, the most recent data show that 60 percent of the daily calories, on average, come from this kind of food. We are still at 20 percent in Italy, but that is the tendency here as well.”

While the latest American and Italian studies join the growing literature on the health effects of ultra-processed food consumption, it remains unclear what the reasons are for such negative health consequences.

“We must investigate the inner mechanism,” Bonaccio said. “Being now able to set aside the nutritional aspects of poor quality food, we still have to understand what triggers such harmful reactions.”

Researchers in many countries are working on several hypotheses, investigating the impact of alterations to the food matrix or the destruction of phytochemicals and other substances.

Other research is focused on the impact of food separation and re-aggregation on the microbiome and insulin response or the exposure to plastic due to the packaging of most products.

“Each of those conditions might be a trigger for physiopathological processes,” Bonaccio said. “We are currently working on the inflammatory pathway, as these aspects might exert a role in rising inflammation levels.”

“The Mediterranean diet lights the path,” she concluded. “The MedDiet is not only fruits, vegetables, a light intake of wine and olive oil; it is mostly an un-processed food diet. We should always remember that it comes from farmers’ tradition made with raw foods or slightly processed foods and the use of minimal techniques.”

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