Mostrar mensagens com a etiqueta TEK. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta TEK. Mostrar todas as mensagens

sábado, 23 de maio de 2026

Ailton Krenak e Satish Kumar: Shiva e o beija-flor


O diálogo entre Ailton Krenak e Satish Kumar gira em torno de uma crítica profunda ao modelo de civilização ocidental, propondo uma reconexão com a vida na sua totalidade.

As questões são abordadas através dos seguintes tópicos:

1.O Silêncio como Refúgio: A discussão começa com a necessidade de escapar do ruído e da violência das metrópoles modernas. Krenak cita a cultura Guarani e o conceito de se refugiar numa "Mata Escura" interna, uma forma de meditação livre para silenciar o ambiente e permitir a aprendizagem.

2.A Desconstrução do Conceito de "Natureza": Os pensadores criticam a forma como a sociedade de consumo mercantilizou e "cosmetizou" o meio ambiente para vender produtos. Krenak aponta que a palavra "natureza" é uma invenção da modernidade e não existe nas línguas indígenas; para os povos originários, não há separação, pois tudo faz parte de um mesmo corpo comunitário ("eu mesmo e os meus parentes").

3.A Crítica ao Utilitarismo Económico: Satish Kumar debate como o sistema industrial e a educação moderna reduziram o planeta a um mero "recurso económico" para gerar lucro. Esta lógica de exploração coisificou tudo, transformando inclusivamente as pessoas em "recursos humanos".

4.O Princípio da Vida Integrada: Baseando-se na filosofia de que tudo o que é natural está vivo, Krenak usa a metáfora da lagarta que se transforma em borboleta para ilustrar como a vida é uma força cósmica contínua que atravessa diferentes corpos e estruturas, sem divisões.

5.A Parábola do Beija-Flor: Diante do cenário de destruição global, utilizam a história do beija-flor que carrega gotas de água no bico para apagar um incêndio na floresta. A metáfora serve para justificar o ato de resistir e cultivar pequenos espaços de consciência, mesmo que pareça impossível reverter sozinhos o estrago feito pelas indústrias e pelo capitalismo.

6.A Manipulação da Linguagem e a Tecnologia: Krenak expressa preocupação com as novas ferramentas tecnológicas e a inteligência artificial corporativa. Para ele, as grandes corporações usam estes meios para disparar mensagens em massa, adulterando a comunicação humana autêntica e criando abismos sociais.

7.Guerras Globais e a Luta pela Terra: O debate aborda os conflitos bélicos contemporâneos motivados pela ambição territorial e pela ganância de tomar a terra alheia. Kumar defende que a humanidade precisa urgentemente de ouvir e respeitar os povos indígenas para aprender a viver em harmonia com o solo e os animais, em vez de tentar "civilizá-los".

8.A Autodestruição do Sapiens: O vídeo encerra com uma reflexão dura de Krenak, que define a mentalidade do homem moderno (Homo sapiens) como a de um "serial killer" planetário devido à sua sanha destrutiva e sistémica, enquanto Kumar conclui que este modelo industrial é insustentável e caminha para a própria ruína.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Melinda Janki: Como enfrentamos uma gigante petrolífera - e vencemos


As empresas petrolíferas podem parecer invencíveis, mas são mais vulneráveis ​​do que se imagina, afirma a advogada Melinda Janki, especialista em justiça climática e ambiental. Ela conta a história de como enfrentou a ExxonMobil no seu país natal, a Guiana, conquistando vitórias históricas contra a gigante petrolífera — e provando que podemos transformar as leis existentes em ferramentas poderosas para a mudança.

"Se intentar uma ação judicial por motivos ambientais e perder, não deverá suportar as custas da outra parte." - Melinda Janki

terça-feira, 3 de março de 2026

Shifting baseline syndrome key to growing nature disconnect


Not long ago, summer in the Pacific Northwest felt seasonal. Campfires were the norm, free from bans and fears of sparking catastrophic blazes. Windshield fluid had to be replenished after a long road trip — especially on rural highways or backcountry roads. We were lucky to get a week or two of hot weather.

Now, with drought alerts, heat and fire warnings and eerily fewer insects buzzing around the road, summer feels terminal. Many of us are old enough to be amazed at how quickly “normal” environmental conditions can change. Many of us are young enough to have never known anything different.

This latter inability to recognize the true scope of environmental change is a widespread phenomenon, called “shifting baseline syndrome.” Shifting baseline syndrome is “a socio-psychological phenomenon in which historical environmental information is lost over time and people do not notice changes in biological systems.” This concept was first coined by Daniel Pauly, a marine biologist at the University of British Columbia. In 1995, he observed that fisheries scientists evaluated changes in fish stock size and composition using the quantities at the beginning of their careers as a reference. With the next generation of fishers, fish stocks typically declined. However, each generation of scientists saw this degraded state as the new baseline, as there was, and still is, a lack of knowledge transfer between fishers. Without the passage of knowledge of environmental conditions, understanding of the magnitude of environmental change is lost. This ultimately shifts the condition’s “baseline,” which continues with each generation.

Shifting baseline syndrome is mainly linked to a lack of experience, memory and knowledge of historic conditions, typically caused by a lack of intergenerational communication about past environmental conditions and historical information. Studies have shown that older generations more readily recall accurate past environmental conditions compared to younger generations, indicating a “generational amnesia.” This gap between generations is happening through three avenues: lack of awareness or difficulties in accessing historical environmental data, lack of familiarity and knowledge of natural history and declining interactions between people and the environment. This last avenue is partly caused by increased urbanization, with fewer opportunities to interact with the environment, and partly because people are more inclined to go on social media or the internet instead of spending time in nature.

Why does it matter? 
Shifting baseline syndrome is increasingly recognized as a significant barrier to implementing policies and actions that could address some of today’s environmental challenges, because we misinterpret the scale and impact of change over time. When more experienced, older fishers fail to share their expertise and stories, newer fishers often accept the present ecosystem state without question. This can lead to less-effective measures being taken to address collapsing fish stocks because the resource decline was not recognized. This tolerance of degraded environments is one of many consequences of shifting baseline syndrome. When society gets used to a degraded environment as the baseline, further degradation will not be seen as something to be concerned about. With this generational amnesia and society’s decreasing contact with nature, we may see inappropriate conservation, restoration and management targets by policy-makers and stakeholders, and pushback against necessary conservation and restoration efforts. Even more concerning is the loss of public support for conservation measures such as the establishment of terrestrial and marine protected areas, which would go some way to halting environmental loss.

Shifting baseline syndrome is difficult to combat because it acts as an accelerating feedback loop. Trying to reduce its effects would take four strategies, suggested by researchers. The most direct action would be environmental restoration, specifically through rewilding efforts. As environmental degradation accelerates, this is of utmost importance to protect biodiversity. Second is to gather more high quality and consistent environmental data. This gives future researchers and scientists an actual, holistic baseline and makes them more informed regarding environmental conservation efforts they partake in. Furthermore, the broader public should be encouraged to increase interactions with nature to gain a better understanding and relationship with the environment. Finally, through public education, we can increase people’s familiarity with nature while also providing more accurate information on historic and current environmental conditions. Indigenous knowledge is crucial to limiting the syndrome’s effects, as it pushes forward the lived experiences of communities that recognize historic baseline conditions. In this way, sharing Indigenous knowledge is a remedy against generational amnesia.

Shifting baseline syndrome has been fuelled by the lack of connection that people have with one another and between people and the environment. In the article “Integrating historical sources for long-term ecological knowledge and biodiversity conservation,” the researchers highlight the value of historical data sources for providing a baseline for species and ecosystem change over time. Since beginning this initiative, we have pored over historical images and maps and read accounts of voyages from the 1800s describing vast schools of dolphins and porpoises playing about ships and a sea that abounds with fish. How much we have lost! Over the month of March, we will compare historical records with present-day imagery and historical storytelling to represent generational change. We hope that through our exploration of shifting baseline syndrome, we can encourage communities to reflect on changes they’ve observed and encourage action and advocacy for increased environmental protection, so that we can begin to halt biodiversity decline.

Dia Mundial da Vida Selvagem


Hoje, 3 de março celebra-se, anualmente, o Dia Mundial da Vida Selvagem. 

Este ano com o tema Plantas aromáticas e medicinais - preservar a saúde, o património e os meios de subsistência.
A 3 de março de 2026, das 12:30 h às 14:30 (hora de Lisboa) assista aqui à celebração oficial da ONU, que contará com histórias e apresentações sobre o uso sustentável e a conservação de plantas aromáticas e medicinais, por especialistas dos Estados-Membros, representantes de alto nível de organizações internacionais, partes interessadas da indústria, líderes comunitários locais e membros de redes juvenis.

Vídeo oficial (em inglês)
Sítio oficial da comemoração (versão espanhola - permite tradução para português).

Utilize ainda os materiais informativos e educativos no sítio do ICNF - Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, I. P.

Como pode ajudar?
- Descubra mais acerca das plantas nativas da sua região.
- Ajude a conhecer onde elas existem inserindo as suas observações em plataformas de ciência-cidadã como a Biodiversity4all.
- Evite a colheita de plantas selvagens, a menos que tenha formação e autorização para tal.
- Se usar produtos à base de plantas, escolha os de origem sustentável.
- Se é pai/mãe ou professor(a) ensine os seus filhos(as) e alunos(as) a conhecer e proteger as plantas nativas.
- Maximize o seu impacto contribuindo para iniciativas de conservação.
- Tenha plantas aromáticas ou medicinais nativas em casa ou no seu jardim ou quintal.

Sabia que?
- Cerca de 25% dos medicamentos modernos são derivados de plantas.
- Estima-se que entre 50.000 a 70.000 espécies de plantas são usadas medicinalmente e cerca de 1.500 delas estão listadas nos Anexos da CITES - Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção - e mais de 800 no seu Anexo II.
- Algumas farmacopeias indígenas documentam milhares de remédios à base de plantas.
- No mundo, as plantas selvagens sustentam milhões de família rurais, através do comércio, da medicina e do artesanato.
- As práticas de cultivo e colheita de plantas aromáticas e medicinais garantem recursos vitais para muitas famílias, sendo que, no mundo, uma em cada cinco pessoas depende de plantas silvestres, algas e fungos para a sua alimentação e rendimento.
- A identidade cultural, as práticas espirituais e as tradições curativas são, frequentemente, indissociáveis da biodiversidade vegetal.
O objetivo deste dia é consciencializar os cidadãos para a proteção da fauna e flora, especialmente as espécies ameaçadas. Pretende-se, também, demonstrar os benefícios que a conservação das espécies tem para a vida no planeta e para a sobrevivência do ser humano.

Sobre o Dia Mundial da Vida Selvagem
Este dia foi criado na 16.ª Conferência das Partes da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção, em Março de 2013, por iniciativa da Tailândia. Mais tarde, a 20 de dezembro de 2013, a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou este dia, através da Resolução 68/205

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Rutura climática pode reduzir capacidade de terras para pastagem em 50% até 2100


Entre um terço e 50% das terras que têm hoje condições favoráveis para pastagens vão perder essa capacidade até 2100, devido ao aumento da temperatura, concluiu um estudo do Instituto de investigação de Potsdam sobre as alterações climáticas (PIK).

Esta atividade consiste em criar animais, como vacas, cabras e ovelhas, em espaços naturais, pradarias, na sua maioria, que cobrem cerca de um terço da superfície terrestre.

Até agora, estes sistemas agrícolas têm prosperado dentro de intervalos de temperatura (entre 3ºC negativos e 29°C), de precipitação (entre 50 e 2627 milímetros por ano), de humidade (de 39% a 67%) e velocidade do vento (entre um metro e seis metros por segundo).

É o que o estudo, publicado hoje na revista PNAS, chama “um espaço climático seguro”.

Mas, com a rutura climática global, estes parâmetros podem mudar e inutilizar um espaço de pastagem.

“As alterações climáticas vão reduzir os espaços onde a pastagem pode prosperar, comprometendo práticas agrícolas que existem desde há séculos”, disse Maximilian Kotz, co-autor do estudo e investigador do PIK e do Barcelona Supercomputing Center.

Segundo o cenário analisado, o estudo estima que entre 100 milhões a 400 milhões de pastores e criadores de gado podem ser afetados, bem como até 1,6 milhões de animais. O estudo estima que entre 51% e 81% das populações residem em países com fraco rendimento.

“É importante sublinhar que numerosas mudanças vão ser sentidas em países que já sofrem fome, instabilidade económica e política e níveis muito elevados de desigualdade de género”, realçou o autor principal, Chaohui Li, investigador do PIK na altura da realização do estudo e hoje no Barcelona Supercomputing Center.

A África é particularmente vulnerável e pode perder de 16% a 65% das suas pradarias, segundo a gravidade do cenário considerado.

As temperaturas no continente africano já se situam no limite do “espaço climático seguro”.

Estas conclusões, que em certos casos preveem o desaparecimento puro e simples de algumas pastagens, colocam em questão “a eficácia das estratégias de adaptação (…), como as mudanças de espécies ou a migração de rebanhos”, disse Prajal Pradhan, investigador do PIK e professor na Universidade de Groningue.

“Reduzir as emissões, através do afastamento rápido os combustíveis fósseis é a melhor estratégia de que dispomos para minimizar estes estragos potencialmente existenciais para a criação de gado”, concluiu Chaohui Li.

Segundo a agência da ONU para a alimentação e a agricultura, 26% da superfície terrestre e 70% da superfície agrícola estão cobertos de pradarias, que contribuem para a subsistência de mais de 800 milhões de pessoas

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Dia Mundial das Zonas Húmidas: Expansão agrícola e urbana, alterações climáticas e invasoras continuam a pressionar estes ecossistemas vitais


Ambientes aquáticos costeiros ou interiores que albergam uma grande diversidade de formas de vida, que fornecem uma série de serviços críticos para o bom funcionamento dos ecossistemas e para a sobrevivência de humanos e não-humanos. Contudo, estão gravemente ameaçados, sobretudo devido à forma como temos lidado com eles, e a sua degradação custar-nos-á caro.

Para quem ainda não percebeu, falamos de zonas húmidas, pois esta segunda-feira, dia 2 de fevereiro, assinala-se o Dia Mundial das Zonas Húmidas. Esta efeméride foi estabelecida com a adoção da Convenção de Ramsar, em vigor desde 1975, e que tem como missão basilar a conservação desses habitats, vitais para humanos e não-humanos, para a diversidade biológica e sociocultural, e também eles muito diversos.

As zonas húmidas podem ser pântanos, charcos, ou turfeiras, naturais ou artificiais, de água estagnada ou corrente, de água doce, salobra ou salgada, incluindo áreas de água do mar cuja profundidade não seja superior a seis metros. Além disso, podem incluir zonas ribeirinhas ou costeiras que a elas sejam adjacentes, como “ilhéus ou massas de água marinha com profundidade superior a seis metros durante a maré baixa”, especialmente de forem importantes como habitats para aves marinhas.

Apesar de apenas cobrirem 6% da superfície da Terra, estimativas apontam para que cerca de 40% de todas as espécies de animais e de plantas dependem das zonas húmidas, para viverem, para se alimentarem e para se reproduzirem.

Um estudo publicado em 2023 na ‘Nature’ revelava que, entre 1700 e 2020, o mundo perdera cerca de 21% das suas zonas húmidas devido às atividades humanas, uma extensão perto dos 3,4 milhões de quilómetros quadrados. Essas perdas foram sobretudo causadas pela conversão das zonas húmidas em áreas agrícolas, mas também pela poluição, pela expansão urbana e industrial e pelo turismo insustentável.Stanford-led study finds global wetlands losses overestimated despite high losses in many regions

À Green Savers, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) explica que, quando a essas ameaças juntamos os efeitos das alterações climáticas, “o cenário torna-se, de facto, mais preocupante”.

Por provocarem secas cada vez mais frequentes e intensas, as alterações climáticas são apontadas como umas das principais ameaças às zonas húmidas. Quando esses habitats, como as turfeiras, perdem a água que lhes dá vida, o carbono aí armazenado ao longo de muitos anos no solo e na biomassa pode acabar por libertar-se na atmosfera, “contribuindo de forma significativa para um aumento das emissões globais de dióxido de carbono” e também para a crise climática.

Atualmente, aproximadamente 25% das espécies que dependem das zonas húmidas (para se reproduzirem, para se alimentarem, como pontos de paragem importantes durante migrações) estão ameaçadas de extinção, diz o ICNF. E se a destruição desses habitats não for travada e se não se recuperar dos danos causados, essas espécies enfrentarão um risco ainda maior.

As zonas húmidas em Portugal
Em Portugal, as zonas húmidas estão também a sofrer uma série de pressões, à semelhança do que se passa no resto do mundo.

Diz-nos o ICNF que, de acordo com dados comunicado pelo país à Comissão Europeia no ano passado relativos ao período entre 2019 e 2024, 58,7% dos habitas de zonas húmidas de Portugal continental e regiões autónomas estão em bom estado de conservação. Em sentido inverso, 31,7% estão avaliados como em mau estado de conservação.

Por cá, as principais ameaças às zonas húmidas são a fragmentação, degradação e destruição, especialmente devido à intensificação da agricultura e da silvicultura, à expansão urbana e à “crescente pressão turística”, explica o instituto. A agravar esses fatores está a introdução de espécies exóticas invasoras “que afeta a estrutura das comunidades biológicas nativas destes ecossistemas”, e, claro, as alterações climáticas são mais um prego no caixão.

Portugal tem 32 zonas húmidas protegidas ao abrigo da Convenção de Ramsar, com uma área total combinada de perto de 134.000 hectares. A Lagoa de Óbidos foi a mais recente adição à lista portuguesa de Sítios Ramsar, com cerca de 6,9 quilómetros quadrados e fazendo fronteira com os concelhos de Caldas da Rainha e de Óbidos.

O ICNF assegura que quase todas as zonas húmidas listadas da Convenção de Ramsar estão sujeitas a algum tipo de proteção legal, seja por serem parte da Rede Nacional de Áreas Protegidas, por serem Zonas de Proteção Especial no âmbito da Diretiva Aves da União Europeia ou Zonas Especiais de Conservação da Diretiva Habitats, por estarem sujeitas aos Planos Diretores Municipais ou ainda por estarem incluídas nas reservas agrícola ou ecológica nacionais.

No relatório nacional submetido em fevereiro do ano passado à 15.ª Conferência das Partes (COP15) da Convenção de Ramsar, que aconteceu em Victoria Falls, no Zimbabué, Portugal diz que entre a COP15 e a COP14, de 2022, conseguiu-se aumentar a consciência das populações e das autoridades locais para o valor das zonas húmidas e para a sua importância na adaptação e mitigação das alterações climáticas.

O documento aponta ainda como conquistas nesse período de três anos o aumento do número de eventos e atividades realizados todos os anos no país para celebrar o Dia Mundial das Zonas Húmidas, o “aumento significativo” do número de projetos implementados de restauro de zonas húmidas, a crescente valorização da dimensão sociocultural e histórica desses habitats e o maior número de ações para gerir e controlar espécies invasoras que ameaçam esses ecossistemas.

Entre as principais dificuldades na implementação da convenção entre 2022 e 2025 Portugal indicou a falta de planos de gestão para a maioria dos Sítios Ramsar no país, a falta de um inventário nacional das zonas húmidas, o aumento dos impactos das alterações climáticas, o aumento da agricultura intensiva em algumas zonas do país e a “rápida expansão” das espécies invasoras.

Para o biénio 2026-2028, Portugal elencou como prioridades a continuação da gestão das invasoras, o desenvolvimento do inventário nacional, a criação de um órgão equivalente a uma comissão nacional das zonas húmidas e o reforço do envolvimento da população na conservação desses ecossistemas.

As pessoas e as zonas húmidas

O tema do Dia Mundial das Zonas Húmidas deste ano pretende destacar a íntima e longeva ligação entre as culturas humanas e esses habitats aquáticos, especialmente salientando os serviços culturais por eles prestados aos humanos.

“As pessoas coexistem com as zonas húmidas desde a pré-História, aproveitando os serviços que elas prestam, e desenvolvendo um valioso conhecimento tradicional”, diz-nos fonte do ICNF. Durante milénios, essa coexistência permitiu à nossa espécie desenvolver um amplo conhecimento tradicional, transmitido de uma geração para a seguinte, que sobre os aspetos mais científicos das zonas húmidas, mas também sobre as dimensões éticas e espirituais.

Esse saber alicerçado na convivência e interligação com esses habitats, e com a vida que neles se encontra, permitiu “uma gestão sustentável dos recursos naturais fornecidos pelas zonas húmidas ao longo de milhares de anos”, afirma o instituto, que considera que devemos olhar para o passado, aprender com aqueles que vieram antes de nós, para tentar solucionar os problemas com os quais nos deparamos no presente.

“A integração destas práticas e tradições ancestrais nas estratégias de conservação atuais é essencial para obter soluções eficazes, inclusivas e duradouras”, argumenta o ICNF, destacando como fundamental o envolvimento das comunidades locais e a valorização e aproveitamento do seu conhecimento e experiência para proteger, conservar e restaurar as zonas húmidas.

“Os conhecimentos locais, bem como a ciência cidadã, já são recursos inestimáveis para se conhecer o estado das zonas húmidas.”

Por tudo isso, a continuação da perda de zonas húmidas ameaça a sobrevivência de muitas espécies de plantas e de animais que delas dependem, põe em risco a subsistência de diversas comunidades humanas que nelas encontram a sua principal fonte de sustento, como pescadores e mariscadores, e podem fazer desaparecer tradições e costumes de séculos ou de milénios de existência, como festas e romarias, que ainda hoje são celebradas e que têm as zonas húmidas no seu cerne.

“A perda e degradação das zonas húmidas agrava o problema da perda da biodiversidade e coloca em risco as espécies dependentes destes habitats”, diz-nos o ICNF, e “ameaça não só a subsistência das suas comunidades locais, como também a sua identidade cultural”.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

A mística e a educação ambiental na conservação da natureza


A mística e a educação ambiental na conservação da natureza

Resumo
A crise socioambiental contemporânea evidencia os limites de abordagens exclusivamente técnico-científicas na conservação da natureza. Neste contexto, a mística — entendida como uma experiência profunda de conexão, sentido e transcendência na relação ser humano–natureza — emerge como um elemento relevante para a educação ambiental. Este ensaio analisa o papel da mística na educação ambiental e sua contribuição para a conservação da natureza, defendendo que dimensões simbólicas, éticas, espirituais e afetivas são fundamentais para promover mudanças duradouras de valores, atitudes e práticas socioambientais.

Palavras-chave: mística; educação ambiental; conservação da natureza; ética ambiental; espiritualidade ecológica.

1. Introdução
A degradação ambiental, a perda de biodiversidade e as alterações climáticas colocam desafios complexos à humanidade. Apesar dos avanços científicos e tecnológicos, observa-se uma persistente distância entre o conhecimento ambiental e a transformação efetiva dos comportamentos sociais. Tal cenário tem levado educadores e investigadores a questionar modelos de educação ambiental centrados apenas na transmissão de informação e no racionalismo instrumental.

Neste contexto, a mística surge como uma dimensão frequentemente marginalizada no campo académico, mas historicamente presente nas relações humanas com a natureza. Diferentes culturas, tradições espirituais e movimentos sociais reconhecem a experiência mística como fonte de sentido, compromisso ético e cuidado com o mundo natural. Este ensaio propõe reflectir sobre a articulação entre mística, educação ambiental e conservação da natureza, argumentando que a integração desta dimensão pode fortalecer processos educativos mais críticos, transformadores e emancipatórios.

2. Compreendendo a mística no contexto socioambiental
A mística pode ser compreendida como uma experiência de profundidade existencial caracterizada pela sensação de unidade, interconexão e pertença a uma totalidade maior. No contexto ambiental, essa experiência manifesta-se na relação sensível e ética com a natureza, percebida não apenas como recurso, mas como comunidade de vida.

Diferentemente de uma abordagem estritamente religiosa, a mística ecológica pode assumir formas laicas, interculturais e plurais. Ela expressa-se no encantamento diante da biodiversidade, no silêncio contemplativo, no cuidado com os ecossistemas e na reverência pela vida. Autores da ecologia profunda e da ética ambiental defendem que tal experiência é essencial para superar a lógica utilitarista que sustenta a crise ecológica.

Assim, a mística não se opõe à ciência, mas complementa-a, oferecendo uma base simbólica e afetiva para a construção de valores ecológicos e de uma ética do cuidado.

3. Educação ambiental: limites e possibilidades
A educação ambiental consolidou-se como um campo interdisciplinar voltado para a formação de sujeitos críticos e comprometidos com a sustentabilidade. No entanto, práticas educativas excessivamente normativas, informativas ou tecnocráticas tendem a produzir resultados limitados, sobretudo quando desconsideram as dimensões emocionais, culturais e espirituais dos educandos.

A incorporação da mística na educação ambiental amplia suas possibilidades pedagógicas, ao favorecer experiências vivenciais, sensoriais e reflexivas. Caminhadas interpretativas, atividades de imersão na natureza, narrativas simbólicas, arte, rituais ecológicos e momentos de silêncio são exemplos de práticas que podem despertar vínculos afetivos e sentido de responsabilidade ecológica.

Essa abordagem contribui para uma educação ambiental que não apenas informa, mas transforma, ao tocar dimensões profundas da subjetividade humana.

4. Mística e conservação da natureza
A conservação da natureza depende, em grande medida, de escolhas éticas e políticas fundamentadas em valores. A mística pode atuar como força mobilizadora, capaz de inspirar atitudes de respeito, cuidado e solidariedade interespécies. Comunidades tradicionais e povos indígenas, por exemplo, frequentemente articulam práticas de conservação a cosmovisões espirituais que reconhecem a sacralidade da natureza.

Ao integrar a mística à educação ambiental, promove-se uma mudança de paradigma: da dominação para a convivência, da exploração para o cuidado, da fragmentação para a interdependência. Tal mudança é crucial para sustentar estratégias de conservação que sejam socialmente justas, culturalmente sensíveis e ecologicamente eficazes.

5. Considerações finais
A mística, enquanto experiência de conexão profunda com a natureza, constitui um elemento potente para a educação ambiental e a conservação da natureza. Sua integração no campo educativo contribui para superar reducionismos racionalistas e fortalecer uma ética ecológica baseada no cuidado, na responsabilidade e na pertença à comunidade da vida.

Este ensaio defende que a educação ambiental deve reconhecer e valorizar a dimensão mística como parte legítima dos processos formativos, promovendo abordagens pedagógicas integradoras, críticas e sensíveis. Num contexto de crise civilizatória, a reconciliação entre conhecimento, sensibilidade e espiritualidade pode representar um caminho fecundo para a construção de sociedades mais sustentáveis.

Referências bibliográficas

domingo, 21 de dezembro de 2025

Santuário Cósmico


O santuário cósmico não é um lugar delimitado por paredes ou altares visíveis. Ele existe na totalidade do universo e manifesta-se sempre que o ser humano reconhece a sacralidade da vida. Cada estrela, cada organismo vivo, cada sopro de ar compõe este templo maior, onde tudo está interligado por relações de dependência, equilíbrio e mistério.

A cosmologia científica descreve a evolução do cosmos desde o Big Bang, a formação das galáxias, das estrelas e dos planetas, até ao surgimento da vida. Ao fazê-lo, mostra que somos feitos da mesma matéria primordial que deu origem às estrelas. Esta perceção reforça a ideia do santuário cósmico: não somos visitantes externos, mas expressão consciente de um processo cósmico em contínua transformação. O templo não está fora de nós; ele prolonga-se na nossa própria existência.

A cosmogonia, por sua vez, oferece narrativas simbólicas sobre a origem do mundo. Mitos de criação, tradições religiosas e saberes ancestrais não competem com a ciência, mas respondem a outras perguntas: porquê existimos, qual o nosso lugar, que valores devem orientar a vida. Essas narrativas transformam o cosmos em espaço de significado, onde cada elemento participa de uma história sagrada.

Pensar o cosmos como santuário é admitir que a natureza não é apenas recurso, mas presença. O solo que pisamos, a água que bebemos e a luz que nos aquece participam de uma ordem mais ampla, que nos antecede e nos transcende. Nesse sentido, cuidar da Terra torna-se um gesto espiritual: preservar é reverenciar, destruir é profanar.

O santuário cósmico também convida à humildade. Diante da imensidão do universo, o ser humano percebe a sua pequenez, mas também a sua responsabilidade. Somos parte do todo e, ao mesmo tempo, conscientes dele. Essa consciência transforma-se em ética: uma forma de estar no mundo baseada no respeito, na cooperação e na gratidão.

Por fim, reconhecer o cosmos como santuário é reconciliar ciência e espiritualidade. O conhecimento científico revela as leis e processos que sustentam a vida; a contemplação espiritual atribui sentido e valor a essa revelação. Juntas, elas apontam para uma visão integrada da existência, onde viver é, em si, um acto sagrado.

sábado, 13 de dezembro de 2025

Ecologia espiritual: uma nova visão para a conservação da natureza

E-Livro aqui

Introdução
A ecologia espiritual tem vindo a ganhar relevância no debate ambiental contemporâneo, ao propor uma ligação profunda entre o ser humano e a Terra. Mais do que uma abordagem científica, trata-se de uma visão que integra ética, cultura, espiritualidade e ecologia. Num momento marcado por crises climáticas, perda de biodiversidade e degradação dos ecossistemas, esta perspetiva convida a repensar a relação humana com o planeta.

Este artigo tem como objetivo explorar os fundamentos conceptuais da ecologia espiritual, identificar os seus principais pensadores e avaliar a forma como esta perspetiva contribui para práticas e políticas de conservação da natureza.

A essência da ecologia espiritual
A ecologia espiritual parte da ideia de que a natureza possui valor intrínseco, independentemente da sua utilidade para a humanidade. Inspirada em tradições ancestrais e em contributos da ecologia profunda, esta visão realça três princípios fundamentais:
  • Interdependência entre todos os seres vivos;
  • Valor intrínseco da Terra como comunidade de vida;
  • Transformação ética e espiritual para enfrentar a crise ecológica.
Pensadores que moldaram esta abordagem
Vários autores contribuíram para consolidar a ecologia espiritual:
  1. Arne Næss, filósofo da ecologia profunda, defendeu uma mudança do antropocentrismo para uma visão ecocêntrica.
  2. James Lovelock e Lynn Margulis, com a Hipótese Gaia, mostraram a Terra como sistema vivo e autorregulado.
  3. Thomas Berry, historiador cultural, apelou à criação de uma nova narrativa cosmológica capaz de reconectar humanidade e planeta.
  4. Joanna Macy articula espiritualidade e ativismo ambiental em processos de reconexão com a vida.
  5. Vandana Shiva destaca o valor das cosmologias indígenas e ecofeministas na proteção dos ecossistemas.
  6. Seyyed Hossein Nasr lembra que a crise ecológica também é uma crise espiritual da modernidade.
  7. A espiritualidade franciscana, atualizada na Laudato Si’, reforça a ideia de “casa comum”.
Um impacto visível na conservação da natureza
A ecologia espiritual contribui para a conservação de várias formas:
Motiva comportamentos ambientais mais profundos e duradouros, baseados no cuidado e não apenas na gestão técnica.
Valoriza saberes ecológicos tradicionais, que têm protegido florestas, rios e territórios ao longo de séculos.
Influência narrativas ambientais globais, reforçando a ética da responsabilidade e do cuidado planetário.

Conclusão
A ecologia espiritual não substitui a ciência ecológica, mas amplia-a, oferecendo novas linguagens, valores e horizontes de sentido. Num tempo de grandes desafios ambientais, esta perspetiva pode ajudar a construir culturas de cuidado e práticas de conservação mais integradas, participativas e transformadoras. Ao reconectar o ser humano com a Terra, abre caminho para uma verdadeira mudança civilizacional.

Referências bibliográficas
  1. Berry, T. (1999). The Great Work: Our Way into the Future. Bell Tower.
  2. Lovelock, J. (2000). Gaia: A New Look at Life on Earth. Oxford University Press.
  3. Macy, J., & Brown, M. Y. (2014). Coming Back to Life: The Updated Guide to the Work That Reconnects. New Society Publishers.
  4. Margulis, L. (1998). Symbiotic Planet: A New Look at Evolution. Basic Books.
  5. Næss, A. (1989). Ecology, Community and Lifestyle. Cambridge University Press.
  6. Nasr, S. H. (1968). Man and Nature: The Spiritual Crisis of Modern Man. Allen & Unwin.
  7. Pope Francis. (2015). Laudato Si’: On Care for Our Common Home. Vatican Press.
  8. Shiva, V. (2016). Earth Democracy: Justice, Sustainability, and Peace. North Atlantic Books.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

O Dia Internacional das Montanhas de 2025 destaca as comunidades e os ecossistemas das montanhas do mundo



O Dia Internacional das Montanhas é celebrado em todo o mundo anualmente em 11 de dezembro, e é um dia dedicado ao papel que as montanhas desempenham na manutenção da vida, da cultura e da biodiversidade. As montanhas ocupam aproximadamente 22% da área terrestre da Terra. e são o habitat natural de mais de 1.1 bilião de pessoas em todo o mundo. Elas oferecem rios, alimentos, energia e uma fonte de patrimônio cultural para as populações que vivem tanto em suas encostas quanto em áreas mais afastadas. Este Dia Internacional das Montanhas de 2025 é um momento para lembrar as comunidades de montanha e a natureza que delas dependem; portanto, o foco se volta para a necessidade de sua gestão sustentável para salvar essas áreas delicadas.

Ameaças aos ecossistemas de montanha
Ainda assim, os ecossistemas de montanha estão declinando de forma muito grave em várias partes do mundo. As mudanças climáticas aceleraram o derretimento das geleiras, elas estão recebendo chuvas em épocas nunca antes vistas e estão sofrendo deslizamentos de terra com mais frequência devido ao aquecimento global.

Corte de madeira, extração de minerais e atividades turísticas descontroladas. São exemplos de intervenções humanas que tornam o local ainda mais perigoso para os moradores dessas áreas. fauna e flora da montanha Essas regiões são particularmente vulneráveis, visto que um grande número de espécies está aclimatado a pouquíssimas condições climáticas. É de suma importância que protejamos esses ecossistemas para garantir o abastecimento contínuo de água e o equilíbrio ecológico para milhões de pessoas que vivem rio abaixo.

Comunidades de montanha: a vida em lugares altos
As montanhas não são meramente formações naturais; elas também abrigam civilizações e meios de subsistência distintos. Normalmente, comunidades indígenas e rurais Eles se dedicam à agricultura, à pecuária e ao turismo como fontes de renda. No entanto, estão na linha de frente para sofrer os impactos negativos das mudanças ambientais.[Fonte]

Neste dia, os eventos e projetos giram principalmente em torno do tema de equipar os habitantes com os meios de sobrevivência através da implementação de práticas ecologicamente corretas e do uso de energia renovávele a oferta de educação.

Aumentar a Conscientização e a Ação
O Dia Internacional das Montanhas de 2025 é uma oportunidade para aumentar a conscientização e agir em prol da conservação e do desenvolvimento sustentável de áreas de alta altitude. Muitas organizações promovem a data realizando workshops, organizando mutirões de limpeza comunitários, fornecendo informações educativas e patrocinando atividades de aventura para conectar as pessoas a essas paisagens majestosas. Este dia promove a colaboração global e o apoio mútuo para ajudar a garantir a prosperidade das montanhas. comunidades montanhosas e ecossistemas saudáveis.

Ao celebrarmos este dia, lembramos da importância das montanhas para a vida, a cultura e a regulação do clima da Terra, e que, ao protegê-las, podemos ajudar a garantir que as pessoas e os ecossistemas prosperem nas montanhas do mundo para as gerações futuras.

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

From priorities to actions at the IUCN Congress



Early October in Abu Dhabi, more than 10,000 participants hailing from over 140 countries converged at the IUCN World Conservation Congress, united by a deep commitment to nature. This quadrennial gathering is more than a forum to debate global conservation priorities, and this year particularly one may emphasise that this was a “Solutions Congress”: a platform to catalyse action, including channelling more finance into nature restoration, conservation and stewardship. Unlike many conferences that end with lofty declarations, this meeting insisted on tangible instruments and pathways forward, including the role of high-integrity nature credits.


Money matters to nature
To appreciate the stakes, one must grasp how stark the financial gap is. Current assessments suggest global biodiversity conservation receives USD 124–143 billion annually, while an estimated gap of USD 942 billion remains to meet the goals of the Global Biodiversity Framework.

Approximately 80% of current conservation funding still comes from public sources (governments and multilateral institutions). That means private capital, philanthropy and market instruments must scale rapidly if we are to close the gap. The Global Biodiversity Framework itself includes Target 19, which explicitly mentions biodiversity credits as one of several financial mechanisms for resource mobilisation.

In short: the financing shortfall is enormous, and expecting governments alone to carry the burden is unrealistic.

The “Solutions Congress” in action
When we spoke on the closing stage on Sunday, we weren’t signalling the end of the conversation - we were signalling a shift into urgent implementation. Across dozens of sessions, side meetings and panel dialogues, one theme resonated repeatedly: how to generate more investment in biodiversity, channel more funds to Nature’s stewards and, through this, support the inclusive development of nature-rich countries committed to Nature restoration and preservation.

The question thus arises of how to translate this “financing nature” discussion into programs, pilots and regulatory guardrails that can be applied now because, at the end of the day, this is essential for nature and for our economies.

This strong interest on biodiversity certificates and credits could be felt at the IUCN Congress and was confirmed by the adoption of the Resolution 078, which recognises these tools as essential to financing nature.
 
Biodiversity credits: A key tool in a large toolbox
Biodiversity credits sit within the broader category of “nature credits” – economic instruments that link measurable positive nature outcomes across a range of ecosystem services to funding mechanisms. In practical terms:

A biodiversity credit (or “biocredit”) is a certificate that represents a measured and evidence-based unit of positive biodiversity outcome that is durable and additional to what would have otherwise occurred.

Credits represent the biodiversity outcomes linked to a project and can be sold and issued throughout the project lifecycle. Certificates provide validated proof that inputs, outputs and outcomes have been achieved.

Buyers (corporations, governments, multilateral development banks, philanthropic funds, financial institutions) can purchase credits, thereby directing money to projects that generate real, additional biodiversity benefits.

Biodiversity credits can be used to support both conservation and restoration of nature including maintenance activities.

The goal is not to monetise nature itself but to monetise the results of actions that produce ecological value, making them investable.
As many at the Congress stressed, biodiversity credit markets must embed high integrity, strong governance and social equity from the start, not as afterthoughts. This is what the International Advisory Panel on Biodiversity Credits, of which we both are members, is addressing through our Framework for high-integrity biodiversity credit markets. This Framework was developed with input from over 120 experts from varied disciplines (including Indigenous Peoples and scientists) and more than 25 countries.

Credits can be bought for different reasons and under different circumstances. One may buy a credit to make a positive contribution outside of the buyers’ direct impact; we call this “evidence-based contributions”. Similarly, a buyer may buy a credit for local compensation of direct impacts on biodiversity (under strict conditions and only after the “mitigation hierarchy” has been followed). Thirdly, a company may seek a proactive investment within its supply chain for transition and resilience reasons; for example, to enhance biodiversity-related productivity and mitigate associated risks – this is what we call “supply chain insetting”.

Additionally, credit systems can be voluntary, where companies or individuals choose to buy credits, or may be compliance schemes, which means they are required in certain jurisdictions.

Certain regions may prioritise specific credit types. For example, in arid or water-stressed regions, water credits might be an early stepping stone. In forested areas, forest conservation credits might figure heavily.

Integrity is paramount
Credit systems are vulnerable to a host of pitfalls, from weak baselines to double counting to “greenwashing” claims. We have witnessed many of these in the carbon markets. To ensure high integrity and, as a result, credibility and impact, the IAPB Framework puts forward key principles and guidance on: robust biodiversity baselines and additionality; permanence and durability (ensuring the biodiversity benefits endure over time); independent verification and monitoring by trusted third parties; legal clarity on rights to biodiversity, land and the “right to claim” benefits; and most importantly on community consent, participation, equity, and benefit sharing, especially with Indigenous Peoples and local communities as stewards of nature.
 
In closing: A Congress of action, not closure
When we walked off that stage the lights didn’t dim on a finished conversation. We stepped forward into a space of collective urgency. The next crucial phase, turning ambition into scalable, high-integrity action, lies ahead.

The IUCN Congress in Abu Dhabi did something rare: it planted seeds of expectation, critical collaboration and momentum. Over the coming months and years, success will depend on partnerships, adaptive governance, rapid innovation and willingness to learn from missteps. If nature credits, backed by public, private, and philanthropic capital, can deliver high impact for nature and people, they may become a powerful tool to finance a living planet.

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Mia Couto - O "Pensajeiro"


Humilde e encantador "Pensageiro" Mia Couto. 
O poeta observa a realidade do seu povo e percebe as desigualdades, como a falta de acesso à leitura e à educação. As suas viagens inspiram-nos a ser melhores e mais humanistas. Não só poesia e Moçambique, mas também uma consciência sobre as dificuldades das pessoas em geral e sobre a importância do conhecimento. E respeito pelas outras culturas. E línguas. E a oralidade.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Dia dos Povos Indígenas EUA - Indigenous Peoples Day


O Dia dos Povos Indígenas é um feriado oficial municipal e estadual em várias localidades dos Estados Unidos que celebra e homenageia os povos indígenas americanos e comemora suas histórias e culturas. É comemorado na segunda segunda-feira de outubro.
Saber mais aqui

My tribute to the enduring strength, cultural richness, and vibrant spirit of various Indigenous communities.

O impacto ambiental dos povos indígenas norte-americanos

Ao contrário do que se pensa, os povos indígenas da América do Norte não viveram em completa ausência de impacto ambiental — mas a forma como interagiram com o território foi notavelmente equilibrada e sustentável.

Muitas tribos, como os Cherokee, Apache, Yurok e Ojibwa, praticavam o “fogo cultural” — queimadas periódicas e deliberadas. Era uma técnica que renovava ecossistemas, promovia o crescimento de plantas úteis e evitava incêndios de grandes proporções. 

Povos como os Pueblo, Iroqueses e Mississipianos desenvolveram sistemas agrícolas sofisticados tais como  o cultivo integrado das “três irmãs” (milho, feijão e abóbora), que mantinha a fertilidade do solo. Usavam rotação de culturas, compostagem e controle da erosão.

A caça era cuidadosamente regulada, garantindo a reposição natural das espécies. Obras como terraços agrícolas e valas de irrigação mostram também um domínio técnico adaptado aos ciclos naturais - povos Cahokia e Hopewell)

Curiosamente, após o declínio populacional indígena causado pela colonização europeia, as florestas voltaram a expandir-se tanto que alguns estudos sugerem um pequeno efeito de arrefecimento global, conhecido como “Pequena Idade do Gelo”.

Os povos indígenas norte-americanos deixaram, assim, um legado profundo de gestão ecológica tradicional, cuja lógica de respeito e reciprocidade com a Terra continua a inspirar a conservação ambiental contemporânea.

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

The conservation world comes together on the eve of IUCN Congress 2025


As participants arrive in Abu Dhabi, UAE, for the IUCN World Conservation Congress 2025, protected and conserved areas actors gathered across the city.

Fifty-one delegates of the Biodiversity and Protected Area Management (BIOPAMA) programme assembled for a Knowledge Sharing Day, bringing a close to one of IUCN's largest and longest-running grant-making initiatives (approximately 55 million over 13 years). Grantees from Africa, the Caribbean and the Pacific reflected on the impact of their grants, ranging from supporting management effectiveness through the IMET and PAME tools, strengthening governance of protected areas, and to supporting grassroots organisations to stay afloat during the COVID-19 pandemic and build their financial capacity.

"For a long time, protected areas have ignored the rights and contributions of local communities. BIOPAMA has put the focus on governance to make conservation more equitable."
Samuel Shaba, Honeyguide Foundation Tanzania.

"Through BIOPAMA, it’s evident that good governance is the foundation of sustainable conservation. When decisions are transparent and communities are empowered, conservation becomes shared and a lasting success." 
Annick Zanga Ada, African Marine Conservation Organisation

The BIOPAMA initiative, funded by the European Union and the Organisation of African, Caribbean and Pacific States (OACPS) has supported +160 organisations across 79 countries since its inception in 2012. IUCN Congress will host almost 30 events in which BIOPAMA grantees will showcase their conservation work. Click here to learn about the events.

At the ADNEC Centre, the first ever in person ‘World Summit of Indigenous Peoples and Nature “Our Traditional Knowledge is the Language of Mother Earth”’ took place, a historic first for IUCN, led by Anita Tzec, Maya leader and Senior Programme Manager of IUCN. The event gathered IUCN Director General Dr. Grethel Aguilar; IUCN President Razan Al Mubarak; and Indigenous leader and IUCN Vice President, Ramiro Batzin Chojoj, alongside IUCN’s Indigenous Peoples Organisations members and partner representatives from across the globe. The opening spiritual ceremony was followed by high level segments that acknowledged the outsized role that Indigenous peoples and local communities play in conserving biodiversity through centuries of practices rooted in traditional knowledge, customary governance, cultural and spiritual values that tie Indigenous peoples to their ancestral territories.

“For Indigenous peoples, conservation is everything, it is about life, it is about mother earth, it a way of living for Indigenous peoples, so conservation must be about the rights, governance and knowledge of Indigenous peoples”. Ramiro Batzin Chojoj, IUCN Vice President.

The issues discussed at the Indigenous Peoples Summit shouldn’t remain aspirational but rather form strong action oriented plans that can drive change: “The first Indigenous Peoples Summit in the history of IUCN is not just symbolic, it is a promise to work closely with Indigenous peoples and local communities” said Razan Al Mubarak, “the priorities that are set here must carry forward into national plans and global frameworks”. The messages on the first day were clear, Indigenous peoples are rightsholders not just stakeholders, and are leaders not beneficiaries. It is up to us to build long term trusted partnerships to effect real change. The Indigenous Peoples Summit will be followed by the first Indigenous Peoples Pavilion and IUCN PCA Team will follow the key messages and recommendations closely.

Last but not least, the IUCN Protected and Conserved Areas team were hard at work across the ADNEC Exhibition space to prepare the the pavilions for the opening of the Exhibition tomorrow. See you at IUCN Congress 2025!

View the IUCN Protected and Conserved Areas team's 09 October events by clicking here

quinta-feira, 31 de julho de 2025

Kogi - Lições Espirituais de um Povo Indígena


Nas imponentes montanhas da Serra Nevada de Santa Marta, na Colômbia, vive o povo indígena Kogi, guardião de uma cultura ancestral com mais de 4.000 anos de história. Preservaram até aqui as suas tradições pré-colombianas, sendo uma das últimas sociedades da América Latina a resistir aos impactos da globalização.

Os Kogi emergem agora do isolamento para partilhar a sua sabedoria milenar com o mundo moderno. As suas mensagens oferecem reflexões poderosas sobre como enfrentar os desafios ecológicos, sociais e individuais do século XXI.

Acreditam que muitas das crises atuais decorrem da nossa visão de mundo desequilibrada e convidam-nos a adotar uma nova perspetiva.

Quem são os Kogi e o que podemos aprender com eles?
Os Kogi não são apenas um vestígio do passado, mas uma comunidade que vive uma relação profunda e espiritualmente ativa com o Planeta, e que observa de perto o impacto da sociedade moderna no meio ambiente. Chamam a Serra Nevada o “Coração do Mundo” e veem na destruição ambiental uma ameaça não apenas ao planeta, mas à essência da vida.

Lucas Buchholz, o autor deste livro, foi convidado pelos anciãos do povo Kogi a visitar as suas aldeias, a aprender sobre a sua visão de mundo e a escrever este livro. Nesta obra, Buchholz reúne ensinamentos únicos que revelam como os Kogi equilibram tradição e espiritualidade, a sua relação com a natureza e com o planeta.

Porque os ensinamentos dos Kogi são relevantes hoje?
Os Kogi partilham uma mensagem urgente: é a hora de repensar a nossa relação com o meio ambiente e connosco próprios. Propõem diversas questões transformadoras que nos ajudam a:
  1. Redescobrir a harmonia com a natureza e com o Planeta;
  2. Enfrentar desafios ecológicos e sociais de forma consciente;
  3. Reavaliar os nossos valores e ações quotidianas.
Este livro não sugere abandonarmos abruptamente o estilo de vida moderno, mas convida-nos a integrar práticas ancestrais para criar um futuro mais regenerativo e equilibrado.

“A sabedoria dos Kogi é uma fonte de inspiração para viver com propósito e equilíbrio”, afirma Buchholz. Em vários capítulos encontrará diálogos entre o autor e os anciãos Kogi. Se procura um livro que proponha soluções para enfrentar os desafios do mundo moderno e reconectar-se com os seus valores essenciais, este é de leitura indispensável.
Os ensinamentos dos Kogi são uma oportunidade rara de aceder a uma sabedoria ancestral que permanece relevante. Ao ler este livro, sentir-se-á transportado para o mundo dos Kogi em Serra Nevada, onde a simplicidade e a profundidade das suas palavras podem transformar sua forma de pensar e agir quotidianamente.

Descubra agora como essa cultura ancestral pode inspirar sua jornada para um estilo de vida mais regenerativo, consciente e conectado à essência da vida e do planeta.

quarta-feira, 9 de julho de 2025

Diferença entre ecologia integral e ecologia espiritual

E-Livro aqui

A ecologia integral e a ecologia espiritual são conceitos que se interligam, mas possuem focos distintos. Abaixo explico as principais diferenças:


🌱 Ecologia Integral

  • Origem e conceito: Popularizada pela encíclica Laudato Si’ (2015) do Papa Francisco.

  • Perspectiva: Holística, interdisciplinar.

  • Abrangência:

    • Integra as dimensões ambiental, social, econômica, cultural e espiritual.

    • Defende que tudo está interligado: ser humano, natureza, estruturas sociais e economia.

  • Foco principal: Justiça socioambiental. Mostra que os problemas ambientais estão conectados com as injustiças sociais e a degradação humana.

  • Exemplo de aplicação: Uma política de desenvolvimento sustentável que respeite tanto o meio ambiente quanto os direitos dos povos tradicionais.


🕊️ Ecologia Espiritual

  • Origem e conceito: Enraizada em tradições espirituais e filosóficas (cristãs, indígenas, orientais etc.).

  • Perspectiva: Contemplativa, ética, interior.

  • Abrangência:

    • Foca na relação interior do ser humano com a natureza, o cosmos e o sagrado.

    • Desenvolve uma consciência espiritual ecológica — sentimento de reverência, gratidão e interdependência com a vida.

  • Foco principal: Transformação interior e reconexão com o sagrado na natureza.

  • Exemplo de aplicação: Retiros ecológicos, práticas meditativas na natureza, espiritualidade ecológica indígena.


📌 Em resumo:

Aspecto Ecologia Integral Ecologia Espiritual
Ênfase Sistémica, ética social Interior, contemplativa
Origem Encíclica Laudato Si’ e pensamento holístico Tradições espirituais e religiosas
Objetivo Justiça ecológica e social Reconexão com o sagrado na natureza
Aplicação Políticas públicas, educação ambiental Retiros, meditação, espiritualidade ecológica

sexta-feira, 4 de julho de 2025

Para ler "A Magia do Sensível" de David Abram


David Abram é um ecologista e filósofo, os seus livros e conferências têm tido uma influência aprofundada no movimento da ecologia. Não é fácil encontrar os livros dele em português. Felizmente existe esta edição da Fundação Calouste Gulbenkian, do seu livro “A Magia do Sensível”.

“Juntamente com os outros animais, as pedras, as árvores e as nuvens, somos personagens dentro de uma imensa história que está a desdobrar-se visivelmente à nossa volta, participantes na vasta imaginação, ou sonho, do mundo.” ~ David Abram

Em "A Magia do Sensível - Percepção e Linguagem num mundo mais do que humano", David Abram convida os leitores a uma jornada profunda por nossas experiências sensoriais, reconectando-nos com o mundo natural que nos nutre. Premiado com o International Lannan Literary Award for Nonfiction, esta obra de filosofia ecológica desafia percepções convencionais ao explorar a relação profundamente enraizada que os seres humanos uma vez compartilharam com o meio ambiente. Tirando de uma rica tapeçaria de influências — que vão da filosofia de Merleau-Ponty ao xamanismo balinês — Abram examina como nossa compreensão da linguagem e da cognição está intrinsecamente ligada aos ritmos da natureza. Através de uma mistura de prosa lírica e exploração intelectual, ele nos instiga a uma reconexão com a terra viva, lembrando-nos da interdependência vibrante que foi negligenciada na vida moderna.

sábado, 21 de junho de 2025

Entrevista. Drauzio Varella em Lisboa: 30 anos de histórias reais da Amazónia no lançamento de “O Sentido das Águas”


A travessia entre mundos
Ao longe, uma figura alta e esguia atravessa a Rua da Escola Politécnica, no Príncipe Real, em Lisboa. Movimenta-se com uma elegância contida, passos seguros, gestos serenos. Dr. Drauzio Varella parece imune ao calor daquele fim de tarde, à azáfama urbana, ao próprio ruído do tempo. Comunicador reconhecido, já teve lugar no horário nobre do maior canal televisivo da América Latina, a TV Globo. Oncologista renomado, foi pioneiro no estudo da biotecnologia para o tratamento do cancro e da SIDA no Brasil. Octogenário irrequieto, começou a correr aos 50 anos e com 82 pretende participar da maratona de Berlim, em setembro. Escritor singular, com o best-seller Estação Carandiru, retratou um ambiente tão conhecido como temeroso, a Casa de Detenção de São Paulo. Como se não bastasse, viajante. Chegara à Lisboa há poucos dias vindo do Brasil.

Conhece bem a cidade. Aqui tem casa, refúgio, silêncio — o necessário para escrever, ler e pensar. Regressou pela tranquilidade que aqui encontra e para lançar o seu vigésimo livro, O Sentido das Águas – histórias do Rio Negro (edição Companhia das Letras), obra que condensa mais de 100 viagens ao coração da floresta Amazónica, entre Manaus e São Gabriel da Cachoeira.

Qualquer conversa com Drauzio — e ele prefere o tratamento informal, com uma simpatia desarmante — por si só, daria um livro. Pessoa que inspira respeito pela voz serena, conversa interessante, informativa e articulada. O seu percurso pessoal e profissional é o testemunho do que de maior um ser humano pode aspirar a ser. 

Mais do que um diário de campo, o livro de Drauzio é um conjunto tocante de retratos humanos — sem moralismos, sem adornos fáceis — com a intenção clara de ouvir o outro. Ambiciona transmitir um maravilhamento que o contato direto com a natureza em estado bruto consegue. Histórias colhidas entre os vapores dos rios e o silêncio das aldeias, entre os doentes esquecidos e os curandeiros, entre os ecos das lendas e os horrores da história. Drauzio aproxima-se como quem escuta, como quem aprende, com a delicadeza de quem sabe que não se pode contar a Amazónia tentando moldá-la aos esquemas europeus ou aos termos vazios como “luxuriante”. Como dizia Euclides da Cunha: “A Amazónia é um excesso de céu por cima de um excesso de águas”. Qualquer adjectivo forçado empalidece perante tamanha vastidão. Reconhecendo isso, Drauzio é claro quando diz que o livro traz histórias “da região do rio Negro”. 62, para ser precisa. Na literatura folclórica brasileira, o boto dor-de-rosa, curupira e boitatá são algumas das figuras que enriquecem o imaginário coletivo. Em O Sentido das Águas, Drauzio comunica diretamente com testemunhas destes mitos ao mesmo tempo que, como bom professor, ensina através da história, relata a inação do Estado com o património humano e ambiental onde crimes do tempo do Império ainda são perpetrados.

A ciência no interior da floresta: da Biotecnologia à Biofilia
Mas porquê, afinal, um oncologista internacionalmente reconhecido — pioneiro no uso de biotecnologia no tratamento do cancro e da SIDA — se embrenharia pelos afluentes escuros do Rio Negro? A investigação científica foi o estopim. Mas, talvez no seu profundo inconsciente, tão escondido como alguns recônditos da floresta que ocupa mais de 60% do território brasileiro, a resposta esteja numa palavra esquecida do vocabulário contemporâneo: biofilia. 

O termo, cunhado por Erich Fromm e popularizado por Edward Wilson, traduz o amor instintivo à vida, à natureza, àquilo que pulsa fora de nós, mas do qual dependemos inteiramente. Drauzio parece movido por essa pulsão ancestral — uma ânsia de reencontro com algo maior, mais essencial, que não cabe nos corredores de hospitais, bancos de universidade, cadeias ou à frente das câmaras. Daí hoje, a leitura de tal obra, escrita por esta personalidade é essencial.

A sua escrita, neste novo livro, ressoa com essa procura. Sem paternalismo, sem exotismo, ele retrata comunidades indígenas com a dignidade de quem sabe que a verdadeira grandeza está na resistência serena, na sabedoria transmitida pela oralidade, no modo como se vive — e morre — no interior da floresta. À semelhança dos naturalistas do século XVIII, como Alexandre Rodrigues Ferreira, Drauzio recolhe relatos, observa costumes, regista o que vê e sente. Ferreira, que recebera do Marquês de Pombal a missão de sondar as potenciais riquezas da Amazónia, falava do “rio de águas âmbar”. Curiosamente ou não, parte do seu espólio está no Museu de História Natural na mesma rua lisboeta onde encontrámos Drauzio. Ao contrário do mandatário do Marquês, as riquezas que Drauzio procurou no norte do Brasil tinham como objectivo serem estudadas não para enriquecer um império, mas para devolver a saúde de doentes cancerígenos, pessoas que vivem com o VIH, sem que para isso a vida dos povos que mantém a floresta viva fosse explorada. Na verdade, O Sentido das Águas oferece aquilo a que um grande contador de histórias pode aspirar: a humildade de um olhar profundamente humano.

Nascido no bairro fabril de imigrantes do Brás, na megalópole de São Paulo, desde muito jovem interessava-se por ouvir e contar histórias. Terreno fértil não lhe faltava: filho de pai galego e mãe brasileira, foi sobretudo criado pelos avós portugueses: ela do Porto e ele de Trás-os-Montes. Portugal sempre esteve à mesa através do bacalhau servido em casa duas vezes por semana. O menino que adorava jogar à bola na rua encantou-se cedo pela leitura que os “gibis” de Jerônimo, o herói do sertão e O Anjo, pela maneira como este mundo o absorvia e o transportava para outros. “A leitura é uma atividade que trabalha com todos os processos cognitivos.” É certo que estas influências foram formadoras para o futuro Dr. Drauzio Varella, como também o é a tenacidade do seu espírito em manter a curiosidade de menino como um guia para a vida. 

Em conversa exclusiva para a Comunidade Cultura e Arte, Antônio Drauzio Varella, partilhou a génese do projeto, marcada por uma inquietação que começou muito longe da floresta.

A luz que a ignorância acendeu
Entre as décadas de 1980 e 1990, a medicina passava pela pesquisa de tratamento do cancro através da biotecnologia, ao mesmo tempo que um novo vírus era descoberto: o da imunodeficiência adquirida, a SIDA. Nesta altura, entre a prática clínica, pesquisa e docência, Drauzio Varella envolveu-se com os seus pares da Cleveland Clinic, como seu amigo Rolando Bukowski, em pesquisas que estavam a transformar a medicina. Mas o Brasil ainda gatinhava no debate científico. Bukowski alertou para que se não se conseguisse mostrar a utilidade da floresta “como é que ela seria mantida? Fiquei com essa frase na cabeça. Voltei para São Paulo, falei com o João Carlos, dono da UNIP (Universidade Paulista) que tinha o barco Escola da Natureza e sugeri montarmos um projeto de screening.” Naquela época, não havia ninguém no Brasil capacitado para a tarefa. Drauzio imaginou um curso de biotecnologia com nomes de peso da ciência mundial. O plano parecia ambicioso demais, mas a bordo do barco que estava ancorado no Rio Negro, em plena floresta, Robert Gallo — co-descobridor do vírus da SIDA — lhe lançou a pergunta que transformaria tudo: “Quem está a estudar esta diversidade? Quem está a fazer rastreio farmacológico aqui?” A pergunta ficou. E — novamente — transformou-se em acção.

“A rotina consiste em selecionar uma planta, uma árvore de qualquer altura, colher as cascas, as folhas, se tiver flores, frutos; uma amostra é preparada para ir para um herbário; esta parte é moída, dissolvida em água, álcool e, a seguir, liofilizada. Temos 2.500 desses extratos em stock a menos 20 graus, uma extratoteca importante, a maior dessa região do Brasil. Por fim são feitos testes experimentais com esses extratos para saber se é possível combater células tumorais ou bactérias resistentes. Este é o projeto.”, sublinha-nos Drauzio Varella. 

Mas foi a floresta, e não apenas a ciência, que conquistou Drauzio. “Fui-me apaixonando cada vez mais por aquele lugar”, confessa. E assim ano após ano, deixou-se envolver por aquele espaço onde a natureza e a cultura coexistem num equilíbrio ancestral, que escapa às lógicas da acumulação. “Os indígenas vivem nesta região há cerca de 14 mil anos. A floresta é uma construção social destes povos que a mantêm de pé”, refere.

É esse olhar — simultaneamente clínico e afectivo — que se traduz no livro agora publicado. Drauzio escreve como quem viveu, como quem viu de perto os ciclos da mandioca e os rituais dos pajés, os silêncios dos rios e os gritos das injustiças. Relata, por exemplo, o caso do nativo que caça uma paca para sustentar a família e vê o animal confiscado por um fiscal que, sem pudor, acaba por assá-la num churrasco. Ou o episódio em que dois soldados da etnia Hupda são forçados a dormir no chão por colegas Tukano, num quartel onde o preconceito indígena é exposto em toda a sua crueldade.

«O coronel mandou chamar os quatro soldados indígenas que dividiram o alojamento.
— Vou falar uma vez só. No Exército servem brancos, negros, indígenas, filho de japonês, de chinês, de árabe, de judeu. Aqui não admitimos preconceito racial de jeito nenhum, muito menos racismo étnico.» (O Sentido das Águas, p. 163)