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domingo, 24 de maio de 2026

Dia Europeu dos Parques Naturais

Todos precisamos de ligações para crescer, viver e aprender.

Ecossistemas saudáveis não existem isolados: eles só prosperam quando existem ligações ecológicas - corredores de vida selvagem, habitats interligados e paisagens que permitem às espécies deslocarem-se, adaptarem-se e florescerem.

Estas ligações ultrapassam frequentemente as fronteiras de qualquer Área Protegida individual.

A Estratégia de Biodiversidade da UE para 2030 visa criar uma "Rede de Natureza Trans-Europeia" .

O Regulamento da UE sobre o Restauro da Natureza contém metas específicas sobre a conectividade terrestre e fluvial, focando-se especialmente na Natura 2000: a maior rede coordenada de Áreas Protegidas do mundo. A Meta 3 do Quadro Global de Biodiversidade proclama a necessidade de proteger 30% da superfície terrestre e garantir que estes espaços sejam conservados de forma eficaz e estejam bem ligados entre si.

Estas prioridades políticas enviam uma mensagem poderosa: proteger a natureza não é suficiente. Temos de a reconectar. As Áreas Protegidas estão no centro desta transformação. São os blocos de construção das redes ecológicas da Europa. Através da cooperação transfronteiriça, do restauro de habitats, da criação de corredores e da gestão a longo prazo, as Áreas Protegidas estão a transformar a ambição política em ação prática no terreno.

No Dia Europeu dos Parques de 2026, não só celebramos os lugares que protegemos, mas também as ligações que os tornam mais fortes.

Áreas Protegidas, comunidades locais, decisores políticos, visitantes juntos a construir um futuro onde as nossas paisagens não sejam fragmentadas, mas verdadeiramente ligadas pela natureza.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Ecosofia: O Despertar da Sabedoria para Reabitar o Mundo


Vivemos numa era de urgências climáticas e desconexão social. Frequentemente, olhamos para a crise ambiental como um problema puramente técnico que pode ser resolvido com novas tecnologias ou políticas de carbono. No entanto, a ecosofia nos lembra que a ferida é mais profunda: ela reside na forma como pensamos, sentimos e nos relacionamos com a vida.

Relembrar a importância da ecosofia é entender que a ecologia não pode estar separada da subjetividade humana. Como propôs Arne Næss, precisamos de uma "Ecologia Profunda", que abandone o antropocentrismo e reconheça o valor intrínseco de cada ser vivo. Não protegemos a floresta porque ela nos dá oxigênio, mas porque ela tem o direito soberano de existir.

Para o pensamento contemporâneo, essa sabedoria desdobra-se em duas vertentes complementares:

1.A ação Política de Félix Guattari: Ele nos convoca a agir em três frentes inseparáveis — a ecologia ambiental (biosfera), a social (nossas relações comunitárias) e a mental (nossa psique). Para Guattari, não há mudança ambiental sem uma revolução no desejo e no combate às desigualdades.

2.A Sensibilidade de Michel Maffesoli: Maffesoli traz o olhar do "reencantamento". Para ele, a ecosofia é uma racionalidade sensível. Ela não nasce de leis impostas de cima para baixo, mas do afecto, do "tribalismo" e do cuidado com o território onde vivemos. É o retorno ao sagrado e ao prazer de pertencer a uma "casa comum".

Em resumo, a ecosofia sugere que plantar uma horta ou reduzir o plástico são atos incompletos se não forem acompanhados por uma mudança de espírito. É a união entre a militância social e a celebração da vida quotidiana. Ao curarmos nossa relação com a Terra, curamos a nós mesmos.

Referências Bibliográficas 
GALLO, Sílvio. "Ecosofia, Ética e Educação: por uma pedagogia do habitar". Anais do X Encontro de Filosofia e História da Biologia, p. 145-158, 2012. (Excelente para fundamentar o conceito do "habitar" com sabedoria).

GUATTARI, Félix. As Três Ecologias. Tradução de Maria Cristina F. Bittencourt. 21. ed. Campinas: Papirus, 1990. (A obra que define as ecologias mental, social e ambiental).

MAFFESOLI, Michel. Ecosofia: uma ecologia para o nosso tempo. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2021. (A referência mais atual de Maffesoli sobre o reencantamento e a sensibilidade).

MORAES, Almir Ferreira de. "A Ecosofia de Félix Guattari: por uma nova subjetividade". Revista de Filosofia Aurora, Curitiba, v. 23, n. 32, p. 117-134, jan./jun. 2011. (Ótima síntese acadêmica disponível online).

NÆSS, Arne. Écologie, communauté et style de vie. Paris: Éditions MF, 2008. (Obra seminal da Ecologia Profunda e da ecosofia original).

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Né Ladeiras - Beijai o menino

"Beijai o menino, beijai- o agora
Beijai o menino, de nossa senhora
Beijai o menino, beijai-no pé
Beijai o menino, que é de São José

Os filhos dos homens em berços dourados
E bós meu menino em palhas deitado
Em palhas deitado, em palhas querido
Filho de uma rosa dum cravo nascido

Os filhos dos homens em bós travesseiros
E bós meu menino preso a um madeiro

Sois um manso cordeiro que estais nessa cruz
Com os braços abertos perdoai-nos Jesus
Sois o Salvador do mundo que tudo salvais
Salvei nossas almas bendito sejais."

Este é o resultado de dois anos de pesquisa de material relacionado com a música e a cultura tradicional transmontana, nomeadamente as recolhas efectuadas por Michel Giacometti e por Jorge e Margot Dias. Foram assim redescobertos, cantares que remontam ao séc. XVI e outros cuja origem se perderam na bruma dos tempos e que aqui são reinterpretados á luz dos nossos dias.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Paul Evans


Paul Evans (pintor Britânico, nascido em 1954)

Estilo:
Pintura contemporânea que dialoga com o expressionismo abstracto e Art Informel, embora com uma abordagem pessoal muito própria.
O seu trabalho explora a relação física e emocional entre o espectador e a obra, muitas vezes procurando um diálogo entre estrutura e caos, entre ordem e entropia.

Técnica:
Usa uma grande variedade de meios: desde pintura, desenho, aguarelas a projectos colaborativos em animação e vídeo. Frequentemente trabalha com o fluxo e viscosidade da tinta, aproveitando processos naturais de secagem e gravidade para criar efeitos meditados e dinâmicos.
Explora materiais como mica e variações de transparência e opacidade para enriquecer a superfície das suas pinturas e provocar uma resposta sensorial no observador.

Temas:
A natureza — entendida como campo complexo de interacções físicas e emocionais — é um dos focos centrais da sua obra.
A sua prática inclui projectos de envolvimento com as comunidades e colaborações com poetas, designers e académicos.

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Ganhamos à EDP

Barragem de Miranda do Douro

Ganhamos!! Após anos e anos de cartas à PGR, inquéritos fiscais, ações em tribunais arbitrais, denúncias públicas, etc. e solidariedade de alguns partidos ganhámos! Um dos momentos simbólicos mais fortes foi a Carta Aberta de 27 de janeiro de 2021, do MCTM que marcou o confronto formal com as autoridades nacionais em relação à venda das barragens. Assim o Ministério Público vai exigir à EDP a entrega ao Estado de impostos que não foram pagos na altura, no total de 335,2 milhões de euros acrescido de juros.
De todos os Partidos e quadrantes saliento o papel do BE. Tem sido o partido mais próximo das causas do MCTM.
Deputados do BE, como Pedro Filipe Soares e Fabian Figueiredo, apresentaram requerimentos parlamentares e interpelações ao Governo sobre a venda das barragens.
O BE foi o primeiro partido a denunciar publicamente a perda de receitas fiscais para os municípios afectados.
Aos autarcas da Associação de Municípios do Baixo Sabor o meu agradecimento.
Aos políticos de Bragança eleitos pelo PS, Berta Nunes e Sobrinho Teixeira, o social-democrata Adão Silva e a representante do PCP, Fátima Bento também o meu agradecimento.
Por fim, claro, agradeço sobretudo o empenho do Movimento Cultural da Terra de Miranda que foi e continua incansável nesta matéria!

domingo, 2 de novembro de 2025

Por onde andam a democracia e o bem comum e qual o papel da petição?


Vivemos um tempo paradoxal. Nunca tivemos tantos meios para nos informarmos, comunicarmos e participarmos na vida pública — e, no entanto, a sensação dominante é a de afastamento. A democracia, esse bem conquistado à custa de tanto esforço e memória, parece hoje andar perdida entre o ruído e a indiferença. O bem comum, fundamento ético da convivência humana, foi sendo substituído por um pragmatismo egoísta, por uma lógica de mercado que transforma cidadãos em consumidores e a política em espetáculo.
A democracia não se esgota no voto. Ela exige presença, vigilância e um sentido de pertença. Precisa de cidadãos atentos, críticos, capazes de questionar e propor. Infelizmente, a apatia cresce à medida que se agravam as desigualdades, que o discurso público se torna tóxico e que os centros de decisão se afastam das pessoas. A desinformação — alimentada por algoritmos que premiam o escândalo — corrói o terreno fértil da confiança, sem a qual nenhuma comunidade pode florescer.
E o bem comum? Esse conceito, tão simples e tão esquecido, é o que poderia restituir sentido à democracia. Falar de bem comum é lembrar que a liberdade individual só faz sentido num quadro de responsabilidade partilhada. É reconhecer que a nossa saúde depende da saúde dos ecossistemas, que o nosso bem-estar depende da justiça social, que o futuro dos nossos filhos depende da coragem coletiva de mudar de rumo.
Por onde andam, então, a democracia e o bem comum? Talvez não estejam perdidos — apenas esquecidos nos gestos pequenos que deixámos de valorizar: no diálogo entre vizinhos, na participação local, na escola que ensina a pensar, na comunidade que cuida. É aí, no quotidiano concreto, que renasce a possibilidade de uma cidadania viva e solidária.

Porque a democracia não se herda — constrói-se. E o bem comum não se decreta — cultiva-se.

A democracia — como defende Pierre Rosanvallon (2008) — “não é um estado, é um processo contínuo de invenção coletiva”. E esse processo exige participação real, protagonismo cidadão e uma educação que ensine não apenas a competir, mas a cooperar. O bem comum, por sua vez, não é uma abstração moral: é, como lembra Martha Nussbaum (2011), a condição material e simbólica que permite que todas as pessoas floresçam em dignidade e interdependência.

Uma petição pode ter um papel estratégico e simbólico muito forte neste contexto de reflexão sobre democracia e bem comum.
Mesmo parecendo um instrumento modesto, ela representa a prática viva da cidadania participativa — um antídoto contra a apatia democrática. 

Para Rosanvallon (2015), estes “atos de vigilância cívica” são hoje essenciais para revitalizar a democracia representativa, criando laços entre a sociedade civil e as instituições.

Estudos recentes (por exemplo, Smith, 2009; Nabatchi & Leighninger, 2015) mostram que formas de democracia participativa — como petições, orçamentos participativos e assembleias cidadãs — aumentam a confiança pública e a qualidade deliberativa das políticas públicas.

Eis algumas vantagens claras:
🟢 1. Reforça a cidadania ativa
Assinar (ou criar) uma petição é um ato de participação direta. Mostra que as pessoas não se limitam a votar de quatro em quatro anos, mas querem intervir no debate público. Cada assinatura é um gesto de consciência cívica, e o conjunto delas cria uma voz coletiva que o poder político não pode ignorar.
🟢 2. Cria comunidade e convergência
Num tempo de fragmentação e polarização, uma petição pode reunir cidadãos em torno de um propósito comum — seja ambiental, social ou ético. Funciona como ponto de encontro entre pessoas que, mesmo diferentes, reconhecem a urgência de defender um valor partilhado.
É o bem comum, em forma de mobilização.
🟢 3. Traz visibilidade e pressão política
Uma petição bem articulada e divulgada atrai a atenção pública e mediática, obrigando decisores e instituições a reagirem. Mesmo quando não resulta imediatamente em legislação, força o debate, expõe contradições e obriga à transparência.
🟢 4. Educa e desperta
Muitas pessoas tomam contacto com certos temas através de uma petição — é um instrumento de consciencialização. Bem redigida, ela explica, contextualiza e propõe soluções. Ou seja, transforma a indignação dispersa em conhecimento e ação concreta.
🟢 5. Articula o local e o global
Peticionar é um ato simultaneamente local e global: pode começar num bairro, numa escola ou numa associação, e acabar a influenciar decisões nacionais ou internacionais. É uma ponte entre a democracia de proximidade e a política institucional.

👉 Em resumo:
1. Num tempo em que muitos se perguntam “por onde anda a democracia?”, uma petição é um modo de trazê-la de volta para as mãos das pessoas — não como ideal abstrato, mas como prática quotidiana.
2. Portanto, peticionar não é um gesto simbólico ou de "activismo de sofá": é agir sobre a realidade, dar forma política à indignação ética. É um exercício de corresponsabilidade e de reconstrução do bem comum a partir da base social.

Relembro o Exercício do direito de petição
Lei n.º 43/90 publicado no Diário da República n.º 184/1990, Série I de 1990-08-10

Referências bibliográficas selecionadas

  • Freire, P. (1996). Pedagogia da Autonomia. São Paulo: Paz e Terra.

  • Habermas, J. (1996). Between Facts and Norms: Contributions to a Discourse Theory of Law and Democracy. MIT Press.

  • Nabatchi, T., & Leighninger, M. (2015). Public Participation for 21st Century Democracy. Jossey-Bass.

  • Nussbaum, M. (2011). Creating Capabilities: The Human Development Approach. Harvard University Press.

  • Orr, D. (2004). Earth in Mind: On Education, Environment, and the Human Prospect. Island Press.

  • Rosanvallon, P. (2008). La légitimité démocratique. Seuil.

  • Rosanvallon, P. (2015). Le bon gouvernement. Seuil.

  • Smith, G. (2009). Democratic Innovations: Designing Institutions for Citizen Participation. Cambridge University Press.

  • Sterling, S. (2010). Transformative Learning and Sustainability: Sketching the Conceptual Ground. Learning and Teaching in Higher Education, 5(11), 17–33.

  • UNESCO (2019). Education for Sustainable Development Beyond 2019. Paris: UNESCO.


sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Ordem dos Biólogos contra integração do ICNF na Agência Portuguesa do Ambiente


A Ordem dos Biólogos manifestou-se hoje contra uma eventual integração do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas na Agência Portuguesa do Ambiente e transferência de responsabilidades para as Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional.

“Num ano em que se assinalam 50 anos de um serviço público dedicado à conservação da natureza e da biodiversidade, esta proposta levanta sérias dúvidas quanto ao futuro da gestão das áreas protegidas, à autonomia técnica necessária e à eficácia das políticas ambientais em Portugal”, alertaram os biólogos.

O Livre apresentou hoje um requerimento para ouvir, com urgência, a ministra do Ambiente e Energia no parlamento sobre uma eventual fusão das competências do Instituto da Conservação da Natureza e Florestas (ICNF) nas duas entidades.

O requerimento surge depois de o jornal Expresso ter noticiado, na terça-feira, citando “várias fontes” não identificadas, que o Governo pretende extinguir o ICNF, tal como atualmente existe, e dividir as suas competências entre a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e as Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR).

A Ordem dos Biólogos anunciou também que pediu uma audiência ao Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

Para a Ordem, uma reorganização desta natureza seria “profundamente preocupante”, sobretudo no que diz respeito à gestão das áreas protegidas e à conservação da biodiversidade, pilares que considera estratégicos de qualquer política ambiental.

“Num País com a dimensão de Portugal, regionalizar a gestão destas áreas pode significar a criação de “quintais” administrativos e políticos, comprometendo a coerência e a eficácia das políticas de conservação”, defendeu a estrutura.

A Ordem dos Biólogos teme que se repita a experiência polémica da AIMA, a Agência para a Integração, Migração e Asilo, na sequência da extinção do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), criando-se “um mega organismo”, com múltiplas funções e perda eficácia nas principais competências.

“O ICNF desempenha funções com responsabilidades nacionais e compromissos internacionais muito específicos, que exigem autonomia técnica e capacidade especializada”, sustentou a Ordem, em comunicado, sublinhando que a integração dessas competências numa entidade com missão já alargada “fragilizaria inevitavelmente” a proteção da natureza e a conservação da biodiversidade.

O Instituto da Conservação da Natureza e Florestas (ICNF) receberá 44,7 milhões de euros para áreas protegidas, prevenção de incêndios ou alterações climáticas, segundo a proposta de Orçamento do Estado para 2026.

O documento, entregue pelo Governo na semana passada e disponibilizado no ‘site’ da Assembleia da República, prevê a transferência de receitas próprias do Fundo Ambiental até ao limite de 44.750.000 euros para o ICNF, destinados a projetos de gestão das áreas protegidas, prevenção de incêndios florestais e de conservação da natureza.

As verbas destinam-se ainda a projetos de ordenamento do território e adaptação às alterações climáticas, pagamentos a equipas de sapadores florestais, gabinetes técnicos florestais e “agrupamento de baldios”.

A dotação para 2026 é inferior à do orçamento em vigor (53,2 milhões), que significou uma duplicação da verba alocada face a 2024.

Está também prevista a transferência do ICNF, enquanto autoridade florestal nacional, para as autarquias locais, ao abrigo dos contratos celebrados ou a celebrar no âmbito do Fundo Ambiental, mas sem indicação de dotação.

Na proposta admite-se ainda transferências do ICNF “para entidades, serviços e organismos competentes da área da defesa nacional, com vista a suportar os encargos com ações de vigilância e gestão de combustível em áreas florestais sob gestão do Estado”, ao abrigo de protocolo a celebrar no âmbito Fundo Ambiental.

terça-feira, 7 de outubro de 2025

O papel cívico das tascas


O papel cívico das tascas é um tema fascinante, porque estas pequenas instituições populares vão muito além da função de servir comida e bebida — são verdadeiros centros de sociabilidade, cultura e cidadania informal. Eis algumas dimensões importantes desse papel:

1. Espaço de convivência e debate
As tascas sempre foram lugares onde as pessoas se encontram para conversar, partilhar opiniões e discutir assuntos do dia — da política à bola, da aldeia ao mundo.
Nelas, as ideias circulam livremente, o que favorece o exercício do pensamento crítico e da expressão pública.
Num certo sentido, são micro-espaços democráticos, onde todos têm voz, independentemente da classe social ou nível de instrução.

2. Igualdade e pertença
A tasca é um dos poucos espaços onde a convivência é horizontal: o trabalhador, o agricultor, o artista, o professor, o reformado — todos se encontram à mesma mesa.
Esse ambiente reforça laços comunitários e combate o isolamento social.
Através da partilha (um copo de vinho, um petisco), a tasca reafirma a identidade coletiva de um bairro, aldeia ou freguesia.

3. Preservação da cultura popular
Muitas tascas funcionam como arquivos vivos da memória local: guardam histórias, tradições orais, expressões idiomáticas e saberes práticos.
São escolas informais de cidadania e cultura, onde se aprende pelo convívio.
Também desempenham um papel importante na transmissão intergeracional — os mais velhos contam histórias e ensinam valores aos mais novos.

4. Solidariedade e redes de apoio
As tascas muitas vezes são refúgios de proximidade, onde se organizam ajudas discretas: uma vaquinha para quem está em dificuldades, um aviso sobre alguém que precisa de apoio, um contacto que resolve um problema.
Assim, cumprem uma função solidária e comunitária, especialmente em tempos de crise.

5. Resistência e identidade local
Num mundo cada vez mais uniformizado, as tascas representam uma forma de resistência cultural.
Mantêm o carácter local, autêntico e humano das comunidades.
Funcionam como símbolos de identidade territorial — um contraponto às cadeias globais e à cultura de consumo rápido.

Em suma, o papel cívico das tascas reside na sua capacidade de gerar comunidade, diálogo e identidade, servindo como espaços de cidadania quotidiana onde se pratica a convivência, a empatia e o sentido de pertença.

domingo, 21 de setembro de 2025

Turismo Imersivo: Da Massificação à Experiência com Significado


Hoje, viajar tornou-se uma prática tão comum que se arrisca a uma certa banalização. Em 2023, os residentes da União Europeia com mais de 15 anos realizaram mais de 1,1 mil milhões de viagens turísticas com pelo menos uma noite de estadia. Isso equivale a uma média de 2,4 viagens por pessoa por ano (Eurostat, 2023). No outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, a maioria das famílias realiza uma média de três viagens por ano.

Apesar da dimensão impressionante destes números, esta massificação e repetição de itinerários semelhantes — praias, monumentos, capitais turísticas — faz com que muitas dessas viagens deixem de ser experiências marcantes ou transformadoras.

É neste contexto que surge com força uma tendência internacional: o turismo imersivo (immersive tourism), também referido como experiential travel ou curated travel. A sua proposta é clara: substituir a quantidade pela qualidade, levando o viajante a viver experiências autênticas e a criar ligações genuínas com as comunidades locais.

O que distingue o turismo imersivo?
Ao contrário do turismo de massas, o turismo imersivo privilegia pequenos grupos e experiências de proximidade, onde os visitantes deixam de ser meros observadores para se tornarem participantes ativos:

Aprendendo diretamente com artesãos locais em workshops práticos.
  1. Descobrindo saberes tradicionais, como a cestaria com plantas autóctones ou a produção de queijo de cabra numa pequena unidade artesanal
  2. Partilhando refeições com gastronomia regional preparada com produtos locais.
  3. Integrando-se em festividades comunitárias e tradições vivas.
  4. Explorando a natureza através de passeios guiados que revelam paisagens, histórias e biodiversidade.
Um estudo recente de Zhou & Wang (2024) sublinha que a qualidade destas experiências depende de dois fatores: o experiencescape físico (o ambiente, a temática, e as infraestruturas que envolvem a experiência) e o experiencescape interpessoal (proporcionado pela interação entre anfitriões e visitantes). Ambos os elementos, segundo os autores, potenciam emoções positivas, que aumentam a probabilidade de os viajantes recomendarem o destino ou regressarem no futuro.

Uma prática de Turismo Responsável
As viagens imersivas não são apenas gratificantes para os viajantes – representam também um avanço no movimento global pelo Turismo Responsável. Ao escolher este tipo de experiência:
  1. As economias locais beneficiam diretamente: artesãos, produtores, guias e pequenos negócios veem o seu trabalho valorizado e justamente compensado.
  2. O património cultural é preservado: os ofícios e práticas tradicionais ganham visibilidade e continuam a florescer.
  3. As comunidades são fortalecidas: receber viajantes aumenta o orgulho na identidade local e abre novas oportunidades.
  4. O ambiente é respeitado: o formato de pequenos grupos e as atividades de contacto com a natureza promovem práticas de baixo impacto.
Desta forma, o turismo imersivo gera benefícios mútuos. Os visitantes têm experiências autênticas – não encenadas - que se tornam o ponto alto da viagem: as histórias das pessoas que conheceram, os ofícios que experimentaram com as próprias mãos, as receitas que provaram e as tradições em que participaram. E, ao fazê-lo, cada viagem contribui para uma economia local mais forte e para a preservação do que torna cada lugar único.

Porto contra os eucaliptos e na defesa da floresta tradicional

O país não pode estar entregue à celulose, além disso, o eucalipto não é assim tão bom negócio quanto isso.

"Com mais um bocado de trabalho, o carvalhal dá mais rendimento", argumentou Carlos Evaristo, apontando a um estudo da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD). Embora demore mais anos a crescer, uma floresta de carvalhos "permite subprodutos como os cogumelos ou o mel, valoriza a paisagem e atrai turistas - ninguém gosta de fazer turismo no meio dos eucaliptos", acrescentou, lembrando o mote principal da manifestação: os fogos florestais.

"O eucalipto é uma árvore que beneficia do fogo para se reproduzir", diz Carlos Evaristo. A árvore, originária da Austrália, não só medra no fogo como "é terreno fértil para outras invasoras como mimosas e acácias", argumentou, defendendo a substituição do eucaliptal por floresta autóctone. "Os carvalhos e sobreiros desenvolveram estratégias melhores para lidar com o ciclo do fogo", argumentou.

"A monocultura do eucalipto é uma paisagem monótona que só degrada os solos", que não é só consequência, mas também causa. "Num interior abandonado, o eucalipto cresce por ele próprio, não precisa de manutenção, não produz emprego e contribuiu mais para a desertificação", defende Carlos Evaristo.


O que precisamos é de uma floresta para o futuro, uma floresta com várias espécies misturadas e com espécies nativas, espécies que já estão adaptadas às nossas condições climáticas há milhares e milhares de anos, portanto, não precisamos de espécies exóticas que nos trazem os  problemas atrás referidos.

sábado, 20 de setembro de 2025

Dinamarca - ilhas flutuantes artificiais cobertas de flores silvestre


Na Dinamarca, ilhas flutuantes artificiais cobertas de flores silvestres estão a transformar portos movimentados em bolsas de natureza.
Construídas com materiais ecológicos, estas ilhas oferecem locais de nidificação para aves, néctar para abelhas e borboletas e abrigo subaquático para peixes.
Não só aumentam a biodiversidade, como também purificam o ar e a água, absorvendo carbono e filtrando os poluentes.
Ancoradas em segurança, as ilhas comprovam que, mesmo em vias navegáveis ​​industriais, as cidades podem criar santuários verdes onde a vida selvagem prospera juntamente com a atividade humana. 

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Contributo sobre o Manifesto por um Pacto Nacional pela Floresta e pelo Território

A SPECO e 23 outras ONGA enviaram para o governo um contributo sobre o manifesto que ainda continua aberto à subscrição individual e de grupo sobre a necessidade de se estabelecer um Pacto Nacional sobre a Floresta e o Território.



São 23 as Organizações Não Governamentais e/ou Associações de Ambiente que se juntaram à Sociedade Portuguesa de Ecologia (SPECO) e assinaram este manifesto, que abaixo se junta, aberto à subscrição pública desde 25 de Agosto. Mais de 1500 cidadãos de diferentes quadrantes da sociedade, nomeadamente técnicos, professores, investigadores de laboratórios de Estado e de fundações, já o subscreveram.

Não podemos ficar parados. Cansámo-nos de esperar que as políticas estratégicas surtam efeito. Têm sido formadas comissões de estudo, disponibilizados financiamentos do PRR, do Fundo Ambiental, mas a acção continuada, a efectiva melhoria que se almeja para levar um pouco de dignidade e sustentabilidade ao Portugal interior tarda em concretizar.

Para além das povoações, também as Áreas Protegidas têm sido delapidadas e deixadas ao abandono. Depois de 1985 e 2017, 2025 foi já considerado o terceiro ano que afectou consideravelmente Áreas Protegidas, espaços que mereciam uma atenção redobrada pelo valor que representam, não só a nível nacional como europeu.

Precisamos de acção, já! Estamos dispostos a ajudar e a apoiar, a convocar a ciência, as empresas, os autarcas e as comunidades. Não podemos esperar por diagnósticos, novas comissões técnicas e independentes. As anteriores já diagnosticaram as causas e propuseram soluções, mas nada foi feito. Os erros perpetuam-se e o plano de ordenamento do território tarda em ser posto em prática.

É este apelo que as 22 ONGA transmitem ao Governo. Através deste Manifesto mostramo-nos disponíveis para apoiar um plano de acção que tenha efeitos directos no território. O ordenamento do território e a conservação da natureza nas suas Áreas Protegidas são as melhores ferramentas para o combate às alterações climáticas e para a sustentabilidade das populações do interior do país.

As organizações signatárias:



Leia o manifesto abaixo, e assine aqui.

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Antes que tudo arda

Incêndio em Avô (Oliveira do Hospital)

Em 2017, Portugal enfrentou uma das suas maiores tragédias coletivas: o incêndio de Pedrógão Grande. Uma ferida que destruiu vidas, memórias e esperanças, e expôs a vulnerabilidade estrutural do país. Nesse ano, após ouvir diferentes vozes ligadas à prevenção e ao combate, preparei uma breve síntese sobre a situação da floresta portuguesa. O retrato era conhecido, mas revelou-se devastador: um mosaico desordenado de pequenas propriedades essencialmente privadas, muitas abandonadas; política florestal errática e ausente no terreno; uma vigilância insuficiente; proteção civil dependente de participação voluntária; meios aéreos privados caros, mas ainda assim ausentes; comunidades rurais envelhecidas e esquecidas. Em síntese: uma floresta frágil, altamente inflamável, e um Estado incapaz de salvaguardar o interesse público.

Passaram oito anos. Houve avanços: destacaria o BUPi e os processos de emparcelamento que abriram caminho para resolver a fragmentação fundiária; a criação da AGIF (Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais) e a sua ação programática trouxe mais visibilidade e expressão territorial à política florestal; a vigilância tecnológica progrediu; a proteção civil incrementou a capacidade de intervenção e preparação; a contratação de meios aéreos tornou-se mais transparente, mas ainda assim ineficaz.

No essencial, os bloqueios estruturais mantêm-se intactos. A floresta continua dividida, sem escala para uma gestão eficiente e transformadora. As políticas públicas do setor transitaram entre ministérios, mas permanecem sem coerência e incapazes de inspirar a confiança que o problema exige. A vigilância tecnológica cobre apenas parte da realidade diversa do país. A proteção civil, mais preparada, continua excessivamente dependente de esforço voluntário. O papel das Forças Armadas mantém-se episódico e sem coordenação local. Os projetos-piloto de mosaicos resilientes existem, mas são insuficientes para travar tendências e implementar a transição florestal, e as comunidades rurais continuam esmagadas pela burocracia e pelo abandono.

A verdade é que pouco mudou. A floresta portuguesa continua refém de interesses sobrepostos, centralismo sufocante e ausência de reformas estruturais que integrem floresta, agricultura, água e biodiversidade num mosaico vivo e resiliente. A acumulação descontrolada de biomassa, alimentada pelo abandono rural, transformou vastas áreas em depósitos de combustível à espera da próxima ignição. E manter grandes extensões de monocultura inflamável, num contexto climático cada vez mais adverso — com secas mais longas, ondas de calor mais intensas e ciclos de incêndio cada vez mais prolongados — é prolongar a catástrofe. É urgente diversificar espécies, apostar em ecossistemas resilientes, combinar produção florestal com regeneração ambiental e colocar a floresta ao serviço da segurança, da economia e da vida.

Esta mudança exige também um novo contrato com a indústria. O setor não pode ser assistente ou comprador de matéria-prima barata e combustível para exportação. Precisa de assumir corresponsabilidade na regeneração, investir em gestão sustentável, inovar em produtos de maior valor acrescentado e comprometer-se com a transição ecológica do país.

O futuro exige cinco escolhas inadiáveis: governança descentralizada com técnicos e meios próximos do território; uma reforma fundiária realista que permita gestão conjunta; a profissionalização parcial do combate, associada à prevenção; a assunção realista e firme do nexo entre floresta, agricultura, água, biodiversidade e clima; e, sobretudo, a reconstrução da confiança social, devolvendo às comunidades o papel de parceiras centrais, com incentivos claros e retorno económico justo.

Se 2017 foi o ano da tragédia, e 2018–2025 o tempo da resposta insuficiente, o próximo ciclo só pode ser o da reforma estrutural. Ou teremos a coragem de transformar a floresta portuguesa em alavanca de resiliência e futuro, ou continuaremos prisioneiros de um ciclo de fogo, abandono e luto.

Antes que tudo arda.

quinta-feira, 17 de julho de 2025

ADC 35 Anos - Uma História Em Movimento



O termo "ADC 35 Anos" refere-se à celebração dos 35 anos da editora ANTI-DEMOS-CRACIA, também conhecida como ADC, com sede na Aldeia de Paio Pires. Este marco foi celebrado com o lançamento do documentário "ADC 35 Anos - Uma História Em Movimento", que aborda a história da editora ao longo de três décadas e meia. 

O documentário, realizado por Fátima Rocha, apresenta testemunhos, sons e imagens que ilustram os 35 anos da editora, que conta com mais de 125 edições em diversos formatos desde 1988. A estreia do documentário ocorreu no dia 15 de junho 2024, no Ginásio Clube de Corroios, e foi acompanhada por um concerto da banda AMEEBA, que apresentou temas do seu segundo álbum. 

Além do documentário, foi também lançado um livro/catálogo que complementa a celebração dos 35 anos da editora. O projeto "ADC 35 Anos - Uma História em Movimento" (de Paulo Coimbra Martins e Carlos Paes) procura preservar a memória da editora e destacar a sua importância no cenário cultural da região. 

sábado, 3 de maio de 2025

Música do BioTerra: A Garota Não - Não sei o que é que fica


Então voltamos ao mesmo assunto
Somos tão bons pró resto do mundo
Na nossa casa o espeto é de pau
A prata é a fome do lobo mau
Welcome monsieur, a casa é vossa
O mal dos outros não nos faz mossa
Quem não aguenta a subida encosta
Habitação é fractura exposta
E eu que só vinha pra falar de amor
Deitar neste beat um poema em flor
Mas na porta ao lado há mais um despejo
Cai uma família, fica o azulejo
Começam as obras, que casa bonita!
Começam os guests, fome é infinita
Mais um AL, orgulho nacional
Corrida sem lei, onde vais Portugal?
Não sei o que é que fica se corrermos mais
O kê ke fica
Komé ke fica/
Quem é ke fica/
Como é que a gente fica/
Quando essa gente rica/
Gentrifica
Quando há uma gente k fica/
Com cada metro quadrado
Da nossa vida, memória
Onde é que a gente fica/
Quando nem se identifica
Com essa calçada refeita
Com essa fachada que foi feita
Para dar uma cara de outrora
A um fascismo de agora
Que só quer saber da receita
Na sede excêntrica
Quem vem de Paris é na hora
Quem tava aqui é pa fora/
Quem vem de cruzeiro vá bora/
Quem vem no barco que demora
Que vá morrer borda fora/
Que o estado quer o IMI
E o banco quer é penhora/
Voulez vous parlais
Parlais vous français/
Do you speak anglais/
Entre si vous plais/
Excepto se é cale
Excepto se vem de Calais/
E dizem que o mal é
Culpa de pobres, mas afinal
Qual é/
Coisa qual é ela/
Quem tem tanta gente sem casa, e tanta casa sem gente
E um camon à janela/
Qual é coisa qual é ela/
Que Desaloja e aloja
O camon e a loja
Da sardinha do Pastel
Ê o hostel, pa quem foge à
Geada do Norte
E o sul despoja/
Desalojamento local
Pra alojamento local
No mínimo é paradoxal
E agora este local, igual
A qualquer outra capital/
Senhor Presidente não ando feliz
Eu quero ser sonhos e não quem maldiz
Calem-se os fachos que ardam bandeiras
Aqui o assunto não são as fronteiras
É sempre bem vindo quem venha por bem
Problema é haver um casa pra cem
Salários tão baixos amarga a batuta
Que felicidade interna tão bruta

Benefícios das florestas nativas


As árvores nativas são essenciais para os habitats de vida selvagem, estabilidade do ecossistema, saúde do solo, retenção de água e sequestro de carbono.
Também fornecem alimentos, medicamentos e rendimentos para comunidades

domingo, 30 de março de 2025

Grande Reportagem - Rewilding Portugal e Grande Vale do Côa


O rewilding apresentado como uma ferramenta poderosa para permitir que a natureza se regenere por si própria, com intervenções humanas mínimas e estratégicas, acelerando assim a recuperação de ecossistemas e trazer de volta espécies-chave que desempenham papéis vitais no equilíbrio ecológico.

Mais do que voltar ao passado, olhamos é sempre para um futuro de paisagens biodiversas e funcionais, reagindo finalmente de forma prática e efetiva à degradação que a inação nos tem levado. E estamos todos os dias a fazê-lo no terreno, em proximidade, junto das comunidades e trazendo-lhes também benefícios sociais e económicos deste trabalho conjunto.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

As ilhas do Porto


As ilhas do Porto eram um tipo de habitação operária muito diferente do de outras cidades industriais, como Lisboa, onde existem os pátios, ou as cidades industriais europeias. Surgiram inicialmente na zona oriental da cidade, mas rapidamente se estenderam ao centro e aos concelhos limítrofes.
Para o aparecimento das ilhas acredita-se que tenha contribuído a grande influência inglesa na cidade. O esquema das ilhas é frequentemente associado às primeiras back-to-back houses em Leeds, quer em termos de morfologia, de promotores e em termos de intuito de construção.
A origem das ilhas é desconhecida sendo certo que no século XVIII já eram relatadas casas a que se chamava de ilhas.
Em inquirições de D. Afonso IV (1291-1357) fazem-se referência também a conjuntos de habitações com apenas uma saída para a rua.
Foi, no entanto, no final do século XIX, com o desenvolvimento industrial da cidade, e com a chegada de muitos migrantes das terras do norte do país, que este tipo de habitação se massificou.
Somente na freguesia de Campanhã houve 243 " ilhas". Ainda restam cerca de oito mil casas dos antigos bairros operários portuenses embora apenas pouco mais da metade ainda sejam habitadas.
Fontes: Viva! Porto, Domus Social, Cargo, Wikipédia.

domingo, 5 de maio de 2024

Subscreva o Manifesto Mais Cidadania

50 anos após o 25 de Abril, a democracia em Portugal está doente.


SINAIS E SINTOMAS: Polarização, revolta e falta de esperança

Vivemos num sistema político onde os processos eleitorais e os debates parlamentares reforçam ideias preconcebidas e a divisão da sociedade. A composição das assembleias municipais e da República, em conjunto, não é representativa da população: são mais homens, mais velhos e mais ricos que a nossa sociedade. Há a perceção de que as nossas vozes não são ouvidas sobre decisões de interesse geral. Observamos uma elevada abstenção eleitoral e a ascensão de forças antissistema que oferecem como alternativa o autoritarismo.

DIAGNÓSTICO: Reduziu-se democracia a eleições.

A organização em partidos é útil e necessária, mas insuficiente para a persecução dos interesses gerais e da convergência, pois cada qual precisa atender às suas bases de apoio. A necessidade de sobreviver aos ciclos eleitorais dificulta a implementação de políticas públicas de longo prazo. Os processos participativos existentes não mudam os rumos das políticas e não são acessíveis a uma grande parcela da população. Esta conjugação de fatores impede que a maioria das pessoas se sinta ouvida e representada.

TRATAMENTO: Instituir Assembleias Cidadãs.

Assembleias Cidadãs (ACs) são espaços em que pessoas comuns participam em sessões de informação transparentes e discutem, num ambiente estruturado e com a assistência de moderadores, quais são as melhores decisões sobre questões políticas complexas.

A legitimidade democrática deriva dos seus participantes serem, de facto, uma amostra representativa da população geral, ao refletirem a sua diversidade em termos de género, idade, nível de rendimentos, identidade étnico-racial e zona de residência. A amostragem é um método com provas dadas e um longo histórico de utilização nas ciências naturais e sociais, sendo indispensável para a regeneração de democracias doentes.

A aleatoriedade e rotatividade dos participantes é altamente resistente à corrupção e ao desenvolvimento de grupos com interesses particulares.

A etapa de aprendizagem, que precede a etapa de deliberação em pequenos grupos, é um antídoto para decisões baseadas em preconceitos e desinformação, permitindo gerar recomendações políticas pelo bem comum.

RESULTADOS ESPERADOS: Revitalização de laços sociais, regeneração das instituições, prevenção da corrupção.

Muitas experiências internacionais demonstram que ACs podem dar resposta a qualquer questão política, por muito complexa que seja, por exemplo: rever artigos de uma constituição (Irlanda), escolher um novo um sistema eleitoral (Canadá) ou decidir como responder à crise climática (França). Pela sua ação promotora de diálogo entre camadas distintas da sociedade, as ACs geram compromissos que dificilmente seriam atingidos em eleições e referendos, com resultados esperados na melhoria da governabilidade, na (re)estabilização do sistema político e na retoma da confiança nas instituições.

COMO USAR: Aplicação pura ou diluída.

As ACs já demonstraram enorme potencial político. O seu uso mais promissor é serem novas instituições políticas, complementando a representação por via eleitoral (exemplo: Ostbelgien). Em simbiose com os órgãos do poder, podem ser implementadas pelas juntas de freguesias, pelos municípios, pela Assembleia da República ou pelo governo. São uma poderosa ferramenta para encontrarmos consensos em questões de ordem local ou nacional. A sua introdução deve ser progressiva e a sua composição deve ser periodicamente avaliada e ajustada para se obterem os efeitos esperados.

COMO OBTER: Ação direta
Subscreva este manifesto e junte-se à construção de uma iniciativa legislativa para se reconhecer as Assembleias Cidadãs como (mais) uma forma válida do povo exercer o poder político.

Para grandes males, grandes remédios.

NOS 50 ANOS DO 25 DE ABRIL, QUEREMOS MAIS DEMOCRACIA!
25 de março de 2024

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

É melhor para o Ambiente consumirmos alimentos produzidos localmente?

Por Tiago Domingos
                                    
É uma ideia muito difundida que o consumo de produtos alimentares deve ser “de proximidade”, isto é, que deveremos consumir produtos feitos o mais próximo de nós em termos geográficos. Isto é, aquilo que, em inglês, ficou popularizado como redução das “food miles”. Será que esta ideia é correcta?

Como enquadramento, e focando-nos nas emissões de gases com efeito de estufa (GEE), comecemos por considerar que, globalmente, as emissões associadas ao sistema alimentar representam entre um quarto e um terço do total de emissões.

Vejamos quais são os principais factores que contribuem para estas emissões. Temos o que se designa como “uso do solo” (24%), principalmente associado à libertação de dióxido de carbono com a conversão de florestas e outros usos do solo (como o Cerrado no Brasil) para agricultura, com a consequente perda de carbono da biomassa das florestas e da matéria orgânica dos solos. Temos a produção de culturas agrícolas, para alimentação humana directa (21%) e para alimentos para animais (6%), onde temos principalmente emissões oriundas da emissão de óxido nitroso (N2O) oriundo da aplicação de adubo azotado. Temos as emissões da produção animal (31%), associadas às emissões de metano (CH4) do processo digestivo dos ruminantes e do estrume destes, das aves e dos suínos (neste caso incluindo também emissões de óxido nitroso). Finalmente, temos as emissões da cadeia de abastecimento, com 4% para o processamento dos alimentos, 6% para o transporte, 5% para o embalamento e 3% para o retalho.

Qual é a razão pela qual as emissões do transporte de alimentos são comparativamente tão baixas? É porque a maior parte dos alimentos é transportada por navio, com emissões por quilómetro 10 a 20 vezes inferiores às de camião e 50 vezes inferiores às de avião. Assim, mais de 80% das emissões do transporte de alimentos são oriundas do transporte doméstico (dentro de cada país) por camião (já as emissões do transporte aéreo são só 0,4%).

Podemos assim constatar que as emissões do transporte são uma fracção muito minoritária, sendo muito mais importante, em termos de escolhas alimentares, ter em conta factores que optimizem os outros 94%. Consideremos um exemplo, frequentemente referido neste debate a nível internacional. Comparando a produção de morangos em estufa no Reino Unido, com os correspondentes custos energéticos de aquecimento das estufas, com a produção ao ar livre em Espanha, acrescentando-lhes as emissões de transporte até ao Reino Unido, a conclusão é que o impacte ambiental é mais baixo se a produção for feita em Espanha.

Esta conclusão genérica não impede, no entanto, que haja situações específicas onde as emissões do transporte se revelem significativas, nomeadamente em situações associadas ao transporte aéreo de alimentos frescos.

Entretanto, em 2022, um estudo de uma equipa sino-australiana na revista Nature Food chegou à conclusão bombástica (e destacada em múltiplos meios de comunicação social internacionais) de que o transporte corresponderia a 20% das das emissões de GEE dos sistemas alimentares, assim colocando em causa todos os resultados anteriores e repondo a relevância de “consumir localmente”.

Vejamos então o que está aqui em causa. As emissões do transporte que temos vindo a considerar, e que são as que se associam ao conceito de food miles, são as emissões associadas ao transporte dos alimentos, entre o ponto de produção e o ponto de consumo. A razão pela qual a referida equipa sino-autraliana obteve emissões mais altas foi porque considerou também as (relevantes) emissões associadas ao transporte dos factores de produção agrícola (como fertilizantes ou pesticidas). Na verdade, relativamente às emissões para transporte de alimentos, esta equipa não obteve valores significativamente mais altos. Assim, na realidade, os resultados deste artigo não suportariam “consumir localmente”, só suportariam que se deveria produzir localmente os diferentes factores de produção agrícolas.

No entanto, em relação a este último aspecto, e de forma particularmente preocupante para um artigo publicado na revista com a reputação da Nature Food, constata-se que as emissões do transporte dos factores de produção foram drasticamente sobre-estimadas, pois os seus valores estão baseados numa estimativa de emissões do transporte de mercadorias que é o triplo da estimativa, muito mais credível, da Agência Internacional de Energia.

Em suma, este recente debate não trouxe novas informações, mantendo intacta a conclusão de que não há suporte para o critério de “consumir localmente”, quando consideramos emissões de gases com efeito de estufa.

Para finalizar, fica a observação de que a excessiva importância dada a consumir localmente está muitas vezes associada a visões ideológicas anti-globalização simplistas, que tendem a considerar como intrinsecamente errado que os alimentos sejam transportados de um lado do mundo para o outro, e que promovem, em alternativa, a auto-suficiência como um suposto ideal de sustentabilidade. São abordagens que, entre outras deficiências, esquecem os benefícios ambientais de fazer a produção agrícola nos locais agronomicamente óptimos.